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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e no mais lutando por dinheiro e poder, ento nossa sociedade poder enfim evoluir a um novo nvel."

Moderna Gramtica Portuguesa
Evanildo Bechara

Folha de Rosto

Evanildo Bechara

 Professor Titular e Emrito da
 Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)
 e da Universidade Federal Fluminense (UFF)

Membro da Academia Brasileira de Letras
 e da Academia Brasileira de Filologia

Representante brasileiro do
 novo Acordo Ortogrfico

MODERNA GRAMTICA
 PORTUGUESA

37. Edio
 Revista, ampliada e atualizada
 conforme o novo Acordo Ortogrfico

Rio de Janeiro, 2009

Crditos

Copyright  2006 by Evanildo Bechara

Direitos de edio da obra em lngua portuguesa no Brasil adquiridos pela Editora Nova Fronteira Participaes S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra 
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Converso para ebook

Singular Digital | Mariana Mello e Souza

CIP-Brasil. Catalogao na fonte.
 Sindicato Nacional dos Editores de Livro, RJ

B354m     Bechara, Evanildo, 1928-

Moderna gramtica portuguesa / Evanildo Bechara.  37. ed. rev., ampl. e atual. conforme o novo Acordo Ortogrfico.  Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 2009.

ISBN 978-85-209-3049-6

1. Lngua portuguesa  Gramtica. I. Ttulo.

CDD 469.5

CDU 811.134.336

Dedicatria

 memria de

M. Said Ali,

mestre e amigo

Aos mestres e amigos

Eugenio Coseriu

Jos G. Herculano de Carvalho
 J. Mattoso Cmara Jr.

a cujas lies fui colher o que de

melhor existe nesta nova verso

Prefcio da 37. edio

Prefcio da 37. edio

Entregamos aos colegas de magistrio, aos alunos e ao pblico estudioso de lngua portuguesa esta edio, revista, ampliada e atualizada, levado que estamos pelos mesmos propsitos 
que nos fizeram, em 1961, trazer  luz a Moderna Gramtica Portuguesa.

Amadurecido pela leitura atenta dos tericos da linguagem, da produo acadmica universitria, das crticas e sugestes gentilmente formuladas por companheiros da mesma seara 
e da leitura demorada de nossos melhores escritores, ver facilmente o leitor que se trata aqui de um novo livro.

Dificilmente haver seo da Moderna Gramtica Portuguesa que no tenha passado por uma consciente atualizao e enriquecimento: atualizao no plano terico da descrio 
do idioma, e enriquecimento por trazer  discusso e  orientao normativa a maior soma possvel de fatos gramaticais levantados pelos melhores estudiosos da lngua portuguesa, 
dentro e fora do pas, entre os quais cabe meno honrosa a Mrio Barreto e Epifnio Dias.

 de toda justia  e por isso esta edio  a eles dedicada  lembrar aqui, em primeiro lugar, nosso inesquecvel mestre e amigo M. Said Ali, e, no menos presentes, este 
terico profundo e admirvel que  Eugenio Coseriu, ao lado de seu ilustre colega de reflexo lingustica, que  J. G. Herculano de Carvalho, e do nosso primeiro linguista 
J. Mattoso Cmara Jr., guia seguro desde o lanamento inicial da Moderna Gramtica Portuguesa.

O arcabouo terico desta obra poderia bem orientar-se por outros modelos vlidos, seguidos pelos nossos melhores linguistas em atuao nos centros universitrios brasileiros. 
A orientao aqui adotada resulta da nossa convico de que ela tambm pode oferecer elementos de efetiva operacionalizao para uma proposta de reformulao da teoria gramatical 
entre ns, especialmente quando aplicada a uma obra da natureza desta Moderna Gramtica Portuguesa, que alia a preocupao de uma cientfica descrio sincrnica a uma viso 
sadia da gramtica normativa, libertada do rano do antigo magister dixit e sem baralhar os objetivos das duas disciplinas.

Acreditamos que, neste sentido, os colegas de magistrio e pesquisa encontraro teis sugestes ou temas de reflexo para uma proposta de melhoria da vigente nomenclatura 
gramatical em nossos compndios escolares.

Estivemos tambm atentos  produo de textos gramaticais destinados a outras lnguas, especialmente s romnicas, e a vale ressaltar o contributo dos espanhis, dos franceses 
e dos italianos. Desejamos sintetizar nossa homenagem a esses colegas na figura excelsa de Emlio Alarcos Llorach, recentemente falecido.

Temos conscincia de que ainda h muito que acrescentar e rever, e para tanto convocamos a ajuda dos colegas que neste sentido desejarem pronunciar-se.

Dar-nos-emos por bem pago se o leitor benvolo continuar encontrando nestas pginas os fundamentos que alicercem seu interesse e conhecimento reflexivo da lngua portuguesa, 
trao que  da nacionalidade e elo fraterno da lusofonia.

Rio de Janeiro, 11 de maro de 1999

Evanildo Bechara

Prefcio da 1. edio (1961)

Prefcio da 1. edio (1961)

Ao escrever esta Moderna Gramtica Portuguesa, foi nosso intuito levar ao magistrio brasileiro, num compndio escolar escrito em estilo simples, o resultado dos progressos 
que os modernos estudos de linguagem alcanaram no estrangeiro e em nosso pas. No se rompe de vez com uma tradio secular: isto explica por que esta Moderna Gramtica traz 
uma disposio da matria mais ou menos conforme o modelo clssico. A nossa preocupao no residiu a, mas na doutrina. Encontraro os colegas de magistrio, os alunos e 
quantos se interessam pelo ensino e aprendizado do idioma um tratamento novo para muitos assuntos importantes que no poderiam continuar a ser encarados pelos prismas por 
que a tradio os apresentava. Com a humildade necessria a tais empresas, sabemos que as pessoas competentes podero facilmente verificar que fizemos uma reviso em quase 
todos os assuntos de que se compe este livro, e muitos dos quais encontraram aqui um desenvolvimento ainda no conhecido em trabalho congnere. Por outro lado, a esta altura 
do progresso que a matria tem tido, no poderamos escrever esta Moderna Gramtica sem umas noes, ainda que breves, sobre fonmica e estilstica. Isto nos permitiu, na 
ltima, tratar da anlise literria, que entre ns passa s vezes confundida com anlise estilstica; ressaltamos os objetivos desta e convidamos os nossos colegas de disciplina 
a que dela se sirvam num dos escopos supremos de sua misso: educar o sentimento esttico do aluno. Na parte relativa  estruturao dos vocbulos e sua formao, pretendemos 
trazer para a gramtica portuguesa os excelentes estudos que a lingustica americana tem feito sobre to importante captulo. Seguimos a Nomenclatura Gramatical Brasileira. 
Os termos que aqui se encontrarem e l faltam no se explicaro por discordncia ou desrespeito;  que a NGB no tratou de todos os assuntos aqui ventilados.

A orientao cientfica por que se norteia esta nossa Moderna Gramtica no seria possvel sem a lio dos mestres (seria ocioso cit-los) que, dentro e fora do Brasil, tanto 
tm feito pelo desenvolvimento da disciplina. Devemos-lhe o que de melhor os leitores encontrarem neste livro, e a eles, em cada citao, prestamos sincera homenagem. Elegemos, 
entre eles, um dos mais ilustres para dedicar-lhe o nosso trabalho de hoje, aquele que para ns  to caro pelo muito que contribuiu para nossa formao lingustica: M. Said 
Ali. No ano em que seus discpulos e admiradores comemoram o 1. centenrio de seu nascimento, no poderamos deixar de levar ao mestre e amigo o testemunho de nossa profunda 
amizade e gratido.

Evanildo Bechara

Introduo

Introduo

Breve histria externa
 da lngua portuguesa

As armas e padres portugueses postos em frica e em sia e em tantas mil ilhas fora da repartiam das trs partes da terra, materiaes sam, e pode-as o tempo gastar: per 
n gastar doutrina, costumes, linguagem, que os portugueses nestas terras leixarem.

(Joo de Barros, Dilogo em Louvor da Nossa Linguagem)

A lngua portuguesa  a continuao ininterrupta, no tempo e no espao, do latim levado  Pennsula Ibrica pela expanso do imprio romano, no incio do sc. III a.C., particularmente 
no processo de romanizao dos povos do oeste e noroeste (lusitanos e galaicos), processo que encontrou tenaz resistncia dos habitantes originrios dessas regies.

Depois do processo de romanizao, sofreu a Pennsula a invaso dos brbaros germnicos, em diversos momentos e com diversidade de influncias, que muito contriburam para 
a fragmentao lingustica da Hispnia: em 409 foi a vez dos alanos, vndalos e suevos; em 416, dos visigodos. Deste contacto encontramos como resultado a visvel influncia 
germnica, especialmente dos visigodos, no lxico e na onomstica.

No sculo VIII, em 711, voltou a Pennsula a ser invadida pelos rabes, consumando a srie de fatores externos que viriam a explicar a diferenciao lingustica do portugus 
no mosaico dialetal que hoje conhecemos; apesar do largo contributo na cultura e na lngua  especialmente no lxico , a permanncia muulmana no teve fora suficiente para 
apagar as indelveis marcas de romanidade das lnguas peninsulares.

O longo movimento de Reconquista anti-islmico, comeado j em 718, prolongou-se por sculos. J no sculo X este processo tinha favorecido o nascimento de ncleos cristos 
na parte norte e noroeste da Pennsula, lanando os fundamentos de uma diviso lingustica bem prxima da diviso administrativa: 1 Condado da Galiza (galego-portugus); 
2 Reino de Leo e das Astrias (sturo-leons); 3 Condado de Castela (castelhano); 4 Reino de Navarra (basco e navarro-aragons); 5 Reino de Arago e Condado de Barcelos 
(catalo).

Em 1095, Afonso VI concede autonomia  Provncia Portucalense, e, em 1139, Afonso Henriques se proclama o primeiro rei de Portugal.

Foi este falar comum  Galiza e ao territrio portucalense que o processo de Reconquista propagou em direo ao sul, sobrepondo-se aos dialetos morabes a correntes. J 
com a ajuda de cruzados ingleses, alemes, franceses e flamengos, e sob a bandeira portuguesa prossegue a reconquista de novas cidades do sul, tomadas aos muulmanos: Santarm, 
em maro de 1147 e Lisboa, em outubro do mesmo ano. At o sc. XV, segundo Orlando Ribeiro, o Minho ainda no constitua limite lingustico entre o galego e o portugus.

O portugus, na sua feio originria galega, surgir entre os sculos IX-XII, mas seus primeiros documentos datados s aparecero no sculo XIII: o Testamento de Afonso II 
e a Notcia de torto. Curiosamente, a denominao lngua portuguesa para substituir os antigos ttulos romance (romano), linguagem, s passa a correr durante os escritores 
da Casa de Avis, com D. Joo I. Foi D. Dinis que oficializou o portugus como lngua veicular dos documentos administrativos, substituindo o latim.

Entre os sculos XV e XVI, Portugal ocupa lugar de relevo no ciclo das grandes navegaes, e a lngua, companheira do imprio, se espraia pelas regies incgnitas, indo 
at o fim do mundo, e, na voz do Poeta, se mais mundo houvera l chegara (Os Lusadas, VII, 14).

Depois da expanso interna que, literria e culturalmente, exerce ao unificadora na diversidade dos falares regionais, mas que no elimina de todo essas diferenas refletidas 
nos dialetos, o portugus se arroja, na palavra de indmitos marinheiros, pelos mares nunca dantes navegados, a fim de ser o porta-voz da f e do imprio. So passos dessa 
gigantesca expanso colonial e religiosa, cujos efeitos, alm da abertura dos mares, especialmente o Atlntico e o ndico, foram, segundo afirmao de Humboldt, uma duplicao 
do globo terrestre.

1415  expedio a Ceuta sob o comando do prprio Rei

1425-1439  Madeira e Aores

1444  Cabo Verde, com incio de povoamento em 1462

1446  Guin

1483-1486  Angola (primeiros contatos) e colonizao de S. Tom e Prncipe

1498  Vasco da Gama chega  ndia e passa por Moambique

1500  Brasil

1511  Malaca e Malucas

1512  Saio e Bornu

1515  Ormuz

1518  Colombo

1536  Damo

1547  Macau

alm das ilhas de Samatra, Java e Timor.

Tomado o sc. XIII como incio da fase a que Leite de Vasconcelos chamou portugus histrico, isto , documentado historicamente, podemos dividi-lo em perodos lingusticos, 
cujas delimitaes no conseguem, entre os estudiosos, concordncia unnime. A dificuldade de consenso advm de vrios fatores: o terem as propostas fundamento em textos escritos 
que, como sabemos, mascaram a realidade e as mudanas lingusticas; o no terem os fenmenos sua data de nascimento e morte; e, finalmente, constitui elemento perturbador 
nesta ordem de estudos a influncia de fatores esttico-literrios que, conforme sua orientao conservadora ou progressista, atrasa ou acelera determinadas tendncias lingusticas. 
Foi o que aconteceu com o chamado latim literrio sob a influncia grega; com o portugus europeu sob o influxo do Humanismo e Renascimento, e com o portugus do Brasil, sob 
a ao iconoclasta inicial do Modernismo.

Adotaremos aqui a seguinte proposta, incluindo na primeira fase a realidade galego-portuguesa:

a) portugus arcaico: sc. XIII ao final do XIV

b) portugus arcaico mdio: 1. metade do sc. XV  1. metade do sc. XVI

c) portugus moderno: 2. metade do sc. XVI ao final do XVII (podendo-se estender aos incios do sc. XVIII)

d) portugus contemporneo: sc. XVIII aos nossos dias

Ao primeiro perodo pertencem, alm dos textos administrativos de leis, forais e ordenaes, a poesia palaciana encerrada nos Cancioneiros medievais (Ajuda, Vaticana e Biblioteca 
Nacional, antigo Colocci Brancuti), as Cantigas de Santa Maria, algumas vidas de santos (Barlao e Josaf, S. Aleixo, etc., tradues, em geral, de textos latinos, que chegaram 
at ns, quase sempre, em cpias mais modernas), o Livro das Aves, o Fabulrio de Esopo, a Demanda do Santo Graal, Corte Imperial, entre muitas.

Ao segundo perodo pertencem o Livro da Montaria, de D. Joo I, Leal Conselheiro e Livro da Ensinana de Bem Cavalgar toda Sela de D. Duarte, as crnicas de Ferno Lopes (D. 
Joo I, D. Pedro, D. Fernando), de Zurara (Crnica dos Feitos da Guin, Crnica da Tomada de Ceuta), a Crnica dos Frades Menores, as crnicas de Rui Pina, entre muitas outras 
obras.

Ao terceiro perodo pertencem as obras histricas de Joo de Barros, Diogo do Couto, Ferno Lopes de Castanheda, Damio de Gis, Gaspar Correia, o Palmeirim de Inglaterra 
de Francisco de Morais, a Etipia Oriental de Frei Joo dos Santos, a obra literria de S de Miranda e o teatro clssico de Antnio Ferreira, a prosa mstica da Imagem da 
Vida Crist de Heitor Pinto, os Dilogos de Amador Arrais, os Trabalhos de Jesus de Tom de Jesus e a Consolao s Tribulaes de Israel, de Samuel Usque, a Peregrinao 
de Ferno Mendes Pinto, Pero Magalhes de Gandavo, mas a todos excede Lus de Cames que, no sendo propriamente o criador do portugus moderno (...), libertou-o de alguns 
arcasmos e foi um artista consumado e sem rival em burilar a frase portuguesa, descobrindo e aproveitando todos os recursos de que dispunha o idioma para representar as ideias 
de modo elegante, enrgico e expressivo. Reconhecida a superioridade da linguagem camoniana, a sua influncia fez-se sentir na literatura de ento em diante at os nossos 
dias [SA.2, 4].

Com muita razo, concede Said Ali, do ponto de vista lingustico, um lugar  parte na literatura quinhentista s comdias, autos e farsas do chamado teatro de medida velha 
que tem em Gil Vicente seu principal representante, produes de grande importncia para o conhecimento da variedade coloquial e popular da poca. Pertencem a este gnero 
especial os Autos de Antnio Prestes, de Chiado, de Jernimo Ribeiro, a Eufrosina e Ulissipo de Jorge Ferreira de Vasconcelos, sobrelevando-se a todos eles as obras deste 
genial pintor da sociedade e dos costumes do sc. XVI em Portugal, que foi Gil Vicente.

No sc. XVII assistimos ao aperfeioamento da prosa artstica com Frei Lus de Sousa, cuja linguagem representa uma fase de transio entre os dois momentos do portugus moderno. 
 o perodo em que ressaltam os Sermes do Padre Antnio Vieira, os Aplogos Dialogais de Francisco Manuel de Melo, a prosa religiosa do Padre Manuel Bernardes, os quadros 
buclicos de Corte na Aldeia de Rodrigues Lobo, alm dos representantes da historiografia de Alcobaa.

Fig. 1  O Mundo da Lusofonia

O sculo XVIII no  s o sculo das academias literrias, mas de todo um esforo na renovao da cultura e da instruo pblica, sob o influxo dos ideais do neoclassicismo 
francs, que culminou na reforma pombalina da Universidade, em 1772. Assiste-se a um reflorescimento da poesia com Pedro Antnio Correia Garo, Antnio Dinis da Cruz e Silva, 
Filinto Elsio, Toms Antnio Gonzaga e os poetas rcades brasileiros, e Barbosa du Bocage.

Do ponto de vista lingustico, o portugus contemporneo, fixado no decorrer do sc. XVIII, chega ao sculo seguinte sob o influxo de novas ideias estticas, mas sem sofrer 
mudanas no sistema gramatical que lhe garantam, neste sentido, nova feio e nova fase histrica.

Os escritores dos sculos XIX e XX de todos os quadrantes da Lusofonia souberam garantir este patrimnio lingustico herdado de tanta tradio literria.

Em Portugal, no Brasil, em Angola, Cabo Verde, Guin-Bissau, Moambique, So Tom e Prncipe, a lngua portuguesa, patrimnio cultural de todas estas naes, tem sido, e esperamos 
seja por muito tempo, expresso da sensibilidade e da razo, do sonho e das grandes realizaes.

Patrimnio de todos e elo fraterno da Lusofonia de cerca de 200 milhes de falantes espalhados por todos os continentes, continuemos a formular os votos de Antnio Ferreira, 
no sc. XVI:

Floresa, fale, cante, oua-se e viva
 A portuguesa lngua, e j onde for,
 Senhora v de si, soberba e altiva!

Teoria Gramatical

A) Linguagem: suas dimenses universais

dizer as coisas como so

                           Plato

1  Linguagem

Entende-se por linguagem qualquer sistema de signos simblicos empregados na intercomunicao social para expressar e comunicar ideias e sentimentos, isto , contedos da 
conscincia.

A linguagem se realiza historicamente mediante sistemas de isoglossas comprovados numa comunidade de falantes, conhecidos com o nome de lnguas, como veremos adiante.

Tal conceituao envolve as noes preliminares do que seja sistema, signo, smbolo e intercomunicao social.

Sistema  todo conjunto de unidades, concretas ou abstratas, reais ou imaginrias, que se encontram organizadas e que se ordenam para a realizao de certa ou de certas finalidades 
[HCv.1, 264].

Entende-se por signo ou sinal a unidade, concreta ou abstrata, real ou imaginria, que, uma vez conhecida, leva ao conhecimento de algo diferente dele mesmo: as nuvens negras 
e densas no cu manifestam ou so o sinal de chuva iminente; o -s final em livros  o signo ou sinal de pluralizador, assim como em cantas  o signo de 2. pessoa do singular. 
Por isso mesmo se diz que tais unidades so simblicas, j que se entende em geral por smbolo aquilo que, por conveno, manifesta ou leva ao conhecimento de outra coisa, 
a qual substitui. Assim, o cordeiro  o smbolo da mansido; o macaco, da astcia. No que toca estritamente  linguagem humana, pois s ela  a linguagem objeto da Lingustica, 
os signos lingusticos diferem dos smbolos porque estes no constituem necessariamente sistema e podem sozinhos e sem nenhuma oposio simbolizar. A oposio  um princpio 
fundamental para a determinao da existncia dos signos lingusticos, como veremos adiante.

Por fim, intercomunicao social, porque a linguagem  sempre um estar no mundo com os outros, no como um indivduo particular, mas como parte do todo social, de uma comunidade.

2  Dimenses Universais da Linguagem

A linguagem, entendida como atividade humana de falar, apresenta cinco dimenses universais: criatividade (ou enrgeia), materialidade, semanticidade, alteridade e historicidade.

Criatividade, porque a linguagem, forma de cultura que , se manifesta como atividade livre e criadora, ou do esprito, isto , como algo que vai mais alm do aprendido, 
que no simplesmente repete o que j foi produzido.

Materialidade, porque a linguagem , primeiramente, uma atividade condicionada fisiolgica e psiquicamente, pois implica, em relao ao falante, a capacidade de utilizar os 
rgos de fonao, produzindo signos fonticos articulados (fonemas, grafemas, quando representados na escrita, etc.) com que estabelece diferenas de significado (por exemplo, 
Pala, Vala, Mala, Tala, Rala, etc.); enquanto em relao ao ouvinte, implica a capacidade de perceber tais fonemas e interpretar o percebido como referncia ao contedo configurado 
pelo falante mediante os signos fonticos articulados.  o nvel biolgico da linguagem.

Semanticidade, porque a cada forma corresponde um contedo significativo, j que na linguagem tudo significa, tudo  semntico.

Alteridade, porque o significar  originariamente e sempre um ser com outros, prprio da natureza poltico-social do homem, de indivduos que so homens juntos a outros 
e, por exemplo, como falantes e ouvintes, so sempre cofalantes e coouvintes.

Historicidade, porque a linguagem se apresenta sempre sob a forma de lngua, isto , de tradio lingustica de uma comunidade histrica. No existe lngua desacompanhada 
de sua referncia histrica: s h lngua portuguesa, lngua francesa, lngua inglesa, lngua espanhola, lngua latina, etc.

Geralmente se ouve que a lngua  imposta ao homem, porque este  obrigado a dizer que determinado objeto conhecido por sua comunidade como livro  livro, e no lpis ou mesa. 
Tal fato no constitui uma limitao ou negao da liberdade do falante;  sim a dimenso histrica da linguagem, que coincide com a prpria historicidade do homem. Trata-se 
de uma obrigao aceita livremente, e no de uma imposio. Este  o significado original da palavra latina obligatio [ECs.8, 216]. A lngua no  imposta ao homem; este 
dispe dela para manifestar sua liberdade expressiva. As atividades livres implicam um prprio dever ser, isto , uma srie de normas intrnsecas.

Destas cinco dimenses, a criatividade e a materialidade so universais de todas as formas da cultura, pois so todas atividades criadoras que se realizam no mundo de forma 
material, sem o que no poderiam existir nem passar ao conhecimento dos outros membros da comunidade. A semanticidade  a differentia specifica da linguagem em relao s 
outras formas de cultura. A alteridade  o trao distintivo do significar lingustico em relao aos outros tipos de contedo das formas de expresso e , por sua vez, fundamento 
da historicidade da linguagem [ECs.8, 15-16].

Por fim, h de se levar em conta, na capacidade geral de expresso, a execuo de atividades que acompanham e s vezes at a substituem, j que no falamos s com as unidades 
lingusticas, com a lngua concreta. Estas so formas de expresso extralingusticas, tais como a mmica, a entonao, o ritmo, as pausas e silncios, os gestos, os recursos 
grficos e outros. O emprego da maiscula serve para estabelecer antteses entre o verdadeiro e bom e o menos bom e verdadeiro, quando dizemos:

Ele  um Professor com P maisculo, ou a referncia  forma grfica distingue homnimos, como em:

Chegamos na hora h.

H momentos em que expresses s so inteligveis se acompanhadas de determinado gesto:

Um anjo, meu pateta, um anjo sem asas. Imagina uma moa assim, desta altura, viva como um azougue, e uns olhos... [MA.1, 92].

 mmica corporal junte-se a vocal, a entoao especial com que se proferem certas palavras ou frases inteiras, que o escritor procura reavivar na escrita com a utilizao 
de variados recursos grficos:

No vou daqui sem uma resposta definitiva, disse meu pai. De-fi-ni-ti-va! repetiu, batendo as slabas com o dedo [MA.1, 88].

Os dois garotos, porm, esperneiam com a mudana de me:  Mentira!... Mentiiiira!... Mentiiiiiiiiiiira!  berra cada um para seu lado [HC.1, 32].

3  Atos Lingusticos

A linguagem humana articulada se realiza de maneira concreta por meio de formas especficas chamadas atos lingusticos, que se organizam em sistemas de isoglossas (isos = 
igual; glossa = lngua) denominados tradicionalmente lnguas. Embora o ato lingustico, por sua natureza, seja individual, est vinculado indissoluvelmente a outro indivduo 
pela natureza finalstica da linguagem, que  sempre um falar com os outros, consoante a dimenso alteridade, a que aludimos anteriormente.

S de modo ideal se pensa em linguagem como um s sistema de signos; na realidade, h na linguagem diversos sistemas de signos  isto , de lnguas , diversidade que varia 
entre pases, entre comunidades sociais ou outros grupos de falantes.

A realidade concreta da linguagem, como dissemos,  o ato lingustico, quer dizer,  cada unidade de comunicao da linguagem humana, seja uma palavra ou uma frase. Os atos 
lingusticos no se realizam idnticos de falante para falante de uma mesma comunidade lingustica, e at num s falante, em circunstncias diferentes. Essa diversidade no 
se d somente na forma material do ato lingustico, isto , na sua expresso, mas tambm no seu significado, isto , no seu contedo.

Para que se proceda a uma anlise coerente e uniforme da linguagem humana, tem-se de considerar idealmente que os atos lingusticos so mais ou menos idnticos na expresso 
(forma material) e no contedo (significado), e  isto que realmente ocorre, porque, se no houvesse essa aparente identidade, no seria possvel a comunicao entre os indivduos, 
j que a comunicao  a finalidade fundamental da linguagem.

O conjunto sistmico de atos lingusticos comuns considerados idnticos realizados numa comunidade lingustica e por ela comprovada na conscincia de seus falantes (ele fala 
como eu, o portugus dele  diferente do nosso) se acha delimitado por uma linha ideal, imaginria, isoglossa, de modo que se pode definir lngua: um sistema de isoglossas 
comprovado numa comunidade lingustica.

Esse sistema de isoglossas pode ser extensssimo que abarque uma lngua histrica de todos os falantes de uma larga comunidade, considerada no seu conjunto geogrfico, social 
e individual (lngua portuguesa, lngua espanhola, lngua francesa, lngua latina, etc.); pode ser menos extensa, principalmente quando a lngua histrica  falada por mais 
de um pas (lngua portuguesa da modalidade europeia  portugus de Portugal / lngua portuguesa da modalidade americana  portugus do Brasil bem como lngua portuguesa 
da frica; lngua inglesa da Inglaterra / lngua inglesa dos Estados Unidos; francs da Frana / francs da Blgica / francs do Canad); pode ser ainda menos extensa do ponto 
de vista espacial (portugus do Rio de Janeiro / portugus de Lisboa; francs de Paris; alemo da Baviera); pode ser ainda menos extensa espacial, social e estilisticamente 
(portugus fluminense rural / portugus paulista familiar / portugus literrio do Romantismo brasileiro); pode abarcar um s falante (portugus de Machado de Assis / portugus 
de Ea de Queirs; portugus de um analfabeto).

Assim, o conceito de lngua, considerada como um sistema de isoglossas, varia de acordo com o entendimento mais largo ou mais estreito que se atribui  extenso do conjunto 
de atos lingusticos comuns.

B) Planos e nveis da linguagem como atividade cultural

1  Planos e Nveis da Linguagem

A linguagem, como atividade humana universal do falar, que se realiza individualmente, mas sempre de acordo com tradies de comunidades histricas, pode diferenciar-se em 
trs planos relativamente autnomos:

a) Universal ou do falar em geral, j que se apresenta como prtica universalizada no determinada historicamente, isto , todos os homens adultos e normais falam.  a referncia 
ao plano do falar em geral, e a ele se alude, quando se diz que esta criana ainda no fala (note-se que no se quer dizer que ela ainda no fala portugus ou espanhol, por 
exemplo). Alude-se ainda a este plano quando se declara que os animais no falam. Aqui, como no exemplo anterior, no se refere a uma lngua concreta, mas  capacidade de 
falar. O plano universal alude quilo que faz parte de todo falar, no importa em que lngua.

b) Histrico ou da lngua concreta, j que, ao falar, o homem o faz mediante uma lngua determinada: falar portugus, falar espanhol, etc. Como j se disse, no h lngua 
sem adjetivo; s h lngua portuguesa, lngua espanhola, etc., onde o adjetivo ptrio aponta para uma tradio histrica determinada. At as lnguas inventadas, como o esperanto, 
se constroem e representam uma nova tradio do falar. Este  o plano de uma lngua concreta determinada. O falante tem conscincia desse saber ao afirmar, por exemplo, que 
algum no fala bem o portugus.

c) Individual, j que  sempre um indivduo que fala mediante uma lngua determinada, e o faz, cada vez segundo uma circunstncia determinada. A atividade de falar um indivduo 
segundo a convenincia de uma circunstncia determinada chama-se discurso. No confundir discurso, nessa aplicao  atividade, com texto, que ser entendido como produto 
dessa atividade, produto do discurso. O discurso  assim o texto como seu produto  est determinado por quatro fatores: o falante, o destinatrio, o objeto ou tema de que 
se fala e a situao.

Como toda atividade cultural, a atividade real de falar pode ser considerada sob trs pontos de vista diferentes [ECs.8, 88]:

a) Como a prpria atividade, como falar e entender, isto , como atividade criadora que se serve de um saber j presente para dizer algo novo e com capacidade de criar um 
saber lingustico.  este o sentido prprio de enrgeia. Uma lngua  forma e potncia de uma enrgeia.

b) Como o saber que est subjacente  atividade, isto , como a competncia ou como o que Aristteles chamava dnamis.

c) Como o produto criado pela atividade do falar individual, isto , como obra ou rgon: o texto.

Como toda atividade, o falar  uma atividade que revela um saber; assim a estes trs nveis correspondem trs planos ou tipos de saber lingustico:

a) Ao falar em geral mediante cada lngua corresponde o saber elocutivo, ou competncia lingustica geral, que no  saber falar uma lngua particular, mas, ao falar com qualquer 
lngua, faz-lo segundo os princpios da congruncia em relao aos padres universais do pensamento e ao conhecimento geral que o homem tem do mundo, do mundo emprico. 
Na discutida frase A mesa quadrada  redonda, no h propriamente desconhecimento de lngua, e sim de formulao do pensamento por desconhecer a realidade do mundo emprico, 
uma vez que ser quadrado  diferente de ser redondo.

b) Ao falar (em) uma lngua particular corresponde o saber histrico denominado saber idiomtico, ou competncia lingustica particular, que  falar (em) uma lngua determinada 
de acordo com a tradio lingustica historicamente determinada de uma comunidade.

c) Ao falar individual e relacionado com a maneira de elaborar textos segundo situaes determinadas corresponde o chamado saber expressivo ou competncia textual;  um saber 
tcnico (gr. tchne), isto , um saber que se manifesta no prprio fazer, um saber fazer gramatical que se manifesta numa lngua particular e que pode ir alm do j criado 
nessa lngua.

A linguagem se realiza, portanto, de acordo com um saber adquirido e se apresenta sob forma de fatos objetivos ou produtos. Mas, como bem caracterizou Humboldt em termos aristotlicos, 
a linguagem no  na essncia rgon produto, coisa feita, mas enrgeia, atividade, atividade criadora, isto , que vai alm da tcnica aprendida, alm do seu saber 
(dnamis).

Assim, tambm do ponto de vista do produto se distinguem esses trs planos:

a) o produto do falar em geral  a totalidade de todas as manifestaes, empiricamente infinita, o falado; no s a totalidade do que j foi dito, mas ainda a totalidade 
do que se pode dizer, se considerada sempre como coisa feita.

b) o produto do falar (em) uma lngua particular  a lngua particular abstrata, isto , a lngua deduzida do falar e concretizada em uma gramtica e em um dicionrio, ou, 
em outras palavras, o que no falar se reconhece como constante e que  objeto da lingustica das lnguas como descrio e como histria.

c) o produto do falar individual  o texto, tal como pode ser anotado ou escrito.

2  Juzos de Valor

Frequentemente se ouve um falante nativo dizer que isso no  portugus ou isso no se diz assim em portugus ou seria melhor dizer assim em portugus, o que demonstra 
que os aspectos de juzos de valor devem merecer especial ateno do falante nativo, bem como do linguista e do gramtico normativo. Infelizmente, em vista de confuses que 
Coseriu procurou deslindar, o assunto tem sido mal posto em discusso e, por isso, mal resolvido, de modo que as incoerncias e os desencontros so responsveis pela ideia 
muito difundida, mas errada, de que o tema no  cientfico, e fica sujeito ao capricho de pessoas despreparadas e intransigentes.

Distinguem-se trs tipos de juzos de valor referentes s conformidades do falar com o respectivo saber lingustico:

a) Ao saber elocutivo corresponde a norma da congruncia, isto , os procedimentos em consonncia com os princpios do pensar, autnomos ou independentes dos juzos que se 
referem  lngua particular e ao texto. Neste plano do falar em geral temos no s a norma da congruncia e da coerncia, mas ainda a norma de conduta da tolerncia, j que, 
muitas vezes, diante de frases desconexas, a incongruncia pode ser anulada pela tradio da lngua particular e pela inteno do discurso. Assim, quando a cano diz que 
Tudo em volta est deserto, tudo certo / Tudo certo, como dois e dois so cinco, no se interpreta como falar incongruente por conhecerem os falantes o procedimento da anulao 
metafrica: o que a cano quer dizer metaforicamente  que nada vai bem entre os tais namorados, como a soma de dois mais dois igual a cinco no est bem.

b) Ao saber idiomtico corresponde a norma da correo, isto , a conformidade de falar (em) uma lngua particular segundo as normas de falar historicamente determinado e 
corrente na comunidade que a pratica. Sendo uma lngua histrica (todo o portugus) um conjunto de vrias lnguas comunitrias, haver mais de uma norma de correo (o portugus 
do Brasil, o portugus de Portugal, o portugus exemplar, o portugus comum, o portugus familiar, o portugus popular, etc.). Por falta das distines at aqui estabelecidas, 
tm-se atribudo  lngua particular ou ao saber idiomtico qualidades e atributos que antes pertencem ao plano do falar em geral ou saber elocutivo (coerncia, eficcia, 
conciso, clareza, harmonia, etc.) ou ao plano individual ou saber expressivo (adequado, apropriado, elegante, expressivo, etc.). O juzo de valor concernente 
 correo  juzo de suficincia ou conformidade somente com o saber idiomtico historicamente determinado para uma comunidade.

c) Ao saber expressivo corresponde a norma de adequao  constituio de textos levando em conta o falante, o destinatrio, o objeto ou a situao, critrio mais complexo, 
e independente do critrio de correo em relao  lngua particular e do critrio de congruncia em relao ao falar em geral. A adequao ao discurso e  constituio de 
textos pode levar em conta o objeto representado ou o tema (e a ser considerada adequada ou inadequada), o destinatrio (ento ser considerada apropriada ou inapropriada) 
ou a situao ou circunstncias (e a ser considerada oportuna ou inoportuna).

A competncia ou saber no se manifesta igualmente em todos os planos do lingustico. Na lngua particular ele ocorre com mais frequncia; nos outros planos  no saber elocutivo 
e principalmente no saber expressivo  o domnio da competncia s se alcana depois de cuidada educao lingustica. Muitas vezes se diz que algum escreve mal o portugus, 
quando, na realidade se quer fazer referncia ao saber elocutivo ou ao expressivo, porque escreve sem congruncia ou sem coerncia, ou ainda com pouca clareza. Quando se diz 
que o francs  uma lngua clara, a rigor, no se quer fazer referncia a caractersticas da lngua francesa, mas  capacidade de estruturar o pensamento, o discurso ou 
o texto com clareza e logicidade mais do que o normal, em virtude de uma larga tradio do falar nessa comunidade, tradio que comea no ensino escolar francs, e que deveramos 
cultivar entre ns.

Cabe ainda lembrar o que foi aqui antes esboado: conforme a inteno do falante, a adequao relativa a um discurso ou a um texto pode anular a incorreo idiomtica, enquanto 
a adequao relativa  correo idiomtica pode anular a incongruncia ou incoerncia do saber elocutivo.

3  Trs Tipos de Contedo Lingustico

Aos trs planos lingusticos correspondem ainda trs tipos diferentes de contedo lingustico:

a) Ao plano lingustico geral corresponde a designao (ou referncia), isto , a referncia a uma realidade extralingustica, a um estado de coisas extralingustico. Assim 
em A porta est fechada e A porta no est aberta faz-se referncia  mesma realidade extralingustica. As oraes no so sinnimas; so equivalentes na referncia  designao.

b) Ao plano lingustico particular corresponde o significado, isto , o contedo dado linguisticamente em uma lngua particular, ou, em outras palavras, a especial configurao 
da designao numa lngua particular.

c) Ao plano do discurso corresponde o sentido, que  o dito por meio do texto, isto , o especial contedo lingustico que se expressa mediante a designao e o significado, 
sentido que, num discurso individual, vai alm desses outros contedos e que corresponde s atitudes, intenes ou suposies do falante. Por exemplo, nas expresses dar com 
os burros ngua ou torcer o nariz o sentido , respectivamente, ter insucesso e rejeitar. Numa anedota, mediante a designao e o significado, atinge-se o sentido quando 
se pega o chamado esprito da coisa. Uma visita de cerimnia ao dizer ao dono da casa Hoje est quente pode ter a inteno de querer dizer Por favor, abra a janela, 
que  o verdadeiro sentido da sua primeira frase. Quando dizemos a uma pessoa, pela manh, Bom dia! no queremos dizer-lhe que o dia est agradvel, mas to somente cumpriment-la; 
esse  o sentido da frase. Pode at o tempo estar chuvoso ou ameaador; porm,  assim que tradicionalmente a nossa comunidade sada algum pela manh. O sentido, portanto, 
se manifesta no plano individual do discurso.

Assim como o significado pode coincidir com a designao, como ocorre na linguagem tcnica, onde tudo o que existe na tradio lingustica concernente a ela  nomenclatura, 
 medida que vai alm do saber lingustico e implica um saber relativo s coisas mesmas, assim tambm o sentido pode coincidir com o significado, quando o texto  s informativo, 
e no artstico ou literrio (simblico). Mesmo em determinadas formas de literatura, os fatos designados e significados so informativos, como ocorre na novela policial, 
que s muito excepcionalmente se ala  literatura artstica [ECs.8, 291-292].

O quadro a seguir sintetiza tudo o que vimos at aqui:

C) Lngua histrica e lngua funcional

1  Lngua Histrica

Quando nos referimos a lngua portuguesa, lngua espanhola, lngua alem ou lngua latina, fazemos aluso a uma lngua como produto cultural histrico, constituda como unidade 
ideal, reconhecida pelos falantes nativos ou por falantes de outras lnguas, e praticada por todas as comunidades integrantes desse domnio lingustico. Entendido assim, esse 
produto cultural recebe o nome de lngua histrica. Esse amplo e diversificado espao cultural, historicamente relacionado, est presente na frase de Fernando Pessoa: Minha 
ptria  a lngua portuguesa.

Fcil  concluir que uma lngua histrica encerra em si vrias tradies lingusticas, de extenso e limite variveis, em parte anlogas e em parte divergentes, mas historicamente 
relacionadas. So analogias e divergncias fonticas, gramaticais e lxicas; por isso se diz que uma lngua histrica nunca  um sistema nico, mas um conjunto de sistemas.

Os sistemas que integram a lngua histrica apresentam trs aspectos, fundamentais de diferenas internas:

a) No espao geogrfico, constituindo os diferentes dialetos; Essa diversidade no espao se diz diatpica (do grego di atravs de, tpos lugar), enquanto a relativa uniformidade 
no espao se diz sintpica (do grego sn reunio).

b) No nvel sociocultural, constituindo os diferentes nveis de lngua e estratos ou camadas socioculturais. Essa diferena no estrato sociocultural se diz diastrtica (do 
latim stratum estrato, camada), enquanto a relativa uniformidade correspondente se diz sinestrtica ou sinstrtica, tambm conhecida por dialeto social.

c) No estilo ou aspecto expressivo, isto , em relao a diferentes situaes do falar e estilos de lngua. Essa diferena se diz diafsica (do grego fsis expresso), enquanto 
a relativa uniformidade correspondente se diz sinfsica ou homogeneidade estilstica.

As diferenas diatpicas ou os dialetos sempre mereceram as atenes dos estudiosos, o que nem sempre ocorreu com as diferenas de nveis (diastrticas) e de estilos de lngua 
(diafsicas). Nem todas as lnguas histricas tm muito marcadas as diferenas dialetais como ocorre, por exemplo, na Itlia. No portugus essas diferenas so muito menos 
profundas, do que no italiano. Alguns linguistas chegam, no caso do portugus, a preferir falares a dialetos.

As diferenas diastrticas so mais marcadas em comunidades onde os estratos sociais se apresentam muito distanciados, como na antiga ndia, ou onde a rede escolar se encontra 
fragilizada ou inexistente entre as camadas populares. Nas comunidades modernas, existem diferenas diastrticas na distino entre o nvel popular (como ocorre no francs 
e ingls), bem afastado das formas cultas ou exemplares destas lnguas, ou, com menos intensidade, no espanhol e no italiano populares. Menos intensa  ainda a distncia 
entre o chamado portugus popular e o padro ou culto.

As diferenas diafsicas se manifestam quando se comparam lngua falada e lngua escrita, lngua usual e lngua literria, lngua corrente e lngua burocrtica ou oficial, 
etc. Nenhuma dessas variedades diafsicas se apresenta homogeneamente; at a lngua literria acusa gradaes, s vezes bem ntidas, como  o caso das divergncias entre a 
prosa e a poesia (em verso), entre a poesia pica e a lrica, etc.

Incluem-se nas diferenas diafsicas as que ocorrem, num mesmo estrato sociocultural, entre grupos biolgicos (homens, mulheres, jovens, crianas) e profissionais.

Uma lngua que apresenta s um estilo j no  uma lngua viva; a que apresenta um ou poucos estilos  uma lngua morta e funciona como veculo de comunicao para comunidades 
determinadas que tm sua prpria lngua, e se destina a finalidades culturais e profissionais, como tem sido o caso do latim na Igreja e, desde a Idade Mdia, na filosofia, 
na filologia, na medicina e outros domnios das cincias, e de especiais praxes acadmicas universitrias (em cerimnias na outorga do ttulo de doutor honoris causa, por 
exemplo a laudatio).

H, contudo, uma realidade lingustica idealmente homognea e unitria, isto , que se apresenta sintpica, sinstrtica e sinfsica; em outras palavras, uma lngua unitria 
quanto ao dialeto, ao nvel e ao estilo:  a lngua funcional, assim chamada porque  a modalidade que de maneira imediata e efetiva funciona nos discursos e textos.

2  Lngua Funcional

 bem verdade que num discurso e texto pode aparecer mais de uma lngua funcional, principalmente se se mudam as circunstncias e fatores (destinatrio, objeto, situao). 
Todo falante de uma lngua histrica  plurilngue, porque domina ativa ou passivamente mais de uma lngua funcional, embora no consiga nunca saber toda a extenso de uma 
lngua histrica; e o sucesso da educao lingustica  transform-lo num poliglota dentro de sua prpria lngua nacional. Mas na constituio do discurso e do texto h 
sempre uma lngua funcional que se sobrepe s demais. Mesmo uma lngua comum o mais possvel unificada e codificada com muita rigidez, como ocorre com o francs oficial, 
no corresponde exatamente a essa realidade de lngua funcional, em face das diferenas estilsticas nele existentes.

Como por exigncia metodolgica e de coerncia interna s se pode descrever uma realidade homognea e unitria,  a lngua funcional o objeto prprio da descrio estrutural 
e funcional. Uma gramtica como produto desta descrio nunca  o espelho da lngua histrica;  apenas a descrio de uma das suas lnguas funcionais. Por isso no se h 
de exigir desta gramtica o registro de fatos que pertenam a lnguas funcionais diferentes: nisto consiste a diferena entre estrutura e arquitetura.

3  Estrutura e Arquitetura

Estrutura  a descrio das oposies funcionais na expresso e no contedo de mesma tcnica idiomtica, isto , a homogeneidade de uma lngua funcional. Arquitetura  o registro 
da diversidade interna de uma lngua histrica, onde coexistem para funes anlogas formas distintas e vice-versa, isto , diversidade de lnguas funcionais. Por exemplo, 
a descrio do emprego dos pronomes o e lhe no portugus exemplar ou padro  um fato de estrutura; a comparao do emprego de o no portugus padro e do corresponde ele no 
portugus popular ou familiar ou do pronome lhe nessas modalidades  um fato de arquitetura do portugus do Brasil.

Para se chegar com coerncia ao conceito de lngua funcional e  essncia do objeto prprio da descrio de uma tcnica lingustica  necessrio fazer, alm da distino entre 
estrutura e arquitetura, uma srie de outras, quase sempre no levadas em considerao na gramtica tradicional e em algumas lingusticas modernas: 1) conhecimento da lngua 
e conhecimento das coisas (includos a os seres vivos); 2) linguagem e metalinguagem; 3) sincronia e diacronia; 4) tcnica livre e discurso repetido[ECs.8, 288].

4  Conhecimento da Lngua e Conhecimento das coisas

No plano do saber histrico no contamos somente com fatos lingusticos, mas tambm com outras tradies ligadas a coisas ou ao mundo extralingustico. Assim, por exemplo, 
diante de frases do tipo Macaco velho no mete a mo em cumbuca ou de expresso como macaco velho, no se pode dizer que macaco ou macaco velho evoca em portugus a ideia 
de prudncia, sagacidade. Relativamente  lngua portuguesa, macaco est relacionado a outros animais, como mico, chimpanz, etc.; pela evocao a prudncia no  responsvel 
a lngua portuguesa, at porque em muitas comunidades lusfonas o animal macaco no est relacionado com essa ideia. A evocao resulta exclusivamente do conhecimento que 
temos do animal, da sua participao em histrias, especialmente do folclore brasileiro.

5  Linguagem e Metalinguagem

A metalinguagem  um uso lingustico cujo objeto  tambm uma linguagem; por exemplo quando se fala de palavras e seus componentes ou de oraes: linguagem  uma palavra 
derivada de lngua, linguagem  um substantivo feminino em portugus e masculino em espanhol e francs. -o  um sufixo formador de substantivo, Cadeira tem trs slabas, 
etc. A metalinguagem no apresenta unidades estruturais nem pode ser estruturada no nvel do saber idiomtico; nem por isso seu estudo deixa de merecer o cuidado da cincia.

A linguagem, tambm chamada linguagem primria, no  uma linguagem que tem por objeto uma linguagem.

Esta distino tem importncia especial para a gramtica. Por exemplo, qualquer palavra, grupo de palavras, parte de palavras, uma orao inteira, todo um texto tomado materialmente 
na metalinguagem pode ser considerado uma palavra, um substantivo masculino por ser nome de algo: -mente  um sufixo, l marca distncia do falante, Terrvel palavra 
 um no, No roubar  um mandamento divino.

A metalinguagem pode manifestar uma tcnica, um saber prprio em uma determinada tradio lingustica. Por exemplo, na metalinguagem, em portugus, diz-se sem artigo Homem 
 um disslabo, enquanto na linguagem primria se diz com artigo O homem trabalha.

6  Sincronia e Diacronia

Outra distino essencial, por sinal a primeira que se deve fazer no estudo das lnguas,  a que se estabelece entre sincronia e diacronia. Por sincronia entende-se, em princpio, 
a referncia  lngua em um dado momento do seu percurso histrico, sincronizada sempre com seus falantes, e considerada no seu funcionamento no falar como descrio sistemtica 
e estrutural de um s sistema lingustico (lngua funcional), enquanto por diacronia se entende a referncia  lngua atravs do tempo, isto , no estudo histrico das estruturas 
de um sistema (gramtica histrica), e como histria da lngua. Todavia, neste ltimo aspecto, sincronia e diacronia no so correlativos, pois se se levar em conta o carter 
parcialmente inovador de todo ato lingustico, toda lngua viva est num perptuo devenir, j que o aspecto sincrnico, para uma lngua considerada na sua totalidade, metodologicamente 
imposto e necessrio,  apenas uma abstrao cientfica para estudar como a lngua funciona e os traos que, entre dois momentos do seu desenvolvimento, se mostram constantes. 
At para fins prticos necessitamos considerar a lngua como algo estvel e constante. Assim, a descrio sincrnica prescinde da histria, no sentido de que no a abarca, 
mas a diacronia no pode prescindir das sincronias. Por fim, no se pode perder de vista que a descrio da lngua num momento do seu desenvolvimento  uma parte da histria 
dessa lngua. Uma lngua viva nunca est plenamente feita, mas se faz continuamente graas  atividade lingustica.

 sincronia corresponde no s a descrio de sistemas unitrios (isto , a disciplina gramtica em sua acepo mais ampla, abarcando ainda a fonologia e a semntica lxica 
estrutural ou lexemtica), mas tambm a descrio dos trs tipos de variedade j vistos feita por trs outras disciplinas (dialetos  dialetologia, nveis  sociolingustica 
e estilos  estilstica da lngua).

7  Estado da Lngua Real e Sincronia

Convm distinguir entre estado de lngua real e sincronia, considerada de modo absoluto. No estado de lngua tambm est implcita uma dimenso diacrnica, j que os falantes, 
principalmente de comunidades com larga tradio de lngua escrita, tm conscincia de que certas formas so mais antigas que outras; que algumas j no se usam e que outras 
so recentes. Todavia essa diacronia dos falantes  que pode ser bem diferente da diacronia do historiador  no importa em relao ao funcionamento da lngua, porque todo 
fato de diacronia subjetiva tem de ser descrito no seu funcionamento, isto , na sua prpria sincronia [ECs.8, 296].

 histria da lngua compete tambm referir-se ao aspecto sincrnico  medida que tem de socorrer-se dos vrios estados de lngua sucessivos, pois a gramtica histrica 
 a comparao entre os vrios sistemas estticos compreendidos nos limites estabelecidos para estudo. No caso de uma lngua romnica como o portugus, pode-se comear pelos 
diversos sistemas do latim (clssico, vulgar, etc.) e continuar pelos sistemas sucessivos do portugus ou fases histricas (medieval, clssico, etc.), ou ento partir do prprio 
portugus como lngua j estabelecida e reconhecida pelos seus falantes e pelos falantes de outras comunidades lingusticas.

Pelo que vimos at aqui, e para evitar equvocos que elas implicam, seria melhor fugir s denominaes lingustica sincrnica e lingustica diacrnica e, em vez delas, usar 
descrio e histria da lngua, porque ambas esto compreendidas no nvel histrico da linguagem e constituem juntas a lingustica histrica. Desligam-se, desta maneira, as 
noes de sincronia e diacronia da interpretao meramente temporal, como as entendia Saussure, em cuja lio sincronia estava circunscrita a um s momento e diacronia a vrios 
momentos [ECs.8, 281].

8  Tcnica Livre do Discurso e Discurso Repetido

Outra distino necessria no estudo sincrnico de lngua  a que se faz entre tcnica livre do discurso e discurso repetido, porque as tradies lingusticas no s contm 
tcnica para falar, mas ainda linguagem j falada.

A tcnica livre abarca os elementos constitutivos da lngua e as regras atuais relativas  sua modificao e combinao, isto , abarca as palavras e os instrumentos e 
procedimentos lxicos e gramaticais.

O discurso repetido abarca tudo aquilo que, no falar de uma comunidade, se repete mais ou menos uniformemente, como algo j dito: algo j fixado num discurso e que pode 
ser repetido noutro discurso como expresso, giro, modismo, frase ou locuo cujos elementos constitutivos no so nem substitudos nem aceitam ser dispostos noutra 
ordem conforme permitem as regras de funcionamento da lngua, ficando, assim, por no se submeterem a qualquer estruturao  pois s a tcnica  estruturvel , fora do objeto 
da gramtica e da lexicologia sincrnicas.

Assim, bom professor e boa semana pertencem  tcnica livre do discurso, enquanto bom samaritano e bom dia (para a saudao matinal) so exemplos de discurso repetido.

D) Sistema, norma, fala e tipo lingustico

1  Os Quatro Planos de Estruturao

Uma lngua funcional apresenta diversos planos de estruturao. Distinguem-se quatro planos de estruturao: o falar (que  o plano da realizao, isto , uma tcnica idiomtica 
efetivamente realizada), e trs planos de tcnica ou de saber enquanto tal: a norma, o sistema e o tipo lingustico, que dizem respeito exclusivamente  estruturao de uma 
mesma tcnica idiomtica, em oposio  arquitetura, que, como j vimos, diz respeito  diversidade interna da lngua histrica, com seu conjunto de lnguas funcionais, em 
parte coincidentes e em parte diferentes umas das outras.

2  A Norma

A norma contm tudo o que na lngua no  funcional, mas que  tradicional, comum e constante, ou, em outras palavras, tudo o que se diz assim, e no de outra maneira.  
o plano de estruturao do saber idiomtico que est mais prximo das realizaes concretas. O sistema e a norma de uma lngua funcional refletem a sua estrutura.

3  O Sistema

O sistema contm apenas as oposies funcionais, isto , contm unicamente os traos distintivos necessrios e indispensveis para que uma unidade da lngua (quer no plano 
da expresso, quer no plano do contedo) no se confunda com outra unidade.

Assim, no sistema dos relativos em portugus, que e o qual se opem ambos a quem e cujo, por exemplo; mas a norma usual da lngua prefere unicamente o qual, e no que, depois 
de preposio com mais de duas slabas:

Os caminhos de que (dos quais) lhe falei...

mas:

As razes segundo as quais (e no segundo que).

O sistema verbal portugus marca a 1. pessoa do singular do presente do indicativo com o morfema -o: eu canto, vendo, parto.

Crianas e adultos que usam incorretamente a forma verbal seio (por sei) so levados a faz-lo por fora do sistema, mas desconhecem a norma.

O sistema do portugus conta, alm de outros, com o sufixo -o para formar substantivos, em geral denotadores de ao, oriundos de verbos: coroar  coroao; colocar  colocao.

Todavia, a norma prefere casamento a casao, livramento a livrao, tomada a tomao ou tomamento, etc. Outras vezes, a norma agasalha ambas as formas possibilitadas pelo 
sistema.

No domnio da sintaxe tambm se comprova a distino entre norma e sistema. Os chamados complementos verbais quando constitudos por substantivos normalmente se dispem na 
ordem direto + indireto (Dei um livro ao primo), mas quando aparece, numa dessas funes ou nas duas, pronome pessoal, a norma  vir primeiro o indireto: (Dei-lhe um livro) 
/ Dei-lho (lhe + o).

O falante domina o sistema de uma lngua quando est em condies de criar nela. Relativamente  norma, o seu domnio  muito mais complexo e exige do falante uma aprendizagem 
por toda a vida.

A norma pode coincidir com o sistema quando este oferece uma s possibilidade de realizao.

O distanciamento entre sistema e norma de realizao se manifesta quando a novidade criada  luz do sistema inexiste na norma, na tradio j realizada e, por isso mesmo, 
no se encontra registrada nos dicionrios e nas gramticas. Foi o caso, entre ns, de imexvel, nascido com procedimentos do sistema do mesmo modo que intocvel, infalvel, 
etc., mas no ainda realizado na norma. Esqueceram-se os crticos de que uma lngua viva no est feita, isto , que no s estrutura seus atos por modelos precedentes, mas 
faz-se e refaz-se constantemente, encerra formas feitas e tem potencialidade para criar formas novas, e est sempre a servio das necessidades expressivas de qualquer falante. 
 nisto que consiste a dimenso criatividade j aludida aqui anteriormente.

Como tambm pode conter traos no pertinentes do ponto de vista de oposio funcional, a norma, em certo sentido, tem maior amplitude que o sistema, j que este s contm 
traos distintivos necessrios e indispensveis para que uma unidade da lngua se diferencie de outra unidade. Por outro lado, o sistema  mais amplo do que a norma, porque 
propicia tambm possibilidades inditas, no realizadas na norma da lngua.

4  O Tipo Lingustico

O tipo lingustico  o mais alto plano que se pode comprovar da tcnica da lngua.  o conjunto coerente de categorias funcionais e de tipos de procedimentos materiais que 
configuram um sistema ou diferentes sistemas: compreende as categorias de oposies de expresso e de contedo e os tipos de funes. Enquanto o sistema  sistema de possibilidades 
em relao  norma, o tipo  sistema de possibilidades em relao ao sistema.

No processo histrico, a norma pode modificar-se permanecendo inaltervel o sistema, bem como o sistema pode modificar-se conservando no tipo seus princpios de configurao. 
As numerosas semelhanas que se podem apontar nas lnguas romnicas no se explicam somente pela origem comum e influncias recprocas, mas tambm porque, com exceo do francs, 
se configuraram em vrios pontos por princpios funcionais anlogos de tipo lingustico [ECs.14, 53-54].

Por fim, cabe esclarecer que a tipologia lingustica est nos seus comeos; alguns estudos que se tm realizado com seu nome nada mais so do que gramtica contrastiva no 
nvel dos sistemas e classificao de procedimentos idiomticos.

No tocante s relaes conceituais de fala, norma, sistema e tipo lingustico no quadro terico de E. Coseriu e de F. de Saussure, fala corresponde mais ou menos  parole; 
a norma e o sistema da lngua correspondem, no seu conjunto, mais ou menos  langue, enquanto o tipo lingustico no foi identificado como tal pelo linguista genebrino.

E) Propriedades dos estratos de estruturao gramatical 1

1  Os Estratos Gramaticais

Em portugus, os estratos gramaticais possveis so, pela ordem ascendente: o elemento mnimo (ou monema), a palavra gramatical, o grupo de palavras, a clusula, a orao 
e o texto:

Do ponto de vista de sua funo gramatical, casa- e -s so monemas; j casas, na oposio casa / casas,  uma palavra gramatical com sua funo plural, uma vez que -s 
 o pluralizador e casa- o pluralizado, e o sintagma inteiro casas  o plural. Em portugus, a explicao e a especificao so funes do nvel do grupo de palavras 
e se expressam mediante a posio do adjetivo. No grupo substantivo + adjetivo o manso boi, o vasto oceano, o adjetivo  explicativo (j que no separa classes menores dentro 
das classes boi e oceano; apenas expressa propriedades inerentes a estas classes); no entanto, em o boi manso, o adjetivo  especificativo (porque serve para opor um 
boi manso a outros bois no mansos). Como no exemplo anterior, manso  explicadore boi o termo explicado, e o sintagma inteiro o manso boi  um explicativo.

A oposio correspondente s funes comentrio e comentado ocorre no estrato funcional a que Coseriu d o nome convencional clusula, que  o estrato que, no interior 
de uma s e mesma orao, estabelece a referida oposio. O chamado advrbio de orao, que no passa de uma clusula comentrio, ocorre nesse nvel de estruturao. Em 
Eu sei certo, s temos uma orao, sem nenhum comentrio, porque significa simplesmente eu sei com segurana, com certeza. J na orao em Certamente, eu sei, h duas 
clusulas: a clusula comentrio certamente e a clusula eu sei, e o contedo do enunciado oracional  equivalente a certamente, eu o sei,  certo que eu o sei, eu o 
sei, e este fato  certo. Assim, certamente no determina o valor lexical de eu sei, mas assegura a realidade mesma do fato de saber.

O estrato gramatical da orao  caracterizado pela funo predicativa. Nela, o sujeito e o predicado so funes sintagmticas e puramente relacionais: o predicado 
 o termo referido, e o sujeito, o termo referente, a funo sintagmtica  a de referncia, e a unidade resultante  a predicao referida, que se ope, neste nvel, 
 predicao no referida. Em O aluno estuda temos uma predicao referida; em Chove, Faz calor, uma predicao no referida. Registre-se aqui, de passagem, que a orao 
dita complexa no constitui um estrato superior da orao. O estrato superior da orao  simples ou complexa   o texto.

No estrato do texto, como estrato gramatical idiomtico,  e no como outras estruturas, por exemplo, o soneto, a crnica, a novela-, podemos ter casos como a oposio 
entre pergunta no repetida e pergunta repetida. Se se pergunta Voc vai bem?, no nvel do texto, isto significa que se faz a pergunta pela primeira vez, ou pela qual 
no se manifesta se ela se diz pela primeira vez ou no. Mas j em E voc, como vai? ou E voc vai bem? ou Que voc vai bem?, trata-se, sem dvida, de uma pergunta repetida, 
ou porque, depois de uma primeira pergunta, agora se quer saber acerca do nosso interlocutor, ou ento porque este no compreendeu a primeira pergunta sobre como passava de 
sade ou de situao. Trata-se aqui de uma oposio no nvel do discurso ou do texto, e no no nvel da orao.

O nmero dos estratos gramaticais nem sempre  igual de lngua para lngua. Segundo Halliday, citado por Coseriu, s dois estratos so imprescindveis, o do monema e o da 
orao.

2  Propriedades dos Estratos de Estruturao Gramatical

So quatro estas propriedades: a superordenao (ou hipertaxe), a subordinao (ou hipotaxe), a coordenao (ou parataxe) e a substituio (ou antitaxe).

Tais propriedades podem ser assim representadas graficamente:

3  Hipertaxe ou Superordenao

A hipertaxe  a propriedade pela qual uma unidade de um estrato inferior pode funcionar por si s  isto , combinando-se com zero  em estratos superiores, podendo chegar 
at ao estrato do texto e a opor-se a unidades prprias desse novo estrato. Assim, um monema pode, em princpio, funcionar como palavra; uma palavra como grupo de palavras, 
e assim sucessivamente.

Tomando o exemplo casa  casas, o elemento mnimo casa funciona como singular no nvel da palavra gramatical, por oposio a casas, por estar combinado com zero. Em casa 
 a casa, a palavra casa, j determinada como singular, funciona no nvel do grupo de palavras como virtual, inatual  em oposio ao atual a casa. Em Certamente! Claro!, 
estamos diante de uma superordenao da palavra no nvel da clusula, e desta ao nvel da orao e do texto.

As lnguas conhecem restries na manifestao dessa propriedade; por exemplo, a superordenao de palavras ou grupos de palavras no nvel do texto  mais reduzida nas perguntas 
do que nas respostas. Uma resposta como Isabel  muito normal, diante da pergunta Quem acabou de sair? Por outro lado, uma pergunta como (E) Isabel?  certamente possvel, 
mas exige um contexto especial. Salvo num caso de uma retomada de discurso anterior ou de emprego metalingustico, as palavras morfemticas, isto , de significado puramente 
instrumental (artigos, preposies, conjunes), esto em geral impossibilitadas de se superordenar em nvel de texto. Entretanto, nas retomadas de discurso anterior, e na 
metalinguagem, pode-se superordenar no nvel da orao e do texto um monema, uma palavra morfemtica ou at uma palavra, como, por exemplo, ocorre com sem na resposta  pergunta 
do tipo: Viajars com ou sem teus pais?  Sem. Ou ento o sufixo -o na resposta diante da dvida:  condenao ou condenamento?  o.

Na maioria dos casos reais da chamada elipse o que se tem, na verdade,  uma forma de superordenao (quase sempre combinada com uma substituio por retomada).

4  Hipotaxe ou Subordinao

A hipotaxe  a propriedade oposta  hipertaxe: consiste na possibilidade de uma unidade correspondente a um estrato superior poder funcionar num estrato inferior, ou em estratos 
inferiores.  o caso de uma orao passar a funcionar como membro de outra orao, particularidade muito conhecida em gramtica. O importante , entretanto, verificar que 
este tipo de propriedade no fica s aqui, mas tem uma aplicao mais extensa. Em princpio, toda unidade superior ao estrato do monema pode ser subordinada. Um texto inteiro 
pode funcionar como uma orao num outro texto; uma orao como uma clusula ou grupo de palavras; um grupo de palavras como uma palavra gramatical, e uma palavra como um 
elemento mnimo.

Em Verdadeiramente ele disse isso, a clusula comentrio (verdadeiramente), por hipertaxe, passa a orao ( verdade), enquanto temos hipotaxe da clusula comentada (ele disse 
isso). As palavras compostas, do tipo de planalto, e as perfrases lexicais, como p de valsa (exmio danarino) so, do ponto de vista gramatical, subordinaes ou hipotaxes 
de grupos de palavras no nvel da palavra; por outro lado, locues do tipo por meio de, por causa de funcionam no nvel de elementos mnimos (aproximadamente como com, por).

Vista pelo prisma da hipotaxe, percebe-se que a ideia de conceber as conjunes subordinativas como elementos que unem oraes nasce do falso paralelismo entre subordinao 
(hipotaxe) e coordenao (parataxe). Na realidade, em lnguas como o portugus, as conjunes subordinativas no so mais que morfemas de subordinao ou ainda preposies 
combinadas com esses morfemas. Em princpio, para subordinar oraes ou clusulas de estrutura oracional, temos necessidade de dois instrumentos: um para marcar a subordinao, 
isto , para indicar que uma estrutura oracional de verbo flexionado funciona como membro de uma orao, e no como orao independente, e outro instrumento para indicar a 
funo que esta estrutura exerce na orao complexa. No portugus essa marca de subordinao  que. Em se tratando de funo sintagmtica no marcada na orao (sujeito, 
complemento direto), s se emprega esta marca que. Pode-se prescindir desta marca se o sintagma oracional subordinado j se acha indicado por um pronome, um advrbio interrogativo 
(ou exclamativo) ou pela conjuno se da interrogao geral:  preciso que venhas. Ela espera que venhas. Ela sabe quem vem. Os alunos no sabem quando saem os resultados. 
O professor no sabe se haver feriado nesta semana.

Se se trata de funo sintagmtica introduzida (no caso de uma palavra ou de um grupo de palavras) por preposio, a chamada conjuno subordinada  normalmente constituda 
por essa preposio com que: para acabar / para que acabe; antes da (de a) guerra comear / antes de que a guerra comece, etc...

Pelos exemplos, v-se que primeiro se subordina mediante o instrumento de subordinao (que) e depois se introduz o sintagma subordinado pela preposio correspondente  funo 
sintagmtica respectiva.

5  Parataxe ou Coordenao

Consiste a parataxe na propriedade mediante a qual duas ou mais unidades de um mesmo estrato funcional podem combinar-se nesse mesmo nvel para constituir, no mesmo estrato, 
uma nova unidade suscetvel de contrair relaes sintagmticas prprias das unidades simples deste estrato. Portanto, o que caracteriza a parataxe  a circunstncia de que 
unidades combinadas so equivalentes do ponto de vista gramatical, isto , uma no determina a outra, de modo que a unidade resultante da combinao  tambm gramaticalmente 
equivalente s unidades combinadas. No sobem a estrato de estruturao superior. Assim, duas palavras combinadas persistem no nvel da palavra e no constituem um grupo 
de palavras, como se passassem ao nvel imediatamente superior.

Podem-se coordenar oraes que apresentam uma mesma funo textual, palavras e grupos de palavras de mesmas funes (tais como sujeito, complemento, adjunto) e at preposies 
e conjunes do estrato de monemas, como com e sem, e e ou. A nica condio a ser respeitada  que se trate de unidades pertencentes ao mesmo estrato ou transpostas ao mesmo 
estrato em virtude de hipertaxe ou de hipotaxe. Da que estruturas do tipo [ricos homens] e mulheres/ [ricos] homens e mulheres, conforme a ordem de operaes levadas a cabo 
na estruturao da expresso: constituio do grupo de palavras ricos homens e depois coordenao com mulheres ou, ao contrrio, primeiro coordenao de homens e mulheres, 
no nvel da palavra, por hipotaxe, e em seguida constituio do grupo de palavras por meio da determinao com ricos.

Pode-se, outrossim, coordenar uma palavra com uma orao que funciona como membro de outra orao desde que exeram a mesma funo, como em: Ele agora sabe a verdade e que 
eu no lhe havia mentido. Mas para isso foi necessrio que a orao subordinada passasse ao estrato de grupo de palavras e de palavra gramatical, por meio da hipotaxe, para 
ento ser possvel a coordenao no mesmo nvel da palavra.

Tem a parataxe sido vista apenas em relao  coordenao de oraes, especialmente a parataxe aditiva com um s verbo flexionado, como se fosse o somatrio com apagamento 
dos elementos idnticos nas oraes coordenadas. Isto realmente ocorre em casos como Joo e Maria leem, que corresponde a Joo l e Maria l, mas j duvidosa em Joo e Maria 
se casaram e impossvel, por absurda em Joo e Maria se parecem, que no vale por Joo  parecido + Maria  parecida. Na realidade, em todos estes casos se trata apenas da 
ordem operacional seguida na constituio da expresso, ordem que na interpretao deve ser refeita s avessas. Assim, tem-se inicialmente a coordenao Joo e Maria e depois 
a predicao constitutiva da orao.

Outro ponto que h de merecer a nossa ateno  o fato de que, partindo dos trs tipos fundamentais e opositivos de coordenao em portugus (a aditiva, adversativa e a alternativa), 
estas construes podem ainda exprimir relaes internas de dependncia, o que,  primeira vista, parece paradoxal, porque  o mesmo que dizer que a parataxe inclui a hipotaxe 
ou que a parataxe tambm  hipotaxe. Na realidade, o que temos nesses casos , a uma s vez, parataxe e hipotaxe, mas no no mesmo nvel de estruturao gramatical. No nvel 
da orao tais construes so paratticas; mas exprimem ao mesmo tempo relaes internas de dependncia no que diz ao sentido do discurso e, por isso, manifestam funes 
sintagmticas no nvel do texto: os segundos elementos dessas construes se acham coordenados no nvel da orao, mas so subordinados aos primeiros elementos enquanto unidades 
textuais.  o mesmo caso que ocorre com as oraes introduzidas por pois, porquanto, por isso, por conseguinte, logo, a que a gramtica tradicional e escolar chama oraes 
conclusivas e causais-explicativas. Embora exprimindo estados de coisas comparveis aos das oraes subordinadas, so consideradas, no sem razo, oraes principais 
ou independentes. Na realidade, so independentes no nvel da orao, mas so elementos subordinados do ponto de vista de unidades de contedo no nvel superior do texto.

6  Antitaxe ou Substituio

 a propriedade mediante a qual uma unidade de qualquer estrato gramatical j presente ou virtualmente presente (prevista) na cadeia falada pode ser representada  retomada 
ou antecipada  por outra unidade de outro ponto da cadeia falada (quer no discurso individual, quer no dilogo), podendo a unidade que substitui ser parte da unidade substituda, 
com idntica funo ou mesmo zero.  o fenmeno muito conhecido no domnio dos pronomes que substituem (= representam) lexemas (palavras ou grupos de palavras), inclusive 
lexemas inexistentes como tais na lngua, como  o caso dos pronomes neutros (isto, isso, aquilo), que podem referir-se a um fato, a uma circunstncia ou a uma situao.

O fenmeno da antitaxe, entretanto,  uma realidade de muito maior amplitude e diz respeito, em princpio, a todos os estratos gramaticais. Assim, a retomada mediante sim, 
no, diz respeito aos nveis da orao e do texto; e a no repetio (retomada por zero) de uma preposio na coordenao dos complementos ou do pronome sujeito na coordenao 
de dois ou mais verbos diz respeito ao estrato de elementos mnimos.

No interior da antitaxe, podemos distinguir, do ponto de vista constitucional (cf.) a antecipao e a retomada (ou anfora, catfora), isto , a representao antes 
e depois, sendo esta vlida at para a representao zero.

Do ponto de vista funcional,  preciso distinguir a antitaxe puramente material em que a unidade que substitui, alm de representar a unidade substituda, tem tambm uma funo 
particular, prpria ao domnio da substituio. Assim, no portugus clara e duramente, temos uma antitaxe puramente material (o zero antecipador de clara tem exatamente a 
mesma funo que -mente em duramente), enquanto na retomada por meio de sim, no, estamos diante de uma antitaxe funcional, j que tais unidades, alm de representar o que 
foi dito pelo interlocutor (constituindo por isso pro-oraes ou pro-textos e no meramente advrbios), exprimem tambm uma tomada de posio por parte do falante: a concordncia 
ou a discordncia com o contedo de conscincia manifestado pelo interlocutor.

A rigor, a antitaxe  um fenmeno transfrsico, um fenmeno do plano do discurso ou do texto, uma parte porque concerne  constituio do discurso como tal,  estruturao 
material e funcional da cadeia falada, conforme as relaes presentes na prpria cadeia, e por outra parte, porque ela ignora as fronteiras entre as oraes, funcionando independentemente 
dessas fronteiras to bem numa s e mesma orao como em vrias oraes ao mesmo tempo e, quase sempre, alm dos limites entre as oraes. Da este fenmeno pertencer ao domnio 
da lingustica do texto. Entretanto, deve a antitaxe ser tambm estudada e descrita na gramtica das lnguas, mesmo numa phrase-grammar, porque a expresso substituda apresenta 
procedimentos, materiais e funes que lhe so prprias e porque as lnguas, como sistemas paradigmticos, apresentam uma grande diversidade a este respeito.

F) Dialeto  Lngua comum  Lngua exemplar. Correo e
 exemplaridade. Gramticas cientficas e gramtica normativa.
 Divises da gramtica e disciplinas afins. Lingustica do texto

1  Lngua Comum e Dialeto

J vimos que uma lngua histrica, como o portugus, est constituda de vrias lnguas mais ou menos prximas entre si, mais ou menos diferenciadas, mas que no chegam 
a perder a configurao de que se trata do portugus (e no do galego, ou do espanhol, ou do francs, etc.), quer na convico de seus falantes nativos, quer na convico 
dos falantes de outros idiomas. H uma diversidade na unidade, e uma unidade na diversidade.

Os falantes dessas diversidades, por motivaes de ordem poltica e cultural, tendem a procurar, graas a um largo perodo histrico, um veculo comum de comunicao que manifeste 
a unidade que envolve e sedimenta as vrias comunidades em questo. Geralmente, nessas condies, se eleva um dialeto  em geral o que apresenta melhores condies polticas 
e culturais  como veculo de expresso e comunicao que paire sobre as variedades regionais e se apresente como espelho da unidade que deseja refletir o bloco das comunidades 
irmanadas.

Esta unidade lingustica ideal  que nem sempre cala o prestgio de outros dialetos nem afoga localismos lingusticos  chama-se lngua comum.

No caso de Portugal, o dialeto falado na regio Entre Douro e Minho (dialeto interamnense)  sede do governo e da instruo superior  alou  condio de lngua comum. Como 
a lngua comum recebe, em geral, o nome da lngua histrica (isto , daquela que engloba as variedades dialetais de que vimos falando), em nosso caso particular a lngua comum 
 denominada lngua portuguesa ou, simplesmente, portugus. Isto ocorre por toda a parte; assim  que o dialeto de Paris (franciano) passou a denominar-se francs, o de Florena 
(toscano florentino) italiano, o de Castela castelhano ou espanhol. Por isso  que se diz que entre lngua e dialeto no h diferena de natureza, e sim de prestgio poltico 
e cultural, alm do fato da maior extenso geogrfica da lngua comum. Algumas vezes a lngua comum desbanca os primitivos dialetos, como ocorreu com a koin grega.

Por motivaes de ordem cultural e para conter, na medida do possvel e do razovel, a fora diferenciadora, centrfuga, que caracteriza o perptuo devenir das lnguas, pode-se 
desenvolver dentro da lngua comum um tipo de outra lngua comum, mais disciplinada, normatizada idealmente, mediante a eleio de usos fontico-fonolgicos, gramaticais e 
lxicos como padres exemplares a toda a comunidade e a toda a nao, a serem praticados em determinadas situaes sociais, culturais e administrativas do intercmbio superior. 
 a modalidade a que Coseriu chama lngua exemplar, mais relativamente uniforme do que a lngua comum, porque est normatizada intencionalmente [ECs.8, 164-165]. Esta uniformidade 
relativa  mais frequente quando a lngua comum  usada em pases diferentes.  o que acontece entre ns, onde se registra uma exemplaridade do portugus do Brasil ao lado 
de uma exemplaridade do portugus de Portugal, em grande parte de delineao complexa, porque a exemplaridade do portugus  e no fato exclusivo do nosso domnio  no est 
claramente fixada em suas formas, contedos e procedimentos [ECs.8, 35].

2  O Exemplar e o Correto

H de distinguir-se cuidadosamente o exemplar do correto, porque pertencem a planos conceituais diferentes. Quando se fala do exemplar, fala-se de uma forma eleita entre as 
vrias formas de falar que constituem a lngua histrica, razo por que o eleito no  nem correto nem incorreto.

J quando se fala do correto, que  um juzo de valor, fala-se de uma conformidade com tal ou qual estrutura de uma lngua funcional de qualquer variedade diatpica, diastrtica 
ou diafsica. Por ele se deseja saber se tal fato est em conformidade com um modo de falar, isto , com a lngua funcional, com a tradio idiomtica de uma comunidade, fato 
que pode ou no ser o modo exemplar de uma lngua comunitria.

O modo exemplar pertence  arquitetura da lngua histrica, enquanto o correto (ou incorreto) se situa no plano da estrutura da lngua funcional. Cada lngua funcional tem 
sua prpria correo  medida que se trata de um modo de falar que existe historicamente.

3  Gramtica Descritiva e Gramtica Normativa

Da  fcil concluir que no devemos confundir dois tipos de gramtica: a descritiva e a normativa.

A gramtica descritiva  uma disciplina cientfica que registra e descreve (da o ser descritiva, por isso no lhe cabe definir) um sistema lingustico em todos os seus aspectos 
(fontico-fonolgico, morfossinttico e lxico).

Cabe to somente  gramtica descritiva registrar como se diz numa lngua funcional.

Por ser de natureza cientfica, no est preocupada em estabelecer o que  certo ou errado no nvel do saber elocutivo, do saber idiomtico e do saber expressivo.

A gramtica descritiva se reveste de vrias formas segundo o que examina mediante uma metodologia empregada, formas que no cabe aqui explicitar, mas to somente enumerar: 
estrutural, funcional, estrutural e funcional, constrastiva, distribucional, gerativa, transformacional, estratificacional, de dependncias, de valncias, de usos, etc. A 
gramtica estrutural funcional concebida por E. Coseriu aplica-se  depreenso e descrio dos paradigmas do significado gramatical, das estruturas gramaticais de uma lngua 
particular.

Cabe  gramtica normativa, que no  uma disciplina com finalidade cientfica e sim pedaggica, elencar os fatos recomendados como modelares da exemplaridade idiomtica para 
serem utilizados em circunstncias especiais do convvio social.

A gramtica normativa recomenda como se deve falar e escrever segundo o uso e a autoridade dos escritores corretos e dos gramticos e dicionaristas esclarecidos.

4  mbitos de Estudo da Gramtica

Como vimos, a gramtica descritiva registra e descreve todos os aspectos de uma lngua particular, homognea e unitria. Por isso, aparece diversificada nos captulos pelos 
quais costuma ser apresentada: fontica e fonologia, morfologia e sintaxe (melhor morfossintaxe), semntica, estilstica.

4.1  Fontica e Fonologia

A fontica e a fonologia estudam o aspecto fsico-fisiolgico, isto , o aspecto fnico. A fontica se ocupa do aspecto acstico e fisiolgico dos sons reais e concretos dos 
atos lingusticos: sua produo, articulao e variedades.

J para a fonologia, a unidade bsica no  o som, mas o fonema, visto como unidade acstica que desempenha funo lingustica distintiva de unidades lingusticas superiores 
dotadas de significado. Assim, em tinta, a fontica, levando em conta a realidade acstica na pronncia carioca, distingue dois sons diferentes de t, enquanto a fonologia 
considera funcionalmente um s t, pois, apesar de articulado diferentemente nas vrias realizaes, o falante se considera diante de uma mesma palavra: tinta.

4.2  Sistema grfico

Nas lnguas em que, ao lado da realidade oral, existe a representao escrita de um sistema convencional dessa oralidade chamado sistema grfico ou ortografia, este sistema 
se regula, em geral, ora pela fontica, ora pela fonologia, o que conduz a uma primeira dificuldade para se chegar a um sistema ideal, que exigiria uma s unidade grfica 
para um s valor fnico. Neste particular tornou-se necessrio no se confundir letra com som da fala; letra  a representao grfica com que se procura reproduzir na escrita 
o som, o que no significa identific-los. O nosso sistema fonolgico tem sete fonemas vocais orais tnicos para cuja representao temos apenas cinco letras (a  e  i  
o  u). Costuma-se hoje chamar grafema  unidade grfica (letra) da escrita.

Em se tratando de lnguas modernas que adotaram um sistema grfico aproveitando o alfabeto latino, como ocorre com a maioria dos idiomas modernos, trs fatores contribuem 
para que no se alcance uma ortografia ideal, apesar de entrarem em seu socorro recursos de letras e sinais diacrticos no existentes em latim:

a) adoo de alfabeto estranho, como o latino, nem sempre capaz de atender  representao de fonemas das novas lnguas;

b) mudana atravs do tempo de fonemas das novas lnguas, depois de adotado o alfabeto latino;

c) permanente indeciso das convenes ortogrficas entre a opo fontico-fonolgica e a etimolgica (este, pelo prestgio dos hbitos da escrita latina).

4.3  Alfabeto fontico

Para fins cientficos e pedaggicos (principalmente nas gramticas e dicionrios destinados a estrangeiros), usam-se alfabetos fonticos que procuram na transcrio representar 
fielmente cada unidade fnica por meio de um sinal grfico, escolhido entre as letras j existentes no alfabeto e mais sinais especiais criados para atingir a fidelidade acstica 
desejada.

4.4  Gramtica e Estilstica

A gramtica pode estudar tanto o aspecto da pura comunicao (chamada linguagem enunciativa ou intelectiva) quanto o aspecto afetivo, de exteriorizao psquica e apelo (linguagem 
emotiva).

De modo geral, aplica-se a gramtica propriamente dita aos aspectos da linguagem intelectiva, ficando a linguagem emotiva para tarefa de uma disciplina chamada estilstica, 
de que falaremos mais adiante.

4.5  Morfossintaxe

A parte central da gramtica pura  a morfossintaxe, tambm com menos rigor estudada como dois domnios relativamente autnomos: a morfologia (estudo da palavra e suas formas) 
e a sintaxe (estudo das combinaes materiais ou funes sintticas). Ocorre que, a rigor, tudo na lngua se refere sempre a combinaes de formas, ainda que seja combinao 
com zero ou ausncia de forma; assim, toda essa pura gramtica  na realidade sintaxe, j que a prpria orao no deixa de ser uma forma(na lio tradicional, ela no 
pertence ao domnio da morfologia). Melhor seria se adotssemos a proposta de Eugenio Coseriu que j estava presente numa lio de Gabelentz; a gramtica se comporia de trs 
sees: a) constitucional (que descreveria a configurao material da forma gramatical, abrangendo por forma tambm o grupo de palavras, a orao e o perodo); b) funcional 
(que investiga as funes dos diferentes estratos de estruturao gramatical, comprovando os paradigmas que funcionam em cada estrato); c) relacional (que estuda as relaes 
entre os diferentes paradigmas pelos quais se expressam funes designativas anlogas) [ECs.4, 262-263].

4.6  Lexicologia

Outro domnio dos estudos gramaticais que, pela sua especificidade e extenso tambm constitui uma disciplina autnoma,  a lexicologia.

 tarefa da lexicologia o estudo dos lexemas, suas estruturas e variedades e suas relaes com os significantes. Entende-se por lexema a unidade lingustica dotada de significado 
lxico, isto , aquele significado que aponta para o que se apreende do mundo extralingustico mediante a linguagem. Assim, em amor, amante, amar, amavelmente o significado 
lxico  comum a todas as palavras da srie.

Levando-se em conta o plano da expresso (significante) e o plano do contedo (significado), a lexicologia abarcar quatro disciplinas subsidirias [ECs.12, 46-48]:

a) lexicologia da expresso: estudo das relaes entre os vrios significantes lxicos enquanto tais, por exemplo, amar  amante, falar  falante ao lado de saltar  saltador.

b) lexicologia do contedo: estudo das relaes entre os significados lxicos enquanto tais: salrio, ordenado, provento, honorrio, soldo, mesada; ou sair x chegar, etc. 
(sinnimos, antnimos)

c) semasiologia: estudo da relao entre os dois planos partindo da expresso para o contedo: o significante hspede com os significados de aquele que d a hospedagem e 
aquele que recebe a hospedagem; nora esposa de filho em relao aos pais dele, e nora aparelho para tirar gua de poo, cisterna.

Tradicionalmente  este estudo que se reconhece em geral como a disciplina semntica ou semntica lexical.

d) onomasiologia: estudo da relao dos dois planos, partindo do contedo: para o significado dinheiro h os significantes prata, massa, erva, caramingu, arame, mango (quase 
todos populares ou familiares).

H disciplinas lexicolgicas preocupadas com a origem dos palavras. A temos a etimologia (estudo da origem delas), a onomstica (estudo histrico dos nomes prprios, dividida 
em antroponmia  histria dos nomes de pessoa  e toponmia  histria dos nomes de lugares).

4.7  Outra vez a Estilstica

A seguir, temos a estilstica, a qual, conforme dissemos anteriormente,  o estudo dos aspectos afetivos que envolvem e caracterizam a linguagem emotiva que perpassa todos 
os fatos de lngua. Pode tanto aplicar-se queles usos da esfera afetiva e emotiva generalizados na lngua, por exemplo, os diminutivos, os aumentativos, as hiprboles, etc. 
(a chamada estilstica da lngua de Charles Bally), ou ento s criaes estticas originais e inditas de um autor ou de uma obra (a chamada estilstica da fala da escola 
idealista alem de Karl Vossler, Leo Spitzer e seguidores).

4.8  Outros tipos de Gramtica

Alm da gramtica descritiva, so tambm gramticas cientficas, isto , sem finalidade prescritiva ou normativa, e com objeto e metodologia prprios:

a) gramtica geral (mais impropriamente chamada gramtica universal): estudo dos fundamentos tericos dos conceitos gramaticais (e por isso mesmo lhe cabe a definio desses 
conceitos), ou, noutro sentido, procura os fatos gramaticais comuns e gerais a vrios sistemas lingusticos. Tambm  denominada teoria gramatical. Esta gramtica investiga 
o plano universal da linguagem e, por isso, no tem como objeto uma lngua particular, como as gramticas seguintes, que investigam o plano histrico da linguagem, uma vez 
que estudam lnguas histricas, isto , tcnicas (saberes) historicamente determinadas.

b) gramtica comparada: estudo comparado de lnguas pertencentes a um tronco ou famlia procedente de uma fonte comum primitiva, com vista a estabelecer os fatos manifestados 
pela relao de parentesco.

c) gramtica histrica (considerada em sentido estrito): estudo diacrnico de um s sistema idealmente homogneo.

d) histria interna da lngua: estudo diacrnico de uma lngua histrica.

Citem-se mais as seguintes disciplinas lingusticas:

1) dialetologia: estudo das diferenas regionais de uma lngua; sua aplicao, mediante mtodo particular para cada uma, se faz com duas subdisciplinas: geografia lingustica 
e paleontologia lingustica.

2) sociolingustica: estudo da variedade e variao da linguagem em relao com a estrutura social das comunidades.

3) etnolingustica: estudo da variedade e variao da linguagem em relao com a civilizao e a cultura [ECs.15, 29].

4) psicolingustica: estuda o aspecto psquico da atividade lingustica.

At aqui, as gramticas e disciplinas que investigam os fatos de uma lngua ou de lnguas particulares so disciplinas que se aplicam ao plano idiomtico da linguagem.

Por fim, cabe aludir  lingustica do texto, campo recente de estudo, que visa a examinar o sentido do texto considerado como entidade autnoma da linguagem. Investiga o plano 
individual da linguagem.  o estudo da hermenutica do sentido. Para Coseriu, enquanto as disciplinas que estudam a lngua se aplicam ao exame da estrutura do significante 
e  descrio da estrutura do significado, a pura lingustica do texto se aplica  interpretao do significante e do significado da lngua como expresso do sentido [ECs.3].

1 E. Coseriu [ECs.15, 22; ECs.4, 172].

I  Fontica e Fonologia

I  Fontica e Fonologia

A) Produo dos sons e classificao dos fonemas

1  Fontica Descritiva

Fonemas

Fonemas  Chamam-se fonemas os sons elementares e distintivos que o homem produz quando, pela voz, exprime seus pensamentos e emoes.

Fonemas no so letras

Fonemas no so letras  Desde logo uma distino se impe: no se h de confundir fonema com letra. Fonema  uma realidade acstica, realidade que nosso ouvido registra; 
enquanto letra  o sinal empregado para representar na escrita o sistema sonoro de uma lngua. No h identidade perfeita, muitas vezes, entre os fonemas e a maneira de represent-los 
na escrita, o que nos leva facilmente a perceber a impossibilidade de uma ortografia ideal. Temos, como veremos mais adiante, sete vogais orais tnicas, mas apenas cinco smbolos 
grficos (letras): a, e, i, o, u. Quando queremos distinguir um e tnico aberto de um e tnico fechado  pois so dois fonemas distintos  geralmente utilizamos sinais subsidirios: 
o acento agudo (f) ou o circunflexo (v). H letras que se escrevem por vrias razes, mas que no se pronunciam, e portanto no representam a vestimenta grfica do fonema; 
 o caso do h em homem ou oh! Por outro lado, h fonemas que se ouvem e que no se acham registrados na escrita; assim, no final de cantavam, ouvimos um ditongo em -am cuja 
semivogal no vem assinalada /amvw/. A escrita, graas ao seu convencionalismo tradicional, nem sempre espelha a evoluo fontica. Neste livro, diferenamos a letra do 
fonema, pondo este entre barras; dessarte, indicaremos o e aberto e e fechado da seguinte maneira: //, //.

Fontica e Fonologia

Fontica e Fonologia  Na atividade lingustica, o importante para os falantes  o fonema, e no a srie de movimentos articulatrios que o determina. Assim sendo, enquanto 
a anlise fontica se preocupa to-somente com a articulao, a fonmica atenta apenas para o fonema que, reunindo um feixe de traos que o distingue de outro fonema, permite 
a comunicao lingustica. A fontica pode reconhecer, e realmente o faz, diversas realizaes para o /t/ da srie ta-te-ti-to-tu; a fonmica no leva em conta as variaes 
(que se chamam alofones), porque delas no tomam conhecimento os falantes de lngua portuguesa. Um fonema admite uma gama variada de realizaes fonticas que vai at a conservao 
da integridade do vocbulo: quando isto no ocorre, diz-se que houve mudana de fonema. O /l/ admite vrias realizaes no Brasil, de norte a sul (e estas variantes no interessam 
 anlise fonmica, anlise que deveria ter primazia em nosso estudo de lngua); mas haver mudana de fonemas quando se no puder fazer a oposio mal / mau. Como bem ensina 
Mattoso Cmara, o fonema, entendido como um feixe de traos distintivos, individualiza-se e ganha realidade gramatical pelo seu contraste com outros feixes em idnticos ambientes 
fonticos. No , pois, a diferena articulatria e acstica que distingue primariamente dois fonemas, seno a possibilidade de determinarem significaes distintas numa mesma 
situao fontica. Compreende-se assim que um mesmo fonema possa variar amplamente na sua realizao, conforme o ambiente fontico ou as peculiaridades do sujeito falante 
[MC.7, 44-45].

Fonologia no se ope a fontica: a primeira estuda o nmero de oposies utilizadas e suas relaes mtuas, enquanto a fontica experimental determina a natureza fsica e 
fisiolgica das distines observadas [BM.1, 116]. Ambas disciplinas pertencem ao nvel biolgico do falar condicionado psicofisicamente.

Aparelho Fonador

Aparelho Fonador

Aparelho fonador  Ns no temos um aparelho especial para a fala; produzimos os fonemas servindo-nos de rgo do aparelho respiratrio e da parte superior do aparelho digestivo, 
que s secundariamente se adaptaram s exigncias da comunicao, numa aquisio lenta do homem. A esses rgos da fala, constitutivos do aparelho fonador, pertencem, alm 
de msculos e nervos: os brnquios, a traqueia, a laringe (com as cordas vocais), a faringe, as fossas nasais e a boca com a lngua (dividida em pice, dorso e raiz), as bochechas, 
o palato duro (ou cu da boca), o palato mole (ou vu palatino) com a vula ou campainha, os dentes (mormente os anteriores) com os alvolos, e os lbios.

Em portugus, como na maioria dos idiomas, os fonemas so produzidos graas  modificao que esses rgos da fala impem  corrente de ar que sai dos pulmes. Lnguas h, 
entretanto, que se servem da corrente inspiratria (entrando o ar nos pulmes) para produzir fonemas, que so conhecidos pelo nome de cliques. Produzimos cliques quando fazemos 
os movimentos bucais, acompanhados da suco de ar na boca, para o beijo, o muxoxo e certos estalidos como o que serve para animar a caminhada dos cavalos, mas no os utilizamos 
como sons da fala em portugus.

Como se produzem os fonemas

Como se produzem os fonemas  A corrente de ar que vem dos pulmes passa pela traqueia e chega  sua parte superior que se chama laringe, conhecida vulgarmente como pomo de 
ado. Na laringe, a parte mais valiosa e mais complexa do aparelho fonador, se acham, horizontalmente, duas membranas mucosas elsticas,  maneira de lbios: as cordas vocais, 
por cujo estreito intervalo, denominado glote, a corrente de ar tem de passar para ganhar a faringe, e da, ou totalmente pela boca (fonemas orais), ou parte pela boca e parte 
pelas fossas nasais (fonemas nasais), chegar  atmosfera.  esta corrente expiratria que, modificada pelos rgos da fala,  responsvel pela produo dos fonemas.

As diferenas que se notam entre vozes diversas dos sexos, das idades e das pessoas, baseiam-se em geral nas dimenses da laringe.

Fonemas surdos e sonoros

Fonemas surdos e sonoros  Quando a corrente de ar se dirige  glote, esta pode encontrar-se aberta, fechada ou quase fechada. No primeiro caso, a corrente de ar passa livremente, 
sem provocar a vibrao das cordas vocais. O fonema que, nestas circunstncias, se produz  chamado surdo: /s/, /f/, /x/, /t/, /k/, etc. Se a glote est fechada ou quase fechada, 
a corrente de ar, ao forar a passagem, provoca a vibrao das cordas vocais, produzindo os fonemas sonoros. So sonoras todas as vogais e certas consoantes como /z/, /v/, 
/j/, /d/, /g/, etc.

Em muitos casos, podemos perceber a vibrao das cordas vocais, pondo de leve a ponta do dedo no pomo de ado e proferindo um fonema sonoro, como /z/, /v/, /j/, tendo o cuidado 
de no acompanh-lo de vogal. Sentimos nitidamente um tremular que denota a vibrao das cordas vocais. Se proferimos um fonema surdo, como /s/, /f/, /x/, com o cuidado apontado 
acima, no sentimos o tremular. Podemos ainda repetir a experincia tapando os ouvidos. S com os fonemas sonoros ouvimos um zumbido caracterstico da vibrao das cordas 
vocais.

Vogais e consoantes

Vogais e consoantes  A voz humana se compe de tons (sons musicais) e rudos, que o nosso ouvido distingue com perfeio. Caracterizam-se os tons, quanto s condies acsticas, 
por suas vibraes peridicas. Esta diviso corresponde, em suas linhas gerais, s vogais (= tons) e s consoantes (= rudos). As consoantes podem ser rudos puros, isto , 
sem vibraes regulares (correspondem s consoantes surdas), ou rudos combinados com um tom larngeo (consoantes sonoras) [BM.1, 20].

Quanto s condies fisiolgicas de produo, as vogais so fonemas durante cuja articulao a cavidade bucal se acha completamente livre para a passagem do ar. As consoantes 
so fonemas durante cuja produo a cavidade bucal est total ou parcialmente fechada, constituindo, assim, num ponto qualquer, um obstculo  sada da corrente expiratria.

Observao: S por suas condies acsticas e fisiolgicas de produo  que se distinguem as vogais das consoantes. Por imitao dos gregos, os antigos gramticos definiam 
a vogal pela sua funo na slaba: elemento necessrio e suficiente para formar uma slaba. E da chegavam  conceituao deficiente de consoante: fonema sem existncia independente, 
que s se profere com uma vogal. Sabemos de idiomas em que h slabas constitudas apenas de consoantes e em que uma consoante pode fazer as vezes de vogal [LR.1, 75-75].

Na lngua portuguesa a base da slaba ou o elemento silbico  a vogal; os elementos assilbicos so a consoante e a semivogal, que estudaremos mais adiante.

Classificao das vogais

Classificao das vogais  Classificam-se as vogais, segundo a Nomenclatura Gramatical Brasileira, de acordo com quatro critrios:

a) quanto  zona de articulao;

b) quanto  intensidade;

c) quanto ao timbre;

d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal.

a) Quanto  zona de articulao, as vogais podem ser mdia, anteriores e posteriores.

Com a boca ligeiramente aberta e a lngua na posio quase de repouso, proferimos o fonema /a/, que  o que exige menor esforo e constitui a vogal mdia. Se da passarmos 
 srie //  //  /i/, notaremos que a ponta da lngua se eleva, avanando em direo ao palato duro, o que determina uma diminuio da abertura bucal e um aumento da abertura 
da faringe. A srie //  //  /i/ constitui as vogais anteriores. Se passarmos da vogal mdia /a/ para a srie //  //  /u/, notaremos que o dorso da lngua se eleva, 
recuando em direo ao vu do paladar, o que provoca uma diminuio da abertura bucal e um arredondamento progressivo dos lbios. A srie //  //  /u/ forma as vogais posteriores.

Vogais Anteriores 2

Vogais Posteriores 3

Zonas de Articulao

b) Quanto  intensidade, as vogais podem ser tnicas ou tonas. Vogal tnica  aquela em que recai o acento tnico da palavra: av, paga, tmido.

Vogal tona  a inacentuada: av, paga, tmido. As vogais tonas podem estar antes da tnica (pretnicas): av, pagar, ou depois (postnicas): tmido.

Nos vocbulos de maior extenso fontica, mormente nos derivados e nos verbos seguidos de pronome tono, pode aparecer, alm da tnica, uma vogal de grande intensidade, a 
qual recebe o nome de vogal subtnica: polidamente, cegamente, louvar-te-ei.

c) quanto ao timbre, as vogais podem ser abertas, fechadas e reduzidas. Timbre  o efeito acstico resultante da distncia entre o dorso da lngua e o vu do paladar, funcionando 
a cavidade bucal como caixa de ressonncia. O timbre  o trao distintivo das vogais. Na vogal de timbre aberto, a lngua se acha baixa: /a/, //, //. Na vogal de timbre 
fechado, a lngua se eleva: //, //, /i/, /u. A vogal de timbre reduzido  proferida debilitada, anulando-se a oposio entre aberta e fechada. A distino entre abertas 
e fechadas s se d nas vogais tnicas e subtnicas; nas tonas desaparece a diferena entre // e //, // e //, e o /a/ reduzido  proferido com menos nitidez, como se 
pode depreender comparando-se os dois tipos em casa, em que o primeiro  aberto e o segundo, reduzido.

A gravura mostra a posio das vogais /a/, /u/ e /i/. Note-se o fechamento do canal bucal na articulao do /u/ e do /i/ com movimento da epiglote e elevao da lngua em 
direo ao palato [ER.1, 15].

Quase sempre no fim das palavras, as vogais tonas e e o se enfraquecem e soam, respectivamente, /i/ e /u/ 4. Assim temos sete vogais tnicas orais (/a/, //, //, /i/, //, 
//, /u/), cinco vogais tonas orais (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/) e trs vogais reduzidas orais (/a/, /i/, /u/). Tambm so reduzidas as vogais tonas nasais: antigo, sentar, 
limpeza, combate, fundar.5

Observaes:

1.) No temos no Brasil o a fechado oral tnico dos portugueses como em cada, para, mas.

2.) Na pronncia normal brasileira, as vogais nasais so fechadas ou reduzidas (estas quando tonas).

d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal, as vogais podem ser orais e nasais. So orais aquelas cuja ressonncia se produz na boca. H sete vogais orais tnicas (//, 
//, //, /i/, //, //, /u/), cinco orais tonas, por no haver aqui distino entre // e //, // e // (/a/, /e/, /i/, /o/, /u/) e trs reduzidas (/a/, /i/, /u/). So 
nasais as vogais que, em sua produo, ressoam nas fossas nasais. H cinco vogais nasais (//, /?/, /i/, //, /u/): l, canto, campina, vento, ventania, lmpido, vizinhana, 
conde, condessa, tunda, pronunciamos.  o fenmeno da ressonncia, e no da sada do ar, o que ope os fonemas orais aos nasais.

Quanto ao timbre, as nasais tnicas e subtnicas so fechadas e as tonas, reduzidas.

Observao: Na pronncia normal brasileira soam quase sempre como nasais as vogais seguidas de m, n e principalmente nh: cama, cana, banha, cena, fina, homem, Antnio, mido, 
unha. Assim no distinguimos as formas verbais terminadas em -amos e -emos do presente e do pretrito do indicativo: agora cantamos, ontem cantamos; agora lemos, ontem lemos.

Elevao da lngua: quinto critrio para classificao das vogais

Elevao da lngua: quinto critrio para classificao das vogais  A Nomenclatura Gramatical Brasileira no levou em conta a elevao gradual da lngua, o que distingue as 
vogais em: 1  vogal baixa: /a/; 2  vogais mdias com dois graus de elevao: //, // e //, //; 3  vogais altas: /i/, /u/. Entre as nasais desaparecem os dois graus de 
elevao das vogais mdias.

orais 6

/ i /

/ u /

Altas

/  /

/  /

Mdias

/  /

/  /

Mdias

/ a /

Baixa

nasais

/ i /

/ u/

Altas

/ ? /

/  /

Mdias

/  /

Baixa

Se no estabelecermos este quinto critrio para a classificao das vogais, teremos de pr num mesmo plano fonemas diferentes, como // e /u/, /?/ e /i/, o que no  correto.

quadro da classificao das vogais

Semivogais. Encontros voclicos: ditongos, tritongos e hiatos

Semivogais. Encontros voclicos: ditongos, tritongos e hiatos  Chamam-se semivogais as vogais i e u (orais ou nasais)7 quando assilbicas, as quais acompanham a vogal numa 
mesma slaba. Os encontros voclicos do origem aos ditongos, tritongos e hiatos. Representamos as semivogais i (e) por /y/ e u (o) por /w/.

Ditongo  o encontro de uma vogal e de uma semivogal, ou vice-versa, na mesma silaba: pai, me, gua, crie, mgoa, rei.

Sendo a vogal a base da slaba ou o elemento silbico,  ela o som voclico que, no ditongo, se ouve mais distintamente. Nos exemplos dados so vogais: pAi, me, guA, criE, 
mgoA, rEi.

Observao: Os ditongos, como os demais encontros voclicos, podem ocorrer no interior da palavra (dizem-se intraverbais: pai, vaidade) ou pela aproximao, por fontica sinttica, 
de duas ou mais palavras (dizem-se interverbais: certa idade, inculta e bela).

Os ditongos podem ser:

a) crescentes e decrescentes

b) orais e nasais

Crescente  o ditongo em que a semivogal vem antes da vogal: gua, crie, mgoa.

Decrescente  o ditongo em que a vogal vem antes da semivogal: pai, me, rei.

Como as vogais, os ditongos so orais (pai, gua, crie, mgoa, rei) ou nasais (me).

Os ditongos nasais so sempre fechados, enquanto os orais podem ser abertos (pai, cu, ri, ideia) ou fechados (meu, doido, veia).

Nos ditongos nasais, so nasais a vogal e a semivogal, mas s se coloca o til sobre a vogal: me.

Principais ditongos crescentes:

Orais

1) /ya/: glria, ptria, diabo, rea, nvea

2) /ye/: (= yi): crie, calvcie

3) /y/: dieta

4) /yo/: vrio, mdio, ureo, nveo

5) /y/: mandioca

6) /y/: piolho

7) /yu/: mido

8) /wa/: gua, quase, dual, mgoa, ndoa

9) /wi/: linguia, tnue

10) /w/: quiproqu

11) /w/: aquoso

12) /wo/ ( = uu): oblquo

13) /w/: coelho

14) /w/: equestre, goela

Observao: Em muitos destes casos pode ser discutvel a existncia de ditongos crescentes por ser indecisa e varivel a sonoridade que se d ao primeiro fonema. Certo  
que tais ditongos se observam mais facilmente na hodierna pronncia lusitana do que na brasileira, em que a vogal (= semivogal), embora fraca, costuma conservar sonoridade 
bastante sensvel [SA.2,17]. De qualquer maneira registre-se o descompasso entre a realidade fontica (ora hiato, ora ditongo) e a maneira invarivel de grafar mido com 
acento agudo no u, quer seja proferido como disslabo (e ditongo, portanto) ou como trisslabo (e hiato). Tambm palavras como srie, glria, que podem ser proferidas como 
disslabas (mais usual) ou trisslabas, no tm os encontros voclicos separados na diviso silbica: s-rie, gl-ria, em ambos os casos de pronncia.

Nasais: 1) /y/: criana
 2) /w/: quando
 3) /w/: frequente, quinqunio, depoente
 4) /wi/: arguindo, quinqunio, moinho

Os principais ditongos decrescentes so:

Orais: 1) /ay/: pai, baixo, traidor
 2) /ay/ (a fechado e, s vezes, nasalado): faina, paina, andaime
 3) /aw/: pau, cacaus, ao
 4) /y/: ris, coronis
 5) /y/: lei, jeito, fiquei
 6) /w/: cu, chapu
 7) /w/: leu, cometeu
 8) /iw/: viu, partiu
 9) /y/: heri, anzis
 10) /y/: boi, foice
 11) /ow/: vou, roubo, estouro
 12) /uy/: fui, azuis

Nasais

1) /y/: alemes, cibra

2) /w/: po, amaram (= amro)

3) /?y/: bem (= b?i), ontem (= ont?i)

4) /y/: pe, senes

5) /uy/: mui (= mui), muito (= muito)

Nota: Nos ditongos nasais decrescentes /?y/, /y/ e /w/ [cf. SS.3, 320, 18, onde vs rima com mes], a semivogal pode no vir representada na escrita. Escrevemos a interjeio 
hem! ou hein!, sendo, a rigor, a primeira grafia mais recomendvel.

Tritongo  o encontro de uma vogal entre duas semivogais numa mesma slaba. Os tritongos podem ser orais e nasais.

Orais

Nasais

1) /way/: quais, paraguaio

1) /ww/: mnguam, saguo, quo

2) /wey/: enxaguei, averigueis

2) /w?y/: delinquem, enxguem

3) /wiw/: delinquiu

3) /wy/: sagues

4) /wow/: apaziguou

Observaes:

1.) Nos tritongos nasais /ww/ e /w?y/ a ltima semivogal pode no vir representada graficamente: mnguam, enxguem.

2.) Entre portugueses, por no haver o maior relevo da primeira vogal  fato que se observa entre brasileiros , o grupo de vogal seguida de um ditongo pode constituir-se 
num tritongo: fiis, poeira, pio.

Hiato  o encontro de duas vogais em slabas diferentes por guardarem sua individualidade fontica: sada, caatinga, moinho. Isto se d porque a passagem da primeira para 
a segunda se faz mediante um movimento brusco, com interrupo da voz.8

Em portugus, como em muitas outras lnguas, nota-se uma tendncia para evitar o hiato, atravs da ditongao ou da crase.

Observaes :

1.) Desenvolvem-se um /y/ semivogal (smbolo chamado em gramtica iode) ou /w/ semivogal (smbolo chamado uau) nos encontros formados por ditongo decrescente seguido de vogal 
final ou ditongo tono: praia = prai-ia; cheia = chei-ia; tuxaua = tuxau-ua; goiaba = goi-ia-ba.

2.) Nos hiatos cuja primeira vogal for u e cuja segunda vogal for final de vocbulo (seguida ou no de s grfico), o desenvolvimento do uau variar de acordo com as necessidades 
expressionais ou as peculiaridades individuais 9: nua = nu-a ou nu-ua; recue = re-cu-e ou re-cu-ue; amuo = amu-o ou amu-uo.

3.) Os encontros ia, ie, io, ua, ue, uo finais, tonos, seguidos, ou no, de s, classificam-se quer como ditongos, quer como hiatos, uma vez que ambas as emisses existem 
no domnio da Lngua Portuguesa: hist-ri-a e hist-ria; s-ri-e e s-rie; p-ti-o e p-tio; r-du-a e r-dua; t-nu-e e t-nue; v-cu-o e v-cuo.10

4.) Autores h que tambm consideram hiato quando se trata de uma vogal e uma semivogal, como no caso de goiaba, joia, etc. Outros consideram dois ditongos: goi-ia-ba, joi-ia.

Nos encontros voclicos costumam ocorrer dois fenmenos: a direse e a sinrese.

Chama-se direse  passagem de semivogal a vogal, transformando, assim, o ditongo num hiato: trai-o = tra-i-o; vai-da-de = va-i-da-de; cai = ca-i.

Chama-se sinrese  passagem de duas vogais de um hiato a um ditongo crescente: su-a-ve = sua-ve; pi-e-do-so = pie-do-so; lu-ar = luar.

A sinrese  fenmeno bem mais frequente que a direse. A poesia antiga dava preferncia ao hiatismo, enquanto, a partir do sculo XVI, se nota acentuada predominncia do 
ditonguismo (sinrese).  claro que os poetas modernos continuaram a usar a direse, mormente como efeito estilstico-fnico para a nfase, a ideia de grandeza, etc. O conhecido 
verso de Machado de Assis aurola com quatro slabas acentua o tamanho descomunal ressaltado pela leitura lenta: Pesa-me esta brilhante aurola de nume...

Classificao das consoantes

Classificao das consoantes  De acordo com a Nomenclatura Gramatical Brasileira, classificam-se as consoantes de acordo com quatro critrios:

a) quanto ao modo de articulao;

b) quanto  zona de articulao;

c) quanto ao papel das cordas vocais.

d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal.

a) quanto ao modo de articulao, as consoantes podem ser oclusivas e constritivas, e estas se subdividem em fricativas, laterais, vibrantes e nasais. O obstculo que, na 
cavidade bucal, os rgos impem  corrente expiratria pode ser de dois tipos: ou os rgos da boca esto dispostos de tal modo que impedem completamente a sada do ar, ou 
permitem parcialmente que a corrente expiratria chegue  atmosfera. No primeiro caso, dizemos que as consoantes so oclusivas; no segundo, constritivas. As constritivas so 
fricativas quando a corrente expiratria, passando por entre os rgos que formam o obstculo parcial, produz um atrito  maneira de frico: /f/, /v/, /s/, /z/, /x/, /j/. 
So constritivas laterais quando a passagem da corrente expiratria, obstruda pela aproximao do pice ou dorso da lngua aos alvolos da arcada dentria superior ou ao 
palato, escapa pelos lados da cavidade bucal: /l/, /lh/. So constritivas vibrantes quando o pice da lngua contra os alvolos ou a raiz da lngua contra o vu do paladar 
executa movimento vibratrio rpido, abrindo e fechando a passagem  corrente expiratria: /r/ (simples) e /rr/ (mltipla). So constritivas nasais quando, pelo abaixamento 
do vu palatino e um abrimento do nasal, as consoantes ressoam nas fossas nasais. Temos trs consoantes nasais: a bilabial /m/, a linguodental /n/ e a palatal /nh/.

b) quanto  zona de articulao, as consoantes podem ser:

1) bilabiais (lbio contra lbio): /p/, /b/, /m/.

2) labiodentais (lbio inferior e arcada dentria superior): /f/, /v/.

3) linguodentais (lngua contra arcada dentria superior): /t/, /d/, /n/.

4) alveolares (lngua em direo ou contra os alvolos): /s/, /z/, /l/, /r/, /rr/.

5) palatais (dorso da lngua contra o cu da boca): /x/, /j/, /lh/, /nh/.

6) velares (raiz da lngua contra o vu do paladar): /k/, /g/.

Observaes:

1.) O /l/ inicial da slaba  nitidamente alveolar, enquanto o final  proferido relaxado, quase velar, mas tendo-se o cuidado de no faz-lo igual a u. Nas ligaes com 
a vogal inicial de outro vocbulo, soa como alveolar.

2.) O /rr/ alveolar pode ser proferido como velar, graas ao maior recuo da lngua.

3.) As linguodentais /t/ e /d/ seguidas de i podem palatalizar-se: tinta e digno podem soar /txinta/ e /djigno/. Evite-se o exagero destas palatalizaes.

c) quanto ao papel das cordas vocais, as consoantes podem ser surdas e sonoras.

Surdas: /p/, /f/, /t/, /s/, /x/, /k/.

Sonoras: /b/, /v/, /d/, /z/, /j/, /g/, /m/, /n/, /nh/, /l/, /lh/, /r/, /rr/.

So sonoras as consoantes vibrantes, nasais e o /l/ lateral.

d) quanto ao papel das cavidades bucal e nasal, as consoantes podem ser orais e nasais. So nasais /m/, /n/, /nh/.

As outras so orais.

quadro da classificao das consoantes

* Para fugir a uma oposio errnea surda/sonora/nasal, preferimos, ainda com a aquiescncia da NGB, colocar as nasais entre as constritivas. H autores que fazem das nasais 
uma classe  parte, ou as pem entre as oclusivas, critrios tambm defensveis.

Encontro consonantal

Encontro consonantal  Assim se chama o seguimento imediato de duas ou mais consoantes de um mesmo vocbulo. H encontros consonnticos pertencentes a uma slaba, ou a slabas 
diferentes. Os primeiros terminam por l ou r: li-vro; blu-sa; pro-sa; cla-mor; rit-mo; pac-to; af-ta, ad-mi-tir.

O encontro consonantal /cs/  representado graficamente pela letra x: anexo, fixo.

So mais raros em nossa lngua os seguintes encontros consonnticos encontrveis em vocbulos eruditos. Estes encontros so separveis, salvo os que aparecem no incio de 
vocbulos:

bd: lamb-da                ft: af-ta

bs: ab-so-lu-to            pn: pneu, pneu-m-ti-co

c: sec-o                  ps: psiu

dm: ad-mi-tir              pt: ap-to

gn: dig-no                   tm: ist-mo

mn: mne-m-ni-co      tn: t-ni-co

Tais encontros merecem especial cuidado porque, na pronncia despreocupada, tendem a constituir duas slabas pela intercalao de uma vogal:

advogado       e no       adivogado ou adevogado

absoluto         e no       abissoluto

admirar         e no        adimirar

afta                e no        fita

ritmo              e no        rtimo

pneu              e no        pineu / peneu

indigno          e no        indguino

O desejo de corrigir o engano leva muitas vezes  omisso de vogal de certos vocbulos:

adivinhar       e no        advinhar

subentender   e no        subtender

Dgrafo

Dgrafo  No se h de confundir dgrafo ou digrama com encontro consonantal. Dgrafo  o emprego de duas letras para a representao grfica de um s fonema: passo (cf. pao), 
ch (cf. x), manh, palha, enviar, mandar.

H dgrafos para representar consoantes e vogais nasais.11 Os dgrafos para consoantes so os seguintes, todos inseparveis, com exceo de rr e ss, sc, s, xc:

ch:    ch                xs:     exsudar transpirar

lh:     malha            rr:     carro

nh:    banha            ss:     passo

sc:     nascer           qu:    quero

s:     nasa            gu:    guerra

xc:     exceto

Para as vogais nasais:

am ou an:        campo, canto

em ou en:       tempo, vento

im ou in:          limbo, lindo

om ou on:        ombro, onda

um ou un:        tumba, tunda

Letra diacrtica

Letra diacrtica   aquela que se junta a outra para lhe dar valor fontico especial e constituir um dgrafo. Em portugus as letras diacrticas so h, r, s, c, , u para 
os dgrafos consonantais e m e n para os dgrafos voclicos: ch, carro, passo, quero, campo, onda.

Observao: Da se tiram as seguintes concluses aplicveis  anlise fontica:

1.) No h ditongo em quero;

2.) M e n no so aqui fonemas consonnticos nasais em caMpo, oNda, mas h autores que os classificam como consoantes, por no aceitarem a existncia de vogais nasais (Mattoso 
Cmara).

3.) Qu e gu se classificam como /k/ e /g/, respectivamente.

2  Fontica Expressiva ou Fonoestilstica

Os fonemas com objetivos simblicos

Os fonemas com objetivos simblicos  Muitas vezes utilizamos os fonemas para melhor evocar certas representaes.

 deste emprego que surgem as aliteraes, as onomatopeias e os vocbulos expressivos.

Aliterao

Aliterao   a repetio de fonema, voclico ou consonntico, igual ou parecido, para descrever ou sugerir acusticamente o que temos em mente e expressar, quer por meio 
de uma s palavra quer por unidades mais extensas.

O sossego do vento ou o barulho ensurdecedor do mar ganham maior vivacidade atravs da aliterao dos seguintes versos:

As asas ao sereno e sossegado vento (utilizao do fonema fricativo alveolar sonoro e surdo).

Bramindo o negro mar de longe brada (utilizao principal dos fonemas b, r e d).

A aliterao tanto pode servir ao estilo solene e culto, como nos exemplos referidos, como pode estar presente nas manifestaes de espontnea expressividade popular, conforme 
se v nos provrbios, nas frases feitas, nos modos de dizer populares: so e salvo, cara ou coroa, de cabo a rabo, etc. O que importa acentuar  que a aliterao mais ocorre 
na exteriorizao psquica e no apelo do que na comunicao intelectiva.

Onomatopeia

Onomatopeia   o emprego de fonema em vocbulo para descrever acusticamente um objeto pela ao que exprime.

So frequentes as onomatopeias que traduzem as vozes dos animais e os sons das coisas:

O tique-taque do relgio, o marulho das ondas, o zunzunar da abelha, o arrulhar dos pombos.

Vocbulo expressivo

Vocbulo expressivo   o que no imita um rudo, mas sugere a ideia do ser que se quer designar com a ajuda do valor psicolgico de seus fonemas: romper, tagarelar, tremeluzir, 
jururu, ziriguidum, borogod.

Apndice: Encontros de fonemas que produzem efeito desagradvel ao ouvido (coliso, eco, hiato e cacofonia)

apndice

Encontros de fonemas que produzem efeito desagradvel ao ouvido  Muitas vezes, certos encontros de fonemas produzem efeito desagradvel que repugna o ouvido e, por isso, 
cumpre evitar, sempre que possvel. Esses defeitos so mais perceptveis nos textos escritos porque a pessoa que os l nem sempre faz as pausas e as entonaes que o autor 
utilizou, com as quais diminui ou at anula os encontros de fonema que geram sons desagradveis.

Entre os efeitos acsticos condenados esto: a coliso, o eco, o hiato e a cacofonia.

Coliso   o encontro de consoantes que produz desagradvel efeito acstico:

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! no seja j [CA.1, 73].

s vezes a omisso de um substantivo aproxima duas preposies de que resulta coliso, fato que os escritores no se esforam por evitar:

Tenho ali na parede o retrato dela, ao lado do do marido, tais quais na outra casa [MA.3, 21]

A voz da nova mestra era doce, no daquela doura da de sua me, um canto de pssaro mais que uma voz humana [JL.1, 13].

Tambm quase sempre no se evita a coliso do tipo de no nmero, na nave, na noite, na nossa vida, etc. Pode-se, sem ser obrigatrio, fugir  coliso mediante substituio 
de no, na, num, etc. por em o, em a, em um, etc.: em o nmero, em a nave.

Eco   a repetio, com pequeno intervalo, de palavras que terminam de modo idntico:

Estas palavras subordinam frases em que se exprime condio necessria  realizao ou no realizao da ao principal.

Hiato  O hiato de vogais tnicas torna-se desagradvel principalmente quando formado pela sucesso de palavras:

Hoje h aula.

Cacofonia ou cacfato   o encontro de slabas de duas ou mais palavras que forma um novo termo de sentido inconveniente ou ridculo em relao ao contexto:

Ora veja como ela est estendendo as mozinhas inexperientes para a chama das velas... [CBr.1, 102].

heri da nao, nosso hino, boca dela, nunca que estuda

Deve-se evitar, tanto quanto possvel, que uma palavra comece pela mesma slaba com que a anterior acabe: torre redonda, por razo, por respeito, pouca cautela, nunca casavam, 
ignora-se se se trata disso.

Cuidado maior h de se ter se a juno lembra palavra pouco delicada: o Tijuca ganhou, o jogador marca gol, to comuns na imprensa falada e escrita.

A leitura do texto em voz alta, antes de sua divulgao, surpreender muitos casos de cacfatos.

 oportuna a lio de Said Ali:

Repara-se, hoje, com certo exagero, na cacofonia resultante da juno da slaba terminal de um vocbulo com a palavra ou parte da palavra imediata. No se liga, entretanto, 
maior importncia  cacofonia quando esta se acha dentro de um mesmo vocbulo, sendo formada por algumas das suas slabas componentes. O mal aqui  irremedivel, pois que 
expresses no se dispensam, nem se substituem. Muitas vezes, parece a cacofonia menos ridcula do que a vontade de perceb-la... O estudante evite, sempre que puder, semelhantes 
combinaes de palavras, assim como quaisquer outras de onde possam nascer uns longes de cacofonia, e no se preocupe com descobri-los nos outros. [SA.1, 306-7]

B) Ortopia ou Ortoepia

Ortopia  a parte da gramtica que trata da correta pronncia dos fonemas.

Preocupa-se no apenas com o conhecimento exato dos valores fonticos dos fonemas que entram na estrutura dos vocbulos, considerados isoladamente ou ligados na enunciao 
da orao, mas ainda com o ritmo, a entoao e expresso convenientes  boa elocuo.

Vogais

Vogais  Quanto  emisso das vogais, na pronncia normal brasileira, observemos que:

a) So fechadas as vogais nasais; por isso no distinguimos as formas verbais terminadas em -amos e -emos do pres. e pret. perf. do indicativo da 1. e 2. conjugaes: Ontem 
trabalhamos e agora trabalhamos.

b) Soam muitas vezes como nasais as vogais seguidas de m, n e principalmente nh: cama, cana, banha, cena, fina, Antnio, unha;

Observao: Sem nasalidade proferem-se as vogais desses e de vrios outros vocbulos: emitir, emissrio, eminente, energia, enaltecer, Enaldo, etc.

c) Soam quase sempre como orais as vogais precedidas de m, n ou nh: mata, nata, companhia, milho. Assim, no tem razo lingustica a pronncia nasalada do mas /ms/. Entretanto, 
mui e muito se proferem /mui/, /muito/.

d) Soam igualmente o a artigo, a preposio, a pronome e o  resultante da crase. No se alonga o , salvo, muito excepcionalmente, se houver necessidade imperativa, para 
a inteligncia da frase, caso em que o resultante da crase poder ser pronunciado com certa tonicidade e nfase (Normas, 481).

e) So reduzidas as vogais e e o tonas finais, que soam /i/ e /u/, respectivamente: frente, carro.

f) So oscilantes /e/, /i/, /?/, /i/, /o/, /u/, //, /u/, reduzidos pretnicos em numerosos vocbulos, oscilao que corresponde a uma gradao de frequncia de meio cultural, 
de nvel social ou de tenso psquica do indivduo falante (Normas, 482): pedir /pedir/ ou /pidir/; estudo /estudu/ ou /istudu/; sentir /sentir/ ou /sintir/; costura /costura/ 
ou /custura/; compadre /compadre/ ou /cumpadre/. Neste caso esto as preposies com e por que, salvo nas situaes enfticas, devem ser pronunciadas /ku/ e /pur/. Fazem exceo 
muitos vocbulos eruditos e os compostos de entre: embriogenia, hendade, hexgono, entremeio [AN.1, 14].

g) Em linguagem cuidada, evita-se a oscilao de que anteriormente se falou, quando tem valor opositivo, isto , serve para distinguir palavras de significado diferente: eminente 
/ iminente; emigrar / imigrar; descrio / discrio.

h) u depois de g ou q ora  vogal ou semivogal (e a se profere), ora  componente de dgrafo (e a no se pronuncia).

Entre outras deve ser proferido nas seguintes palavras depois do g: aguentar, ambiguidade, apaziguar, arguio, arguir, bilngue, consanguneo, contiguidade, ensanguentado, 
exiguidade, lingueta, linguista, redarguir, sagui ou saguim, unguento, unguiforme.

No se deve proferir o u depois do g em: distinguir, exangue, extinguir, langue, pingue (= gordo, frtil, rendoso).

 facultativo pronunci-lo em: antiguidade; sanguneo; sanguinrio; sanguinoso.

Profere-se o u depois do q em: aqucola, consequncia, delinquncia, delinquir, equestre, equevo, equidistante, equino (= cavalar), equitativo, equipolente (tambm equipolente), 
frequncia, iniquidade, loquela, obliquidade, quercina, quingentsimo, quinqunio, quiproqu, sequncia, Tarqunio, tranquilo, ubiquidade.

No se profere o u depois do q em: adquirir, aniquilar, aqueduto, equilbrio, equincio, equipar, equiparar, equitao, equvoco, extorquir, inqurito, inquirir, sequioso, 
qurulo, questo, quibebe.

 facultativo pronunci-lo em: antiqussimo, equidade, equivalente, equivaler, liquidao, liquidar, lquido, liquidificador, retorquir.

Diz-se quatorze ou catorze, sendo a primeira mais generalizada entre brasileiros.

i) Em muitos vocbulos h dvidas quanto ao timbre das vogais. Recomendamos timbre aberto para o e em: acerbo, Aulete, anelo, badejo, benesse, blefe, caterva, cedro, cerdo, 
cetro, cerne, cervo, coeso, coevo, coleta, cogumelo, confesso, corbelhe, duelo, espectro, equevo, flagelo, ileso (tambm ileso com e fechado), indefesso, besta (arma), doesto, 
lerdo, medievo, elmo, obsoleto, paredro, prelo, primevo, relho, septo, servo, Tejo, terso.

 fechado em: acervo (tambm acervo com e aberto), achega, adejo, adrede, alameda, amuleto, anacoreta, arabesco, aselha, bacelo, besta (animal de carga), bissexto, bofete, 
caminhoneta, cerebelo, cateto, cerda, destra, destro, devesa, defeso, dueto, entrevero, escaravelho, efebo, extra, fechar (e suas formas fecho, fechas, feche, etc.), ginete, 
grumete, indefeso, interesse (s.), ledo, lampejo, labareda, magneto, palimpsesto, panfleto, pez, quibebe, reses, retreta, Roquete, sobejo, veneta, vereda, vinheta, versalete, 
vespa, vedeta, verbete, xerez, xepa. As autoridades recomendam o timbre fechado em pese (na expresso em que pese a), centopeia e colmeia (mas a pronncia com timbre aberto 
 generalizada entre ns). Diz-se topete com e aberto ou fechado; vedete  mais proferido com e aberto no Brasil.

Tem timbre aberto o o tnico de: amorfo, canoro, (de) envolta, dolo, forum, hissope, imoto, inodoro, manopla, meteoro, molho (feixe), noto (vento sul), opa (capa), piloro, 
probo, sinagoga, suor, troo (coisa), trombose, tropo.

Tem timbre fechado o o tnico de: aboio, alcova, apodo, alforje, algoz, boda, bodas, cochicholo, chope, cachopa, choldra, ciclope (tambm aberto), cora, desporto, filantropo, 
foro (jurisdio), loa, logro, lorpa, loto (jogo tambm aberto), Mausolo, malogro, mirolho, misantropo, molosso, odre, serdio, teor, torpe, torso, torvo, transbordo, 
troo (parte), trolha, volvo, zarolho, zorro.

j) Quanto aos ditongos, cumpre notar: ai, ei e ou devem guardar, na pronncia cultivada, sua integridade, no se exagerando o valor do i ou u, nem os eliminando, como o faz 
a modalidade distensa: caixa, queijo, ouro.

Soa como ditongo nasal o a slaba tona final -am: amam.

Soam como ditongo nasal ?i as slabas -em, -m, -en, -ens de muitos vocbulos: bem, vem; vintm, ningum; vens, homens; armazns, parabns.

Normalmente ditongamos, pelo acrscimo de um i, as vogais tnicas finais seguidas de -z ou -s. Assim no fazemos a diferena entre ps, paz e pais; ms e mais; rapaz e jamais; 
vs e mes. Os poetas brasileiros nos do bons exemplos destas ditongaes.

S por imitao dos poetas lusitanos (porque dizem ty), entre os brasileiros, a rima tem e me aparece s vezes, como em Casimiro de Abreu:

O pas estrangeiro mais belezas
 Do que a ptria, no tem;
E este mundo no val um s dos beijos
To doces duma me. [SS.4, 73]

Soam como ditongo, e no como hiato: gratuito, fluido, fortuito, arraigar, entre outros.

l) Quanto aos hiatos observemos que se desenvolve um i ou u semivogais nos encontros formados por ditongo decrescente seguido de vogal final ou ditongo tono: praia prai-ia; 
tuxaua tuxau-ua; goiaba goi-iaba; boiem boi-iem (cf. Normas, 486).

O mesmo desenvolvimento das referidas semivogais nos hiatos cuja primeira vogal seja i ou u tnicos e cuja segunda vogal seja final de vocbulo, variar de acordo com as 
necessidades expressionais ou as peculiaridades individuais (Normas, 485-6): via: vi-a ou vi-ia; lu-a: lu-a ou lu-ua.

Consoantes

Consoantes  Soam levemente as consoantes b, c, d, f, g, s, t quando finais de vocbulos: sob, Moab, Isaac, Cid, Uf, Gog, frceps, Garrett, Laet.

Nos vocbulos eruditos as terminaes tonas -ar, -er, -en, -ex, -on devem guardar sua integridade em pronncia: aljfar, certmen (tambm certame), esfncter, ndex, clon, 
nmen (tambm nume), regmen (tambm regime).

O l final de slaba  proferido relaxado, quase velar, mas tendo-se o cuidado de no faz-lo igual a u: nacional. Na lngua literria dos romnticos, mais em poesia, registra-se 
a troca do l por r nos grupos bl, cl, fl, pl, de algumas palavras: neblina / nebrina; clina / crina; flauta / frauta; plantar / prantar, etc.

Na palavra sublinhar e derivados o l deve ser pronunciado separadamente do b. Entre portugueses ouve-se como sublime.

O r mltiplo alveolar pode ser proferido como velar, graas ao maior recuo da lngua, e at com articulao dorso-uvular (portanto mais carregado ainda), embora as Normas 
no a recomendem na pronncia cuidada: mar, avermelhar. Nas palavras abrupto, ab-rogar, ad-rogar, sub-rogar, e derivados, o r deve ser pronunciado mltiplo e separado, isto 
, sem fazer grupo com a consoante anterior.

O m final pode guardar sua integridade de pronncia, no nasalizando o e anterior, no vocbulo totem, admitindo a grafia tteme. Em bem-amado e bem-aventurado, nasaliza o 
e anterior, e no se liga ao a seguinte. Diz-se infligir, e no inflingir. Em mancheia, a slaba inicial ouve-se /m/; em mo-cheia ouve, naturalmente, /mu/. Em outros casos, 
temos facultativa a nasalizao: Roraima, Jaime, paina.

As linguodentais d e t, seguidas de i, podem palatizar-se, evitando-se, entretanto, o exagero (articulao africada linguopalatal): dia, tia.

O s soa aproximadamente como se fora j, mas sem exagero, antes de b, d, g, j, l, m, r e v: desjejum, deslizar, esmo, asno, esbarrar, esdrxulo, engasgar, asno, desregrar, 
desvo. Como bem acentua Antenor Nascentes [AN.1, 27], em outros pontos do pas o s, nestes casos, soa aproximadamente como /z/.

Antes de c, f, p, q, t, x e ainda no fim de vocbulo que no se ligue ao seguinte, o s tem som prximo de /x/: descampado, esfregar, respeito, esquivo, deste, desxadrezar. 
Em outros pontos do pas, segundo o autor anteriormente citado, o s nestas circunstncias  sibilante, como na palavra selva.

Tem o som de /z/ entre vogais nos compostos do prefixo trans (transatlntico, transao, transitivo, etc.) e na palavra obsquio e derivados. Em transe (que se grafa tambm 
trance), subsdio, subsidiar, subsistir, subsistncia e outros da mesma famlia, o s pode soar como sibilante (como em selva) ou como /z/. Se o elemento a que se prefixa trans- 
comea por s, no se duplica esta consoante que ser proferida como sibilante: Transilvnia e derivados, transiberiano. Com o prefixo ob seguido a elemento comeado por s, 
este soa como sibilante: obsesso, obsidiar, etc. No final -simo (de vigsimo, trigsimo, etc.) soa como /z/.

Escrevendo-se aritmtica (com t),  mais usual proferir esta consoante. Pode-se ainda grafar arimtica.

X tem quatro valores: 1) fricativo palatal como em xarope; 2) fricativo alveolar sonoro como em exame; 3) fricativo alveolar surdo (= ss) como em auxlio; 4) vale por /ks/ 
e /kz/ como em anexo e hexmetro.

X soa /z/ nas palavras: exao, exagero, exalar, exaltar, exame, exangue, exarar, exasperar, exato, exautorar, executar, xedra, exegese, exegeta, exemplo, exquias, exequvel, 
exercer, exerccio, exrcito, exaurir, exibir, exigir, exilar, exlio, exmio, existir, xito, xodo, exgeno, exonerar, exorar, exorbitar, exorcismo, exrdio, exornar, extico, 
exuberar, exuberante, exultar, exumar, inexorvel.

Soa como /s/ em: auxlio, mxima, Maximiliano, Maximino, mximo, prximo, sintaxe, trouxe, trouxera, trouxer.

Soa como /ks/ ou /kz/, conforme o caso, em: afluxo, anexo, axila, xis, aximetro, complexo, convexo, crucifixo, doxologia, fixo, flexo, fluxo, hexmetro (tambm soa como 
/z/), hexaedro, hexgono (tambm soa como /z/), hexasslabo, ndex, intoxicar, lxico, maxilar, nexo, mxime, nix, ortodoxo, xido, oximoro, prolixo, oxignio, paradoxo, 
reflexo, sexagenrio, sexagsimo, sexo, slex, trax, txico.

 proferido indiferentemente como /ks/ ou /s/ em: apoplexia, axioma e defluxo.

Vale por /s/ no final de: clix, Flix, fnix e na locuo adverbial a flux.

O z em fim de palavra que no se ligue  seguinte, soa levemente chiado: luz, conduz.

Entre os casos particulares, so de notar:

 o ch em Anchieta e derivados soa chiado;

 o cz de czar (que tambm pode se escrever tzar) deve ser proferido como /ts/; o lh de Alhambra no constitui dgrafo como em malha; deve-se proferir o vocbulo como se no 
houvesse o h;

 o w do nome Darwin e dos derivados (darwinismo, darwinista, etc.) soa como /u/.

Sc e xc soam como /s/ em palavras como nascer, descer, crescer, excelncia, exceto, excelso, excdio, exciso, excita.

Os encontros consonnticos devem ser pronunciados com valores fonticos prprios, sem intercalao de e ou i: pseudnimo, pneumtico, mnemnico, apto, elipse, absoluto, admisso, 
adjetivo, ritmo, afta, indigno, recepo, advogado, accessvel (ao lado de acessvel), seco (ao lado de seo), samnita, sublinhar (b-li), subliminar (b-li).

Ligao dos vocbulos

Ligao dos vocbulos  Cuidado especial merece a boa articulao dos fonemas, mormente finais e iniciais, na sequncia dos vocbulos, desde que uma pausa no os separe.

a) Vogais ou ditongos finais de vocbulo com vogais ou ditongos iniciais de vocbulo

Quando a palavra termina por vogal tnica e o vocbulo seguinte comea com vogal ou ditongo tnicos, normalmente se respeita o hiato interverbal: ali h, l houve, li ontem.

Se a vogal final  tnica e o vocbulo seguinte comea por vogal ou ditongo tonos, proferimos normalmente o hiato; mas pode ocorrer, muitas vezes, a ditongao se a vogal 
tona for i ou e ou u ou o:

segui aquela; j ouvi, l ironizei, v umedecer.

Observao: Evita-se a ditongao quando da resultar uma sequncia de slabas tnicas: bon usado, l iremos.

Se a vogal final  tona e o vocbulo seguinte comea por vogal tnica, normalmente se respeita o hiato: essa hora, terreno rido.

Neste caso pode ainda ocorrer a fuso (crase) das duas vogais se forem idnticas (essa fuso produz certo alongamento da vogal indicada aqui pelo mcron  ), ou a ditongao, 
se a vogal tona final for i, e ou u, o:

terra rida: ter / ra /  / rida          ou           ter / ra / ri / da

esse ano: es / se / a / no                 ou           es / sea / no.

Observao: Chama-se crase a fuso de dois ou mais sons iguais num s.

Se a vogal final e a inicial do vocbulo seguinte so tonas, pode ocorrer hiato, ditongo, crase ou eliso.

Observao: Eliso  o desaparecimento de uma vogal final tona em virtude do contato com a vogal inicial do vocbulo seguinte.

1) haver hiato, fuso ou eliso se a vogal tona final for a e a inicial for a ou :

2) haver hiato ou eliso se a vogal tona final for a e a vogal inicial e, ?, o, :

3) haver hiato, ditongo ou eliso se a vogal tona final for a e a inicial i (e), i (?), u (o), u ():

4) haver hiato ou ditongo se a vogal tona final for i (e) e a inicial qualquer uma, exceto i (e):

5) haver hiato, crase ou eliso se a vogal tona final for i (e) e a inicial i (e) ou i (?):

6) haver hiato, ditongo ou eliso se a vogal tona final for u (o u):

7) haver hiato, crase ou eliso se a vogal final for u (o) e a inicial u:

Observaes:

1.) Ocorrem os fenmenos acima apontados com os vocbulos iniciados por ditongos decrescentes, por iniciar por vogal. Em vez de ditongo, teremos tritongo:

2.) A preposio para pode reduzir-se a pra (e no pra), hoje usada at entre literatos. Esta forma, quando seguida do artigo o, a, os, as e com ele combinada,  grafada, 
respectivamente, pro, pra (para a), pros, pras.

3.) Pelo se reduz a plo (mais comum em Portugal), forma que, combinada com o artigo ou pronome o, a, os, as,  grafada plo, pla, plos, plas. Entre portugueses ouve-se ainda 
pro e pros com o aberto.

4.) A preposio com pode ter a nasalidade enfraquecida e combinar-se com o, a, os, as, dando origem s formas co, ca, cos, cas, empregadas mais com frequncia na linguagem 
familiar e vulgar, de Portugal.  o que se chama ectlipse.

b) Consoante final de vocbulo com fonema inicial de vocbulo

A consoante final de uma palavra seguida de vogal inicial (ou semivogal), sem pausa intermediria, deve ser proferida como se fosse intervoclica, isto , liga-se a uma vogal 
obedecendo s normas j estabelecidas:

De um sentir?aventurado

 talvez?a voz mimosa

Gentil?infante, engraado

Que ds?honra e valor

A consoante final b (em sob, por exemplo) seguida de outra consoante inicial deve ser proferida sem aparecimento de um i ou e intermdio:

Sob luzes desperana

Sob fria

Se o vocbulo seguinte comea por vogal (ou semivogal), pode o b final ligar-se silabicamente a ela ou direta ou com apoio de i ou e (reduzido), o que  mais comum entre ns.

Sob os cus (so-bos-cus ou so-bios-cus).

Quando a consoante que termina o vocbulo  igual  que inicia o vocbulo seguinte (o que ocorre com l ou r), ouvem-se os dois fonemas:

Incrvel lbia (in-cri-vel-l-bia)

Temor repentino (te-mor-re-pen-ti-no).

O s final soa aproximadamente como se fora /j/, mas sem exagero, em ligao com vocbulo iniciado por b, d, g, j, l, m, n, r, v e z, ouvindo-se os dois fonemas:

Os braos, os dedos, as gengivas, dois jeitos, as luzes, os meninos, as nuvens, os ratos, os ventos, os zumbidos.

O s final soa aproximadamente como se fora /x/, mas sem exagero, em ligao com vocbulo iniciado por c, f, p, q, s, t, x e ch, ouvindo-se os dois fonemas:

trs cadernos, os felizes, as pessoas, as queixas,

as secas, os tempos, os xaropes, os chs.

As consoantes x e z finais so tratadas como /s/ final, nas ligaes:

faz medo (x = j), faz calor (z = x).

O n final de vocbulos, como cnon, on, cclotron, deve ser proferido sem nasalizar fortemente a vogal anterior, conforme vimos; nas ligaes com outro vocbulo, guarda este 
valor quando  seguido de consoante: cnon bblico.

Seguido de vogal (ou semivogal) liga-se silabicamente a esta, como se fosse inicial de slaba; cnon antigo.

O m final de bem-aventurado, bem-amado e semelhantes nasaliza a vogal anterior, no se ligando  seguinte, como se fosse inicial de slaba.

Quando o indefinido ou numeral uma  seguido de vocbulo comeado por m no se deve proferir o m, soando, portanto, ua, forma com que, s vezes, aparece grafado (evite-se 
a forma ua):

uma mensagem, uma mo.

Ortografia e Ortopia

Ortografia e Ortopia  Certos hbitos de grafia tendentes a preservar letras gregas e latinas que no constituem fonemas em portugus acabaram levando a que tais letras passassem 
a ser erradamente proferidas. J vimos o caso do dgrafo sc de nascer, piscina, etc.  o que ocorre tambm com o latim phlegma que passou ao portugus fleuma, fleima. Por 
motivo etimolgico, persistem as grafias errneas fleugma, fleugmtico, onde o g no deve ser proferido, mas o  por influncia da grafia.

Outras ms solues do sistema grfico favorecem erros de pronncia, como ocorre com sublinhar (b-li), abrogar, abrupto, que j se ouvem como se a houvesse grupo consonantal: 
su - bli - nhar.

C) Prosdia

Prosdia  a parte da fontica que trata da correta acentuao e entonao dos fonemas.

A preocupao maior da prosdia  o conhecimento da slaba predominante, chamada tnica.

Slaba

Slaba   um fonema ou grupo de fonemas emitido num s impulso expiratrio.

Em portugus, o elemento essencial da slaba  a vogal.

Quanto  sua constituio, a slaba pode ser simples ou composta, e esta ltima aberta (ou livre) ou fechada (ou travada).

Diz-se que a slaba  simples quando  constituda apenas por uma vogal: e, h, ah!

Slaba composta  a que encerra mais de um fonema: ar (vogal + consoante), lei (consoante + vogal + semivogal), vi (consoante + vogal), ou (vogal + semivogal), mas (consoante 
+ vogal + consoante).

A slaba composta  aberta (ou livre) se termina em vogal: vi;  fechada (ou travada) em caso contrrio, incluindo-se a vogal nasal, porque a nasalidade vale por um travamento 
de slaba: ar, lei, ou, mas, um.

Quanto ao nmero de slabas, dividem-se os vocbulos em:

a) monosslabos (se tm uma slaba): , h, mar, de, d;

b) disslabos (se tm duas slabas): casa, amor, dars, voc;

c) trisslabos (se tm trs slabas): cadeira, tomo, rpido, cmodo;

d) polisslabos (se tm mais de trs slabas): fontica, satisfeito, camaradagem, incovenientemente.

Quanto  posio, a slaba pode ser inicial, medial e final, conforme aparea no incio, no interior ou no final do vocbulo:

fo

/

n

/

ti

/

ca

inicial

medial

medial

final

Quantidade

Quantidade   a durao da vogal e da consoante. Distinguem-se as vogais e consoantes breves (se a pronncia  rpida) das vogais e consoantes longas (se a pronncia  demorada). 
Assinalamos a vogal breve com o sinal ( ? ) que se denomina braquia ou brquia, e a vogal longa com o sinal (  ) chamado mcron: a (a breve), a (a longo).

H lngua em que a quantidade desempenha importante papel, para distinguir vocbulos e formas gramaticais, como em latim, em ingls ou alemo. Em latim, rosa (com a breve) 
no tem a mesma aplicao gramatical de rosa (com a longo), distinguindo-se, pela quantidade, o nominativo do ablativo, por exemplo. Em ingls xip e xip (que se escrevem 
ship e sheep) significam, respectivamente, navio e carneiro [SA.2, 15]. Em latim, os (com o breve) significa osso; com o longo, os significa boca.

Em portugus, a quantidade  pouco sentida e no exerce notvel papel na caracterizao e distino dos vocbulos e formas gramaticais. Em geral, so mais rpidas as vogais 
seguidas de consoante surda (lato / lado) ou de r vibrante mltipla (carro / caro). S excepcionalmente alongamos vogais e consoantes, como recursos estilsticos para imprimir 
nfase, e constitui um dos grandes auxiliares da oratria:

Se pudssemos, ns que temos experincia da vida, abrir os olhos dessas mariposinhas tontas ... Mas  intil. Encasqueta-se-lhes na cabea que o amor, o amoor, o amooor  
tudo na vida, e adeus [ML.1, 147].

BARbaridade!

Acentuao

Acentuao   o modo de proferir um som ou grupo de sons com mais relevo do que outros.

Este relevo se denomina acento. Diz-se que o acento  de intensidade (acento de fora, acento dinmico, acento expiratrio ou icto), quando o relevo consiste no maior esforo 
expiratrio. Diz-se que o acento  musical (acento de altura ou tom), quando o relevo consiste na elevao ou maior altura da voz.

O portugus e as demais lnguas romnicas, o ingls, o alemo, so lnguas de acento de intensidade; o latim e o grego, por outro lado, possuem acento musical.

O acento de intensidade se manifesta no vocbulo considerado isoladamente (acento vocabular) ou ligado na enunciao da frase (acento frsico).

Acento de intensidade

Acento de intensidade  Numa palavra nem todas as slabas so proferidas com a mesma intensidade e clareza. Em slida, barro, poderoso, material, h uma slaba que se sobressai 
s demais por ser proferida com mais esforo muscular e mais nitidez e, por isso, se chama tnica: slida, barro, poderoso, material. As outras slabas se dizem tonas e podem 
estar antes (pretnicas) ou depois (postnicas) da tnica:

po



de



ro



so

tona

tona

tnica

tona

pretnica

pretnica

postnica

Dizemos que nas slabas fortes repousa o acento tnico do vocbulo (acento da palavra ou acento vocabular).

Existem ainda as slabas semifortes chamadas subtnicas que, por questes rtmicas, compensam o seu afastamento da slaba, tnica, fazendo que se desenvolva um acento de menor 
intensidade  acento secundrio. Delas nos ocuparemos mais adiante.

Posio do acento tnico

Posio do acento tnico  Em portugus, quanto  posio do acento tnico, os vocbulos de duas ou mais slabas podem ser:

a) oxtonos: o acento tnico recai na ltima slaba: material, principal, caf;

b) paroxtonos: o acento recai na penltima slaba: barro, poderoso, Pedro;

c) proparoxtonos: o acento tnico recai na antepenltima slaba: slida, felicssimo.

Observaes: Em estudvamo-lo, o acento tnico aparece na pr-antepenltima slaba, porque os monosslabos tonos formam um todo com o vocbulo a que se ligam foneticamente. 
 por isso que f-lo  paroxtono e admiras-te, proparoxtono.

Em portugus, geralmente a slaba tnica coincide com a slaba tnica da palavra latina de que se origina.

H vocbulos, como os que vimos at agora, que tm individualidade fontica e, portanto, acento prprio, ao lado de outros sem essa individualidade. Ao serem proferidos acostam-se 
ou ao vocbulo que vem antes ou ao que os segue. Por isso, so chamados clticos (que se inclinam), e sero proclticos se se inclinam para o vocbulo seguinte (o homem, eu 
sei, vai ver, mar alto, no viu) ou enclticos, se para o vocbulo anterior (vejo-me, dou-a, fiz-lhe).

Os clticos so geralmente monossilbicos que, por no terem acento prprio, tambm se dizem tonos. Os monossilbicos de individualidade fontica se chamam tnicos.

Alguns disslabos podem ser tambm clticos ou tonos: para (reduzido a pra) ver, quero crer, quero porque quero.

A tonicidade ou atonicidade de monosslabos e de alguns disslabos depende sempre do acento da frase.

Acento de intensidade e significado da palavra

Acento de intensidade e significado da palavra  O acento de intensidade desempenha importante papel lingustico, decisivo para a significao da palavra. Assim, sbia  adjetivo 
sinnimo de erudita; sabia  forma do pretrito imperfeito do indicativo do verbo saber; sabi  substantivo designativo de conhecido pssaro.

Acento principal e acento secundrio

Acento principal e acento secundrio  Em rapidamente, a slaba ra possui um acento de intensidade menos forte que o da slaba men, e se ouve mais distintamente do que as 
tonas existentes nas palavras. Dizemos que a slaba men contm o acento principal e ra o acento secundrio da palavra. A slaba em que recai o acento secundrio chama-se, 
como vimos, subtnica.

Geralmente ocorre o acento secundrio na slaba radical dos vocbulos polissilbicos derivados, cujos primitivos possuam acento principal: rpido  rapidamente. H de se prestar 
ateno em certos enganos de pronncia de vocbulos com acento secundrio: por exemplo, respeita-se o hiato de tardiamente, e no se acentue fortemente a slaba inicial: trdiamente.

Acento de insistncia e emocional

Acento de insistncia e emocional  O portugus tambm faz emprego do acento de intensidade para obter, com o chamado acento de insistncia, notveis efeitos. Entra em jogo 
ainda a quantidade da vogal e da consoante, pois, quando se quer enfatizar uma palavra, insiste-se mais demoradamente na slaba tnica. Os escritores costumam indicar na grafia 
este alongamento enftico repetindo a vogal da slaba tnica:

Os dois garotos, porm, esperneiam com a mudana de me:

 Mentira!... Mentiiiiira!... Mentiiiiiiiiiira!  berra cada um para seu    lado [HC.1, 32].

encasqueta-se-lhes na cabea que o amor, o amoor, o amooor  tudo na vida e adeus [ML.1, 147].

O acento de insistncia pode cair noutra slaba, diferente da tnica:

maravilhosa, formidvel, inteligente, miservel.

Como bem acentua Roudet, a causa essencial do fenmeno do recuo do acento parece ser a falta de sincronismo entre a emoo e sua expresso atravs da linguagem. A emoo 
se adianta  palavra e refora a voz desde que as condies fonticas o permitem [LR.1, 252].

Este acento de insistncia no tem apenas carter emocional; adquire valor intelectual e ocorre ainda para ressaltar uma distino, principalmente com palavras derivadas por 
prefixao ou expresses com preposies de sentidos opostos.

So fatos subjetivos e no objetivos.

Os problemas de importao e de exportao.

com dinheiro ou sem dinheiro.

Diz Bally que a entoao expressiva e a mmica so para quem fala um permanente comentrio de suas palavras.

Acento de intensidade na frase

Acento de intensidade na frase  Isoladas, as palavras regulam sua slaba tnica pela etimologia, isto , pela sua origem; mas, na sucesso de vocbulos, deixa de prevalecer 
o acento da palavra para entrar em cena o acento da frase ou frsico, pertencente a cada grupo de fora.

Chama-se grupo de fora  sucesso de dois ou mais vocbulos que constituem um conjunto fontico subordinado a um acento tnico predominante: A casa de Pedro /  muito grande. 
Notamos aqui, naturalmente, dois grupos de fora que se acham indicados por barra. No primeiro, as palavras a e de se incorporam a casa e Pedro, ficando o conjunto subordinado 
a um acento principal na slaba inicial de Pedro, e um acento secundrio na slaba inicial de casa. No segundo grupo de fora, as palavras  e muito se incorporam foneticamente 
a grande, ficando o conjunto subordinado a um acento principal na slaba inicial de grande e outro secundrio, mais fraco, na slaba inicial de muito.

 quase sempre fcil determinar a slaba tnica de cada grupo de fora; o difcil  precisar, em certos casos, o ponto de diviso entre dois grupos sucessivos [NT.1, 29, n.1].

A distribuio dos grupos de fora e a alternncia de slabas proferidas mais rpidas ou mais demoradas, mais fracas ou mais fortes, conforme o que temos em mente expressar, 
determinam certa cadncia do contexto  qual chamamos ritmo. Prosa e verso possuem ritmo. No verso, o ritmo  essencial e especfico; na prosa, apresenta-se livre, variando 
pela iniciativa de quem fala ou escreve12.

Vocbulos tnicos e tonos: os clticos

Vocbulos tnicos e tonos: os clticos  Nestes grupos de fora certos vocbulos perdem seu acento prprio para unir-se a outro que os segue ou que os precede. Dizemos que 
tais vocbulos so clticos (que se inclinam) ou tonos (porque se acham destitudos de seu acento vocabular). Aquele vocbulo que, no grupo de fora, mantm sua individualidade 
fontica  chamado tnico. Ao conjunto se d o nome de vocbulo fontico: o rei /urrey/; deve estar /devistar/.

Os clticos se dizem proclticos se precedem o vocbulo tnico a que se incorporam para constituir o grupo de fora:

o?rei // ele?disse // bom?livro // deve?estar

Dizem enclticos se vm depois do vocbulo tnico:

disse-?me // ei-?lo // falar-?lhe

Em portugus so geralmente tonas e proclticas as seguintes classes de palavras:

1) artigos (definidos ou indefinidos, combinados ou no com preposio): o homem // um homem // do livro.

2) certos numerais: um livro // trs velas // cem homens.

3) pronomes adjuntos antepostos (demonstrativos, possessivos, indefinidos, interrogativos): este livro // meu livro // cada dia // que fazer?

4) pronomes pessoais antepostos: ele vem // eu disse.

5) pronomes relativos;

6) verbos auxiliares;

7) certos advrbios: j vi, no posso, etc.

8) certas preposies: a, de, em, com, por, sem, sob, para

9) certas conjunes: e, nem, ou, mas, que, se, como, etc.

So enclticas as formas pronominais me, te, se, nos, vos, o, a, os, as, lhe, lhes, quando pospostas ao vocbulo tnico.

Muitas vezes, uma palavra pode ser tona ou tnica, conforme sua posio no grupo de fora a que pertence. Em o arco desaparece, o substantivo arco  tnico; em o arco-ris13, 
passou a tono procltico.

Em grande homem, alto mar, os adjetivos so tonos; em homem grande, mar alto, j so os substantivos que se atonizam. Em eu lhe disse, os dois pronomes pessoais so tonos 
proclticos; em disse-lhe eu, o pronome eu conserva seu acento prprio. Todo este conjunto de fatos so devidos a fenmenos de fontica sinttica.

Consequncia da prclise

Consequncia da prclise  Os vocbulos tonos proclticos, perdendo seu acento prprio para se subordinarem ao do tnico, seguinte, resistem menos  pressa com que so proferidos, 
e acabam por sofrer redues no seu volume fontico. Dentre os numerosos exemplos de prclise lembraremos aqui:

a) a passagem de hiato a ditongo, em virtude de uma vogal passar a semivogal (sinrese):

Tuas, normalmente dissilbico, tem de ser proferido com uma slaba nos seguintes versos de Gonalves Dias, graas  prclise:

E  noite, quando o cu  puro e limpo,

Teu cho tinges de azul,  tuas ondas correm.

Boa (ou boas), em prclise, transforma a vogal o em semivogal, que chega, na lngua popular, a desaparecer:

Outros suas terras em boa paz regeram

Armando-as com boas leis, e bons preceitos. [AF.1]

bas noite nhozinho. [L. Cardoso] 14

b) o desaparecimento da vogal da primeira slaba de um disslabo; para > pra: Isto  pra mim.

c) o desaparecimento da slaba final de um disslabo:

1) santo > so (diante dos nomes comeados por consoante): So Paulo, So Pedro;

2) cento > cem: cem pginas;

3) grande > gr, gro: gr-Bretanha, gro-vizir;

4) tanto > to: to grande;

5) quanto > quo: quo belo

d) outras redues como senhor > seu: seu Joo.

Palavras que oferecem dvidas quanto  posio da slaba tnica

Palavras que oferecem dvidas quanto  posio da slaba tnica  Silabada  o erro de prosdia que consiste na deslocao do acento tnico de uma palavra. Ignorar qual  
a slaba tnica de uma palavra, diz Gonalves Viana,  ficar na impossibilidade de proferi-la.

Numerosas palavras existem que oferecem dvidas quanto  posio da slaba tnica.

So oxtonas:

alos, cateter, Cister, harm, Gibraltar, Gulbenkian, masseter, faz-se mister (= necessrio), Nobel, novel, recm, refm, ruim, sutil, ureter.

So paroxtonas:

acrdo, mbar, ambrosia, avaro, aziago, barbaria, cnon, caracteres, cartomancia, ciclope, edito (lei, decreto), Epifania 15, exegese, filantropo, fluido (ui ditongo), fortuito 
(ui ditongo), gratuito (ui ditongo), ibero, impio (cruel), inaudito, ltex, maquinaria, misantropo, necropsia, Normandia, onagro (tb. nagro), oximoro (tb. oximron), Pandora, 
Plux, pudico, quiromancia, simulacro.

So proparoxtonas (incluindo-se os vocbulos terminados por ditongo crescente):

aerdromo, aerlito, lcali, lcool, alcolatra, alibi (lat.), alvssaras, mago, amlgama, ambrsia, antema, andrgino, antdoto, arqutipo, autctone, barbrie, bomia, 
brmane, cfila, condmino, crisntemo, dcada, dptero, cloga, dito (ordem judicial), feso, mbolo, epteto, psilon, escncaras (s), xodo, fac-smile, fbula, idlatra, 
mpio (sem f), mprobo, nclito, inquo, nterim, mxime ou maxime (lat.), mega, Pgaso, Pricles, squilo, priplo, pliade (-a), prottipo, Tmisa, trnsfuga, vndalo.

Palavras que admitem dupla prosdia

Palavras que admitem dupla prosdia

acrbata ou acrobata; alpata ou alopata; ambrsia ou ambrosia; crisntemo ou crisantemo; hierglifo ou hieroglifo; nefelbata ou nefelibata; Ocenia ou Oceania; ortopia 
ou ortoepia; projtil ou projetil; rptil ou reptil; reseda () ou resed; sror ou soror; homlia ou homilia; geodsia ou geodesia; zngo ou zango.

D) Ortografia

Alfabeto

I  Alfabeto

1) O alfabeto portugus consta fundamentalmente de vinte e seis letras: a, b, c, d, e, f, g, h, i, j, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, u, v, w, x, y, z.

K, W, Y

II  K, W, Y

2) Empregam-se em abreviaturas e smbolos, bem como em palavras estrangeiras de uso internacional: K = potssio; Kr = criptnio; kg = quilograma; km = quilmetro; kw = quilowatt; 
kwh = quilowatt-hora; W = oeste ou wolfrmio (tungstnio); w = watt; ws = watt-segundo; Y = trio; yd = jarda (yard, ingls), etc.

3) Os derivados portugueses de nomes prprios estrangeiros devem escrever-se de acordo com as formas primitivas: frankliniano, kantismo, darwinismo, wagneriano, zwinglianista, 
byroniano, taylorista, etc.

4) O k  substitudo por qu antes de e e i e por c antes de outra qualquer letra: breque, caqui, faquir, nquel, caulim, etc.

5) O w substitui-se, em palavras portuguesas ou aportuguesadas, por u ou v, conforme o seu valor fontico: sanduche, talvegue, visigodo, etc.

6) O k  uma consoante, tal como o c antes de a, o, u e o dgrafo qu de quero. O w  uma vogal ou semivogal pronunciado como /u/ em palavras de origem inglesa: watt-hora, 
whisky, waffle, Wallace, show. E  consoante como o nosso /v/ em palavras de origem alem: Walter, Wagner, wagneriano. No nome do clebre naturalista ingls Darwin soa como 
/v/, pronncia mais geral, ou como /u/. O y  um som voclico pronunciado como /i/ com funo de vogal ou semivogal: yacht (= certo tipo de embarcao), yard (= jarda), yaki-mono 
(= cermica japonesa), yen (= unidade monetria, e moeda, do Japo), yenita (= certo mineral).

H

III  H

7) Esta letra no  propriamente consoante, mas um smbolo que, em razo da etimologia e da tradio escrita do nosso idioma, se conserva no princpio de vrias palavras no 
fim de algumas interjeies: haver, hlice, hidrognio, hstia, humildade; h!, hem?, puh!, ah!, ih!, oh!, etc.

Observao: No se escreve com h final a interjeio de chamamento ou apelo :  Jos, vem aqui!;  Laura, pare com isso!

8) No interior do vocbulo, s se emprega em dois casos: quando faz parte do ch, do lh e do nh, que representam fonemas palatais, e nos compostos em que o segundo elemento, 
com h inicial etimolgico, se une ao primeiro por meio do hfen: chave, malho, rebanho, anti-higinico, contra-haste, pr-histrico, sobre-humano, etc.

Observaes: a) Nos compostos sem hfen, elimina-se o h do segundo elemento: anarmnico, coabitar, coonestar, desarmonia, exausto, inabilitar, lobisomem, reaver, etc. b) Nos 
casos em que no houver perda do som da vogal final do 1. elemento, e o elemento seguinte comear com h, sero usadas as duas formas grficas: bi-hebdomadrio e biebdomadrio; 
carbo-hidrato e carboidrato; zoo-hematina e zooematina; geo-histria e geoistria. J quando houver perda do som da vogal final do 1. elemento, consideraremos que a grafia 
consagrada deve ser mantida: cloridrato, cloridria, clordrico, quinidrona, sulfidrila, xilarmnica, xilarmnico. Devem ficar como esto as palavras que j so de uso consagrado, 
como reidratar, reumanizar, reabituar, reabitar, reabilitar e reaver.

9) No futuro do indicativo e no condicional, no se usa o h no ltimo elemento, quando h pronome intercalado: am-lo-ei, dir-se-ia, etc.

10) Quando a etimologia o no justifica, no se emprega: arpejo (substantivo), ombro, ontem, etc. E mesmo que o justifique, no se escreve no fim de substantivos nem no comeo 
de alguns vocbulos que o uso consagrou sem este smbolo, andorinha, erva, fel, inverno, etc.

11) No se escreve h depois de c (salvo o disposto no n. 8) nem depois de p, r e t: o ph  substitudo por f, o ch (gutural) por qu antes de e ou i e por c antes de outra 
qualquer letra: corografia, cristo; querubim, qumica; farmcia, fsforo; retrica, ruibarbo; teatro, turbulo, etc.

Consoantes mudas

IV  Consoantes mudas

12) No se escrevem as consoantes que se no proferem: asma, assinatura, cincia, diretor, ginsio, inibir, inovao, ofcio, e no asthma, assignatura, sciencia, director, 
gymnasio, inhibir, innovao, officio. E conservam-se as consoantes nos casos em que so invariavelmente proferidas nas pronncias cultas da lngua: compacto, convico, fico; 
adepto, apto, etc.

Observao: Escreve-se, porm, o s em palavras como descer, florescer, nascer, etc., e o x em vocbulos como exceto, excerto, etc., apesar de nem sempre se pronunciarem essas 
consoantes.

13) Em sendo mudo o p no grupo mpc ou mpt, escreve-se nc ou nt: assuncionista, assunto, presuno, prontificar, etc.

14) Em vocbulos cujas consoantes facultativamente se pronunciam, escreve-se preferencialmente o de uso mais generalizado. Assim, sero consignados, alm de outros, estes: 
aspecto e aspeto, caracterstico e caraterstico, circunspecto e circunspeto, contacto e contato, corrupo e corruo, corruptela e corrutela, dactilografia e datilografia, 
expectativa e expetativa, optimismo e otimismo, respectivo e respetivo, seco e seo, sinptico e sintico, sumptuoso e suntuoso, tacto e tato. Escreve-se Egito, mas egpcio, 
por ser neste ltimo pronuciado o p.

SC

V  SC

15) Elimina-se o s do grupo inicial sc: cena, cenografia, cincia, etc.

16) Os compostos dessa classe de vocbulos, quando so formados em nossa lngua, so escritos sem o s antes do c: anticientfico, contracenar, encenao, etc.; mas, quando 
vieram j formados para o vernculo, conservam o s: conscincia, cnscio, imprescindvel, prescindir, rescindir, resciso, etc.

Letras dobradas

VI  Letras dobradas

17) Escrevem-se rr e ss quando, entre vogais, representam os sons simples do r e s iniciais; e cc ou c quando o primeiro soa distintamente do segundo: carro, farra, massa, 
passo; convico, occipital, etc.

18) Duplicam-se o r e o s todas as vezes que a um elemento de composio terminado em vogal se segue, sem interposio do hfen, palavra comeada por uma daquelas letras: 
arritmia, corru, prerrogativa, pressentir, ressentimento, sacrossanto, etc.

Vogais nasais

VII  Vogais nasais

19) As vogais nasais so representadas no fim dos vocbulos por  (s), im (ins), om (ons), um (uns): af, cs, flautim, folhetins, semitom, tons, tutum, zum-zuns, etc.

20) O  pode figurar na slaba tnica, pretnica ou tona: at, cristmente, irmmente, ma, manhzinha, rf, romzeira, etc.

21) Quando aquelas vogais so iniciais ou mediais, a nasalidade  expressa por m antes do b e p, e por n antes de outra qualquer consoante: ambos, campo; contudo, enfim, enquanto, 
homenzinho, nuvenzinha, vintenzinho, etc.

Ditongos

VIII  Ditongos

22) Os ditongos orais escrevem-se com a subjuntiva i ou u: aipo, cai, cauto, degraus, dei, fazeis, ideia, mausolu, neurose, retorquiu, ri, sois, sou, souto, uivo, usufrui, 
etc.

Observao: Escrevem-se com i, e no com e, a forma verbal fui, a 2. e 3. pess. do sing. do pres. do ind. e a 2. do sing. do imper. dos verbos terminados em uir: aflui, 
fruis, retribuis, etc.

23) O ditongo ou alterna, em numerosos vocbulos, com oi: balouar e baloiar, calouro e caloiro, dourar e doirar, etc. Escreve-se, preferencialmente, o de uso mais generalizado.

24) Escrevem-se assim os ditongos nasais: e, i, o, am, em, en(s), e, ui (proferido ui): me, pes, cibra, acrdo, irmo, leozinho, amam, bem, bens, devem, pe, repes, 
muito, etc.

Observaes:

a) Dispensa-se o til do ditongo nasal ui em mui e muito.

b) Com o ditongo nasal o se escrevem os monosslabos, tnicos ou no, e os polisslabos oxtonos: co, do, no, quo; ento, irmo, vivero, etc.

c) Tambm se escrevem com o ditongo o os substantivos e adjetivos paroxtonos, acentuando-se, porm, a slaba tnica: rfo, rgo, sto, etc.

d) Nas formas verbais anoxtonas se escreve am: amaram, deveram, partiram, etc.

e) Com o ditongo nasal e se escrevem os vocbulos oxtonos e os seus derivados; e os anoxtonos primitivos grafam-se com o ditongo i: capites, mes, pezinhos; cibo, zibo, 
etc.

f) O ditongo nasal e)i(s) escreve-se em ou en(s) assim nos monosslabos como nos polisslabos de qualquer categoria gramatical: bem, convm, convns, virgem, virgens, etc.

25) Os encontros voclicos tonos e finais que podem ser pronunciados como ditongos crescentes escrevem-se da seguinte forma: ea (urea), eo (cetceo), ia (colnia), ie (espcie), 
io (exmio), oa (ndoa), ua (contnua), ue (tnue), uo (trduo), etc.

Hiatos

IX  Hiatos

26) A 1., 2., 3. pess. do sing. do pres. do subj. e a 3. pess. do sing. do imper. dos verbos em oar escrevem-se com oe e no oi: abenoe, amaldioes, perdoe, etc.

27) As trs pessoas do sing. do pres. do subj. e a 3. do sing. do imper. dos verbos em uar escrevem-se com eu, e no ui: cultue, habitues, etc.

Parnimos e vocbulos de grafia dupla

X  Parnimos e vocbulos de grafia dupla

28) Deve-se fazer a mais rigorosa distino entre os vocbulos parnimos e os de grafia dupla que se escrevem com e ou com i, com o ou com u, com c ou q, com ch ou x, com 
g ou j, com s, ss ou c, , com s ou x, com s ou z, e com os diversos valores do x:

1.) com i ou com e: acriano, camoniano, torriense (em vez das antigas acreano, camoneano, torreense); coreano, daomeano, guineense.

2.) com o ou com u: frgua, lugar, mgoa, manuelino, polir, tribo, urdir, veio (verbo ou substantivo), etc.

3.) com c ou q: quatorze (seguido de catorze), cinquenta, quociente (seguido do cociente), etc.

4.) com ch ou x: anexim, bucha, charque, chimarro, faxina, flecha, tachar (= notar; censurar), taxar (= determinar a taxa; regular), etc.

5.) com g ou j: estrangeiro, jenipapo, genitivo, gria, jeira, jeito, jiboia, jirau, laranjeira, lojista, majestade, viagem (s.f.), viajem (do verbo viajar), etc.

6.) com s, ss ou c, : nsia, anticptico, boa (= cabo de navio), bossa (= protuberncia; aptido), bolar (= vomitar), bolsar (= fazer bolsos), caula, censual (= relativo 
a censo), sensual (= lascivo), etc.

Observao: No se emprega  em incio de palavras.

7.) com s ou x: espectador (= testemunha), expectador (= pessoa tem esperana), experto (= perito; experimentado), esperto (= ativo; acordado), esplndido, esplendor, extremoso, 
flux (= na locuo a flux), justafluvial, justapor, misto, etc.

8.) com s ou z: alazo, alcauz (= planta), alisar (= tornar liso), alizar (s.m.), anestesiar, autorizar, bazar, coliseu, comezinho, corts, dissenso, empresa, esfuziar, 
esvaziamento, frenesi (seguido de frenesim), guizo (s.m.), irisar (= dar as cores do ris a), irizar (= atacar [o iriz] o cafezeiro), narcisar-se, obsquio, prioresa, rizotnico, 
sacerdotisa, tapiz, trnsito, xadrez, etc.

Observaes:

a)  sonoro o s de obsquio e seus derivados, bem como o do prefixo trans, em se lhe seguindo vogal; quando, porm, a esse prefixo se segue palavra iniciada por s, s se escreve 
um, que se profere como se fora dobrado: obsequiar (ze), transocenico (zo), transecular (se), transubstanciao (su); etc.

b) No final de slaba tona, seja no interior, seja no fim do vocbulo, emprega-se o s em lugar do z: asteca, endes, mesquita, etc.

29) O x continua a escrever-se com os seus cinco valores, bem como nos casos em que pode ser mudo, como em exceto, excerto, etc. Tem, pois, o som de:

1.) ch, no princpio e o no interior de muitas palavras: xerife, xcara, ameixa; enxoval, etc.

2.) cs, no meio e no fim de vrias palavras: anexo, ltex, trax, etc.

3.) z, quando ocorre no prefixo exo, ou ex seguido de vogal: exame, xito, xodo, exosmose, exotrmico, etc.

4.) ss: aproximar, auxiliar, mximo, proximidade, sintaxe, etc.

5.) s final de slaba: contexto, fnix, pretextar, sexto, textual, etc.

30) No final de slabas iniciais e interiores se deve empregar o s em vez do x, quando no o precede a vogal e: justafluvial, justaposio, misto, sistino, etc.

31) Adotaremos a grafia que seja mais conforme  etimologia do vocbulo e  sua histria, mas que esteja em harmonia com a prosdia geral dos brasileiros, nem sempre idntica 
 lusitana. P.ex.: jud (no Br.) e judo (em Port.); metr (no Br.) e metro (em Port.); pnei (no Br.) e pnei (em Port.).

Nomes prprios

XI  Nomes prprios

32) Os nomes prprios personativos, locativos e de qualquer natureza, sendo portugueses ou aportuguesados, esto sujeitos s mesmas regras estabelecidas para os nomes comuns.

33) Para salvaguardar direitos individuais, quem o quiser manter em sua assinatura a forma consuetudinria. Poder tambm ser mantida a grafia original de quaisquer firmas, 
sociedades, ttulos e marcas que se achem inscritos em registro pblico.

Observao: No sendo o prprio que assine o nome com a grafia e a acentuao do modo como foi registrado, a indicao do seu nome obedecer s regras estabelecidas pelo sistema 
ortogrfico vigente: Fundao Casa de Rui Barbosa (o notvel jurista baiano assinava Ruy).

34) Os topnimos de origem estrangeira devem ser usados com as formas vernculas de uso vulgar; e quando no tm formas vernculas, transcrevem-se consoante as normas estatudas 
pela Conferncia de Geografia de 1926 que no contrariarem os princpios estabelecidos aqui.

35) Os topnimos de tradio histrica secular no sofrem alterao alguma na sua grafia, quando j esteja consagrada pelo consenso diuturno dos brasileiros. Sirva de exemplo 
o topnimo Bahia, que conservar esta forma quando se aplicar em referncia ao Estado e  cidade que tm esse nome.

Observao: Os compostos e derivados desses topnimos obedecero s normas gerais do vocabulrio comum.

Acentuao grfica

XII  Acentuao grfica

Ver Regras de acentuao.

Apstrofo

XIII  Apstrofo

36) Limita-se o emprego do apstrofo aos seguintes casos:

1.) Indicar a supresso de uma letra ou letras no verso, por exigncia da metrificao: croa, esprana, ofrecer, star, etc.

2.) Reproduzir certas pronncias populares: t, teve, etc.

3.) Indicar a supresso da vogal, j consagrada pelo uso, em certas palavras compostas ligadas pela preposio de: copo-dgua (= planta, lanche), galinha-dgua, me-dgua, 
pau-dgua (= rvore, brio), etc.

Observao: Restringindo-se o emprego do apstrofo a esses casos, cumpre no se use dele em nenhuma outra hiptese. Assim, no ser empregado:

a) nas contraes das preposies de e em com artigos, adjetivos ou pronomes demonstrativos, indefinidos, pessoais e com alguns advrbios: dum, duma (a par de de um, de uma), 
num, numa (a par de em um, em uma); dalgum, dalguma (a par de de algum, de alguma); doutro, noutro (a par de de outro, em outro); dele, dela, nele, nela; deste, desta, neste, 
nesta, daquele, daquela, naquele, naquela; disto, nisto, daquilo, naquilo; daqui, da, dacol, donde, dantes, dentre; etc.

b) nas combinaes dos pronomes pessoais; mo, ma, mos, mas, to, ta, tos, tas, lho, lha, lhos, lhas, no-lo, no-los, no-la, no-las, vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las.

c) nas expresses vocabulares que se tornaram unidades fonticas e semnticas: dessarte, destarte, homessa, tarrenego, tesconjuro, vivalma, etc.

d) nas expresses de uso constante e geral na linguagem vulgar: co, coa, ca, cos, cas, coas (= com o, com a, com os, com as), plo, pla, plos, plas (= pelo, pela, pelos, pelas), 
pra (= para), pro, pra, pros, pras (= para o, para a, para os, para as), etc.

Hfen

XIV  Hfen

37) Nos compostos

1.) Emprega-se o hfen nos compostos sem elemento de ligao quando o 1. termo, por extenso ou reduzido, est representado por forma substantiva, adjetiva, numeral ou verbal: 
ano-luz, arco-ris, decreto-lei, s-sueste, joo-ningum, mdico-cirurgio, mesa-redonda, rainha-cludia, tenente-coronel, tio-av, z-povinho, afro-asitico, afro-luso-brasileiro, 
azul-escuro, amor-perfeito, boa-f, forma-piloto, uarda-noturno, luso-brasileiro, m-f, mato-grossense, norte-americano, seu-vizinho (dedo anelar), social-democracia, sul-africano, 
verbo-nominal, primeiro-ministro, segunda-feira, conta-gotas, finca-p, guarda-chuva, vaga-lume, porta-avies, porta-retrato.

Observaes:

a) As formas empregadas adjetivamente do tipo afro-, anglo-, euro-, franco-, indo-, luso-, sino- e assemelhadas continuaro a ser grafadas sem hfen em empregos em que s 
h uma etnia: afrodescendente, anglofalante, anglomania, eurocntrico, eurodeputado, lusofonia, sinologia, etc. Porm escreve-se com hfen quando houver mais de uma etnia: 
afro-brasileiro, anglo-saxo, euro-asitico, etc.

b) Com o passar do tempo, alguns compostos perderam a noo de composio, e passaram a se escrever aglutinadamente, como  o caso de: girassol, madressilva, pontap, etc. 
J se escrevem aglutinados: paraquedas, paraquedistas (e afins, paraquedismo, paraquedstico) e mandachuva.

Os outros compostos com a forma verbal para- seguiro sendo separados por hfen conforme a tradio lexicogrfica: para-brisa(s), para-choque, para-lama(s), etc.

Os outros compostos com a forma verbal manda- seguiro sendo separados por hfen conforme a tradio lexicogrfica: manda-lua, manda-tudo.

A tradio ortogrfica tambm usa o hfen em outras combinaes vocabulares: abaixo-assinado, assim-assim, ante--r, ave-maria, salve-rainha.

Os compostos formados com elementos repetidos, com ou sem alternncia voclica ou consonntica, por serem compostos representados por formas substantivas sem elemento de ligao, 
ficaro: bl-bl-bl, lenga-lenga, reco-reco, tico-tico, zum-zum-zum, pingue-pongue, tique-taque, trouxe-mouxe, xique-xique (= chocalho; cf. xiquexique = planta), zs-trs, 
zigue-zague, etc. Os derivados, entretanto, no sero hifenados: lengalengar, ronronar, zunzunar, etc. No se separam por hfen as palavras com slaba reduplicativa oriundas 
da linguagem infantil: bab, titio, vov, xixi, etc.

Sero escritos com hfen os compostos entre cujos elementos h o emprego do apstrofo: cobra-dgua, me-dgua, mestre-darmas, olho-dgua, etc.

2.) Emprega-se o hfen nos compostos sem elemento de ligao quando o 1. elemento est representado pelas formas alm, aqum, recm, bem e sem: alm-Atlntico, alm-mar, 
aqum-Pireneus, recm-casado, recm-nascido, bem-estar, bem-humorado, bem-dito, bem-dizer, bem-vestido, bem-vindo, sem-cerimnia, sem-vergonha, sem-terra.

Observao: Em muitos compostos o advrbio bem aparece aglutinado ao segundo elemento, quer este tenha ou no vida  parte quando o significado dos termos  alterado: bendito 
(=abenoado), benfazejo, benfeito [subst.] (=benefcio); cf. bem-feito [adj.] = feito com capricho, harmonioso, e bem-feito! [interj.], benfeitor, benquerena e afins: benfazer, 
benfeitoria, benquerer, benquisto, benquistar.

3.) Emprega-se o hfen nos compostos sem elemento de ligao quando o 1. elemento est representado pela forma mal e o 2. elemento comea por vogal, h ou l: mal-afortunado, 
mal-entendido, mal-estar, mal-humorado, mal-informado, mal-limpo. Porm: malcriado, malgrado, malvisto, etc.

Observao: Mal com o significado de doena grafa-se com hfen: mal-caduco (= epilepsia), mal-francs (= sfilis), desde que no haja elemento de ligao. Se houver, no 
se usar hfen: mal de Alzheimer.

4.) Emprega-se o hfen nos nomes geogrficos compostos pelas formas gr, gro, ou por forma verbal ou, ainda, naqueles ligados por artigo: Gr-Bretanha, Abre-Campo, Passa-Quatro, 
Quebra-Costas, Traga-Mouro, Baa de Todos-os-Santos, Entre-os-Rios, Montemor-o-Novo, Trs-os-Montes.

Observaes:

a) Os outros nomes geogrficos compostos escrevem-se com os elementos separados, sem o hfen: Amrica do Sul, Belo Horizonte, Cabo Verde, Castelo Branco, Freixo de Espada 
 Cinta, etc. Os topnimos Guin-Bissau e Timor-Leste so, contudo, excees consagradas.

b) Sero hifenizados os adjetivos gentlicos (ou seja, adjetivos que se referem ao lugar onde se nasce) derivados de nomes geogrficos compostos que contenham ou no elementos 
de ligao: belo-horizontino, mato-grossense-do-sul, juiz-forano, cruzeirense-do-sul, alto-rio-docense.

c) Escreve-se com hfen indo-chins, quando se referir  ndia e  China, ou aos indianos e chineses, diferentemente de indochins (sem hfen), que se refere  Indochina.

5.) Emprega-se o hfen nos compostos que designam espcies botnicas (planta e fruto) e zoolgicas, estejam ou no ligadas por preposio ou qualquer outro elemento: abbora-menina, 
andorinha-do-mar, andorinha-grande, bem-me-quer (mas malmequer), bem-te-vi, bno-de-deus, cobra-capelo, couve-flor, dente-de-co, erva-doce, erva-do-ch, ervilha-de-cheiro, 
feijo-verde, formiga-branca, joo-de-barro, lesma-de-conchinha.

Observao: Os compostos que designam espcies botnicas e zoolgicas grafados com hfen pela norma acima no sero hifenizados quando tiverem aplicao diferente dessas espcies. 
Por exemplo: bola-de-neve (com hfen) com o significado de arbusto europeu, e bola de neve (sem hfen) significando aquilo que toma vulto rapidamente; bico-de-papagaio 
(com hfen) referindo-se  planta e bico de papagaio (sem hfen) com o significado de nariz adunco; mata-cobra (com hfen) referindo-se a inseto, e mata cobra (sem hfen) 
referindo-se a certo tipo de basto; no-me-toques (com hfen) quando se refere a certas espcies de plantas, e no me toques (sem hfen) com o significado de melindres.

38) Nas locues:

No se emprega o hfen nas locues, sejam elas substantivas, adjetivas, pronominais, adverbiais, prepositivas ou conjuncionais, salvo algumas excees j consagradas pelo 
uso (como  o caso de gua-de-colnia, arco-da-velha, cor-de-rosa, mais-que-perfeito, p-de-meia, ao deus-dar,  queima-roupa). Vale lembrar que, se na locuo h algum elemento 
que j tenha hfen, ser conservado este sinal:  trouxe-mouxe, cara de mamo-macho, bem-te-vi de igreja. Sirvam, pois, de exemplo de emprego sem hfen as seguintes locues: 
a) Locues substantivas: co de guarda, fim de semana, fim de sculo, sala de jantar; b) Locues adjetivas: cor de aafro, cor de caf com leite, cor de vinho; c) Locues 
pronominais: cada um, ele prprio, ns mesmos, quem quer que seja; d) Locues adverbiais:  parte (diferentemente do substantivo aparte),  vontade, de mais (locuo que 
se contrape a de menos; escreve-se junto demais quando  advrbio ou pronome), depois de amanh, em cima, por isso; e) Locues prepositivas: abaixo de, acerca de, acima 
de, a fim de, a par de,  parte de, apesar de, aquando de, debaixo de, enquanto a, por baixo de, por cima de, quanto a; f) Locues conjuncionais: a fim de que, ao passo que, 
contanto que, logo que, visto que.

Observaes:

a) Expresses com valor de substantivo, do tipo deus nos acuda, salve-se quem puder, um faz de contas, um disse me disse, um maria vai com as outras, bumba meu boi, tomara 
que caia, aqui del rei, devem ser grafadas sem hfen. Da mesma forma sero usadas sem hfen locues como:  toa (adjetivo e advrbio), dia a dia (substantivo e advrbio), 
arco e flecha, calcanhar de aquiles, comum de dois, general de diviso, to somente, ponto e vrgula.

b) No se emprega o hfen nas locues latinas usadas como tais, no substantivadas ou aportuguesadas: ab initio, ab ovo, ad immortalitatem, ad hoc, data venia, de cujus, 
carpe diem, causa mortis, habeas corpus, in octavo, pari passu, ex libris. Mas: o ex-libris, o habeas-corpus, in-oitavo, etc.

39) Nas sequncias de palavras:

Emprega-se o hfen para ligar duas ou mais palavras que ocasionalmente se combinam, formando no propriamente vocbulos, mas encadeamentos vocabulares, tipo: a divisa Liberdade-Igualdade-Fraternidade,
 a ponte Rio-Niteri, o percurso Lisboa-Coimbra-Porto, a ligao Angola-Moambique e nas combinaes histricas ou at mesmo ocasionais de topnimos, tipo: ustria-Hungria, 
Alscia-Lorena, Angola-Brasil, Tquio-Rio de Janeiro, etc.

40) Nas formaes com prefixos:

1.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina por vogal igual  que inicia o 2. elemento: anti-infeccioso, anti-inflamatrio, contra-almirante, eletro-tica, entre-eixo, 
infra-axilar, micro-onda, neo-ortodoxo, semi-interno, sobre-elevar, sobre-estadia, supra-auricular.

Observaes:

a) Incluem-se neste princpio geral todos os prefixos terminados por vogal: agro- (= terra), albi-, alfa-, ante-, anti-, ntero-, arqui-, udio-, auto-, bi-, beta-, bio-, 
contra-, eletro-, euro-, nfero-, infra-, ntero-, iso-, macro-, mega-, multi-, poli-, pstero-, pseudo-, spero-, neuro-, orto-, scio-, etc.

Ento, se o 1 elemento terminar por vogal diferente daquela que inicia o 2 elemento, escreve-se junto, sem hfen: anteaurora, antiareo, aeroespacial, agroindustrial, autoajuda, 
autoaprendizagem, autoestrada, contraescritura, contraindicao, contraofensiva, extraescolar, extraoficial, extrauterino, hidroeltrico, infraestrutura, infraordem, intrauterino, 
neoafricano, neoimperialista, plurianual, protoariano, pseudoalucinao, pseudoepgrafe, retroalimentao, semirido, sobreaquecer, socioeconmico, supraesofgico, supraocular, 
ultraelevado.

b) O encontro de vogais diferentes tem facilitado a supresso da vogal final do 1. elemento ou da vogal inicial do 2.: eletracstico, ao lado de eletroacstico, e arteriosclerose. 
Recomendamos que se evitem essas supresses, a no ser nos casos j correntes ou dicionarizados.

c) O encontro de vogais iguais tem facilitado o aparecimento de formas reais ou potencialmente possveis com a fuso dessas vogais, do tipo de alfaglutinao, ao lado de alfa-aglutinao; 
ovadoblongo, ao lado de ovado-oblongo. Para atender  regra geral de hifenizar o encontro de vogais iguais,  prefervel evitar estas fuses no uso corrente, a no ser nos 
casos em que elas se mostram naturais, e no foradas, como ocorre em telespectador (e no tele-espectador), radiouvinte (e no rdio-ouvinte).

d) Nas formaes com os prefixos co-, pro-, pre- e re-, estes unem-se ao segundo elemento, mesmo quando iniciado por o ou e: coabitar, coautor, coedio, coerdeiro, coobrigao, 
coocupante, coordenar, cooperao, cooperar, coemitente, coenzima, cofator, cogerente, cogesto, coirmo; comandante, proativo, procnsul, propor, proembrio, proeminente; 
preeleito (ou pr-eleito), preembrio (ou pr-embrio), preeminncia, preenchido, preesclerose (ou pr-esclerose), preestabelecer, preexistir; reedio, reedificar, reeducao, 
reelaborar, reeleio, reenovelar, reentrar, reescrita, refazer, remarcar.

2.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina por consoante igual  que inicia o 2. elemento: ad-digital, inter-racial, sub-base, super-revista, etc.

Observao: Formas como abbevilliano, addisoniano, addisonismo, addisonista se prendem a nomes prprios estrangeiros: Abbeville, Addison.

3.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina acentuado graficamente, ps-, pr-, pr-: ps-graduao, ps-tnico; pr-datado, pr-escolar, pr-histria, pr-natal, 
pr-requisito; pr-africano, pr-europeu.

Observao: Pode haver, em certos usos, alternncia entre pre- e pr-, pos- e ps-; neste ltimo caso, deve-se usar o hfen: preesclertico ou pr-esclertico, postnico ou 
ps-tnico.

4.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina por m ou n e o 2. elemento comea por vogal, h, m ou n: circum-escolar, circum-hospitalar, circum-murado, circum-navegao, 
pan-africano, pan-americano, pan-harmnico, pan-hispnico, pan-mgico, pan-negritude.

5.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento  um dos prefixos ex- (anterioridade ou cessao), sota-, soto-, vice-, vizo-: ex-almirante, ex-diretor, ex-presidente, sota-almirante, 
sota-capito, sota-vento, soto-almirante, soto-pr (mas sobrepor), vice-presidente, vice-reitor, vizo-rei.

Observao: Vimos que o verbo pr no perde o acento grfico (para se distinguir da preposio por). E mesmo em formas compostas como soto-pr, ele continuar acentuado.

6.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina por vogal, r ou b e o 2. elemento se inicia por h: adeno-hipfise, abdmino-histerotomia, anti-heri, anti-hemorrgico, 
arqui-hiprbole, auto-hipnose, beta-hemoltico, bi-hidroquinona, bio-histrico, contra-haste, di-hibridismo, entre-hostil, foto-heliografia, geo-histria, giga-hertz, htero-hemorragia, 
hiper-hidrose, infra-heptico, inter-hemisfrico, poli-hdrico, semi-histrico, sobre-humano, sub-heptico, sub-humano, super-homem, tri-hdrico.

Observaes:

a) Nos casos em que no houver perda do som da vogal final do 1. elemento, e o elemento seguinte comear com h, sero usadas as duas formas grficas: carbo-hidrato e carboidrato; 
zoo-hematina e zooematina. J quando houver perda do som da vogal final do 1. elemento, consideraremos que a grafia consagrada deve ser mantida: cloridrato, cloridria, clordrico, 
quinidrona, sulfidrila, xilarmnica, xilarmnico. Devem ficar como esto as palavras que, fugindo a este princpio, j so de uso consagrado, como reidratar, reumanizar, reabituar, 
reabitar, reabilitar e reaver.

b) No se emprega o hfen com prefixos des- e in- quando o 2. elemento perde o h inicial: desumano, inbil, inumano, etc.

c) Embora no tratado no Acordo, pode-se incluir neste caso o prefixo an- (p.ex.: anistrico, aneptico, anidrido). Na sua forma reduzida a-, quando seguido de h, a tradio 
manda hifenizar e conservar o h (p.ex.: a-histrico, a-historicidade).

d) No se emprega o hfen com as palavras no e quase com funo prefixal: no agresso, no beligerante, no fumante; quase delito, quase equilbrio, quase domiclio, etc.

e) No h razo plausvel que defenda a grafia biidroquinona ao lado de bi-iodeto, por este no ter h inicial. Foi o mesmo princpio que nos fez optar por poli-hdrico (em 
vez de polidrico) e poli-hidrite (em vez de poliidrite).

7.) Emprega-se o hfen quando o 1. elemento termina por b (ab-, ob-, sob-, sub-) ou d (ad-) e o 2. elemento comea por r: ab-rupto, ad-renal, ad-referendar, ob-rogar, sob-roda, 
sub-reitor, sub-reptcio, sub-rogar.

Observao: Adrenalina, adrenalite e afins j so excees consagradas pelo uso. Ab-rupto  prefervel a abrupto.

8.) Quando o 1. elemento termina por vogal e o 2. elemento comea por r ou s, no se usa hfen, e estas consoantes devem duplicar-se, prtica j adotada, tambm em palavras 
deste tipo pertencentes aos domnios cientfico e tcnico: antessala, antirreligioso, antissocial, autorregulamentao, biorritmo, biossatlite, contrarregra, contrassenha, 
cosseno, ele-trossiderurgia, extrarregular, infrassom, macrorregio, microssistema, minissaia, multissegmentado, neorromano, protossatlite, pseudossigla, semirrgido, sobressaia, 
suprarrenal, ultrassonografia.

41) Nas formaes com sufixo

Emprega-se hfen apenas nas palavras terminadas por sufixos de origem tupi-guarani que representam formas adjetivas, como -au (= grande), -guau (= grande), -mirim (= pequeno), 
quando o 1. elemento termina por vogal acentuada graficamente ou quando a pronncia exige a distino grfica dos dois elementos: amor-guau, anaj-mirim, and-au, capim-au, 
Cear-Mirim.

42) O hfen nos casos de nclise, mesclise (tmese) e com o verbo haver

1.) Emprega-se o hfen na nclise e na mesclise: am-lo, d-se, deixa-o, partir-lhe; am-lo-ei, enviar-lhe-emos.

2.) No se emprega o hfen nas ligaes da preposio de s formas monossilbicas do presente do indicativo do verbo haver: hei de, hs de, ho de, etc.

Observaes:

a) Embora estejam consagradas pelo uso as formas verbais quer e requer, dos verbos querer e requerer, ao lado de quere e requere, estas ltimas formas conservam-se, no entanto, 
nos casos de nclise: quere-o(s), requere-o(s).

Nestes contextos, as formas (legtimas, alis) qu-lo e requ-lo so pouco usadas. Quere e requere so formas correntes entre portugueses; a primeira, a partir de 1904.

b) Usa-se tambm o hfen nas ligaes de formas pronominais enclticas ao advrbio eis (eis-me, ei-lo) e ainda nas combinaes de formas pronominais do tipo no-lo (nos + o), 
no-las (nos + as), quando em prclise ao verbo (por exemplo: Esperamos que no-lo comprem).

O trema

XV  O trema

43) O trema no  usado em palavras portuguesas ou aportuguesadas, como: aguentar, anguiforme, arguir, bilngue, lingueta, linguista, lingustico, cinquenta, equestre, frequentar, 
tranquilo, ubiquidade.

Observaes:

a) O trema ocorre em palavras derivadas de nomes prprios estrangeiros que o possuem: hbneriano, de Hbner, mlleriano, de Mller, etc.

b) O trema poder ser usado para indicar, quando for necessrio, a pronncia do u em vocabulrios ortogrficos e dicionrios: lingueta (g), lquido (q ou qu), linguia (g), 
equidistante (q ou qu).

c) Com o fim do trema em palavras portuguesas ou aportuguesadas, no houve modificao na pronncia dessas palavras.

Acento grave

XVI  Acento grave

44) Emprega-se o acento grave nos casos de crase e aqueles indicados em Emprego do  acentuado.

1.) Na contrao da preposio a com as formas femininas do artigo o ou pronome demonstrativo o:  (de a+a), s (de a+as).

2.) Na contrao da preposio a com o a inicial dos demonstrativos aquele, aquela, aqueles, aquelas, e aquilo ou ainda da mesma preposio com compostos aqueloutro e suas 
flexes: quele(s), quela(s), quilo, queloutro(s), queloutras(s).

3.) Na contrao da preposio a com os pronomes relativos a qual, as quais:  qual, s quais.

Supresso dos acentos em palavras derivadas

XVII  Supresso dos acentos em palavras derivadas

45) Ocorre:

1.) Nos advrbios em -mente, oriundos de adjetivos com acento agudo ou circunflexo: avidamente (de vido), debilmente (de dbil), facilmente (de fcil),  habilmente (de hbil), 
lucidamente (de lcido), mamente (de m), somente (de s); candidamente (de cndido), cortesmente (de corts), portuguesamente (de portugus), romanticamente (de romntico).

2.) Nas palavras que tm sufixos inciados por z e cujas formas de base apresentam vogal tnica com acento agudo ou circunflexo: aneizinhos (de anis), avozinha (de av), 
bebezito (de beb), cafezada (de caf), chapeuzinho (de chapu), mazinha (de m), orfozinho (de rfo); avozinho (de av), benozinha (de bno), lampadazita (de lmpada), 
pessegozito (de pssego).

Diviso silbica

XVIII  Diviso silbica

46) A diviso de qualquer vocbulo, assinalada pelo hfen, em regra se faz pela soletrao, e no pelos seus elementos constitutivos segundo a etimologia.

47) Fundadas neste princpio geral, cumpre respeitar as seguintes normas:

1.) A consoante inicial no seguida de vogal permanece na slaba que a segue: cni-do-se, dze-ta, gno-ma, mne-m-ni-ca, pneu-m-ti-co, etc.

2.) No interior do vocbulo, sempre se conserva na slaba que a precede a consoante no seguida de vogal: ab-di-car, ac-ne, t-ni-co, nup-ci-al, ob-fir-mar, op-o, sig-ma-tis-mo, 
sub-por, sub-ju-gar, etc.

3.) No se separam os elementos dos grupos consonnticos iniciais de slabas nem os dos digramas ch, lh, nh: a-blu-o, a-bra-sar, a-che-gar, fi-lho, ma-nh, etc.

Observao: Nem sempre formam grupos articulados as consonncias bl e br: nalguns casos o l e o r se pronunciam separadamente, e a isso se atender na partio do vocbulo; 
e as consoantes dl, a no ser no termo onomatopico dlim, que exprime toque de campainha, proferem-se desligadamente, e na diviso silbica ficar o hfen entre essas duas 
letras. Ex.: sub-lin-gual, sub-rogar, ad-le-ga-o, etc.

4.) O sc no interior do vocbulo biparte-se, ficando o s numa slaba, e o c na slaba imediata: a-do-les-cen-te, des-cer, pres-cin-dir, res-ci-so, etc.

Observao: Forma slaba com o prefixo antecedente o s que precede consoantes: abs-tra-ir, ads-cre-ver, ins-cri-o, ins-pe-tor, ins-tru-ir, in-ters-t-cio, pers-pi-caz, subs-cre-ver, 
subs-ta-be-le-cer, etc.

5.) O s dos prefixos bis, cis, des, dis, trans e o x do prefixo ex no se separam quando a slaba seguinte comea por consoante; mas, se principia por vogal, formam slaba 
com esta e separam-se do elemento prefixal: bis-ne-to, cis-pla-ti-no, des-li-gar, dis-tra-o, trans-por-tar, ex-tra-ir; bi-sa-v, ci-san-di-no, de-ses-pe-rar, di-sen-t-ri-co, 
tran-sa-tln-ti-co, e-xr-ci-to, etc.

6.) As vogais idnticas e as letras cc, c, rr e ss separam-se ficando uma na slaba que as precede e outra na slaba seguinte: ca-a-tin-ga, co-or-de-nar, in-te-lec-o, 
oc-ci-pi-tal, pror-ro-gar, res-sur-gir, etc.

Observao: As vogais de hiatos, ainda que diferentes uma da outra, tambm se separam: a-ta--de, ca--eis, ca-ir, du-e-lo, fi-el, flu-iu, fru-ir; gra--na, je-su--ta, le-al, 
mi--do, po-ei-ra, ra-i-nha, sa--de, vi-v-eis, vo-ar, etc.

7.) No se separam as vogais dos ditongos  crescentes e decrescentes  nem as dos tritongos: ai-ro-so, a-ni-mais, au-ro-ra, a-ve-ri-gueis, ca-iu, cru-is, en-jei-tar, fo-ga-ru, 
fu-giu, gl-ria, guai-ar, i-guais, ja-mais, joi-as, -dio, quais, s-bio, sa-guo, sa-gues, su-bor-nou, ta-fuis, v-rio, etc.

Observao: No se separa do u precedido de g ou q a vogal que o segue, acompanhada, ou no, de consoante: am-b-guo, e-qui-va-ler, guer-ra, u-b-quo, etc.

8.) Na translineao (ou seja, na passagem para a linha seguinte quando se est escrevendo um texto) de uma palavra composta ou de uma combinao de palavras em que h um 
hfen, ou mais, se a partio coincide com o final de um dos elementos ou membros, por clareza grfica, se deve repetir o hfen no incio da linha seguinte: vice-almirante.

Emprego das iniciais maisculas

XIX  Emprego das iniciais maisculas

48) Emprega-se letra inicial maiscula:

1.) No comeo do perodo, verso ou citao direta. Disse o Padre Antnio Vieira: Estar com Cristo em qualquer lugar, ainda que seja no Inferno,  estar no Paraso.

Auriverde pendo de minha terra
 que a brisa do Brasil beija e balana,
 Estandarte que  luz do sol encerra
 As promessas divinas da Esperana... (Castro Alves)

Observao: Alguns poetas usam,  espanhola, a minscula no princpio de cada verso, quando a pontuao o permite, como se v em Castilho:

Aqui, sim, no meu cantinho,
 vendo rir-me o candeeiro,
 gozo o bem de estar sozinho
 e esquecer o mundo inteiro.

2.) Nos substantivos prprios de qualquer espcie  antropnimos, topninos, patronmicos, cognomes, alcunhas, tribos e castas, designaes de comunidades religiosas e polticas, 
nomes sagrados e relativos a religies, entidades mitolgicas e astronmicas, etc.: Jos, Maria, Macedo, Freitas, Brasil, Antoninos, Afonsinhos, Conquistador, Magnnimo, Corao 
de Leo, Sem Pavor, Deus, Jeov, Al, Assuno, Ressureio, Jpiter, Baco, Crbero, Via Lctea, Canopo, Vnus, etc.

Observaes:

a) As formas onomsticas que entram na formao de palavras do vocabulrio comum escrevem-se com inicial minscula quando se afastam de seu significado primitivo, excetuando-se 
os casos em que esse afastamento no ocorre: gua-de-colnia, joo-de-barro, erva-de-santa-maria, folha de flandres; mas: alm-Brasil, aqum-Atlntico, doena de Chagas, mal 
de Alzheimer, sistema Didot, anel de Saturno.

b) Os nomes de povos escrevem-se com inicial minscula, no s quando designam habitantes ou naturais de um estado, provncia, cidade, vila ou distrito, ainda quando representam 
coletivamente uma nao: amazonenses, baianos, estremenhos, fluminenses, paulistas, romenos, russos, suos, uruguaios, etc.

3.) Nos nomes prprios de eras histricas e pocas notveis: Hjira, Idade Mdia, Quinhentos (o sculo XVI), Seiscentos (o sculo XVII), etc.

Observao: Os nomes dos meses devem escrever-se com inicial minscula: janeiro, fevereiro, maro, abril, maio, junho, julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro.

4.) Nos nomes de vias e lugares pblicos: Avenida de Rio Branco, Beco do Carmo, Largo da Carioca, Praia do Flamengo, Praa da Bandeira, Travessa do Comrcio, Tnel Noel Rosa, 
etc.

5.) Nos nomes que designam altos conceitos religiosos, polticos ou nacionalistas: Igreja (Catlica, Apostlica, Romana), Nao, Estado, Ptria, Raa, etc.

Observao: Esses nomes se escrevem com inicial minscula quando so empregados em sentido geral ou indeterminado.

6.) Nos nomes que designam artes, cincias, ou disciplinas, bem como nos que sintetizam, em sentido elevado, as manifestaes do engenho e do saber: Agricultura, Arquitetura, 
Filologia Portuguesa, Direito, Medicina, Matemtica, Pintura, Arte, Cincia, Cultura, etc.

Observao: Os nomes idioma, idioma ptrio, lngua, lngua portuguesa, vernculo e outros anlogos escrevem-se com inicial maiscula quando empregados com especial relevo.

7.) Nos nomes que designam altos cargos, dignidades ou postos: Papa, Cardeal, Arcebispo, Bispo, Patriarca, Vigrio, Vigrio-Geral, Presidente da Repblica, Ministro da Educao, 
Governador do Estado, Embaixador, Almirantado, Secretrio de Estado, etc.

8.) Nos nomes de reparties, corporaes ou agremiaes, edifcios e estabelecimentos pblicos ou particulares: Diretoria Geral do Ensino, Ministrio das Relaes Exteriores, 
Academia Paranaense de Letras, Crculo de Estudos Bandeirantes, Presidncia da Repblica, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica, Tesouro do Estado, Departamento 
Administrativo do Servio Pblico, Banco do Brasil, Imprensa Nacional, Teatro de So Jos, Tipografia Rolandiana, Museu de Arte Moderna, etc.

9.) Nos ttulos de livros, jornais, revistas, produes artsticas, literrias e cientficas: Imitao de Cristo, Horas Marianas, Correio da Manh, Revista Filolgica, Transfigurao 
(de Rafael), Norma (de Bellini), O Guarani (de Carlos Gomes), O Esprito das Leis (de Montesquieu), etc.

Observaes: a) No se escrevem com maiscula inicial as partculas monossilbicas que se acham no interior de vocbulos compostos ou de locues ou expresses que tm iniciais 
maisculas: Queda do Imprio, O Crepsculo dos Deuses, Histria sem Data, A Mo e a Luva, Festas e Tradies Populares do Brasil, etc.

b) Nos biblinimos, aps o primeiro elemento, que  com maiscula, os demais vocbulos podem ser escritos com minscula, salvo nos nomes prprios nele contidos, tudo em grifo.

10.) Nos nomes de fatos histricos e importantes, de atos solenes e de grandes empreendimentos pblicos: Centenrio da Independncia do Brasil, Descobrimento da Amrica, 
Reforma Ortogrfica, Acordo Luso-Brasileiro, Exposio Nacional, Festas das Mes, Dia do Municpio, Glorificao da Lngua Portuguesa, etc.

Observao: Os nomes de festas pags ou populares escrevem-se com inicial minscula: carnaval, entrudo, saturnais, etc.

11.) Nos nomes de escolas de qualquer espcie ou grau de ensino: Faculdade de Filosofia, Escola Superior de Comrcio, Colgio de Pedro II, Instituto de Educao, etc.

12.) Nos nomes comuns, quando personificados ou individuados, e de seres morais ou fictcios: A Capital da Repblica, a Transbrasiliana, moro na Capital, o Natal de Jesus, 
o Poeta (Cames), a cincia da Antiguidade, os habitantes da Pennsula, a Bondade, o Amor, a Ira, o Lobo, o Cordeiro, a Cigarra, a Formiga, etc.

Observao: Incluem-se nesta norma os nomes que designam atos das autoridades da Repblica, quando empregados em correspondncia ou documentos oficiais: A Lei de 13 de maio, 
o Decreto-Lei n. 292, o Decreto-Lei n. 20.108, a Portaria de 15 de junho, o Regulamento n. 737, o Acrdo de 3 de agosto, etc.

13.) Nos nomes dos pontos cardeais, quando designam regies: Os povos do Oriente; o falar do Norte  diferente do falar do Sul; a guerra do Ocidente, etc.

Observao: Os nomes dos pontos cardeais escrevem-se com iniciais minsculas quando designam direes ou limites geogrficos: Percorri o pas de norte a sul e de leste a oeste.

14.) Nos nomes, adjetivos, pronomes e expresses de tratamento ou reverncia: D. (Dom ou Dona), Sr. (Senhor), Sr. (Senhora), DD. ou Dig.mo (Dignssimo), MM. ou M.mo (Meritssimo), 
Rev.mo (Reverendssimo), V.Rev. (Vossa Reverncia), S.E. (Sua Eminncia), V.M. (Vossa Majestade), V.A. (Vossa Alteza), V.S. (Vossa Senhoria), V.Ex. (Vossa Excelncia), 
V.Ex. Rev.ma (Vossa Excelncia Reverendssima), V.Ex.as (Vossa Excelncias), etc.

Observao: As formas que se acham ligadas a essas expresses de tratamento devem ser tambm escritas com iniciais maisculas: D. Abade, Ex.ma Sr. Diretora, Sr. Almirante, 
Sr. Capito-de-Mar-e-Guerra, MM. Juiz de Direito, Ex.mo e Rev.mo Sr. Arcebispo Primaz, Magnfico Reitor, Excelentssimo Senhor Presidente da Repblica, Eminentssimo Senhor 
Cardeal, Sua Alteza Real, etc.

15.) Nas palavras que, no estilo epistolar, se dirigem a um amigo, a um colega, a uma pessoa respeitvel, as quais, por deferncia, considerao ou respeito, se queira realar 
por esta maneira: meu bom Amigo, caro Colega, meu prezado Mestre, estimado Professor, meu querido Pai, minha amorvel Me, meu bom Padre, minha distinta Diretora, caro Dr., 
prezado Capito, etc.

Observao: Para os itens 4., 6., 7. e 14. usa-se opcionalmente inicial minscula (exceto para as formas abreviadas do item 14.).

Sinais de pontuao

XX  Sinais de pontuao

Ver Pontuao.

Regras de acentuao

Regras de acentuao

A  Monosslabos

Levam acento agudo ou circunflexo os monosslabos terminados em:

a)        a,  as:        j, l, vs;

b)        e,  es:        f, l, ps;

c)        o,  os:        p, d, ps, ss.

B  Vocbulos de mais de uma slaba

1) Oxtonos (ou agudos)

Levam acento agudo ou circunflexo os oxtonos terminados em:

a)        a,  as:             cajs, vatap, anans, carajs;

b)        e,  es:             voc, caf, pontaps;

c)        o,  os:             cip, jil, av, carijs;

d)        em,  ens:        tambm, ningum, vintns, armazns.

Da sem acento: aqui, caqui, poti, caju, urubus.

2) Paroxtonos (ou graves)

Levam acento agudo ou circunflexo os paroxtonos terminados em:

a)        i,  is:        jri, cqui, beribri, lpis, tnis;

b)        us:             vnus, vrus, bnus.

Observao: H poucos paroxtonos terminados em u: um deles existente at h pouco era tribu que hoje se escreve com o: tribo, tribos.

c)        r:                     carter, revlver, ter;

d)        l:                     til, amvel, nvel, txtil (no txtil);

e)        x:                    trax, fnix, nix;

f)         n:                    den, hfen (mas: edens, hifens, sem acento);

g)        um,  uns:       lbum, lbuns, mdium;

h)        o, os:           rgo, rfo, rgos, rfos;

i)         ,  s:            rf, m, rfs, ms;

j)         ps:                  bceps, frceps;

k)        on(s):              rdon, rdons.

Observao: Devem ser acentuados os nomes tcnicos terminados em -om: indom, rdom (variante de rdon).

3) Proparoxtonos (ou esdrxulos)

Levam acento agudo ou circunflexo todos os proparoxtonos: clido, tpido, ctedra, slido, lmpido, cmodo.

4) Casos especiais

a) So sempre acentuadas as palavras oxtonas com os ditongos abertos grafados -is, -u(s) ou -i(s): anis, batis, fiis, papis; cu(s), chapu(s), ilhu(s), vu(s); corri(s) 
(flexo de corroer), heri(s), remi(s) (flexo de remoer), si(s) (flexo de soer), sis (pl. de sol).

b) No so acentuadas as palavras paroxtonas com os ditongos abertos -ei e -oi, uma vez que existe oscilao em muitos casos entre a pronncia aberta e fechada: assembleia, 
boleia, ideia, tal como aldeia, baleia, cadeia, cheia, meia; coreico, epopeico, onomatopeico, proteico; alcaloide, apoio (do verbo apoiar), tal como apoio (substantivo), Azoia, 
boia, boina, comboio (substantivo), tal como comboio, comboias, etc. (do verbo comboiar), dezoito, estroina, heroico, introito, jiboia, moina, paranoico, zoina.

Observao: Receber acento grfico a palavra que, mesmo includa neste caso, se enquadrar em regra geral de acentuao, como ocorre com blizer, continer, destrier, giser, 
Mier, etc., porque so paroxtonas terminadas em -r.

c) No se acentuam os encontros voclicos fechados: pessoa, patroa, coroa, boa, canoa; teu, judeu, camafeu; voo, enjoo, perdoo, coroo.

Observao: Ser acentuada a palavra que, mesmo includa neste caso, se enquadrar em regra geral de acentuao grfica, como ocorre com heron (Br.)/ heron (Port.), paroxtona 
terminada em -n.

d) No levam acento grfico as palavras paroxtonas que, tendo respectivamente vogal tnica aberta ou fechada, so homgrafas de artigos, contraes, preposies e conjunes 
tonas. Assim, no se distinguem pelo acento grfico: para () [flexo de parar], e para [preposio]; pela(s) () [substantivo e flexo de pelar] e pela(s) [combinao de 
per e la(s)]; pelo () [flexo de pelar] e pelo(s) () [substantivo e combinao de per e lo(s)]; pera () [substantivo] e pera () [preposio antiga]; polo(s) () [substantivo] 
e polo(s) [combinao antiga e popular de por e lo(s)]; etc.

Observao: Seguindo esta regra, tambm perde o acento grfico a forma para (do verbo parar) quando entra num composto separado por hfen: para-balas, para-brisa(s), para-choque(s), 
para-lama(s), etc.

e) Levam acento agudo o i e u, quando representam a segunda vogal tnica de um hiato, desde que no formem slaba com r, l, m, n, z ou no estejam seguidos de nh: sade, viva, 
sada, cado, fasca, a, Graja; raiz (mas razes), paul, ruim, ruins, rainha, moinho.

f) No leva acento a vogal tnica dos ditongos iu e ui: caiu, retribuiu, tafuis, pauis.

g) No sero acentuadas as vogais tnicas i e u das palavras paroxtonas, quando estas vogais estiverem precedidas de ditongo decrescente: baiuca, bocaiuva, boiuno, cauila 
(var. cauira), cheiinho (de cheio), feiinho (de feio), feiura, feiudo, maoismo, maoista, saiinha (de saia), taoismo, tauismo.

Observaes:

1.) Na palavra eopo (= denominao dos primeiros ancestrais dos cavalos), a pronncia normal assinala hiato (e-o), razo por que tem acento grfico.

2.) A palavra paroxtona guaba no perde o acento agudo porque a vogal tnica i est precedida de ditongo crescente.

h) Sero acentuadas as vogais tnicas i e u das palavras oxtonas, quando mesmo precedidas de ditongo decrescente esto em posio final, sozinhas na slaba, ou seguidas de 
s: Piau, tei, teis, tuiui, tuiuis.

Observao: Se, neste caso, a consoante final for diferente de s, tais vogais no sero acentuadas: cauim, cauins.

i) A 3. pessoa de alguns verbos se grafa da seguinte maneira:

1) quando termina em  em (monosslabos):

3. pess. sing.               3. pess. pl.

 em                              m

ele tem                         eles tm

ele vem                        eles vm

2) quando termina em  m:

3. pess. sing.               3. pess. pl.

 m                              m

ele contm                   eles contm

ele convm                   eles convm

3) quando termina em   (cr, d, l, v e derivados):

3. pess. sing.               3. pess. pl.

                                  eem

ele cr                          eles creem

ele rev                        eles reveem

j) Levam acento agudo ou circunflexo os vocbulos terminados por ditongo oral tono, quer decrescente ou crescente: geis, devreis, jquei, tneis, rea, espontneo, ignorncia, 
imundcie, lrio, mgoa, rgua, tnue.

k) Leva acento agudo ou circunflexo a forma verbal terminada em a, e, o tnicos, seguida de lo, la, los, las: f-lo, f-los, mov-lo-ia, sab-lo-emos, tr-lo-s.

Observao: Pelo ltimo exemplo, vemos que se o verbo estiver no futuro poder haver dois acentos: am-lo-eis, p-lo-s, f-lo-amos.

l) Tambm leva acento agudo a vogal tnica i das formas verbais oxtonas terminadas em -air e -uir, quando seguidas de -lo(s), -la(s), caso em que perdem o r final, como em: 
atra-lo(s) [de atrair-lo(s)]; atra-lo(s)-ia [de atrair-lo(s)-ia]; possu-la(s) [de possuir-la(s)]; possu-la(s)-ia [de possuir-la(s)-ia].

m) No levam acento os prefixos paroxtonos terminados em -r e -i: inter-helnico, super-homem, semi-histrico.

n) No leva trema o u dos grupos gue, gui, que, qui, mesmo quando for pronunciado e tono: aguentar, arguio, eloquncia, frequncia, tranquilo.

Observaes:

1.) Os verbos ARGUIR e REDARGUIR no levam acento agudo na vogal tnica u nas formas rizotnicas (aquelas cuja slaba tnica est no radical): arguo, arguis, argui, arguem; 
argua, arguas, etc.

2.) Os verbos do tipo de AGUAR, APANIGUAR, APAZIGUAR, APROPINQUAR, AVERIGUAR, DESAGUAR, ENXAGUAR, OBLIQUAR, DELINQUIR e afins podem ser conjugados de duas formas: ou tm 
as formas rizotnicas (cuja slaba tnica recai no radical) com o u do radical tnico, mas sem acento agudo; ou tm as formas rizotnicas com a ou i do radical com acento 
agudo: averiguo (ou averguo), averiguas (ou averguas), averigua (ou avergua), etc.; averigue (ou avergue), averigues (ou avergues), etc.; delinquo (ou delnquo), delinques 
(ou delnques), etc.; delinqua (ou delnqua), delinquas (ou delnquas), etc.

3.) O verbo delinquir, tradicionalmente dado como defectivo (ou seja, verbo que no  conjugado em todas as pessoas),  tratado como verbo que tem todas as suas formas. O 
Acordo tambm aceita duas possibilidades de pronncia, quando a tradio padro brasileira na gramtica para este verbo s aceitava sua conjugao nas formas arrizotnicas.

4.) Em conexo com os casos citados acima,  importante mencionar que os verbos em -ingir (atingir, cingir, constringir, infringir, tingir, etc.) e os verbos em -inguir sem 
a pronncia do u (distinguir, extinguir, etc.) tm grafias absolutamente regulares (atinjo, atinja, atinge, atingimos, etc.; distingo, distinga, distingue, distinguimos, etc.)

o) Leva acento circunflexo diferencial a slaba tnica da 3. pess. sing. do pret. perf. pde, para distinguir-se de pode, forma da mesma pess. do pres. do ind.

p) No se usa acento grfico para distinguir as palavras oxtonas homgrafas (que possuem a mesma grafia), mas heterofnicas (pronunciadas de formas diferentes), do tipo de 
cor () (substantivo) e cor () (elemento da locuo de cor); colher () (verbo) e colher () (substantivo).

Observao: A forma verbal pr continuar a ser grafada com acento circunflexo para se distinguir da preposio tona por.

q) No  acentuada nem recebe apstrofo a forma monossilbica pra, reduo de para. Ou seja, so incorretas as grafias pr e pra.

r) Pode ser ou no acentuada a palavra frma (substantivo), distinta de forma (substantivo; 3. pess. do sing. do pres. do ind. ou 2. pess. do sing. do imper. do verbo formar). 
A grafia frma (com acento grfico) deve ser usada apenas nos casos em que houver ambiguidade, como nos versos do poema Os sapos, de Manuel Bandeira: Reduzi sem danos/ 
A frmas a forma.

2 Extrado de Elementos de Lngua Ptria de J. Mattoso Cmara Jr. [MC.5].

3 Extrado de Elementos de Lngua Ptria de J. Mattoso Cmara Jr. [MC.5].

4 Da ser possvel uma mudana ortogrfica do tipo quasi  quase, tribu  tribo. Mudou-se a letra, mas no o fonema.

5 Na realidade, as reduzidas no esto cientificamente formuladas pela NGB, e o melhor seria bani-las. Em muitos casos das chamadas reduzidas o que temos, na realidade,  
mudana ou troca de fonema.

6 J. Mattoso Cmara Jr. [MC.5, II, 121].

7 Em lugar de i ou u, em certos casos, se pode grafar a semivogal e ou o, respectivamente, em observncia s convenes do nosso sistema ortogrfico vigente, segundo as quais 
a semivogal dos ditongos orais  representada pelo grafema i e a dos ditongos nasais pelo grafema e: pai / me, distrai / distraem.

8 Niedermann, Phontique Latine, 37.

9 Normas para a Lngua Falada no Teatro, 485-63.

10 Nomenclatura Gramatical Brasileira, 16.

11 Destas ltimas no cogita a NGB.

12 Na lngua portuguesa moderna predomina a sequncia progressiva, que consiste em apresentar, de preferncia, a declarao no fim (o predicado), o determinado antes do determinante, 
o que se torna cmodo aos interesses de compreenso do interlocutor.

13 Por isso, nos compostos, para determinao da posio do acento tnico, leva-se em considerao a ltima palavra. Destarte,  oxtono couve-flor e paroxtono arco-ris.

14 Exemplos extrados de [SS.2, 97-98].

15 Epifania - festa dos reis magos

II  Gramtica descritiva e normativa

II  Gramtica descritiva e normativa

As Unidades no Enunciado

A) Formas e funes

Introduo

Classes de Palavras e Categorias Gramaticais

Classes de Palavras e Categorias Gramaticais

Os diversos significados  Quase sempre a gramtica engloba numa mesma relao palavras que pertencem a grupos bem diferentes: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome, 
verbo, advrbio, preposio, conjuno e interjeio. Um exame atento facilmente nos mostrar que a relao junta palavras de natureza e funcionalidade bem diferentes com 
base em critrios categoriais, morfolgicos e sintticos misturados. E o elemento que as diferencia so os diversos significados que lhes so prprios. Para tanto, devemos 
distinguir os seguintes significados:16

a) significado lexical, que j conhecemos antes,  o significado que corresponde ao qu da apreenso do mundo extralingustico, isto ,  o que corresponde  organizao do 
mundo extralingustico mediante as lnguas. Como diz bem Coseriu, a linguagem classifica a realidade segundo interesses e atitudes humanas; por isso suas distines podem 
coincidir com realidades e delimitaes objetivas, mas isso no  necessrio. A lngua  um saber acerca de modelos e esquemas lingusticos, e no sobre os objetos, a respeito 
dos quais informam nossa experincia (o nosso saber do mundo) e as cincias no lingusticas; assim, que um vulco se chame Popocatepetl, e s haja um com este nome,  um 
fato da geografia, e no um fato de lngua.17  o significado que  comum a cada uma das sries de palavras: amor  amante  amar  amavelmente; verdor  verde  enverdar, 
etc.

b) significado categorial  o que corresponde ao como da apreenso do mundo extralingustico, a forma da intuio da realidade ou, ainda, o modo de ser das palavras no discurso, 
e no classes lxicas fixas: amor (quando empregado como substantivo), amante (quando empregado como adjetivo), amar (quando empregado como verbo), amavelmente (quando advrbio). 
No cabe  gramtica descritiva, mas sim  gramtica geral, definir a categoria lingustica substantivo;  gramtica descritiva cabe to somente comprovar se a lngua objeto 
da descrio tem ou no substantivos, e, em caso afirmativo, quais so os meios materiais, isto , os esquemas formais para expressar a categoria substantivo. Assim, a categoria 
substantivo expressa substantivos por meio de nomes como homem, livro, saudade, por meio de pronomes como isto, isso, aquilo, por sintagmas como Rio Grande do Norte ou oraes 
(as chamadas subordinadas substantivas). As palavras lexemticas e categoremticas s esto categorialmente determinadas como substantivo, adjetivo, verbo e advrbio quando 
integradas na orao, atualizadas no discurso. No momento em que a gramtica geral define o que  adjetivo, essa definio, se correta, dever servir a todas as lnguas 
que tenham adjetivos.  equivocado o querer definir o adjetivo em portugus.  gramtica descritiva cabe descrev-lo numa lngua.

Constituem o substantivo, o adjetivo, o verbo e o advrbio as quatro nicas reais categorias gramaticais da lngua, confusamente misturadas na gramtica tradicional, e que 
aqui chamaremos categorias verbais, porque so as nicas dotadas do significado categorial. Admitem, como j ensina a gramtica tradicional, subdivises, que sero estudadas 
no lugar prprio (substantivos prprios e comuns, etc.). Cabe lembrar que o significado categorial no caracteriza apenas os lexemas, mas ainda sintagmas e oraes inteiras. 
Tambm o significado categorial est sempre implicado com certas funes especficas na estruturao gramatical; por isso, s o substantivo (representado por nome, pronome, 
sintagma nominal, orao nominalizada) pode ser o sujeito da orao, assim como o verbo exerce a funo de predicado.18 Os significados categoriais so modos do contedo significativo. 
Todavia isto no serve de definio de substantivo; uma palavra no  substantivo porque funciona como sujeito, mas, ao contrrio, pode ser sujeito porque  substantivo ou 
pode aparecer como tal.

c) significado instrumental  o significado dos morfemas, isto , dos elementos pertencentes ao universo da gramtica, e podem apresentar-se como palavras morfemticas (como 
os artigos e as preposies, por exemplo, ou como elementos de palavras: o -s de livro-s ou de trabalha-s, etc.); so os chamados englobadamente instrumentos gramaticais. 
O artigo o em o livro tem o significado atualizador e o -s em livro-s tem o significado pluralizador. Incluem-se como dotados desse significado instrumental, isto , como 
morfemas, nas combinaes gramaticais, os prefixos, os sufixos, as desinncias, o acento, o ritmo, a entoao, a ordem das palavras, etc. Os significados instrumentais so 
modos da expresso material.

d) significado estrutural ou sinttico (este aqui tomado em sentido restrito)  o significado que resulta das combinaes de unidades lexemticas ou categoremticas com unidades 
morfemticas e morfemas, dentro da orao. So significados estruturais singular, plural, atual, virtual, ativo, passivo, presente, passado, futuro, indicativo, 
etc. Assim o -s de livro-s tem o significado instrumental pluralizador (e no plural) ao lado do pluralizado livro; da combinao resulta o significado estrutural ou sinttico 
plural.

e) significado ntico, que s se d no plano da orao,  o que corresponde ao valor existencial que se comunica ao estado de coisas designado na orao: afirmativo, negativo, 
interrogativo, imperativo, etc.

Classe de palavra e classe verbal

Classe de palavra e classe verbal  Tem-se feito confuso entre classe de palavra e categoria ou classe verbal, confuso que pode ser desfeita com exemplos simples.19 Assinalando 
com F a forma fsica, com L o significado lxico e com C o significado categorial, as palavras abstratas podem ser constitudas: a) como puras formas (F), por exemplo amo 
em portugus, e somente levando em conta sua forma, pode-se classificar apenas pelo seu lado material:  uma palavra disslaba;  uma palavra paroxtona;  uma palavra com 
trs fonemas, etc.; b) como formas lxicas ou lexemas (FL), por exemplo o portugus verde, independentemente dos diferentes significados categoriais, isto , como adjetivo 
ou como substantivo; c) como formas categoriais ou categoremas (FC), por exemplo, quadro, papel, como substantivos, independentemente dos diferentes significados lxicos 
(quadro de um pintor, quadro de futebol, folha de papel, papel de um ator) e d) como palavras com significado lxico e categorial (FCL), por exemplo, em portugus 
amo senhor, substantivo, e amo quero bem, verbo. Somente as palavras abstratas dotadas com FC ou com FCL podem ser classificadas categorialmente graas ao elemento C; 
isto significa que uma mesma palavra FL poder figurar em classes distintas se apresenta diferentes significados C, como foi o caso de verde (adjetivo: folha verde, e substantivo: 
o verde da folha) e amo (substantivo e verbo). Em suma: no podemos querer que a palavra verde, substantivo, pertena  classe da palavra verde, adjetivo, apenas porque 
tem o mesmo significado lexical, isto , apelando para um trao que nada tem que ver com o critrio com que est constituda a classe verbal.

Se tomarmos por critrio FL, verde ser uma s e mesma palavra, assim como amo; se as estabelecermos como FCL, verde, adjetivo, e verde, substantivo, sero duas palavras 
diferentes, assim como amo senhor e amo quero bem, o que tambm valer para o ingls (the) fire e (to) fire, isto , substantivo e verbo.

Ao nos referirmos ao significado estrutural, aludimos, junto com as unidades lexemticas (lexemas), s unidades categoremticas, os pronomes, que so formas sem substncia, 
isto porque apresentam apenas, ou em primeiro lugar, um significado categorial, sem representar nenhuma matria extralingustica. Por isso, os pronomes so substantivos, adjetivos, 
advrbios e  em algumas lnguas que no o portugus  at verbos. Diferem dos lexemas porque no possuem significado lexical, ou, se o apresentam, tm um significado lexical 
genrico (pessoa, coisa, lugar, tempo, modalidade, etc.), dado pela situao ou por outras palavras do contexto.20

Nas mesmas condies do pronome, pode-se incluir na classe das palavras categoremticas o numeral.21

Por tudo o que vimos at aqui, os significados lxico, categorial e instrumental nos permitem dividir as palavras em lexemticas (substantivo, adjetivo, verbo e advrbio), 
categoremticas (pronome e numeral) e morfemticas (artigo, preposio e conjuno).

Isto no impede que uma palavra categoremtica possa tambm aparecer com significado instrumental, como  o caso de meu lpis, em que meu tem o significado categorial adjetivo 
e o significado instrumental em relao ao substantivo lpis, determinado como singular e do gnero masculino. Vimos que as palavras lexemticas, alm do significado lexical, 
tm em portugus significado categorial, e podem funcionar tambm como instrumentos.

Da lista tradicional das classes de palavras s nos falta falar da interjeio, que, a rigor, nem  pura palavra, mas uma palavra-orao, que s por si pode valer por um contedo 
de pensamento da linguagem emocional.

Distinguidas assim as classes de palavras, podemos agora caracterizar uma a uma.

1  Substantivo

Substantivo

Substantivo   a classe de lexema que se caracteriza por significar o que convencionalmente chamamos objetos substantivos, isto , em primeiro lugar, substncias (homem, 
casa, livro) e, em segundo lugar, quaisquer outros objetos mentalmente apreendidos como substncias, quais sejam qualidades (bondade, brancura ), estados (sade, doena), 
processos (chegada, entrega, aceitao).

Concretos e abstratos

Concretos e abstratos  Os substantivos se dividem em concretos e abstratos. Os concretos so prprios e comuns.

Substantivo concreto  o que designa ser de existncia independente: casa, mar, sol, automvel, filho, me.

Substantivo abstrato  o que designa ser de existncia dependente: prazer, beijo, trabalho, sada, beleza, cansao.

Os substantivos concretos nomeiam pessoas, lugares, animais, vegetais, minerais e coisas.

Os substantivos abstratos designam aes (beijo, trabalho, sada, cansao), estado e qualidade (prazer, beleza), considerados fora dos seres, como se tivessem existncia individual.

Prprios e comuns

Prprios e comuns  Dividem-se os substantivos em prprios e comuns, diviso que pertence a planos diferentes.

Substantivo prprio  o que se aplica a um objeto ou a um conjunto de objetos, mas sempre individualmente. Isto significa que o substantivo prprio se aplica a esse objeto 
ou a esse conjunto de objetos, considerando-os como indivduos. Assim, um nome como Joo, Isabel ou Aores s acidentalmente se aplicar a vrias pessoas ou ilhas no porque 
estas apresentam caractersticas comuns que as identifiquem como membro de uma classe ou conjunto especfico. Por isso cada Joo, cada Isabel e cada Aores  uma pessoa ou 
ilha considerada como indivduo inconfundvel para as demais pessoas. So materialmente idnticos, mas se aplicam a indivduos diferentes. Se por palavra se entende significante 
(expresso) + significado (contedo), dois ou mais nomes Joo ou Isabel no representam a rigor uma s palavra.

Os substantivos prprios mais importantes so os antropnimos e os topnimos. Os primeiros se aplicam s pessoas que, em geral, tm prenome (nome prprio individual) e sobrenome 
ou apelido (que situa melhor o indivduo em funo da sua provenincia geogrfica [Frei Henrique de Coimbra], da sua profisso [Caeiro], da sua filiao (patronmico) [Soares, 
filho de Soeiro], de uma qualidade fsica ou moral [Diogo Co], de uma circunstncia de nascimento [Neto]).22

Os topnimos se aplicam a lugares e acidentes geogrficos.

Substantivo comum  o que se aplica a um ou mais objetos particulares que renem caractersticas inerentes a dada classe: homem, mesa, livro, cachorro, lua, sol, fevereiro, 
segunda-feira, papa.

Os cinco ltimos exemplos patenteiam que h substantivos comuns que so nomes individualizados, no como os nomes prprios, mas pelo contexto extralingustico e pelo nosso 
saber que nos diz que, no contexto natural nosso s h uma lua, um sol, um ms fevereiro, e um s dia da semana segunda-feira, e, no contexto cultural, s h um papa. 
Se forem escritos com maiscula, deve-se o fato  pura conveno ortogrfica, e no porque so nomes prprios.

Nomes empregados no plural com referncia a uma pluralidade de objetos que individualmente tm o mesmo nome (os Antnios, as Marias, as Romas), ou se aplicam ao conjunto de 
membros de uma mesma famlia ou nacionalidade (os Azevedos, os Maias) ou que significam entes como... (os Tiradentes, os Ruis, os Pels, os Eldorados), ou, ainda, os objetos 
designados pelos nomes dos autores, fabricantes, produtores (os Rembrandts, os Machados de Assis e os Fords), so, na realidade, nomes da classe e, portanto, substantivos 
comuns.

Passagem de nomes prprios a comuns

Passagem de nomes prprios a comuns  No nos prendemos apenas  pessoa ou coisa nomeada; observamos-lhes qualidades e defeitos que se podem transferir a um grupo mais numeroso 
de seres. Os personagens histricos, artsticos e literrios pagam o tributo de sua fama com o desgaste do valor individualizante do seu nome prprio que, por isso, passa 
a comum. Por esta maneira  que aprendemos a ver no Judas no s o nome de um dos doze apstolos, aquele que traiu Jesus;  tambm a encarnao mesma do traidor, do amigo 
falso, em expresses do tipo: Fulano  um judas.

Desta aplicao geral de um nome prprio temos vrios outros exemplos: dom-joo (= homem formoso; galanteador; irresistvel s mulheres), tartufo (= homem hipcrita; devoto 
falso), cicerone (guia de estrangeiros, dando-lhes informaes que lhes interessam), benjamim (= filho predileto, geralmente o mais moo; o mais jovem membro de uma agremiao; 
prende-se ao personagem bblico que foi o ltimo e predileto filho de Jac), frica (= faanha; proeza; revive as faanhas dos antigos portugueses nessas terras).

Passam a substantivos comuns os nomes prprios de fabricantes e de lugares onde se fazem ou se fabricam certos produtos: estradivrios (= violino de Stradivrius), guilhotina 
(de J. Incio Guilhotin), macadame (do engenheiro Mac Adam), sanduche (do conde de Sandwich), havana (charuto; em Portugal havano), champanha (da regio francesa Champagne), 
cambraia (da cidade francesa de Cambray).

Contveis e no contveis

Contveis e no contveis  Outra subclasse do substantivo repousa na variedade da sua extenso, que pode ser descontnua e discreta ou contnua. No primeiro caso, a classe 
 constituda por objetos que existem isolados como partes individualmente consideradas, e recebem o nome de contveis: homem, mulher, casa, livro, etc.

No segundo caso, refere-se a classe a objetos contnuos, no separados em partes diversas, que podem ser massa ou matria ou, ainda, uma ideia abstrata, e recebem o nome de 
no contveis: oceano, vinho, bondade, beleza. Estes no contveis constituem em geral os singularia tantum, isto , habitualmente s se usam no singular.

 categoria dos no contveis pertence o substantivo coletivo, que, na forma de singular, faz referncia a uma coleo ou conjunto de objetos: arvoredo, folhagem, casario. 
Distingue-se o coletivo do plural de um substantivo contvel, pois este alude a uma coleo de objetos considerados individualmente: rvores, folhas, casas.

Entre os coletivos h os universais (povo, passarada, casario) e os particulares (canial, vinhedo, laranjal). Os coletivos universais no so contveis, e, por isso, s se 
pluralizam nas condies especiais  classe, enquanto os particulares se contam e podem ser pluralizados.

No se confundem com os coletivos os chamados por Herculano de Carvalho nomes de grupo (bando, rebanho, cardume, etc.), embora assim o faa a gramtica. Na realidade, so 
nomes de conjunto de objetos contveis, que se aplicam habitualmente ou a uma espcie definida (cardume, alcateia, enxame) ou total ou parcialmente indefinida (conjunto, grupo, 
bando: bando de pessoas, de aves, de alunos). Ao contrrio dos coletivos, os nomes de grupos, principalmente do 2. grupo, requerem determinao explcita da espcie de objetos 
que compem o conjunto: um bando de pessoas, de adolescentes, etc.; um cardume de baleias, de sardinhas, etc. J no seria possvel um vinhedo de vinhos.

So coletivos e nomes de grupo usuais:

a) Conjunto de pessoas:

Alcateia, bando, caterva, corja, horda, farndula, malta, quadrilha, rcova, scia, turba: de ladres, desordeiros, assassinos, malfeitores e vadios.

Associao, clube, comcio, comisso, congresso, conselho, conveno, corporao, grmio, sociedade: de pessoas, reunidas para fim comum.

Assistncia, auditrio, concorrncia, aglomerao, roda: de assistentes, ouvintes ou espectadores.

Cabido: de cnegos de uma catedral.

Caravana: de viajantes.

Claque, torcida: de espectadores para aplaudir ou patear.

Clientela: de clientes, de advogados, de mdicos, etc.

Comitiva, cortejo, squito, acompanhamento: de pessoas que acompanham outra por dever ou cortesia.

Comunidade, confraria, congregao, irmandade: ordem de religiosos.

Conclio, conclave, consistrio, snodo, assemblia: de procos ou de outros padres.

Coro: conjunto, bando de pessoas que cantam juntas.

Elenco: de artistas de uma companhia, pea ou filme.

Equipagem, marinhagem, companha, maruja, tripulao: de marinheiros.

Falange: de heris, guerreiros, espritos.

Junta: de credores, de mdicos.

Pessoal: de uma fbrica, repartio pblica ou escola, loja.

Pliade ou pliada: de poetas, artistas, talentos.

Ronda: de policiais que percorrem as ruas velando pela ordem pblica.

Turma: de estudantes, trabalhadores, mdicos.

b) Grupo de animais:

Alcateia: de lobos, panteras ou outros animais ferozes.

Bando, revoada: de aves, pardais.

Cfila: de camelos.

Cardume, boana, corso (), manta: de peixes.

Colmeia, enxame, cortio: de abelhas.

Correio, cordo: de formigas.

Fato: rebanho de cabras.

Fauna: conjunto de animais prprios de uma regio.

Gado: conjunto de animais criados nas fazendas.

Junta, obesana, cingel, jugo, jugada: de bois.

Lote: de burros, grupos de bestas de carga.

Malhada, ovirio, rebanho: de ovelhas.

Manada: de cavalos, de porcos, guas.

Matilha: de ces.

Ninhada: rodada de pintos.

Nuvem, mirade, onda, praga: de gafanhotos, marimbondos, percevejos.

Piara, vara: de porcos.

Rcova, rcua: de cavalgaduras.

Rebanho, armento, armentio, grei, maromba: de bois, ovelhas.

c) Grupo de coisas:

Acervo, chorrilho, enfiada: de asneiras, tolices. Acervo tambm se aplica aos bens materiais:  grande o acervo da Biblioteca Nacional.

Antologia, analecto, crestomatia, coletnea, florilgio, seleta: de trechos literrios ou cientficos.

Aparelho, baixela, servio: de ch, caf, jantar.

Armada, esquadra, frota: de navios de guerra.

Bateria, fileira: de peas de artilharia.

Braada, braado, buqu, ramo, ramalhete (), festo: de flores.

Cacho: de uvas, de bananas.

Cancioneiro: de canes.  erro empregar o vocbulo como sinnimo de cantor em expresses como cancioneiros romnticos.

Carrada: de razes.

Chuva, chuveiro, granizo, saraiva, saraivada: de balas, pedras, setas.

Coleo: de selos, quadros, medalhas, moedas, livros.

Constelao: de estrelas.

Cordilheira, cadeia, srie: de montes, montanhas.

Cordoalha, cordame, enxrcia: de cabos de um navio.

Feixe, lio, molho (): de lenha, capim.

Fila, fileira, linha: de cadeiras.

Flora: conjunto de plantas de uma determinada regio.

Galeria: de quadros, esttuas.

Gavela ou gabela, paveia: feixe de espigas.

Herbrio: coleo de plantas para exposio ou estudo.

Hinrio: de hinos.

Instrumental: de instrumentos de orquestra, de qualquer ofcio mecnico, de cirurgia.

Moblia, mobilirio: de mveis.

Monte, monto: de pedras, palha, lixo.

Penca: de bananas, laranjas, chaves.

Pilha, ruma: de livros, malas, tbuas.

Rstia: de cebolas, alhos.

Sequncia: srie de cartas do mesmo naipe.

Trofu: de bandeiras.

Observao: Para outros coletivos e nomes de grupos consulte-se o dicionrio.

Estrutura interna do substantivo

Estrutura interna do substantivo  A estrutura interna ou constitucional do substantivo (isto , sua morfologia) consiste, nas lnguas flexivas como o portugus, em geral, 
na combinao de um signo lexical expresso pelo radical com signos morfolgicos expressos por desinncias e alternncias, ambos destitudos de existncia prpria fora dessa 
combinao. Entre as desinncias que, na flexo, se combinam com o substantivo est a marca de nmero e, nas lnguas que a possuem, a marca de caso (nominativo, acusativo, 
etc., como se d, por exemplo, no grego, no latim, no alemo). O substantivo, fora da flexo, pode ser dotado da marca de gnero: menino/menina, gato/gata.23

Nmero

Nmero   uma categoria gramatical inerente primariamente ao substantivo, que se refere aos objetos substantivos considerando-os na sua unidade da classe a que pertencem 
( o nmero singular) ou no seu conjunto de dois ou mais objetos da mesma classe ( o nmero plural). Quando o singular designa vrios objetos de uma mesma classe considerados 
num todo, temos o coletivo (professorado, alunado, caravana, cardume, etc.).

A classe dos objetos substantivos pode conter unidades descontnuas e discretas: so os objetos contveis (homem, casa, cadeira, etc.); a classe pode tambm ser constituda 
de objetos desprovidos de limites internos, como se fossem objetos nicos: so os no contveis. Estes objetos nicos ou so massa ou matria, ou concebidos como tal (ouro, 
ferro, cu, etc.), ou uma ideia abstrata (amor, saudade, riqueza, etc.).

Facilmente se pluralizam os substantivos que pertencem ao grupo dos contveis (homem - homens; casa - casas); j os no contveis, em geral, se usam no singular (singularia 
tantum). Em alguns desses nomes no contveis, o plural alude a diferentes espcies ou  fragmentao: vinhos (o tinto, o branco, o ros), mares e, por consequncia, se apresentam 
com variao semntica. [HCv.1, 14, 364; SA.2, 69]

Em portugus, o significado gramatical plural  obtido com a presena da desinncia pluralizadora -s fonologicamente constituda pela consoante sibilante ps-voclica diante 
de pausa.24 O singular se caracteriza pela ausncia desta desinncia.

A flexo de nmero, em portugus, pelo mecanismo da concordncia, se estende ao adjetivo (e demais adjuntos do substantivo) e ao verbo, quando este entra em concordncia de 
nmero com a pessoa do sujeito.

A flexo de nmero dos substantivos

A flexo de nmero dos substantivos

a) Formao do plural com acrscimo de -s

Forma-se o plural dos substantivos com o acrscimo do morfema pluralizador (desinncia do plural) -s, quando terminados explicitamente por:

1  vogal ou ditongo oral: livro  livros; lei  leis; caj  cajs.

2  vogal nasal tnica ou tona: m  ms; irm  irms; dom  dons (grafando-se ns); lbum  lbuns; totem  totens (para o plural 1ttemes).

3  ditongos nasais -e (tnicos ou tonos) e -o (tono): me  mes; bno  bnos.

b) Formao do plural com acrscimo de -es

Quando no est explcita a vogal temtica suprimida no singular dever ser restituda para constituir a forma terica (s  *ase  ases) e depois ser acrescida a desinncia 
-s. Isto ocorre quando o singular termina por:

1  -s (em slaba tnica): s  ases; fregus  fregueses
 Cs serve para os dois nmeros e ainda possui o plural reduplicativo coses.

2  -z (em slaba tnica): luz  luzes; giz  gizes; cicatriz  cicatrizes

3  -r: cor  cores; elixir  elixires; revlver  revlveres

c) Plural de nomes gregos em -n

Nos nomes de origem grega terminados em -n, pode-se obter o plural com o acrscimo da desinncia -s, ou recorrer  forma terica com a recuperao do -e (abdmen  *abdomene 
 abdmenes). Melhor fora dar a estes substantivos feio mais de acordo com o sistema fonolgico do portugus, eliminando o -n final ou substituindo-o por -m e procedendo-se 
 formao do plural com o s acrscimo do -s (abdome  abdomes; plen  polem  polens, grafando -ns):

abdmen  abdomens ou abdmenes

certmen  certamens ou certmenes

dlmen (dolmem)  dolmens ou dlmenes

espcimen  espcimens ou especmenes

grmen  germens ou grmenes

hfen  hifens ou hfenes

plen (polem)  polens ou plenes

regmen  regimens ou regmenes

Observaes:

1.) den (melhor seria edem, que o Vocabulrio Ortogrfico no registra) faz edens.

2.) Cnon, melhor grafado cnone, faz cnones.

3.) Recorde-se que so acentuados os paroxtonos em -n, e no os em -ens. Da hfen, mas hifens (sem acento grfico).

d) Plural dos nomes em -o tnico

Os nomes em -o tnico a rigor pertencem  classe dos temas em -o ou em -e, conforme o plural respectivo: irmos (= irmo + s), pes (= *pe + s), lees (= *lee + s). Para 
uma descrio coerente Mattoso prope que se parta das formas tericas do plural para se chegar ao tema, suplementadas pelas regras morfofonmicas pertinentes, no processo 
de formao de plural.

Destacando-se a vogal temtica (que passa a semivogal de ditongo em contacto com a vogal anterior), teremos o radical em - (le) e o radical em - (irm, p).

1) os substantivos em - com tema em -e fazem o plural com acrscimo da desinncia -s:

leo (* le + e + s)  lees

corao (* cora + e + s)  coraes

Assim, temos os plurais: questes, meles, razes, etc.

Este grupo  o mais numeroso e, por isso mesmo, tende, no uso espontneo, a assimilar outras formas de plural que a lngua exemplar no adota. Neste grupo esto includos 
todos os substantivos abstratos formados com os sufixos -o, -so e -o e grande parte de substantivos concretos.

comoo  comoes; adorao  adoraes

apreenso  apreenses; compreenso  compreenses

abuso  abuses; viso  vises

caminho (camio)  caminhes (camies); barraco  barraces

Este radical terico em - aparece evidente em adjetivos e verbos da mesma famlia do substantivo, o que  sinal de que este faz o plural em -es; por exemplo, leonino denuncia 
o plural correto de leo: lees.

2) os substantivos em - com tema em -o (irmo) fazem o plural com o acrscimo da desinncia -s:

irmo (*irm + o + s)  irmos

cidado (*cidad + o + s)  cidados

Este radical terico em - aparece evidente em adjetivos e verbos da mesma famlia dos substantivos irmo (irmanar) e cidado (cidadania).

3) os substantivos em - com vogal temtica -e (p - e de pes) fazem o plural com o acrscimo da desinncia -s:

po  (p + e + s)  pes

capito  (capit + e + s)  capites

Descrito o processo de flexo, cabe perguntar como, partindo da forma terica do plural, se chega s formas do singular em -o. Destacando-se a vogal temtica, como j vimos, 
obtemos duas estruturas fonolgicas para os radicais: em - (le) e em  (irm, p). Os de tema em -o no sofrem alterao: irmo; os de tema em -e ou mudam a vogal para -o 
(po) ou, se a vogal do radical for -, apresentam duas mudanas: a vogal temtica passa de -e a -o e a vogal do radical passa de  a : leo.

Dada a confluncia das formas do singular num nico final -o (diferenadas no plural, como acabamos de ver), surgem muitas dvidas no uso do plural, alm de alteraes que 
se deram atravs da histria da lngua, algumas das quais se mantm regional ou popularmente, em geral a favor da forma plural -es, por ser a que encerra maior nmero de 
representantes.

O ensino escolar [comenta Mattoso] se esfora para manter os trs tipos de plural, ora apoiando-se na origem latina, ora se inspirando no espanhol (onde h diferena no singular 
 razn: razones; hermano: hermanos; pan: panes), ora apelando para as preferncias (se bem que s vezes inconsistentes) de determinados autores, na lngua literria, considerados 
clssicos[MC.8, 81-82].

Diante do exposto, oferecemos ao leitor relao minuciosa dos dois grupos de substantivos em -o que no fazem o plural mais frequente em -es:

1) plural em -es:

co  ces

escrivo  escrives

capelo  capeles

tabelio  tabelies

alemo  alemes

po  pes

capito  capites

maapo  maapes

mata-co  mata-ces

catalo  catales

2) plural em -os:

cho  chos

irmo  irmos

cidado  cidados

mo  mos

cristo  cristos

pago  pagos

desvo  desvos

e os paroxtonos apontados em A flexo de nmero dos substantivos - a) 3.

gro  gros

Muitos substantivos apresentam dois e at trs plurais:

aldeo

aldeos

aldees

aldees

ancio

ancios

ancies

ancies

charlato



charlates

charlates

corrimo

corrimos

corrimes



corteso

cortesos

corteses



deo

deos

dees

dees

ermito

ermitos

ermites

ermites

fuo

fuos

fues



guardio



guardies

guardies

refro

refros



refres

sacristo

sacristos



sacristes

truo



trues

trues

vilo

vilos

viles

viles

vulco

vulcos

vulces



e) Plural dos nomes treminados em -l

1  Plural dos nomes terminados em -al, -el, -ol, -ul

Nos nomes em -l, temos de partir da forma terica com restituio da vogal temtica -e, acrscimo do pluralizador -s, posterior s regras morfofonmicas: queda do -l- intermedirio 
e passagem da vogal temtica a semivogal (grafada -i)

carnaval  *carnavale  carnavales  carnavaes  carnavais

papel  *papele  papeles  papees  papis (tnico)

lenol  *lenole  lenoles  lenoes  lenis

nvel  *nivele  niveles  nvees  nveis (tono)25

paul  *paule  paules  paues  pauis

Observaes:

1.) cnsul e mal fazem cnsules e males

2.) cal e aval fazem cales ( = cano) e cais, avales (mais comum em Portugal) e avais

3.) real faz ris (moeda antiga) e reais (moeda nova)

2  Plural dos nomes terminados em -il

a) -il em vogal tona: ocorre a passagem do i a e e posteriormente o mesmo que o caso anterior:

fssil  *fssile  *fossele  fosseles  fossees  fsseis

b) -il com vogal tnica: ocorre o acrscimo do pluralizador -s e posterior supresso do -l, j que no  necessrio recorrer  vogal temtica, por no aparecer no plural:

funil  *funils  funis26

Observao: mrtil faz mrtiles e mrteis; mbil faz mbiles e mbeis.

Rptil e projtil, como paroxtonos, fazem rpteis e projteis; como oxtonos, reptil e projetil fazem reptis e projetis.

f) Plural dos nomes terminados em -x (= ce)

Os terminados em -x com o valor de ce (final com que podem tambm ser grafados) fazem o plural normalmente em -ces:

clix (ou clice), clices; apndix (ou apndice), apndices.

g) Palavras que no possuem marca de nmero

H significantes terminados por -s em slaba tona (como lpis, pires, ou monosslabos como cais, xis) que no possuem marca de nmero, quer no singular quer no plural, pois 
se mostram alheias  classe gramatical de nmero. Cremos ser a melhor lio a de Herculano de Carvalho, segundo a qual no se pode aceitar a doutrina corrente que v nessas 
formas um singular que permanece invarivel no plural.  um caso de sincretismo, e no de neutralizao [HCv.3, 608-609 e 642]. A pluralidade  marcada pelos adjuntos (artigo, 
adjetivo, pronome, numeral): o lpis, os lpis; um pires, dois pires; este xis, estes xis.

Esto neste caso os terminados em:

1) -s (em slaba tona; palavras sigmticas):

o pires, os pires; o lpis, os lpis; a ctis, as ctis.

Observao: Simples faz simpleces ou, o que  mais comum, no varia. Cs, lais e ferrabrs so mais usados invariveis, mas possuem o plural coses, laises e ferrabrases.

2) -x (com o valor de cs): o trax, os trax; o nix, os nix.

Observao: Alguns nomes com x = cs possuem a variante em ce: ndex ou ndice, pex ou pice; cdex ou cdice. Seus plurais so, respectivamente, ndices, cdices, pices. 
Alis, so preferveis as grafias ndice, cdice e pice, no singular.

h) Plurais com alterao de o fechado para o aberto (metafonia)27

Muitas palavras com o fechado tnico, quando passam ao plural, mudam esta vogal para o aberto:

miolo  miolos

Dentre as que apresentam esta mudana (chamada metafonia) na vogal tnica lembraremos aqui as mais usuais:

abrolho

fogo

porco

antolho

forno

porto

caroo

foro

posto

choco

fosso

povo

corcovo

imposto

reforo

coro

jogo

rogo

corpo

miolo

sobrolho

corvo

mirolho

socorro

despojo

olho

tijolo

destroo

osso

torto

escolho

ovo

troco

esforo

poo

troo

Esta alternncia constitui a nica marca do feminino em av e formas com ela relacionadas, onde se acha suprimida a desinncia -a: av  av (< avoa < lat. aviola). Nos casos 
de metafonia, o plural  marcado pelo morfema pluralizador -s e pelo morfema suprassegmental.

Continuam com o fechado no plural:

acordo

esboo

logro

adorno

esposo

morro

almoo

estorvo

repolho

alvoroo

ferrolho

rolo

arroto

fofo

sogro

boda

forro

soldo

bojo

gafanhoto

sopro

bolo

globo

soro

bolso

gorro

toco

cachorro

gosto

toldo

caolho

gozo

topo

coco

horto

torno

contorno

jorro

transtorno

Observao: Como no caso dos plurais em -o (-es, -es, -os), a incluso da palavra no grupo dos metafnicos ou no metafnicos apresenta muitas indecises. O esforo para 
dirimir dvidas nestes casos se tem regulado pela origem do timbre da vogal tnica em latim e na forma paralela das correspondentes em espanhol, onde, como regra, do timbre 
fechado resulta uma vogal simples e do timbre aberto uma ditongao: gozo (esp.)  gozo (port.)  gozos (); fuego (esp.)  fogo (port.)  fogos (). Tanto a etimologia do 
latim quanto o paralelismo do espanhol nem sempre tm a boa resposta s dvidas.

No sofrem alterao os nomes prprios e os de famlia:

os Diogos, os Mimosos, os Raposos, os Portos.

i) Plurais com deslocao do acento tnico  H palavras que, no plural, mudam de slaba tnica:

carter



caracteres

espcimen



especmenes

jnior



juniores

Jpiter



Jupteres

Lcifer



Lucferes

snior



seniores

O plural sorores  de soror, oxtono, o que se estende a sror.

j) Variaes semnticas do significado entre o singular e o plural  Normalmente, o plural guarda o mesmo significado do singular. Isto no acontece, porm, em alguns casos, 
principalmente se se trata de substantivos abstratos em sentidos contextuais:

bem (o que  bom)                                  bens (propriedades)

fria (produto do trabalho dirio)           frias (dias de descanso)

Onde no se preza a honra se desprezam as honras [MM].

Em nomes abstratos como injustias, crueldades, gentilezas, o plural denota atos repetidos, ora multiplicidade dos mesmos atos, com certa conotao aumentativa [FBr.1, 97].

Tambm em nomes concretos pode o plural acusar mudana de significado: ferro (metal)  ferros (algemas) [SA.2, 69].

Esto nestes casos os nomes que no plural indicam o casal:

os pais (pai e me), os irmos (irm e irmo), os reis (rei e rainha).

l) Palavras s usadas no plural ( pluralia tantum )  Eis as principais:

ademanes

endoenas

afazeres

exquias

alvssaras

frias (= repouso)

anais

npcias

arredores

trevas

avs (antepassados)

vveres

belas-artes, belas-letras

nomes de naipes: copas,

confins

ouros, espadas, paus

m) Plural de nomes prprios  Os nomes prprios usados no plural fazem o plural obedecendo s normas dos nomes comuns, e a lngua padro recomenda se ponham no plural, e no 
no singular:

O fidalgo dos Vitos Alarces tratou da cabea na cama, uns quinze dias [CBr.6, 144].

 (...) seria um garfo meritrio do tronco dos Parmas dEa, ao qual ele Rui de Nelas se glorificava de ser estranho? [CBr.6, 171].

Todavia, no  raro o uso do singular na lngua literria:

Os brasileiros do sul, os Correia de S, perdiam muito do encanto dessas obras (...) [GA apud TS, 105].

n) Plural dos nomes estrangeiros no assimilados  Os nomes estrangeiros que se adaptaram ao sistema fonolgico do portugus tm o seu plural consoante as normas vigentes: 
clube  clubes; dlar  dlares; reprter  reprteres; abajur  abajures; ultimato  ultimatos; memorando  memorandos; confete  confetes.

Os no assimilados ao nosso idioma tomam duas direes: a) terminam com -s, sem pretender coincidir com as regras do plural da lngua originria, ou b) regulando-se pelas 
normas da lngua estrangeira, o que, em geral,  o procedimento recomendado na lngua padro e nos textos cientficos.

Do primeiro caso, temos:

films, leaders, ladys, dandys, lieds, blitzes.

Do segundo temos, entre os latinismos:

curriculum  curricula, memorandum  memoranda,

corpus  corpora, etc.,

que podem ser aportuguesados, no singular, em: currculo, memorando, corpo (raro).

campus  campi (o campus, os campi)

Entre os gregos cabe citar:

tpos  tpoi, lgos  lgoi, noma  onmata.

Entre os anglicismos:

lady  ladies; penny  pennies ou pence;

dandy  dandies; sportman  sportmen.

Entre os germanismos:

lied (/ lid / )  lieder; leitmotiv  leitmotiven; blitz  blitzen.

Tambm se erra usando-se lieder como singular.

Os escritores procuram, na medida do possvel, acertar o passo; assim  que Jos Lins do Rego usou lieds nesta passagem de Gordos e Magros (1942): Goethe ia ao povo para 
sentir a fora dos lieds, a msica que dorme na alma popular. Em Poesia e Vida (1945) j se pautava pela norma alem: Destruindo Mozart, uma grande Alemanha desapareceria; 
a Alemanha dos lieder, dos violinos gemendo por debaixo das macieiras em flor (...).

Os nomes italianos em -i j esto no plural, quando flexionados (o confetto  os confetti), mas isto no impediu que um escritor correto como Latino Coelho fizesse o plural 
com acrscimo do -s: Portugal no primou nas invenes admirveis da cincia: no teve Newtons nem Plates. No meneou com galhardo luzimento o escopro ou o pincel: no teve 
Rafais, nem Buonarottis. [apud SS.2, 70]. Tambm de lpis-lazli temos o plural lpis-lazlis. A prevalecer a norma da lngua exemplar, pode-se dizer que se trata de um 
elemento funcional pertencente ao sistema portugus reservado aos plurais estrangeiros no assimilados (Fremdwrter) [ECs.1, 11 n.172].

o) Plural dos nomes de letras  Os nomes de letras vo normalmente ao plural, de acordo com as normas gerais.

Escreve com todos os efes e erres.

Coloquemos os pingos nos is.

N.B.: Xis serve para singular e plural.

Podemos ainda indicar o plural das letras com a sua duplicao: ff, rr, ii.

Este processo ocorre em muitas abreviaturas:

E.E.U.U. (Estados Unidos, tambm representado por EUA, Estados Unidos da Amrica, ainda U.S.A.).

p) Plural dos nomes com o sufixo -zinho  Pem-se no plural os dois elementos e suprime-se o s do substantivo, consoante a regra ortogrfica oficial:

animalzinho = animal + zinho

animaizinhos

coraozinho = corao + zinho

coraezinhos

florzinha = flor + zinha

florezinhas

papelzinho = papel + zinho

papeizinhos

pazinha = p + zinha

pazinhas

            mas

pazinha = paz + inha

pazezinhas

Nota ortogrfica: Os sufixos diminutivos -inho (-ito, etc.), -zinho (-zito, etc.) tm hoje uma distribuio regular, conforme o final da palavra bsica:

a) se termina por vogal tona ou consoante (exceto -s e -z), a escolha  materialmente indiferente, apesar de aparecerem nuanas de sentido contextuais: corpo  corpinho (com 
queda da vogal temtica) / corpozinho (a forma bsica intacta); flor  florinha / florzinha; mulher  mulherinha / mulherzinha;

b) se termina por vogal tnica, nasal ou ditongo,  de emprego obrigatrio -zinho (-zito, etc.); bon  bonezinho; siri  sirizinho; lbum  albunzinho; bem  benzinho; raio 
 raiozinho. Com -zinho evitam-se hiatos do tipo irminha, raioito, etc.;

c) se termina em -s ou -z, o emprego normal  com -inho (-ito, etc.), repudiando-se -zinho (-zito, etc.); ficando intacta a palavra bsica: lapisinho (lpis + inho), cuscuzinho 
(cuscuz + inho), rapazinho (rapaz + inho), cartazinho (cartaz + inho), exatamente como escrevemos lapiseira (lpis + eira), lapisar (lpis + ar), lapisada (lpis + ada), etc.

Estabelecem-se at oposies lxicas e fonolgicas (j que se guardam os acentos das palavras bsicas): cartazinho (= cartz + inho), cartazinha (= crta + zinha), rapazinho 
(= rapz + inho); rapazinho (= rpa + zinho); masinho (= mas + inho), mazinha (= m + zinha) [veja-se o exemplo dado por Oiticica: Voc escreveu a na pedra um masinho que 
ningum percebe (trata-se da conjuno mas)]. s vezes h convergncias grficas: pazinha (paz + inha) e pazinha (p + zinha), que o contexto dissolver.

Se escrevemos oficialmente lapisar, lapiseira, por que o Vocabulrio oficial preceitua lapizinho? Segundo j Epifnio Dias [ED.1,  94] e Jos Oiticica, o coerente seria, 
j que a regra  flexionar as duas unidades: aozinha (no singular)  aesinhas (no plural, j a bsica termina em -s). A regra que obriga o -z e que expusemos por ser a 
ortografia oficial, foi formulada por Gonalves Viana (Ortografia, 123); Mrio Barreto mostrou-se indeciso no pleito: Da regra de Epifnio depreende-se que nos nomes em -o 
os sufixos -inho e -ito se precedem de z (aozinha, escreve o eruditssimo gramtico portugus) e que no plural perdem o z, tomando esta forma no tema e no sufixo: aes-inhas. 
Seja l como for, o que est fora de dvida  que o plural  aesinhas ou aezinhas, coraesinhos ou coraezinhos, e no coraozinhos, aozinhas [MBa.4, 226-227].

Oiticica [JO.3, 89] ainda acha que o normal seria florinhas, florzinhas, que a lngua padro evita, mas que tm adoes eventuais em bons escritores: contam os seus amigos 
que, quando na mocidade frequentava noturnamente os barzinhos da Lapa... [MB.1, II, 493].

A razo do emprego de formas plurais barzinhos, colherzinhas se prende ao fato de que com sufixos outros no ocorre o plural das duas unidades florinha  florinhas.

q) Plural das palavras substantivadas  Qualquer palavra, grupo de palavras, orao ou texto pode substantivar-se, isto , passar a substantivo, que, tomadas materialmente, 
isto , como designao de sua prpria forma externa, valem por um substantivo masculino e singular:

o sim, o no, o qu, o pr, o contra, o h, Peras  feminino, Os homens  o sujeito da orao.

Tais palavras vo normalmente ao plural:

os sins, os nos, os qus, os prs, os contras, os hh (ags)

Enquadram-se neste caso os nomes que exprimem nmero, quando aludem aos algarismos.

Na sua caderneta h trs setes e dois oitos. Tire a prova dos noves. H dois quatros a mais e trs onzes a menos nessas parcelas.

Fazem exceo os terminados em -s (dois, trs, seis), -z (dez) e mil, que so invariveis.

Quatro seis e cinco dez.

r) Plural cumulativo  Alguns nomes possuem duas formas: uma, bsica, singular e outra flexionada em plural que passa a valer como se singular fora:

anan

anans

eir (ir)

eirs (irs)

filh

filhs

ilh

ilhs

lil

lils

o anan, os anans; o lil, os lils.

Observao: Cs fica invarivel ou tem plural cumulativo coses.

Passando a forma plural a ser empregada como um singular (o anans, o lils, etc.), por semelhana de singulares em -s (retrs, por exemplo), admite um novo plural, chamado 
cumulativo, por esquecimento da etapa de pluralizao: o anans, os ananases; o eirs, os eiroses; o filhs, os filhoses; o ilhs, os ilhoses; o lils, os lilases.

s) Plural nos etnnimos  Etnnimo  o nome que se aplica  denominao dos povos, das tribos, das castas ou de agrupamentos outros em que prevalece o conceito de etnia. Estes 
nomes utilizados na lngua comum admitem a forma plural, como todos os outros: os brasileiros, os portugueses, os espanhis, os botocudos, os tupis, os tamoios, etc.

Por conveno internacional de etnlogos, est h anos acertado que, em trabalhos cientficos, os etnnimos que no sejam de origem verncula ou nos quais no haja elementos 
vernculos no so alterados na forma plural, sendo a flexo indicada pelo artigo plural: os tupi, os nambiquara, os caiu, os tapirap, os bntu, os somli, etc.

t) Plural dos nomes compostos  Merece especial ateno o plural dos nomes compostos, uma vez que as dvidas e vacilaes so frequentes. A questo envolve dificuldades de 
ordem ortogrfica (uso ou no do hfen) e de ordem gramatical. Torna-se imperiosa uma sistematizao que venha pr simplificao ou minorar as dvidas ainda existentes, mesmo 
com as ltimas propostas do Acordo Ortogrfico. Sem pretendermos esgotar o assunto, apresentamos os seguintes critrios:

A  Somente o ltimo elemento varia:

1) nos compostos grafados ligadamente:

fidalgo

fidalgos

girassol

girassis

lenga-lenga

lenga-lengas

madressilva

madressilvas

pontap

pontaps

vai-vem

vai-vens

zum-zum

zum-zuns

2) nos compostos com as formas adjetivas gro, gr e bel:

gro-prior

gro-priores

gr-cruz

gr-cruzes

bel-prazer

bel-prazeres

3) nos compostos de tema verbal ou palavra invarivel seguida de substantivo ou adjetivo:

furta-cor

furta-cores

beija-flor

beija-flores

abaixo-assinado

abaixo-assinados

alto-falante

alto-falantes

vice-rei

vice-reis

ex-diretor

ex-diretores

ave-maria

ave-marias

4) nos compostos de trs ou mais elementos, no sendo o 2. elemento uma preposio:

bem-te-vi

bem-te-vis

5) nos compostos de emprego onomatopeico em que h repetio total ou parcial da primeira unidade:

reco-reco

reco-recos

tique-taque

tique-taques

B  Somente o primeiro elemento varia:

1) nos compostos onde haja preposio, clara ou oculta:

cavalo-vapor (= de, a vapor)

cavalos-vapor

ferro de abrir lata

ferros de abrir lata

mula sem cabea

mulas sem cabea

p de moleque

ps de moleque

2) nos compostos de dois substantivos, onde o segundo exprime a ideia de fim, semelhana, ou limita a significao do primeiro:

ao-liga

aos-liga

navio-escola

navios-escola (= para escola)

manga-rosa

mangas-rosa (= semelhante a rosa)

peixe-boi

peixes-boi

salrio-famlia

salrios-famlia

C  Ambos os elementos variam:

1) nos compostos de dois substantivos, de um substantivo e um adjetivo ou de um adjetivo e um substantivo:

amor-perfeito

amores-perfeitos

cabra-cega

cabras-cegas

carta-bilhete

cartas-bilhetes

decreto-lei

decretos-leis

gentil-homem

gentis-homens

guarda-civil

guardas-civis

guarda-mor

guardas-mores

lugar-comum

lugares-comuns

salrio-mnimo

salrios-mnimos

segunda-feira

segundas-feiras

Observao: lugar-tenente faz o plural lugar-tenentes.

2) nos compostos de temas verbais repetidos:

corre-corre

corres-corres

ruge-ruge

ruges-ruges

Observao: Os compostos includos neste caso tambm admitem a flexo adotada pelos nomes de A, 3): corre-corres, ruge-ruges.

D  Ficam invariveis:

1) as frases substantivas:

a estou-fraca (ave)

as estou-fraca

o no sei que diga

os no sei que diga

o disse me disse

os disse me disse

o bumba meu boi

os bumba meu boi

2) os compostos de tema verbal e palavra invarivel:

o ganha-pouco

os ganha-pouco

o pisa-mansinho

os pisa-mansinho

o cola-tudo

os cola-tudo

3) nos compostos de dois temas verbais de significado oposto:

o leva e traz

os leva e traz

o vai-volta

os vai-volta

E  Admitem mais de um plural, entre outros:

fruta-po:

frutas-po, fruta-pes

guarda-marinha:

guardas-marinha ou guardas-marinhas *

padre-nosso:

padres-nossos ou padre-nossos

ruge-ruge:

ruges-ruges ou ruge-ruges

salvo-conduto:

salvos-condutos ou salvo-condutos

* Rejeita-se, sem razo, o plural guarda-marinhas.

Gnero

Gnero  A nossa lngua conhece dois gneros: o masculino e o feminino.

So masculinos os nomes a que se pode antepor o artigo o:

o linho, o sol, o raio, o prazer, o filho, o beijo

So femininos os nomes a que se pode antepor o artigo a:

a flor, a casa, a mosca, a nuvem, a me

Todo substantivo est dotado de gnero, que, no portugus, se distribui entre o grupo do masculino e o grupo do feminino. So masculinos os nomes a que se pode antepor o artigo 
o (o linho, o sol, o clima, o poeta, o grama, o pente, o raio, o prazer, o filho, o beijo) e so femininos os nomes a que se pode antepor o artigo a (a linha, a lua, a grama, 
a ponte, a poetisa, a filha, a dor). S que esta determinao genrica no se manifesta no substantivo da mesma maneira que est representada no adjetivo ou no pronome, por 
exemplo, isto , pelo processo da flexo. Apesar de haver substantivos em que aparentemente se manifeste a distino genrica pela flexo (menino / menina, mestre / mestra, 
gato / gata), a verdade  que a incluso num ou noutro gnero depende direta e essencialmente da classe lxica dos substantivos e, como diz Herculano de Carvalho, no  o 
fato de em portugus existirem duas palavras diferentes  homem / mulher, pai / me, boi / vaca, e ainda filho / filha, lobo / loba (das quais estas no so formas de uma 
flexo, mas palavras diferentes tanto como aquelas)  para significar o indivduo macho e o indivduo fmea (duas espcies do mesmo gnero, em sentido lgico) que permite 
afirmar a existncia das classes do masculino e do feminino, mas, sim, o fato de o adjetivo, o artigo, o pronome, etc., se apresentarem sob duas formas diversas exigidas respectivamente 
por cada um dos termos de aqueles pares opositivos , este homem velho / esta mulher velha, o filho mais nvo / a filha mais nva , formas que de fato constituem 
uma flexo [HCv.1, v.9 s.v. gnero].

A aproximao da funo cumulativa derivativa de -a como atualizador lxico e morfema categorial se manifesta tanto em barca de barco, saca de saco, fruta de fruto, mata de 
mato, ribeira de ribeiro, etc., quanto em gata de gato, porque d ao tema de que entra a fazer parte a capacidade de significar uma classe distinta de objetos, que em geral 
constituem uma espcie do gnero designado pelo tema primrio [HCv.3, 536 n.38; HCv.4, 21].  pacfica, mesmo entre os que admitem o processo de flexo em barco  barca e 
lobo  loba, a informao de que a oposio masculino  feminino faz aluso a outros aspectos da realidade, diferentes da diversidade de sexo, e serve para distinguir os objetos 
substantivos por certas qualidades semnticas, pelas quais o masculino  uma forma geral, no marcada semanticamente, enquanto o feminino expressa uma especializao qualquer:

barco / barca (= barco grande)

jarro / jarra (um tipo especial de jarro)

lobo / loba (a fmea do animal chamado lobo)

Esta aplicao semntica faz dos pares barco / barca e restantes da srie acima no serem consideradas primariamente formas de uma flexo, mas palavras diferentes marcadas 
pelo processo de derivao. Esta funo semntica est fora do domnio da flexo. A analogia material da flexo de gnero do adjetivo  que levou o gramtico a pr no mesmo 
plano belo / bela e menino / menina.

Este fato explica por que na manifestao do gnero no substantivo, entre outros processos, existe a indicao por meio de sufixo nominal: conde / condessa, galo / galinha, 
ator / atriz, embaixador / embaixatriz, etc.

Sem ser funo precpua da morfologia do substantivo, a diferena do sexo nos seres animados pode manifestar-se ou no com diferenas formais neles. Esta manifestao se realiza 
ou pela mudana de sufixo (como em menino / menina, gato / gata)   a moo , ou pelo recurso a palavras diferentes que apontam para cada um dos sexos   a heteronmia 
(homem / mulher, boi / vaca). Na primeira srie de pares, como j vimos na lio de Herculano de Carvalho, no temos formas de uma flexo, mas, nelas, como na segunda srie 
de pares, estamos diante de palavras diferentes.

Quando no ocorre nenhum destes dois tipos de manifestao formal, ou o substantivo, com o seu gnero gramatical, se mostra indiferente  designao do sexo (a criana, a 
pessoa, o cnjuge, a formiga, o tatu) ou, ainda indiferente pela forma, se acompanha de adjuntos (artigos, adjetivos, pronomes, numerais) com moo de gnero para indicar 
o sexo (o artista, a artista, bom estudante, boa estudante).

Inconsistncia do gnero gramatical

Inconsistncia do gnero gramatical  A distino do gnero nos substantivos no tem fundamentos racionais, exceto a tradio fixada pelo uso e pela norma; nada justifica 
serem, em portugus, masculinos lpis, papel, tinteiro e femininos caneta, folha e tinta.

A inconsistncia do gnero gramatical fica patente quando se compara a distribuio de gnero em duas ou mais lnguas, e at no mbito de uma mesma lngua histrica na sua 
diversidade temporal, regional, social e estilstica. Assim  que, para ns, o sol  masculino e, para os alemes,  feminino die Sonne, a lua  feminino, e, para eles, masculino 
der Mond; enquanto o portugus mulher  feminino, em alemo  neutro das Weib. Sal e leite so masculinos em portugus e femininos em espanhol: la sal e la leche. Sangue  
masculino em portugus e francs e feminino em espanhol: le sang (fr.) e la sangre (esp.).

Mesmo nos seres animados, as formas do masculino ou do feminino podem no determinar a diversidade de sexo, como ocorre com os substantivos chamados epicenos (aplicados a 
animais irracionais), cuja funo semntica  s apontar para a espcie: a cobra, a lebre, a formiga ou o tatu, o colibri, o jacar, ou os substantivos aplicados a pessoas, 
denominados comuns de dois, distinguidos pela concordncia: o / a estudante, este / esta consorte, reconhecido / reconhecida mrtir, ou ainda os substantivos de um s gnero 
denominados sobrecomuns, aplicados a pessoas, cuja referncia a homem ou a mulher s se depreende pela referncia anafrica do contexto: o algoz, o carrasco, o cnjuge.

A mudana de gnero

A mudana de gnero  Aproximaes semnticas entre palavras (sinnimos, antnimos), a influncia da terminao, o contexto lxico em que a palavra funciona e a prpria fantasia 
que moldura o universo do falante, tudo isto representa alguns dos fatores que determinam a mudana do gnero gramatical dos substantivos. Na variedade temporal da lngua, 
do portugus antigo ao contemporneo, muitos substantivos passaram a ter gneros diferentes, alguns sem deixar vestgios, outros como mar, hoje masculino, onde o antigo gnero 
continua presente em preamar (prea = plena, cheia) e baixa-mar.

J foram femininos fim, planeta, cometa, mapa, tigre, fantasma, entre muitos outros; j foram usados como masculinos: rvore, tribo, catstrofe, hiprbole, linguagem, linhagem 
[SA.5, I, 65-70; PDo.1].

O gnero nas profisses femininas

O gnero nas profisses femininas  A presena, cada vez mais justamente acentuada, da mulher nas atividades profissionais que at bem pouco eram exclusivas ou quase exclusivas 
do homem tem exigido que as lnguas  no s o portugus  adaptem o seu sistema gramatical a estas novas realidades. J correm vitoriosos faz muito tempo femininos como mestra, 
professora, mdica, advogada, engenheira, psicloga, filloga, juza, entre tantos outros.

As convenes sociais e hierrquicas criaram usos particulares que nem sempre so unanimemente adotados na lngua comum. Todavia, j se aceita a distino, por exemplo, entre 
a Cnsul (= senhora que dirige um consulado) e a Consulesa (= esposa do Cnsul), a Embaixadora (= senhora que dirige uma Embaixada) e Embaixatriz (= esposa do Embaixador). 
J para senador vigoram indiferentemente as formas de feminino senadora e senatriz para a mulher que exerce o cargo poltico ou para a esposa do senador, regra que tambm 
poucos gramticos e lexicgrafos estendem a consulesa e embaixatriz.

Na hierarquia militar, a denominao para mulheres da profisso parece no haver uma regra generalizada. Correm com maior frequncia os empregos28:

o cabo Ester Silva, o sargento Andreia.

Na linguagem jurdica, as peties iniciais vm com o masculino com valor generalizante, dada a circunstncia de no se saber quem examinar o processo, se juiz ou juza.

Meritssimo Senhor Juiz

Excelentssimo Senhor Desembargador

Note-se, por fim, que algumas formas femininas podem no vingar por se revestirem de sentido pejorativo: chefa, caba, por exemplo.

Formao do feminino

Formao do feminino  Os substantivos que designam pessoas e animais manifestam o gnero e apresentam, quase sempre, duas formas diferentes: uma para indicar os seres do 
sexo masculino e outra para os seres do sexo feminino:

filho



filha

pai



me

rapaz



rapariga

Podemos distinguir, na manifestao do feminino, os seguintes processos:

a) com a mudana ou acrscimo ao radical, suprimindo a vogal temtica: filho  filh(o) + a  filha:

1  os terminados em -o mudam o -o em -a, por analogia com a flexo dos adjetivos biformes:

filho



filha

menino



menina

aluno



aluna

gato



gata

2  os em -e uns h que ficam invariveis, outros acrescentam -a depois de suprimir a vogal temtica: alfaiate  alfaiat(e) + a  alfaiata.

No variam de forma  semelhana dos adjetivos:

amante, cliente, constituinte, doente, habitante,

inocente, ouvinte, servente, etc.

Variam:

3  os em -or formam geralmente o feminino com acrscimo de a:

doutor  doutora

professor  professor

Observao: Outros, terminados em -eira: arrumadeira, lavadeira, faladeira (a par de faladora).

4  os em vogal atemtica (tnica), -s, -l, -z acrescentam a, sem qualquer alterao morfofonmica:

fregus



freguesa

zagal



zagala

portugus



portuguesa

oficial



oficiala

juiz



juza

guri



guria

peru



perua

5  os em -o (dada a confluncia no singular e permanncia de formas diferenadas no plural, como j vimos, apresentam os seguintes casos:

a) quando este final pertence a nomes de tema em -o (transformado em semivogal do ditongo nasal), tm suprimida normalmente esta vogal e acrescida de -a e posterior fuso 
por crase:

irmo  irm(o) + a  irma  irm (por crase);

alemo  alem(o) + a  alema  alem. 29

b) quando -o corresponde a forma terica -, tal qual ocorre com o plural, h desnasalao da vogal temtica e acrscimo de -a, que favorece o aparecimento de hiato:

breto (radical terico bret, cf. o plural bretes)  breto(m) + a  bretoa;

bom  bo(m) + a  boa.

c) quando -o  sufixo derivacional aumentativo, a nasalidade desenvolve o fonema de transio /n/:

valento (radical terico valent, cf. pl. valentes)  valento + n + a  valentona.

6  os que tm o sufixo derivacional eu suprimem a vogal temtica (aqui sob forma de semivogal do ditongo), acrescentam a e, ao se obter o hiato ea, desenvolvem normalmente 
o ditongo /ey/ e conhecem posterior passagem do e fechado a aberto /ey/ (passagem que no se d em todo o territrio onde se fala a lngua, como, por exemplo, em Portugal): 
europeu  europe(u) + a  europea  europeia  europeia.

Assim procedem: ateu, egeu, filisteu, giganteu, pigmeu.

Fazem exceo: judeu  judia, sandeu  sandia.

7  manifestam o feminino por meio dos sufixos derivacionais -esa, -essa, -isa, -triz, -ez:

abade  abadessa

duque  duquesa

alcaide  alcaidessa

embaixador  embaixatriz

     (ou alcaidina)

     (embaixadora)

baro  baronesa

etope  etiopisa

bispo  episcopisa

imperador  imperatriz

conde  condessa

jogral  jogralesa

condastvel  condastabelesa

papa  papisa

cnego  canonisa

pton  pitonisa

cnsul  consulesa

poeta  poetisa

dicono  diaconisa

prncipe  princesa

doge  dogesa, dogaresa,

prior  priora, prioresa

     dogaressa

profeta  profetisa

druida  druidesa, druidisa

sacerdote  sacerdotisa

     (ocorre em O. Bilac)

visconde  viscondessa

8  no se enquadram nos casos precedentes:

ator  atriz

mandarim  mandarina

av  av

maestro  maestrina

capiau  capioa

     (tambm maestra)

czar /pron. tar/ - czarina *

pierr  pierrete

dom  dona

raja ou raj  rni ou rani

fel  felana

rapaz  rapariga

galo  galinha

rei  rainha

grou  grua

ru  r

heri  herona

silfo  slfide

ilhu  ilhoa

sulto  sultana

landgrave  landgravina

tabaru  tabaroa

maraj  marani

* Tambm grafado: tzar  tzarina.

b) com palavras diferentes para um e outro sexo (heternimos):

1  Nomes de pessoas:

cavaleiro  amazona

marido  mulher

cavalheiro  dama

padrasto  madrasta

confrade  confreira

padre  madre

compadre  comadre

padrinho  madrinha

frade  freira

pai  me

frei  sror, soror, sor

patriarca  matriarca

genro  nora

rico-homem  rica-dona

homem  mulher

2  Nomes de animais:

bode  cabra

carneiro  ovelha

boi  vaca

cavalo  gua

burro  besta

veado  veada, cerva ()

co  cadela

zango, zngo  abelha

c) feminino com auxlio de outra palavra:

H substantivos que tm uma s forma para os dois sexos:

estudante, consorte, mrtir, amanuense, constituinte, escrevente, herege, intrprete, etope, ouvinte, nigromante, servente, vidente, penitente

So por isso chamados comuns de (ou a) dois. Tais substantivos distinguem o sexo pela anteposio de o (para o masculino) e a (para o feminino):

o estudante  a estudante

o camarada  a camarada

o mrtir  a mrtir

Incluem-se neste grupo os nomes de famlia:

(...) redarguiu colrica a Pacheco (...) [CBr apud MB.2, 150].

Os nomes terminados em -ista e muitos terminados em -e so comuns de dois:

o capitalista  a capitalista;   o doente  a doente

Tambm nomes prprios terminados em -i (antigamente ainda -y) so comuns tanto a homens como a mulheres:

Darci, Juraci

Enquadram-se neste grupo os nomes de animais para cuja distino de sexo empregamos as palavras macho e fmea:

cobra macho;   jacar fmea

Podemos ainda servir-nos de outro torneio:

o macho da cobra;   a fmea do jacar

Estes se chamam epicenos.

d) sobrecomuns

So nomes de um s gnero gramatical que se aplicam, indistintamente, a homens e mulheres: 30

o algoz, o carrasco, o cnjuge, a criatura, a criana, o ente, o indivduo, a pessoa, o ser, a testemunha, o verdugo, a vtima.

Gnero estabelecido por palavra oculta

Gnero estabelecido por palavra oculta  So masculinos os nomes de rios, mares, montes, ventos, lagos, pontos cardeais, meses, navios, por subentendermos estas denominaes:

O (rio) Amazonas, o (oceano) Atlntico, o (vento) breas, o (lago) Ldoga, o (ms) abril, o (porta-avio) Minas Gerais

Por isso so normalmente femininos os nomes de cidade, ilhas:

A bela (cidade) Petrpolis. A movimentada (ilha) Governador.

Nas denominaes de navios, depende do termo subentendido: o (transatlntico) Argentina, a (corveta) Belmonte, a (canhoneira) Tijuca, etc. De modo geral, os grandes transatlnticos 
so todos masculinos, em vista deste substantivo oculto, embora muitos tenham nomes femininos: Embarcou no Lusitnia e foi para Lisboa [MBa.5, 294].

Notem-se os seguintes gneros:

O (vinho) champanha (e no a champanha!), o (vinho) madeira, o (charuto) havana, o (caf) moca, o (gato) angor, o (co) terra-nova.

Mudana de sentido na mudana de gnero

Mudana de sentido na mudana de gnero  H substantivos que so masculinos ou femininos, conforme o sentido com que se achem empregados:

a apocalipse      o apocalipse

a cabea (parte do corpo)  o cabea (o chefe)

a capital (cidade principal)  o capital (dinheiro, bens)

a gnesis      o gnesis

a lngua (rgo muscular; idioma)  o lngua (o intrprete)

a lotao (capacidade de um carro, navio, sala, etc.)  o lotao (forma abreviada de autolotao)

a moral (parte da filosofia; moral de um fato; concluso)  o moral (conjunto de nossas faculdades morais; nimo)

a rdio (a estao)  o rdio (o aparelho)

a voga (moda; popularidade)  o voga (o remador)

Gnero de compostos

Gnero de compostos  Os compostos so uma espcie de construo sinttica abreviada, de modo que, se so constitudos por substantivos variveis (biformes), o determinante 
(a 2. unidade) concorda com o gnero do determinado e  responsvel pelo gnero do composto: a batata-rainha e no a batata-rei, a ponta-seca (instrumento de corte) [MAg.1, 
160; MAg.3, 157].

Nos compostos de unidades uniformes,  evidente que no se d a concordncia do 2. elemento, mas o gnero do composto continua se regulando pela 1. unidade: a cobra-capelo, 
o pau-paraba, a fruta-po.

Neste ltimo caso, d-se com frequncia a perda da noo do composto (tratado como palavra base), o que facilita que o gnero do composto se regule pela 2. unidade: o pontap 
e a indeciso entre o povo se  a fruta-po (o normal), se o fruta-po (com esquecimento do composto).

Se o composto est constitudo de tema verbal e substantivo, a regra  o composto ter o gnero masculino singular: o tira-teima(s), o arranca-rabo, o trava-lngua, o trava-conta(s).

Contrariamente ao gnero da lngua e por imitao inglesa, passou-se a usar de compostos em que o determinante, invarivel, ocupa o primeiro lugar, e o determinado o segundo, 
ficando o gnero do composto regulado por este ltimo elemento: a ferrovia, a aeromoa. Segundo Martinz de Aguiar, por esta porta  que nos chegou o masculino de o clera-morbo 
(morbo, latino,  masculino) e, na forma reduzida, o clera, e no por influncia francesa. A passagem ao hoje mais usual e aceito a clera-morbo, a clera, se deveu  analogia 
com o processo regular no portugus.

Gneros que podem oferecer dvida

Gneros que podem oferecer dvida:

a) So masculinos:

Os nomes de letra de alfabeto, cl, champanha, d, eclipse, formicida, grama (unidade de peso), jngal (jngala), lana-perfume, milhar, orbe, pijama, proclama, saca-rolhas, 
sanduche, ssia, telefonema, soma (o organismo tomado como expresso material em oposio s funes psquicas).

b) So femininos:

Aguardente, alface, alcunha, alcone, anlise, anacruse, bacanal, fcies, fama, cal, cataplasma, clera, clera-morbo, coma (cabeleira e vrgula), dinamite, eclipse, faringe, 
fnix, filoxera, fruta-po, gesta (= faanha), libido, pol, pre, sndrome, tbia, variante e os nomes terminados em -gem (exceo de personagem que pode ser masc. ou fem.).

c) So indiferentemente masculinos ou femininos:

gape, avestruz, caudal, componente (masc. no Br. e fem. em Portugal), crisma, diabete, gamb, hlice, ris, juriti, igarit, lama ou lhama, laringe (mais usado no fem.), 
ordenana, personagem, renque, sabi, sentinela, soprano, sustica, suter, tapa, trama (intriga), vspora.

Mais de um feminino  Alm dos j apontados no decorrer do captulo, lembraremos ainda os mais usuais:

aldeo  alde, aldeoa

motor  motora, motriz (adj.)

deus  deusa, deia (pot.)

pardal  pardoca, pardaloca, pardaleja

diabo  diaba, diabra, diboa

parvo  prvoa, parva

elefante  elefanta, elefoa, ali

polons  polonesa, polaca

javali  javalina, gironda

varo  varoa, virago, matrona

ladro  ladra, ladrona, ladroa

vilo  vil, viloa

melro  mlroa, melra

Observao: As oraes, os grupos de palavras, as palavras e suas partes tomadas materialmente so consideradas como do nmero singular e do gnero masculino:  bom que estudes; 
o sim; o no; o re-, etc.

Aumentativos e diminutivos

Aumentativos e diminutivos  Os substantivos apresentam-se com a sua significao aumentada ou diminuda, auxiliados por sufixos derivacionais:

homem      homenzarro      homenzinho

A NGB, confundindo flexo com derivao, estabelece dois graus de significao do substantivo:

a) aumentativo: homenzarro

b) diminutivo 31: homenzinho

A derivao gradativa do substantivo se realiza por dois processos, numa prova evidente de que estamos diante de um processo de derivao, e no de flexo:

a) sinttico  consiste no acrscimo de um final especial chamado sufixo derivacional aumentativo ou diminutivo: homenzarro, homenzinho;

b) analtico  consiste no emprego de uma palavra de aumento ou diminuio (grande, enorme, pequeno, etc.) junto ao substantivo: homem grande, homem pequeno.

A flexo se processa de modo sistemtico, coerente e obrigatrio em toda uma classe homognea, fato que no ocorre na derivao, o que j levara o gramtico e erudito romano 
Varro a consider-la uma derivatio voluntaria.

Aumentativos e diminutivos afetivos

Aumentativos e diminutivos afetivos 32  Fora da ideia de tamanho, as formas aumentativas e diminutivas podem traduzir o nosso desprezo, a nossa crtica, o nosso pouco caso 
para certos objetos e pessoas, sempre em funo da significao lexical da base, auxiliados por uma entoao especial (eufrica, crtica, admirativa, lamentativa, etc.) e 
os entornos que envolvem falante e ouvinte:

poetastro, politicalho, livreco, padreco, coisinha, issozinho

Dizemos ento que os substantivos esto em sentido pejorativo.

A ideia de pequenez se associa facilmente  de carinho que transparece nas formas diminutivas das seguintes bases lxicas:

paizinho, mezinha, queridinha

Funo sinttica do substantivo

Funo sinttica do substantivo  Quanto  funo sinttica, o substantivo exerce por excelncia a funo de sujeito (ou seu ncleo) da orao e, no domnio da constituio 
do predicado, as funes de objeto direto, complemento relativo, objeto indireto, predicativo, adjunto adnominal e adjunto adverbial. Em geral, na funo de sujeito e de objeto 
direto dispensa o substantivo o concurso de qualquer outro elemento; nas outras, acompanha-se de ndice funcional.

Toda palavra, parte da palavra ou toda unidade lingustica de maior extenso  a orao e o texto inclusive  considerada materialmente, como objetos substantivos vale por 
um substantivo, na metalinguagem. Assim, em Joo  oxtono, re- um prefixo, o hoje e o amanh o que temos so elementos significantes da linguagem primria (isto , a linguagem 
cujo objeto  a realidade no lingustica) que se podem converter em nomes de si mesmos  e, portanto, em substantivos  no plano da metalinguagem do discurso (isto , a 
linguagem cujo objeto  uma linguagem), vale dizer, no emprego metalingustico da linguagem. Em o no ou o ai! no temos substantivaes de advrbio ou de interjeio, mas 
substantivos metalexicalizados. Em O dlim-dlo dos sinos acordou-me cedo, no temos uma onomatopeia a funcionar como sujeito; no exemplo, dlim-dlo j no  uma onomatopeia 
(repare-se que s o substantivo ou equivalente funciona como sujeito), mas o seu nome expresso por substantivo designativo do som que o sino emite.  o que a escolstica chamava 
suppositio materialis [ECs.12, 107; HCv.2, 189].

Grafia dos nomes prprios estrangeiros

Grafia dos nomes prprios estrangeiros  As cincias, as artes, a cultura, em geral, e o contato intenso entre naes fazem circular uma multiplicidade de nomes prprios estrangeiros, 
quer antropnimos, quer topnimos. A tradio literria  mais lusitana que brasileira  prefere, quando possvel, aportuguesar, nos antropnimos, o prenome, deixando intacto 
o sobrenome: Emlio Zola, Ernesto Renan, Renato Descartes, Antnio Meillet, Frederico Diez. Todavia, tambm  possvel a manuteno integral do nome estrangeiro: Antoine Meillet, 
John Milton, Juan de Mena.

H outros que tradicionalmente so mantidos intactos: William Shakespeare, Johann Wolfgang von Goethe, Giovanni Boccaccio, Wolfgang Amadeus Mozart.

Particular ateno merecem os nomes latinos que, por imitao francesa, aparecem com a terminao -us do nominativo, quando deveriam ter -o: Bruto (e no Brutus), Jnio (e 
no Junius), Quintlio (e no Quintilius) [MBa.7, 252 - 253].

Maiores adeptos do aportuguesamento, especialmente em Portugal, angariam os topnimos, principalmente quando j correram entre escritores desde os sculos XV e XVI. Assim, 
 pacfica nos dois pases (j que os pases independentes de expresso oficial portuguesa acertam o passo com a lio e prtica dos lusitanos) a aceitao de Londres (e no 
London), Viena (e no Wien), Florena (e no Firenze), Colnia (e no Kln), Mogncia (e no Mainz ou Mayence), ao lado de outras de difcil aportuguesamento, como Washington, 
Windsor, Civitvecchia, St. Etienne.

Para brasileiros soam estranhos aportuguesamentos como Moscovo, Aquisgrano (Aix-la-Chapelle ou Aachen), Bona (Bonn), Vratislvia (Breslau), Cambrgia (Cambridge), Francoforte 
(Frankfurt), Glsgua (Glasgow), entre outros, embora vrias propostas tenham aceitao unnime: Anturpia (para Anvers), Avinho (Avignon), Basileia (Ble ou Basel), Berna 
(Berne), Cornualha (Cornwall), Cracvia (Krakw), Leida (Leyden), Nimega (Nijmegen), Nova Iorque (New York), Zurique (Zurich).

2  Adjetivo

Adjetivo

Adjetivo   a classe de lexema que se caracteriza por constituir a delimitao, isto , por caracterizar as possibilidades designativas do substantivo, orientando delimitativamente 
a referncia a uma parte ou a um aspecto do denotado.

O adjetivo pertence a um inventrio aberto, sempre suscetvel de ser aumentado. A estrutura interna ou constitucional do adjetivo consiste, nas lnguas flexivas, na combinao 
de um signo lexical expresso pelo radical com signos morfolgicos expressos por desinncias e alternncias, ambas destitudas de existncia prpria fora dessas combinaes. 
No portugus, entre as desinncias est a marca de gradao, isto , o grau absoluto ou relativo da parte, ou aspecto (qualidade) significado no radical, (belo  belssimo), 
bem como afixos de gnero e de nmero. A relao gramatical instaurada entre o signo delimitador e o signo delimitado  geralmente expressa pela concordncia.

A delimitao apresenta distines; pode ser explicao, especializao e especificao, expressas por instrumentos verbais correspondentes: os explicadores, os especializadores 
e os especificadores. Os explicadores destacam e acentuam uma caracterstica inerente do nomeado ou denotado. Os especializadores marcam os limites extensivos ou intensivos 
pelos quais se considera o determinado, sem isol-lo nem op-lo a outros determinveis capazes de caber na mesma denominao. Os especificadores restringem as possibilidades 
de referncia de um signo, ajuntando-lhe notas que no so inerentes a seu significado.

Junto a virtuais, os especificadores delimitam dentro das classes correspondentes outras classes menos amplas (p. ex. homem / homem branco). Aplicados a atuais, apresentam 
os objetos denotados como pertencentes a classes que, por sua vez, se consideram includas em classes mais extensas (cf. um menino louro pertence  classe menino louro, 
que  membro da classe menino). Este tipo de determinao Coseriu chama especificao distintiva.

Formalmente anloga  especificao distintiva, mas muito diferente no que toca ao funcional,  a especificao informativa ou identificao, que  um tipo autnomo de determinao, 
expresso pelos instrumentos identificadores. Consiste a identificao na especificao do significado de uma forma multvoca para garantir sua compreenso por parte do ouvinte 
atual ou eventual. No  a identificao um processo que se realiza com significados, como a delimitao, mas com formas, e com vista  atribuio do significado, isto , 
 um processo para que as formas se tornem inequvocas ao ouvinte.

Instrumentos gramaticais da determinao nominal

Instrumentos gramaticais da determinao nominal  Os instrumentos verbais da determinao nominal so expressos por palavras dotadas de significado categorial e lxicos compreendidas 
pelos adjetivos, locues adjetivas, oraes adjetivas e nomes em aposio, que se aplicam tanto a nomes virtuais quanto a atuais.

So exemplos de:

a) delimitadores explicadores: o vasto oceano, as lquidas lgrimas

b) delimitadores especializadores: a vida inteira, o sol matutino, o dia no ocaso, o cu austral, o homem como sujeitos pensantes, Cames como poeta.

c) delimitadores especificadores (especificao distintiva): castelo medieval, menino louro, aves aquticas, o presidente da Repblica, o mdico de famlia.

So exemplos de determinao identificadora: folha de papel, folha de zinco, quadro de futebol, quadro de parede, lngua-idioma, lngua-rgo, o real moeda, homem homem (e 
no homem ser humano).

Os identificadores podem ser ocasionais (Caxias, Maranho), usuais (So Loureno do Sul), ou constantes (Nova York, Porto Alegre). Os identificadores usuais e constantes, 
como partes integrantes de um signo, constituem, com seus determinados, verdadeiros nomes compostos, embora normalmente dissociveis, no caso dos identificadores usuais, em 
virtude de circunstncias do falar a que Coseriu chama entornos.

Assim, se o falante estiver no Maranho, escusar dizer Caxias, Maranho, mas to somente Caxias, como o habitante de So Loureno do Sul usar apenas So Loureno, dentro 
do mesmo entorno.

Observao: Outros instrumentos verbais podem, sozinhos ou acompanhados de adjetivo, exercer a funo de delimitadores nominais. Entretanto, com os adjetivos propriamente 
ditos no se confundem, porque no possuem significao lexical (ou, como vimos atrs, quando a apresentam, tm significado lexical genrico, o que ocorre com certos pronomes), 
e integram um inventrio fechado: so pronomes adjuntos (a que a gramtica tradicional chamava adjetivos determinativos: possessivos, demonstrativos, indefinidos) e, intimamente 
relacionados com estes ltimos, os numerais.

Nota de nomenclatura: Os gramticos antigos gregos e latinos reuniam substantivos e adjetivos numa s classe, a dos nomes, como ainda fazem alguns gramticos de lnguas estrangeiras 
(ingleses, por exemplo). S na Idade Mdia se fez a distino entre nomes substantivos e nomes adjetivos. Isto porque um mesmo objeto pode ser apreendido ou como objeto absoluto 
e independente (isto , substncia afetada por um acidente: o forte amor), ou como objeto dependente (inerente a um sujeito: o homem amoroso). Da, com frequncia, poder o 
mesmo significante ocorrer com um ou outro desses valores: alto monte  o alto do monte. Assim tambm expresses inteiras, inclusive oraes, podem substantivar-se, vale 
dizer, podem passar a exercer funes que os substantivos exercem; da as chamadas oraes subordinadas substantivas: Desejo teu progresso / Desejo que progridas [ECs.1, 291-308; 
HVc.1, 427-428]. Por outro lado, uma orao adjetiva no introduzida pelos conectores cujo e o qual pode voltar a substantivar-se mediante a anteposio do artigo, se se elide 
o substantivo antecedente: No sei o que tem de verdade nisso, onde a orao transposta de adjetivo passa a substantivo para exercer a funo de objeto direto em relao ao 
predicado no sei. Chamar ao o (a, os, as) pronome demonstrativo  mascarar a substantivao.

Locuo adjetiva

Locuo adjetiva   a expresso formada de preposio + substantivo ou equivalente com funo de adjetivo:

Homem de coragem = homem corajoso

Livro sem capa = livro desencapado

Era uma noite medonha,

Sem estrelas, sem luar [GD]

Homem de cor

Escritores de hoje

Note-se que nem sempre encontramos um adjetivo de significado perfeitamente idntico ao de locuo adjetiva:

Colega de turma

A lngua potica  mais receptiva ao emprego do adjetivo que exprime matria em lugar da locuo adjetiva:

ureas esttuas             esttuas de ouro

nuvens plmbeas           nuvens de chumbo

colunas marmreas       colunas de mrmore

Substantivao do adjetivo

Substantivao do adjetivo  Certos adjetivos so empregados sem qualquer referncia a nomes expressos como verdadeiros substantivos. A esta passagem de adjetivos a substantivos 
chama-se substantivao:

A vida  combate

que os fracos abate,

que os fortes, os bravos,

s pode exaltar [GD].

Nestas substantivaes, o adjetivo prescinde do substantivo que o podia acompanhar, ou ento  tomado em sentido muito geral e indeterminado, no marcado, caso em que se usa 
o masculino ( maneira do neutro latino, mas no do neutro em portugus, que no existe):33

O bom da histria  que no houve fim.

O engraado da anedota passou despercebido.

O triste do episdio est em que a vida  assim.

Flexes do adjetivo

Flexes do adjetivo  O adjetivo se combina com certos signos gramaticais para manifestar o nmero, o gnero e o grau. O grau, entretanto, no constitui, no portugus, um 
processo gramatical e, assim, deve ser excludo da nossa descrio como tal,  semelhana do que j fazem gramticas de outras lnguas romnicas. O grau, com estas reservas, 
figura aqui, por ter sido ainda contemplado pela NGB. A gradao em portugus, tanto no substantivo quanto no adjetivo, se manifesta por procedimentos sintticos, e no morfolgicos, 
como o era em latim, ou por sufixos derivacionais.

Nmero do adjetivo

Nmero do adjetivo  O adjetivo acompanha o nmero do substantivo a que se refere: aluno estudioso, alunos estudiosos.

O adjetivo, portanto, conhece os dois nmeros que vimos no substantivo: o singular e o plural.

Formao do plural dos adjetivos

Formao do plural dos adjetivos  Aos adjetivos se aplicam, na maioria dos casos, as mesmas regras de plural dos substantivos.

Alguns poucos adjetivos, como j ocorreu nos substantivos, se mostram indiferentes  marca de nmero, servindo indistintamente para a indicao do singular ou plural: simples, 
issceles, assim:

critrio simples   /   soluo simples

carter assim    /   coragem assim

Quanto aos adjetivos compostos, lembraremos que normalmente s o ltimo varia, quando formados por dois adjetivos:

amizades luso-brasileiras,   reunies ltero-musicais

saias verde-escuras,   folhas azul-claras

Variam ambos os elementos, entre outros exemplos, surdo-mudo: surdos-mudos.

Com exceo dos casos mais gerais, no tem havido unanimidade de uso no plural dos adjetivos compostos, quer na lngua literria, quer na variedade espontnea da lngua. A 
dificuldade fica ainda acrescida pelo fato de uma mesma forma poder ser empregada como adjetivo ou como substantivo, e a cada uma dessas funes so atribudos plurais distintos, 
especialmente nos dicionrios. As denominaes de cores  que mais chamam a nossa ateno neste particular. Assim, para verde-claro como substantivo, se atribui o plural verdes-claros 
e, como adjetivo, verde-claros; j verde-azul, substantivo ou adjetivo,  assinalado com o plural verde-azuis.

Se o 2. elemento  um substantivo (verde-abacate, verde-gua), o composto admite dois plurais: verdes-abacates e verdes-abacate; verdes-guas e verdes-gua.

O melhor, nestes casos, ser apelar para as nossas tradicionais maneiras de adjetivar, com o auxlio da preposio de ou das locues de cor, de cor de ou, simplesmente, cor 
de [SS.3, 74]: olhos de verde-mar, ramagens de cor verde-garrafa, luvas de cor de pele, olhos cor de safira, olhos verdes da cor do mar.

Mrio Barreto, lembrando a possibilidade da elipse da preposio de ou da locuo cor de, recomenda a invariabilidade do substantivo empregado adjetivamente, em fitas creme, 
luvas caf, isto , fitas de cor de creme, e rejeita fitas cremes, luvas cafs [MBa.1, 375-377]. Ensina ainda que, sendo frequente o emprego do nome do objeto colorido para 
expressar a cor desse mesmo objeto: o lil plido, um violeta escuro, aplicando-se aos nomes lil, violeta o gnero masculino na acepo da cor: Prefiro o rosa ao violeta, 
em vez de Prefiro a rosa  violeta, orao que pode ser entendida de maneira ambgua.

Gnero do adjetivo

Gnero do adjetivo  O adjetivo concorda tambm em gnero com o substantivo a que se refere. Conhece, assim, os gneros comuns ao substantivo: masculino e feminino. Todavia, 
esta distino (em gnero e em nmero) tem diferente valor referencial no substantivo e no adjetivo; no substantivo, o gnero e o nmero modificam a referncia, enquanto no 
adjetivo designam sempre a mesma qualidade e s se explicam como simples repercusso da relao sinttica (concordncia) que se instaura entre o determinado e o determinante, 
nada acrescentando semanticamente. Diferente de menino / menina, o adjetivo estudioso / estudiosa no assinala menino como da classe dos machos nem menina da classe das fmeas.

Formao do feminino dos adjetivos

Formao do feminino dos adjetivos  Os adjetivos uniformes so os que apresentam uma s forma para acompanhar substantivos masculinos e femininos. Geralmente estes uniformes 
terminam em -a, -e, -l, -m, -r, -s e -z:

povo lusada

    nao lusada

breve exame

    breve prova

trabalho til

    ao til

objeto ruim

    coisa ruim

estabelecimento modelar

    escola modelar

homem audaz

    mulher audaz

conto simples

    histria simples

Excees principais: andaluz, andaluza; bom, boa; chim, china; espanhol, espanhola.

Quanto aos biformes, isto , que tm uma forma para o masculino e outra para o feminino, os adjetivos seguem de perto as mesma regras que apontamos para os substantivos. Lembraremos 
aqui apenas os casos principais:

a) Os terminados em s, -or, e u acrescentam no feminino um a, na maioria das vezes.

chins, chinesa; lutador, lutadora; cru, crua.

Excees: 1) corts, descorts, monts e pedrs so invariveis; 2) incolor, multicor, sensabor, maior, melhor, menor, pior e outros so invariveis. Outros em -dor ou -tor 
apresentam-se em -triz: motor, motriz (a par de motora, conforme vimos nos substantivos); outros terminam em -eira: trabalhador, trabalhadeira (a par de trabalhadora). Superiora 
(de convento) usa-se como substantivo. 3) hindu  invarivel; mau faz m.

b) Os terminados em -eu passam, no feminino, a -eia:

europeu, europeia;   ateu, ateia.

Excees: judeu  judia;   sandeu  sandia

                  tabaru  tabaroa;   ru  r.

c) Alguns adjetivos, como j ocorreu nos substantivos, apresentam uma forma terica bsica do feminino singular com vogal aberta que estar presente tambm no plural; no masculino 
esta vogal aberta passa a fechada:

laborioso (), laboriosa (); disposto (), disposta ().

Este procedimento de partir do timbre da vogal tnica aberta do feminino para o fechamento da vogal do masculino, e no o inverso, explica-se pelo fato de que h adjetivos 
em que a vogal tnica fechada do masculino se mantm fechada tambm no feminino: encantada, encantadora, portugus, portuguesa.

Gradao do adjetivo

Gradao do adjetivo  H trs tipos de gradao na qualidade expressa pelo adjetivo: positivo, comparativo e superlativo, quando se procede a estabelecer relaes entre o 
que so ou se mostram duas ou mais pessoas. Como j dissemos, a gradao em portugus se expressa por mecanismo sinttico ou derivacional:

O Positivo, que no se constitui a rigor numa gradao, enuncia simplesmente a qualidade:

O rapaz  cuidadoso.

O Comparativo compara qualidade entre dois ou mais seres, estabelecendo:

a) uma igualdade:

O rapaz  to cuidadoso quanto (ou como) os outros.

b) uma superioridade:

O rapaz  mais cuidadoso que (ou do que) os outros.

c) uma inferioridade:

O rapaz  menos cuidadoso que (ou do que) os outros.

O Superlativo pode:

a) ressaltar, com vantagem ou desvantagem, a qualidade do ser em relao a outros seres:

O rapaz  o mais cuidadoso dos (ou dentre os) pretendentes ao emprego.

O rapaz  o menos cuidadoso dos pretendentes.

b) indicar que a qualidade do ser ultrapassa a noo comum que temos dessa mesma qualidade:

O rapaz  muito cuidadoso.

O rapaz  cuidadosssimo.

No primeiro caso, a qualidade  ressaltada em relao ou comparao com os outros pretendentes. Diz-se que o superlativo  relativo.

Forma-se o superlativo relativo do mesmo modo que o comparativo de superioridade ou inferioridade antecedido sempre do artigo definido e seguido de sintagma preposicional 
iniciado por de (ou dentre): o mais... de (ou dentre), o menos... de (ou dentre).

No segundo caso, a superioridade  ressaltada sem nenhuma relao com outros seres. Diz-se que o superlativo  absoluto ou intensivo.

O superlativo absoluto pode ser analtico ou sinttico.

Forma-se o analtico com a anteposio de palavra intensiva (muito, extremamente, extraordinariamente, etc.) ao adjetivo: muito cuidadoso. Na modalidade espontnea, mesmo 
em literatura, pode-se obter a manifestao afetiva do superlativo mediante a repetio do adjetivo: Ela  linda linda. Ou do advrbio: Ela  muito muito linda.

O sinttico  obtido por meio do sufixo derivacional -ssimo (ou outro de valor intensivo) acrescido ao adjetivo na forma positiva, com a supresso da vogal temtica, quando 
o exigirem regras morfofonmicas: cuidadosssimo.

Quanto ao aspecto semntico, cuidadosssimo diz mais,  mais enftico do que muito cuidadoso. O sufixo -ssimo  recente na longa histria do portugus e se deve a um emprstimo 
do latim, durante o Renascimento, com o auxlio do italiano, responsvel pela recuperao do sufixo. Na linguagem coloquial, se desejamos que o superlativo absoluto analtico 
seja mais enftico, costumamos repetir a palavra intensiva: Ele  muito mais cuidadoso, ou se buscam efeitos expressivos mediante a ajuda de criaes sufixais imprevistas 
como -simo.

O meio termo entre estes dois superlativos (muito cuidadoso  cuidadosssimo)  obtido com a frmula: mais do que cuidadoso, menos de:

Estas e outras arguies, complicadas com os procedimentos mais do que speros da expulso do coleitor Castracani em 1639, no concorreram pouco para alienar de todo o nimo 
das populaes... [RS.2, IV, 75-6].

Tomou o estudante uma casa menos de modesta, fora de portas em Santo Antnio dos Olivais [CBr.6, 107].

Alteraes grficas no superlativo absoluto

Alteraes grficas no superlativo absoluto  Ao receber o sufixo intensivo, o adjetivo pode sofrer certas modificaes na sua forma:

a) os terminados em -a, -e, -o perdem essas vogais:

cuidadosa        cuidadosssima

elegante           elegantssimo

cuidadoso        cuidadosssimo

b) os terminados em -vel mudam este final para -bil:

terrvel            terribilssimo

amvel            amabilssimo

c) os terminados em -m e -o passam, respectivamente, a -n e -an:

comum            comunssimo

so                   sanssimo

d) os terminados em -z passam esta consoante a -c:

feroz                ferocssimo

sagaz               sagacssimo

H adjetivos que no alteram sua forma, como  o caso dos terminados em -u, -l (exceto -vel), -r:

cru  crussimo;   fcil  faclimo  facilssimo;   regular  regularssimo

Afora estes casos, outros h onde os superlativos se prendem s formas latinas. Apontemos os mais frequentes:

acre  acrrimo

magnfico  magnificentssimo

amargo  amarssimo

magro  macrrimo

amigo  amicssimo

maldico  maledicentssimo

antigo  antiqussimo

malvolo  malevolentssimo

spero  asprrimo

malfico  maleficentssimo

benfico  beneficentssimo

msero  misrrimo

benvolo  benevolentssimo

mido  minutssimo

clebre  celebrrimo

negro  nigrrimo

clere  celrrimo

nobre  nobilssimo

cristo  cristianssimo

parco  parcssimo

cruel  crudelssimo

pessoal  personalssimo

difcil  dificlimo

pobre  pauprrimo

doce  dulcssimo

prdigo  prodigalssimo

fiel  fidelssimo

pblico  publicssimo

frio  frigidssimo

provvel  probabilssimo

geral  generalssimo

sbio  sapientssimo

honorfico  honorificentssimo

sagrado  sacratssimo

humilde  humlimo

salubre  salubrrimo

incrvel  incredibilssimo

soberbo  superbssimo

inimigo  inimicssimo

simples  simplicssimo

ntegro  integrrimo

ttrico  tetrrimo

livre  librrimo

Ao lado do superlativo  base do termo latino, pode circular o que procede do adjetivo acrescido da terminao ssimo:

aglimo  agilssimo

humlimo  humildssimo, humilssimo

antiqussimo  antigussimo

macrrimo  magrssimo

crudelssimo  cruelssimo

nigrrimo  negrssimo

dulcssimo  docssimo

parcssimo  parqussimo

faclimo  facilssimo

pauprrimo  pobrssimo

Observao: Chamamos a ateno para as palavras terminadas em -io que, na forma sinttica, apresentam dois is, por seguirem a regra geral da queda do -o final para receber 
o sufixo:

cheio  cheissimo, cheiinho

feio  feissimo, feiinho

frio  frissimo, friinho

necessrio  necessarissimo

precrio  precarissimo

srio  serissimo, seriinho

sumrio  sumarissimo

vrio  varissimo

Observao: A tendncia da lngua  fuga ao hiato leva a que apaream formas com fuso dos dois ii, embora num ou noutro adjetivo a eufonia impede a mudana: *frssimo, *varssimo, 
por exemplo, embora Dias Gomes (sc. XVIII) escrevesse proprssimo. Ainda que escritores usem formas com um s i (chessimo, cheinho, fessimo, serssimo, etc.), a lngua 
padro insiste no atendimento  manuteno dos dois ii.34

Comparativos e superlativos irregulares

Comparativos e superlativos irregulares  Afastam-se dos demais na sua formao de comparativo e superlativo os adjetivos seguintes:

Comparativo de
 superioridade

Superlativo

Positivo

absoluto

relativo

bom

melhor

timo

o melhor

mau

pior

pssimo

o pior

grande

maior

mximo

o maior

pequeno

menor

mnimo

o menor

No se diz mais bom nem mais grande em vez de melhor e maior; mas podem ocorrer mais pequeno, o mais pequeno, mais mau, por menor, o menor, pior. Tambm se podem empregar 
bom e grande nas expresses mais ou menos grande, mais ou menos bom, pois que os tais adjetivos se regulam pela ltima palavra:

Os poemas completos do desterrado do Ponto, todas as literaturas europeias os ambicionavam, e os meteram em si, com mais ou menos boa mo [AC apud MBa.1, 249].

Note-se o jogo de alternncia de mais pequeno e menor em:

Em matria de amor-prprio o mais pequeno inseto no o tem menor que a baleia ou o elefante [MM.1, 151].

 ainda oportuno lembrar que s vezes bom e mau constituem com o substantivo seguinte uma s lexia, uma s unidade lxica, de modo que, nesta situao, podem ser modificados 
pelos advrbios mais, menos, melhor, pior, que passam a referir-se a toda a expresso: homem de mais mau-carter, pessoa de menos ms intenes, palavras da melhor boa-f:

Pode ser que ele ainda venha para ti com o corao purificado, e o tributo da mocidade avaramente pago. Mais bom marido ser ento [CBr apud MBa.5, 241-242].

Ao lado dos superlativos o maior, o menor, figuram ainda o mximo e o mnimo que se aplicam a ideias abstratas e aparecem ainda em expresses cientficas, como a temperatura 
mxima, a temperatura mnima, mximo divisor comum, mnimo mltiplo comum, nota mxima, nota mnima.

Em lugar de mais alto e mais baixo usam-se os comparativos superior e inferior; por o mais alto e o mais baixo, podemos empregar os superlativos o supremo ou o sumo, e o nfimo.

Comparando-se duas qualidades ou aes, empregam-se mais bom, mais mau, mais grande e mais pequeno em vez de melhor, pior, maior, menor:

 mais bom do que mau (e no:  melhor do que mau).

A escola  mais grande do que pequena.

Escreveu mais bem do que mal.

Ele  mais bom do que inteligente.

Por fim, assinalemos que, depois dos comparativos em -or (superior, inferior, anterior, posterior, ulterior), se usa a preposio a:

Superior a ti, inferior ao livro, anterior a ns

Repetio de adjetivo com valor superlativo

Repetio de adjetivo com valor superlativo  Na linguagem coloquial, pode-se empregar, em vez do superlativo, a repetio do mesmo adjetivo:

O dia est belo belo (= belssimo).

Ela era linda linda (= lindssima).

Proferindo-se estas oraes, d-se-lhes um tom de voz especial para melhor traduzir a ideia superlativa expressa pela repetio do adjetivo. Geralmente consiste na pausa demorada 
na vogal da slaba tnica.

Comparaes em lugar do superlativo

Comparaes em lugar do superlativo  Para expressarmos mais vivamente o elevado grau de uma qualidade do ser, empregamos ainda comparaes que melhor traduzem a ideia superlativa:

Pobre como J (= pauprrimo), feio como a necessidade (feissimo), claro como gua, escuro como breu, esperto como ele s, malandro como ningum.

Usam-se ainda certas expresses no comparativas: podre de rico, feio a mais no poder, grande a valer.

Adjetivos diminutivos

Adjetivos diminutivos  As formas diminutivas de adjetivos podem (precedidas ou no de muito, mais, to, bem) adquirir valor de superlativo:

Blusa amarelinha, garoto bonitinho;  bem feiozinho, benza-o Deus, o tal teu amigo! [AAz].

No estilo coloquial no  raro o reforo deste emprego do diminutivo mediante as locues da Silva, da Costa (cf. BF, XVII, 1  2, 197).

3  Artigo

Artigo

Artigo  Chamam-se artigo definido ou simplesmente artigo o, a, os, as que se antepem a substantivos, com reduzido valor semntico demonstrativo e com funo precpua de 
adjunto desses substantivos.

A tradio gramatical tem aproximado este verdadeiro artigo de um, uns, uma, umas, chamados artigos indefinidos, que se assemelham a o, a, os, as pela mera circunstncia de 
tambm funcionarem como adjunto de substantivo, mas que do autntico artigo diferem pela origem, tonicidade, comportamento no discurso, valor semntico e papis gramaticais.

Pela origem, porque o, a, os, as se prendem a antigo demonstrativo latino (illum, illa)  o que lhes garante o valor de demonstrativo atenuado , enquanto um, uma, uns, umas 
representam emprego especial de generalizao do numeral um. Pela tonicidade, porque, sendo um vocbulo eminentemente tono, no pode funcionar sozinho na orao, como o faz 
o chamado artigo indefinido que, neste papel, s no se confunde com o pronome indefinido pelo auxlio que lhe emprestam os entornos lingusticos. Do ponto de vista semntico 
e consequentes resultados nas funes gramaticais, est o primordial valor atualizador do artigo, de que decorrem os demais valores contextuais: 35 o artigo definido identifica 
o objeto designado pelo nome a que se liga, delimitando-o, extraindo-o de entre os objetos da mesma classe, como aquele que j foi (ou ser imediatamente) conhecido do ouvinte 
 quer atravs do discurso (que dele faz meno), quer pela dixis (que o mostra, ordenando-o espacial e temporalmente), quer pelo contexto idiomtico, no qual a palavra 
, quando no ulteriormente determinada, nome de conceito ou de toda uma classe de objetos (assim, o homem  um animal racional equivale a aquilo que conhecemos pela palavra 
homem...) [HCv.1, 2, 1427].

Deste valor atualizador decorre o fato sinttico de o artigo ser dispensado quando tal valor j vem expresso por outro identificador adnominal, seja demonstrativo (este homem), 
seja possessivo (meu livro), seja por equivalente a este valor, ou antes de um nome prprio, j por si atual e individual. No portugus, em que a presena do artigo junto 
ao possessivo adnominal tem sido marcado por um progressivo emprego da fase antiga  moderna, o uso do artigo em o meu livro  redundante, e, poderamos repetir a classificao 
de um velho fillogo lembrado por Pacheco Jnior: muleta gramatical [PJ.1, 141].

Outra funo  a da substantivao: qualquer unidade lingustica, do texto ao morfema, pode substantivar-se quando  nome de si mesma, tomada materialmente: o o  artigo, 
o este  disslabo, no sabe o como me agradar, o per-  um prefixo.

Este fato e a fora identificadora contribuem para a possibilidade de calar o nome j antes anunciado ou, se no antes anunciado no discurso, conhecido e identificado pelo 
falante e pelo ouvinte: o livro de Edu e o teu, a blusa branca e a azul, a blusa branca e aquela azul, etc. Tal possibilidade criou a diferena, na nomenclatura gramatical, 
entre o artigo e o pronome demonstrativo, baseada em dois fatos: o segundo o vale semanticamente por isto, isso, aquilo, e por usarem outras lnguas, nesta situao, um 
pronome (ce em francs, quello em italiano), e no o artigo. Gili Gaya [GG.1] j mostrou que lnguas h que preferem, nesta situao, o artigo, enquanto outras preferem formas 
de demonstrativo.

Ora, isto nos leva a acompanhar os autores (Alarcos Llorach, mais recentemente) que veem como substantivaes de oraes previamente transpostas a subordinadas adjetivas (No 
sei o que fazes, objeto direto de no sei) ou adverbiais (Gostou do quando o filho se defendeu, complemento relativo de gostar).

Esta omisso do antecedente do relativo  anloga  que se d em subordinadas de quem absoluto (Quem tudo quer tudo perde, e nas interrogativas indiretas (No sei quem 
vir, No sei quando vir), j classificadas como de valor substantivo desde Epifnio Dias, no final do sculo passado, e adotadas depois, entre outros, por Said Ali e 
Mrio Pereira de Sousa Lima.

Por fim, cumpre acrescentar que se uma operao determinativa passa a suprflua ou se realiza implicitamente, graas  presena de outros determinadores ou pelo contexto, 
as unidades especficas empregadas na operao podem servir para outras funes [ECs.3, 292-293]. Coseriu lembra que o artigo empregado junto com um quantificado tem funo 
individuadora (os dois homens) e, aplicado a um nome prprio  j atual e individual , pode exercer funo estilstica (Maria ao lado de a Maria).

Junto de nome no marcado por gnero e nmero, pode o artigo ser responsvel pela indicao dessas categorias gramaticais: o artista, a artista; o lpis, os lpis.

Emprego do Artigo Definido

Emprego do artigo definido

Emprego do artigo definido  De largo uso no idioma, o artigo assume sentidos especialssimos, graas aos contornos verbais e extraverbais:

a) Junto dos nomes prprios denota nossa familiaridade (neste mesmo caso pode o artigo ser tambm omitido):

O Cleto talvez falte hoje. O Antnio comunicou-se com o Joo.

Observao: O uso mais frequente, na linguagem culta, tendo em vista o valor j de si individualizante, dispensa o artigo junto a nomes prprios de pessoas, com exceo dos 
que se acham no plural.  tradio ainda s antepor artigo a apelidos: o Cames, o Tasso, o Vieira. Modernamente tem-se estendido a presena do artigo antes dos nomes de escritores, 
artistas e personagens clebres, principalmente quando usado em sentido figurado: o Dante, o Torquato, o Rafael (= o quadro de Rafael). Dizemos, indiferentemente, Cristo ou 
o Cristo (ou ainda o Cristo Jesus).

b) Costuma aparecer ao lado de certos nomes prprios geogrficos, principalmente os que denotam pases, oceanos, rios, montanhas, ilhas:

a Sucia, o Atlntico, o Amazonas, os Andes, a Groenlndia

Entre ns, dispensam artigo os nomes dos seguintes Estados: Alagoas, Gois, Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina, So Paulo, Pernambuco e Sergipe.

Nota: No se acompanham de artigo as denominaes geogrficas formadas com nomes ou adjetivos: So Paulo, Belo Horizonte.

Quanto s cidades, geralmente prescindem de artigo. H, contudo, excees devidas  influncia de seu primitivo valor de substantivo comum: a Bahia, o Rio de Janeiro, o Porto, 
etc. Continuando a prtica de outros idiomas que, por sua vez, se inspiram no rabe el-Kahira (a Vitoriosa), dizemos com artigo o Cairo.

Recife sempre se disse acompanhado de artigo: o Recife. Modernamente, pode dispens-lo. Aracaju, capital de Sergipe, conhece a mesma liberdade.

c) Entra em numerosas alcunhas e cognomes: Isabel, a Redentora; D. Manuel, o Venturoso; mas: Frederico Barba-roxa.

d) Aparecem em certos ttulos: o professor Joo Ribeiro, o historiador Tito Lvio, o doutor Sousa.

Observao:  omitido antes dos ordinais pospostos aos ttulos: Pedro I, Henrique VIII, Joo VI.

e) So omitidos nos ttulos de Vossa Alteza, Vossa Majestade, Vossa Senhoria e outras denominaes, alm das formas abreviadas dom, frei, so e as de origem estrangeira, como 
Lord, Madame, Sir e o latinismo sror ou soror (oxtono): Vossa Alteza passeia. Frei Joaquim do Amor Divino Caneca nasceu em Pernambuco. Soror (ou Sor) Mariana Alcoforado 
foi clebre escritora portuguesa.

Observao: Ensina-nos Joo Ribeiro:  um galicismo a intercalao do artigo nas frmulas: Sua Excelncia o deputado, Sua Alteza o prncipe, Sua Santidade o Papa. Estes galicismos 
foram adotados geralmente na lngua para evitar frmulas menos elegantes, como: a excelncia do Sr. Deputado, a alteza do prncipe, como mandaria dizer a vernaculidade [JR.1, 
266-7]. E, em nota, transcreve exemplos que lhe foram apontados pelo colaborador Firminio Costa, dos quais lembramos:

... comunicou a coisa  Alteza de el-rei Dom Joo o III.

f) Dizem-se com artigo os nomes de trabalhos literrios e artsticos (se o artigo pertence ao ttulo, h de ser escrito obrigatoriamente com maiscula):

a Eneida, a Jerusalm Libertada, Os Lusadas, A Tempestade.

Mesmo quando precedido de preposio fora do ttulo, deve-se modernamente (a tradio no procedia assim) preservar a integridade do artigo includo na denominao:

No caso de Os Lusadas...

Passando os olhos por As Cidades e as Serras.

Estampou-se ontem em O Globo a notcia...

s vezes, aparentemente, se juntam dois artigos porque o primeiro tem subentendida a espcie da publicao: Um artigo meu publicado na [revista] A guia [FP apud MAg.1, 
21]. O [livro] A Padaria Espiritual est sendo caprichosamente confeccionado... [LM apud MAg.1].

A m interpretao deste fato causou o emprego errneo e pleonstico do artigo em construes do tipo: A notcia saiu pelas As Grandes Novidades.

g) So omitidos antes da palavra casa, designando residncia ou famlia, nas expresses do tipo: fui a casa, estou em casa, venho de casa, passei por casa, todos de casa.

Observao: Seguido de nome do possuidor ou de um adjetivo ou expresso adjetiva, pode o vocbulo casa acompanhar-se de artigo: Da (ou de) casa de meus pais.

h) Omite-se ainda o artigo junto ao vocbulo terra, em oposio a bordo (que tambm dispensa artigo):

Iam de bordo a terra.

i) Costuma-se omitir o artigo com a palavra palcio, quando desacompanhada de modificador:

Perguntou o mestre-escola afoitamente  sentinela do pao se o representante nacional, morgado da Agra, estava em palcio [CBr.1, 144].

j) Aparece junto ao termo denotador da unidade quando se expressa o valor das coisas (aqui o artigo assume o valor de cada):

Mas de poucos cruzeiros o quilo.

k) Aparecem nas designaes de tempo com os nomes das estaes do ano:

Na primavera h flores em abundncia. Em uma tarde do estio,  hora incerta e saudosa... [AH.2, 154].

Observaes:

1.) Se o nome de estao vier precedido de de, significando prprio de, o artigo  dispensado: Numa manh de primavera.

2.) Se a expresso temporal contiver nome de ms, dispensa ainda o artigo: Meu irmo faz anos em maro.

l) Nas indicaes de tempo com a expresso uma hora, significando uma a primeira hora, o emprego do artigo  facultativo:

Era perto da uma hora   ou   Era perto de uma hora.

A primeira construo parece ser mais dos portugueses; a segunda dos brasileiros. Por ser mais antiga na lngua, fixou-se o emprego do a acentuado em expresses como  uma 
hora, etc.

m) , na maioria dos casos, de emprego facultativo junto a possessivos em referncia a nome expresso:

Meu livro   ou   o meu livro

Observao:  obrigatrio o artigo, quando o possessivo  usado sem substantivo, em sentido prprio ou translato: Bonita casa era a minha. Fazer das suas. Vs, peralta?  
assim que um moo deve zelar o nome dos seus? Pensas que eu e meus avs ganhamos o dinheiro em casa de jogo ou a vadiar pelas ruas? [MA.1, 57].

Mas sem artigo dizemos vrias expresses, como de meu, de seu natural, linguagens com que traduzimos os bens prprios de algum  a primeira  e qualidades naturais  
a ltima:

Nunca tive de meu, outro bem maior.

Bernardes era como estas formosas de seu natural que se no cansam com alindamentos, a quem tudo fica bem [AC].

Dispensa ainda artigo o possessivo que entra em expresses com o valor de alguns:

Os Lusadas tm suas dificuldades de interpretao.

Finalmente, na expresso de um ato usual, que se pratica com frequncia, o possessivo vem normalmente sem artigo:

s oito toma seu caf.

n) No se repete o artigo em frases como:

O homem mais virtuoso do lugar.

Estaria errado: O homem o mais virtuoso do lugar.

Nota   preciso distinguirmos cuidadosamente este feio erro de uma expresso tradicional e corretssima que consiste em acrescentar, depois do substantivo determinado por 
adjetivo, o conjunto o mais, que introduzir uma explicao, um adendo, uma restrio. s vezes, exprimem-se tais ideias com nfase, caso em que costumam aparecer, antes de 
o mais, elementos de valor concessivo como ainda, mesmo, at, posto que.

A m pontuao (deveria haver vrgula antes do conjunto iniciado por o mais) aproxima os dois tipos de expresso e uma anlise menos cuidadosa tem feito que se evitem construes 
corretssimas.

Martinz de Aguiar [MAg.1, 309-324] estudou com muita perspiccia os dois modos e assim concluiu a sua lio:

Para que haja pureza de linguagem,  necessrio,  imprescindvel, que o substantivo, sem o acrscimo de o mais, combine com os outros termos da proposio num sentido cabal, 
de tal maneira, que possa repetir-se. Sem isso, estamos, iniludivelmente,  vista de um estrangeirismo de sintaxe ou de uma construo anti-idiomtica, quer se trate de o 
 o, quer de um  o. No , pois, correta, esta construo de Gonalves de Magalhes:

Seu rosto de leite e rosas,

De um contorno o mais perfeito.

Rosto de um contorno perfeito  tudo, rosto de um contorno no  nada [MAg.1, 324].

Assim, esto corretas as seguintes passagens, notando-se, apenas, a ausncia de vrgula antes de o mais (exemplos extrados da srie apresentada por Aguiar):

A inveja te assaltou, e a quem perdoa

Este monstro o maior do escuro Inferno? [Pe. Agostinho de Macedo].

O mtodo, que as cincias as mais exatas seguem nas suas operaes [Jernimo Barbosa].

O a, este som o mais claro de todos [Castilho Antnio].

Note-se que nos exemplos apontados poderamos colocar vrgula, o que no acontece com os que se seguem:

Tens mil guas cristalinas,

As frutas as mais divinas,

Uma esposa de invejar,

Que mais podes desejar? [PA]

Desde a quadra a mais antiga

De que rezam os pergaminhos [FV]

Os poetas quiseram apenas dizer as frutas mais divinas, a quadra mais antiga.

O tipo zero determinao antes do substantivo seguido de o mais  menos enftico (homem o mais alto), e se valoriza atravs de uma inverso (o mais alto homem). [Cf. MAg.1, 
319-320].

o) Junto s designaes de partes do corpo e nomes de parentesco, os artigos denotam a posse:

Traz a cabea embranquiada pelas preocupaes.

Tem o rosto sereno, mas as mos trmulas

D. Laura (falando  irm):

Pois no! quem me podia aconselhar prudncia

a no ser a senhora, a filha singular,

que ousa dispor de si dentro do ptrio lar,

sem ouvir pai nem me. Cuida que a sua escolha

basta, sem que primeiro a me e o pai a acolha? [AC.3, 17].

p) A palavra todo, no singular, pode vir ou no seguida de artigo, com os significados de inteiro, total e cada, qualquer.

A presena ou ausncia do artigo depende de que o substantivo exija ou repudie a antecipao de o, a, os, as.

Na lngua moderna, todo o corre mais no sentido de totalidade, inteireza, nfase (aqui principalmente com os termos que denotam sentimento: de todo o corao, com todo o gosto, 
com todo o amor, com todo o carinho, etc.):

Toda a famlia estava no recinto (= a famlia toda, inteira).

Entretanto, como trao do seu valor semntico indiferenciado (qualquer ou inteiro), ainda pode aparecer nos autores modernos todo o ao lado de todo sem artigo, para expressar 
a ideia de qualquer:

O corao de todo o ser humano

Foi concebido para ter piedade [CS.2].

No costuma dispensar artigo, entre bons escritores, o adjetivo substantivado modificado por todo, ainda sendo este ltimo empregado com o sentido de qualquer:

Todo o prximo tem direito natural.

s vezes, aparecem na escrita incertezas no emprego de todo o / todo, toda a / toda, em virtude do fenmeno de fontica sinttica que funde o -o, -a finais com o, a artigo.

Com as designaes geogrficas, o emprego de todo o e todo depende de o nome exigir ou no a presena do artigo:

Todo o Brasil.   Todo Portugal.

Usam-se, modernamente, com o artigo numerosas expresses em que entra a palavra todo:

todo o gnero, todo o mundo, a toda a parte, em toda a parte, por toda a parte, a toda a brida, a todo o galope, a toda a pressa, em todo o caso, a toda a hora, a todo o instante, 
a todo o momento, a todo o transe, a todo o custo, etc.

No plural, todos no dispensa artigo (salvo se vier acompanhado de palavra que exclua este determinante):

Todas as famlias tm bons e maus componentes.

Todas as famlias estavam no recinto.

Todas estas pessoas so nossas conhecidas.

Se exprimimos a totalidade numrica por numeral precedido do elemento reforativo todos, aparecer artigo se o substantivo vier expresso:

Todos os dois romances so dignos de leitura.

Todas as seis respostas estavam certas.

Se omitirmos o substantivo, no haver lugar para o artigo:

Fizeram-me seis perguntas. Respondi, acertadamente, a todas seis.

q) Aparece o artigo nas enumeraes onde h contraste ou nfase:

Ficou entre a vida e a morte.

As virtudes civis e, sobretudo, o amor da ptria tinham nascido para os godos que, fixando o seu domiclio nas Espanhas, possuram de pais a filhos o campo agricultado, o 
lar domstico, o templo da orao e o cemit rio do repouso e da saudade [AH.1, 5].

Notaram todos que a tarde e a noite daquele dia foram as mais tristes horas de Casimiro na sua priso de dois meses [CBr.6, 191].

r) Dispensa-se o artigo nos vocativos, na maioria das exclamaes e nas datas que apomos aos escritos:

Velhice  Amigo, diz-me um amigo,

Sabe que a boa idade  a ltima idade [AO].

Rio, 10 de maio de 1956.

s) Costuma-se dispensar o artigo depois de cheirar a, saber a (= ter o gosto de) e expresses sinnimas:

Isto cheira a jasmim.   Isto sabe a vinho.

t) Em frases feitas, aparece o artigo definido na sua antiga forma lo, la.

Tenho ouvido os quinhentistas a la moda, e os galiparlas [CBr.1, 61].

Assim encontramos: a la f, a la par, a la mar, etc.

Aparece ainda a forma antiga na expresso el-rei, que se deve usar sem a anteposio de o, apesar de alguns raros exemplos em contrrio, em pginas de autores mais afastados 
de ns.

Vestgio provvel da poca em que tinha o artigo a fora ditica de pronome demonstrativo  o seu emprego junto a que em construes cristalizadas como pelo que, no que diz 
respeito, etc.

Emprego do artigo indefinido

Emprego do artigo indefinido  O artigo indefinido pode assumir matizes variadssimos de sentido: registraremos as seguintes consideraes:

a) Usa-se o indefinido para aclarar melhor as caractersticas de um substantivo enunciado anteriormente com artigo definido:

Estampava no rosto o sorriso, um sorriso de criana.

b) Procedente de sua funo classificadora, um pode adquirir significao enftica, chegando at a vir acompanhado de orao com que de valor consecutivo, como se no contexto 
houvesse um tal:

O instrumento  de uma preciso admirvel.

Ele  um heri! (compare com: Ele  heri!)

Falou de uma maneira, que ps medo nos coraes.

c) Antes de numeral denota aproximao:

Esperou uma meia hora (aproximadamente).

Ter uns vinte anos de idade.

d) Antes de pronome de sentido indefinido (certo, tal, outro, etc.), dispensa-se o artigo indefinido, salvo quando o exigir a nfase:

Depois de certa hora no o encontramos em casa (e no uma certa hora).

Devia, pois, ser melanclico alm do exprimvel o que a se passou nessa grade; triste, e desgraado direi, a julg-lo pelas consequncias, que se vo descrever, com um certo 
pesar em que esperamos tomem os leitores o seu quinho de pena, se no todos, ao menos aqueles que no do nada pela felicidade da terra, quando ela implica ofensa ao Senhor 
do cu [CBr.4, 223].

Esta dispensa pode ocorrer tambm antes do advrbio to e certas locues adverbiais (com voz surda), antes do substantivo que funciona como predicativo do verbo ser (Voc 
 homem de bem).

Modernamente, cremos que mais por valorizao estilstica do indefinido que por simples e servil imitao do francs36, um aparece em casos que se no podem explicar por nfase. 
Nestas circunstncias, tais casos so censurados pela gramtica tradicional.

e) Um ocorre como correlativo de outro em sentido distributivo:

Um irmo ia ao teatro e o outro, ao cinema.

Observao: Calando-se o substantivo tambm junto de um, ainda dispensamos a anteposio do artigo definido, ao contrrio do que fazia o portugus antigo e do que fazem, por 
exemplo, o francs e o espanhol:

Um ia ao teatro e o outro ao cinema (o um ... o outro, no portugus antigo, lun ... lautre, el uno ... el otro).

f) Note-se a expresso um como, empregada no sentido de uma coisa como, um ser como, uma espcie de, onde um concorda com o substantivo seguinte:

Fez um como discurso.   Proferiu uma como prtica.

A respeito de uma pronunciado ua, veja-se o captulo de ortoepia.

O artigo partitivo

O artigo partitivo  A lngua portuguesa de outros tempos empregava do, dos, da, das, junto a nomes concretos para indicar que os mesmos nomes eram apenas considerados nas 
suas partes ou numa quantidade ou valor indeterminado, indefinido:

No digas desta gua no beberei.

 o que a gramtica denomina artigo partitivo. Modernamente, o partitivo no ocorre com a frequncia de outrora e, pode-se dizer, quase se acha banido do uso geral, salvo 
pouqussimas expresses em que ele se manteve, mormente nas ideias de comer e beber.

4  Pronome

Pronome

Pronome   a classe de palavras categoremticas que rene unidades em nmero limitado e que se refere a um significado lxico pela situao ou por outras palavras do contexto.

De modo geral, esta referncia  feita a um objeto substantivo considerando-o apenas como pessoa localizada do discurso.

Pessoas do discurso

Pessoas do discurso  So duas as pessoas determinadas do discurso: 1. eu (a pessoa correspondente ao falante) e 2. tu (correspondente ao ouvinte).37 A 3. pessoa, indeterminada, 
aponta para outra pessoa em relao aos participantes da relao comunicativa.

Do ponto de vista semntico, os pronomes esto caracterizados porque indicam dixis (o apontar para), isto , esto habilitados, como verdadeiros gestos verbais, como indicadores, 
determinados ou indeterminados, ou de uma dixis contextual a um elemento inserido no contexto, como  o caso, por exemplo, dos pronomes relativos, ou de uma dixis ad oculos, 
que aponta ou indica um elemento presente ao falante. A dixis ser anafrica se aponta para um elemento j enunciado ou concebido, ou catafrica, se o elemento ainda no 
foi enunciado ou no est presente no discurso.38

A dixis tambm envolve, como vimos, o lugar da 3. pessoa no discurso, s que de maneira negativa, em relao a eu e tu, que tem localizao definida. Por isso  que lnguas 
h, como o portugus, que podem fazer, quando isto se impe, a distino entre localizao indeterminada e localizao determinada ou imediatamente determinvel (objeto que 
se encontra  vista dos falantes: aquele / aquele ali, aquela l). Acrescenta Coseriu, de quem tomamos a lio, que  por este carter relativamente indeterminado da 3. 
pessoa que a situao possessiva que lhe corresponde s vezes pode necessitar de ulteriores esclarecimentos: seu / seu mesmo, seu prprio, seu dele [ECs.1, 301 n.37].

A localizao positiva de ele ou aquele pode ainda dar-se pelos entornos extralingusticos ou pelo gesto, que indica a direo em que o objeto pode achar-se.39

Os pronomes podem apresentar-se como absolutos  capazes de funcionar como ncleo de sintagma nominal,  maneira dos substantivos  ou como adjuntos do ncleo,  maneira dos 
adjetivos, dos artigos e dos numerais, como veremos abaixo.

Classificao dos pronomes

Classificao dos pronomes  Os pronomes podem ser: pessoais, possessivos, demonstrativos (abarcando o artigo definido), indefinidos (abarcando o artigo indefinido), interrogativos 
e relativos.

Pronome substantivo e pronome adjetivo

Pronome substantivo e pronome adjetivo  O pronome pode aparecer em referncia a substantivo claro ou oculto:

Meu livro  melhor que o teu.

Meu e teu so pronomes porque do ideia de posse em relao  pessoa do discurso: meu (1. pessoa, a que fala), teu (2. pessoa, a com que se fala). Ambos os pronomes esto 
em referncia ao substantivo livro que vem expresso no incio, mas se cala no fim por estar perfeitamente claro ao falante e ouvinte. Esta referncia a substantivo caracteriza 
a funo adjetiva ou de adjunto de certos pronomes. Muitas vezes, sem que tenha vindo expresso anteriormente, dispensa-se o substantivo, como em: Quero o meu e no o seu livro 
(onde ambos os pronomes possessivos so adjetivos).

J em: Isto  melhor que aquilo, os pronomes isto e aquilo no se referem a nenhum substantivo determinado, mas fazem as vezes dele. So, por isso, pronomes absolutos ou substantivos.

H pronomes que so apenas absolutos ou adjuntos, enquanto outros podem aparecer nas duas funes.

Pronomes pessoais

Pronomes pessoais  Os pronomes pessoais designam as duas pessoas do discurso e a no pessoa (no eu, no tu), considerada, pela tradio, a 3. pessoa:

1. pessoa: eu (singular), ns (plural),

2. pessoa: tu (singular), vs (plural) e

3. pessoa: ele, ela (singular), eles, elas (plural).

O plural ns indica eu mais outra ou outras pessoas, e no eu + eu. 40

As formas eu, tu, ele, ela, ns, vs, eles, elas, que funcionam como sujeito, se dizem retas. A cada um destes pronomes pessoais retos corresponde um pronome pessoal oblquo 
que funciona como complemento e pode apresentar-se em forma tona ou forma tnica. Ao contrrio das formas tonas, as tnicas vm sempre presas a preposio:

pronomes pessoais retos

pronomes pessoais oblquos

tonos (sem prep.)

tnicos (c/prep.)

Singular:

1. pessoa: eu

me

mim

2. pessoa: tu

te

ti

3. pessoa: ele, ela

lhe, o, a, se

ele, ela, si

Plural:

1. pessoa: ns

nos

ns

2. pessoa: vs

vos

vs

3. pessoa: eles, elas

lhes, os, as, se

eles, elas, si

Exemplos de pronomes oblquos tonos:

Queixamo-nos da fortuna (destino) para desculpar a nossa preguia [MM].

A melhor companhia acha-se em uma escolhida livraria [MM].

Exemplos de pronomes oblquos tnicos:

Os nossos maiores inimigos existem dentro de ns mesmos: so os nossos erros, vcios e paixes [MM].

As virtudes se harmonizam, os vcios discordam entre si [MM].

Se a preposio  com, dizemos comigo, contigo, consigo, conosco, convosco, e no: com mi, com ti, com si, com ns, com vs. Empregam-se, entretanto, com ns e com vs, ao 
lado de conosco e convosco, quando estes pronomes tnicos vm seguidos ou precedidos de mesmos, prprios, todos, outros, ambos, numeral ou orao adjetiva, a fim de evidenciar 
o antecedente:

H um cu para ns outros na imortalidade das nossas obras terrenas [JR.2, 185].

Com vs todos ou com todos vs.

Com vs ambos ou com ambos vs.

Pronome oblquo reflexivo   o pronome oblquo da mesma pessoa do pronome reto, significando a mim mesmo, a ti mesmo, etc.:

Eu me vesti rapidamente.

Ns nos vestimos.

Eles se vestiram.

Pronome oblquo recproco   representado pelos pronomes nos, vos, se quando traduzem a ideia de um ao outro, reciprocamente:

Ns nos cumprimentamos (um ao outro).

Eles se abraaram (um ao outro).

Formas de tratamento  Existem ainda formas substantivas de tratamento indireto de 2. pessoa que levam o verbo para a 3. pessoa. So as chamadas formas substantivas de tratamento 
ou formas pronominais de tratamento: 41

voc, vocs (no tratamento familiar)

o Senhor, a Senhora (no tratamento cerimonioso)

A estes pronomes de tratamento pertencem as formas de reverncia que consistem em nos dirigirmos s pessoas pelos seus atributos ou qualidades que ocupam:

Vossa Alteza (V. A., para prncipes, duques)

Vossa Eminncia (V. Em., para cardeais)

Vossa Excelncia (V. Ex., para altas patentes militares, ministros, Presidente da Repblica, pessoas de alta categoria, bispos e arcebispos)

Vossa Magnificncia (para reitores de universidade)

Vossa Majestade (V. M., para reis, imperadores)

Vossa Merc (V. M.c, para as pessoas de tratamento cerimonioso)

Vossa Onipotncia (para Deus  no se usa abreviadamente)

Vossa Reverendssima (V. Rev.ma, para os sacerdotes)

Vossa Senhoria (V. S., para oficiais at coronel, funcionrios graduados, pessoas de cerimnia)

Observaes:

1.) Emprega-se Vossa Alteza (e demais) quando 2. pessoa, isto , em relao a quem falamos; emprega-se Sua Alteza (e demais) quando 3. pessoa, isto , em relao  de quem 
falamos.

2.) Usa-se de Dom, abreviadamente D., junto ao nome prprio: D. Afonso, D. Henrique, D. Eugnio; s vezes aparece em autores junto a nome de famlia, mas esta prtica deve 
ser evitada por contrariar a tradio da lngua. Usa-se ainda D. junto a outro ttulo: D. Prior, D. Abade, etc.

3.) Voc, hoje usado familiarmente,  a reduo da forma de reverncia Vossa Merc. Caindo o pronome vs em desuso, s usado nas oraes e estilo solene, emprega-se vocs 
como o plural de tu.

4.) O substantivo gente, precedido do artigo a e em referncia a um grupo de pessoas em que se inclui a que fala, ou a esta sozinha, passa a pronome e se emprega fora da 
linguagem cerimoniosa. Em ambos os casos o verbo fica na 3. pessoa do singular:

 verdade que a gente, s vezes, tem c as suas birras [AH.4, II, 158].

5.) Ainda continuam vivos em Portugal vs, vosso.

Pronomes possessivos

Pronomes possessivos  So os que indicam a posse em referncia s trs pessoas do discurso:

Singular:

1. pessoa:

meu

minha

meus

minhas

2. pessoa:

teu

tua

teus

tuas

3. pessoa:

seu

sua

seus

suas

Plural:

1. pessoa:

nosso

nossa

nossos

nossas

2. pessoa:

vosso

vossa

vossos

vossas

3. pessoa:

seu

sua

seus

suas

Pronomes demonstrativos

Pronomes demonstrativos  So os que indicam a posio dos seres em relao s trs pessoas do discurso.

Esta localizao pode ser no tempo, no espao ou no discurso:

1. pessoa: este, esta, isto 42

2. pessoa: esse, essa, isso

3. pessoa: aquele, aquela, aquilo

Este livro  o livro que est perto da pessoa que fala; esse livro  o que est longe da pessoa que fala ou perto da pessoa com quem se fala; aquele livro  o que se acha 
distante da 1. e da 2. pessoa.

Nem sempre se usam com este rigor gramatical os pronomes demonstrativos; muitas vezes interferem situaes especiais que escapam  disciplina da gramtica.

So ainda pronomes demonstrativos o, mesmo, prprio, semelhante e tal.

Considera-se o pronome demonstrativo, de emprego absoluto, invarivel no masculino e singular quando funciona com o valor grosso modo de isto, isso, aquilo ou tal:

No o consentirei jamais.

Arquiteto do mosteiro de S. Maria, j o no sou [AH apud FB.1, 195].

Se os olhos corporais estavam mortos, no o estavam os do esprito [AH.4, I, 226].

(...) residia uma viva, que o era de um fidalgo da casa de Azevedo [CBr apud MBa.3, 343].

Pode aludir a extensos enunciados:

Prometeu-me que sairia comigo nas prximas frias, mas no o fez.

O pronome o, perdido o seu valor essencialmente demonstrativo e posto antes de substantivo claro ou subentendido, expresso substantivada inclusive orao , como adjunto, 
recebe o nome de artigo definido. Assim  que, no exemplo seguinte, consideramos o primeiro os e o segundo o artigo definido:

Os homens de extraordinrios talentos so ordinariamente os de menor juzo [MM].

Mesmo, prprio, semelhante e tal tm valor demonstrativo quando denotam identidades ou se referem a seres e ideias j expressas anteriormente, e valem por esse, essa, aquele, 
isso, aquilo:

Depois, como Pdua falasse ao sacristo baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma coisa [MA.4, 87].

No paguei uns nem outros, mas saindo de almas cndidas e verdadeiras tais promessas so como a moeda fiduciria... [MA.4, 202].

 proibido dizeres semelhantes coisas.

Alguns estudiosos, por mera escolha pessoal, tm-se insurgido contra o emprego anafrico do demonstrativo mesmo, substantivado pelo artigo, precedido ou no de preposio, 
para referir-se a palavra ou declarao expressa anteriormente. No apresentam, entretanto, as razes da crtica:

Os diretores presos tiveram habeas corpus. Apareceu um relatrio contra os mesmos, e contra outros... [MA apud MMc.1, 274].

Costuma-se escrever dentro dos livros, na folha de guarda, palavras alusivas aos mesmos [E. Frieiro apud MMc.1].

Para estes crticos, o mesmo, etc., deve ser substitudo por ele, etc. Talvez por isso E. Frieiro, na 2. edio, alterou seu texto para: Costuma-se escrever dentro dos livros, 
na folha de guarda, palavras a eles alusivas.

Mesmo e prprio aparecem ainda reforando pronomes pessoais:

Ela mesma quis ver o problema.

Ns prprios o dissemos.

Tal fao eu,  medida que me vai lembrando e convindo  construo ou reconstruo de mim mesmo [MA.4, 203].

Pronomes indefinidos

Pronomes indefinidos  So os que se aplicam  3. pessoa quando tm sentido vago ou exprimem quantidade indeterminada.

Funcionam como pronomes indefinidos substantivos, todos invariveis: algum, ningum, tudo, nada, algo, outrem.

Ningum mais a voz sentida

Do Trovador escutou! [GD].

So pronomes indefinidos adjetivos, todos variveis com exceo de cada: nenhum, outro (tambm isolado), um (tambm isolado), certo, qualquer (s varivel em nmero: quaisquer), 
algum, cada:

As tiras saem-lhe das mos, animadas e polidas. Algumas trazem poucas emendas ou nenhumas [MA.2, 274].

A vida a uns, a morte confere celebridades a outros [MM].

Aplicam-se a quantidades indeterminadas os indefinidos, todos variveis, com exceo de mais e menos: muito, mais, menos, pouco, todo, algum, tanto, quanto, vrio, diverso:

Mais amores e menos confiana. (nunca menas!)

Com pouco dinheiro compraram diversos presentes.

Isto  o menos que se pode exigir.

Muito lhe devo.

Erraste por pouco.

Quantos no erraram neste caso!

Observaes:

1.) O pronome indefinido um pode ser usado como substantivo, principalmente nas locues do tipo cada um, qualquer um. Como adjunto, recebe o nome de artigo indefinido.

2.) Tambm os pronomes indefinidos mais e menos podem substantivar-se em expresses do tipo o mais dos homens, o mais das vezes, o mais deles, o menos. Por atrao, o mais 
pode aparecer num giro derivado da construo original e concordar com o gnero e nmero do substantivo ou pronome pessoal que entra na expresso: o mais dos homens ou os 
mais dos homens; o mais das vezes ou as mais das vezes; o mais deles ou os mais deles, etc.

As duplas quem... quem, qual... qual, este... este, um... outro com sentido distributivo tambm so pronomes indefinidos:

Qual se abisma nas lbregas tristezas,

Qual em suaves jbilos discorre,

Com esperanas mil nas ideias acesas [BBo].

Isto : um se abisma... outro discorre.

Observao: Sobre o uso de um e outro, um do outro em referncia a pessoas de sexos diferentes.

Muitas vezes a posio da palavra altera seu sentido e sua classificao:

Certas pessoas (pron. indef.) no chegam na hora certa (adjetivo), mas em certas horas (pron. indef.).

Algum livro (= certo livro). Livro algum (= nenhum livro).

Em outras pocas, algum podia ter sentido afirmativo ou negativo independente de sua posio:

Desta gente refresco algum tomamos [LC.1, V, 69].

Refresco algum = algum refresco

Vs a quem no somente algum perigo

Estorva conquistar o povo imundo [LC.1, VII, 2].

Algum perigo = nenhum perigo

Locuo Pronominal Indefinida   o grupo de palavras que vale por um pronome indefinido. Eis as principais locues: cada um, cada qual, alguma coisa, qualquer um, quem quer, 
quem quer que, o que quer que, seja quem for, seja qual for, quanto quer que, o mais (hoje menos frequente que a maior parte, a maioria):

As verdades no parecem as mesmas a todos, cada um as v em ponto diverso de perspectiva [MM].

Pronomes interrogativos

Pronomes interrogativos  So os pronomes indefinidos quem, que, qual e quanto que se empregam nas perguntas, diretas ou indiretas:

Quem veio aqui?

Que cabea, senhora?

Que compraste?

Qual autor desconhece?

Qual consideras melhor?

Quantos vieram?

Quantos anos tens?

Em lugar de que pode-se usar a forma enftica o que:

Agora por isso, o que ser feito de frei Timteo?! Era naquele tempo um frade guapo e alentado! O que ser feito dele? [AH.4, II, 135].

Quem refere-se a pessoas, e  pronome substantivo. Que refere-se a pessoas ou coisas, e  pronome substantivo (com o valor de que coisa?) ou pronome adjetivo (com o valor 
de que espcie?).43 Qual e tambm que, indicadores de seleo, normalmente so pronomes adjetivos:

Em qual livraria compraremos o presente?

Em que livraria compraremos o presente?

Ressalta-se ainda a seleo antepondo ao substantivo no plural a expresso qual dos, qual das:

Em qual dos livros encontraste o exemplo?

Observao: Estes interrogativos saem normalmente dos pronomes indefinidos e por isso costumam ser chamados indefinidos interrogativos. Aparecem ainda nas exclamaes, e neste 
caso o que adquire sentido francamente intensivo:

Que susto levei!   (Compare-se com: que cabea, senhora!).

Diz-se interrogao direta a pergunta que termina por ponto de interrogao e se caracteriza pela entoao ascendente:

Quem veio aqui?

Interrogao indireta  a pergunta que: a) se faz indiretamente e para a qual no se pede resposta imediata; b)  proferida com entoao normal descendente; c) no termina 
por ponto de interrogao; d) vem depois de verbo que exprime interrogao ou incerteza ( perguntar, indagar, no saber, ignorar, etc.):

Quero saber quem veio aqui.

Eis outros exemplos de interrogao indireta comeados pelos pronomes interrogativos j citados:

Ignoro que cabea, senhora.

Indagaram-me que compraste.

Perguntei-te por que vieste aqui.

No sei qual autor desconhece.

Desconheo qual consideras melhor.

Indagaram quantos vieram.

Pronomes relativos

Pronomes relativos  So os que normalmente se referem a um termo anterior chamado antecedente:

Eu sou o fregus que por ltimo compra o jornal.

O que se refere  palavra fregus.

O pronome relativo que desempenha dois papis gramaticais: alm de sua referncia ao antecedente como pronome, funciona tambm como transpositor de orao originariamente 
independente a adjetivo e a exercer funo de adjunto adnominal deste mesmo antecedente. No exemplo, a orao O fregus compra por ltimo o jornal  degrada a funo de adjunto 
adnominal na orao complexa: Eu sou por ltimo compra o jornal].

O transpositor pronome relativo que difere do transpositor conjuno integrante porque este no exerce funo sinttica na orao em que est inserido, enquanto o relativo 
exerce sempre funo sinttica.

Os pronomes relativos so: qual, o qual (a qual, os quais, as quais), cujo (cuja, cujos, cujas), que, quanto (quanta, quantos, quantas), onde.

Quem se refere a pessoas ou coisas personificadas e sempre aparece precedido de preposio. Que e o qual se referem a pessoas ou coisas. Que e quem funcionam como pronomes 
substantivos. O qual aparece como substantivo ou adjetivo:

As pessoas de quem falas no vieram.

O nibus que esperamos est atrasado.

No so poucas as alunas que faltaram.

Este  o assunto sobre o qual falar o professor.

No vi o menino, o qual menino os colegas procuram.

A casa onde moro  espaosa.

Cujo, sempre com funo adjetiva, reclama, em geral, antecedente e consequente expressos e exprime que o antecedente  possuidor do ser indicado pelo substantivo a que se 
refere:

Ali vai o homem cuja casa comprei

              anteced.        conseq.

              (a casa do homem)

Observao: Em autores modernos de gosto arcaizante, de vez em quando ocorre cujo sem consequente, como em: (...) a obra cujo comentador eu sou, em lugar de: de que sou 
comentador ou cujo comentador sou.

Quanto tem por antecedente um pronome indefinido (tudo, todo, todos, todas, tanto):

Esquea-se de tudo quanto lhe disse.

Pronomes relativos sem antecedente  Os pronomes relativos quem e onde podem aparecer com emprego absoluto, sem referncia a antecedentes:

Quem tudo quer tudo perde.

Dize-me com quem andas e eu te direi quem s.

Moro onde mais me agrada.

Quem, assim empregado,  considerado como do gnero masculino e do nmero singular:

Quem com ferro fere com ferro ser ferido.

Observao: Os relativos sem antecedentes tambm se dizem relativos indefinidos. Muitos autores preferem, neste caso, subentender um antecedente adaptvel ao contexto. Interpretando 
quem como a pessoa que, onde como o lugar em que assim substituem:

Quem tudo quer tudo perde = a pessoa que tudo quer tudo perde

Este duplo modo de encarar o problema tem repercusses diferentes na classificao das oraes subordinadas, conforme veremos em Oraes subordinadas resultantes de substantivao: 
as interrogativas e exclamativas.

Emprego dos Pronomes

Emprego dos Pronomes

Pronome pessoal

Pronome pessoal

Pronome e termos oracionais

Pronome e termos oracionais  A rigor, o pronome pessoal reto funciona como sujeito e predicativo, enquanto o oblquo como complemento:

Eu saio.   Eu no sou ele.   Eu o vi.   No lhe respondemos.

Entre os oblquos, a forma tona vem desprovida de preposio, enquanto a tnica exige, no portugus moderno, esta partcula:

Eu o vi.   Referiu-se a ti.

Casos h, entretanto, em que esta norma pode ser contrariada. Assim  que pode ocorrer a forma reta pela oblqua:

a) quando o verbo e o seu complemento nominal estiverem distanciados, separados por pausa:

Subiu! E viu com seus olhos.

Ela a rir-se que danava [GD].

b) nas enumeraes e aposies, tambm com distanciamento do verbo e complemento:

Depois de muita delonga o diretor escolheu: eu, o Henrique e o Paulinho.

c) precedido de todo, s e mais alguns adjuntos, pode aparecer ele (e flexes) por o (e flexes); cf. adiante.

d) quando dotado de acentuao enftica, no fim de grupo de fora:

Olha ele! [EQ].

e) em coordenaes de pronomes ou com um substantivo introduzidos pela preposio entre: entre eu e tu (por entre mim e ti); entre eu e o aluno, entre Jos e eu.

J h concesses de alguns gramticos quando o pronome eu ou tu vem em segundo lugar:

Entre ele e eu. Entre o Jos e eu.

A lngua exemplar insiste na lio do rigor gramatical, recomendando, nestes casos, o uso dos pronomes oblquos tnicos:

Entre mim e ti. Entre ele e mim.

Um exemplo como Entre Jos e mim dificilmente sairia hoje da pena de um escritor moderno.

Este desvio da norma encontra paralelo em outras lnguas romnicas, como o espanhol e o italiano [MLk.1, III, 76 e 80].

Tambm depois de expresses comparativas e exceptivas, a lngua denuncia certa vacilao no emprego do pronome pessoal, havendo aqui forte divrcio entre a lngua literria 
e a coloquial, escrita ou falada:

No tenho outro amigo seno tu.     No sou como tu.

No tenho outro amigo seno a ti.   No sou como a ti.

Emprego de pronome tnico pelo tono

Emprego de pronome tnico pelo tono  Os pronomes tnicos preposicionados a ele, a ela, a mim, a ti, a ns, a vs podem aparecer, na lngua exemplar, nos seguintes casos, 
em vez das formas tonas (lhe, me, te, nos, vos):

a) quanto anteposto ao verbo:

A ele cumpria encher as guias.

b) quando composto:

Remeti livros a ele e ao tio.

c) quando reforado:

O dinheiro foi entregue a ele mesmo.

Darei as joias s a ela.

d) quando pleonstico:

Devolvi-lhe a ele as mquinas.

e) quando complemento relativo:

Atirou-se a ele. Gosto dela.

f) quando objeto direto preposicionado:

Nem ele entende a ns nem ns a ele [JO.3, 345].

Em geral, o portugus omite o pronome sujeito quando constitudo por eu, tu, ns e vs:

No me lembra o que lhe disse [MA.1, 65].

O aparecimento do pronome sujeito de regra se d quando h nfase ou oposio de pessoas gramaticais:

Eu  que furo o pano, vou adiante, puxando por voc, que vem atrs, obedecendo ao que eu fao e mando... [MA.2, 230].

H entre ns um abismo: tu o abriste; eu precipitei-me nele [AH.1, 295].

Estando perfeitamente conhecido pela situao lingustica, pode-se calar o pronome complemento do verbo; esta linguagem  correta, apesar da censura que lhe faziam os gramticos 
de outrora. Muitas vezes deve-se o fenmeno ao que o estilista alemo Leo Spitzer chamou linguagem-eco, constituda de repetio de uma parte da orao, destinada a reforar 
a prpria declarao, como no seguinte trecho de A. Herculano:

Disse j que tinha de fazer uma explicao ao leitor. Tenho; e  indispensvel [AH.4, II, 261].

Em casos de nfase costuma-se repetir:

a) o pronome tono pela sua respectiva forma tnica, precedida de preposio:

Mas qual ser a tua sorte quando na hora fatal os algozes, buscando a sua vtima, s te encontrarem a ti? [AH.3, 277].

b) o complemento expresso por um nome pelo pronome tono conveniente ou vice-versa:

Ao avarento nada lhe peo.

Ainda hoje esto em p, mas ningum as habita, essas choupanas execrandas... [CBr.8, 43].

Usa-se o pronome o (os) em referncia a nomes de gneros diferentes, por neutralizao:

A generosidade, o esforo e o amor, ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade [AH.1, 35].

Ele como objeto direto

Ele como objeto direto  O pronome ele, no portugus moderno, s aparece como objeto direto quando precedido de todo ou s (adjetivo) ou se dotado de acentuao enftica, 
em prosa ou verso:

No latim eram quatro os pronomes demonstrativos. Todos eles conserva o portugus [PL.1, 398].

Subiu!  e viu com seus olhos/ Ela a rir-se que danava...
 [GD apud SS].

Olha ele! [EQ apud SS].

Ordem dos pronomes pessoais

Ordem dos pronomes pessoais  Na sequncia dos pronomes pessoais sujeitos, o portugus normalmente apresenta ordem facultativa deles: eu e tu, tu e eu; eu e ele, ele e eu; 
eu e o senhor, o senhor e eu, etc.:

 Porque ns vamos l jantar na segunda-feira.

 Ns... Ns, quem?

 Ns. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio [EQ.3, 382].

 evidente que nas circunstncias em que h necessidade de superpor  expresso lingustica traos de polidez, urbanidade ou, no polo oposto do convvio social, modstia, 
pode o falante ou escritor inverter a ordem, dando a primazia da primeira referncia ao seu interlocutor, quer manifestado por pronome, quer por substantivo. Esta , por exemplo, 
a prtica da cortesia entre franceses e espanhis.

 o que se percebe, por exemplo, na seguinte preferncia de Camilo, no incio do romance O Senhor do Pao de Nines:

Estamos no Minho, o leitor e eu.

O passo da cortesia lingustica no para na ordem dos pronomes; invade o domnio da concordncia, como a realizou Rui Barbosa neste conhecido trecho de uma carta:

(...) e S. Exc. respondera, declarando aceitaria, sob a condio de anurem o Baro do Rio Branco e eu.

A concordncia gramatical, pela presena de pronome de 1. pessoa, exigiria o verbo flexionado na 1. do plural: anuirmos. Todavia, em razo da urbanidade, a polidez se reflete 
no s na ordem dos pronomes, mas ainda na flexo verbal.

O pronome se na construo reflexa

O pronome se na construo reflexa 44  Eis aqui um bom exemplo pelo qual se patenteia que um significado gramatical unitrio, significado de lngua, se pode desdobrar em 
outras acepes, conforme as unidades lingusticas com que se acha combinado e o entorno situacional.

A reflexividade consiste, na essncia, na inverso (ou negao) da transitividade da ao verbal. Em outras palavras, significa que a ao denotada pelo verbo no passa 
a outra pessoa, mas reverte-se  pessoa do prprio sujeito (ele , ao mesmo tempo, agente e paciente):

1.a) Joo se banha

A nossa experincia do mundo admite a hiptese de Joo banhar a si mesmo ou banhar uma outra pessoa: Joo banha o filho pela manh.

S que, na reflexividade prpria, ocorre a primeira hiptese:

J na orao

1.b) Joo e Maria se amam,

o significado do verbo amar e a nossa experincia do mundo que, em geral, tratando de duas pessoas, supem o amor de algum A dirigido a outro algum B, permitem-nos dar outra 
acepo, contextual, ao originrio significado unitrio de reflexividade; acreditamos que a orao quer expressar que Joo ama Maria e que Maria ama ao Joo. Ento, 
no mais se trata de reflexividade pura, mas de reflexividade recproca:

A interpretao de reflexivo recproco no mudar se se tratar de verbo transitivo que se constri com objeto indireto ou complemento relativo:

Joo e Maria se escrevem. (um escreve ao outro)

Joo e Maria se gostam. (um gosta do outro)

As unidades lxicas comprometidas na construo determinam a interpretao. Se dizemos Joo e Maria se miram, a interpretao mais natural seria a de um reflexivo recproco; 
mas se acrescentarmos Joo e Maria se miram no espelho, mais natural nos parecer a interpretao de reflexivo prprio. Portanto, so interpretaes contextuais, e no valores 
de lngua.

Mudando as unidades lingusticas que se combinam com o pronome se, poderemos ter:

2) O banco s se abre s dez horas.

No presente exemplo, banco  um sujeito constitudo por substantivo que, por inanimado, no pode ser agente da ao verbal; por isso, a construo  interpretada como passiva: 
 o que a gramtica chama voz mdia ou passiva com se:

Repare-se que a interpretao da passiva com se depende s do lxico, isto , do significado lexical do verbo. A prova disto  que esta interpretao prevalece ainda nas 
oraes cujo sujeito no  inanimado, portanto, passvel de executar a ao verbal. S que h certos verbos que denotam aes que a nossa experincia sabe que no so praticadas 
pelo termo que lhe serve de sujeito, como ocorre nos verbos chamar (= ter nome):

Ele se chama Joo.

A ltima acepo a que poderemos chegar nas construes do pronome se  a da orao:

3) Abre-se s dez.

Temos aqui um se na construo em que no aparece substantivo, claro ou subentendido, que funcione como sujeito do contedo predicativo. Interpreta-se a construo como impessoal.

Diante desta exposio, podemos dizer que o se nas construes estudadas e assemelhadas exerce as seguintes funes sintticas em face das unidades lxicas que com o pronome 
concorrem:

1) Objeto direto:

Ele se feriu.

Eles se cumprimentaram.

2) Objeto indireto:

Ela se arroga essa liberdade.

3) Complemento relativo:

Eles se gostam.

4) ndice de indeterminao do sujeito:

Vive-se bem.

L-se pouco entre ns.

Precisa-se de empregados.

-se feliz.

Observaes finais: Pelos exemplos acima, o se como ndice de indeterminao de sujeito  primitivamente exclusivo em combinao com verbos no acompanhados de objeto direto 
, estendeu seu papel aos transitivos diretos (onde a interpretao passiva passa a ter uma interpretao impessoal: Vendem-se casas = algum tem casa para vender) e de 
ligao (-se feliz). A passagem deste emprego da passiva  indeterminao levou o falante a no mais fazer concordncia, pois o que era sujeito passou a ser entendido como 
objeto direto, funo que no leva a exigir o acordo do verbo:

Vendem-se casas (= casas so vendidas)  Vendem-se casas (= algum tem casa para vender)  Vende-se casas.

Vende-se casas e frita-se ovos so frases de emprego ainda antiliterrio, apesar da j multiplicidade de exemplos. A genuna linguagem literria requere vendem-se, fritam-se. 
Mas ambas as sintaxes so corretas, e a primeira no  absolutamente, como fica demonstrado, modificao da segunda. So apenas dois estgios diferentes de evoluo. Fica 
tambm provado o falso testemunho que levantaram  sintaxe francesa, que em verdade nenhuma influncia neste particular exerceu em ns... [MAg.2, 181-183].

Pode ainda o pronome se juntar-se a verbos que indicam:

1) sentimento: indignar-se, ufanar-se, atrever-se, admirar-se, lembrar-se, esquecer-se, orgulhar-se, arrepender-se, queixar-se.

2) movimento ou atitudes da pessoa em relao ao seu prprio corpo: ir-se, partir-se, sentar-se, sorrir-se.

No primeiro caso, no se percebendo mais o sentido reflexivo da construo, considera-se o se como parte integrante do verbo, sem classificao especial.

No segundo, costumam os autores chamar ao se pronome de realce ou expletivo.

Concorrncia de si e ele na reflexividade

Concorrncia de si e ele na reflexividade  A partir do portugus contemporneo (sc. XVIII para c), nasceu a possibilidade de o pronome tnico si, nas construes reflexas, 
ter a concorrncia do pronome ele, tambm preposicionado, em oraes do tipo:

(...) perguntou Glenda, sentindo que a pergunta no era dirigida apenas a Pablo, mas tambm a ela prpria [RBn.2, 23].

[a amante] viu diante dela o meu eugnico amigo [MB apud RBn.2]. 45

A construo no encontra respaldo nas nossas melhores gramticas, apesar do emprego largo na literatura moderna brasileira a partir, segundo Barbadinho, de Jos de Alencar. 
Nos exemplos acima, a norma gramatical pediria: a si prpria, diante de si, como rezam as passagens onde o pronome se refere ao sujeito do verbo:

Simeo por si mesmo escolheu o deserto que lhe convinha (...).
 [JR.2, 35]

O espetculo da beleza  bastante por si mesmo. [JR.2, 199]

Depois mudava-se o teatro, e via-se a si mesmo (...). [JR.2, 299]

Note-se a curiosa concorrncia das duas sintaxes neste exemplo de Guimares Rosa, citado por Barbadinho:

E o Menino estava muito dentro dele mesmo, em algum cantinho de si.

Esta novidade de sintaxe tem contra si o fato de s vezes fazer perigar a interpretao da orao, que s se resolve pela ajuda do contexto:

Joo levou o livro para ele.

Combinao de pronomes tonos

Combinao de pronomes tonos  Ocorrem em portugus as seguintes combinaes de pronomes tonos, notando-se que o que funciona como objeto direto vem em segundo lugar: As 
formas o, a, os, as procedem das antigas lo, la, los, las:

mo = me + o; ma = me + a; mos = me + os; mas = me + as;

to = te + o; ta = te + a; tos = te + os; tas = te + as;

lho = lhe + o; lha = lhe + a; lhos = lhe + os; lhas = lhe + as;

no-lo = nos + (l)o; no-la = nos + (l)a; no-los = nos + (l)os; no-las = nos + (l)as;

vo-lo = vos + (l)o; vo-la = vos + (l)a; vo-los = vos + (l)os; vo-las = vos + (l)as;

lho = lhe(s) + o; lha = lhe(s) + a; lhos = lhe(s) + os; lhas = lhe(s) + as.

se me

-se-me

se nos

-se-nos

se te

-se-te

se vos

-se-vos

se lhe

-se-lhe

se lhes

-se-lhes

Se dizeis isso pela que me destes, tirai-ma: que no vo-la pedi eu.
 [AH.4, I, 267]

E como, a pouco e pouco, se foram exaurindo os cascalhos e afundando os veleiros, o banditismo franco imps-se-lhes como derivativo  vida desmandada [EC.1, 218].

Observaes:

1.) A rigor, na combinao s entra a forma lhe, que, na lngua antiga, servia tanto ao singular como ao plural.

2.) Nas demais combinaes, o portugus moderno prefere substituir o pronome tono objetivo indireto pela forma tnica equivalente, precedida da preposio a. Enquanto dizemos 
hoje a mim te mostras ou te mostras a mim, a lngua de outros tempos consentia em tais dizeres:

Porque assi te me mostras odiosa? [JCR.1 apud SS.1,  271].

3.) A lngua padro rejeita a combinao se o (e flexes), apesar de uns poucos exemplos na pena de literatos:

Parece um rio quando se o v escorrer mansamente por entre as terras prximas... [LB.2, 49 apud SS.6, n. 198, 268].

Foge-se ao erro de trs maneiras diferentes:

a) cala-se o pronome objetivo direto: No se quer.

b) substitui-se o pronome o (e flexes) pelo sujeito ele (e flexes): No se quer ele.

Inveja-se a riqueza, mas no o trabalho com que ela se granjeia [MM].

c) se j existe na orao o pronome pessoal de objeto direto (o, a, os, as), usa-se o pronome de objeto indireto na forma tnica precedida da preposio a ou para:

 Vieira sem contradio mestre guapssimo de nossa lngua, e o mesmo Bernardes assim o conceituava; que porm a si o propusesse como exemplar, nem o indica, nem consta, 
nem se pode com induo plausvel suspeitar [AC apud MBa.5, 54].

Apesar disto, ocorre em bons escritores construo em que se junta o pronome o (e diretos) a verbo na voz reflexiva:

Temo que se me argua de comparaes extraordinrias, mas o abismo de Pascal  o que mais prontamente vem ao bico da pena

[MA.9, 29 apud SS.1].

No se d baixa ao soldado quando j no pode com a milcia? No se lha d at em tempo de guerra? [AC.10, II, 106 apud SS.1].

4.) A lngua padro admite pode-se comp-lo ou pode-se compor, quando no h locuo verbal:

Pode-se de algum modo lig-lo a Schopenhauer... [JR.3, 19]

Jlio Moreira [JM.1, II, 30-31] diz que em Portugal  menos comum do que no Brasil a primeira construo.

5.) Em construes do tipo fi-lo sentar-se (e tambm com os verbos deixar, mandar, ver, ouvir e sinnimos), isto , em que depois destes verbos com pronome objetivo se segue 
o infinitivo de verbo reflexivo, pode-se deixar claro este ltimo pronome ou omiti-lo: fi-lo sentar.

Funo do pronome tono em Dou-me ao trabalho

Funo do pronome tono em Dou-me ao trabalho  Em geral, o pronome tono da forma verbal reflexiva portuguesa funciona como objeto direto: dou-me (obj. direto) ao trabalho 
(obj. indireto) de fazer.

Em francs e espanhol, esse pronome aparece como objeto indireto: je me donne la peine de le faire; me doy el trabajo de hacerlo.

Pronome pessoal tono e adjunto adverbial

Pronome pessoal tono e adjunto adverbial  Pode ocorrer a possibilidade de substiturem os pronomes pessoais tonos, na forma de objeto indireto, me, te, se, nos, vos, lhe, 
lhes, termos que na orao funcionam como adjuntos adverbiais [MBa.4, 273-276]:

Ps-se diante dele                           Ps-se-lhe diante

Ficava detrs dele                           Ficava-lhe detrs

Deu um abrao no pai                     Deu-lhe um abrao

Bateu nele                                        Bateu-lhe

Ralhar com ele                                 Ralhou-lhe

Fugir de mim                                    Fugiu-me

Tudo girou em volta dele                 Tudo lhe girou em volta

Ela tinha, porm, no semblante um ar de majestosa bondade que dificilmente esqueceria quem alguma vez se lhe houvesse aproximado [CL.1, I, 278].

Nestas substituies, o pronome tono faz referncia  pessoa e a ideia da circunstncia fica por conta do advrbio (ou substantivo adverbializado), quando se trata de locuo 
prepositiva:

Fugia de mim      fugiu-me (no h locuo prepositiva)

Tudo girou em volta dele  Tudo lhe girou em volta (h locuo prepositiva)

Pronome possessivo

Pronome possessivo

Seu e dele para evitar confuso

Seu e dele para evitar confuso  Em algumas ocasies, o possessivo seu pode dar lugar a dvidas a respeito do possuidor. Remedeia-se o mal com a substituio de seu, sua, 
seus, suas, pelas formas dele, dela, deles, delas, de voc, do senhor, etc., conforme convier.

Em

Jos, Pedro levou o seu chapu,

o vocbulo seu no esclarece quem realmente possui o chapu, se Pedro ou Jos.

 verdade que a disposio dos termos nos leva a considerar Jos o dono do chapu; mas a referncia a Pedro tambm  possvel. Assim sendo, serve-se o falante do substituto 
dele, se o possessivo pertence a Pedro:

Jos, Pedro levou o chapu dele.

Com efeito, Margarida gostava imenso da presena do rapaz, mas no parecia dar-lhe uma importncia que lisonjeasse o corao dele.               [MA.6, 24]

Se o autor usasse o possessivo seu, o corao poderia ser tanto de Margarida quanto do rapaz.

Pode-se, para maior fora de expresso, juntar dele a seu:

Jos, Pedro levou o seu chapu dele.

Se Adelaide o amava como e quanto Calisto j podia duvidar, sua honra dele era pr peito  defesa do opressa... [CBr.1, 109]

Menos usual, porm correta,  a unio dos dois possessivos como no seguinte exemplo da citada obra de Camilo:

 certo, Sr. Presidente, que a femina toca o requinte da depravao, e chega a efeituar horrores cuja narrao  de si para gelar ardncias do sangue, para infundir pavor 
em peitos equnimos; porm, o mbil dos crimes seus delas  outro [CBr.1, 86].

Os pronomes pessoais tonos me, te, se, nos, vos, lhe, lhes, podem ser usados com sentido possessivo, mormente em estilo literrio, tomando-se o cuidado de evitar o abuso.46

Tomou-me o chapu = Tomou o meu chapu.

Ainda neste caso,  possvel ocorrer a repetio enftica lhe ... dele:

D. Adelaide ficou embaraada. Seria agravar as meninas de dezoito anos, e educadas como a filha do desembargador, e amantes como elas de um comprometido esposo, estar eu 
aqui a definir a entranhada zanga que lhe fez no esprito dela o despropsito de Calisto [CBr.1, 104].

Foge-se ainda  confuso empregando-se prprio:

Andrade contentou-se com o seu prprio sufrgio [MA.6, 19].

Posio do pronome possessivo

Posio do pronome possessivo  De modo geral, o possessivo vem anteposto ao nome a que se refere:

O meu livro.   Tuas preocupaes.   Nossos deveres.

A posposio ocorre no estilo solene, em prosa ou verso, e, em nome de pessoas ou de graus de parentesco, pode denotar carinho:

Deus meu, ajudai-me!

A nfase permite tambm a posposio, principalmente se o substantivo vem desacompanhado do artigo definido:

Conselho meu ela no tem. Filho meu no faria tal.

Em certas situaes, h notvel diferena de sentido com a posposio do possessivo.47

Minhas saudades so saudades que sinto de algum. Saudades minhas so saudades que algum sente de mim.

Parece que Miss Dlar ficou com boas recordaes suas, disse D. Antnia [MA.6, 2, 17].

Notamos o mesmo em suas cartas e cartas suas.

Recebi suas cartas (i. , cartas que me mandaram ou que pertencem  pessoa a quem me dirijo).

Recebi cartas suas (i. , enviadas a mim pela pessoa).

Invariavelmente, usamos de notcias suas, como no seguinte exemplo:

Peo-lhe que me mande notcias suas [EC].

Fora destas construes, a lngua moderna evita tal emprego objetivo:

Mova-te a piedade sua e minha [LC.1, III, 127]. Entenda-se: a piedade delas (das criancinhas) e de mim.

Possessivo para indicar ideia de aproximao

Possessivo para indicar ideia de aproximao  Junto a nmeros o possessivo pode denotar uma quantidade aproximada:

Nessa poca, tinha meus quinze anos (aproximadamente).

Era j homem de seus quarenta anos.

Observao: Valorizamos tambm uma noo quantitativa por meio do adjetivo bom:

O maior Vilela observava um rigoroso regmen que lhe ia entretendo a vida. Tinha uns bons sessenta anos [MA.6, 53].

Valores afetivos do possessivo

Valores afetivos do possessivo  O possessivo, como temos visto, no se limita a exprimir apenas a ideia de posse. Adquire variados matizes contextuais de sentido, muitas 
vezes de difcil delimitao.

Assim, o possessivo pode apenas indicar a coisa que nos interessa, por nos estarmos referindo, com ele, a causa que nos diz respeito, ou por que temos simpatia:

O nosso heri (falando-se de um personagem de histrias) no soube que fazer. Trabalho todo dia minhas oito horas [cf. JR.4, 206].

Alm de exprimir a nossa simpatia, serve tambm o possessivo para traduzir nosso afeto, cortesia, deferncia, submisso, ou ironia:

Meu prezado amigo.   Minha senhora, esta  a mercadoria que lhe serve.

Meus senhores e minhas senhoras!   Meu presidente, todos o esperam.

Meu coronel, os soldados esto prontos!   Meu tolo, no vs que estou brincando?

Notemos, porm, que em expresses do tipo:

Qual cansadas, seu Antoninho! [LB],

Ande, seu diplomtico, continue [MA],

seu no , como parece a alguns estudiosos, a forma possessiva de 3. pessoa do singular. Trata-se aqui de uma reduo familiar do tratamento senhor.

Difere a forma seu (admite ainda as variantes seo, s) do termo nobre, senhor, por traduzir nossa familiaridade ou depreciao.

Ocorrendo isoladamente, prevalece a forma plena senhor, conforme nos mostra o seguinte exemplo:

Depressa, depressa, que a filha do Lemos vai cantar; e depois  o senhor. Est ouvindo, seu Ricardo [LB.1, 115].

Um fingido respeito ou cortesia  bem entendidos, alis, pelos presentes  pode determinar a presena da forma plena:

Diga, senhora mosca-morta? [AH.4, II, 251].

Pela forma abreviada seu modelou-se o feminino sua:

E ri-se voc, sua atrevida?!  exclamou o moleiro, voltando-se para Perptua Rosa [AH.4, 252].

Emprego do pessoal pelo possessivo

Emprego do pessoal pelo possessivo  Embora de pouca frequncia, pode aparecer o possessivo por uma forma de pronome pessoal precedido da preposio de. Neste caso est a 
expresso ao p de + pronome pessoal.

Vs os que no credes em bruxas, nem em almas penadas, nem nas tropelias de Satans, assentai-vos aqui ao lar bem juntos ao p de mim, e contar-vos-ei a histria de D. Diogo 
Lopes, senhor de Biscaia [AH.4, II, 7].

No sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao p de si, para no andar atrs dela [MA.2, 31].

Possessivo expresso por uma locuo

Possessivo expresso por uma locuo  Expressa-se o possessivo ainda por meio de uma perfrase em que entra o verbo ter, haver ou sinnimo:

Oxal os problemas que temos durem pouco (os nossos problemas).

O possessivo em referncia a um possuidor de sentido indefinido

O possessivo em referncia a um possuidor de sentido indefinido  Se o possessivo faz referncia a pessoa de sentido indefinido, expresso ou sugerido pelo significado da orao, 
emprega-se o pronome de 3. pessoa:

 verdade que a gente, s vezes, tem c as suas birras  disse ele, com certo ar que queria ser fino e saa parvo [AH.4, II, 158].

Se o falante se inclui no termo ou expresso indefinida, usar-se- o possessivo de 1. pessoa do plural:

A gente compreende como estas cousas acontecem em nossas vidas        [cf. CBr.1].

Repetio do possessivo

Repetio do possessivo  Numa srie de substantivos, pode-se usar o possessivo (como qualquer outro determinante do nome) apenas junto ao primeiro nome, se no for nosso 
propsito enfatizar cada elemento da srie:

A prova da sua perspiccia e diligncia estava em ter j no caminho da forca os desgraados cuja sentena vinha trazer  confirmao real [AH.4, I, 187].

Note-se a nfase e a oposio entre os possuidores (eu e tu):

O teu amor era como o ris do cu: era a minha paz, a minha alegria, a minha esperana [AH.4, I, 190].

Se o termo vem acompanhado de modificador, no se costuma omitir o possessivo da srie:

Foi a tua dignidade real, a tua justia, o teu nome que eu quis salvar da tua prpria brandura [AH.4, I, 191].

Omite-se o possessivo na srie sem nfase, ainda que os substantivos sejam de gnero ou nmero (ou ambas as coisas) diferente. A repetio que nada acrescenta em nfase  
expresso  considerada, por muitos estudiosos, como imitao da sintaxe francesa [MBa.1, 412-413].

... entendera (Calisto Eli) que a prudncia o mandava viver em Lisboa consoante os costumes de Lisboa, e na provncia, segundo o seu gnio e hbitos aldeos [CBr.1, 107].

Se se trata de substantivo sinnimo, dispensa-se a repetio do possessivo:

Teu filho, de quinze anos apenas,  teu orgulho e ufania.

Se os substantivos forem de significao oposta, o possessivo em regra no  dispensado:

Teu perdo e teu dio no conhecem o equilbrio necessrio  vida.

Substituio do possessivo pelo artigo definido

Substituio do possessivo pelo artigo definido  Sem ser norma de rigor absoluto, pode-se substituir o possessivo pelo artigo definido, quando a ideia de posse se patenteia 
pelo contexto ou pelo sentido total da orao, ou ainda pela aplicao reflexiva, isto , quando se faz referncia  prpria pessoa que fala ou de quem se fala. Este fato 
ocorre principalmente junto dos nomes de partes do corpo, das peas do vesturio, faculdades do esprito e certas frases feitas:

D. Fernando afastou-a suavemente de si: ela alevantou o rosto celeste orvalhado de pranto... D. Leonor ergueu as mos suplicantes, com um gesto de profunda angstia [AH.4, 
I, 190].

... aqui parou (Calisto Eli), e cruzando os braos, se esteve largo espao quedo, e fito nas janelas [CBr.1, 110].

E o vento assobiava no vigamento da casa, e nas orelhas de Calisto, o qual, levado do instinto da conservao, levantou a gola do capote  altura das bossas parietais... 
[CBr.1].

Ele perdeu o juzo. Tem a vida por um fio. Recuperou a memria.

Observaes:

1.) Aparece o possessivo no caso de nfase, quando se deseja insistir na pertena do indivduo:

(...) se as suas faces eram gordas, as suas mos continuavam magras com longos dedos fusiformes e geis [LB.1, 96].

E cada lavrador enxugava os seus olhos [CBr.6, 118].

2.) Dispensa-se o artigo definido nas expresses Nosso Senhor, Nossa Senhora, assim como nas frmulas de tratamento onde entra um possessivo, do tipo: vossa excelncia, vossa 
reverendssima, sua majestade, etc.

O possessivo e as expresses de tratamento do tipo Vossa Excelncia

O possessivo e as expresses de tratamento do tipo Vossa Excelncia  Empregando-se as expresses de tratamento do tipo de vossa excelncia, vossa reverendssima, vossa majestade, 
vossa senhoria, onde aparece a forma possessiva de 2. pessoa do plural, a referncia ao possuidor se faz hoje em dia com os termos seu, sua, isto , com possessivo de 3. 
pessoa do singular:

Vossa Excelncia conseguiu realizar todos os seus propsitos (e no: todos os vossos propsitos).

Tais tipos de ttulos honorficos comearam a aparecer no portugus entre os sculos XIV e XV e a havia realmente uma possibilidade de alternncia de seu, sua, vosso, vossa. 
A luta durou at aproximadamente o sculo XVII, quando as formas de 3. pessoa saram vitoriosas. Assim sendo, modernamente s deve aparecer o possessivo conforme o exemplo 
dado. Raras excees em escritores do sc. XVIII para c so devidas a imitaes literrias, justamente repudiadas como arcaicas, ou ento porque o autor, em romance ou novela 
histrica, para no cair em anacronismo, faz seus personagens falar a linguagem da poca.

Entre os escritores a cuja autoridade se abrigam os defensores do arcasmo aqui citado, se acha Alexandre Herculano. vido leitor e constante hspede dos monumentos histricos, 
o autor da Histria de Portugal, tratando do perodo de D. Joo I (1385-1433), no Monge de Cister (pronuncie-se este ltimo nome como oxtono), teve oportunidade de mostrar 
o quanto sabia da evoluo de sua lngua, conhecimento que o faz o melhor prosador ou um dos melhores que as letras portuguesas tiveram. Assim, pensamos que tal situao especialssima 
do probo e perspicaz historiador no abre a porta para a prtica da velha construo.

Pronome demonstrativo

Pronome demonstrativo

A posio indicada pelo demonstrativo pode referir-se ao espao, ao tempo (demonstrativos dicticos espaciais e temporais) 48 ou ao discurso (demonstrativo anafrico).

Demonstrativos referidos  noo de espao

Demonstrativos referidos  noo de espao  Este (e flexes) aplica-se aos seres que pertencem ou esto perto da 1. pessoa, isto , daquela que fala:

Este livro  o livro que possuo ou tenho entre mos.

Esta casa  a casa onde me encontro.

Esse (e flexes) aplica-se aos seres que pertencem ou esto perto da 2. pessoa, isto , daquela com quem se fala:

Esse livro  o livro que nosso interlocutor traz.

Essa casa  a casa onde se encontra a pessoa a quem me dirijo.

Na correspondncia, este se refere ao lugar donde se escreve, e esse denota o lugar para onde a carta se destina. A referncia  missiva que escrevemos se faz com este, esta:

Manaus, 13-1-1905

Meu bom amigo Dr. Jos Verssimo,  escrevo-lhe dissentindo abertamente de sua opinio sobre este singularssimo clima da Amaznia... [EC].

Escrevo estas linhas para dar-te notcia desta nossa cidade e pedir-te as novas dessa regio aonde foste descansar.

Quando se quer apenas indicar que o objeto se acha afastado da pessoa que fala, sem nenhuma referncia  2. pessoa, usa-se de esse:

Quero ver esse cu da minha terra

To lindo e to azul! [CA].

Na linguagem animada, o interesse do falante pode favorecer uma aproximao figurada, imaginria, de pessoa ou coisa que realmente se acham afastadas dos que falam. Esta situao 
exige este:

Di-me a certeza de que estou morrendo desde o primeiro dia da tua unio com este homem... a certeza de que o hs de amar sempre, ainda que ele te despreze como j te desprezou 
[CBr.1, 152].

Tal circunstncia deve ter contribudo para o emprego de este como indicador de personagens que o escritor traz  baila.

Este Lopo, bacharel em direito, homem de trinta e tantos anos, e sagaz at a protrvia, vivia na companhia do irmo morgado... [CBr.1, 149].

Por outro lado, cabe a esse a misso de afastar de ns pessoa ou coisa que na realidade se acham ou se poderiam achar prximas:

Vs frica, dos bens do mundo avara,

.............................................................

Olha essa terra toda, que se habita

Dessa gente sem lei, quase infinita [LC.1, X, 92 apud SA].

Estas expresses no se separam por linhas rigorosas de demarcao; por isso exemplos h de bons escritores que contrariam os princpios aqui examinados e no faltam mesmo 
certas orientaes momentneas do escritor que fogem s perscrutaes do gramtico.

Demonstrativos referidos  noo de tempo

Demonstrativos referidos  noo de tempo  Na designao de tempo, o demonstrativo que denota um perodo mais ou menos extenso, no qual se inclui o momento em que se fala, 
 este (e flexes):

Neste dia (= no dia de hoje) celebramos a nossa independncia.

Este ms (= no ms corrente) no houve novidades.

Aplicado a tempo j passado, o demonstrativo usual  esse (e flexes):

Nessa poca atravessvamos uma fase difcil.

Se o tempo passado ou vindouro est relativamente prximo do momento em que se fala, pode-se fazer uso de este, em algumas expresses:

Esta noite (= a noite passada) tive um sonho belssimo.

Porm, com a mesma linguagem esta noite poderamos indicar a noite vindoura. Outro exemplo:

Meu caro Barbosa:

Deves ter admirado o meu silncio destes quinze dias, silncio para ti, e silncio para o jornal [CBr.7, 56].

A indicao temporal de este e esse dispensa outra expresso adverbial, se a circunstncia de tempo no se apresenta ao falante como elemento principal do conjunto:

Para o jogo bastava esse movimento de peo. [ML]

Esse movimento vale por: o movimento que se fez naquele momento.

Demonstrativos referidos a nossas prprias palavras

Demonstrativos referidos a nossas prprias palavras  No discurso, quando o falante deseja fazer meno ao que ele acabou de narrar (anfora) ou ao que vai narrar (catfora), 
emprega este (e flexes):

Entrou Calisto na sala um pouco mais tarde que o costume, porque fora vestir-se de cala mais cordata em cor e feitio. No me acoimem de arquivista de insignificncias. Este 
pormenor (isto : o pormenor a que fiz referncia) das calas prende mui intimamente com o cataclismo que passa no corao de Barbuda [CBr.1, 93].

Se no existisse Ifignia... acudiu Calisto. J este nome (i..: o nome que proferi) me soava docemente quando, na minha mocidade pela angstia da filha de Argameno, cujo 
sacrifcio o orculo de ulida desmandava.

         Ah, tambm eu conheo essas angstias (i..: aquelas a que se refere) da tragdia de Racine [CBr.1, 135].

         ... no h linguagem que no soe divinamente falada por minha prima.

         Essas lisonjas  volveu ela sorrindo  aprendeu-as nos seus livros velhos, primo Calisto? [CBr.1, 136].

Por este ltimo exemplo, podemos verificar que se a referncia  feita s palavras da pessoa com quem se fala, o demonstrativo empregado  esse (e flexes). No trecho, essas 
lisonjas so as que faz Calisto  sua prima.

H situaes embaraosas para o emprego do demonstrativo anafrico, isto , aquele que se refere a palavras ditas ou que se vo dizer dentro do prprio discurso (catfora). 
Ocorre o caso, por exemplo, nas referncias a enunciados anteriores que envolvem afastamento da 1. pessoa ou ao tempo em que se fala. Nestes casos, geralmente, prevalece 
a preferncia para nossas prprias palavras, aparecendo, assim, o anafrico este (e flexes) em lugar do dictico esse (e flexes):

 Ento que te disse ele?...

 Que tinhas l outra... e que te viu passear com ela.

 Viu-me a passear com uma nossa parenta, viva de um general. Quem disse ao javardo que esta (a que me refiro) senhora era minha amante [CBr.1, 157].

Expresso um nome a que, na construo do discurso, se quer juntar uma explicao, comparao, ou se lhe quer apontar caracterstica saliente, costuma-se repetir este nome 
(ou o que lhe serve de explicao, comparao, ou caracterstica) acompanhado do demonstrativo esse (e flexes):

O olhar da opinio, esse olhar agudo e judicial, perde a virtude, logo que pisamos o territrio da morte [MA.1, 81 apud SS].

Creio que por ento  que comeou a desabotoar em mim a hipocondria, essa flor amarela, solitria, de um cheiro inebriante e sutil [MA.1, 83 apud SS.1, 307].

Por meio do pronome invarivel o repetimos pleonasticamente a orao objetiva que se antecipa de sua posio normal, ou, em sentido inverso, antecipa a orao objetiva do 
texto:

Que todos iam sair cedo, eu o disse ontem.

Eu o disse ontem, que todos iam sair cedo.

Reforos de demonstrativos

Reforos de demonstrativos  A necessidade de avivar a situao dos objetos e pessoas tratados pelo falante o leva a reforar os demonstrativos com os advrbios diticos aqui, 
a, ali, acol: este aqui, esse a, aquele ali ou acol.

Eu c tenho minhas dvidas.   Ele l diz o que pensa.

Tambm desempenham o papel de reforo enftico mesmo e prprio (e flexes) presos a substantivos ou pronomes, com o valor de em pessoa (em sentido prprio ou figurado):

Eu prprio assisti  desagradvel cena. Ela mesma foi verificar o fato.

Neste sentido de identidade, mesmo e prprio entram no rol dos demonstrativos.

No seguinte trecho de M. de Assis aparece muito:

Voc ignora que quem os cose sou eu, e muito eu [MA.2, 230].

H construes fixas que nem sempre se regulam pelas normas precedentes; entre estas, esto:

a) isto  (e nunca isso ) com o valor de quer dizer ou significa, para introduzir esclarecimentos;

b) por isso, nem por isso, alm disso so mais frequentes que por isto, nem por isto, alm disto, como a introduzir uma concluso ou aduzir um argumento;

c) isto de (e no isso de) com o valor de no que toca, no que diz respeito a. [SA.2, 264]

Outros demonstrativos e seus empregos

Outros demonstrativos e seus empregos  J vimos que mesmo e prprio denotando identidades e com o valor de em pessoa so classificados como demonstrativos:

Tal fao eu,  medida que me vai lembrando e convindo  construo ou reconstruo de mim mesmo [MA.4, 203].

De resto, naquele mesmo tempo senti tal ou qual necessidade de contar a algum o que se passava entre mim e Capitu [MA.4, 225].

Veja os algarismos: no h dois que faam o mesmo ofcio [MA.4, 267].

Pode ainda o demonstrativo mesmo assumir o valor de prprio, at:

Estes e outros semelhantes preceitos no h dvida que no so pesados e dificultosos; e por tais os estimou o mesmo Senhor, quando lhes chamou Cruz nossa [AV. 1, XI, 150].

Os mesmos animais de carga, se lhe deitam toda a uma parte, caem com ela [AV apud ED.2,  86, a].

Mesmo, semelhante e tal tm valor de demonstrativo anafrico, isto , fazem referncia a pensamentos expressos anteriormente:

Depois, como Pdua falasse ao sacristo, baixinho, aproximou-se deles; eu fiz a mesma cousa [MA.4, 87].

No paguei uns nem outros, mas saindo de almas cndidas e verdadeiras tais promessas so como a moeda fiduciria,  ainda que o devedor as no pague, valem a soma que dizem 
[MA.4, 202; FT.1, 56].

Falaste em dois bons estudantes, mas no encontrei semelhantes prendas na sala de aula.

Tal (sozinho ou repetido) e outro so demonstrativos de sentido indefinido. O primeiro aparece junto  designao de um dia, lugar ou circunstncias reais, que no queremos 
ou no podemos precisar:

Ele combinou com o assassino assaltarem a casa em tal dia, a tal hora, por tais e tais meios [JO.1, 40].

Outro se emprega com o valor de um segundo, mais um (no sentido de diferente, como mesmo no de igual,  adjetivo):

Ele me tratou mal e eu fiz outro tanto (tanto, veremos mais tarde,  pronome indefinido).

Tais acepes imprecisas levam alguns estudiosos a classificar tal e outro como indefinidos.

Como elemento reforador dos que foram tratados anteriormente, aparece mesmo junto aos advrbios pronominais: agora mesmo, a mesmo, aqui mesmo, j mesmo, etc.

Observao: Sobre o emprego tido como errneo de mesmo como advrbio, veja-se, mais adiante.

Um pode ter, em certas expresses, o valor de mesmo:

Oh cousa para espantar

Que ambos a ferida tem

Dum tamanho, em um lugar [LC apud JM].

(i. : do mesmo tamanho e no mesmo lugar)

Honra e proveito no cabem num saco.

No estilo familiar e animado, emprega-se o demonstrativo com o valor de artigo definido:

Esse Joo  das arbias! Aquela Maria tem cada ideia! [MA.1, 36].

Registre-se ainda o emprego substantivo de aquilo em construes como:

e apenas, como uma das extravagncias que mais requerem anotao, citarei aquilo da p. 14 [CL.1, I, 245].

Posio dos demonstrativos

Posio dos demonstrativos  Em situaes normais, em que no impere a nfase, o demonstrativo vem anteposto ao nome. Em caso contrrio, pode o adjetivo vir posposto, principalmente 
se o demonstrativo se referir ao pensamento j expresso.

Logo depois, senti-me transformado na Summa Theologica de S. Toms, impressa num volume, e encadernada em marroquim, com fechos de prata e estampas; ideia esta que me deu 
ao corpo a mais completa imobilidade... [MA apud. SS.1, 306].

... Os seus olhos serenos, como o cu, que imitavam na cor, tomaram a terrvel expresso que ele costumava dar-lhes no revolver dos combates, olhar esse que, s por si, fazia 
recuar os inimigos [AH apud SS].

Nas oraes exclamativas ocorre tambm a posposio: Que dia este!

Mesmo pode corresponder a dois vocbulos latinos: idem e ipse. No primeiro caso, denota identidade e reclama a presena do artigo ou de outro demonstrativo:

Disse as mesmas coisas. Referiu-se ao mesmo casal. Falou a este mesmo homem.

Idntico a ipse, emprega-se junto a substantivo ou pronome e equivale a prprio, em pessoa (em sentido prprio ou figurado)49:

Ela mesma se condenou.

Em ambos os sentidos, mesmo pode aparecer antes ou depois do substantivo. Nota-se apenas, na lngua moderna, certa preferncia para a anteposio, quando o demonstrativo assume 
o valor de idem, isto , indica identidade.

 costume calar-se a preposio na orao subordinada que se refere a substantivo antecedente que tem mesmo como adjunto:

Encontrei-o na mesma situao (em) que estava no ano passado.

Saiu do trabalho no mesmo dia (em) que fora promovido.

Querias, porventura, ensin-la a desprezar-me pela mesma razo (por) que tu me desprezas [CBr apud MBa.2, 310].

Pronome indefinido

Pronome indefinido

Nem sempre se pode estabelecer claramente a diferena entre simples indefinidos tratados neste lugar dos quantitativos indefinidos; isto porque certos indefinidos aparecem 
aplicados  quantidade incerta.

Empregos e particularidades dos principais indefinidos

Empregos e particularidades dos principais indefinidos  O indefinido pode estender a sua significao a todos os indivduos de uma classe:

Todos os homens so bons. Cada livro deve estar no lugar prprio. Qualquer falta merece ser punida.

Livro algum ser retirado sem autorizao. Nenhum erro foi cometido.

A significao do indefinido se pode estender apenas a um ou a alguns indivduos de uma classe:

Certas folhas ficaram em branco.

Da surgiro outros enganos.

Sobre os principais pronomes indefinidos acrescentaremos:

a) Algum

Anteposto ao substantivo tem valor positivo: Recebeu algum recado importante.

Posposto ao nome, assume significao negativa, podendo ser substitudo pelo indefinido negativo nenhum: Resultado algum saiu do inqurito.

Ocorre com maior frequncia este emprego em frases onde j existem expresses negativas (no, nada, sem, nem), em interrogaes oratrias ou depois de substantivo precedido 
da preposio sem: Era pessoa sem escrpulo algum [ED.2,  106].

b) Algo

Est hoje praticamente desbancado pela locuo sinnima alguma coisa: 50

Ters algo para contar-me?

H algo novo no ar.

 mais frequente seu emprego como advrbio, em construes do tipo:

A situao est algo perigosa.

Ali se passaram os momentos algo inesquecveis.

O mesmo emprego adverbial conhece o seu equivalente alguma coisa:

A leitura deixou-lhe impresso alguma coisa agradvel.

Algumas vezes o significado quantitativo de algo e alguma coisa favorece o aparecimento da preposio de com valor partitivo:

No h algo de novo.

Ficou-lhe do encontro alguma coisa de arrependimento.

Alguma coisa de novo deve acontecer hoje.

A presena da preposio junto ao adjetivo o transpe  classe do substantivo e, por atrao, este pode concordar em gnero e nmero com o nome sujeito do verbo:

Apresento-lhe estas desculpas que tm algo de engraadas.

De repente saram umas ideias alguma coisa de ridculas.

Sem razo, alguns autores consideram galicismo a presena da preposio de nestas construes com pronomes indefinidos, todos de valor nitidamente quantitativo [MBa.5, 43].

c) Cada

Junta-se a substantivo singular, a numeral coletivo e expresses formadas por numeral seguido de substantivo no plural:

Uma iluso gemia em cada canto,

Chorava em cada canto uma saudade. [LG]

Cada sculo possui seus homens importantes.

Faz prova em cada trinta dias.

Usa-se combinado a cada um e cada qual.

 condenado o emprego de cada sem substantivo em lugar de cada um nas referncias a nomes expressos anteriormente, considerado imitao da linguagem comercial francesa, o 
que pomos em dvida.

Os livros custam trinta cruzeiros cada (por cada um).

Cada no sofre variao, mas a concordncia do verbo com o sujeito se processa normalmente:

Convm notar o trduo das Lemrias

No corre a flux: cada dois dias levam

entre si um profano intercalado [AC.1, III, 57 apud FC.1, 53].

Observao: Com exagero, j se condenou por mal soante a expresso por cada, que, segundo a crtica, lembraria porcada (vara de porcos). Rui Barbosa [RB.1, 126] defendeu brilhantemente 
o falso cacfato (mau som).

Lembra Sousa da Silveira o valor intensivo de cada, como no seguinte exemplo (est claro que proferido com entonao expressiva):

Ento  cada temporal, que at parece que os montes estremecem [EQ.1, 288 apud SS.1,  388].

Conta cada histria!

d) Certo

 exclusivamente na lngua moderna pronome indefinido quando antecede ao substantivo:

A vida celibata podia ter certas vantagens prprias, mas seriam tnues, e compradas a troco da solido [MA.1, 306].

Havendo nfase, poder aparecer um certo, expresso que tem sido, com algum exagero, recriminada pelos gramticos. Alexandre Herculano, notvel escritor portugus, talvez 
influenciado pelas teorias gramaticais reinantes, aboliu, em redaes posteriores, o artigo indefinido (junto ou no a palavras indefinidas), tirando, muita vez, o colorido 
enftico do trecho primitivo. De um certo usou ele nos seguintes passos:

Foroso  que um poeta creia no pensamento, que o agita, e no ideal, aonde tem de ir buscar um certo nmero dexistncia... [AH.2, 162].

Passado todo este tempo os escravos de um certo Adcio, que herdara o domnio daquela montanha... [AH.2, 215].

O gesto brando com que, uma vez posta, comeou a mover as asas, tinha um certo ar escarninho, que me aborreceu muito [MA.1, 99].

Posposto ao substantivo, certo fixou o seu emprego de adjetivo, com o sentido de acertado, ajustado, exato, verdadeiro. Ambos os sentidos, indefinido e qualificativo, 
so aproveitados nos seguintes jogos de palavras:

Tenho certos amigos que no so amigos certos.

Note-se, com o Dicionrio Contemporneo, que certo atenua o que na significao do substantivo haja de demasiadamente absoluto, quando este indefinido vem anteposto a nome 
que exprime qualidade, propriedade ou modo de ser:

Goza de certa reputao de talento.

A pera tem uma certa novidade.

Nesta significao atenuativa, certo, equivalente a algum (e flexes), se aproxima dos quantitativos indefinidos.

Nota: No portugus de outras pocas, a funo de adjetivo ocorria, ou podia ocorrer, ainda anteposto ao nome:

Deveis de ter sabido claramente

Como  dos fados grandes certo intento   (isto : intento certo)

[LC.1, I, 24].

Esta ilha pequena que habitamos

 em toda esta terra certa escala (isto : escala certa)

De todos os que as ondas navegamos

[LC.1, I, 54].

Atento estava o rei na segurana

Com que provava o Gama o que dizia;

Concebe dele certa confiana, (isto : confiana segura)

Crdito firme em quanto proferia

[LC.1, VIII, 76].

e) Nenhum

Refora a negativa no, podendo ser substitudo pelo indefinido algum:

No tnhamos nenhuma dvida at aquele momento.

Sem nfase, nenhum vem geralmente anteposto ao substantivo; havendo desejo de avivar a negao, o indefinido aparece posposto:

Que  l? redargui; no cedi cousa nenhuma, nem cedo [MA.1, 134].

Referindo-se o nome no plural, nenhum se flexiona:

Mas se anda nisto mistrio, como quer o condestvel, espero que no sero nenhuns feitios... [RS.1, 195].

Em certas frases de forma afirmativa, nenhum pode adquirir valor afirmativo, como sinnimo de qualquer:

Mais do que nenhum homem, ele trabalhava para a tranquilidade.

Enquanto nenhum  um termo que generaliza a negao, nem um se refere  unidade:

No tenho nenhum livro.

No tenho nem um livro, quanto mais dois.

f) Todo  Tudo 51

Concorda em gnero e nmero com o substantivo ou pronome a que serve de adjunto adnominal.

Quando no singular est anteposto a substantivo ou adjetivo substantivado, vale por cada, qualquer ou inteiro, total, podendo vir ou no acompanhado de artigo. Isto 
significa que, no singular, todo pode referir-se tanto  totalidade distributivamente de um conjunto plural (Todo o homem  mortal = todos e cada um dos homens)  e neste 
sentido equivale ao latim omnis , como  totalidade, integralidade, de um indivduo, de um singular (Todo o homem ou O homem todo  pecado e misria; Trabalhar todo o dia 
ou o dia todo)  e j neste sentido vale pelo latim totus [HCv.3, III, 33 n.4].

Ainda que todo possa significar qualquer, eles podem concorrer juntos na expresso todo (toda) e qualquer:

Introduo de todo e qualquer gnero de produto [RB apud FC.1, 295].

A toda falta deve corresponder um castigo adequado (toda = cada).

A toda a falta... (toda = cada).

Todo ser merece considerao (todo = qualquer).

Todo o ser merece... (todo = qualquer).

O incndio destruiu toda casa (toda = inteira, total).

O incndio destruiu toda a casa (toda = inteira, total)

Todo pobre receber esmola.

Todo o pobre receber esmola.

Enquanto em Portugal no se faz a distino formal entre cada/ qualquer e inteiro/ total, usando-se quase sempre todo seguido de artigo (Todo o homem  mortal), no 
Brasil, para o primeiro sentido, modernamente, dispensa-se o artigo (Todo homem  mortal) e, para o segundo, o artigo  obrigatrio (Toda a casa pegou fogo).

Est claro que a presena ou ausncia do artigo est inicialmente presa ao fato de o substantivo ncleo do sintagma exigir ou no artigo, independentemente da variedade semntica 
apontada. Assim, como se diz, nos nomes dos pases, com artigo, o Brasil, dir-se- todo o Brasil; em contraposio, s se diz, sem artigo, Portugal, logo se dir todo Portugal.

A distino entre cada/ qualquer e inteiro/ total fica prejudicada em virtude da ocorrncia da fontica sinttica que facilita, na pronncia (com reflexo natural na 
escrita), a fuso por crase da vogal final de todo, toda com o artigo singular o/ a: todo o = todo; toda a = toda. Da, muitas vezes a indeciso que sentem as pessoas na hora 
de usar todo e todo o, toda e toda a.

Assim, diz-se, entre brasileiros, sem distino de sentido, todo o mundo, toda a vida, todo o tempo, toda a hora, toda a parte, etc., ao lado de todo mundo, toda vida, todo 
tempo, toda hora, toda parte, etc., vacilao que se nota no portugus europeu literrio de pocas passadas, em Cames, por exemplo. Em todo o mundo, toda a gente, percebe-se, 
na prpria significao dos substantivos, o valor coletivo da expresso.

Todo indica a totalidade numrica, isto , qualquer indivduo da classe, quando seguido de orao adjetiva substantivada pelo o ou do pronome aquele (todo aquele que):

(...) Todo o que sofre,

Todo o que espera e cr, todo o que almeja

Perscrutar o futuro, se coloca

Ao lado do Senhor [FV apud SS.1,  366].

Desaparece, naturalmente, a vacilao quando, em vez do artigo definido, aparecer o indefinido um, pois a todo um denota inteiro, total: todo um dia, toda uma cidade, 
construo, alis, sem razo, rejeitada por puristas intransigentes.

Todo no singular e posposto ao substantivo entra sempre na expresso da totalidade: o homem todo, a casa toda, o pas todo, a semana toda, o tempo todo, a fortuna toda, o 
mundo todo, uma cidade toda.

Nas expresses de reforo enftico ou de valor superlativo do tipo de todo o resto, toda a soma, todo o mais (substantivado), a toda a pressa, a toda a brida, a todo o galope, 
o artigo  de presena obrigatria entre brasileiros.

No plural, todos, todas, antepostos ou pospostos, exigem sempre a presena do artigo, desde que o substantivo no esteja precedido de adjunto que o exclua:

Todos os alunos entregaram as provas antes do tempo.

Todas as revises so passveis de enganos.

Os alunos todos disseram sim.

Todos estes casos foram examinados.

Todas elas responderam s cartas

Estando a totalidade numrica definida por um numeral referido a substantivo explcito ou subentendido, todos pode ser ou no acompanhado de artigo (todo um, todos dois ou 
todos os dois, todos trs ou todos os trs, etc.):

Era belo de verem-se todos cinco em redor da criana, como se para outro fim se no reunissem! [CBr.6, 131].

Todas as quatro razes foram discutidas.

Observaes:

1.)  mais comum a presena do artigo quando o substantivo est expresso.

2.) Em todas estas quatro razes, a presena de um adjunto (estas) que exclui o artigo explica a sua ausncia.

Graas  significao de certos verbos em determinados contextos, todos pode ser interpretado em sentido distributivo, com valor aproximado de cada, como no exemplo:

Dizia um Secretrio de Estado meu amigo que, para se repartir com igualdade o melhoramento das ruas por toda a Lisboa, deviam ser obrigados os ministros a mudar de rua e 
bairro todos os trs meses [AGa.4, 33].

(isto : a cada trs meses, de trs em trs meses, como interpreta ED.2,  61, a)

Todo pode ser empregado adverbialmente, com valor de inteiramente, em todas as suas partes:

Desculpe-me, que eu estou todo absorvido pela minha mgoa!

[CBr.6, 93].

Longe de mim a triste ideia de me intrometer nessa questo todo particular

[CL.1, I, 211].

Suas origens pronominais facultam-lhe a possibilidade de poder, por atrao, concordar com a palavra a que se refere:

O professor  todo ouvidos.           Ela  toda ouvidos.

Ele est todo preocupado.             Ela est toda preocupada.

Acabamos de ver as crianas todas chorosas.52

Todo entra ainda na construo de locues adverbiais: em todo, de todo, de todo em todo, etc.

Tudo  Refere-se s coisas consideradas em sua totalidade ou conjunto e, normalmente, se apresenta como termo absoluto, desacompanhado de determinado:

Nem tudo est perdido.

Pe a esperana em tudo.

O seu emprego absoluto apresenta duas excees: quando se combina com os demonstrativos isto, isso, aquilo ou quando  seguido de orao adjetiva substantivada pelo artigo:

Tudo isso  impossvel. Isso tudo  impossvel.

Onde voc comprou tudo aquilo?

Desconhecemos tudo o que eles disseram.

Em tais construes, o demonstrativo funciona como ncleo do sintagma nominal e o indefinido como seu adjunto, bem como da orao adjetiva substantivada.

Pronome relativo

Pronome relativo

Usa-se o qual (e flexes) em lugar de que, principalmente quando o relativo se acha afastado do seu antecedente e o uso deste ltimo possa dar margem a mais de uma interpretao:

O guia da turma, o qual nos veio visitar hoje, prometeu-nos voltar depois (com o emprego de que o sentido ficaria ambguo).

Pode-se ainda recorrer  repetio do termo:

Arrastaram o saco para o paiol e o paiol ficou a deitar fora [CN.1, 12].

D-se ainda o afastamento do relativo em relao ao seu antecedente em exemplos como o seguinte:

No fundo de um triste vale dos Abruges, terra angustiada e sfara, um pobre eremita vivia que deixara as abominaes do sculo pela soledade do deserto [JR.2, 2, 219].

Hoje  mais comum construir:

eremita que deixara... vivia ou vivia um pobre eremita que deixara....

Deve-se evitar com cuidado o grande distanciamento entre o antecedente e o correspondente relativo, principalmente se este estiver precedido de dois nomes que possam assumir 
esta referncia. Mrio Barreto [MBa.5, 303] cita o trecho de Camilo em que o escritor explicita entre parntese o real antecedente:

Eu de mim, se no estivesse amortalhada no sobretudo do meu marido, que vou escovar (o sobretudo), era dele, como a borboleta  da chama (...).

Lcia descera com a moa bonita, de calas curtas, que guiava o carro [JL.2, 133].

Muitas vezes a pontuao salva a boa interpretao do texto; a vrgula posta entre um substantivo (ou pronome) e o relativo serve para indicar que este no se est referindo 
quele, e sim ao mais afastado:

mas ele tinha necessidade da sano de alguns, que (isto , a sano, e no alguns) lhe confirmasse o aplauso dos outros [MA.1, 138].

Em geral substitui-se que por o (a) qual depois de preposio ou locuo prepositiva de mais de duas slabas. Empregamos sem que ou sem o qual, a que ou ao qual, de que ou 
do qual, mas dizemos com mais frequncia apesar do qual, conforme o qual, perante o qual, etc.53 O movimento rtmico da frase e a necessidade expressiva exigem, nestes casos, 
um vocbulo tnico (como o qual) em lugar de um tono (como que).

Com frequncia, a preposio que deveria acompanhar o relativo emigra para o antecedente deste relativo:

A barra  perigosa, como dissemos: porm a enseada fechada  ancoradouro seguro, pelo que (o porque, razo por que) tem sido sempre couto dos corsrios de Berbria [AH.2, 
69].

... at o induzirem a mand-lo sair da corte, ao que (o a que) D. Pedro atalhou com retirar-se antes que lhe ordenassem [AH.2, 91].

... no tardou a ser atravessado, pelo corao, com uma seta do que (o de que) imediatamente acabou [AH.2, 97].

A construo regular, sem migrao da preposio,  pouco usada e se nos apresenta como artificial:

Assim me perdoem, tambm, os a quem tenho agravado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante... [RB.2, 23].

No seguinte exemplo de Rui Barbosa a preposio aparece antecipada e depois no lugar devido:

 no em que essa justificao se resume [RB.1, 519].

Outras vezes omite-se a preposio que pertence a rigor ao relativo, em virtude de j ter o seu antecedente a mesma preposio:

Voc s gosta das coisas que no deve (por: das coisas de que no deve).

Ele falou do que no podia falar (por: de que no podia falar).

Relativo universal

Relativo universal  Na linguagem coloquial e na popular pode aparecer o pronome relativo despido de qualquer funo sinttica, como simples transpositor oracional. A funo 
que deveria ser desempenhada pelo relativo vem mais adiante expressa por um substantivo ou pronome precedido de preposio.  o chamado relativo universal que, desfazendo 
uma complicada contextura gramatical, se torna um elemento lingustico extremamente prtico [KN.1, V, 330]:

Ali vai o homem que eu falei com ele.

por

Ali vai o homem com quem eu falei.

Anacoluto no relativo

Anacoluto no relativo  Costuma-se empregar ainda que ou quem seguido de pronome pessoal oblquo (que ou quem... lhe) onde o rigor gramatical estaria a pedir este relativo 
precedido de preposio.  prtica antiga que ainda persiste no colquio moderno:

Agora sim, disse ento aquela cotovia astuta, agora sim, irmo, levantemos o voo e mudemos a casa, que vem quem lhe di a fazenda

(= aquele a quem di a fazenda) [MBe apud AC.8, I, 70].

Quem ama o feio bonito lhe parece (= quem ama o feio parece bonito).

Quem cospe para o cu, na cara lhe cai.

Pode ocorrer ainda que, em vez do pronome lhe, aparea substantivo ou pronome com a preposio que deveria preceder o relativo.

Outras vezes o relativo no se refere propriamente ao seu antecedente, mas a um termo a ele relacionado:

Bem vs as lusitnicas fadigas

Que eu j de muito longe favoreo [LC.1, II, 171].

O pronome relativo se refere a lusitanos, ideia contida no adjetivo lusitnicas.

Isto que parece absurdo ou desgracioso  perfeitamente racional e belo  belo  nossa maneira, que no andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem os 
oradores os seus discursos, nem os filsofos, as suas filosofias [MA apud SS.5, I, 28]. Aqui o relativo se refere ao pronome pessoal ns que se depreende do pronome possessivo 
nossa.

No pertence  boa norma da lngua repetir sob forma pronominal a funo sinttica j desempenhada pelo relativo. So escassos os exemplos como os seguintes:

(nome) que to dissesse a brisa perfumada

Lasciva perpassando pelas flores [CA.1, ed. SS,  29].

... o homem que se destina, ou que o destinou seu nascimento, a uma vocao pblica, no pode sem vergonha ignorar as belas-letras e os clssicos [AGa apud SS.5].

 preciso distinguir cuidadosamente este caso de outro aparentemente igual, em que no se trata de que pronome relativo, mas que conjuno causal ou consecutiva (com elipse 
do intensivo to, tal):

O portugus hodierno no  nem a lngua de sbios nem de filsofos e pensadores que no os h... [JR.6, 152].

Tenho os ps que os no sinto, dizia ele ao seu vizinho [AFg.1, 117].

(isto : tenho os ps de tal maneira, que...)

J vimos que cujo, como pronome relativo, traduz a ideia de posse, com o valor de dele (dela), do qual (da qual):

O livro cujas pginas... (= as pginas do qual, as pginas dele, as suas pginas).

Conforme a funo do ncleo do sintagma nominal, do qual este pronome serve de adjunto, cujo pode vir precedido de preposio:

O proprietrio cuja casa aluguei (a casa do qual aluguei).

Os pais a cujos filhos damos aula... (aos filhos dos quais).

Os pais de cujos filhos somos professores... (dos filhos dos quais).

O clube em cujas dependncias fao ginstica (nas dependncias do qual).

A cidade por cujas ruas, na infncia, arrastou seus sonhos (pelas ruas da qual).

A prova com cujas questes me atrapalhei (com as questes da qual).

Para o emprego correto de cujo, alm do que j dissemos antes, convm atentar para as trs seguintes construes viciosas:

a) em vez de cujo, empregar um relativo (que, quem) precedido da preposio de para referir-se  ideia de posse:

No posso trabalhar com uma pessoa de quem discordo dos mtodos.

Dever-se- construir:

No posso trabalhar com uma pessoa de cujos mtodos discordo (do mtodo dela, do mtodo da qual).

b) tambm no  para imitar o emprego de cujo (e flexes) significando o qual (e flexes). Os exemplos que dele se nos deparam na pena de um bom conhecedor do idioma, como 
Filinto Elsio, se devem explicar como uma iniciativa do idioleto do escritor, mas que no ganhou foros de cidade:

O livro cujo eu comprei ontem  excelente.

c) empregar artigo definido depois de cujo:

O pai cujos os filhos estudam aqui.

5  Numeral

Numeral

Numeral   a palavra de funo quantificadora que denota valor definido:

A vida tem uma s entrada: a sada  por cem portas [MM].

Os numerais propriamente ditos so os cardinais: um, dois, trs, quatro, etc., e respondem s perguntas quantos?, quantas?.

Observaes:

1.)No so quantificadores numerais, ainda que tenham o mesmo significante, os substantivos que designam os algarismos e os nmeros inteiros positivos. So substantivos e, 
como tais, admitem gnero e podem ir ao plural: o um, os uns; o dois, os dois; o quatro, os quatros; prova dos noves. O gnero masculino se explica pela referncia  palavra 
nmero, que se subentende. [AL.1, 120].

2.)Entre brasileiros, principalmente em referncia a nmeros de telefone, usa-se meia dzia ou meia para o nmero seis. No vale como numeral.

A tradio gramatical, levando em conta mais a significao de certas palavras denotadoras da quantidade e da ordem definidas, tem includo entre os numerais prprios  os 
cardinais  ainda os seguintes: os ordinais, os multiplicativos e os fracionrios. Tais palavras no exprimem uma quantidade direta do ponto de vista semntico, e, do ponto 
de vista sinttico, se comportam, em geral, como adjetivos que funcionam como adjuntos e, portanto, passveis de deslocamentos dentro do sintagma nominal:

Ele era o segundo irmo entre os homens.

Ele era o irmo segundo entre os homens.

Podem combinar-se coordenativamente com outros adjetivos:

Choveu muito nos primeiros e gelados dias deste inverno.

Podem at estar quantificados pelo numeral prprio:

Os trs primeiros meses foram de muito calor.

Os dois sxtuplos nasceram na mesma cidade, em anos diferentes.

De modo que seria mais coerente incluir os ordinais, multiplicativos e fracionrios, conforme se apresentem no discurso, no grupo dos substantivos (dobro, metade, etc.) ou 
dos adjetivos (duplo, primeiro, etc.), como j fizemos com ltimo, penltimo, anterior, posterior, derradeiro, simples, mltiplo, etc., que denotam ordenao ou posio dos 
seres numa srie, sem imediata ou mediata relao com a quantidade. Em nome da tradio e para comodidade de consulta do leitor, incluiremos nesta seo tais palavras, sem 
consider-las como numerais.

Tambm a tradio gramatical tem posto ambos como numeral dual, como subcategoria de nmero (singular/plural), por sempre aludir a dois seres concretos j mencionados no discurso. 
Mas no temos, como alguns dialetos gregos, entre outras lnguas, unidades lingusticas para a ideia da dualidade nos nomes e nos verbos [BD.1, II, 2. parte, 195; JV.1, 152]. 
Conforme as informaes do contexto, podemos indic-la por dois, ambos, pelo plural (as abotoaduras) ou possessivo (suas abotoaduras, seus pulsos), pelo reflexivo (se amam), 
etc. Nem o latim conhecia o dual [ECs.1, 198; HCv.3, III, 34]. Portanto, fica para ambos uma das duas classificaes mais correntes: ou um numeral plural ao lado de dois, 
mas dele diferente por s se referir a seres j previamente indicados ou conhecidos, ou um pronome, justamente levando em conta essa referncia de dixis anafrica. Ambos 
admite posio anteposta ou posposta ao nome que modifica, nome (menos o pronome, naturalmente) que pode vir ou no precedido de preposio e pode ser substitudo por um e 
outro:

Ambos os filhos            ou            os filhos ambos

Ambos os livros            ou            os livros ambos

Ambas (as) razes  Uma e outra razo

Observao: Ambos podia combinar-se com dois em construes enfticas em que estivesse anteposto ou posposto ao substantivo: Joo e Maria eram irmos; os dois ambos so engenheiros. 
Hoje, s no estilo solene, ocorre a construo.

Do ponto de vista material, existem em portugus os numerais simples (um, dois, trs, vinte, trinta, cem [prclise de cento]), os compostos, que indicam adio, ligados pela 
conjuno e (vinte e um, dezesseis, dezessete, cento e dois, mil e noventa, etc.) e os justapostos que indicam multiplicao, quando a primeira unidade, multiplicadora,  
menor que a segunda: quatrocentos (4 x cem), setecentos, oitocentos e novecentos, dois mil, cinco mil, etc.54

Na designao dos nmeros, usa-se a conjuno e entre as centenas, dezenas e unidades (duzentos e vinte e seis). Entre os milhares e as centenas, emprega-se o e se as centenas 
no forem seguidas de outro nmero (dois mil e duzentos); em caso contrrio, omite-se a conjuno (dois mil duzentos e vinte e seis). Pe-se o e entre os milhares e as dezenas 
como tambm entre os milhares e as unidades (dois mil e vinte e seis; dois mil e seis). [SL.1, 164]

Nos nmeros muito extensos, omite-se a conjuno entre as classes, isto , entre os grupos de trs algarismos: 324.312.090.215  trezentos e vinte e quatro bilhes trezentos 
e doze milhes noventa mil duzentos e quinze.

Tm emprego como substantivos e, entre estes, guardam analogia com os coletivos  mas deles diferem pela indicao de quantidade definida: dezena, dcada, dzia, centena, 
centenar, cento, milhar, milheiro, milho, bilho, trilho, etc. [SA.2, 88].

Como ainda os coletivos, podem ter adjuntos introduzidos por preposio para indicar a espcie: uma dzia de laranjas, duas dcadas de vida, trs centos de bananas, um milho 
de pessoas.

Observaes:

1.) Em lugar de milho pode ocorrer conto, na aplicao a dinheiro, em conto de ris ou, simplesmente, conto.

2.) Podem ser grafados com lh ou li: bilho / bilio, trilho / trilio, quatrilio, quintilio, sextilio, setilio, octilio. As formas com lh so mais usuais.

Os cardinais funcionam como adjuntos,  maneira dos adjetivos e pronomes adjetivos, e podem substantivar-se, se os seres forem consabidos, precedidos de artigo ou outro determinativo:

Os dois acabaram chegando cedo.

Estes trs esto  sua espera.

Podem juntar-se a substantivo acompanhado ou no de adjetivos, antepostos ou pospostos ao numeral:

Os dois bons momentos da vida.

Os maravilhosos trs dias passados na fazenda.

No que toca  flexo de gnero, os numerais so invariveis, exceo de um (uma), dois (duas) e ambos (ambas), os formados com um (vinte e um/vinte e uma) e as centenas acima 
de cem (duzentos/duzentas, trezentos/trezentas, novecentos/novecentas).

Cumpre lembrar que se o sujeito da orao tiver por ncleo o substantivo milhes, acompanhado de adjunto preposicionado no plural, cujo ncleo  um feminino, o particpio 
ou o adjetivo pode concordar no masculino com seu ncleo, ou no feminino, com o substantivo preposicionado do adjunto:

Dois milhes de pessoas foram aposentados (ou aposentadas) neste ano.

Os adjuntos de milhar, masculino, devem tambm ficar no masculino:

Alguns milhares de pessoas se expem perigosamente ao sol do meio-dia.

Os milhares de pessoas que estudam lnguas estrangeira no devem esquecer a materna.

Evite-se o erro, hoje comum: algumas milhares de pessoas, as milhares de pessoas.

Depois dos numerais compostos com um pode deixar-se o substantivo no plural: trinta e um dias, contruo mais comum.

Na expresso alusiva a um nmero no conhecido ou que no se queira explicitar (o nmero tanto), pode-se tambm usar o plural: o nmero tantos, a folhas tantas, a pginas 
tantas.

Cabe ainda lembrar que o numeral cardinal pode s vezes ser empregado para indicar nmero indeterminado:

Peo-lhe um minuto de sua ateno   (= alguns poucos minutos).

Contou-lhe o fato em duas palavras   (= poucas palavras).

F. tem mil e um defeitos   (por: muitos defeitos).

Ela anda com mil perguntas   (por: muitas perguntas).

Como vimos no emprego de todo, s vezes expresses como todos os dois dias, todas as trs semanas, etc. podem ser empregadas com o valor de dois em dois dias ou a cada 
dois dias, de trs em trs semanas ou a cada trs semanas.

A relao entre os nomes numerais, como diz Mattoso Cmara [MC.4, 178], e a arte de contar leva a que, na lngua escrita, se usem os algarismos em vez das palavras correspondentes, 
prtica vlida para os ordinais: 26 de fevereiro; reunio s 3 horas; rua X, 204; reinou 12 anos; captulo 4; seo 32.; 14. lugar, etc.

Assim, os numerais passam a ser indicados na lngua escrita por ideogramas [MC.4, 178].

Ordinais

Ordinais  So as palavras que denotam o nmero de ordem dos seres numa srie:

primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, etc.

Observao: ltimo, penltimo, antepenltimo, anterior, posterior, derradeiro, anteroposterior e outros tais, ainda que exprimam posio do ser, no tm correspondncia entre 
os numerais e por isso devem ser considerados meros adjetivos. 55

Ordinais e cardinais

Ordinais e cardinais  Os ordinais tm pouca frequncia na lngua comum, exceto os casos consagrados pela tradio e, em geral, at o nmero dez:

4. andar, 2. pavimento, 3. seo, 5. lugar, 100. aniversrio de fundao.

Todavia, no estilo administrativo e em outras variedades de estilo oficial, correm com mais frequncia os ordinais. Os casos mais comuns so os seguintes: at dcimo, quando 
se usam tambm os algarismos romanos (estes vo alm de dcimo). A partir de dcimo, os cardinais substituem os ordinais correspondentes:

a) na seriao dos monarcas e papas de mesmo nome:

Pedro I, Pedro II, D. Joo VI, Pio X, Leo XIII, Joo XXIII

b) na cronologia dos sculos:

sculo I, sculo VI, sculo X, sculo XXI

c) na indicao dos captulos de livros:

captulo I, captulo III, captulo IX, captulo XXXII

O cardinal substitui o ordinal na indicao de horas e em expresses designativas da idade de algum; neste caso, se o substantivo estiver no plural, o nmero tambm ir ao 
plural:

 uma hora   (=  a primeira hora).

 uma hora e meia.   

So duas horas   (=  a segunda hora).

Castro Alves faleceu aos 24 anos   (= no vigsimo quarto ano de vida).

Tambm o cardinal substitui o ordinal na designao dos dias do ms; se mencionado o substantivo dia antes do algarismo, fica no singular:

No dia 2 de dezembro nasceu Pedro II (por: no segundo dia de dezembro).

Se vier posposto ao algarismo, linguagem usada em documentos oficiais, o substantivo dia ser usado no plural:

Aos treze dias do ms de janeiro nasceu o primognito.

Aos 26 dias de agosto de 1944 foi fundada a Academia Brasileira de Filologia.

Para referir-se ao dia que inicia cada ms podemos usar tanto o cardinal quanto o ordinal:

No dia um de janeiro nasceu-lhe o segundo filho.

No dia primeiro de janeiro nasceu-lhe o segundo filho.

Na referncia a pginas ou captulos de livro, usam-se as preposies em ou a. Com em emprega-se a palavra pgina, folha ou captulo no singular seguida do cardinal, se for 
superior a dez, podendo at a usar-se o ordinal, anteposto ou posposto:

Na pgina 32 h um erro de reviso / na folha 32 / no captulo 32

Na pgina dois faltou uma vrgula / na folha 2 / no captulo dois

Na pgina segunda ou na segunda pgina / na folha segunda / no captulo segundo

Com a preposio a, usa-se o substantivo no plural:

A pginas 12       A folhas 12

Note-se que se pode dizer  pgina dois, a pginas duas, a pginas vinte e uma, a pginas tantas, na pgina dois, na pgina vinte e um, na pgina vigsima primeira. Em resumo: 
com pgina, no singular, o cardinal fica invarivel; com pginas, no plural, o cardinal se flexiona em gnero. O ordinal se flexiona sempre: pgina primeira, pginas vigsima 
primeira.

Multiplicativos

Multiplicativos  So as palavras que exprimem a multiplicidade dos seres. Os mais usados so:

duplo ou dobro, triplo ou trplice, qudruplo, quntuplo, sxtuplo, sptuplo, ctuplo, nnuplo, dcuplo, cntuplo.

Fracionrios

Fracionrios  So as palavras que indicam fraes dos seres:

meio, tero, quarto, quinto, sexto, stimo, oitavo, nono, dcimo, vigsimo, centsimo, milsimo, milionsimo, empregados como equivalentes de metade, tera parte, quarta parte, 
etc.

Observaes:

1.) O fracionrio meio, funcionando como adjunto, concorda com seu ncleo, explcito ou no: meio-dia e meia [hora]; duas e meia [hora].

2.) Em lugar de um milho (dois milhes, etc.) e meio pode-se, mais raramente, empregar um e meio milho, dois e meio milhes:

Para aquilatar a importncia dos tropeiros, basta lembrar que o Brasil tem cerca de oito e meio milhes de quilmetros quadrados de superfcie (...) [AAr apud SS.3, 106].

Para muitos fracionrios empregamos o cardinal seguido da palavra avos, extrado de oitavo, como se fora sufixo. Por hipertaxe passa a funcionar como uma palavra: onze avos, 
treze avos, quinze avos, etc.

Lista dos principais ordinais com o cardinal correspondente:

primeiro



um

segundo



dois

terceiro



trs

quarto



quatro

quinto



cinco

sexto



seis

stimo



sete

oitavo



oito

nono



nove

dcimo



dez

undcimo ou dcimo primeiro



onze

duodcimo ou dcimo segundo



doze (e no douze!)

dcimo terceiro



treze

dcimo quarto



quatorze, catorze

vigsimo



vinte

vigsimo primeiro



vinte e um

trigsimo



trinta

quadragsimo



quarenta

quinquagsimo



cinquenta

sexagsimo



sessenta

septuagsimo ou setuagsimo



setenta

octogsimo



oitenta

nonagsimo



noventa

centsimo



cem

ducentsimo



duzentos

trecentsimo ou tricentsimo



trezentos

quadringentsimo



quatrocentos

quingentsimo



quinhentos

seiscentsimo, sexcentsimo



seiscentos

septingentsimo, setingentsimo



setecentos

octingentsimo



oitocentos

nongentsimo, noningentsimo



novecentos

milsimo



mil

dez milsimos



dez mil

cem milsimos



cem mil

milionsimo



um milho

bilionsimo



um bilho

Observao: A tradio da lngua estabelece que, se o ordinal  de 2.000 em diante, o primeiro numeral usado  cardinal: 2345.  duas milsima trecentsima quadragsima quinta. 
A lngua moderna, entretanto, parece preferir o primeiro numeral como ordinal, se o nmero  redondo: dcimo milsimo aniversrio.

6  Verbo

Consideraes gerais  Entende-se por verbo a unidade de significado categorial que se caracteriza por ser um molde pelo qual organiza o falar seu significado lexical.

A  A distino de verbos nocionais e relacionais

A tradicional distino de duas subclasses em verbos nocionais e verbos relacionais, que est na base da distino de predicado verbal e predicado nominal, tem sido posta 
em questionamento por notveis linguistas modernos. Esta distino  vlida sob certo aspecto semntico, mas no no que se refere  sintaxe; o ncleo da orao  sempre o 
verbo, ainda que se trate de um verbo de significado lxico muito amplo e vago (costuma-se dizer vazio, o que justifica a denominao tradicional de cpula  marca gramatical 
de identidade  e a classificao relacional de Said Ali). O verbo ser e o reduzido grupo de verbos que integram a constituio do chamado predicado nominal em nada diferem 
dos outros verbos: todos possuem os morfemas de pessoa e nmero que com o sujeito gramatical do fundamento  orao [AL.1, 1994, 302]. Diz com muita justeza Benveniste 
que uma orao de verbo ser  uma orao verbal, paralela a todas as oraes verbais [EBv.1, 169].

B  Categorias verbais segundo Roman Jakobson

Para esta organizao, alm de ser pensado como significado verbal, o verbo se combina, entre outros, com instrumentos gramaticais (morfemas) de tempo, de modo, de pessoa, 
de nmero.

Assim, trabalhar e o trabalho so palavras que tm o mesmo significado lexical, mas diferentes moldes, diferentes significados categoriais, embora se deva ter presente que 
este no  o simples produto da combinao do significado lexical com o significado instrumental. Por isso, como ensina Coseriu, um lexema no  verbo porque se combina, por 
exemplo, com um morfema de tempo e pessoa, mas, ao contrrio, combina-se com esses morfemas para ser verbo, e porque est pensado com significao verbal [ECs.7, 70].

Um estudo coerente do verbo requer o estabelecimento do sistema de categorias verbais, isto , tipos ou funes da forma lxicas mediante as quais se estabelecem as oposies 
funcionais numa lngua.

Quando se usam em portugus as formas:

canto      cantas      canta

vejo        vs           v

parto      partes      parte

estabelecem-se oposies da mesma espcie que afetam o conceito de pessoa.

Quando se usam as formas:

canto      cantamos,

estamos diante de uma mesma pessoa (primeira pessoa) e a oposio afeta outro conceito, o de nmero.

E quando se usam as formas:

canto      cante

temos a mesma pessoa e o mesmo nmero, mas no a mesma categoria de modo.

As oposies podem ser simples, como as dos exemplos at aqui, isto , quando, em cada caso, s ocorre uma s categoria, um s critrio de diferena de contedo, ou complexas, 
como:

canto      canteis

em que a diferenciao de contedo se d em trs categorias: pessoa (1. e 2.), nmero (singular e plural) e modo (indicativo e subjuntivo).

No verbo portugus, h categorias que sempre esto ligadas: no se separa a pessoa do nmero nem o tempo do modo; isto ocorre em grande parte, seno totalmente, com 
o tempo e o aspecto, como veremos depois.

O linguista Roman Jakobson elaborou um sistema geral das categorias verbais que  considerado o mais coerente e claro at agora apresentado. Ser aqui tomado em considerao, 
ainda que nem sempre se mostre adequado para a anlise do sistema verbal romnico, em especial para o portugus que, para Coseriu,  o mais rico e complexo em comparao com 
as lnguas da mesma famlia.

Tomando em considerao os atos de fala relacionados com as funes verbais, distingue Jakobson:

a) o ato de fala em si mesmo (F)

b) o contedo do ato de fala, isto , o comunicado (C)

c) o acontecimento, isto , tanto o ato de fala quanto o comunicado (A)

d) os participantes neste acontecimento (P)

Desta relao se extraem quatro conceitos fundamentais:

a) um acontecimento comunicado (AC)

b) o prprio acontecimento do falar (AF)

c) os participantes no acontecimento comunicado (PC)

d) os participantes no acontecimento da fala (PF)

As categorias verbais podem afetar um s dos elementos b) e c) ou referir-se a mais de um elemento; no primeiro caso dizem-se caracterizadores (designadores na nomenclatura 
de Jakobson), e no segundo determinantes de relao (conectores, para Jakobson).

Assim, a categoria de nmero  caracterizadora, porque afeta exclusivamente o nmero de participantes no acontecimento comunicado; j o passivo  determinante de uma relao, 
porque enquadra uma relao entre o acontecimento comunicado e os participantes: sou escutado encerra a relao entre minha pessoa e o acontecimento de escutar.

Por outro lado, as categorias caracterizadoras podem s-lo por qualificao ou por quantificao dos elementos; a de gnero  qualificadora, e a de nmero, quantificadora.

Vistas por outro prisma, as categorias podem estar determinadas linguisticamente ou ser determinadas pelo discurso. Assim, o plural, que  uma categoria determinada pela lngua, 
pode ser definido sem nenhuma relao com um ato momentneo da fala, enquanto no podemos definir do mesmo modo o eu, porque eu  sempre a pessoa que fala, uma categoria 
definida pelo discurso.

Com base nestas informaes, podemos aproveitar o seguinte quadro sintico das categorias gerais do sistema verbal, apresentado por Coseriu:

Explicao das categorias verbais

Gnero (PC)  Refere-se aos participantes no acontecimento comunicado e da adquire capacidade qualificadora. Em geral, no necessita marca especial. No portugus, aparece 
apenas na voz passiva (o livro foi escrito / a novela foi escrita). J no latim,  um morfema tpico do particpio; tambm se manifestava em construes com objeto direto 
no portugus at entre os sculos XVII e XVIII, quando desapareceu definitivamente ([Ins de Castro] tem pisada a areia ardente, Cames). Vigora ainda hoje no francs e no 
italiano (je lai crite [la lettre], lho scritta).

Nmero (PC)  Refere-se aos participantes no acontecimento comunicado e da adquire capacidade quantificadora. No portugus e demais lnguas romnicas, est sempre ligada 
 pessoa no verbo flexionado ou finito e, em parte, tambm na forma verbal infinita (port. o diz-lo eu, esp. el decirlo yo  o fato de que eu o diga). Aparece sem pessoa 
apenas em uma forma infinita, novamente o particpio (visto  vistos).

Pessoa (PC/PF)  Determina a relao dos participantes no acontecimento comunicado com os participantes no ato de fala. Primeira pessoa: coincidncia do participante no acontecimento 
comunicado (PC) com o falante (s em parte tambm, quando se trata do plural); segunda pessoa: coincidncia PC com o ouvinte; terceira pessoa: PC no coincide com nenhuma 
das duas pessoas.

Estado (AC)  Afeta a qualidade lgica do sucesso comunicado (afirmativo, negativo, interrogativo, negativo-interrogativo). No portugus e demais lnguas romnicas, o estado 
 mais uma qualidade da orao; mas, s vezes, exige tambm uma forma verbal especial no mbito da sintaxe (inverso), ou tambm no mbito da morfologia (imperativo  imperativo 
negado: canta/no cantar, canta/no cantes; gerndio  gerndio negado; particpio  particpio negado).

Aspecto (AC)  Segundo Jakobson, assinala a ao levada at o fim, isto , como conclusa (perfeita) ou inconclusa (imperfeita). Certas espcies de ao, como durativa, incoativa 
(ingressiva), terminativa, iterativa, etc., so apenas subdivises desta categoria.

Tempo ou nvel temporal (AC/AF)  Assinala a relao temporal do acontecimento comunicado com o momento do ato de fala; o presente encerra este momento, o passado  anterior, 
e o futuro ocorrer depois deste momento:

Voz ou ditese (PC/AC)  Determina a relao entre o acontecimento comunicado e seus participantes. O primeiro participante lgico, o sujeito, pode ser agente do acontecimento 
(voz ativa) ou objeto do acontecer (voz passiva), ou agente e objeto ao mesmo tempo (voz mdia, includo o reflexivo):

Modo (PC/AC/PF)  Assinala a posio do falante com respeito  relao entre a ao verbal e seu agente ou fim, isto , o que o falante pensa dessa relao. O falante pode 
considerar a ao como algo feito, como verossmil  como um fato incerto , como condicionada, como desejada pelo agente, como um ato que se exige do agente, etc., e assim 
se originam os modos: indicativo, subjuntivo, condicional, optativo, imperativo.

Taxis (AC/AC)  Assinala a posio de um acontecimento em relao com outro sem considerao do ato de fala. Nas lnguas romnicas  encontrada em certas construes impessoais 
com o gerndio, com o infinitivo ou com o particpio (comer cantando, comer depois de ter cantado, etc.). No se trata aqui de nveis temporais, mas de simples srie de aes, 
j que o infinitivo no encerra relao com o ato de fala.

Evidncia (AC/ACF/AF)  Assinala que o falante se refere a outro ato de fala  a uma informao indireta  por meio do qual ele experimenta o acontecimento como no vivido 
por ele mesmo (Pedro deve ter falado com Joo). No portugus e demais lnguas romnicas,  muito empregado nestes casos o modus conditionalis (teria partido = eu no o asseguro, 
ouvi de outra pessoa) e s vezes o futuro (sero duas horas).

C  Tempo e aspecto segundo Eugenio Coseriu

Como assinalamos atrs, as categorias de tempo e aspecto costumam andar geralmente ligadas no portugus e nas demais lnguas romnicas, quer se trate de formas simples, 
quer de formas perifrsticas, tambm chamadas locues verbais. A pura definio temporal e o tempo aludem  posio da ao verbal no percurso; a determinao aspectual alude 
 maneira de considerar a ao verbal no tempo. Coseriu apresenta uma clara e coerente proposta para a interpretao do verbo romnico em relao com as categorias de tempo 
e aspecto com fundamento no sistema das subcategorias verbais.

Para tanto, distingue as seguintes subcategorias:

1) Nvel de tempo ou simplesmente nvel  H uma estrutura temporal dupla no verbo romnico: um plano que coincide com a linha do tempo mediante o presente (nvel atual) e 
outra paralela onde se situam as aes que no dizem respeito com essa linha do tempo e que representam outra ao (nvel inatual). O centro do nvel atual  o presente e 
do nvel inatual  o imperfeito:

Presente                 nvel atual

Imperfeito              nvel inatual

Vale lembrar que nem sempre, como geralmente se supe, o inatual com relao ao presente  interpretado como pertencente ao passado, ou que o imperfeito se enquadra como algo 
inseguro, condicionado, como algo distante da ao atual, como nas expresses de polidez e em oraes principais presas a condicionais:

Eu queria pedir-lhe um favor.

Se soubesse, te dava a resposta.

2) Perspectiva primria  Enquadra a posio do falante em relao com a ao verbal. O falante pode ter a ao verbal como paralela a si mesmo, antes deste ponto ou depois 
dele. Por isso, a perspectiva primria pode ser paralela, retrospectiva ou prospectiva, segundo os espaos de tempo:

Esta estrutura est confirmada pelas possveis neutralizaes: fao pode substituir as formas fiz e farei; fazia, as formas fizera e faria.

De uma s vez a perspectiva primria define dois aspectos que emergem suplementarmente como funo anexa da perspectiva:

a) na paralela tem-se uma ao em curso: cursiva.

b) na no paralela (retrospectiva ou prospectiva), uma ao como um todo, fora de curso: complexiva.

Da se conclui que o presente e o imperfeito so cursivos e que as outras formas so complexivas.

Como o curso admite certa durao, os verbos pontuais (isto , aqueles que se caracterizam pela ausncia da durao no desenvolvimento do processo) como encontrar, chegar, 
etc.), aparecem no presente como formas de neutralizao do passado ou do futuro ou, ento, significam uma ao repetida (eu encontro, ele chega amanh).

3) Perspectiva secundria  Consiste no fato de que cada espao temporal delimitado pela perspectiva primria pode ser disposto outra vez segundo o mesmo princpio:

Presente:

tenho feito         fao      vou fazer

tinha feito          fazia     ia fazer

Passado:

tive feito            fiz          fui fazer

tivera feito        fizera   fora fazer

Futuro:

terei feito          farei      irei fazer

teria feito          faria      iria fazer

4) Durao  Esta categoria afeta o lapso em que se d a ao verbal. A ao pode ser durativa, momentnea ou intermitente (mistura de ambas, isto , uma ao formada por 
atos breves):

Em portugus e nas demais lnguas romnicas, no tem esta categoria uma forma de expresso prpria; est determinada lexicalmente ou aparece como categoria anexa  perspectiva.

5) Repetio  Impe-se distinguir a categoria da repetio da de durao: a ao pode ser nica (semelfctiva ) ou ao repetida (frequentativa ...): singular ou repetio 
indeterminada.  em portugus uma categoria sem forma de expresso prpria. S a repetio nica ( ) dispe de perfrases, como volto a dizer, ou procedimentos de formao 
de palavras, como redizer.

6) Concluso  Uma ao pode ser considerada conclusa, inconclusa ou sem trao de concluso. O portugus no tem neste terreno, como tambm suas irms romnicas, nenhum aspecto 
como categoria. Todavia, noutro sentido, a concluso pode ser subjetiva ou objetiva, na dependncia de ter o sujeito levado a ao a um final objetivo ou no. Coseriu chama 
terminativa a concluso subjetiva, e completiva a objetiva.

No portugus, s a concluso subjetiva  expressa por formas verbais; a objetiva fica assinalada pelo contexto e s vezes pode ser expressa junto  voz verbal.

7) Resultado  Uma ao pode ser assinalada como com resultado (resultativa) ou como sem resultado (no resultativa). O resultado pode ser subjetivo (se afeta o sujeito 
[agente] e representa uma reao efetiva) ou objetivo (se afeta o objeto e representa um produto, produtiva).

No portugus, o resultado efetivo se expressa mediante estar + particpio: est escrito; o resultado produtivo, por ter + particpio em concordncia com o objeto, porque se 
aplica na perspectiva secundria [perfeito composto]: tenho escritos dois livros.

8) Viso   a categoria segundo a qual o falante pode considerar a ao verbal em seu todo ou parcialmente, em fragmentos, entre dois pontos de seu curso.

Na viso parcializante, podem-se diferenar diversas possibilidades:

Explicitando esta viso angular

Pelo esquema, v-se a ao entre dois pontos (A,B); ambos podem coincidir em um (C), isto , podem ser pontos de comeo e trmino de ao, o que no se expressa na forma do 
verbo e deve ser dito complementariamente: estive lendo o dia todo. Explicita-se em portugus com estar + gerndio (estou fazendo) ou estar a + infinitivo (estou a fazer).

Viso comitativa  Trata-se do acompanhamento da ao verbal em diversos momentos de seu curso entre A e B, e se expressa em portugus por andar + gerndio (ando fazendo) 
ou andar a + infinitivo (ando a fazer).

A expresso pode ser ainda assinalada com o auxlio do adjetivo e particpio, como em andar enfermo, andar desesperado.

Viso prospectiva  Aqui se v a ao entre o ponto C e um ponto distante, indefinido; em portugus h uma forma prpria de expresso: ir + gerndio (vou fazendo).

Viso retrospectiva  Aqui se v a ao a partir do ponto indefinido anteriormente mencionado em direo ao ponto C, que coincide com o momento de observao da ao. Tambm 
aqui a ao  progressiva, e se expressa em portugus mediante vir + gerndio (venho fazendo).

Viso continuativa  Trata-se de uma combinao de viso retrospectiva e prospectiva, que se expressa em portugus pelas perfrases: seguir + gerndio (sigo fazendo) ou continuar 
+ gerndio (continuo fazendo).

Viso global  Aqui se acentua o conjunto da ao e a assinala expressamente como parcializante. A rigor, tal funo poderia ser dispensada, j que pode ser desempenhada por 
membros neutros da oposio. Da funcionarem as formas simples como membros neutrais:

estou lendo                      leio

parcializante                    neutral

                                        (no global parcializante)

Todavia, h expresses para acentuar o global, embora menos frequentes que as parcializantes. Esto representadas por perfrases aditivas com tomar, pegar, agarrar: pego e 
escrevo, agarro e escrevo, tomo e escrevo.

Para acentuar a globalidade, acompanha-se de todas as significaes enfticas do modo de falar, como de fato, com efeito, rpido, inesperado, surpreendente, decidido, 
terminantemente, pois pode ocorrer a determinao expressa como no cursiva ou ainda como no parcializante, como redundante.

De forma esquemtica, temos:

9) Fase  Trata-se aqui da relao entre o momento da observao e o grau de desenvolvimento da ao verbal observada.

Em princpio, podem-se distinguir as seguintes fases:

Fase iminente (ingressiva)  Trata-se da ao no seu comeo. Indica-se com perfrases verbais, em geral, com o verbo estar: estar para (por) + infinitivo: estou para (por) 
escrever.

Fase inceptiva  Marca o ponto inicial da ao. Alm da combinao lxica pura comear a, indica-se por vrias perfrases verbais pondo nfase ora na velocidade, ora no repentino 
da ao:

pr-se a + infinitivo: ponho-me a escrever

meter-se a + infinitivo: meto-me a escrever

pegar a (de) + infinitivo: pego a (de) escrever

sair + gerndio: saio dizendo

E tambm com construes aditivas: ele agarrou e foi-se embora.

Esta fase  a mais rica em formas e matizes.

Fase progressiva  Considera a ao em seu desenvolvimento; expressa-se mediante ir + gerndio (vou dizendo).

Fase continuativa  Considera a ao na zona medial de seu desenvolvimento; expressa-se por seguir + gerndio ou por combinaes lxicas (sigo escrevendo, continuo a) ou conjuntamente 
com a viso (estou dizendo).

Fase regressiva e conclusiva  Considera a ao no seu trmino ou em sua fase final. Expressa-se exclusivamente com perfrases verbais, sem nenhum procedimento gramatical 
especial: terminar de + infinitivo (termino de escrever).

Fase egressiva  Considera a ao aps seu trmino; expressa-se por acabar de + infinitivo (acabo de escrever).

Sincretismo: viso e fase  Pode ocorrer sincretismo de viso e fase na fase progressiva, quando o progressivo aparece como determinao secundria da viso: correlaciona-se 
com a viso comitativa, o que vale dizer dinmica (ando fazendo), um progressivo retrospectivo (venho fazendo  de algum tempo at agora), um progressivo prospectivo (vou 
fazendo  desde agora para o futuro), e um progressivo tanto retrospectivo quanto prospectivo, isto , uma continuativa (sigo fazendo).

Concluso

Concluindo, para Coseriu so as seguintes as subcategorias que devem ser consideradas no exame do tempo e do aspecto do sistema verbal portugus e romnico, levando-se ainda 
em conta que, entre estas categorias, h diferenas formais que aparecem em oposies funcionais:

 o nvel temporal

 a perspectiva primria e secundria

 a viso

 a fase

 o resultado (parcial)

Em relao com outras categorias de sentido conexo, aparecem:

 a durao

 a repetio

 a concluso (que no so mais do que significaes laterais de perspectiva, da viso ou da fase, alm de poderem ser constantes, como no caso da concluso na perspectiva 
secundria).

Destas categorias, o nvel do tempo e a perspectiva primria devem ser expressas e no podem faltar em cada forma verbal portuguesa. J as outras categorias podem faltar ou 
no serem expressas; ficam, assim, indeterminadas, neutrais as formas verbais em relao a essas categorias, ou podem juntar-se at duas.  o que ocorre com estive fazendo, 
que expressa, alm do nvel do tempo e da perspectiva primria, tambm a viso. Tenho estado fazendo expressa nvel temporal, perspectiva primria, perspectiva secundria 
e viso. J tenho estado vindo fazendo, tinha-se estado pondo a fazer, embora teoricamente possveis, no so correntes. A ltima forma expressaria formalmente cinco categorias: 
nvel temporal (inatual), perspectiva primria paralela (por causa da forma tinha), perspectiva secundria retrospectiva (por causa de ter + particpio), viso parcial (por 
estar + gerndio) e fase inceptiva (por pr-se a + infinitivo).

Exemplo para a descrio funcional  Para a descrio funcional de uma forma verbal que leve em conta sua posio no sistema a que pertence, temos de enquadr-la em todas 
estas categorias. Assim, em relao  forma do portugus fiz poderamos dizer dela:

1) Nvel de tempo:  atual

2) Perspectiva:       primria, retrospectiva, aspecto complexivo

3) Viso:                 global (neutral)

4) Fase:                  neutral

5) Resultado:          no resultativa (neutral)

6) Concluso:         indefinida

J de tinha estado fazendo:

1) Nvel de tempo:  inatual

2) Perspectiva:       primria, paralela, aspecto cursivo;

                               secundria, retrospectiva, aspecto complexivo

3) Viso:                 parcial

4) Fase:                  continuativa

5) Resultado:          no resultativa

6) Concluso:         no terminativa

Pelo visto, pode-se concluir que o sistema verbal do portugus  e romnico  representa um edifcio de trs andares, que se ligam entre si, porque,  importante frisar, 
cada forma verbal que aparece inserida numa definio vale para todas as outras oposies como membro sem marca (neutral, extensivo).

Estes trs andares apresentam:

a) no primeiro, temos um sistema fundamental que alude  configurao dos espaos de tempo: s categorias de nvel de tempo e de perspectiva primria. Formalmente correspondem 
a este sistema fundamental as formas simples de tempo.

b) no segundo, um sistema secundrio que alude  determinao do ponto temporal dentro dos espaos de tempo:  categoria da perspectiva secundria. A este sistema correspondem 
formalmente as formas perifrsticas de ter (haver) + particpio e verbo auxiliar (de preferncia com ir) + infinitivo.

c) no terceiro, um sistema tercirio que alude  definio de valores aspectivos especiais para cada ponto de tempo: s categorias de viso, fase e, em parte, resultado. Formalmente, 
este sistema coincide com outras diversas locues verbais.

Cantaremos  uma forma verbal, porque exprime uma ao ou processo (a de cantar), exercida (referncia  voz) pela 1. pessoa (referncia  pessoa) do plural (referncia ao 
nmero), do presente (referncia ao tempo) do indicativo (referncia ao modo).

As pessoas do verbo

As pessoas do verbo  Geralmente as formas verbais indicam as trs pessoas do discurso, para o singular e o plural:

1. pessoa do singular:     eu canto

2. pessoa do singular:     tu cantas

3. pessoa do singular:     ele canta

1. pessoa do plural:         ns cantamos

2. pessoa do plural:         vs cantais

3. pessoa do plural:         eles cantam

Os tempos do verbo

Os tempos do verbo  So:

a) presente  em referncia a fatos que se passam ou se estendem ao momento em que falamos: eu canto;

b) pretrito  em referncia a fatos anteriores ao momento em que falamos e subdividido em imperfeito, perfeito e mais-que-perfeito:

cantava (imperfeito),   cantei (perfeito)   e   cantara (mais-que-perfeito);

c) futuro  em referncia a fatos ainda no realizados e subdividido em futuro do presente e futuro do pretrito:

cantarei (futuro do presente),   cantaria (futuro do pretrito),

que implica tambm a modalidade condicional (cf. abaixo).

Os modos do verbo

Os modos do verbo  So, conforme a posio do falante em face da relao entre a ao verbal e seu agente:

a) indicativo  em referncia a fatos como verossmeis ou tidos como tais: canto, cantei, cantava, cantarei

b) subjuntivo (conjuntivo)  em referncia a fatos incertos: talvez cante, se cantasse

c) condicional  em referncia a fatos dependentes de certa condio: cantaria

d) optativo  em relao a ao como desejada pelo agente:
E viva eu c na terra sempre triste.

e) imperativo  em relao a um ato que se exige do agente:

cantai

As vozes do verbo

As vozes do verbo  So:

a) Ativa: forma em que o verbo se apresenta para normalmente indicar que a pessoa a que se refere  o agente da ao. A pessoa diz-se, neste caso, agente da ao verbal:

Eu escrevo a carta,

Tu visitaste o primo,

Ns plantaremos a rvore.

b) Passiva: forma verbal que indica que a pessoa  o objeto da ao verbal. A pessoa, neste caso, diz-se paciente da ao verbal:

A carta  escrita por mim,

O primo foi visitado por ti,

A rvore ser plantada por ns.

A passiva  formada com um dos verbos ser, estar, ficar seguido de particpio.

Voz passiva e passividade

Voz passiva e passividade   preciso no confundir voz passiva e passividade. Voz  a forma especial em que se apresenta o verbo para indicar que a pessoa recebe a ao:

Ele foi visitado pelos amigos.

Alugam-se bicicletas.

Passividade  o fato de a pessoa receber a ao verbal. A passividade pode traduzir-se, alm da voz passiva, pela ativa, se o verbo tiver sentido passivo:

Os criminosos recebem o merecido castigo.

Portanto, nem sempre a passividade corresponde  voz passiva56.

c) Reflexiva: forma verbal que indica que a ao verbal no passa a outro ser (negao da transitividade), podendo reverter-se ao prprio agente (sentido reflexivo propriamente 
dito), atuar reciprocamente entre mais de um agente (reflexivo recproco), sentido de passividade com se e sentido de impessoalidade, conforme as interpretaes favorecidas 
pelo contexto, formada de verbo seguido do pronome oblquo de pessoa igual  que o verbo se refere:

eu me visto, tu te feriste, ele se enfeita.

O verbo empregado na forma reflexiva propriamente dita diz-se pronominal.

A voz passiva difere da reflexiva de sentido passivo em dois aspectos:

1) pode apresentar o verbo em qualquer pessoa, enquanto a reflexiva s se constri na 3. pessoa com o pronome se (conhecido tambm pela denominao de apassivador):

Eu fui visitado pelos meus parentes.

Ns fomos visitados pelos parentes.

2) pode seguir-se de uma expresso que denota o agente da passiva, enquanto a reflexiva, no portugus contemporneo, dispensa:

Eu fui visitado pelos parentes.

Aluga-se a casa (no se diz: aluga-se a casa pelo proprietrio)

Todavia, h casos em que se explicita o agente, como no seguinte exemplo de Drummond:

No sei se devemos exaltar Pel por haver conseguido tanto, ou se nosso louvor deve antes ser dirigido ao gol em si, que se deixou fazer por Pel, recusando-se a tantos outros 
[CDa.1, 130].

Observaes:

1.) Em construes do tipo batizei-me, chamas-te Jos, h professores que veem passiva pronominal com pronomes oblquos de 1. e 2. pessoas. Outros, porm, no pensam assim, 
e interpretam o fato como um emprego da voz reflexiva, indicando uma atitude de aceitao consciente do nome dado ou do batismo recebido [MC.4, 36].

2.) Em geral, o pronome tono que acompanha a voz reflexiva propriamente dita funciona como objeto direto, embora raras vezes possa exercer a funo de indireto.

3.) Com verbos como atrever-se, indignar-se, queixar-se, ufanar-se, admirar-se, no se percebe mais a ao rigorosamente reflexa, mas a indicao de que a pessoa a que o 
verbo se refere est vivamente afetada. Com os verbos de movimento ou atitudes da pessoa em relao ao seu prprio corpo como ir-se, partir-se, e outros como servir-se, 
onde o pronome oblquo empresta maior expressividade  orao, tambm no se expressa a ao reflexa. Alguns gramticos chamam ao pronome oblquo, nestas ltimas circunstncias, 
pronome de realce.

4.) Muitos verbos normalmente no pronominais se acompanham de pronome tono para exprimirem aspectos estilsticos, como a mudana lenta do estado ou de processo lento:

agonizar-se, delirar-se, desmaiar-se, estalar-se, envelhecer-se, palpitar-se, peregrinar-se, repousar-se, tresnoitar-se. [APa.1, 54-57]

5.) Inversamente, elimina-se o pronome de muitos verbos que o exigem na lngua padro:

aquecer, chamar (ter nome), mudar (transferir-se), gripar, machucar, formar (Eu formei em Medicina), classificar (Ele classificou em 3. lugar), etc. (3Obs.).

Formas nominais do verbo

Formas nominais do verbo  Assim se chamam o infinitivo, o particpio e o gerndio, porque, ao lado do seu valor verbal, podem desempenhar funo de nomes. O infinitivo pode 
ter funo de substantivo (recordar  viver = a recordao  vida); o particpio pode valer por um adjetivo (homem sabido), e o gerndio por um advrbio ou adjetivo (amanhecendo, 
sairemos = logo pela manh sairemos; gua fervendo = gua fervente). Nesta funo adjetiva, o gerndio tem sido apontado como galicismo; porm,  antigo na lngua este emprego, 
quando ocupou o lugar vago deixado pelo particpio presente, que desapareceu do quadro verbal portugus para ingressar no quadro nominal.

As formas nominais do verbo, com exceo do infinitivo, no definem as pessoas do discurso e, por isso, so ainda conhecidas por formas infinitas. Possuem, quando possveis, 
desinncias nominais idnticas s que caracterizam a flexo dos nomes (gnero e nmero):

O infinitivo portugus, ao lado da forma infinita, isto , sem manifestao explcita das pessoas do discurso, possui outra flexionada:

Infinito sem flexo

Infinito flexionado

Cantar

Cantar eu

Cantares tu

Cantar ele

Cantarmos ns

Cantardes vs

Cantarem eles

As formas nominais do verbo se derivam do tema (radical + vogal temtica) acrescido das desinncias:

a) -r: para o infinitivo: canta-r, vende-r, parti-r

b) -do (ou -to, -so) para o particpio: canta-do, vendi-do, parti-do, acei-to, revol-to

c) -ndo: para o gerndio: canta-ndo, vende-ndo, parti-ndo

Observao: O verbo vir (e derivados) forma tambm o seu particpio com a desinncia -do; mas, pelo desaparecimento da vogal temtica i, apresenta-se igual ao gerndio: vindo 
(por vin-i-do) e vindo (vi-ndo).

Conjugar um verbo

Conjugar um verbo   diz-lo, de acordo com um sistema determinado, um paradigma, em todas as suas formas nas diversas pessoas, nmeros, tempos, modos e vozes.

Em portugus temos trs conjugaes caracterizadas pela vogal temtica:

1. conjugao  vogal temtica a: amar, falar, tirar.

2. conjugao  vogal temtica e: temer, vender, varrer.

3. conjugao  vogal temtica i: partir, ferir, servir.

Observaes:

1.) No existe a 4. conjugao; pr  um verbo da 2. conjugao cuja vogal temtica desapareceu no infinitivo, mas permanece em outras formas do verbo. Veja-se a correspondncia: 
vend-e-s / p-e-s.

2.) Na histria da lngua, verbos h que mudaram de conjugao, mas deixaram vestgios em outras formas no verbais: cair (antigo caer), com vestgio no adjetivo cadente 
(e no cadinte, como ouvinte). Alencar usa rangir por ranger, e hoje viger (cf. vigente) tem o concorrente vigir que, apesar de muito usado, no  aceito na norma exemplar: 
A lei deve vigir (por viger).

Verbos regulares, irregulares e anmalos

Verbos regulares, irregulares e anmalos  Diz-se que um verbo  regular quando se apresenta de acordo com o modelo de sua conjugao: cantar, vender, partir. No verbo regular 
tambm o radical no varia. Tem-se o radical de um verbo privando-o, no infinito sem flexo, das terminaes -ar, -er, -ir:

am-ar, fal-ar, tir-ar, tem-er, vend-er, varr-er, part-ir, fer-ir, serv-ir.

Irregular  o verbo que, em algumas formas, apresenta modificao no radical ou na flexo, afastando-se do modelo da conjugao a que pertence:

a) variao no radical em comparao com o infinitivo:

ouvir  ouo; dizer  digo; perder  perco;

b) variao na flexo, em relao ao modelo: estou (veja-se canto), ests (veja-se cantas, um tnico e outro tono).

Os irregulares se dividem em fracos e fortes. Fracos so aqueles cujo radical do infinitivo no se modifica no pretrito: sentir-senti; perder-perdi.

Fortes so aqueles cujo radical do infinitivo se modifica no pretrito perfeito: caber  coube; fazer  fiz.

Os irregulares fracos apresentam formas iguais no infinitivo flexionado e futuro do subjuntivo:

Infinitivo

Futuro do Subjuntivo

Sentir

Sentir

Sentires

Sentires

Sentir

Sentir

Sentirmos

Sentirmos

Sentirdes

Sentirdes

Sentirem

Sentirem

Os irregulares fortes no apresentam identidade de formas entre o infinitivo flexionado e o futuro do subjuntivo:

Infinitivo flexionado

Futuro do Subjuntivo

Caber

Couber

Caberes

Couberes

Caber, etc.

Couber, etc.

Observao: No entram no rol dos verbos irregulares aqueles que, para conservar a pronncia, tm de sofrer variao de grafia:

carregar  carregue  carreguei  carregues

ficar  fico  fiquei  fique

No h portanto os irregulares grficos.

Anmalo  o verbo irregular que apresenta, na sua conjugao, radicais primrios diferentes: ser (rene o concurso de dois radicais, os verbos latinos sedere e esse) e ir 
(rene o concurso de trs radicais, os verbos latinos ire, vadere e esse).

Outros autores consideram anmalo o verbo cujo radical sofre alteraes que o no podem enquadrar em classificao alguma: dar, estar, ter, haver, ser, poder, ir, vir, ver, 
caber, dizer, saber, pr, etc.

Verbos defectivos e abundantes

Verbos defectivos e abundantes  Defectivo  o verbo que, na sua conjugao, no apresenta todas as formas: colorir, precaver-se, reaver, etc.  preciso no confundi-lo com 
os verbos chamados impessoais e unipessoais, que, como veremos, s se usam nas terceiras pessoas.

A defectividade verbal  devida a vrias razes, entre as quais a eufonia e a significao. Entretanto, a defectividade de certos verbos no se assenta em bases morfolgicas, 
mas em razes do uso e da norma vigentes em certos momentos da histria da lngua. Da certa disparidade que por vezes se encontra na relao das gramticas. Se a tradio 
da lngua dispensa, por dissonante, a 1. pessoa do singular do verbo colorir (coloro), no se mostra igualmente exigente com a 1. pessoa do singular do verbo colorar. Por 
outro lado, o critrio de eufonia pode variar com o tempo e com o gosto dos escritores; da aparecer de vez em quando uma forma verbal que a gramtica diz no ser usada.  
na 3. conj. que se encontra a maioria dos verbos defectivos.

Quase sempre faltam as formas rizotnicas dos verbos defectivos. Suprimos, quando necessrio, as lacunas de um defectivo empregando um sinnimo (derivado ou no do defectivo): 
Eu recupero (para reaver); eu redimo (para remir).

H os seguintes grupos de verbos defectivos, em portugus:

a) os que no se conjugam nas pessoas em que depois do radical aparecem a ou o:

banir, brandir, carpir, colorir, delir, explodir, fremer (ou fremir), haurir, ruir, exaurir, abolir, demolir, puir, delinquir, fulgir, feder, aturdir, bramir, jungir, esculpir, 
extorquir, impingir, puir, retorquir, soer, espargir.

Tais verbos tambm no se empregam no pres. do subjuntivo, imperativo negativo, e no imperativo afirmativo s apresentam as segundas pessoas do singular e plural.

b) os que se usam unicamente nas formas em que depois do radical vem i:

adir, aguerrir, emolir, empedernir, esbaforir, espavorir, exinanir, falir, fornir, remir, ressequir, revelir, vagir, florir, renhir, garrir, inanir, ressarcir, transir, combalir.57

c) oferecem particularidades especiais:

1  precaver(-se) e reaver. No pres. ind. s tm as duas primeiras pessoas do plural: precavemos, precaveis; reavemos, reaveis.

Imperativo: precavei, reavei.

Faltam-lhes o imperat. neg. e pres. do subj. No restante, conjugam-se normalmente.

2  adequar, antiquar: cabem-lhes as mesmas observaes feitas ao grupo anterior.

3  grassar e rever (= destilar): s se usam nas terceiras pessoas.

Observaes:

1.) Muitos verbos apontados outrora como defectivos so hoje conjugados integralmente: agir, advir, compelir, desmedir-se, discernir, embair, emergir, imergir, fruir, polir, 
prazer, submergir. Ressarcir (cf. b) e refulgir (que alguns gramticos s mandam conjugar nas formas em que o radical  seguido de e ou i) tendem a ser empregados como verbos 
completos.

2.) Os verbos que designam vozes de animais geralmente s aparecem nas terceiras pess. do sing. e pl., em virtude de sua significao, e so indevidamente arrolados como 
defectivos. Melhor cham-los, quando no seu significado prprio, unipessoais.

3.) Tambm so indevidamente considerados defectivos os verbos impessoais (pois no se referem a sujeito), que s so empregados na terceira pess. sing.: Chove muito. Relampeja. 
Quando em sentido figurado, os verbos desta observao, como os da anterior, conjugam-se em quaisquer pessoas: Chovam as bnos do cu.

Abundante  o verbo que apresenta duas ou trs formas de igual valor e funo: havemos e hemos; constri e construi; pagado e pago; nascido, nato, nado (pouco usado).

Normalmente esta abundncia de forma ocorre no particpio.

Os principais verbos que gozam deste privilgio, no portugus moderno, so:

a) comprazer e descomprazer:

Pret. perf. ind.: comprazi, comprazeste, comprazeu, etc. ou comprouve, comprouveste, comprouve, etc.

M.-q-perf. ind.: comprazera, comprazeras, comprazera, etc. ou comprouvera, comprouveras, comprouvera, etc.

Imperf. subj.: comprazesse, comprazesses, comprazesse, etc. ou comprouvesse, comprouvesses, comprouvesse, etc.

Fut. subj.: comprazer, comprazeres, comprazer, etc. ou comprouver, comprouveres, comprouver, etc.

b) construir e seu grupo:

Pres. ind.: construo, construis (ou constris), construi (ou constri), construmos, construs, construem (ou constroem).

Imper. afirm.: construi tu (ou constri tu).

Assim se conjugam desconstruir, destruir, estruir, reconstruir.

c) entupir e desentupir:

Pres. ind.: entupo, entupes (ou entopes), entupe (ou entope), entupimos, entupis, entupem (ou entopem).

Imper. afirm.: entupe (ou entope), entupi.

Observao: O o das formas abundantes  de timbre aberto.

d) haver:

Pres. ind.: hei, hs, h, havemos (ou hemos), haveis (ou heis), ho.

Imper. afirm.: h, havei.

e) ir:

Pres. ind.: vou, vais, vai, vamos (ou imos), ides (is  forma antiga), vo.

f) querer e requerer:

Pres. ind.: quero, queres, quer (ou quere), queremos, quereis, querem.

requeiro, requeres, requer (ou requere), requeremos, requereis, requerem.

Quere e requere so formas que s tm curso em Portugal; quere  criao recente (sc. XIX-XX, sem adoo geral) e requere  forma j antiga na lngua, sendo requer de data 
recente.

g) valer:

Pres. ind.: valho, vales, vale (ou val), valemos, valeis, valem.

Val  forma antiga e ainda hoje corrente, mxime em Portugal.

h) imperativo dos verbos em -zer, -zir.

Podem perder o -e na 2. pess. sing.: faze tu (ou faz); traduze tu (ou traduz). So frequentssimos os exemplos literrios com os verbos dizer, fazer, trazer e traduzir.

i) particpio de numerosos verbos.

Existe grande nmero de verbos que admitem dois (e uns poucos at trs) particpios: um regular, terminado em -ado (1. conjugao) ou -ido (2. e 3. conjugaes), e outro 
irregular, proveniente do latim ou de nome que passou a ter aplicao como verbo, terminado em -to, -so ou criado por analogia com modelo preexistente. Eis uma relao dessas 
formas duplas de particpio, indicando-se entre parnteses se ocorrem com a voz ativa ou passiva, ou com ambas:

Infinitivo

Particpio regular

Particpio irregular

aceitar

aceitado (a., p.)

aceito (p.), aceite (p.)

assentar

assentado (a., p.)

assento (p.), assente (p.)

entregar

entregado (a., p.)

entregue (p.)

enxugar

enxugado (a., p.)

enxuto (p.)

expressar

expressado (a., p.)

expresso (p.)

expulsar

expulsado (a., p.)

expulso (p.)

fartar

fartado (a., p.)

farto (p.)

findar

findado (a., p.)

findo (p.)

ganhar

ganhado (a., p.)

ganho (a., p.)

gastar

gastado (a.)

gasto (a., p.)

isentar

isentado (a.)

isento (p.)

juntar

juntado (a., p.)

junto (a., p.)

limpar

limpado (a., p.)

limpo (a., p.)

matar

matado (a.)

morto (a., p.)

pagar

pagado (a.)

pago (a., p.)

pasmar

pasmado (a., p.)

pasmo (a.)

pegar

pegado (a., p.)

pego ( ou )

salvar

salvado (a., p)

salvo (a., p.)

acender

acendido (a., p.)

aceso (p.)

arrepender

arrependido (a., p.)

repeso por arrepeso (a., p.)

desenvolver

desenvolvido (a., p.)

desenvolto (a., p.)

eleger

elegido (a.)

eleito (a., p.)

envolver

envolvido (a., p.)

envolto (a., p.)

prender

prendido (a., p.)

preso (p.)

revolver

revolvido (a., p.)

revolto (a.)

suspender

suspendido (a., p.)

suspenso (p.)

desabrir

desabrido

desaberto

erigir

erigido (a., p.)

erecto (p.)

exprimir

exprimido ( a., p.)

expresso (a., p.)

extinguir

extinguido (a., p.)

extinto (p.)

frigir

frigido (a.)

frito (a., p.)

imprimir

imprimido (a., p.)

impresso (a., p.)

inserir

inserido (a., p.)

inserto (a., p.)

tingir

tingido (a., p.)

tinto (p.)

Observaes:

1.) Em geral emprega-se a forma regular, que fica invarivel com os auxiliares ter e haver, na voz ativa, e a forma irregular, que se flexiona em gnero e nmero, com os 
auxiliares ser, estar e ficar, na voz passiva.

Ns temos aceitado os documentos.

Os documentos tm sido aceitos por ns.

H outros particpios, regulares ou irregulares, que se usam indiferentemente na voz ativa (auxiliares ter ou haver) ou passiva (auxiliares ser, estar ficar), conforme se 
assinalou entre parnteses.

2.) H uns poucos particpios irregulares terminados em -e, em geral de introduo recente no idioma: entregue (o mais antigo), aceite, assente, empregue (em Portugal).

Locuo verbal. Verbos auxiliares

Locuo verbal. Verbos auxiliares  Chama-se locuo verbal a combinao das diversas formas de um verbo auxiliar com o infinitivo, gerndio ou particpio de outro verbo que 
se chama principal: hei de estudar, estou estudando, tenho estudado. Muitas vezes o auxiliar empresta um matiz semntico ao verbo principal, dando origem aos chamados aspectos 
do verbo.

Entre o auxiliar e o verbo principal no infinitivo pode aparecer ou no uma preposio (de, em, por, a, para). Na locuo verbal,  somente o auxiliar que recebe as flexes 
de pessoa, nmero, tempo e modo: haveremos de fazer, estavam por sair, iam trabalhando, tinham visto. Da arbitrariedade do uso  que depende o empregar-se em alguns casos 
a preposio e em outros omiti-la. Tambm pode ocorrer, em vrios casos, a alternncia da preposio (comear a / de fazer).

Vrias so as aplicaes dos verbos auxiliares da lngua portuguesa:

1  ter, haver (raramente) e ser (mais raramente) se combinam com o particpio do verbo principal para constiturem novos tempos, chamados compostos, que, unidos aos simples, 
formam o quadro completo da conjugao da voz ativa. Estas combinaes exprimem que a ao verbal est concluda.

Temos nove formas compostas:

Indicativo

a) pretrito perfeito composto: tenho ou hei cantado, vendido, partido;

b) pretrito mais-que-perfeito: tinha ou havia cantado, vendido, partido;

c) futuro do presente composto: terei ou haverei cantado, vendido, partido;

d) futuro do pretrito composto: teria ou haveria cantado, vendido, partido;

Observao: A lngua moderna ps de lado a forma tive cantado, corrente no Portugus antigo.

Subjuntivo

a) pretrito perfeito: tenha ou haja cantado, vendido, partido;

b) pretrito mais-que-perfeito: tivesse ou houvesse cantado, vendido, partido;

c) futuro composto: tiver ou houver cantado, vendido, partido;

Formas nominais

a) infinitivo composto: ter ou haver cantado, vendido, partido;

b) gerndio composto: tendo ou havendo cantado, vendido, partido.

O verbo ser s aparece em combinaes que lembram os depoentes latinos, sobretudo com verbos que denotam movimento: Os cavaleiros eram partidos caminho de Zamora [AC.2, 
I, 101]. Era chegada a ocasio da fuga. So passados trs meses.

2  ser, estar, ficar se combinam com o particpio (varivel em gnero e nmero) do verbo principal para constituir a voz passiva (de ao, de estado e mudana de estado): 
 amado, est prejudicada, ficaram rodeados.

3  os auxiliares acurativos se combinam com o infinitivo ou gerndio do verbo principal para determinar com mais rigor os aspectos do momento da ao verbal que no se acham 
bem definidos na diviso geral de tempo presente, passado e futuro:

a) incio de ao: comear a escrever, pr-se a escrever, etc.;

b) iminncia de ao: estar para (por) escrever, pegar a (de) escrever, etc.;

c) continuidade da ao: continua escrevendo, continua a escrever, sendo a primeira forma a que  mais antiga no idioma;

d) desenvolvimento gradual da ao; durao: estar a escrever, andar escrevendo, vir escrevendo, ir escrevendo, etc.

Observaes:

1.) No Brasil prefere-se a construo com gerndio (estar escrevendo), enquanto em Portugal  mais comum o infinitivo (estar a escrever), no sendo, entretanto, a nica forma.

2.) Est mais de acordo com o gnio da nossa lngua o uso do gerndio com auxiliar estar ou infinitivo com a para traduzir atos que se realizam paulatinamente, em vez do 
uso de forma simples do verbo, como faz o francs (Jeanne nous regarde / Joana est-nos olhando ou a nos olhar apud MBa.4, 233).

e) repetio de ao: tornar a escrever, costumar escrever (repetio habitual), etc.;

f) trmino de ao: acabar de escrever, cessar de escrever, deixar de escrever, parar de escrever, vir de escrever, etc.

Vir de + infinitivo  construo antiga no idioma e valia por voltar de (ou chegar) + infinitivo: De amor dos lusitanos encendidas/ Que vm de descobrir o novo mundo [LC.1, 
IX, 40]. Depois passou a significar acabar de + infinitivo e, porque em francs ocorre emprego semelhante, passou a ser, neste sentido, condenado como galicismo pelos gramticos: 
eu, aos doze anos, vinha de perder meu pai[CBr apud HG.1, 462].

4  os auxiliares modais se combinam com o infinitivo ou gerndio do verbo principal para determinar com mais rigor o modo como se realiza ou se deixa de realizar a ao verbal:

a) necessidade, obrigao, dever: haver de escrever, ter de escrever, dever escrever, precisar (de) escrever, etc.

Observaes:

1.) Em vez de ter ou haver de + infinitivo, usa-se ainda, mais modernamente, ter ou haver que + infinitivo: tenho que estudar. Neste caso, que, como ndice de complemento 
de natureza nominal, funciona como verdadeira preposio. No se confunda este que preposio com o que pron. relativo em construes do tipo: nada tinha que dizer, tenho 
muito que fazer, etc.

2.) Muitas vezes no Portugus contemporneo no  indiferente o sentido da expresso com preposio ou sem ela: Deve resultar exprime certa preciso de resultado; deve de 
resultar traduz a probabilidade do resultado.

b) possibilidade ou capacidade: poder escrever, etc.

c) vontade ou desejo: querer escrever, desejar escrever, odiar escrever, abominar escrever, etc.

d) tentativa ou esforo; s vezes com o sentido secundrio depreendido pelo contexto, de que a tentativa acabou em decepo (foi buscar l e saiu tosquiado): buscar escrever, 
pretender escrever, tentar escrever, ousar escrever, atrever-se a escrever, etc.

e) consecuo: conseguir escrever, lograr escrever, etc.

f) aparncia, dvida: parecer escrever, etc.

g) movimento para realizar um intento futuro (prximo ou remoto): ir escrever, etc.

h) resultado: vir a escrever, chegar a escrever, etc.

Vir a + infinitivo de certos verbos tem quase o mesmo sentido do verbo principal empregado sozinho: Isto vem a traduzir a mesma ideia (= isto por fim traduz a mesma ideia). 
Vir a ser pode ainda ser sinnimo de tornar-se: Ele veio a ser famoso.

Nota final  Nem sempre a aproximao de dois ou mais verbos constitui uma locuo verbal; a inteno da pessoa que fala ou escreve  que determinar a existncia ou inexistncia 
da locuo. Por exemplo, na frase: queramos colher rosas, os verbos queramos colher constituiro expresso verbal se pretendo dizer que queramos colher rosas e no outra 
flor, sendo rosas o objeto da declarao. Se, porm, pretendo dizer que o que ns queramos era colher rosas e no fazer outra cousa, o objeto da declarao  colher rosas 
e a declarao principal se contm incompletamente em queramos [JO.1, 202-203].

Auxiliares causativos e sensitivos

Auxiliares causativos e sensitivos  Assim se chamam os verbos deixar, mandar, fazer e sinnimos (causativos) e ver, ouvir, olhar, sentir e sinnimos (sensitivos) que, juntando-se 
a infinitivo ou gerndio, no formam locuo verbal, mas, muitas vezes, se comportam sintaticamente como tal, isto , segundo as relaes internas que se estabelecem dentro 
do grupo entre o infinitivo e os termos que o acompanham, como veremos no lugar prprio.

Elementos estruturais do verbo: desinncias e sufixos verbais

Elementos estruturais do verbo: desinncias e sufixos verbais  Ao radical do verbo, que  o elemento que encerra o seu significado lexical, se juntam as formas mnimas chamadas 
desinncias para constituir as flexes do verbo, indicadoras da pessoa e nmero, do tempo e modo. Segundo Mattoso, a constituio da forma verbal portuguesa : t (r+vt) + 
d (dmt+dnp), em que t = tema; r = radical; vt = vogal temtica; d = desinncia; dmt = desinncia modo-temporal e dnp = desinncia nmero-pessoal

Chama-se vogal temtica aquela classificadora da conjugao:

1. conjugao  a: cant-a-r

2. conjugao  e: vend-e-r

3. conjugao  i: part-i-r

A vogal temtica presa ao radical constitui o tema:

canta-r ,   vende-r,    parti-r.

Nem todas as formas verbais possuem a vogal temtica, como, por exemplo, a 1. pessoa singular do presente do indicativo e do subjuntivo. As vogais e e a em cant-e, vend-a, 
part-a so desinncias temporais (veja abaixo). Outras vezes a vogal temtica sofre variao: o a passa a e no pret.perf. do ind. da 1. conj. em contato com i, e passa a 
o em contato com u: cant-a-r, cant-e-i, cant-o-u; o e passa a i no pret. imperf. do ind. e particpio da 2. conjugao: vend-e-r, vend-i-a, vend-i-do. A vogal temtica i 
da 3. conjugao passa a e quando tono, no pres. ind. (2. e 3. sing. e 3. pl.) e imper. (2. sing.): part-e-s, part-e , part-e-m, part-e; se  tnico, nos mesmos casos, 
funde-se com o i da desinncia is da 2. pessoa do plural: partis por part-i-is.

O tema  a parte da palavra pronta para receber o sufixo ou a desinncia.

Sufixo verbal  o que entra na formao dos verbos derivados: salt-it-ar, real-iz-ar, etc. (cf. Afixos: prefixos e sufixos. Interfixos).

As desinncias modo-temporais so:

1) Para o Indicativo:

a)  no presente

b) -va- (-ve-) caracteriza o pretrito imperfeito da 1. conjugao: canta-va; 58

c) -ia- (-ie-), caracteriza o pretrito imperfeito da 2. e 3. conjugaes: dev-ia, part-ia;59

d)  para o pretrito perfeito (at a 2. pess. do pl. e -ra- para a 3. pess. pl.): cante-i, canta-ra-m

e) -ra- (re) tono caracteriza o pretrito mais-que-perfeito: canta-ra, vende-ra, parti-ra; cant-re-is;

f) -ra- (-re-) tnico caracteriza o futuro: canta-re-i, canta-r-s, canta-r-o, deve-re-i, parti-re-i;

g) -ria- (-rie-) caracteriza o futuro do pretrito: canta-ria, deve-ria, parti-ria;

2) Para o Subjuntivo:

a) -e- caracteriza o presente da 1. conjugao: cant-e;

b) -a- caracteriza o presente da 2. e 3. conjug.: vend-a, part-a;

c) -sse- caracteriza o pretrito imperfeito: canta-sse, vende-sse, parti-sse;

d) -r- (-re-) caracteriza o futuro: cant-a-r, vend-e-r, part-i-r;

3) Para as Formas Nominais:

a) -ndo caracteriza o gerndio: canta-ndo, vende-ndo, parti-ndo;

b) -do caracteriza o particpio: canta-do, vendi-do, parti-do;

c) -r caracteriza o infinitivo: canta-r, vende-r, parti-r.

Observaes:

1.) Nem todas as formas verbais se apresentam com desinncias e vogal temtica.

2.) As caractersticas temporais terminadas em -a (imperf., m.-q.-perf. do ind. e futuro apresentam esta vogal alterada em e na 2. pessoa do plural, graas ao contato com 
a desinncia pessoal -is que provoca a ditongao eis: eu cantava, vs cantveis; eu devia, vs deveis; eu partia, vs parteis; eu cantara, vs cantreis; eu cantaria, vs 
cantareis). O mesmo ocorre com a 1. pess. do fut. do presente: cant-a-re-i.

3.) As desinncias pessoais (cf. abaixo) do pretrito perfeito servem, por acumulao, para caracterizar o tempo e modo do verbo.

As desinncias nmero-pessoais so:

1. O travesso indica ausncia de desinncia.

2. Cuidado especial ho de merecer estas desinncias (-ste, singular, e -stes, plural) para que, por falsa analogia, no passem a -stes (singular) e -steis (plural): tu comestes 
por comeste), vs comesteis (por comestes).

Observaes sobre as desinncias nmero-pessoais.

1. pessoa do singular: geralmente falta a desinncia de 1. pessoa do singular, exceto no presente do indicativo, onde aparece a desinncia -o:

cant-o,

vend-o,

part-o

No pretrito perfeito do indicativo e futuro do presente aparece a desinncia -i:

cante-i,

vend-i,

part-i

canta-re-i,

vende-re-i,

parti-re-i

2. pessoa do singular: a desinncia geral  -s; no pretrito perfeito do indicativo -ste;  no imperativo:

canta-s,

canta-re-s,

canta-ste,

canta tu.

vende-s,

vende-re-s,

vende-ste,

vende tu.

parte-s,

parti-re-s,

parti-ste,

parte tu.

3. pessoa do singular: geralmente falta a desinncia de 3. pess. do singular; s o pretrito perfeito do indicativo  que apresenta -u:

canto-u,

vende-u,

parti-u

1. pessoa do plural: a desinncia  sempre -mos:

canta-mos,

vende-mos,

parti-mos

2. pessoa do plural: a desinncia  -is; aparece -des no futuro do subjuntivo, infinitivo flex. e no presente do indicativo de alguns verbos irregulares (ter, vir, pr, ver, 
rir, ir); o pret. perfeito do indicativo apresenta -stes, e o imperativo -i (na 3. conj. h crase com a vogal temtica):

canta-is,

vende-is,

part-is

canta-r-des,

vende-r-des,

parti-r-des

canta-stes,

vende-stes,

parti-stes

canta-i,

vende-i,

part-i.

3. pessoa do plural: a desinncia  -m, que nasaliza a vogal precedente:

canta-m,

vende-m,

parte-m

canta-re-m,    

vende-re-m,

parti-re-m

canta-ra-m,    

vende-ra-m,

parti-ra-m

Observao: No futuro do presente, d-se uma ditongao; a nasalidade  indicada por til e se sobrepe  caracterstica temporal:

canta-ro,    

vende-ro,

parti-ro

Tempos primitivos e derivados

Tempos primitivos e derivados  No estudo dos verbos, principalmente dos irregulares, torna-se vantajoso o conhecimento das formas verbais que se derivam de outras chamadas 
primitivas.

1  Praticamente do radical da 1. pessoa do presente do indicativo sai todo o presente do subjuntivo, bastando que se substitua a vogal final por e, nos verbos da 1. conjugao, 
e por a nos verbos da 2. e 3. conjugaes:

Presente do indicativo

Presente do subjuntivo

cantar

canto

cante

vender

vendo

venda

partir

parto

parta

Excees:

ser

sou

seja

dar

dou

d

estar

estou

esteja

haver

hei

haja

ir

vou

v

querer

quero

queira

saber

sei

saiba

2  Praticamente da 2. pessoa do singular e plural do presente do indicativo saem as 2.as pessoas do singular e plural do imperativo, bastando suprir o s final:

cantar

cantas,

cantais

canta,

cantai

vender

vendes,

vendeis

vende,

vendei

partir

partes,

partis

parte,

parti

Exceo:   ser: s (tu), sede (vs).

Observaes:

1.) Os verbos em -zer ou -zir podem ainda perder, na 2. pessoa do singular, o e final, quando o z no  precedido de consoante: faze (ou faz) tu, traduze (ou traduz) tu; 
mas cirze tu (cf. Verbos defectivos e abundantes, h).

2.) Para evitar os inconvenientes da homonmia que, pela identidade de formas, pode provocar ambiguidade com outras formas verbais, escritores portugueses se servem, s vezes, 
nos verbos da 3. conjungao, da antiga desinncia -ide por -i:

Novas tenho e grandes novas, / Amigo, para vos dar: / Tomai esta chave e abride [AGa.1]

Ouvide-a e fazei o que Ela vos disser! [CBr apud MBa.3, 64-65].

O imperativo em portugus s tem formas prprias para as segundas pessoas; as pessoas que faltam so supridas pelos correspondentes do presente do subjuntivo. No se usa o 
imperativo de 1. pessoa do singular como tal, mas com valor optativo. Por isto, estar assinalada nos paradigmas das formas imperativas. As terceiras pessoas do imperativo 
se referem a voc(s), e no a ele(s). Tambm no se usa o imperativo nas oraes negativas; neste caso empregam-se as formas correspondentes do presente do subjuntivo:

Imperativo afirmativo

Imperativo negativo

 eu

 eu

canta tu

no cantes tu

cante voc, o senhor

no cante voc, o senhor

cantemos ns

no cantemos ns

cantai vs

no canteis vs

cantem vocs, os senhores

no cantem vocs, os senhores.

3  Do tema do pretrito perfeito do indicativo (que praticamente se acha suprimindo a desinncia pessoal da 1. pessoa do plural ou 2. do singular) saem:

a) o mais-que-perfeito do indicativo, com o acrscimo de -ra (-re):

-ra, -ra-s, -ra, -ra-mos; -re-is; -ra-m;

b) o imperfeito do subjuntivo, com o acrscimo de -sse:

-sse, -sse-s, -sse; -sse-mos; -sse-m;

c) o futuro do subjuntivo, com o acrscimo de -r (-re):

-r, -re-s, -r, -r-mos; -r-des; -re-m.

Tema do pret. perf.

M. q. perf. ind.

Imperf. subj.

Fut. subj.

   vi (-mos)

   vira

   visse

   vir

   vie (-mos)

   viera

   viesse

   vier

   coube (-mos)

   coubera

   coubesse

   couber

   puse (-mos)

   pusera

   pusesse

   puser

   fo (-mos)

   fora

   fosse

   for

4  Do infinitivo no flexionado se formam:

a) futuro do presente, com o acrscimo ao tema de -ra (re) tnico:

-re-i, -r-s, -r, -re-mos, -re-is, -r-o.

b) futuro do pretrito, com o acrscimo de -ria (rie):

-ria, -ria-s, -ria, -ra-mos, -re-is, -ria-m.

Infinitivo

Futuro do presente

Futuro do pretrito

cantar

cantarei

cantaria

cantars

cantarias

cantar

cantaria

cantaremos

cantaramos

cantareis

cantareis

cantaro

cantariam

Excees: dizer, fazer, trazer, que fazem direi, farei, trarei, diria, faria, traria.

c) imperfeito do indicativo, com o acrscimo de -va (ve), na 1. conjugao, e -ia (-ie), na 2. e 3.:

cant-a-va, cant-a-va-s, cant-a-va, cant--va-mos, cant--ve-is, cant-a-va-m

vend-ia, vend-ia-s, vend-ia, vend-a-mos, vend-e-is, vend-ia-m

part-ia, part-ia-s, part-ia, part-a-mos, part-e-is, part-ia-m.

 parte, temos:

a) ser (era, eras, etc.)

b) ter (tinha, tinhas, etc)

c) vir (vinha, vinhas, etc.)

d) pr (punha, punhas, etc.)

A slaba tnica nos verbos: formas rizotnicas e arrizotnicas

A slaba tnica nos verbos: formas rizotnicas e arrizotnicas  Rizotnica  a forma verbal cuja slaba tnica se acha numa das slabas do radical:

quero, canto, canta, vendem, feito

Arrizotnica  a forma verbal cuja slaba tnica se acha fora do radical:

queremos, cantais, direi, vendido

A lngua portuguesa  mais rica de formas rizotnicas.

So normalmente rizotnicas: a) as trs pessoas do singular e a 3. do plural do presente do indicativo e do subjuntivo, e as correspondentes do imperativo; b) os particpios 
irregulares; c) a 1. pessoa e 3. do singular do pretrito perfeito dos verbos irregulares fortes: coube, fiz, fez.

Nos verbos defectivos, em geral, faltam as formas rizotnicas.

Em vista do exposto, as trs pessoas do singular e a 3. do plural do pres. do indic. e subjuntivo tm sempre acentuada a penltima slaba: frutifico, vociferas, sentencia, 
trafegam.

Excees:

a) resfolegar e tresfolegar fazem resflego, resflegas, resflega, resflegam, etc. Existem ainda as formas reduzidas resfolgar e tresfolgar, de acentuao regular: resfolgo, 
tresfolgo, etc.

b) mobiliar faz moblio, moblias, moblia, mobiliamos, mobiliais, mobliam; moblie, moblies, moblie, etc. Existem ainda as formas mobilar 60 e mobilhar, que se conjugam 
de acordo com a regra geral: mobilo, mobilas; mobilho, mobilhas, etc.

Mobilar  forma de pouca aceitao entre brasileiros: Eu vivia encantonada na sala da frente, que ia de oito a outro, com vrias sacadas para o largo, mobiliada (ateno 
revisor: no ponha mobilada, que  palavra que eu detesto) com uma cama de vento, uma cadeira e um lavatrio de ferro [MB.1, 459-460].

Alternncia voclica ou metafonia

Alternncia voclica ou metafonia  Assim se chama a mudana de timbre que sofre a vogal do radical de um vocbulo na forma rizotnica. Muitos verbos da lngua portuguesa 
apresentam este fenmeno:

ferver: fervo, ferves, ferve, fervemos, ferveis, fervem (o e tnico  fechado na 1. pessoa do sing. e na 1. e 2. pessoa do plural; nas outras,  de timbre aberto).

Na 1. conjugao:

a) a vogal a, no seguida de m, n ou nh, passa a ser proferida bem aberta:

falar: falo, falas, fala, falamos, falais, falam

chamar: chamo, chamas, chama, chamamos, chamais, chamam

b) ao e fechado corresponde e aberto, exceto quando no vem seguido de m, n, nh, j, x, ch, lh:

levar: levo, levas, leva, levamos, levais, levam

remar: remo, remas, rema, remamos, remais, remam

alvejar: alvejo, alvejas, alveja, alvejamos, alvejais, alvejam

pretextar: pretexto, pretextas, pretexta, pretextamos, pretextais, pretextam

fechar: fecho, fechas, fecha, fechamos, fechais, fecham

aparelhar: aparelho, aparelhas, aparelha, aparelhamos, aparelhais, aparelham

Excees: invejar (tem e aberto); chegar, ensebar no sofrem metafonia.

Pesar, no sentido de causar tristeza, desprezar,  arrolado tambm como exceo; porm, no Brasil, o uso mais corrente  conjug-lo como levar. Os gramticos recomendam-no 
com e fechado: pesa, pesam; pese, pesem, etc. ( verbo defectivo, s usado nas terceiras pessoas).

c) a vogal o passa a o aberto quando no seguida de m, n, nh ou o verbo no termina por -oar:

tocar: toco, tocas, toca, tocamos, tocais, tocam

sonhar: sonho, sonhas, sonha, sonhamos, sonhais, sonham

perdoar: perdoo, perdoas, perdoa, perdoamos, perdoais, perdoam.

Na 2. conjugao:

a) as vogais tnicas e e o soam com timbre aberto na 2. e 3. pessoa do singular e na 3. do plural do pres. do ind. e na 2. pess. sing. do imperativo afirmativo, salvo 
se vierem seguidas de m, n ou nh:

dever: devo (), deves (), deve (), devemos, deveis, devem ()

roer: ri, roei ()

volver: volvo (), volves (), volve (), volvemos, volveis, volvem ()

temer: temo (), temes (), teme (), tememos, temeis, temem

comer: como (), comes (), come (), etc.

Excees: querer e poder tm a vogal tnica aberta na 1. pess. do sing.

Na 3. conjugao:

a) a vogal e, ltima do radical, sofre alternncias diversas quando nela recai o acento tnico:

1  Passa a i na 1. pess. do sing. do indic. e em todo o presente do subj. e e aberto na 2. e 3. pess. sing. e 3. do plural do pres. do indic. e 2. pess. sing. do imperativo 
nos verbos:

aderir, advertir, aferir, assentir, auferir, compelir, competir, concernir, conferir, conseguir, consentir, convergir, deferir, desferir, desmentir, despir, desservir, diferir, 
digerir, discernir, dissentir, divergir, divertir, expelir, ferir, impelir, ingerir, mentir, preferir, pressentir, preterir, proferir, prosseguir, referir, refletir, repelir, 
repetir, seguir, servir, sugerir, transferir, vestir:

vestir: visto, vestes, veste, etc.

Observao: Se o e for nasal mantm-se inaltervel, exceto na 1. pess. singular do pres. do ind. e em todo o pres. do subj., onde passa a i: sentir: sinto, sentes, sente, 
etc.

2  Passa a i nas trs pessoas do singular e 3. do plural do presente do indicativo, em todo o pres. do subj. e imperativo, salvo, neste, a 2. pessoa do plural:

agredir, cerzir, denegrir, prevenir, progredir, regredir, transgredir, e remir (este defectivo, cf. Verbos defectivos e abundantes).

Pres. ind.: agrido, agrides, agride, agredimos, agredis, agridem

Pres. subj.: agrida, agridas, agrida, etc.

Imper. afirm.: agride, agrida, agridamos, agredi, agridam

3  os verbos medir, pedir, despedir, impedir e (derivados) tm e aberto nas formas rizotnicas, isto , nas trs pessoas do singular e 3. do plural do presente do indicativo 
e subjuntivo, e no imperativo afirmativo, exceto, neste, na 2. pessoa do plural:

medir      pres. ind.: meo, medes, mede, medimos, medis, medem

                 pres. subj.: mea, meas, mea, etc.

                 imper. afirm.: mede, mea, meamos, medi, meam

4  Os verbos aspergir, emergir, imergir e submergir tm e tnico fechado na 1. pessoa do singular do presente do indicativo (e formas que da se derivam); tm e aberto na 
2. e 3. do singular e 3. do plural do presente do indicativo (e formas que da se derivam):

aspergir: asperjo (), asperges (), asperge (), aspergimos, aspergis, aspergem ().

b) a vogal o sofre tambm alternncias diferentes, quando nela recai o acento tnico:

1  Passa a u na 1. pessoa sing. do pres. ind., em todo o pres. do subj. e no imperativo, salvo, neste, a 2. pess. do singular e plural; e passa a o aberto na 2. e 3. 
sing. e 3. do plural do pres. ind. e 2. do singular do imperativo:

dormir    pres. ind.: durmo, dormes, dorme, dormimos, dormis, dormem

                 pres. subj.: durma, durmas, durma, etc.

                 imper. afirm.: dorme, durma, durmamos, dormi, durmam

Assim se conjugam cobrir, descobrir, encobrir, recobrir, tossir. Dormir e tossir so regulares no particpio: dormido, tossido.

Para a conjugao de engolir e desengolir que, a rigor, deveriam seguir este modelo, veja-se o que se diz mais adiante.

2  Passa a u nas trs pessoas do sing. e 3. do plural do presente do indicativo, em todo o pres. do subjuntivo e no imperativo afirmativo, exceto, neste, a 2. pessoa do 
plural:

sortir      pres. ind.: surto, surtes, surte, sortimos, sortis, surtem

                 pres. subj.: surta, surtas, surta, etc.

                 imperat. afirma.: surte, surta, surtamos, sorti, surtam

Por este modelo se conjugam despolir e polir (cf. Verbos defectivos e abundantes). Antigamente seguiam este paradigma cortir e ordir, hoje grafados curtir e urdir e de conjugao 
regular.

c) a vogal u da penltima slaba do radical passa a o aberto na 2. e 3. pess. do singular e 3. do plural do presente do indicativo e na 2. pessoa do singular do imperativo 
afirmativo:

acudir     pres. ind.: acudo, acodes (), acode (), acudimos, acudis, acodem ()

                 pres. subj.: acuda, acudas, acuda, etc.

                 imper. afirm.: acode (), acuda, acudamos, acudi, acudam

Assim se conjugam bulir, cuspir, escapulir, fugir, sacudir. Consumir e sumir tm o o fechado por estar seguido de m.

Observaes:

1.) Assumir, presumir, reassumir, resumir so regulares: Pres. ind.: assumo, assumes, assumimos, assumis, assumem.

2.) os verbos em -uir no apresentam alternncias voclicas no radical; a 2. e 3. pessoa do singular do presente do indicativo tm is e i em lugar de es e e, por haver 
ditongo oral:

constituir: pres. ind.: constituo, constituis, constitui, constitumos, constitus, constituem.

Assim se conjugam anuir, arguir, atribuir, constituir, destituir, diluir, diminuir, estatuir, imbuir, influir, instituir, instruir, puir (defectivo), restituir, redarguir, 
ruir.

3.) Construir, desentupir, destruir, entupir (e cognatos) seguem este modelo ou ainda admitem alternncia do u em o aberto na 2. e 3. pessoa do sing. e 3. do plural do 
presente do indicativo e na 2. pessoa do sing. do imperativo afirmativo. Entupir e desentupir s se afastam do grupo porque apresentam es e e na 2. e 3. pessoa do sing. 
do pres. ind.: entupo, entupes (ou entopes), entupe (ou entope), entupimos, entupis, entupem (ou entopem).

construo, construis (ou constris), construi (ou constri), construmos, construs, construem (ou constroem).

Estes verbos so portanto abundantes. Obstruir , entretanto, conjugado apenas como constituir. Cf. obs. 2..

4.) Engolir, ainda que se escreva com o, segue o paradigma de acudir; para o Vocabulrio de nossa Academia: engulo, engoles, engole, engulimos, engulis, engolem. Melhor fora, 
porm, conjug-lo com o nas duas primeiras pessoas do plural do pres. do indicativo, desfazendo-se a incoerncia.

d) a vogal i do radical do verbo frigir passa a e aberto na 2. e 3. pess. sing. e na 3. do plural do pres. do indicativo e na 2. pess. sing. do imperativo afirmativo:

Pres. ind.: frijo, freges, frege, frigimos, frigis, fregem

Imper. afirm.: frege, frija, frijamos, frigi, frijam

No h metafonia, isto , a vogal  proferida fechada, nos seguintes casos [SA.2, 113]:

1) quando a vogal tnica se acha no fim do radical:

cr, crs; l, ls

2) quando integra os ditongos ou, ei:

douro, douras; cheiro, cheiras

3) no ditongo oi seguido de consoante:

pernoito, pernoitas

4) quando a vogal  seguida de consoante nasal:

como, comes

5) nos verbos terminados em -ear, -elhar, -ejar (exceto invejar) e -oar:

receio, receias; aparelho, aparelhas; desejo, desejas; coroo, coroas

6) nos verbos chegar e ensebar:

chego, chegas; ensebo, ensebas

Verbos notveis quanto  pronncia ou flexo

Verbos notveis quanto  pronncia ou flexo

a) aguar, desaguar, apaziguar, enxaguar, apropinquar, averiguar, e afins podem ser conjugados de duas formas:

Pres. ind.: guo, guas, gua, aguamos, aguais, guam / aguo, aguas, agua, aguamos, aguais, aguam

Pres. subj.: gue, gues, gue, aguemos, agueis, guem / ague, agues, ague, aguemos, aguis, aguem

b) arguir e redarguir no levam acento agudo na vogal tnica u nas formas rizotnicas:

Pres. ind.: arguo (), arguis (), argui (), argumos, argus, arguem ()

Pres. subj.: argua (), arguas (), argua (), arguamos, arguais, arguam ()

c) Magoar, conjuga-se:

Pres. ind.: magoo, magoas, magoa, magoamos, magoais, magoam

Pres. subj.: magoe, magoes, magoe, magoemos, magoeis, magoem

d) Mobiliar, conjuga-se:

Pres. ind.: moblio, moblias, moblia, mobiliamos, mobiliais, mobliam

Pres. subj.: moblie, moblies, moblie, mobiliemos, mobilieis, mobliem

Observao: A variante mobilar apresenta-se regularmente: mobilo, mobilas, mobila, etc.

e) Resfolegar conjuga-se:

Pres. ind.: resflego, resflegas, resflega, resfolegamos, resfolegais, resflegam

Pres. subj.: resflegue, resflegues, resflegue, resfoleguemos, resfolegueis, resfleguem.

Observaes:

1.) A forma contrata de resfolegar  resfolgar, que se apresenta regularmente: resfolgo, resfolgas, resfolga, etc.

2.) O substantivo  resflego, proparoxtono, com o tnico fechado.

f) Dignar-se, indignar-se, obstar, optar, adaptar, pugnar, impugnar, ritmar, raptar, conjugam-se:

Presente do indicativo

indigno-me (d)

obsto ()

opto ()

impugno ()

ritmo ()

indignas-te (d)

obstas ()

optas ()

impugnas ()

ritmas ()

indigna-se (d)

obsta ()

opta ()

impugna ()

ritma ()

indignamo-nos

obstamos

optamos

impugnamos

ritmamos

indignais-vos

obstais

optais

impugnais

ritmais

indignam-se (d)

obstam ()

optam ()

impugnam ()

ritmam ()

rapto (r), raptas (r), rapta (r), raptamos, raptais, raptam (r)

g) Obviar conjuga-se:

Pres. ind.: obvio (), obvias (), obvia (), obviamos, obviais, obviam ()

h) Apiedar e moscar conjugam-se:

apiedar  pres. ind.: apiedo, apiedas, apieda, apiedamos, apiedais, apiedam

A lio antiga de alguns gramticos e ortgrafos confundia o arcaico apiadar e apiedar numa s conjugao, o que no aconselhamos:

Pres. ind.: apiado, apiadas, apiada, apiedamos, apiedais, apiadam (isto , a nas formas rizotnicas e e nas arrizotnicas).

A mesma confuso existia com moscar e muscar (sumir-se):

Pres. ind.: musco, muscas, musca, moscamos, moscais, muscam (isto , u nas formas rizotnicas e o nas arrizotnicas).

Mais certo ser conjugarmos regularmente moscar:

Pres. ind.: mosco, moscas, mosca, moscamos, moscais, moscam; e muscar:

Pres. ind.: musco, muscas, musca, muscamos, muscais, muscam.

A correo, porm, talvez seja mais difcil, por serem muito pouco usados moscar e muscar.

i) Verbos com os ditongos fechados ou e ei: roubar e inteirar.

Conjugam-se no se reduzindo a vogais abertas o e e, respectivamente:

Roubar

Inteirar

roubo (e no rbo, etc.)

inteiro (e no intro, etc.)

roubas

inteiras

rouba

inteira

roubamos

inteiramos

roubais

inteirais

roubam

inteiram

j) Verbos com os ditongos fechados eu e oi: tipos endeusar e noivar. Conjugam-se mantendo o ditongo sem que o e ou o o passem a timbre aberto: endeuso, endeusas, endeusa, 
etc.; noivo, noivas, noiva, etc.

Observao: O verbo apoiar tinha primitivamente fechado o ditongo; hoje  mais corrente proferi-lo aberto: apoio, apoias, etc.

k) Verbos com o hiato au, ai e iu: tipos saudar, embainhar e amiudar. Conjugam-se mantendo o hiato:

saudar

embainhar

amiudar

sado

embainho

amido

sadas

embainhas

amidas

sada

embainha

amida

saudamos

embainhamos

amiudamos

saudais

embainhais

amiudais

sadam

embainham

amidam

Observao: Arraigar (com hiato) passou desde cedo a arraigar (com ditongo, ar-rai-gar) e da a arreigar. As formas com ditongo so mais frequentes, embora modernamente se 
tenha restabelecido arraigar com hiato. Saudar proferido com ditongo (saudo, saudas, etc.) ocorre aqui e ali nos poetas e se fixa no falar coloquial e popular.

Verbos terminados em -zer, -zir: tipos fazer e traduzir

Verbos terminados em -zer, -zir: tipos fazer e traduzir  Perdem o e final na 3. pess. sing. do presente do indicativo e na 2. pess. sing. do imperativo afirmativo (este 
caso no  obrigatrio e at, com exagero, vem condenado pelos gramticos), quando o z no  precedido de consoante:

fazer: fao, fazes, faz, etc.   Imp. afirm.: faze (ou faz) tu

traduzir: traduzo, traduzes, traduz, etc.   Imp. afirm.: traduze (ou traduz) tu

Mas, cerzir: cirzo, cirzes, cirze, etc.

Variaes grficas na conjugao

Variaes grficas na conjugao  Muitas vezes altera-se a maneira de representar na escrita a ltima consoante do radical para conservar o mesmo som:

1  os verbos terminados em -car e -gar mudam o c ou g em qu ou gu, quando tais consoantes so seguidas de e:

pecar: peco, peques;    cegar: cego, cegues

2  os verbos terminados em -cer ou -cir tm c cedilhado antes de a ou o:

conhecer  conheo, conheces, conhece;    ressarcir  ressaro, ressarces

3  os verbos terminados em -ar perdem a cedilha antes do e:

comear  comeo, comeces

4  os verbos terminados em -ger ou -gir mudam o g em j antes de a ou o:

eleger  elejo, eleges;    fugir  fujo, foges

5  os verbos terminados em -guer ou -guir perdem o u antes de a ou o:

erguer  ergo, ergues, erga

conseguir  consigo, consegues, consiga

A vogal e passa a ser grafada i quando entra num ditongo oral (verbos em -uir): atribuo, atribuis, atribui.

Estas variaes grficas no constituem irregularidades de conjugao, no havendo, por isso, verbos irregulares grficos.

Verbos em -ear e -iar

Verbos em -ear e -iar  Os verbos em -ear trocam o e por ei nas formas rizotnicas:

Nomear   pres. ind.: nomeio, nomeias, nomeia, nomeamos, nomeais, nomeiam.

                  pres. subj.: nomeie, nomeies, nomeie, nomeemos, nomeeis, nomeiem.

                  imp. afirm.: nomeia, nomeie, nomeemos, nomeai, nomeiem.

Os verbos em -iar so conjugados regularmente:

Premiar   pres. ind.: premio, premias, premia, premiamos, premiais, premiam.

                  pres. subj.: premie, premies, premie, etc.

                  imp. afirm.: premia, premie, premiemos, premiai, premiem.

Cinco verbos em -iar se conjugam, nas formas rizotnicas, como se terminassem em -ear (mario  o anagrama que deles se pode formar):

mediar: medeio, medeias, medeia, mediamos, mediais, medeiam

ansiar: anseio, anseias, anseia, ansiamos, ansiais, anseiam

remediar: remedeio, remedeias, remedeia, remediamos, remediais, remedeiam

incendiar: incendeio, incendeias, incendeia, incendiamos, incendiais, incendeiam

odiar: odeio, odeias, odeia, odiamos, odiais, odeiam

Observaes:

1.) Enquanto no Brasil j vamos conjugando os verbos em -ear e -iar pelo que acabamos de expor, entre os portugueses ainda se notam vacilaes em muitos que, grafados com 
-iar, deveriam seguir o modelo de premiar, mas se acostam ao de nomear, dada a homofonia dos dois finais na fala corrente: alm do prprio premiar, agenciar, comerciar, licenciar, 
negociar, penitenciar, obsequiar, presenciar, providenciar, reverenciar, sentenciar, vangloriar, vitoriar, evidenciar, glorificar, diligenciar e outros.

2.) Hoje no fazemos distino entre crear (tirar do nada, dar existncia) e criar (educar, cultivar, promover o desenvolvimento), usando apenas criar para ambos os casos, 
que se conjuga como premiar. Entre escritores modernos, porm, podem ocorrer exemplos de crear, conjugado como nomear.

3.) A diferena de conjugao torna-se imperiosa nos parnimos: afear e afiar; arrear e arriar; estrear e estriar; vadear e vadiar, etc.

Quando grafar -ear ou -iar

Quando grafar -ear ou -iar  Grafam-se com -ear os verbos que possuem formas substantivas ou adjetivas cognatas terminadas em:

a) -, -eio, -eia, -ia:

p  apear                        ceia  cear

passeio  passear             ideia  idear

Exceo: f  fiar

b) consoante ou pelas vogais tonas -a, -e, -o precedidas de consoante:

mar  marear   pente  pentear

casa  casear   branco  branquear

Excees:   amplo  ampliar                       lume  alumiar

                    breve  abreviar                       sede  sediar

                    finana  financiar   xtase  extasiar

                    graa  agraciar

Incluem-se entre os verbos em -ear: atear, bambolear, bruxulear, cecear, derrear, favonear, pavonear, semear, vadear.

Grafam-se com -iar os verbos que possuem formas substantivas cognatas terminadas em:

a) -io, -ia:

alvio  aliviar                 delcia  deliciar

scio  associar               polcia  policiar

bvio  obviar                 assovio  assoviar

b) -nsia, -ncia, -ena:

distncia  distanciar                     presena  presenciar

diligncia  diligenciar                  sentena  sentenciar

Incluem-se no rol dos verbos em -iar: anuviar, apreciar, depreciar, saciar.

Observao: Muitas vezes o final -ear ou -iar se pode alternar com o simples -ar: azular ou azulear; bajar ou bagear (produzir vagens); diferenciar ou diferenar; balanar 
ou balancear, homicidar ou homicidiar, etc.

Erros frequentes na conjugao de alguns verbos

Erros frequentes na conjugao de alguns verbos

a) Vir e seus derivados

No presente do indicativo temos: venho, vens, vem, vimos (e no viemos), vindes, vm.

No pretrito perfeito do indicativo: vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram.

O gerndio  igual ao particpio, porque neste desapareceu a vogal temtica: vindo (vi-ndo) e vindo (vin-i-do).

Notem-se estes enganos comuns nos derivados de vir, no pret. perf. ind.:

Os guardas interviram na discusso (em lugar de intervieram).

A professora interviu no caso (em lugar de interveio).

O futuro do subjuntivo  vier: Quando eu vier... (e no vir):

E, incapazes de negar a beleza (...) assaltaram a ave de Juno (...) intervieram para impor silncio o leo e o tigre [JR.2, 200].

O Senhor Araa y Araa conveio em que o panorama era magnificente (...) [JR.2, 189].

b) Ver e seus derivados

Prover no se conjuga como ver no:

pret. perf. ind.: provi, proveste, proveu, provemos, provestes, proveram

m.-q.-perf. ind.: provera, proveras, provera, provramos, provreis, proveram

imperf. subj.: provesse, provesses, provesse, provssemos, provsseis, provessem

fut. subj.: prover, proveres, prover, provermos, proverdes, proverem

particpio: provido

Rever  conjugado como ver; por isso est errada a flexo em:

A aluna reveu (em vez de reviu) a prova.

Antever  conjugado como ver e, por isso, enganou-se o nosso Casimiro de Abreu ao escrever:

Quem antevera (com e) que dum povo a runa

Pelo seu prprio rei cavada fosse? [SS.4, 34].

O futuro do subjuntivo  vir:

Quando eu vier  cidade e vir oportunidade de compr-lo, ento o farei (e no ver!).

c) Precaver-se.

 verbo defectivo que nada tem com ver ou vir; por isso evite-se dizer

Eu me precavejo ou Eu me precavenho.

Precavejam-se ou Precavenham-se.

Para sua conjugao, veja-se Verbos defectivos e abundantes.

d) Reaver.

 verbo defectivo, derivado de haver, que s se conjuga nas formas em que este possui -v-. No se deve dizer:   Eu reavejo ou Eu reavenho

Cuidado especial merece tambm o pret. perf.: reouve, reouveste, reouve, reouvemos, reouvestes, reouveram.

Por isso evitem-se empregos como: eu reavi, ele reaveu, etc. Cf. Verbos defectivos e abundantes.

e) Ter e seus derivados

Deter, derivado de ter, conjuga-se como este. Logo est errada a frase:

O policial deteu (por deteve!) o criminoso.

Sirva de exemplo o caso que vou referir, segundo o texto autorizado de um doutor que (...) entreteve um dilogo com um dos ltimos gregos [JR.2, 183].

f) Pr e seus derivados.

Opor  derivado de pr e por ele se modela na conjugao. Assim enganou-se o poeta Porto-Alegre nestes versos, usando opor em vez de opuser:

Se aos paternos errores de contraste,

E  minha influio opor virtudes [PA.1, II, 154 apud SS.4, 34].

g) Estar e seus derivados.

Sobrestar  derivado de estar e por ele se conjuga; porm, costuma-se ver modelado pelo verbo ter, como se fosse sobrester. Assim no est certo o seguinte exemplo de Alberto 
de Oliveira:

Deixando a enferma, sobrestenho o passo [AO.2 apud SS.4].

h) Haver-se e avir-se.

Estes verbos tm empregos diferentes. Haver-se (com algum) significa:

1) proceder, portar-se:

Ele, porm, houve-se com a maior delicadeza [MA.1, 364].

2) ser chamado a ordem, entrar em disputa com algum, conciliar, e aparece nas ameaas:

Ele tem de se haver comigo.

Aquele que sobre ti lanar vistas de amor ou de cobia, comigo se haver [MP.1, 139 apud SS.1, 361].

3) conciliar

Avir-se  sinnimo de haver-se, no sentido 3), isto , significa entrar em acordo com, conciliar:

L se avenham os sorveteiros com Boileau [FE.2, V, 46 apud RB.1, 391 nota].

Desavir-se  o contrrio de avir-se:

Os amigos se desavieram (e no se desouveram!) por muito pouco.

Erra-se frequentes vezes empregando-se, nas ameaas, avir-se por haver-se: Ele tem de se avir comigo (em lugar de se haver).

Paradigma dos verbos regulares: cantar, vender, partir

Paradigma dos verbos regulares
Com destaque dos elementos estruturais

1  Conjugao simples

   1.  Cant-a-r

   2.  Vend-e-r

3.  Part-i-r

modo indicativo

Presente

Cant-o

Vend-o

Part-o

Cant-a-s

Vend-e-s

Part-e-s

Cant-a

Vend-e

Part-e

Cant-a-mos

Vend-e-mos

Part-i-mos

Cant-a-is

Vend-e-is

Part-is

Cant-a-m

Vend-e-m

Part-e-m

Pretrito imperfeito

Cant-a-va

Vend-ia

Part-ia

Cant-a-va-s

Vend-ia-s

Part-ia-s

Cant-a-va

Vend-ia

Part-ia

Cant--va-mos

Vend-a-mos

Part-a-mos

Cant--ve-is

Vend-e-is

Part-e-is

Cant-a-va-m

Vend-ia-m

Part-ia-m

Pretrito perfeito

Cant-e-i

Vend-i

Part-i

Cant-a-ste

Vend-e-ste

Part-i-ste

Cant-o-u

Vend-e-u

Part-i-u

Cant-a-mos

Vend-e-mos

Part-i-mos

Cant-a-stes

Vend-e-stes

Part-i-stes

Cant-a-ra-m

Vend-e-ra-m

Part-i-ra-m

Pretrito mais-que-perfeito

Cant-a-ra

Vend-e-ra

Part-i-ra

Cant-a-ra-s

Vend-e-ras

Part-i-ra-s

Cant-a-ra

Vend-e-ra

Part-i-ra

Cant--ra-mos

Vend--ra-mos

Part--ra-mos

Cant--re-is

Vend--re-is

Part--re-is

Cant-a-ra-m

Vend-e-ra-m

Part-i-ra-m

Futuro do presente

Cant-a-re-i

Vend-e-re-i

Part-i-re-i

Cant-a-r-s

Vend-e-r-s

Part-i-r-s

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Cant-a-re-mos

Vend-e-re-mos

Part-i-re-mos

Cant-a-re-is

Vend-e-re-is

Part-i-re-is

Cant-a-r-o

Vend-e-r-o

Part-i-r-o

Futuro do pretrito

Cant-a-ria

Vend-e-ria

Part-i-ria

Cant-a-ria-s

Vend-e-ria-s

Part-i-ria-s

Cant-a-ria

Vend-e-ria

Part-i-ria

Cant-a-ra-mos

Vend-e-ra-mos

Part-i-ra-mos

Cant-a-re-is

Vend-e-re-is

Part-i-re-is

Cant-a-ria-m

Vend-e-ria-m

Part-i-ria-m

modo subjuntivo

Presente

Cant-e

Vend-a

Part-a

Cant-e-s

Vend-a-s

Part-a-s

Cant-e

Vend-a

Part-a

Cant-e-mos

Vend-a-mos

Part-a-mos

Cant-e-is

Vend-a-is

Part-a-is

Cant-e-m

Vend-a-m

Part-a-m

Pretrito Imperfeito

Cant-a-sse

Vend-e-sse

Part-i-sse

Cant-a-sse-s

Vend-e-sse-s

Part-i-sse-s

Cant-a-sse

Vend-e-sse

Part-i-sse

Cant--sse-mos

Vend--sse-mos

Part--sse-mos

Cant--sse-is

Vend--sse-is

Part--sse-is

Cant-a-sse-m

Vend-e-sse-m

Part-i-sse-m

Futuro

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Cant-a-re-s

Vend-e-re-s

Part-i-re-s

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Cant-a-r-mos

Vend-e-r-mos

Part-i-r-mos

Cant-a-r-des

Vend-e-r-des

Part-i-r-des

Cant-a-re-m

Vend-e-re-m

Part-i-re-m

modo imperativo

Afirmativo

Cant-a tu

Vend-e tu

Part-e tu

Cant-e voc

Vend-a voc

Part-a voc

Cant-e-mos ns

Vend-a-mos ns

Part-a-mos ns

Cant-a-i vs

Vend-e-i vs

Part-i vs

Cant-e-m vocs

Vend-a-m vocs

Part-a-m vocs

Negativo

No cant-e-s tu

No vend-a-s tu

No part-a-s tu

No cant-e voc

No vend-a voc

No part-a voc

No cant-e-mos ns

No vend-a-mos ns

No part-a-mos ns

No cant-e-is vs

No vend-a-is vs

No part-a-is vs

No cant-e-m vocs

No vend-a-m vocs

No part-a-m vocs

formas nominais

Infinitivo

No flexionado

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Flexionado

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Cant-a-re-s

Vend-e-re-s

Part-i-re-s

Cant-a-r

Vend-e-r

Part-i-r

Cant-a-r-mos

Vend-e-r-mos

Part-i-r-mos

Cant-a-r-des

Vend-e-r-des

Part-i-r-des

Cant-a-re-m

Vend-e-re-m

Part-i-re-m

Gerndio

Cant-a-ndo

Vend-e-ndo

Part-i-ndo

Particpio

Cant-a-do

Vend-i-do

Part-i-do

2  Conjugao composta61

modo indicativo

Pretrito perfeito composto

Tenho cantado

Tenho vendido

Tenho partido

Tens cantado

Tens vendido

Tens partido

Tem cantado

Tem vendido

Tem partido

Temos cantado

Temos vendido

Temos partido

Tendes cantado

Tendes vendido

Tendes partido

Tm cantado

Tm vendido

Tm partido

Pretrito mais-que-perfeito composto

Tinha cantado

Tinha vendido

Tinha partido

Tinhas cantado

Tinhas vendido

Tinhas partido

Tinha cantado

Tinha vendido

Tinha partido

Tnhamos cantado

Tnhamos vendido

Tnhamos partido

Tnheis cantado

Tnheis vendido

Tnheis partido

Tinham cantado

Tinham vendido

Tinham partido

Futuro do presente composto

Terei cantado

Terei vendido

Terei partido

Ters cantado

Ters vendido

Ters partido

Ter cantado

Ter vendido

Ter partido

Teremos cantado

Teremos vendido

Teremos partido

Tereis cantado

Tereis vendido

Tereis partido

Tero cantado

Tero vendido

Tero partido

Futuro do pretrito composto

Teria cantado

Teria vendido

Teria partido

Terias cantado

Terias vendido

Terias partido

Teria cantado

Teria vendido

Teria partido

Teramos cantado

Teramos vendido

Teramos partido

Tereis cantado

Tereis vendido

Tereis partido

Teriam cantado

Teriam vendido

Teriam partido

modo subjuntivo

Pretrito perfeito

Tenha cantado

Tenha vendido

Tenha partido

Tenhas cantado

Tenhas vendido

Tenhas partido

Tenha cantado

Tenha vendido

Tenha partido

Tenhamos cantado

Tenhamos vendido

Tenhamos partido

Tenhais cantado

Tenhais vendido

Tenhais partido

Tenham cantado

Tenham vendido

Tenham partido

Pretrito mais-que-perfeito

Tivesse cantado

Tivesse vendido

Tivesse partido

Tivesses cantado

Tivesses vendido

Tivesses partido

Tivesse cantado

Tivesse vendido

Tivesse partido

Tivssemos cantado

Tivssemos vendido

Tivssemos partido

Tivsseis cantado

Tivsseis vendido

Tivsseis partido

Tivessem cantado

Tivessem vendido

Tivessem partido

Futuro composto

Tiver cantado

Tiver vendido

Tiver partido

Tiveres cantado

Tiveres vendido

Tiveres partido

Tiver cantado

Tiver vendido

Tiver partido

Tivermos cantado

Tivermos vendido

Tivermos partido

Tiverdes cantado

Tiverdes vendido

Tiverdes partido

Tiverem cantado

Tiverem vendido

Tiverem partido

formas nominais

Infinitivo

No flexionado composto

Ter cantado

Ter vendido

Ter partido

Flexionado composto

Ter cantado

Ter vendido

Ter partido

Teres cantado

Teres vendido

Teres partido

Ter cantado

Ter vendido

Ter partido

Termos cantado

Termos vendido

Termos partido

Terdes cantado

Terdes vendido

Terdes partido

Terem cantado

Terem vendido

Terem partido

Gerndio composto

Tendo cantado

Tendo vendido

Tendo partido

Conjugao de verbos auxiliares mais comuns: ser, estar, ter, haver

Conjugao de verbos auxiliares mais comuns

Conjugao simples

1  Conjugao simples

Ser

Estar

Ter

Haver

modo indicativo

Presente

Sou

Estou

Tenho

Hei

s

Ests

Tens

Hs



Est

Tem

H

Somos

Estamos

Temos

Havemos

Sois

Estais

Tendes

Haveis

So

Esto

Tm 1

Ho

Pretrito Imperfeito

Era

Estava

Tinha

Havia

Eras

Estavas

Tinhas

Havias

Era

Estava

Tinha

Havia

ramos

Estvamos

Tnhamos

Havamos

reis

Estveis

Tnheis

Haveis

Eram

Estavam

Tinham

Haviam

Pretrito perfeito

Fui

Estive

Tive

Houve

Foste

Estiveste

Tiveste

Houveste

Foi

Esteve

Teve

Houve

Fomos

Estivemos

Tivemos

Houvemos

Fostes

Estivestes

Tivestes

Houvestes

Foram

Estiveram

Tiveram

Houveram

Pretrito mais-que-perfeito

Fora

Estivera

Tivera

Houvera

Foras

Estiveras

Tiveras

Houveras

Fora

Estivera

Tivera

Houvera

Framos

Estivramos

Tivramos

Houvramos

Freis

Estivreis

Tivreis

Houvreis

Foram

Estiveram

Tiveram

Houveram

Futuro do presente

Serei

Estarei

Terei

Haverei

Sers

Estars

Ters

Havers

Ser

Estar

Ter

Haver

Seremos

Estaremos

Teremos

Haveremos

Sereis

Estareis

Tereis

Havereis

Sero

Estaro

Tero

Havero

Futuro do pretrito

Seria

Estaria

Teria

Haveria

Serias

Estarias

Terias

Haverias

Seria

Estaria

Teria

Haveria

Seramos

Estaramos

Teramos

Haveramos

Sereis

Estareis

Tereis

Havereis

Seriam

Estariam

Teriam

Haveriam

modo subjuntivo

Presente

Seja

Esteja

Tenha

Haja

Sejas

Estejas

Tenhas

Hajas

Seja

Esteja

Tenha

Haja

Sejamos

Estejamos

Tenhamos

Hajamos

Sejais

Estejais

Tenhais

Hajais

Sejam

Estejam

Tenham

Hajam

Pretrito imperfeito

Fosse

Estivesse

Tivesse

Houvesse

Fosses

Estivesses

Tivesses

Houvesses

Fosse

Estivesse

Tivesse

Houvesse

Fssemos

Estivssemos

Tivssemos

Houvssemos

Fsseis

Estivsseis

Tivsseis

Houvsseis

Fossem

Estivessem

Tivessem

Houvessem

Futuro

For

Estiver

Tiver

Houver

Fores

Estiveres

Tiveres

Houveres

For

Estiver

Tiver

Houver

Formos

Estivermos

Tivermos

Houvermos

Fordes

Estiverdes

Tiverdes

Houverdes

Forem

Estiverem

Tiverem

Houverem

modo imperativo

Afirmativo

S tu

Est tu

Tem tu2

H tu

Seja voc

Esteja voc

Tenha voc

Haja voc

Sejamos ns

Estejamos ns

Tenhamos ns

Hajamos ns

Sede vs

Estai vs

Tende vs

Havei vs

Sejam vocs

Estejam vocs

Tenham vocs

Hajam vocs

Negativo

No sejas tu

No estejas tu

No tenhas tu

No hajas tu

No seja voc

No esteja voc

No tenha voc

No haja voc

No sejamos ns

No estejamos ns

No tenhamos ns

No hajamos ns

No sejais vs

No estejais vs

No tenhais vs

No hajais vs

No sejam vocs

No estejam vocs

No tenham vocs

No hajam vocs

formas nominais

Infinitivo no flexionado

Ser

Estar

Ter

Haver

Infinitivo flexionado

Ser

Estar

Ter

Haver

Seres

Estares

Teres

Haveres

Ser

Estar

Ter

Haver

Sermos

Estarmos

Termos

Havermos

Serdes

Estardes

Terdes

Haverdes

Serem

Estarem

Terem

Haverem

Gerndio

Sendo

Estando

Tendo

Havendo

Particpio

Sido

Estado

Tido

Havido

1. O Vocabulrio Oficial s adota esta forma; porm, nos poetas pode ocorrer a pronncia como disslabo  te-em-, como dizem creem, deem, leem, veem. Ocorre o mesmo com vm 
(de vir). Note-se, de passagem, que os disslabos creem, deem, leem, veem, so pronncias relativamente modernas. As formas antigas eram: crem, dem, lem, vem.

2. Com m final, e no com n.

Conjugao composta

2  Conjugao composta

modo indicativo

Pretrito perfeito composto

Pretrito mais-que-perfeito composto

Futuro do presente composto

Futuro do Pretrito composto

modo subjuntivo

Pretrito perfeito

Pretrito mais-que-perfeito

Futuro composto

formas nominais

Infinitivo no flexionado composto

Ter

(ou haver)

sido, estado, tido, havido

Infinitivo flexionado composto

Gerndio

Tendo

(ou havendo)

sido, estado, tido, havido

Conjugao do verbo pr

Conjugao do verbo pr

1  Conjugao simples

modo indicativo

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perfeito

Ponho

Punha

Pus

Pes

Punhas

Puseste

Pe

Punha

Ps

Pomos

Pnhamos

Pusemos

Pondes

Pnheis

Pusestes

Pem

Punham

Puseram

Pretrito mais-que-perf.

Futuro do pretrito

Futuro do presente

Pusera

Poria

Porei

Puseras

Porias

Pors

Pusera

Poria

Por

Pusramos

Poramos

Poremos

Pusreis

Poreis

Poreis

Puseram

Poriam

Poro

modo subjuntivo

Presente

Pretrito imperfeito

Futuro

Ponha

Pusesse

Puser

Ponhas

Pusesses

Puseres

Ponha

Pusesse

Puser

Ponhamos

Pusssemos

Pusermos

Ponhais

Pussseis

Puserdes

Ponham

Pusessem

Puserem

modo imperativo

Afirmativo

Negativo

Pe tu

No ponhas tu

Ponha voc

No ponha voc

Ponhamos ns

No ponhamos ns

Ponde vs

No ponhais vs

Ponham vocs

No ponham vocs

formas nominais

Infinitivo no flexionado

Infinitivo flexionado

Pr

Pr

Pores

Pr

Pormos

Pordes

Porem

Gerndio

Particpio

Pondo

Posto

2 - Conjugao composta

modo indicativo

Pretrito perfeito composto

Pretrito mais-que-perfeito composto

Tenho

posto

Tinha

posto

Tens

posto

Tinhas

posto

Tem

posto

Tinha

posto

Temos

posto

Tnhamos

posto

Tendes

posto

Tnheis

posto

Tm

posto

Tinham

posto

Futuro do presente composto

Futuro do pretrito composto

Terei

posto

Teria

posto

Ters

posto

Terias

posto

Ter

posto

Teria

posto

Teremos

posto

Teramos

posto

Tereis

posto

Tereis

posto

Tero

posto

Teriam

posto

modo subjuntivo

Pretrito perfeito

Pretrito mais-que-perf.

Futuro

Tenha

posto

Tivesse

posto

Tiver

posto

Tenhas

posto

Tivesses

posto

Tiveres

posto

Tenha

posto

Tivesse

posto

Tiver

posto

Tenhamos

posto

Tivssemos

posto

Tivermos

posto

Tenhais

posto

Tivsseis

posto

Tiverdes

posto

Tenham

posto

Tivessem

posto

Tiverem

posto

formas nominais

Infinitivo no flexionado

Infinitivo flexionado

Ter

posto

Ter

posto

Teres

posto

Ter

posto

Termos

posto

Terdes

posto

Terem

posto

Gerndio composto

Tendo

posto

Conjugao de um verbo composto na voz passiva: ser amado

Conjugao de um verbo composto na voz passiva: ser amado

modo indicativo

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perf. simples

Sou

amado

Era

amado

Fui

amado

s

amado

Eras

amado

Foste

amado



amado

Era

amado

Foi

amado

Somos

amados

ramos

amados

Fomos

amados

Sois

amados

reis

amados

Fostes

amados

So

amados

Eram

amados

Foram

amados

Pretrito perfeito composto

Pretrito mais-que-perfeito simples

Tenho

sido amado

Fora

amado

Tens

sido amado

Foras

amado

Tem

sido amado

Fora

amado

Temos

sido amados

Framos

amados

Tendes

sido amados

Freis

amados

Tm

sido amados

Foram

amados

Pret. mais-que-perfeito composto

Futuro do presente simples

Tinha

sido amado

Serei

amado

Tinhas

sido amado

Sers

amado

Tinha

sido amado

Ser

amado

Tnhamos

sido amados

Seremos

amados

Tnheis

sido amados

Sereis

amados

Tinham

sido amados

Sero

amados

Futuro do presente composto

Futuro do pretrito simples

Terei

sido amado

Seria

amado

Ters

sido amado

Serias

amado

Ter

sido amado

Seria

amado

Teremos

sido amados

Seramos

amados

Tereis

sido amados

Sereis

amados

Tero

sido amados

Seriam

amados

Futuro do pretrito composto

Teria

sido amado

Terias

sido amado

Teria

sido amado

Teramos

sido amados

Tereis

sido amados

Teriam

sido amados

modo subjuntivo

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perfeito

Seja

amado

Fosse

amado

Tenha

sido amado

Sejas

amado

Fosses

amado

Tenhas

sido amado

Seja

amado

Fosse

amado

Tenha

sido amado

Sejamos

amados

Fssemos

amados

Tenhamos

sido amados

Sejais

amados

Fsseis

amados

Tenhais

sido amados

Sejam

amados

Fossem

amados

Tenham

sido amados

Pretrito mais-que-perfeito

Futuro

Futuro composto

Tivesse

sido amado

For

amado

Tiver

sido amado

Tivesses

sido amado

Fores

amado

Tiveres

sido amado

Tivesse

sido amado

For

amado

Tiver

sido amado

Tivssemos

sido amados

Formos

amados

Tivermos

sido amados

Tivsseis

sido amados

Fordes

amados

Tiverdes

sido amados

Tivessem

sido amados

Forem

amados

Tiverem

sido amados

formas nominais

Infinitivo no flexionado

Infinitivo no flexionado composto

Ser

amado

Ter

sido amado

Infinitivo flexionado composto

Infinitivo flexionado

Ser

amado

Ter

sido amado

Seres

amado

Teres

sido amado

Ser

amado

Ter

sido amado

Sermos

amados

Termos

sido amados

Serdes

amados

Terdes

sido amados

Serem

amados

Terem

sido amados

Gerndio

Gerndio composto

Sendo amado

Tendo

sido amado

Observaes sobre a voz passiva:

1.) O particpio neste caso aparece na forma feminina se a referncia  feita a ser do gnero feminino:

Ele  amado. Ela  amada.

2.) Tambm nas trs pessoas do plural o particpio vai ao plural:

Voz ativa  Ela tem estudado. Elas tm estudado.

Voz passiva  Ela  amada. Elas so amadas.

3.) Na voz passiva no se usa o imperativo.

Conjugao de um verbo pronominal: apiedar-se

Conjugao de um verbo pronominal: apiedar-se  J vimos que o verbo se diz pronominal quando o pronome oblquo se refere ao pronome reto:

Eu me visto.   Ns nos arrependemos.   Eles se foram.

O pronome tono pode vir antes, no meio ou depois do verbo ou verbos (se for uma conjugao composta), de acordo com certos princpios que sero futuramente estudados:

a) prclise: se o vocbulo tono vem antes: Ele se feriu (pronome tono procltico);

b) mesclise: se o vocbulo tono vem no meio (dos futuros, do presente e do pretrito): Vestir-se- se puder. Vestir-nos-amos se pudssemos (pronome tono mesocltico);

c) nclise: se o vocbulo tono vem depois: Queixamo-nos ao diretor (pronome tono encltico).

Nota importante  Se o pronome for encltico, nestes casos, s haver uma alterao no verbo a que pertencer o pronome: perder o s final da 1. pessoa do plural:

queixo-me

queixas-te

queixa-se

queixamo-nos

queixais-vos

queixam-se

Nas outras posies, o verbo ficar intacto:

Ns nos queixamos.   Queixar-nos-emos.

Atente-se para o seguinte modelo e para as observaes feitas sobre a impossibilidade da posposio em algumas formas:

Apiedar-se

modo indicativo

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perfeito

apiedo-me

apiedava-me

apiedei-me

apiedas-te

apiedavas-te

apiedaste-te

apieda-se

apiedava-se

apiedou-se

apiedamo-nos

apiedvamo-nos

apiedamo-nos

apiedais-vos

apiedveis-vos

apiedastes-vos

apiedam-se

apiedavam-se

apiedaram-se

Pretrito perfeito composto

Pretrito mais-que-perfeito

tenho-me

apiedado 1

apiedara-me

tens-te

apiedado

apiedaras-te

tem-se

apiedado

apiedara-se

temo-nos

apiedado

apiedramo-nos

tendes-vos

apiedado

apiedreis-vos

tm-se

apiedado

apiedaram-se

Pretrito mais-que-perfeito composto

Futuro do presente

tinha-me

apiedado

apiedar-me-ei 2

tinhas-te

apiedado

apiedar-te-s

tinha-se

apiedado

apiedar-se-

tnhamo-nos

apiedado

apiedar-nos-emos

tnheis-vos

apiedado

apiedar-vos-eis

tinham-se

apiedado

apiedar-se-o

Futuro do presente composto

Futuro do pretrito

ter-me-ei

apiedado

apiedar-me-ia

ter-te-s

apiedado

apiedar-te-ias

ter-se-

apiedado

apiedar-se-ia

ter-nos-emos

apiedado

apiedar-nos-amos

ter-vos-eis

apiedado

apiedar-vos-eis

ter-se-o

apiedado

apiedar-se-iam

Futuro do pretrito composto

ter-me-ia

apiedado

ter-se-ias

apiedado

ter-se-ia

apiedado

ter-nos-amos

apiedado

ter-vos-eis

apiedado

ter-se-iam

apiedado

1 Nunca se use pronome tono posposto a particpio.

2 Nunca se use pronome tono posposto aos futuros do presente e do pretrito; usar-se- a anteposio ou a interposio, como veremos depois.

modo subjuntivo

Nota: Raramente aparece pronome posposto a verbo neste modo, por aparecer, em geral, em orao subordinada.

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perfeito

apiede-me

apiedasse-me

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

apiedes-te

apiedasses-te

apiede-se

apiedasse-se

apiedemo-nos

apiedssemo-nos

apiedeis-vos

apiedsseis-vos

apiedem-se

apiedassem-se

Pretrito mais-que-perfeito

Futuro composto

tivesse-me

apiedado

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

tivesses-te

apiedado

tivesse-se

apiedado

tivssemo-nos

apiedado

tivsseis-vos

apiedado

tivessem-se

apiedado

modo imperativo

Afirmativo

Negativo

apieda-te tu

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

apiede-se voc

apiedemo-nos ns

apiedai-vos vs

apiedem-se vocs

formas nominais

Infinitivo no flexionado simples

Infinitivo no flexionado composto

apiedar-me

ter-me

apiedado

apiedar-te

ter-te

apiedado

apiedar-se

ter-se

apiedado

apiedar-nos

ter-nos

apiedado

apiedar-vos

ter-vos

apiedado

apiedar-se

ter-se

apiedado

Infinito flexionado simples

Infinito flexionado composto

apiedar-me

ter-me

apiedado

apiedares-te

teres-te

apiedado

apiedar-se

ter-se

apiedado

apiedarmo-nos

termo-nos

apiedado

apiedardes-vos

terdes-vos

apiedado

apiedarem-se

terem-se

apiedado

Gerndio simples

Gerndio composto

apiedando-me

tendo-me

apiedado

apiedando-te

tendo-te

apiedado

apiedando-se

tendo-se

apiedado

apiedando-nos

tendo-nos

apiedado

apiedando-vos

tendo-vos

apiedado

apiedando-se

tendo-se

apiedado

Particpio

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

Conjugao de um verbo com pronome oblquo tono: p-lo

Conjugao de um verbo com pronome oblquo tono (sem ser pronominal): tipo p-lo  O verbo pode acompanhar-se de um pronome oblquo tono que no se refira ao pronome reto, 
isto , ao sujeito:

Eu o vi.   Ns te admiramos.   Ela o chama.

Quando os pronomes oblquos tonos o, a, os, as estiverem depois do verbo ou no meio modificam-se de acordo com o final a que se acham pospostos:

a) se o verbo terminar por vogal ou semivogal oral, os pronomes aparecem inalterados: ponho-o, ponho-a, ponho-os, ponho-as;

b) se o verbo terminar por r, s ou z, desaparecem estas consoantes e os pronomes aparecem nas antigas formas lo, la, los, las:

pr lo = p-lo; pes lo = pe-lo; diz lo = di-lo; deixar lo ia = deix-lo-ia

Observaes:

1.) Recorde-se a acentuao dos oxtonos estudada em Regras de acentuao.

2.) Se o verbo termina por ns, o n passar a m: tens lo = tem-lo.

c) se o verbo terminar por som nasal (m ou slaba com til), os pronomes assumem as formas no, na, nos, nas:

pe + o = pe-no; viram + a = viram-na.

Nota: Se os pronomes vm antes do verbo, no h nenhuma alterao nos pronomes e no verbo: Ele o pe ali.   Eu o fiz.

Observao: Alguns autores chamam pronominais reflexos aos verbos na voz reflexiva e pronominais irreflexivos (ou no reflexos) aos verbos deste pargrafo. 62

Atente-se para o seguinte modelo e para as observaes feitas sobre a impossibilidade da posposio em algumas formas:

P-lo

(s a conjugao simples)

modo indicativo

Presente

Pretrito imperfeito

Pretrito perfeito

ponho-o

punha-o

pu-lo

pe-lo

punha-lo

puseste-o

pe-no

punha-o

p-lo

pomo-lo

pnhamo-lo

pusemo-lo

ponde-lo

pnhei-lo

puseste-lo

pem-no

punham-no

puseram-no

Pret. Mais-que-perf.

futuro do presente

Futuro do pretrito

Pusera-o

p-lo-ei 1

p-lo-ia

pusera-lo

p-lo-s

p-lo-ias

pusera-o

p-lo-

p-lo-ia

pusramo-lo

p-lo-emos

p-lo-amos

pusrei-lo

p-lo-eis

p-lo-eis

puseram-no

p-lo-o

p-lo-iam

1 Note-se que nos futuros do presente e do pretrito h formas verbais com dois acentos grficos.

modo subjuntivo

Nota: raramente aparece pronome posposto a verbo neste modo.

Presente

Pretrito imperfeito

Futuro

ponha-o

pusesse-o

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

ponha-lo

pusesse-lo

ponha-o

pusesse-o

ponhamo-lo

pusssemo-lo

ponhai-lo

pusssei-lo

ponham-no

pusessem-no

modo imperativo

Afirmativo

Negativo

pe-no tu 2

No se usa pronome posposto a verbo nesta forma!

ponha-o voc

ponhamo-lo ns

ponde-o vs 2

ponham-no vocs

Formas Nominais

Infinitivo

Gerndio

Particpio

p-lo

pondo-o

No se usa com pronome posposto.

2 Recorde-se que o s final do presente do indicativo desaparece no imperativo afirmativo.

Conjugao dos verbos irregulares

Conjugao dos verbos irregulares  Na seguinte relao de verbos, apresentamos, alm das formas irregulares, algumas regulares em que frequentemente se erra. As formas que 
aqui faltam e se empregam so todas regulares.

1. Conjugao:

1. Conjugao:

Dar

Pres. ind.: dou, ds, d, damos, dais, do.

Pret. perf. ind.: dei, deste, deu, demos, destes, deram.

M.-que-Perf. ind.: dera, deras, dera, dramos, dreis, deram.

Pres. subj.: d, ds, d, demos, deis, deem.

Pret. imperf. subj.: desse, desses, desse, dssemos, dsseis, dessem.

Fut. subj.: der, deres, der, dermos, derdes, derem.

Por este modelo conjuga-se desdar; circundar , porm, regular.

Estar

Ver a lista dos verbos auxiliares.

Por este conjugam-se: sobestar e sobrestar. So regulares os seus derivados constar, prestar, obstar, instar, distar, restar, etc.

2. Conjugao

2. Conjugao

Caber

Pres. ind.: caibo, cabes, cabe, cabemos, cabeis, cabem.

Pret. perf. ind.: coube, coubeste, coube, coubemos, coubestes, couberam.

M.-q.-perf. ind.: coubera, couberas, coubera, coubramos, coubreis, couberam.

Pres. subj.: caiba, caibas, caiba, caibamos, caibais, caibam.

Pret. imp. subj.: coubesse, coubesses, coubesse, coubssemos, coubsseis, coubessem.

Fut. subj.: couber, couberes, couber, coubermos, couberdes, couberem.

Comprazer

Ver prazer.

Crer

Pres. ind.: creio, crs, cr, cremos, credes, creem.

Pret. perf. ind.: cri, creste, creu, cremos, crestes, creram.

Pres. subj.: creia, creias, creia, creiamos, creiais, creiam.

Pret. impa. subj.: cresse, cresses, cresse, crssemos, crsseis, cressem.

Fut. subj.: crer, creres, crer, crermos, crerdes, crerem.

Imperativo: cr, crede.

Part.: crido.

Com este conjuga-se descrer.

Dizer

Pres. ind.: digo, dizes, diz, dizemos, dizeis, dizem.

Pret. Perf. ind.: disse, disseste, disse, dissemos, dissestes, disseram.

M.-q.-perf. ind.: dissera, disseras, dissera, dissramos, dissreis, disseram.

Fut. pres.: direi, dirs, dir, diremos, direis, diro.

Fut. pret.: diria, dirias, diria, diramos, direis diriam.

Pres. subj.: diga, digas, diga, digamos, digais, digam.

Pret. imperf. subj.: dissesse, dissesses, dissesse, dissssemos, disssseis, dissessem.

Fut. subj.: disser, disseres, disser, dissermos, disserdes, disserem,

Imperativo: dize, dizei.

Part.: dito.

Por este se conjugam bendizer, condizer, contradizer, desdizer, maldizer, predizer.

Fazer

Pres. ind.: fao, fazes, faz, fazemos, fazeis, fazem.

Pret. perf. ind.: fiz, fizeste, fez, fizemos, fizestes, fizeram.

M.-q.-perf. ind.: fizera, fizeras, fizera, fizramos, fizreis, fizeram.

Fut. pres.: farei, fars, far, faremos, fareis, faro.

Fut. pret.: faria, farias, faria, faramos, fareis, fariam.

Pres. subj.: faa, faas, faa, faamos, faais, faam.

Pret. imp. subj.: fizesse, fizesses, fizesse fizssemos, fizsseis, fizessem.

Fut. subj.: fizer, fizeres, fizer, fizermos, fizerdes, fizerem.

Imperativo: faz(e), fazei.

Part. : feito.

Por este se conjugam afazer, contrafazer, desfazer, liquefazer, perfazer, refazer, rarefazer, satisfazer.

Haver

Ver a conjugao dos verbos auxiliares.

Jazer

Pret. ind.: jazo, jazes, jaz, jazemos, jazeis, jazem.

Pret. Perf. ind.: jazi, jazeste, jazeu, jazemos, jazestes, jazeram.

As outras formas  pois  totalmente conjugado  so regulares.

Por este se modela adjazer.

Ler

Pres. ind.: leio, ls, l, lemos, ledes, leem.

Pret. perf. ind.: li, leste, leu, lemos, lestes, leram.

M.-q.-perf. ind.: lera, leras, lera, lramos, lreis, leram.

Pres. subj.: leia, leias, leia, leiamos, leiais, leiam.

Pret. imp. subj.: lesse, lesses, lesse, lssemos, lsseis, lessem.

Fut. subj.: ler, leres, ler, lermos, lerdes, lerem.

Por este se conjugam reler e tresler.

Perder

Pres. ind.: perco (), perdes, perde, perdemos, perdeis, perdem.

Pres. subj.: perca (), percas (), perca (), percamos (), percais (), percam ().

Poder

Pres. ind.: posso, podes, pode, podemos, podeis, podem.

Pret. perf. ind.: pude, pudeste, pde, pudemos, pudestes, puderam.

M.-q.-perf. ind.: pudera, puderas, pudera, pudramos, pudreis, puderam.

Pres. subj.: possa, possas, possa, possamos, possais, possam.

Pret. imp.: pudesse, pudesses, pudesse, pudssemos, pudsseis, pudessem.

Fut. subj.: puder, puderes, puder, pudermos, puderdes, puderem.

Desusado modernamente no imperativo.

Prazer

(Pouco usado na 1. e 2. pessoa)

Pres. ind.: praz, prazem.

Pret. perf. ind.: prouve, prouveram.

M.-q.-perf. ind.: prouvera, prouveram.

Pret. imp. subj.: prouvesse, prouvessem.

Fut. subj.: prouver, prouverem.

Por este se conjugam aprazer, desprazer, desaprazer, verbos que se apresentam em todas as pessoas. Comprazer e descomprazer so verbos completos e se modelam por prazer; no 
pret. perfeito e m.-q.-perfeito do indicativo, pret. imperfeito e futuro do subjuntivo podem ainda ser conjugados regularmente.

(...) o poeta (...) no aprazia a uma companhia ortodoxa [JR.2, 195].

Querer

Pres. ind.: quero, queres, quer, queremos, quereis, querem.

Pret. Perf. ind.: quis, quiseste, quis, quisemos, quisestes, quiseram.

M.-q.-perf. ind.: quisera, quiseras, quisera, quisramos, quisreis, quiseram.

Pres. subj.: queira, queiras, queira, queiramos, queirais, queiram.

Pret. imp. subj.: quisesse, quisesses, quisesse, quisssemos, quissseis, quisessem.

Fut. subj.: quiser, quiseres, quiser, quisermos, quiserdes, quiserem.

Part.: querido (a forma quisto s se usa em benquisto e malquisto).

A moderna forma quere, 3. pessoa do singular, em lugar de quer, s  usada pelos portugueses. Normalmente no se usa o verbo querer no imperativo; h exemplos de querei nos 
Sermes do Pe. Antnio Vieira. Quando se usa pronome tono (o, a, os, as) posposto  3. pessoa do singular do presente do indicativo, emprega-se qu-lo ou quere-o: Qu-lo 
o teu povo [AH.4, 1, 79].

Desusado modernamente no imperativo; aparece no optativo que traduz um desejo de realizao de um fato expresso pelo infinitivo seguinte: Queira aceitar meus cumprimentos.

Requerer

Pres. ind.: requeiro, requeres, requer (ou requere), requeremos, requereis, requerem.

Pret. Perf. ind.: requeri, requereste, requereu, requeremos, requerestes, requereram.

M.-q.-perf. ind.: requerera, requereras, requerera, requerramos, requerreis, requereram.

Pres. subj.: requeira, requeiras, requeira, requeiramos, requeirais, requeiram.

Pret. imp. subj.: requeresse, requeresses, requeresse, requerssemos, requersseis, requeressem.

Fut. subj.: requerer, requereres, requerer, requerermos, requererdes, requererem.

Imperativo: requer(e), requerei.

Part.: requerido.

A 3. pessoa do singular do presente do indicativo requer  modernamente mais usada que requere, esta mais lusitana.

Saber

Pres. ind.: sei, sabes, sabe, sabemos, sabeis, sabem.

Pret. perf. ind.: soube, soubeste, soube, soubemos, soubestes, souberam.

M.-q.-perf. ind.: soubera, souberas, soubera, soubramos, soubreis, souberam.

Pres. subj.: saiba, saibas, saiba, saibamos, saibais, saibam.

Pret. imp. subj.: soubesse, soubesses, soubesse, soubssemos, soubsseis, soubessem.

Fut. subj.: souber, souberes, souber, soubermos, souberdes, souberem.

Ser

Veja a conjugao dos verbos auxiliares.

Ter

Veja a conjugao dos verbos auxiliares.

Trazer

Pres. ind.: trago, trazes, traz, trazemos, trazeis, trazem.

Pret. perf. ind.: trouxe, trouxeste, trouxe, trouxemos, trouxestes, trouxeram.

M.-q.-perf. ind.: trouxera, trouxeras, trouxera, trouxramos, trouxreis, trouxeram.

Futuro do pres.: trarei, trars, trar, traremos, trareis, traro.

Fut. do pret.: traria, trarias, traria, traramos, trareis, trariam.

Pres. subj.: traga, tragas, traga, tragamos, tragais, tragam.

Pret. imp. subj.: trouxesse, trouxesses, trouxesse, trouxssemos, trouxsseis, trouxessem.

Imperativo: traz(e), trazei.

Valer

Pres. ind.: valho, vales, vale (ou val), valemos, valeis, valem.

Pres. subj.: valha, valhas, valha, valhamos, valhais, valham.

Val, por vale,  forma corrente entre os portugueses.

Como valer conjugam-se desvaler e equivaler.

Ver

Pres. ind.: vejo, vs, v, vemos, vedes veem.

Pret. imp. ind.: via, vias, via, vamos, veis, viam.

Pret. perf. ind.: vi, viste, viu, vimos, vistes, viram.

M.-q.-perf. ind.: vira, viras, vira, vramos, vreis, viram.

Pres. subj.: veja, vejas, veja, vejamos, vejais, vejam.

Pret. imp. subj.: visse, visses, visse, vssemos, vsseis, vissem.

Fut. subj.: vir, vires, vir, virmos, virdes, virem.

Part.: visto.

Assim se conjugam antever, entrever, prever e rever. Prover e desprover modelam-se por ver, exceto no pretrito perfeito do indicativo e derivados, e particpio, quando se 
conjugam regularmente.

Pret. Perf. ind.: provi, proveste, proveu, provemos, provestes, proveram.

M.-q.-perf. ind.: provera, proveras, provera, provramos, provreis, proveram.

Fut. subj.: prover, proveres, prover, provermos, proverdes, proverem.

Part.: provido.

3. Conjugao:

3. Conjugao:

Acudir

Pres. ind.: acudo, acodes, acode, acudimos, acudis, acodem.

Pret. Perf. ind.: acudi, acudiste, acudiu, acudimos, acudistes, acudirem.

Pres. subi.: acuda, acudas, acuda, acudamos, acudais, acudam.

Pret. imp. subj.: acudisse, acudisses, acudisse, acudssemos, acudsseis, acudissem.

Imperativo: acode, acudi.

Assim se conjugam bulir, construir, cuspir, destruir, engolir 63, entupir64, escapulir, fugir 65, sacudir, subir, sumir 66.

Construir, destruir e entupir, como verbos abundantes, apresentam como formas menos usadas, construis, construi, destrui, entupes, entupe.

Os demais verbos em udir (aludir, eludir, iludir) so regulares.

Cair

Pres. ind.: caio, cais, cai, camos, cas, caem.

Pret. imp. ind.: caa, caas, caa, caamos, caeis, caam.

Pret. perf. ind.: caiu, caste, caiu, camos, castes, caram.

M.-q.-perf. ind.: cara, caras, cara, caramos, careis, caram.

Fut. pres.: cairei, cairs, cair, cairemos, caireis, cairo.

Fut. pret.: cairia, cairias, cairia, cairamos, caireis, cairiam.

Pres. subj.: caia, caias, caia, caiamos, caiais, caiam.

Pret. imp. subj.: casse, casses, casse, cassemos, casseis, cassem.

Fut. subj.: cair, cares, cair, cairmos, cairdes, carem.

Por este se conjugam atrair, contrair, distrair, esvair, retrair, sair, subtrair, trair, embair.

Para a boa acentuao deste tipo de verbos, recorde-se o que se disse em Regras de acentuao.

Cobrir

Pres. ind.: cubro, cobres, cobre, cobrimos, cobris, cobrem.

Pret. Perf. ind.: cobri, cobriste, cobriu, cobrimos, cobristes, cobriram.

Pres. subj.: cubra, cubras, cubra, cubramos, cubrais, cubram.

Imperativo: cobre tu, cubra voc, cubramos ns, cobri vs, cubram vocs.

Por este se conjugam descobrir, dormir (regular no part.: dormido), encobrir, recobrir e tossir (regular no part.: tossido).

Frigir

Pres. ind.: frijo, freges, frege, frigimos, frigis, fregem.

Pres. subj.: frija, frijas, frija, frijamos, frijais, frijam.

Imperativo: frege, frija, frijamos, frigi, frijam.

Part.: frigido e frito.

Atente-se para a troca de g por j antes de a e o.

Ir

Pres. ind.: vou, vais, vai, vamos (ou imos), ides, vo.

Pret. imp. ind.: ia, ias, ia, amos, eis, iam.

Pret. Perf.: fui, foste, foi, fomos, fostes, foram.

m.-q.-perf. ind.: fora, foras, fora, framos, freis, foram.

Fut. pres.: irei, irs, ir, iremos, ireis, iro.

Fut. Pret.: iria, irias, iria, iramos, ireis, iriam.

Pres. subj.: v, vs, v, vamos, vades, vo.

Pret. imp. subj.: fosse, fosses, fosse, fssemos, fsseis, fossem.

Fut. subj.: for, fores, for, formos, fordes, forem.

Imperativo: vai, v, vamos, ide, vo.

Gerndio: indo.

Part.: ido.

Medir

Pres. ind.: meo, medes, mede, medimos, medis, medem.

Pres. subj.: mea, meas, mea, meamos, meais, meam.

Assim se conjugam desmedir e pedir.

Mentir

Pres. ind.: minto, mentes, mente, mentimos, mentis, mentem.

Pres. subj.: minta, mintas, minta, mintamos, mintais, mintam.

Por este verbo se conjugam consentir, desmentir, persentir (sentir profundamente), pressentir (prever), ressentir, sentir.

Ouvir

Pres. ind.: ouo, ouves, ouve, ouvimos, ouvis, ouvem.

Pres. subj.: oua, ouas, oua, ouamos, ouais, ouam.

Entre portugueses ocorre a variante oio, ao lado de ouo. Tambm no presente do subjuntivo: oia, oias, oia, oiamos, oiais, oiam.

Pedir

Pres. ind.: peo, pedes, pede, etc.

Pres. subj.: pea, peas, pea, etc.

Pedir serve hoje de modelo para desimpedir, despedir, expedir e impedir (que no so derivados de pedir).

2Parir

Polir (= lustrar, civilizar)

Pres. ind.: pulo, pules, pule, polimos, polis, pulem.

Pret. perf.: poli, poliste, poliu, polimos, polistes, poliram.

Pres. subj.: pula, pulas, pula, pulamos, pulais, pulam.

Imperativo: pule, pula, pulamos, poli, pulam.

Por este verbo se conjugam despolir e sortir (= abastecer, prover, misturar, combinar). Surtir (com u)  regular: surto, surtes, surte, surtimos, surtis, surtem67.

...enquanto o progresso das cincias e das artes pule e melhora exteriormente o gnero humano, destruiria o intolervel egosmo que destri ou afeia o formoso edifcio da 
moderna civilizao. [AH.2, 142].

Progredir

Pres. ind.: progrido, progrides, progride, progredimos, progredis, progridem.

Pret. imp. ind.: progredia, progredias, progredia, progredamos, progredeis, progrediam.

Pret. perf. ind.: progredi, progrediste, progrediu, progredimos, progredistes, progrediram.

Pres. subj.: progrida, progridas, progrida, progridamos, progridais, progridam.

Por este verbo se conjugam agredir, cerzir, denegrir, prevenir, regredir, transgredir. Remir, hoje mais usado como defectivo (cf. Verbos defectivos e abundantes), seguia outrora 
o modelo de progredir: rimo, rimes, rime, remimos, remis, rimem.

Por 20 libras anuais a aldeia de Favaios rime todos os tributos e obtm o privilgio de nomear o seu juiz [AH.2, 149].

Rir

Pres. ind.: rio, ris, ri, rimos, rides, riem.

Pret. imperf. ind. : ria, rias, ria, ramos, reis, riam.

Pret. perf. ind.: ri, riste, riu, rimos, ristes, riram.

Part. : rido.

Segue este modelo o verbo sorrir.

Servir

Pres. ind.: sirvo, serves, serve, servimos, servis, servem.

Pres. subj.: sirva, sirvas, sirva, sirvamos, sirvais, sirvam.

Imperativo: serve, sirva, sirvamos, servi, sirvam.

Por este verbo se conjugam aderir, advertir, aferir, compelir, competir, concernir, conferir, conseguir, convergir, deferir, despir, digerir, divertir, expelir, impelir, inserir, 
perseguir, preferir, preterir, repelir, seguir, sugerir, vestir.

Submergir

Pres. ind.: submerjo (), submerges (), submerge (), submergimos, submergis, submergem ().

Pres. subj.: submerja (), submerjas (), submerja (), submerjamos, submerjais, submerjam ().

Imperativo: submerge (), submerja (), submerjamos, submergi, submerjam ().

Seguem este modelo aspergir, emergir, imergir.

Vir

Pres. ind.: venho, vens, vem, vimos, vindes, vm.

Pret. imperf. ind.: vinha, vinhas, vinha, vnhamos, vnheis, vinham.

Pret. Perf. ind.: vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram.

Fut. pres.: virei, virs, vir, viremos, vireis viro.

Fut. pret.: viria, virias, viria, viramos, vireis, viriam.

Pres. subj.: venha, venhas, venha, venhamos, venhais, venham.

Fut. subj.: vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem.

Imperativo: vem, venha, venhamos, vinde, venham.

Gerndio: vindo.

Part.: vindo.

Por este modelo se conjugam advir, avir-se, convir, desavir, intervir, provir, sobrevir.

Emprego do verbo: tempos e modos

Emprego do Verbo

Emprego de tempos e modos

Indicativo

1) Indicativo   o modo que normalmente aparece nas oraes independentes, e nas dependentes que encerram um fato real ou tido como tal.

Presente  Para bem entender os diversos empregos por que se desdobra o presente no sistema de oposies em que se insere, temos de considerar a lio de Coseriu, que prope 
o seguinte esquema [ECs.5, 139]:

Ainda teramos de, no interior do passado, admitir outra vez a oposio presente/passado, isto , uma oposio entre um presente do passado (cantava  cantei) e um passado 
do passado (cantara).

Isto significa que o presente, a rigor, se caracteriza pelo trao negativo ou neutral em relao ao pretrito (passado) e ao futuro, que so termos positivos, isto , 
aplicados ao ocorrido, o que lhe permite, ao presente, empregar-se, em determinados contextos, em lugar do passado e do futuro [ECs.1, 234]. No ocorrendo a neutralizao, 
tais substituies ficam impedidas: em agora estarei muito cansado, se entendermos agora mesmo, e no em seguida, depois do momento em que falo (quando a construo ser 
perfeitamente possvel), no se empregar o futuro pelo presente.

O presente denota uma declarao:

a) que se verifica ou que se prolonga at o momento em que se fala:

Ocorre-me uma reflexo imoral, que  ao mesmo tempo uma correo de estilo [MA.1, 56].

b) que acontece habitualmente:

A Terra gira em torno do Sol.

c) que representa uma verdade universal (o presente eterno):

O interesse adota e defende opinies que a conscincia reprova [MM].

Emprega-se o presente:

a) pelo pretrito, em narraes animadas e seguidas (presente histrico), como para dar a fatos passados o sabor de novidade das coisas atuais:

Pela manh, bates-lhe  porta, chamando-o. Como ningum responda, procuras entrar. Um peso imprevisto detm o esforo do teu brao. Insistes. Entras. E recuas, os olhos escancarados, 
o rosto transfigurado pela dor e pelo assombro, o corao parado no peito [HC.1, 16-17]. 68

b) pelo futuro do indicativo para indicar com nfase uma deciso:

Amanh eu vou  cidade.

c) pelo pretrito imperfeito do subjuntivo:

Se respondo mal, ele se zangaria.

d) pelo futuro do subjuntivo:

Se queres a paz, prepara-te para a guerra.

Observao: Para exprimir ao comeada emprega-se, em geral, o verbo estar seguido de gerndio ou de infinitivo precedido de a preposio.

Pretrito imperfeito  O imperfeito, como ensina Coseriu [ECs.5, 165],  um membro no marcado, extensivo, de uma oposio que encerra trs membros, dois dos quais so marcados 
e intensivos: o mais-que-perfeito e o chamado condicional presente, na forma simples.

Nesta oposio, o mais-que-perfeito significa um anterior, enquanto o condicional presente (futuro do pretrito) um depois. Da o imperfeito no significar nem antes 
nem depois e, por isso, pode ocupar todo o espao da oposio. Isto implica que no se pode, a rigor, atribuir ao imperfeito a pura e simples significao de passado, a 
no ser que ele seja considerado um presente do passado. Como um segundo presente pode  como ocorre com o presente prprio, que tem seu pretrito representado pelo perfeito 
simples, e o seu futuro representado pelo futuro simples  ter seu prprio passado (o mais-que-perfeito) e seu prprio futuro (o condicional presente). Por isso, o presente 
pode substituir o pretrito perfeito simples e o futuro, mas o imperfeito no.

Pode-se, neste grfico, representar o presente e o imperfeito no sistema dos tempos em portugus; o imperfeito, sendo um termo neutro do plano inatual, pode ser empregado 
em lugar do seu pretrito (passado) e de seu futuro:

Da a variedade e ambivalncias destes dois tempos na atividade do discurso; geralmente uma forma verbal no est por outra ou em lugar de outra, mas sim no lugar de outra 
significao [ECs.5, 150].

Emprega-se o pret. imperfeito quando nos transportamos mentalmente a uma poca passada e descrevemos o que ento era presente:

Eugnia coxeava um pouco, to pouco, que eu cheguei a perguntar-lhe se machucara o p [MA.1, 193].

Nos pedidos e solicitaes ou denota que duvidamos da realizao do fato ou exprime um desejo feito com modstia ou com o simples propsito:

Queria viver para o seu filho   como ele explicava o desejo da vida [CBr.9, 22].

Sr. Manuel, eu desejava telefonar.

Pode substituir, principalmente na conversao, o futuro do pretrito, quando se quer exprimir fato categrico ou a segurana do falante:

Se me desprezasses, morreria, matava-me [CBr.9, 19].

Observaes:

1.) Emprega-se o pretrito imperfeito do verbo dever (fazer uma coisa) em lugar do pretrito perfeito:

Ele devia (e no deveu) ser (ou ter sido) ontem mais atencioso para contigo [ED.1,  207, a, obs].

2.) Aparece em lugar do futuro do pretrito para denotar um fato certo como consequncia de outro que no se deu:

Eu, se tivesse crdito na praa, pedia outro emprstimo.

3.) Ainda na referncia ao futuro, entra o imperfeito chamado preldico ou imperfeito dos jogos: ento [neste jogo que vamos comear a jogar] eu era o rei e tu eras a rainha 
[ECS.1, 207]. Agora eu era o heri e o meu cavalo s falava ingls (Joo e Maria, de Chico Buarque e Sivuca).

Pretrito perfeito  O pretrito imperfeito  o tempo da ao prolongada ou repetida com limites imprecisos; ou no nos esclarece sobre a ocasio em que a ao terminaria 
ou nada nos informa quanto ao momento do incio. O pretrito perfeito, pelo contrrio, fixa e enquadra a ao dentro de um espao de tempo determinado [SA.5, II, 103]:

Marcela teve primeiro um silncio indignado; depois fez um gesto magnfico: tentou atirar o colar  rua. Eu retive-lhe o brao; pedi-lhe muito que no me fizesse tal desfeita, 
que ficasse com a joia. Sorriu e ficou [MA.1, 55].

No se pode dizer, comenta Coseriu 69, que o perfeito simples e o imperfeito se contrapem por uma simples oposio. Na essncia, o imperfeito em portugus e no romnico visualiza 
as aes como num pano de fundo, como se completando num nvel secundrio.

O pretrito composto (tenho trabalhado) exprime:

a) repetio ou prolongao de um fato at o momento em que se fala, ou fato habitual:

No me tens dito nada das tuas ocupaes nessa casa [CBr.3, II, 133].

b) fato consumado:

Tenho dito (no fim dos discursos).

Pretrito mais-que-perfeito (simples e composto)  Denota uma ao anterior a outra j passada:

No dia seguinte, antes de me recitar nada, explicou-me o capito que s por motivos graves abraara a profisso martima... [MA.1, 66-67].

Observao: Em certas oraes temporais, aparece o pretrito perfeito onde se esperaria o mais-que-perfeito:

Logo que se retirou o inimigo, mandou D. Joo Mascarenhas enterrar os mortos [ED.1,  208].

Ao revs encontra-se em oraes subordinadas o mais-que-perfeito correspondendo a um presente da orao subordinada, quando este presente tem o sentido de um pretrito, v.g. 
Os antiqurios dizem (= deixaram escrito) que ele vivera neste reinado [ED.1].

Emprega-se ainda o mais-que-perfeito simples em lugar do futuro do pretrito do indicativo e do pretrito do subjuntivo, o que serve hoje como trao estilstico de linguagem 
solene:

dizendo: Mais servira (= serviria), se no fora (= fosse) para to longo amor to curta a vida [LC.2, 147].

Que fora (= seria) a vida, se nela no houvera (= houvesse) lgrimas? [AH.1, 32].

Futuro  O futuro do presente e o do pretrito denotam uma ao que ainda se vai realizar:

Os homens nos parecero sempre injustos enquanto o forem as pretenses do nosso amor-prprio [MM].

Sem a crena em uma vida futura, a presente seria inexplicvel [MM].

O futuro do presente pode ainda exprimir:

a) em lugar do presente, incerteza ou ideia aproximada, simples possibilidade ou asseverao modesta:

O mal no ser a especiaria do bem? [MM].

Ele ter seus vinte anos.

No caso de ser empregado, em linguagem polida, nas interrogaes, o futuro no obriga o interlocutor a responder, como quando se emprega o verbo no presente ou no pretrito 
[SA.2, 225].

b) em lugar do imperativo, uma ordem ou recomendao, principalmente nas prescries e recomendaes morais:

Defenders os teus direitos.

No furtars.

Nas oraes condicionais de se, nas temporais de quando e enquanto, nas conformativas (de segundo e conforme, etc.), nas adjetivas que denotam simples concepo, o futuro 
do indicativo  substitudo pelo futuro conjuntivo (subjuntivo)  o qual s nestas oraes se usa (ou tambm em certos casos pelo presente conjuntivo); assim diz-se: se vejo, 
se vi, mas: se vir; quando vejo, quando vi, mas: quando vir; aquele que v, aquele que viu, mas: aquele que vir [ED.1,  209, a, obs.].

O futuro do pretrito se emprega ainda para denotar:

a) que um fato se dar, agora ou no futuro, dependendo de certa condio:

A vida humana seria incomportvel sem as iluses e prestgios que a circundam [MM].

Se pudssemos chegar a um certo grau de sabedoria, morreramos tsicos de amor e admirao por Deus [MM].

b) asseverao modesta em relao ao passado, admirao por um fato se ter realizado:

Eu teria ficado satisfeito com as tuas cartas [RV].

Ns pretenderamos saber a verdade.

Seria isso verdadeiro?

c) incerteza:

Haveria na festa umas doze pessoas.

Emprega-se o auxiliar tivera (ou houvera) na orao condicional, em lugar do mais-que-perfeito, em relao a um futuro do pretrito posto na orao principal:

Estudaria (ou teria estudado), se tivera (= tivesse) sabido da prova.

Subjuntivo

2) Subjuntivo  O modo subjuntivo ocorre normalmente nas oraes independentes optativas, nas imperativas negativas e afirmativas (nestas ltimas com exceo da 2. pessoa 
do singular e plural), nas dubitativas com o advrbio talvez e nas subordinadas em que o fato  considerado como incerto, duvidoso ou impossvel de se realizar:

Bons ventos o levem.

No emprestes, no disputes, no maldigas e no ters de arrepender-te [MM].

No desenganemos os tolos se no queremos ter inumerveis inimigos [MM].

Louvemos a quem nos louva para abonarmos o seu testemunho [MM].

Talvez a estas horas desejem dizer-te pecavi! Talvez chorem com lgrimas de sangue [AH.5, I, 58].

Faltam-nos memrias e documentos coevos em que possamos estribar-nos para relatar tais sucessos [AH.6, I, 451].

Observao: s vezes ocorre o indicativo com talvez: Magistrado ou guerreiro de justo ou generoso se gaba:  e as turbas talvez o aplaudem e celebram seu nome [AH.2, 180]. 
Parece que o indicativo deixa antever melhor a certeza de que o de que se duvida se pode bem realizar.

Nas oraes subordinadas substantivas, ocorre o subjuntivo nos seguintes principais casos:

a) depois de expresses (verbos, nomes ou locues equivalentes) que denotam ordem, vontade, consentimento, aprovao, proibio, receio, admirao, surpresa, contentamento:

Prouvera a Deus, venervel Crimilde  tornou o quingentrio  que nos fosse lcito desamparar estes muros [AH.1, 146].

Proibi-te que o revelasses [AH.5, I, 294].

Espero que estudes e que sejas feliz.

b) depois de expresses (verbos ou locues formadas por ser, estar, ficar + substantivo ou adjetivo) que denotam desejo, probabilidade, vulgaridade, justia, necessidade, 
utilidade:

Cumpre que venhas cedo.

Convm que no nos demoremos.

 bom que compreenda logo o problema.

c) depois dos verbos duvidar, suspeitar, desconfiar e nomes cognatos (dvida, duvidoso, suspeita, desconfiana, etc.) quando empregados afirmativamente, isto , quando se 
trata de dvida, suspeita ou desconfiana reais:

... me vinham  mente suspeitas de que ela fosse um anjo transviado do cu... [AH.5, II, 321].

A luz... que suspeitvamos procedesse de lmpada esquecida por sonolento moo de reposte... [AH.5, 333].

Se o falante tem a suspeita como coisa certa, ou nela acredita, o normal  aparecer o indicativo:

Suspeitava-se que era a alma da velha Brites que andava ali penada [AH.5, 364].

Usa-se o subjuntivo nas oraes adjetivas que exprimem:

a) fim:

Ando  cata de um criado que seja econmico e fiel [RB].

b) consequncia (o relativo vem precedido de preposio, geralmente, com):

Daqui levars tudo to sobejo

Com que faas (= que com isso) o fim a teu desejo [LC.1, II, 4].

c) uma conjectura e no uma realidade:

Compare-se:

O cidado que ama sua ptria engrandece-a. (realidade)

O cidado que ame sua ptria engrandece-a. (conjectura)

d) depois de um predicado negativo, ou de uma interrogao de sentido negativo quando enunciam uma qualidade que determine e restrinja a ideia expressa por esse predicado 
ou interrogao:

No h homem algum que possa gabar-se de ser completamente feliz.

Quem h a que seja completamente feliz? [RV.1, 274-5]

Nas oraes adverbiais usa-se o subjuntivo:

a) nas causais de no porque, no (ou nem), quando se quer dizer que a razo aludida no  verdadeira:

Deitei-me ontem mais cedo, no porque tivesse sono, mas porque precisava de me levantar hoje de madrugada [RV.1, 274].

b) nas concessivas de ainda que, embora, conquanto, posto que, se bem que, por muito que, por pouco que (e semelhantes), no havendo, entretanto, completo rigor a respeito:

Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral no lhes perdoa, e castiga a nossa indulgncia [MM].

Por mais sagaz que seja o nosso amor prprio, a lisonja quase sempre o engana [MM].

Entram neste rol as alternativas de sentido concessivo (ou... ou, quer... quer) e as concessivas justapostas do tipo de fosse ele o culpado, ainda assim lhe perdoaria.

c) nas condies de se, contanto que, sem que, a no ser que, suposto que, caso, dado que, para exprimir hiptese, e no uma realidade. Entra ainda neste grupo a comparativa 
hipottica como se:

Se as viagens simplesmente instrussem os homens, os marinheiros seriam os mais instrudos [MM].

E moviam os lbios, como se tentassem falar [AH.1, 26].

Se se tratar de coisa real ou tida como tal, geralmente aparece o indicativo:

No h momento que perder, se queremos salvar-nos [AH.1, 253].

d) nas consecutivas quando se exprime uma simples concepo e no um fato real:

Devemos regular a nossa vida de modo que possamos esperar e no recear depois de nossa morte [MM].

No subais to alto que a queda seja mortal [MM].

e) nas finais:

Os maus so exaltados para serem felizes, para que caiam do mais alto e sejam esmagados [MM].

f) nas temporais de antes que, assim que, at que, enquanto, depois que, logo que, quando ocorrem nas negaes ou nas indicaes de simples concepo, e no uma realidade 
(caso em que aparece o indicativo):

Cumprirei o que ordenas, porque jurei obedecer-te cegamente enquanto no salvssemos a irm de Pelgio [AH.1, 215].

Casos particulares:

1) A orao substantiva que completa a exclamao de surpresa quem diria constri-se com indicativo ou subjuntivo:

Quem diria que ele era capaz disso.

Quem diria que ele fosse capaz disso.

2) Com os indefinidos do tipo o que quer que  mais comum o emprego do subjuntivo:

Saiu com o que quer que fosse.

Alexandre Herculano vacilou entre o emprego de fosse (ed. de 1876) e era (ed. de 1864) no seguinte passo:

Com um olhar de simpatia e compaixo, misturada do que quer que era de admirao e de terror involuntrio [AH.1, 265 ed. 1864].

3) Tambm tm o verbo no subjuntivo as oraes introduzidas por que, quando restringem a generalidade de um asserto:

No h, que eu saiba, expresso mais suave [ED.1, 128].

Imperativo

3) Imperativo  Cumpre apenas acrescentar ao que disse anteriormente:

a) que o infinitivo pode substituir o imperativo nas ordens instantes:

Todos se chegavam para o ferir, sem que a D. lvaro se ouvissem outras palavras, seno estas: Fartar, rapazes [AH.2, 98].

b) que se usa o imperativo do verbo querer (ao lado do subjuntivo presente) seguido de infinitivo para suavizar uma ordem:

Queira aceitar meus cumprimentos.

Observao: Os casos aqui lembrados esto longe de enquadrar a trama complexa do emprego de tempos e modos em portugus. So vrias as situaes que podem, ferindo os princpios 
aqui expostos, levar o falante ou escritor a buscar novos meios expressivos. So questes que fogem ao mbito da Gramtica e constituem preocupao da Estilstica.

Emprego das formas nominais

Emprego das formas nominais  A respeito das formas nominais, cumpre acrescentar ao que se disse nas pginas anteriores:

Infinitivo histrico

A  Infinitivo histrico  Entende-se por infinitivo histrico ou de narrao aquele que, numa narrao animada, considera a ao como j passada, e no no seu desenvolvimento:

E os mdicos a insistirem que sasse de Lisboa [J. Dinis].

Ela a voltar as costas, e o reitor a pr o chapu na cabea [J. Dinis].

E ele a rir-se, ele a regalar-se [EQ] 70

Emprego do infinitivo (flexionado e sem flexo)

B  Emprego do infinitivo (flexionado e sem flexo):

1) Infinitivo pertencente a uma locuo verbal:

No se flexiona normalmente o infinitivo que faz parte de uma locuo verbal:

E o seu gesto era to desgracioso, coitadinho, que todos,  exceo de Santa, puseram-se a rir [AAz apud FB.1, 138].

Pois, se ousais levar a cabo vosso desenho, eu ordeno que o faais [AH apud FB.1, 196].

Depois mostraram-lhe, um a um, os instrumentos das execues, e explicaram-lhe por mido como haviam de morrer seu marido, seus filhos e o marido de sua filha [CBr apud 
FB.1, 221].

Encontram-se exemplos que se afastam deste critrio quando ocorrem os seguintes casos:

a) o verbo principal se acha afastado do auxiliar e se deseja avivar a pessoa a quem a ao se refere:

Possas tu, descendente maldito

De uma tribo de nobres guerreiros,

Implorando cruis forasteiros,

Seres presa de vis Aimors [GD.4, II, 31].

... dentro dos mesmos limites atuais podem as cristandades nascerem ou anularem-se, crescerem ou diminurem em certos pontos desses vastos territrios [AH.2, 173].

b)   o verbo auxiliar, expresso anteriormente, cala-se depois:

Queres ser mau filho, deixares uma ndoa dinfncia na tua linhagem [AH.2, 174].

2) Infinitivo dependente dos verbos causativos e sensitivos:

Com os causativos deixar, mandar, fazer (e sinnimos), a norma  aparecer o infinitivo sem flexo, qualquer que seja o seu agente:

Sancho II deu-lhe depois por vlida a carta e mandou-lhes erguer de novo os marcos onde eles os haviam posto [AH.2, 64].

Fazei-os parar [AH.2, 75].

Deixai vir a mim as criancinhas.

Mas flexionado em:

e deixou fugirem-lhe duas lgrimas pelas faces [AH.2, 155]. 71

No so poucas as doenas para as quais, por desdia, vamos deixando perderem-se os nomes velhos que tm em portugus [MBa.5, 211].

Com os sensitivos ver, ouvir, olhar, sentir (e sinnimos), o normal  empregar-se o infinitivo sem flexo, embora aqui o critrio no seja to rgido:

Olhou para o cu, viu estrelas... escutou, ouviu ramalhar as rvores [AH.2, 101].

... o terror fazia-lhes crer que j sentiam ranger e estalar as vigas dos simples... [AH.2, 172].

Os seguintes exemplos atestam o emprego do infinitivo flexionado:

Em Alcoentre os ginetes e corredores do exrcito real vieram escaramuar com os do infante, e ele prprio os ouvia chamarem-lhe traidor e hipcrita [AH.2, 96].

Creio que comi: senti renovarem-se-me as foras [AH.2, 172].

Observaes:

1.) Com os causativos e sensitivos pode aparecer ou no o pronome tono que pertence ao infinitivo (obs. 5.):

Deixei-o embrenhar (por embrenhar-se) e transpus o rio aps ele [AH.2, 77].

O faquir deixou-o afastar (por afastar-se) [AH.2].

Enconstando-se outra vez na sua dura jazida, Egas sentiu alongar-se a estrupiada dos cavalheiros... [AH.3, 265-6].

E o eremita viu-a, ave pernalta e branca, bambolear-se em voo, ir chegando, passar-se para cima do leito, aconchegar-se ao pobre homem... [JR.2, 327].

Por isso no cabe razo a Mrio Barreto [MBa.4, 51] quando condena, nestes casos, o aparecimento do pronome tono.

2.) Aqui tambm o infinitivo pode aparecer flexionado, por se calar o auxiliar:

viu alvejar os turbantes, e, depois surgirem rostos tostados, e, depois, reluzirem armas [AH.1, 257].

3) Infinitivo fora da locuo verbal:

Fora da locuo verbal, a escolha da forma infinitiva depende de cogitarmos somente da ao ou do intuito ou necessidade de pormos em evidncia o agente do verbo [SA.2, 
246].

O infinitivo sem flexo revela que a nossa ateno se volta com especial ateno para a ao verbal; o flexionamento serve de insistir na pessoa do sujeito:

As crianas so acalentadas por dormirem, e os homens enganados para sossegarem [MM].

Ocorre o infinitivo flexionado nos seguintes casos principais:

1.) sempre que o infinitivo estiver acompanhado de um nominativo sujeito, nome ou pronome (quer igual ao de outro verbo, quer diferente);

2.) sempre que se tornar necessrio destacar o agente, e referir a ao especialmente a um sujeito, seja para evitar confuso, seja para tornar mais claro o pensamento. O 
infinitivo concordar com o sujeito que temos em mente;

3.) quando o autor intencionalmente pe em relevo a pessoa a que o verbo se refere [SA.1, 72]:

Estudamos para ns vencermos na vida.

Beijo-vos as mos, senhor rei, por vos lembrardes ainda de um velho homem de armas que para nada presta hoje [AH apud FB.1, 195].

 permitido aos versistas poetarem em prosa [CBr.1, 60].

Apndice: Passagem da voz ativa  passiva e vice-versa

apndice

passagem da voz ativa  passiva e vice-versa

Em geral, s pode ser construdo na voz passiva verbo que pede objeto direto, acompanhado ou no de outro complemento. Da a lngua padro lutar contra linguagens do tipo:

A missa foi assistida por todos,

uma vez que o verbo assistir, nesta acepo, s se constri com complemento relativo:

Todos assistiram  missa.

 fora do uso j se fazem concesses aos verbos:

apelar:               A sentena no foi apelada.

aludir:               Todas as faltas foram aludidas.

obedecer:           Os regulamentos no so obedecidos.

pagar:                As pensionistas foram pagas ontem.

perdoar:            Os pecadores devem ser perdoados.

responder:         Os bilhetes seriam respondidos hoje.

Na passagem da ativa para a passiva segue-se o esquema:

1.) o sujeito da ativa, se houver, passa a agente da passiva;

2.) o objeto direto da ativa, se houver, passa a sujeito da passiva;

3.) o verbo da voz ativa passa para a voz passiva, conservando-se o mesmo tempo e modo;

4.) no sofrem alterao os outros termos oracionais que apaream.

Exemplo 1:

Ativa                                               Passiva

Eu li o livro                                    O livro foi lido por mim

Exemplo 2 (com pronome oblquo):

Ativa                                               Passiva

Ns o ajudamos ontem                  Ele, ontem, foi ajudado por ns

Exemplo 3 (com sujeito indeterminado):

Ativa                                               Passiva

Enganar-me-o                               Eu serei enganado

Exemplo 4 (com tempo composto):

Ativa                                               Passiva

Eles tm cometido erros                   Erros tm sido cometidos por eles

Exemplo 5 (com sujeito indeterminado de verbo que aparecer na passiva pronominal):

Ativa                                               Passiva

Vendem casas                                 Vendem-se casas

Vendem esta casa                           Vende-se esta casa

7  Advrbio

Advrbio

Advrbio   a expresso modificadora que por si s denota uma circunstncia (de lugar, de tempo, modo, intensidade, condio, etc.) e desempenha na orao a funo de adjunto 
adverbial:

Aqui tudo vai bem (lugar e modo).

Hoje no irei l (tempo, negao, lugar).

O aluno talvez no tenha redigido muito bem (dvida, negao, intensidade, modo).

O advrbio  constitudo por palavra de natureza nominal ou pronominal e se refere geralmente ao verbo, ou ainda, dentro de um grupo nominal unitrio, a um adjetivo e a um 
advrbio (como intensificador), ou a uma declarao inteira:

Jos escreve bem (advrbio em referncia ao verbo).

Jos  muito bom escritor (advrbio em referncia ao adjetivo bom).

Jos escreve muito bem (advrbio em referncia ao advrbio bem).

Felizmente Jos chegou (advrbio em referncia a toda a declarao: Jos chegou; o advrbio deste tipo geralmente exprime um juzo pessoal de quem fala e constitui a clusula 
comentrio.

Fundamentalmente, distribuem-se os advrbios em assinalar a posio temporal (os de tempo) ou espacial do falante (os de lugar), ou ainda o modo pelo qual se visualiza o estado 
de coisas designado na orao.

Certos advrbios so assinalados em funo de modificador de substantivo, principalmente quando este  entendido no tanto enquanto substncia, mas enquanto qualidade que 
esta substncia apresenta: Gonalves Dias  verdadeiramente poeta [PL apud por EBm.1, 8].

Pessoas assim no merecem nossa ateno.

Tambm certos advrbios funcionam como predicativo,  maneira dos adjetivos:

A vida  assim.

Como bem diz Mattoso Cmara [MC.8, 122], perturba a descrio e a demarcao classificatria a extrema mobilidade semntica e funcional que caracteriza os advrbios.

Combinaes com advrbios

Combinaes com advrbios  Advrbios h de tempo e lugar que marcam melhor sua funo ou designao mediante o emprego de uma preposio [AL.1, 188]:

Por agora, esto encerrados os trabalhos.

At ento os telefones no funcionavam.

Desde cedo j havia compradores de ingresso.

De longe j se viam as chamas.

Por aqui se pode entrar na cidade.

As crianas de hoje contam com mais divertimentos.

Eles sempre se apresentam com as promessas de sempre.

Alguns advrbios  como as preposies que veremos ao seu tempo  precedem o transpositor que para marcar a circunstncia, formando o que a gramtica tradicional chama de 
locues conjuntivas adverbiais. A rigor, trata-se de um grupo de palavras que, por hipotaxe, funciona como conjuno:

Agora que tudo serenou, podemos retornar.

Sabamos que ele estava errado sempre que gaguejava.

Ainda que estude, ter de aperfeioar-se depois que se gradue.

J que no me responde, sinto-me desobrigado de convid-lo.

Assim que chegou, comeou a trabalhar.

No captulo de conjuno, teremos oportunidade de fazer referncia a certos advrbios que, graas  sua mobilidade posicional, se colocam  quase sempre no incio  de maneira 
tal, que tm levado alguns gramticos a classific-los como conjuno coordenativa explicativa (causal), conclusiva, etc.  o caso de advrbios como pois, logo, entretanto, 
contudo, por conseguinte, em construes do tipo [MMa.1, 153]:

Ela saiu cedo, por conseguinte encontrou facilidade de conduo.

Tudo estava preparado, logo se poderia comear a reunio.

Advrbio e preposio

Advrbio e preposio  J vimos que alguns advrbios se constituem pela unio de preposio a substantivos, adjetivos ou a prprio advrbio, apresentando-se, conforme a ortografia 
vigente, ora escritos numa s palavra, ora separadamente. Unido o grupo a preposies, teremos um conjunto que, por hipotaxe, funciona como simples preposio a introduzir 
um adjunto adverbial: apenas, em frente, em cima, depressa, debaixo, em baixo (embaixo), detrs, etc.

Os livros ficam debaixo da mesa. (sob a mesa)

O carro estacionou em frente da casa.

A jarra repousa em cima da mesa. (sobre a mesa)

Construes como:

O vizinho escreveu contra o argumento,

permitem a passagem da preposio a advrbio pela reduo da unidade introduzida pela preposio, construo breve, mas sem circulao frequente no idioma:

Toda a minha vida colegial se desenha no esprito com to vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos j lhes pairaram sobre [JA.4, 102].

O vizinho escreveu contra.

J falei a respeito.

O advrbio estabelece a transio dos vocbulos variveis para os invariveis; a rigor no tem flexo propriamente dita, mas h uns tantos advrbios que admitem graus de qualidade 
como os nomes [RV.1, 71].

Locuo adverbial

Locuo adverbial   o grupo geralmente constitudo de preposio + substantivo (claro ou subentendido) que tem o valor e o emprego de advrbio. A preposio, funcionando 
como transpositor, prepara o substantivo para exercer uma funo que primariamente no lhe  prpria:

com efeito, de graa, s vezes, em silncio, por prazer, sem dvida, etc.

Na constituio das locues adverbiais, o substantivo que nelas entra pode estar no masculino ou no feminino e no singular ou no plural, segundo as normas fixadas pela tradio.

Outras vezes o substantivo vem com acompanhante e pode ocorrer at a omisso do substantivo, em expresses fixas:

na verdade, de nenhum modo, em breve (subentende-se tempo),  direita (ao lado de  mo direita),  francesa (subentende-se  moda), etc.

Frequentemente se cala a preposio nas locues adverbiais de tempo e modo:

Esta semana (por nesta semana) teremos prova.

Espingarda ao ombro (por de espingarda ao ombro), juntou-se ao grupo de pessoas.

Circunstncias adverbiais

Circunstncias adverbiais  Constituindo o advrbio uma classe de palavra muito heterognea, torna-se difcil atribuir-lhe uma classificao uniforme e coerente. Em geral, 
seu papel na orao se prende no apenas a um ncleo (verbo), mas se amplia na extenso em que se espraia o contedo manifestado no predicado. Isto lhe permite, em primeiro 
lugar, certa flexibilidade de posio no s no espao em que se prolonga o predicado (com seu ncleo verbal), mas se estende aos domnios do sujeito, podendo anteced-lo 
ou vir-lhe posposto. Este papel singular do advrbio lhe d tambm certa autonomia fonolgica, de contorno entonacional muito variado, a servio do intuito comunicativo do 
falante.

Assim, h advrbios de papel semntico-sinttico mais internamente ligados ao ncleo verbal (e estes no gozam das flexibilidades de posio e entoao atrs referidas), e 
h os advrbios mais externamente ligados ao ncleo verbal. Da escapar ao analista uma classificao unitria que abarque todos os casos possveis.  bom caminho, parece-nos, 
adotar a proposta de Alarcos Llorach no sentido de ater-se o analista s relaes que cada advrbio contrai dentro do enunciado, quer no seu papel primrio de adjacente circunstancial, 
quer por sua combinao com outras unidades no interior de um grupo nominal unitrio [AL.1,  178].

Na classificao do advrbio, ora se pauta pelos valores lxicos (semnticos) das unidades que o constituem, ora por critrios funcionais. No primeiro caso, so os advrbios 
classificados como denotadores de tempo (agora, antes, tarde, etc.), de lugar (aqui, fora, etc.), de quantidade (tanto, muito, bastante, etc.), etc. Pelo segundo critrio, 
teremos os demonstrativos (aqui, ento, agora, a, etc.), os relativos (onde, como, quando, etc.) e interrogativos (quando?, onde?, como?).

As principais circunstncias expressas por advrbio ou locuo adverbial so:

1) assunto: Conversar sobre msica.

2) causa: Morrer de fome.

3) companhia: Sair com os amigos.

4) concesso: Voltaram apesar do escuro.

5) condio: S entrar com autorizao. No sair sem licena.

6) conformidade: Fez a casa conforme a planta.

7) dvida: Talvez melhore o tempo. Acaso encontrou o livro.

8) fim: Preparou-se para o baile.

9) instrumento: Escrever com lpis.

10) intensidade: Andou mais depressa.

11) lugar: Estuda aqui. Foi l. Passou pela cidade. Veio dali.

12) modo: Falou assim. Anda mal. Saiu s pressas.

13) referncia: O que nos sobra em glria de ousados e venturosos navegantes, mngua-nos em fama de enrgicos e previdentes colonizadores [LCo apud FB.1, 218].

14) tempo: Visitaram-nos hoje. Ento no havia recursos. Sempre nos cumprimentaram. Jamais mentiu.

15) negao: No ler sem culos.

Observao: A Nomenclatura Gramatical Brasileira pe os denotadores de incluso, excluso, situao, retificao, designao, realce, etc.  parte, sem a rigor inclu-los 
entre os advrbios, mas constituindo uma classe ou grupo heterogneo chamado denotadores, que coincide, em parte, com a proposta de Jos Oiticica das palavras denotativas, 
muitas das quais tm papel transfrstico e melhor atendem a fatores de funo textual estranhos s relaes semntico-sintticas inerentes s oraes em que se acham inseridas:

1  incluso: tambm, at, mesmo, etc.:

At o professor riu-se.

Ningum veio, mesmo o irmo.

2  excluso: s, somente, salvo, seno, apenas, etc.:

S Deus  imortal.

Apenas o livro foi vendido.

3  situao:

Mas que felicidade.

Ento duvida que se falasse latim?

Pois no  que ele veio.

4  retificao: alis, melhor, isto , ou antes, etc.:

Comprei cinco, alis, seis livros.

Correu, isto , voou at nossa casa.

5  designao:

Eis o homem.

6  realce:

Ns  que somos brasileiros.

7  expletivo: l, s, ora, que:

Eu sei l!

Vejam s que coisa!

Oh! Que saudade que tenho!

Ora decidamos logo o negcio.

8  explicao: a saber, por exemplo, isto , etc.:

Eram trs irmos, a saber: Pedro, Antnio e Gilberto.

O plano transfrstico e os advrbios

O plano transfrstico e os advrbios  No estudo de certas unidades torna-se de capital importncia no deixar de lado as diversas camadas ou estratos de estruturao gramatical. 
No que toca particularmente a certos advrbios, merece ateno a camada da antitaxe, que diz respeito  retomada ou substituio de uma unidade de um plano gramatical qualquer, 
j presente ou virtualmente presente ou previsto no discurso, poder ser retomada ou antecipada por outra unidade, num ponto do discurso individual ou dialogado [ECs.2, 38]. 
A substituio ou retomada j vinha sendo posta em evidncia pela gramtica tradicional no caso dos pronomes; mas a ao da antitaxe  mais ampla e vai desembocar no papel 
textual de alguns advrbios, como veremos a seguir.

Assim, no so advrbios mas substitutos de orao (pro-oraes ou pro-textos) sim, no, talvez, tambm, quando retomam, como respostas, enunciados textuais:

Voc vai ao cinema?  Sim.

Ela fez os exerccios?  No.

Tu no foste escolhido? Tambm.

Esto no mesmo caso as unidades de valor circunstancial (advrbios) que aparecem em oraes do tipo seguinte, mas que retomam estados de coisas designados ou intudos anteriormente, 
que exprimem relaes ligadas ao sentido do discurso:

De fato ns samos cedo.

Isto, sem dvida, est errado.

Estes casos de antitaxe (retomada ou substituio) se combinam com outra camada de estruturao gramatical que  a hipertaxe ou superordenao, fenmeno pelo qual uma unidade 
de camada inferior pode funcionar sozinha em camadas superiores.  o caso de advrbios em -mente quando saem da camada no nvel da palavra para funcionar no nvel da clusula 
e da no nvel da orao ou do texto, em exemplos como:

Certamente!

Naturalmente!

ambos no nvel da orao e do texto, ou em:

Certamente ela no vir hoje.

Todos saram ilesos, felizmente.

Naturalmente ele negar o que disse ontem.

todos no nvel da clusula comentrio.

Portanto, a tais advrbios no se h de querer aplicar a srie de caractersticas cannicas do advrbio que se acha exclusivamente preso s referncias do ncleo verbal.

Tambm merecem referncia especial os advrbios que esto no papel de diferenar as oraes pelo seu significado ntico, isto , o valor de existncia que se atribui ao 
estado de coisas designado pela orao (existncia certa, negada, duvidosa, desejada, etc.) 72.  o caso dos advrbios de negao e de dvida:

Ele veio   /   Ele no veio

Ela chega   /   Ela talvez chegue

Advrbios de base nominal e pronominal

Advrbios de base nominal e pronominal  O advrbio, pela sua origem e significao, se prende a nomes ou pronomes, havendo, por isso, advrbios nominais e pronominais.

Entre os nominais se acham aqueles formados de adjetivos acrescidos do sufixo -mente: rapidamente (= de modo rpido), pessimamente. Na realidade, ficam a meio caminho, fonolgica 
e morfologicamente, da derivao e da composio (locuo).

Observaes:

1.) Se o nome tem forma para masculino e feminino, junta-se o sufixo ao feminino. Fazem exceo alguns adjetivos terminados em s e or, que no portugus antigo s apresentavam 
uma forma para ambos os gneros. Da dizer-se portuguesmente (e no portuguesamente); superiormente (e no superioramente), melhormente.

2.) Estes advrbios em -mente se caracterizam por conservar o acento vocabular de cada elemento constitutivo, ainda que mais atenuado, o que lhes permite, numa srie de advrbios, 
em geral s apresentar a forma em -mente no fim: Estuda atenta e resolutamente. Havendo nfase, pode-se repetir o advrbio na forma plena:

Depois, ainda falou gravemente e longamente sobre a promessa que fizera [MA apud SS.1,  480].

Entre os pronominais, temos:

a) demonstrativos: aqui, a, acol, l, c.

b) relativos: onde (em que), quando (em que), como (por que).

c) indefinidos: algures, alhures, muito, pouco, que.

d) interrogativos: onde?, quando?, como?, por que? (por qu?).

Os advrbios relativos, como os pronomes relativos, servem para referir-se a unidades que esto postas na orao anterior. Nas ideias de lugar empregamos onde, em vez de em 
que, no qual (e flexes):

A casa onde mora  excelente.

Precedido das preposies a ou de, grafa-se aonde e donde:

O stio aonde vais  pequeno.

 bom o colgio donde samos.

Ainda como os pronomes relativos, os advrbios relativos podem empregar-se de modo absoluto, isto , sem referncia a antecedente:

Moro onde mais me agrada.

Os advrbios interrogativos de base pronominal se empregam nas perguntas diretas e indiretas em referncia ao lugar, tempo, modo ou causa:

Onde est estudando o primo? Ignoro onde estuda.

Quando iro os rapazes? No sei quando iro os rapazes.

Como fizeram o trabalho? 73. Perguntei-lhes como fizeram o trabalho.

Por que chegaram tarde? Dir-me-s por que chegaram tarde.

Observao: O Vocabulrio Oficial preceitua que se escreva em duas palavras o advrbio interrogativo por que, por estar preocupado em indicar a origem pronominal do advrbio, 
distinguindo-o de porque conjuno, que, na essncia, se prende tambm a uma combinao de por + que. Melhor seria, seguindo a tradio do idioma, grafar todo porque num s 
vocbulo. Quanto  origem, por que e porque se identificam: porque (e o mesmo vale para quando e como) no se enquadra apenas como conjuno; porque, quando e como so, em 
verdade, expresses adverbiais conjuntivas, isto , expresses que, sem perderem a sua funo adverbial, tm concomitantemente funo conjuntiva [MAg.1, 197].

Adverbializao de adjetivos

Adverbializao de adjetivos  Muitos adjetivos, permanecendo imveis na sua flexo de gnero e nmero, podem passar a funcionar como advrbio:

Fala claro na hora da sua defesa.

Compraram caro a fazenda.

Agora esto vivendo melhor.

O critrio formal de diferenciao das duas classes de modificador (adjetivo: modificador nominal; advrbio: modificador verbal)  a variabilidade do primeiro e a invariabilidade 
do segundo74:

Eles vendem muito cara a fruta. (adjetivo)

Eles vendem caro a fruta. (advrbio)

A concordncia atrativa e intenes estilsticas e rtmicas podem desfazer as fronteiras acima apontadas.

Intensificao gradual dos advrbios

Intensificao gradual dos advrbios  H certos advrbios, principalmente os de modo, que podem manifestar uma relao intensificadora gradual, empregando-se, no comparativo 
e superlativo, de acordo com as regras que se aplicam aos adjetivos:

Na realidade, tais intensificaes ou gradaes do advrbio  como do adjetivo  se expressam por estruturas sintticas que devem merecer ateno no estudo dos padres frasais 
do portugus.

3  Diminutivo com valor de superlativo  Em linguagem familiar pode-se expressar o valor superlativo do advrbio pela sua forma diminutiva, combinada com o valor lexical 
das unidades que com ele concorrem:

Andar devagarzinho (muito devagar, um tanto devagar).

Acordava cedinho e s voltava  noitinha.

Saiu agorinha.

O diminutivo das frmulas de recomendao no indica mais lentido ou ligeireza da realizao do fato, mas serve de expressar ou acentuar a recomendao:

V depressinha apanhar o meu chapu.

 bom que estudes devagarinho.

Observao: Em lugar de mais bem e mais mal empregam-se melhor e pior:

Ningum conhece melhor os interesses do que o homem virtuoso; promovendo a felicidade dos outros assegura tambm a prpria [MM].

Usa-se, entretanto, de mais bem e mais mal junto a adjetivos:

Os esquadres mais bem encavalgados foram despedidos logo em seguimento dos fugitivos [AH.1, 224].

Com a maa jogada s mos ambas abalava e rompia as armas mais bem temperadas... [AH.1, 108].

8  Preposio

Preposio

Preposio  Chama-se preposio a uma unidade lingustica desprovida de independncia  isto , no aparece sozinha no discurso, salvo por hipertaxe  e, em geral, tona, 
que se junta a substantivos, adjetivos, verbos e advrbios para marcar as relaes gramaticais que elas desempenham no discurso, quer nos grupos unitrios nominais, quer nas 
oraes.

No exerce nenhum outro papel que no seja ser ndice da funo gramatical de termo que ela introduz.

Em:

Aldenora gosta de Belo Horizonte

a preposio de une a forma verbal gosta ao seu termo complementar Belo Horizonte para ser o ndice da funo gramatical preposicionada complemento relativo.

J em:

homem de coragem,

a mesma preposio de vai permitir que o substantivo coragem exera o papel de adjunto adnominal do substantivo homem  funo normalmente desempenhada por adjetivo. Da dizer-se 
que, nestes casos, a preposio  um transpositor, isto , elemento gramatical que habilita uma determinada unidade lingustica a exercer papel gramatical diferente daquele 
que normalmente exerce. Ora, o substantivo normalmente no tem por misso ser palavra modificadora de outro substantivo, razo por que no  comum dizer-se homem coragem; 
para que coragem esteja habilitado a assumir o papel gramatical do adjetivo corajoso (homem corajoso), faz-se necessrio o concurso do transpositor de: homem de coragem.

Neste papel, o termo anterior  preposio chama-se antecedente ou subordinante, e o posterior chama-se consequente ou subordinado. O subordinante pode ser substantivo, adjetivo, 
pronome, verbo, advrbio ou interjeio:

livro de histria

til a todos

alguns de vocs

necessito de ajuda

referentemente ao assunto

ai de mim!

O subordinado  constitudo por substantivo, adjetivo, verbo (no infinitivo ou gerndio) ou advrbio:

casa de Pedro

pulou de contente

gosta de estudar

em chegando

ficou por aqui

No exemplo:

De noite todos os gatos so pardos,

o grupo unitrio de noite exerce na orao o papel de adjunto adverbial; mas o que temos como ncleo  outro substantivo, cujo significado lexical est includo no amplo campo 
semntico das designaes temporais das partes do dia: noite. Impe-se a presena do transpositor de para que o substantivo fique habilitado ou constituindo uma locuo adverbial 
temporal (de noite) e assim possa exercer a funo de adjunto adverbial na orao acima.

No exemplo primeiro:

Aldenora gosta de Belo Horizonte,

diz-se que a preposio aparece por servido gramatical, isto , ela  mero ndice de funo sinttica, sem correspondncia com uma noo ou categoria gramatical, exigida 
pela noo lxica do grupo verbal e que, exterior ao falante, impe a este o uso exclusivo de uma unidade lingustica [GGh.1, 99].  o que ocorre, por exemplo, com a regncia 
obrigatria de determinada preposio para os objetos que so alvo direto do processo verbal (tratar de alguma coisa, etc.) [MC.4, 217].

Preposio e significado

Preposio e significado  J vimos que tudo na lngua  semntico, isto , tudo tem um significado, que varia conforme o papel lxico ou puramente gramatical que as unidades 
lingusticas desempenham nos grupos nominais unitrios e nas oraes. As preposies no fazem exceo a isto:

Ns trabalhamos com ele, e no contra ele.

Contextos deste tipo ressaltam bem o significado de unidades como com ele e contra ele, auxiliados por diferentes preposies. Todavia, devemos lembrar aqui a noo de significado 
unitrio (que no quer dizer significado nico), exposta nas pginas de introduo.

Ora, cada preposio tem o seu significado unitrio, fundamental, primrio, que se desdobra em outros significados contextuais (sentido), em acepes particulares que emergem 
do nosso saber sobre as coisas e da nossa experincia de mundo.

Coseriu lembra, para tanto, o caso da preposio com,  qual as gramticas atribuem englobadamente os significados de companhia (dancei com Marlit), modo (estudei com 
prazer), instrumento (cortei o po com a faca), causa (fugiu com medo do ladro), oposio (lutou com o ladro), entre outras.

A lngua portuguesa s atribui a com o significado de copresena; o que, na lngua, mediante o seu sistema semntico, se procura expressar com esta preposio  que, na 
frmula com + x, x est sempre presente no estado de coisas designado. Os significados ou sentidos contextuais, analisados pela nossa experincia de mundo e saber sobre 
as coisas (inclusive as coisas da lngua, que constitui a nossa competncia lingustica) nos permitem dar um passo a mais na interpretao e depreender uma acepo secundria.

Assim, em cortar o po com faca, pelo que sabemos o que  cortar, po, faca, entendemos que a faca no s esteve presente ao ato de cortar o po, mas foi o instrumento 
utilizado para a realizao desta ao.

J em dancei com Marlit, emerge, depois da noo da copresena, o sentido de companhia, pois que em geral no se pratica a dana sozinho.

Em estudei com prazer, o prazer no s esteve presente, mas representou o modo de como a ao foi levada a termo.

Mas que a preposio com por si no significa instrumento, prova-o que esta interpretao no se ajusta a:

Everaldo cortou o po com a Rosa,

pois que, assim como sabamos o que significa faca, sabemos o que  Rosa: no se trata de nenhum instrumento cortante, capaz de fatiar o po; teramos, neste exemplo, uma 
acepo contextual (sentido) de ajuda, ou companhia, por esta ou aquela circunstncia em que o po se achava e que s o entorno ou situao poderia explicar o contedo 
da orao.

Assim, no se deve perder de vista que, na relao dos significados das preposies, h sempre um significado unitrio de lngua, que se desdobra em sentidos contextuais 
a que se chega pelo contexto e pela situao.

O sistema preposicional do portugus, do ponto de vista semntico, est dividido em dois campos centrais: um que se caracteriza pelo trao dinamicidade (fsica ou figurada) 
e outro em que os traos de noes estticas e dinmicas so indiferentemente marcados ambos, tanto em referncia ao espao quanto ao tempo.75

Ao primeiro campo pertencem: a, contra, at, para, por, de e desde; ao segundo: ante, trs, sob, sobre, com, sem, em e entre.

O primeiro grupo admite diviso em dois subgrupos: a) movimento de aproximao ao ponto de chegada (a, contra, at, para); b) movimento de afastamento (de, desde). A preposio 
por se mostra compatvel com as duas noes aqui apontadas.

O primeiro subgrupo ainda se pode dividir em duas outras noes suplementares: a) chegada ao limite (a, at, contra, sendo que a contra se adiciona a noo de limite como 
obstculo ou confrontamento); b) mera direo (para).

O segundo subgrupo tambm admite diviso em duas outras noes de afastamento: a) origem (de); b) mero afastamento (desde).

O segundo grupo admite diviso em dois subgrupos: a) situao definida e concreta (ante, trs, sob, sobre); b) situao mais imprecisa (com, sem, em, entre).

O primeiro subgrupo acima ainda se pode dividir em duas outras noes suplementares: a) situao horizontal (ante, trs); b) situao vertical (sob, sobre).

O segundo subgrupo tambm admite diviso em duas outras noes suplementares: a) copresena, distribuda em positiva (com) e negativa (sem); b) em que a noo de limite, 
dentro da impreciso que caracteriza o par, marca a preposio entre.

Veja adiante o quadro resumo do sistema preposicional do portugus do ponto de vista semntico.

Unidades convertidas em preposies

Unidades convertidas em preposies  No sentido inverso  criao de advrbios ou locues adverbiais mediante o emprego de preposies combinadas com substantivos ( noite, 
de tarde, com prazer, etc.), certos advrbios ou outras palavras transpostas  classe de advrbio, e certos adjetivos imobilizados no masculino podem converter-se em preposio:

Fora os alunos, ningum mais pde entrar no salo.

Aps a chuva, vieram os prejuzos.

Os negociantes foram soltos mediante fiana.

Durante o jogo, a torcida cantava o hino do clube.

Tambm podem converter-se em preposio adjetivos como exceto, salvo, visto, conforme, segundo, consoante, mediante e os quantificadores indefinidos mais e menos quando esto 
empregados para exprimir no a quantidade, mas a soma e a subtrao (mais estes reais, menos estes reais; ele mais o pai).

Locuo prepositiva

Locuo prepositiva   o grupo de palavras com valor e emprego de uma preposio. Em geral a locuo prepositiva  constituda de advrbio ou locuo adverbial seguida da 
preposio de, a ou com:

O garoto escondeu-se atrs do mvel.

No samos por causa da chuva.

O colgio ficava em frente a casa.

O ofcio foi redigido de acordo com o modelo.

s vezes a locuo prepositiva se forma de duas preposies, como: de per (na locuo de per si), at a e para com.

Foi at ao colgio.

Mostrava-se bom para com todos.

Observao: O substantivo que s vezes entra para formar estas locues em geral est no singular; mas o plural tambm  possvel: Viver  custa do pai (ou s custas do pai), 
O negcio est em via de soluo (ou em vias de soluo).

Preposies essenciais e acidentais

Preposies essenciais e acidentais  H palavras que s aparecem na lngua como preposies e, por isso, se dizem preposies essenciais: a, ante, at, com, contra, de, desde, 
em, entre, para, perante, por, sem, sob, sobre, trs.

So acidentais as palavras que, perdendo seu valor e emprego primitivos, passaram a funcionar como preposies: durante, como, conforme, feito, exceto, salvo, visto, segundo, 
mediante, tirante, fora, afora, etc.

S as preposies essenciais se acompanham de formas tnicas dos pronomes oblquos:

Sem mim no fariam isso.

Exceto eu, todos foram contemplados.

Acmulo de preposies

Acmulo de preposies  No raro duas preposies se juntam para dar maior efeito expressivo s ideias, guardando cada uma seu sentido primitivo:

Andou por sobre o mar.

Estes acmulos de preposies no constituem uma locuo prepositiva porque valem por duas preposies distintas. Combinam-se com mais frequncia as preposies: de, para 
e por com entre, sob e sobre.

De uma vez olhou por entre duas portadas mal fechadas para o interior de outra sala... [CBr.1, 175].

Os deputados oposicionistas conjuravam-no a no levantar mo de sobre os projetos depredadores [CBr.1].

Observaes:

1.) Pode ocorrer depois de algumas preposies acidentais (exceto, salvo, tirante, inclusive, etc. de sentido exceptivo ou inclusivo) outra preposio requerida pelo verbo, 
sendo que esta ltima preposio no  obrigatoriamente explicitada:

Gosto de todos daqui, exceto ela (ou dela).

Sem razo, alguns autores condenam, nestes casos, a explicitao da segunda preposio (dela, no exemplo acima).

Senhoreou-se de tudo, exceto dos dois sacos de prata [CBr apud MBa.3, 326].

2.) Na coordenao, no  necessrio repetir as preposies, salvo quando assim o exigirem a nfase, a clareza ou a eufonia:

Quase no falaram com o diretor e reprteres.

Quase no falaram com o diretor e com os reprteres.

A repetio  mais frequente antes dos pronomes pessoais tnicos e do reflexivo:

Ento desde o Nilo ao Ganges / Cem povos armados vi / erguendo torvas falanges / contra mim e contra ti [Passos apud ED.2,  223, a].

A norma se estende s locues prepositivas, quando  mais comum a repetio do ltimo elemento da locuo:

Antes do bem e do mal estamos ns.

Quando a preposio se encontra combinada com artigo, deve ser repetida se repetido est o artigo:

Opor-se aos projetos e aos desgnios dalguns [ED.2]

3.) Uma expresso preposicionada indicativa de lugar ou tempo pode ser acompanhada de uma segunda de significado local ou temporal:

Levou-o para ao p da cruz.

Desde pela manh, esperava novas notcias.

Ns no fazemos seno andar atrs delas, desde pela manh at a noite, desde a noite at pela manh [Mesquita apud MBa.2, 70].

Trata-se aqui de expresses petrificadas que valem por uma unidade lxica (ao p de, pela manh, etc.) e como tais podem depois ser precedidas de preposio.

Combinao e contrao com outras palavras

Combinao e contrao com outras palavras  Diz-se que h combinao quando a preposio, ligando-se a outra palavra, no sofre reduo. A preposio a combina-se com o artigo 
definido masculino: a+o = ao; a+os = aos.

Diz-se que h contrao quando, na ligao com outra palavra, a preposio sofre reduo. As preposies que se contraem so: 76

A

1) com o artigo definido ou pronome demonstrativo feminino:

a + a = ; a + as = s (esta fuso recebe o nome de crase)

2) com o pronome demonstrativo:

a + aquele = quele; a + aqueles = queles (crase)

a + aquela = quela; a + aquelas = quelas (crase)

a + aquilo = quilo (crase)

Observaes:

1.) Muitas vezes a ligao ou no da preposio  palavra seguinte depende da necessidade de garantir a clareza da mensagem, amparada por entoao especial:

Para Saussure a cincia dos signos era para ser um ramo da psicologia social, e a lingustica uma subespcie deste ramo apesar de a mais importante [JDe.1, 20].

M. Bandeira sentiu necessidade de no proceder  crase em a aquela, no exemplo:

Para tudo isso, porm, existe a adeso em massa.  o maior medo de Oswald de Andrade. De fato nada resiste a aquela estratgia paradoxal [MB.2, 248].

2.) No se combina o artigo quando este  parte integrante do sintagma nominal, como no seguinte exemplo:

H quem conhea o que se decidiu chamar de o esprito carioca.

 pela mesma razo de conservar a integridade que se deve evitar fazer a combinao da preposio com a palavra inicial dos ttulos de livros, jornais e demais peridicos:

de Os Lusadas;   em Os Sertes.

Tambm  prefervel no se usar apstrofo (dOs Lusadas), nem a repetio do artigo (dos Os Lusadas).

A prtica dos escritores se mostra muito indecisa neste particular [AK.2, 55].

De

1) com o artigo definido masculino e feminino:

de + o = do; de + a = da; de + os = dos; de + as = das

2) com o artigo indefinido (menos frequente):

de + um = dum; de + uns = duns

de + uma = duma; de + umas = dumas

3) com o pronome demonstrativo:

de + aquele = daquele; de + aqueles = daqueles

de + aquela = daquela; de + aquelas = daquelas

de + aquilo = daquilo

de + esse = desse; de + esses = desses; de + este = deste; de + estes = destes

de + essa = dessa; de + essas = dessas; de + esta = desta; de + estas = destas

de + isso = disso; de + isto = disto

4) com o pronome pessoal:

de + ele = dele; de + eles = deles

de + ela = dela; de + elas = delas

5) com o pronome indefinido:

de + outro = doutro; de + outros = doutros

de + outra = doutra; de + outras = doutras

6) com advrbio:

de + aqui = daqui; de + a = da; de + ali = dali, etc.

Em

1) com o artigo definido, graas  ressonncia da nasal:

em + o = no; em + os = nos; em + a = na; em + as = nas

2) com o artigo indefinido:

em + um = num; em + uns = nuns

em + uma = numa; em + umas = numas

3) com o pronome demonstrativo:

em + aquele = naquele; em + aqueles = naqueles

em + aquela = naquela; em + aquelas = naquelas

em + aquilo = naquilo

em + esse = nesse; em + esses = nesses; em + este = neste; em + estes = nestes

em + essa = nessa; em + essas = nessas; em + esta = nesta; em + estas = nestas

em + isso = nisso; em + isto = nisto

4) com o pronome pessoal:

em + ele = nele; em + eles = neles

em + ela = nela; em + elas = nelas

Per  com as formas antigas do artigo definido:

per + lo = pelo; per + los = pelos; per + la = pela; per + las = pelas

Para (pra)  com o artigo definido:

para (pra) + o = pro; para (pra) + os = pros; para (pra) + a = pra; para (pra) + as = pras

Co(m)  com artigo definido, graas  supresso da ressonncia nasal (ectlipse):

co(m) + o = co; co(m) + os = cos; co(m) + a = coa; co(m) + as = coas

A preposio e sua posio

A preposio e sua posio  Em vez de vir entre o termo subordinante e o subordinado, a preposio, graas  possibilidade de outra disposio das palavras, pode vir aparentemente 
sem o primeiro:

         Por l todos passaram.

(subordinado)       (subordinante)

Os primos estudaram com Jos.

         (subordinante)     (subordinado)

   Com Jos os primos estudaram.

(subordinado)          (subordinante)

Quem h de resistir?

Resistir quem h de? [LG]

Principais preposies e locues prepositivas

Principais preposies e locues prepositivas

a

de

exceto

abaixo de

de acordo com

fora de

acerca de, cerca de

debaixo de

junto a

acima de

de cima de

junto de

a fim de

de conformidade com

mediante

 frente de

defronte de

na conta de

ante

dentre

no obstante

antes de

dentro

para

ao lado de

dentro de

para com

ao longo de

dentro em

per

ao redor de

desde, ds

por

a par com

detrs de

por baixo de

apesar de

diante de

por cima de

aps

durante

por defronte de

aps de

em

por dentro de

a respeito de

embaixo de

por detrs de

 roda de

em cima de

por diante de

at

em favor de

por meio de

at a

em frente de

quanto a, enquanto a

atrs de

em lugar de

segundo

atravs de

em prol de

sem

com

em razo de

sem embargo de

como

em troco de

sob

conforme

em vez de

sobre

consoante

entre

trs

contra

Emprego da preposio

Emprego da preposio

A

1) A

Esta preposio aparece nos seguintes principais empregos:

a) Introduz complementos verbais (objetos indiretos) e nominais representados por nomes ou pronomes oblquos tnicos:

Perdoamos mais vezes aos nossos inimigos por fraqueza, que por virtude [MM].

O nosso amor prprio  muitas vezes contrrio aos nossos interesses.

A fora  hostil a si prpria, quando a inteligncia a no dirige [MM].

b) Introduz objetos diretos:

O mundo intelectual deleita a poucos, o material agrada a todos [MM].

O homem que no  indulgente com os outros, ainda se no conhece a si prprio [MM].

c) Prende infinitivos a certos verbos que o uso ensinar:

Os homens, dizendo em certos casos que vo falar com franqueza, parecem dar a entender que o fazem por exceo de regra [MM].

Geralmente tais verbos indicam a causa, o incio, a durao, a continuao ou o termo de movimento ou extenso da ideia contida no verbo principal. Os principais so: abalanar-se, 
acostumar-se, animar-se, anuir, aparelhar-se, aprender, apressar-se, arrojar-se, aspirar, atender, atrever-se, autorizar, aventurar-se, chegar, comear (tambm com de e por), 
concorrer, condenar, continuar, costumar, convidar (tambm com para), decidir-se, entrar, estimular, excitar-se, expor-se, habilitar-se, habituar-se, meter-se, obrigar, pr-se, 
principiar, resolver-se, vir.

d) Prende infinitivos a certos verbos, formando locues equivalentes e gerndios de sentido progressivo:

Anda visitando os defuntos? disse-lhe eu. Ora defuntos! respondeu Virglia com um muxoxo. E depois de me apertar as mos:  Ando a ver se ponho os vadios para a rua [MA 
apud SS.1, 309].

e) Introduz infinitivo designando condio, hiptese, concesso, exceo:

A ser verdade o que dizes, prefiro no colaborar.

A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e no fazia nada, a no ser namorar os capadcios que lhe rondavam a rtula [MA.1, 201].

f) Introduz ou pode introduzir o infinitivo da orao substantiva subjetiva do verbo custar:

Custou-lhe muito a aceitar a casa [MA.1, 194].

g) Introduz numerosas circunstncias, tais como:

1) termo de movimento ou extenso:

Nesse mesmo dia levei-os ao Banco do Brasil [MA.1, 151].

Observao: Com os advrbios aqui, l, c e semelhantes no se emprega preposio:

Vem c, Eugnia, disse ela... [MA.1, 96].

2) tempo em que uma coisa sucede:

Indaguei do guarda; disse-me que efetivamente esse sujeito ia por ali s vezes.  A que horas? [MA.1, 172].

3) fim ou destino:

... apresentaram-se a falar ao imperador [RP apud FB.1, 145].

Tocar  missa (= para assistir  missa).

Tocar o sino a ave-marias [EQ.5, 217].

4) meio, instrumento e modo:

matar  fome, fechar  chave, vender a dinheiro, falar aos gritos, escrever a lpis, viver a frutas, andar a cavalo.

Com os verbos limpar, enxugar, assoar indicamos de preferncia o instrumento com em, e os portugueses com a: limpar as lgrimas no leno, limpar as lgrimas ao leno.

5) lugar, aproximao, contiguidade, exposio a um agente fsico:

Vejo-a a assomar  porta da alcova... [MA.1, 14].

Estar  janela, ficar  mesa, ao porto, ao sol, falar ao telefone

6) semelhana, conformidade:

No sai a ns, que gostamos da paz... [MA apud SS.1, 310].

Desta vez falou ao modo bblico [MA apud SS.1].

Quem puxa aos seus no degenera.

7) distribuio proporcional, gradao:

um a um, ms a ms, pouco a pouco

Observao: Diz-se pouco a pouco, pouco e pouco, a pouco e pouco.

Pouco a pouco muitas graves matronas... se tinham alongado da corte para suas honras e solares [AH.3, 21].

8) preo:

A como esto as mas? A um real o quilo.

9) posse:

Tomou o pulso ao doente (= do doente).

10) forma numerosas locues adverbiais:

 pressa, s pressas, s claras, s ocultas, s cegas, a granel, a rodo, etc.

Emprego do  acentuado

Emprego do  acentuado  Emprega-se o acento grave no a para indicar que soa como vogal aberta nos seguintes dois casos:

1.) quando representa a construo da preposio a com o artigo a ou o incio de aquele(s), aquela(s), aquilo, fenmeno que em gramtica se chama crase:

Fui  cidade.

O verbo ir pede a preposio a; o substantivo cidade pede o artigo feminino a: Fui a a cidade.

2.) quando representa a pura preposio a que rege um substantivo feminino singular, formando uma locuo adverbial que, por motivo de clareza, vem assinalada com acento 
diferencial:

 fora,  mngua,  bala,  faca,  espada,  fome,  sede,  pressa,  noite,  tarde, etc. [SA.4, 11-23; CR.2, 233; ED.2,  58 e 156; SL.1, 224].

Observaes:

1.) Crase  um fenmeno fontico que se estende a toda fuso de vogais iguais, e no s ao a acentuado.

2.) No h razo para condenar-se o verbo crasear para significar pr o acento grave indicativo da crase. O que se no deve  chamar crase ao acento grave:

Alencar craseava a preposio simples a [JO.3, 27].

Ocorre a crase nos seguintes casos principais:

a) diante de palavra feminina, clara ou oculta, que no repele artigo:

Fui  cidade.

Dirigia-se  Bahia e depois a Paris.

Para sabermos se um substantivo feminino no repele artigo, basta constru-lo em oraes em que apaream regidos das preposies de, em, por. Se tivermos puras preposies, 
o nome dispensa artigo; se tivermos necessidade de usar, respectivamente da, na, pela, o artigo ser obrigatrio:

Observaes:

1.) O nome que sozinho dispensa artigo, pode t-lo quando acompanhado de adjetivo ou locuo adjetiva:

Assim se diz: Irei  casa paterna.

2.) Se for facultativo, nas condies acima, o emprego de de ou da, em ou na, por ou pela, ser tambm facultativo o emprego do a acentuado:

b) diante do artigo a e dos demonstrativos aquele, aquela, aquilo:

c) diante de possessivo em referncia a substantivo oculto:

Dirigiu-se quela casa e no  sua.

d) diante de locues adverbiais constitudas de substantivo feminino plural:

s vezes, s claras, s ocultas, s escondidas, s trs da manh.

No ocorre a crase nos seguintes casos principais:

a) diante de palavra de sentido indefinido:

Observao: H acento antes do numeral uma: Irei v-la  uma hora.

b) diante dos pronomes relativos que (quando o a anterior for uma preposio), quem, cuja:

Est a a pessoa a que fizeste aluso.

O autor a cuja obra a crtica se referiu  muito pouco conhecido.

Ali vai a criana a quem disseste a notcia.

c) diante de verbo no infinitivo:

Ficou a ver navios.

Livro a sair em breve.

d) diante de pronome pessoal e expresses de tratamento como V. Ex., V.S., V. M., etc.:

No disseram a ela e a voc toda a verdade.

Requeiro a V. Ex. com razo.

e) nas expresses formadas com a repetio de mesmo termo (ainda que seja um nome feminino), por se tratar de pura preposio:

frente a frente, cara a cara, face a face, gota a gota

f) diante da palavra casa quando desacompanhada de adjunto:

Irei a casa logo mais (cf. Entrei em casa; Sa de casa).

A crase  facultativa nos seguintes casos principais:

a) antes de pronome possessivo com substantivo feminino claro:

No portugus moderno d-se preferncia ao emprego do possessivo com artigo e, neste caso, ao a acentuado.

b) antes de nome prprio feminino:

c) antes da palavra casa quando acompanhada de expresso que denota o dono ou morador, ou qualquer qualificao:

Observaes:

1.)  preciso no identificar crase e craseado com acento e acentuado. Em tempos passados, principalmente entre os romnticos, a preposio pura a era em geral acentuada, 
ainda diante de masculino, sem que isso quisesse indicar a craseado. Da os falsos erros que se apontam em escritores dessa poca, mormente em J. de Alencar.

2.) Deve-se usar dormir a sesta, e no dormir  sesta; lev-lo a breca, e no lev-lo  breca; tudo est indo a breca; ele teria levado a breca.

At

2) At

Esta preposio indica o limite, o termo de movimento, e, acompanhando substantivo com artigo (definido ou indefinido) pode vir ou no seguida da preposio a:

Ouvido isto, o desembargador comoveu-se at s lgrimas, e disse com mui entranhado afeto [CBr.1, 67].

... e prometem ser-lhe amparo at ao fim [CBr.1, 77].

Albernaz saiu fora da roda dos amigos e foi at a um canto da sala... [LB apud SS.1,  496].

 preciso distinguir a preposio da palavra de incluso at que se usa para reforar uma declarao com o sentido de inclusive, tambm, mesmo, ainda. A preposio 
pede pronome pessoal oblquo tnico e a palavra de incluso pede pronome pessoal reto:

Ele chegou at mim e disse toda a verdade.

At eu recebi o castigo.

Com

3) Com

Aparece nas circunstncias de companhia, ajuntamento, simultaneidade, modo, maneira, meio, instrumento, causa, concesso (principalmente seguida de infinitivo), oposio:

Quando os bons capitulam com os maus sancionam a prpria runa [MM].

Nunca agradecemos com tanto fervor como quando esperamos um novo favor [MM].

A economia com o trabalho  uma preciosa mina de ouro [MM].

Somos atletas na vida; lutamos com as paixes dos outros homens e com as nossas [MM].

Queremos governos perfeitos com homens imperfeitos: disparate [MM].

O silncio com ser mudo no deixa de ser por vezes um grande impostor [MM].

A sociedade poltica nasceu da famlia; mas a famlia no acabou com (= temporal) a existncia da sociedade [AH.2, 144].

Inicia o complemento de muitos verbos e nomes (complemento relativo e complemento nominal):

O lisonjeiro conta sempre com a abonao do nosso amor-prprio [MM].

O homem que no  indulgente com os outros, ainda se no conhece a si prprio [MM].

Contra

4) Contra

Denota oposio, direo contrria, hostilidade:

Lutava contra tudo e contra todos.

Remar contra a mar

Votar contra algum

Condenam bons mestres como galicismo o emprego desta preposio depois do verbo apertar, estreitar (e sinnimos), apesar dos exemplos de escritores corretos, uso que se vai 
generalizando:

Apertei contra o corao o punho da espada [AH.5, I, 37].

E Dulce caiu nos braos do guerreiro trovador, que desta vez a estreitou contra o peito... [AH.3, 144].

Tambm se considera como galicismo contra no sentido de em troca de, bem como no sentido de junto a, ao lado de:

Dar a mercadoria contra recibo (por mediante recibo).

Encostar o mvel contra a parede (por junto  parede).

De

5) De

a) Introduz complemento de verbos (complemento relativo) e nomes (complemento nominal) que o uso ensinar:

Os sbios vivem ordinariamente solitrios: receiam-se dos velhacos, e no podem tolerar os tolos [MM].

O temor da morte  a sentinela da vida [MM].

b) Indica a circunstncia de lugar donde, origem, ponto de partida dum movimento ou extenso (no tempo e no espao), a pessoa ou coisa de que outra provm ou depende, em sentido 
prprio ou figurado e o agente da passiva (por ser o ponto de partida da ao), principalmente com os verbos que exprimem sentimento e manifestao de sentimentos:

A maior parte dos erros em que laboramos neste mundo provm da falsa definio, ou das noes falazes que temos do bem e do mal [MM].

A doura e beleza das mulheres parecem inculcar que so anjos e serafins que desceram dos cus e se humanaram na terra [MM].

Sancionada a virtude s pela opinio pblica, ela desaparece da vida domstica e de todos aqueles lugares no vistos da multido [AH.2, 143].

Observao: Modernamente o agente da passiva se rege mais de por.

c) Indica a pessoa, coisa, grupo ou srie a que pertence ou de que se salienta, por qualquer razo, o nome precedido de preposio:

A credulidade e confiana de muitos tolos faz o triunfo de poucos velhacos [MM].

d) Indica a matria de que uma coisa  feita:

... ela s lhe aceitava sem relutncia os mimos de escasso preo, como a cruz de ouro, que lhe deu, uma vez, de festas [MA.1, 54].

e) Indica a razo ou a causa por que uma coisa sucede:

O luxo, como o fogo, devora tudo e perece de faminto [MM].

Cantar de alegria, morrer de medo.

f) Indica o assunto ou o objeto de que se trata:

Dizer-se de um homem que tem juzo  o maior elogio que se lhe pode fazer [MM].

g) Indica o meio, o instrumento ou modo, em sentido prprio ou figurado:

O esprito vive de fices, como o corpo se nutre de alimentos [MM].

h) Indica a comparao, hoje principalmente na expresso do que:

So mais de trs horas.

i) Indica a posio, o lugar:

Sucede frequentes vezes admirarmos de longe o que de perto desprezamos [MM].

j) Indica medida:

Copo de leite (= o leite na medida do copo), copo dgua, garrafa de vinho

Observao: Pode-se dizer tambm: copo com leite, com gua, mas a no se visa  medida, mas ao contedo.

l) Indica o fim, principalmente com infinitivo:

D-me de beber um copo dgua.

m) Indica o tempo:

De noite todos os gatos so pardos.

n) Ligando dois substantivos, imediatamente ou por intermdio de certos verbos, serve para caracterizar e definir uma pessoa ou coisa:

O homem de juzo aproveita, o tolo desaproveita a experincia prpria [MM].

Rua do Ouvidor.

Observaes:

1.) Nas denominaes de ruas, escolas, teatros, monumentos, edifcios, festas religiosas e casas comerciais, e em circunstncias que tais, se costuma omitir a preposio 
sem que haja regra fixa para tal critrio: Avenida Rio Branco, Colgio Pedro II (mas Rua do Ouvidor, Praa da Repblica).

2.) Usa-se a preposio de nas datas: 26 de fevereiro. No  praxe da lngua omiti-la nestas circunstncias. Do mesmo modo, diz-se o ano de 1928, embora aqui se possa tambm 
empregar o ano 1928.

o) Indica o todo depois de palavras que significam parte:

A maioria dos homens, um tero dos soldados, um punhado de bravos; um pouco (ou uma pouca) de gua.

Observao: Depois dos comparativos maior, menor, etc. pode ser substitudo por entre: O maior de todos (= entre todos).

p) Indica modo de ser, semelhana, e normalmente vem precedendo predicativo:

Muitos figuram de Digenes, para se consolarem de no poderem ser Alexandres [MM].

q) Liga adjetivo tnico ou gentlico aos substantivos nao, nascimento, origem:

brasileiro de nascimento, alemo de origem

r) Pode equivaler a desde:

Havia meio sculo da (= desde a) descoberta.

Observaes:

1.) Note-se a frmula  de com o sentido de  prprio de:  da natureza humana que muitos homens trabalhem para manter os poucos que se ocupam em pensar para eles, instru-los 
e govern-los [MM].

2.) Em construo do tipo acusar de negligente, presumir de formosa, explicam-se geralmente pela omisso de um verbo atributivo (ser, estar, etc.) ou pela fuso da construo 
do adjetivo com a de substantivo no mesmo lugar [MBa.5, 297]. Acusar de negligente = acusar de ser negligente, acusar de sua negligncia.

No ocorre esta preposio nos seguintes principais casos:

a) em construes de tipo:

A primeira coisa que fiz foi vir a Madri (e no foi de vir).

b) com os verbos e adjetivos que significam afastamento ou diferena, e com os que envolvem a ideia de aumento ou diminuio, superioridade ou inferioridade, a designao 
da medida que no tem preposio [ED.1,  125; JM.1, II, 46-47]:

Aumentar um centmetro (e no aumentar de um).

Este nmero excede aquele duas dezenas (e no excede de duas dezenas).

Mais novo alguns meses (e no mais novo de alguns meses).

c) depois do verbo consistir:

A prova consiste em duas pginas mimeografadas (e no consiste de duas).

Nota: Os puristas, sem maiores exames, tm tachado de galicismo a expresso de resto (= quanto ao mais). Alm de usada por grandes escritores, tem razes no latim de reliquo.

Em

6) Em

Denota:

a) lugar onde, situao, em sentido prprio ou figurado:

Formam-se mais tempestades em ns mesmos que no ar, na terra e nos mares [MM].

Observao: Com alguns verbos, para se exprimir esta circunstncia, se emprega um pronome oblquo tono em lugar da expresso introduzida por em:

Pulsa-lhe (= nele) aquele afeto verdadeiro [MA].

No me toque. Bateu-nos. Mexeu-lhe.

b) tempo, durao, prazo:

Os homens em todos os tempos, sobre o que no compreenderam, fabularam [MM].

Observaes:

1.) Precedendo um gerndio, a preposio em aparece nas circunstncias de tempo, condio ou hiptese:

Ningum, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguir evadir  sada [RB].

2.) Para denotar o espao ou decurso de tempo usa-se a preposio em em concorrncia a dentro de ou daqui a, emprego que alguns estudiosos, com exagero, veem como abuso ou 
imitao do francs [MBa.5, 75]:

Em cinco minutos irei atend-lo.

c) modo, meio:

Foi em pessoa receber os convidados.

Pagava em cheque tudo o que comprava.

d) a nova natureza ou forma em que uma pessoa ou coisa se converte, disfara, desfaz ou divide:

O homem de juzo converte a desgraa em ventura, o tolo muda a fortuna em misria [MM].

Dar em doido.

e) preo, avaliao:

A casa foi avaliada em milhares de reais.

f) fim, destinao:

Vir em auxlio.   Tomar em penhor.   Pedir em casamento.

g) estado, qualidade ou matria:

General em chefe. Ferro em brasa. Imagem em barro. Gravura em ao.

Observao: Tem-se, sem maior exame, condenado este emprego da preposio em como galicismo. Tem-se tambm querido evitar a expresso em questo, por se ter inspirado em modo 
de falar francs; mas  linguagem hoje comunssima e corrente nas principais lnguas literrias modernas.

h) causa, motivo (geralmente antes do infinitivo):

H povos que so felizes em no ter mais que um s tirano [MM].

i) lugar para onde se dirige um movimento, sucesso, em sentido prprio ou figurado:

Saltar em terra. Entrar em casa. De gro em gro.

Observao: A lngua padro no agasalha este emprego com os verbos vir, chegar, preferindo a preposio a: Ir  cidade; chegar ao colgio.

j) forma, semelhana, significao de um gesto ou ao:

Resoluta estendeu os braos, juntando as mos em talhadeira e arrojou-se dalto, mergulhando... [CN apud SS.1,  506, 7].

Entre

7) Entre

Denota posio intermediria no espao ou no tempo, em sentido prprio ou figurado:

Entre o queijo e o caf, demonstrou-me Quincas Borba que o sistema era a destruio da dor [MA.1, 301].

Como as outras preposies, rege pronome oblquo tnico, de modo que se diz entre mim e ti, entre ele e mim, entre voc e mim, etc.

Por que vens, pois, pedir-me adoraes quando entre mim e ti est a cruz ensaguentada do Calvrio...? [AH.1, 46-47].

A lngua exemplar evita exemplos como entre eu e tu, entre eu e eles, entre eles e eu e semelhantes. Deste ltimo caso, em que o pronome reto no vem junto da preposio entre 
ocorrem alguns exemplos literrios que a tradio do idioma evita:

Odeio toda a gente / com tantas veras dalmas e to profundamente /, que me ufano de ouvir que entre eles e eu existe / separao formal [AC.4, 11-12].

Para

8) Para

Denota:

a) a pessoa ou coisa em proveito ou prejuzo de quem uma ao  praticada (objeto indireto, complemento relativo ou complemento nominal):

Aborrecemos o absolutismo nos outros, porque o cobiamos para ns mesmos [MM].

A preguia nos maus  salutar para os bons [MM].

b) a pessoa a que se atribui uma opinio (dativo livre):

O pedir para quem no tem vergonha  menos penoso que trabalhar [MM].

c) fim, destinao:

A filha deu-me recomendaes para Capitu e para minha me [MA apud SS.1, 509, b].

d) fim:

O ambicioso, para ser muito, afeta algumas vezes no valer nada [MM].

e) termo de movimento, direo para um lugar com a ideia acessria de demora ou destino:

Foi para Europa.

Observao: Denota apenas o lugar onde em construes do tipo: Ele est agora para o Norte.

f) tempo a que se destina um objeto ou ao, ou para quando alguma coisa se reserva:

Faz para as matanas seis anos que voc justou comigo uma porca por 4 moedas... [CBr apud JM.1, II, 49].

Vou a para as seis horas.

Por (e per)

9) Por (e per)

Denota:

a) lugar por onde, em sentido prprio ou figurado:

Tais eram as reflexes que eu vinha fazendo, por aquele Valongo fora, logo depois de ver e ajustar a casa [MA.1, 190].

b) meio:

Puxar pelo palet, rezar pelo livro, segurar pelos cabelos, levar pela mo, ler pelo rascunho, contar pelos dedos, enviar pelo correio.

c) modo:

Repetir por ordem, estudar por vontade.

Louvamos por grosso, mas censuramos por mido [MM].

d) distribuio:

Vrias vezes por dia.

e) diviso, indicando a pessoa ou coisa que recebe o quinho:

Distribuir pelos pobres, repartir pelos amigos, dividir por trs a herana.

f) substituio, troca, valor igual, preo:

Comer gato por lebre.

O baro dizia ontem, no seu camarote, que uma s italiana vale por cinco brasileiras [MA.1, 183].

g) causa, motivo:

O amor criou o Universo que pelo amor se perpetua [MM].

Muitos se abstm por acanhados do que outros fogem por virtuosos [MM].

h) nos juramentos e peties, designando a pessoa ou coisa invocada para firmar o juramento e para interceder:

jurar pela sua honra, pedir pela sade de algum [ED.1,  163, b].

i) em favor de, em prol de:

Morrer pela ptria, lutar pela liberdade.

j) tempo, durao:

Qual  aquele que, assentado, por noite de luar e serena sobre uma fraga marinha, no sente irem-se-lhe os olhos...? [AH.2, 159].

l) agente da passiva:

As mulheres so melhor dirigidas pelo seu corao do que os homens pela razo [MM].

m) depois dos nomes que exprimem disposio ou manifestao de disposio de nimo para com alguma coisa:

A paixo pelo jogo pressupe ordinariamente pouco amor pelas letras [MM].

Observao: No procede mais o ter-se como errnea a construo com por, nestes casos, porque, no portugus contemporneo, o uso de de se especializou no sentido de genitivo 
objetivo. No portugus de outros tempos, amor de Deus era tanto o que consagramos a ele (genitivo objetivo) ou o que ele tem, o que nos consagra (genitivo subjetivo). Em lugar 
de amor pelas letras diz-se tambm corretamente amor s letras. Quando nos casos de genitivo objetivo pode ocorrer ambiguidade com o emprego da preposio de, costuma-se substituir 
esta preposio por contra (se o nome designa sentimento hostil) ou para com (se o sentimento  benvolo): Guerra contra os inimigos e respeito para com todos.

n) fim (em vez de para):

Forcejava por obter-lhe a benevolncia, depois a confiana [MA.1, 194].

o) introduzindo o predicativo do objeto direto, denota qualidade, estado ou conceito em que se tem uma pessoa ou coisa:

Ter algum por sbio. Enviar algum por embaixador. Tenho por certo que ele vir.

Observao: Neste emprego pode ser substituda pela preposio como, apesar da crtica injusta dos puristas.77

9  Conjuno

Conector e transpositor

Conector e transpositor  A lngua possui unidades que tm por misso reunir oraes num mesmo enunciado.

Estas unidades so tradicionalmente chamadas conjunes, que se repartem em dois tipos: coordenadas e subordinadas.

As conjunes coordenadas renem oraes que pertencem ao mesmo nvel sinttico: dizem-se independentes umas das outras e, por isso mesmo, podem aparecer em enunciados separados.

Pedro fez concurso para medicina, e Maria se prepara para a mesma profisso.

Podamos dizer desta maneira, em dois enunciados independentes:

Pedro fez concurso para medicina.

Maria se prepara para mesma profisso.

Da ser a conjuno coordenativa um conector.

Como sua misso  reunir unidades independentes, pode tambm conectar duas unidades menores que a orao, desde que do mesmo valor funcional dentro de mesmo enunciado. Assim:

Pedro e Maria   (dois substantivos)

Ele e ela   (dois pronomes)

Ele e Maria   (um pronome e um substantivo)

rico e inteligente   (dois adjetivos)

ontem e hoje   (dois advrbios)

saiu e voltou   (dois verbos)

com e sem dinheiro   (duas preposies)

Bem diferente , entretanto, o papel da conjuno subordinada. No enunciado:

Soubemos que vai chover,

a misso da conjuno subordinada  assinalar que a orao que poderia ser sozinha um enunciado:

Vai chover

se insere num enunciado complexo em que ela (vai chover) perde a caracterstica de enunciado independente, de orao, para exercer, num nvel inferior da estruturao gramatical, 
a funo de palavra, j que vai chover  agora objeto direto do ncleo verbal soubemos.

Assim, a conjuno subordinativa  um transpositor de um enunciado que passa a uma funo de palavra, portanto de nvel inferior dentro das camadas de estruturao gramatical. 
Diz-se, por isso, que que vai chover  uma orao degradada ao nvel da palavra, e isto se deveu ao fenmeno de hipotaxe ou subordinao.

A orao degradada ou subordinada passa a exercer uma das funes sintticas prprias do substantivo, do adjetivo e do advrbio, como veremos mais adiante.

Podemos aproximar o papel do transpositor que ao pronome relativo  que  um transpositor de orao degradada ao nvel do adjetivo  e das preposies que, como vimos, transpem 
uma unidade a exercer papel de outra unidade. Na orao Ningum  de ferro, a preposio de transpe o substantivo ferro  funo de predicativo por ter de ferro passado a 
equivalente de adjetivo [AL.1, 229].

Conectores ou conjunes coordenativas

Conectores ou conjunes coordenativas  Os conectores ou conjunes coordenativas so de trs tipos, conforme o significado com que envolvem a relao das unidades que unem: 
aditivas, alternativas e adversativas.

Conjunes aditivas

Conjunes aditivas  A aditiva apenas indica que as unidades que une (palavras, grupos de palavras e oraes) esto marcadas por uma relao de adio. Temos dois conectores 
aditivos: e (para a adio das unidades positivas) e nem (para as unidades negativas). Vejam-se os exemplos extrados do Marqus de Maric:

O velho teme o futuro e se abriga no passado.

Uma velhice alegre e vigorosa  de ordinrio a recompensa da mocidade virtuosa.

A pobreza e a preguia andam sempre em companhia.

No emprestes o vosso nem o alheio, no tereis cuidados nem receio.

Muitas vezes, graas ao significado dos lexemas envolvidos na adio, o grupo das oraes coordenadas permite-nos extrair um contedo suplementar de causa, consequncia, 
oposio, etc. Estes sentidos contextuais, importantes na mensagem global, no interessam nem modificam a relao aditiva das unidades envolvidas: Rico e inteligente e rico 
e desonesto, ambas se unem por uma relao gramatical de adio, embora a oposio semntica existente entre rico e desonesto apresente um sentido suplementar, como se estivesse 
enunciado rico mas desonesto. O mesmo se d se uma unidade for afirmativa e outra negativa: rico e no honesto.

Em lugar de nem usa-se e no, se a primeira unidade for positiva e a segunda negativa: rico e no honesto (compare com: ele no  rico nem honesto).

Observaes:

1.) Evite-se (embora no constitua erro) o emprego de e nem quando no houver necessidade de nfase:

Nunca vira uma boneca e nem sequer o nome desse brinquedo [ML.2, 9].

(...) mas o primo Nicolau est a dormir at tarde e nem  missa vai [CBr.15].

2.) Algumas vezes e aparece depois de pausa, introduzindo grupos unitrios e oraes; so unidades enfticas com funo textual que extrapolam as relaes internas da orao 
e constituem unidades textuais de situao:

E repito: no  meu [MA.1, 314].

3.) A expresso enftica da conjuno aditiva e pode ser expressa pela srie no s... mas tambm e equivalentes.

No s o estudo mas tambm a sorte so decisivos na vida.

Conjunes alternativas

Conjunes alternativas  Como o nome indica, enlaam as unidades coordenadas matizando-as de um valor alternativo, quer para exprimir a incompatibilidade dos conceitos envolvidos, 
quer para exprimir a equivalncia deles. A conjuno alternativa por excelncia  ou, sozinha ou duplicada junto a cada unidade:

Quando a clera ou o amor nos visita, a razo se despede [MM].

A enumerao distributiva que matiza a ideia de alternncia leva a que se empreguem neste significado advrbios como j, bem, ora (repetidos ou no) ou formas verbais imobilizadas 
como quer... quer, seja... seja. Tais unidades no so conectores e, por isso, as oraes enlaadas se devem considerar justapostas.

Observao: Cumpre lembrar que o par seja... seja no est de todo gramaticalizado, tanto que, em certas construes, aparece flexionado. Sempre discordam de tudo, sejam 
as discordncias ligeiras, sejam de peso. Sempre discordavam de tudo, fossem as discordncias ligeiras, fossem as de peso [AK.1, 68].

Conjunes adversativas

Conjunes adversativas  Enlaam unidades apontando uma oposio entre elas. As adversativas por excelncia so mas, porm e seno.

Ao contrrio das aditivas e alternativas, que podem enlaar duas ou mais unidades, as adversativas se restringem a duas. Mas e porm acentuam a oposio; seno marca a incompatibilidade:

Acabou-se o tempo das ressurreies, mas continua o das insurreies [MM].

Unidades adverbiais que no so conjunes coordenativas

Unidades adverbiais que no so conjunes coordenativas  Levada pelo aspecto de certa proximidade de equivalncia semntica, a tradio gramatical tem includo entre as 
conjunes coordenativas certos advrbios que estabelecem relaes interoracionais ou intertextuais.  o caso de pois, logo, portanto, entretanto, contudo, todavia, no obstante. 
Assim, alm das conjunes coordenativas j assinaladas, teramos as explicativas (pois, porquanto, etc.) e conclusivas (pois [posposto], logo, portanto, ento, assim, por 
conseguinte, etc.), sem contar contudo, entretanto, todavia que se alinham junto com as adversativas. No incluir tais palavras entre as conjunes coordenativas j era lio 
antiga na gramaticografia de lngua portuguesa; vemo-la em Epifnio Dias [ED.1] e, entre brasileiros, em Maximino Maciel, nas ltimas verses de sua Gramtica [MMa.1]. Perceberam 
que tais advrbios marcam relaes textuais e no desempenham o papel conector das conjunes coordenativas78, apesar de alguns manterem com elas certas aproximaes ou mesmo 
identidades semnticas.

Que esses advrbios no so conjunes coordenativas e desempenham funes diversas prova-o o fato de poderem se compatibilizar, em exemplos como:

No foram ao mesmo cinema e, portanto, no se poderiam encontrar.

Ele e, portanto, seu filho so responsveis pela denncia.

No queremos pensar na morte, e por isso nos ocupamos tanto da vida [MM].

Cabe ao e, como conjuno, reunir num mesmo grupo oracional as duas oraes independentes do enunciado, enquanto portanto, como advrbio, marca uma relao semntica com o 
que j foi dito. Poder-se-ia eliminar a conjuno e e, ento, teramos uma coordenao assindtica, caso em que haveria uma pausa para marcar a fronteira das duas oraes 
(marcada por vrgula ou ponto e vrgula):

No foram ao mesmo cinema; portanto no se poderiam encontrar.

Poder-se-ia tambm eliminar o advrbio:

No foram ao mesmo cinema e no se poderiam encontrar.

No sendo prprio do advrbio exercer o papel de conector, ele poderia aparecer at numa orao subordinada, para marcar essa relao semntica entre os dois enunciados:

Nunca perdemos de vista o nosso interesse, ainda mesmo quando nos inculcamos desinteressados [MM].

Outra diferena entre as conjunes coordenativas e os advrbios (a que poderamos chamar textuais ou discursivos)  que s as primeiras efetivam a coordenao entre subordinadas 
equifuncionais, isto , do mesmo valor (substantiva, adjetiva ou adverbial) e com a mesma funo sinttica:

Espero que estudes e que sejas feliz.

Como advrbios, que guardam com o ncleo verbal uma relao, em geral, mais frouxa, esses advrbios podem vir em princpio em qualquer posio dentro da orao em que se inserem:

Eles no chegaram nem todavia deram certeza da presena.

Eles no chegaram nem deram, todavia, certeza da presena.

Eles no chegaram nem deram certeza da presena, todavia.

Tambm os advrbios no participam da particularidade das conjunes coordenativas de constiturem um bloco unitrio de enunciados coordenados por sua vez coordenado a outro 
anterior [CA.1]:

Lus  vegetariano, mas [no come abbora nem bebe ch].

Remetemos dois convites ao Paulo, mas [ou ele se mudou ou est doente].

Transpositores ou conjunes subordinativas

Transpositores ou conjunes subordinativas  J dissemos que o transpositor ou conjuno subordinativa transpe orao degradada ou subordinada ao nvel de equivalncia de 
um substantivo capaz de exercer na orao complexa uma das funes sintticas que tm por ncleo o substantivo.

Falamos em orao complexa e chegou o momento de diferen-la em relao ao grupo oracional. Orao complexa  aquela que tem um ou mais dos seus termos sintticos sob forma 
de uma orao subordinada.

Esperamos [que todos venham ao baile],

em que a orao transposta pelo que exerce uma das funes comuns ao substantivo: objeto direto do ncleo verbal esperamos.

J no grupo oracional temos oraes coordenadas, independentes, e que, por isso mesmo, podem ser usadas separadamente umas das outras:

Chegamos tarde e no assistimos a todo o filme, mas vimos o mais interessante dele.

Chegamos tarde. No assistimos a todo o filme. Vimos o mais interessante dele.

As conjunes e e mas no modificam o valor sinttico das oraes reunidas; apenas indicam o tipo de relao semntica: adio (e) e contraste (mas).

Alm do que transpositor de orao ao nvel de substantivo, chamado conjuno integrante, e do que pronome relativo, que transpe orao ao nvel de adjetivo, a lngua portuguesa 
conta com poucos outros transpositores:

a) Se que transpe orao originariamente interrogativa total, isto , desprovida de unidade interrogativa, ao nvel de substantivo, conhecida, por isso mesmo, como conjuno 
integrante, a exemplo do que anterior:

Ela no sabe [se ter sido aprovada].

Aqui a orao interrogativa Ter ela sido aprovada? se transpe, mediante o se, ao nvel de substantivo e como tal est habilitada a exercer a funo de objeto direto do ncleo 
verbal no sabe, sem o primitivo contorno meldico interrogativo.

b) Se que transpe orao ao nvel de advrbio, e como tal est habilitada a exercer a funo de adjunto adverbial, com valor de circunstncia de condio e , por isso mesmo, 
chamado conjuno condicional.

Que e locues: as chamadas locues conjuntivas

Que e locues: as chamadas locues conjuntivas  A orao transposta a substantivo pela conjuno que, de acordo com a funo sinttica que exerce em relao ao ncleo verbal 
da orao chamada principal, pode receber um ndice funcional representado por uma preposio. Se exerce funo de sujeito, objeto direto, predicativo, no precisar deste 
ndice funcional:

Parece [que vai chover].

Esperamos [que cheguem cedo].

A verdade  [que todos se saram bem].

Se a funo  de complemento relativo ou de objeto indireto, ou complemento nominal, a conjuno que vem precedida da conveniente preposio:

Estavam precisando [de que os ajudassem].

Ela dedicava seu cuidado [a que o filho tivesse boa educao].

Eram poucas as esperanas [de que tudo acabasse bem].

Como todo substantivo transposto, a orao subordinada substantiva pode exercer a funo de adjunto adverbial; neste caso, o que tambm ter a companhia de uma preposio 
adequada, que marcar a relao semntica da circunstncia:

Tudo sair bem [desde que as providncias sejam tomadas a tempo].

[Sem que estivesse tudo acertado], no iria viajar.

Trabalhou afincadamente [para que tivesse uma velhice tranquila].

Ela s dizia tudo aquilo porque [= por que gostava da verdade].

Pelo que podemos observar, tais combinaes de preposio e conjuno que no constituem outros tipos especiais de locues; so, na realidade, o concurso de um que, transpositor 
de orao a substantivo e de uma preposio que o acompanha como ndice de sua funo sinttica em relao ao ncleo verbal, funo, alis, exercida pela orao inteira.

Nisto, o que conjuno difere do que pronome relativo, pois aqui a preposio  ndice da funo sinttica que o relativo exerce na orao em que est inserido:

O homem de que falavas era pouco conhecido na cidade,

em que o transpositor que, precedido de preposio, funciona como complemento relativo do ncleo verbal falavas, enquanto a orao transposta a adjetivo de que falavas funciona 
como adjunto adnominal do substantivo homem.

Tambm se formam locues aparentemente especiais quando temos segmentos do tipo logo que, sempre que, ainda que, etc., em que aparecem advrbios (que sozinhos podem funcionar 
como adjunto adverbial) seguidos do transpositor relativo que, j que esse relativo  um repetidor de advrbio, papel anlogo ao que desempenha como repetidor (isto , 
referente) de substantivo ou pronome. Assim, se na orao independente Logo saiu de casa, o advrbio logo funciona como adjunto adverbial; quando a orao se transpe a subordinada:

[Logo que saa de casa], encontrou o amigo,

exercer tambm a funo de adjunto adverbial. O que degrada a orao saa de casa a subordinada e lhe confere o papel de termo adjunto do advrbio logo. Formalmente, esse 
relativo ser equivalente a quando: Quando saa de casa, encontrou o amigo [AL.1, 236].

Este papel repetidor do relativo que parece estar presente em construes do tipo h (faz) dias (meses, anos, tempo, etc.), em que j no temos um advrbio, mas substantivo 
cujo significado lxico aponta para o campo das expresses denotadoras de espao ou percurso de tempo:

H dias que no o vejo,

em que tambm, pelo sentido, o relativo equivale a quando.

Cabe lembrar, por fim, que, em algumas construes, se pode alterar o significado originrio do advrbio, motivado pelos significados dos lexemas que entram na orao e por 
uma interpretao suplementar, contextual, do falante, calcada na sua experincia de mundo. Assim, j, que tem valor originrio temporal, ao unir-se ao que na frmula j que, 
passa a uma interpretao causal ou condicional:

J que todos saram, desisto do negcio.

Da mesma sorte, ainda, nitidamente temporal, ao unir-se ao que na locuo ainda que, altera seu significado para valor concessivo, equivalente a embora:

Nada conseguiu da justia, ainda que juntasse todas as provas em sua defesa.

Da mesma sorte que no so conjunes coordenativas os advrbios contudo, entretanto, pois, etc., equivalentes pelo sentido a unidades introdutoras de enunciados adversativos, 
explicativos e conclusivos, assim tambm no so conjunes subordinativas certos advrbios de significado causal, concessivo, temporal, consecutivo, etc.

Damos a seguir uma lista das principais conjunes e locues conjuntivas subordinativas, relacionando-as pelo matiz semntico, reunindo, ainda, as que se formam com o concurso 
do transpositor que conjuno e do transpositor relativo que, examinados anteriormente, bem como das comparativas e consecutivas que tm outro tratamento. Estudo complementar 
delas veremos ao tratar das oraes subordinadas:

1) Causais: quando iniciam orao que exprime a causa, o motivo, a razo do pensamento da orao principal: que (= porque), porque, como (= porque, sempre anteposta a sua 
principal, no portugus moderno), visto que, visto como, j que, uma vez que (com verbo no indicativo), desde que (com o verbo no indicativo), etc.:

A memria dos velhos  menos pronta porque o seu arquivo  muito extenso [MM].

Como ia de olhos fechados, no via o caminho [MA.1, 19].

Desde que se fala, indeterminadamente, e no plural, em direitos adquiridos e atos jurdicos perfeitos, razo era que no plural e indeterminadamente se aludisse a casos julgados 
[RB.4, 25].

Observaes:

1.) J se condenou injustamente o emprego de desde que em sentido causal, s o aceitando com ideia temporal (assim que) ou condicional.

2.) Evite-se o emprego de de vez que por no ser locuo legtima.

2) Comparativas: quando iniciam orao que exprime o outro termo da comparao. A comparao pode ser assimilativa ou quantitativa.  assimilativa quando consiste em assimilar 
uma coisa, pessoa, qualidade ou fato a outra mais impressionante, ou mais conhecida [MC.3, II, 48]. As unidades comparativas assimilativas so como ou qual, podendo estar 
em correlao com assim ou tal postos na orao principal, ou ainda aparecer assim como:

O medo  a arma dos fracos, como a bravura a dos fortes [MM].

A ignorncia, qual outro Faetonte, ousa muito e se precipita como ele [MM].

O jogo, assim como o fogo, consome em poucas horas o trabalho de muitos anos [MM].

A comparao quantitativa consiste em comparar, na sua quantidade ou intensidade, coisas, pessoas, qualidades ou fatos [MC.3]. H trs tipos de comparao quantitativa:

a) Igualdade  introduzida por como ou quanto em correlao com o advrbio tanto ou to da orao principal:

Nenhum homem  to bom como o seu partido o apregoa, nem to mau como o contrrio o representa [MM].

Nada incomoda tanto aos homens maus como a luz, a conscincia e a razo [MM].

b) Superioridade  introduzida por que ou do que em correlao com o advrbio mais da orao principal:

O orgulho do saber  talvez mais odioso que o do poder [MM].

O homem bom espera mais do que teme, o mau receia mais do que espera [MM].

c) Inferioridade  introduzida por que ou do que em correlao com o advrbio menos da orao principal:

Tempos h em que  menos perigoso mentir que dizer verdades [MM].

3) Concessivas: quando iniciam orao que exprime que um obstculo  real ou suposto  no impedir ou modificar a declarao da orao principal: ainda que, embora, posto 
que, se bem que, apesar de que, etc.:

Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral no lhes perdoa, e castiga a nossa indulgncia [MM].

4) Condicionais (e hipotticas): quando iniciam orao que em geral exprime:

a) uma condio necessria para que se realize ou se deixe de realizar o que se declara na orao principal;

b) um fato  real ou suposto  em contradio com o que se exprime na principal.

Este modo de dizer  frequente nas argumentaes. As principais conjunes condicionais (e hipotticas) so: se, caso, sem que, uma vez que (com o verbo no subjuntivo), desde 
que (com o verbo no subjuntivo), dado que, contanto que, etc:

Se os homens no tivessem alguma coisa de loucos, seriam incapazes de herosmo [MM].

Se as viagens simplesmente instrussem os homens, os marinheiros seriam os mais instrudos [MM].

5) Conformativas: quando iniciam orao que exprime um fato em conformidade com outro expresso na orao principal: como, conforme, segundo, consoante:

Tranquilizei-a como pude [MA.1, 174].

Fez os exerccios conforme o professor determinou.

6) Consecutivas: quando iniciam orao que exprime o efeito ou consequncia do fato expresso na orao principal. A unidade consecutiva  que, que se prende a uma expresso 
de natureza intensiva como tal, tanto, to, tamanho, posta na orao principal. Estes termos intensivos podem facilmente calar-se:

Os povos exigem tanto dos seus validos, que estes em breve tempo se enfadam e os atraioam [MM].

Os vcios so to feios que, ainda enfeitados, no podem inteiramente dissimilar a sua fealdade [MM].

Vive de maneira que ao morrer no te lastimes de haver vivido [MM].

isto : vive de tal maneira que (que em consequncia...).

7) Finais: quando iniciam orao que exprime a inteno, o objetivo, a finalidade da declarao expressa na orao principal: para que, a fim de que, que (para que), porque 
(para que):

Levamos ao Japo o nosso nome, para que outros mais felizes implantassem naquela terra singular os primeiros rudimentos da civilizao ocidental [LCo apud FB.1, 219].

8) Modais: quando iniciam orao que exprime o modo pelo qual se executou o fato expresso na orao principal: sem que:

Fez o trabalho sem que cometesse erros graves.

Observao: A Nomenclatura Gramatical Brasileira no agasalhou as conjunes modais e, assim, as oraes modais, apesar de pr o modo entre as circunstncias adverbiais.

9) Proporcionais: quando iniciam orao que exprime um fato que ocorre, aumenta ou diminui na mesma proporo daquilo que se declara na orao principal:  medida que,  proporo 
que, ao passo que, (tanto mais)... quanto mais, (tanto mais)... quanto menos, (tanto menos)... quanto mais, (tanto mais)... menos, etc.:

O ano quanto mais alto sobe, mais pequeno se afigura [MM].

Progredia  medida que se dedicava aos estudos srios.

10) Temporais: quando iniciam orao que exprime o tempo da realizao do fato expresso na orao principal. As principais conjunes e locues temporais so:

a) para o tempo anterior: antes que, primeiro que:

Ningum, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinria, primeiro que meta o p na estrada, se esquecer de entrar em conta com suas foras... [RB apud FB.1, 126].

b) para o tempo posterior (de modo indeterminado): depois que, quando:

Quando disse isso, ningum acreditou.

c) para o tempo posterior imediato: logo que, tanto que (hoje raro), assim que, desde que, eis que, (eis) seno quando, eis seno que:

Logo que saram, o ambiente melhorou.

d) para o tempo frequentativo (repetido): quando (com o verbo no presente), todas as vezes que, (de) cada vez que, sempre que:

Quando o povo no acredita na probidade, a imoralidade  geral [MM].

Observao: Evite-se o erro de preceder com em o que da locuo todas as vezes que (dizendo: todas as vezes em que).

e) para o tempo concomitante: enquanto, (no) entretanto que (hoje raro):

Dormiu enquanto estava no cinema.

Observao: Entretanto ou no entretanto so advrbios de tempo, com o sentido de nesse nterim, nesse tempo, nesse intervalo:

O aperto dos sitiados aumentava entretanto de dia para dia [RS.2, IV, 208].

Mais modernamente entretanto passou a ter sentido adversativo, e, por influncia do advrbio, tem sido empregado precedido da combinao no (no entretanto). Muitos puristas 
condenam tal acrscimo.

f) para o tempo terminal: at que:

Passeou at que se sentisse esgotado.

O relativo que entra em expresses de tempo: agora que, hoje que, a primeira vez que, etc.

Agora, que tudo acabou, posso pensar mais tranquilamente.

Se o conjunto  proferido sem pausa, estabelece-se uma unidade de sentido  semelhana de depois que, j que, etc., e se passa a considerar o todo como locuo conjuntiva 
temporal:

Agora que tudo acabou, posso pensar mais tranquilamente.

Que excessivo

Que excessivo  Sob o modelo das locues conjuntivas finalizadas por que, desenvolveu-se o costume de acrescentar este transpositor junto a advrbio que s por si funciona 
como adjunto adverbial: enquanto que, apenas que, embora que, mal que, etc., construes que os puristas no tm visto com bons olhos, apesar dos exemplos de escritores corretos:

... porque a cincia  mais lenta e a imaginao mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensao viva de todos os tempos [MA.1, 24].

Aparece ainda o que excessivo depois de expresses de sentido temporal como:

Desde aquele dia que o procuro.

Conjunes e expresses enfticas

Conjunes e expresses enfticas  As conjunes coordenativas podem aparecer enfatizadas. Para esta nfase o idioma se serve de vrios recursos. Assim, a adio pode vir 
encarecida das expresses do tipo:

no s... mas (tambm)

no s... mas (ainda)

no s... seno (tambm)

no s... que tambm, etc.

No s se aplica ao portugus mas ainda ao latim.

A alternativa pode ser enfatizada pela repetio:

Ou estudas ou brincas.

J dizes sim j dizes no.

Ora vem aqui, ora vai ali.

A srie nem... nem adquire sentido aditivo negativo.

Nem estudou nem tirou boas notas (no estudou e no tirou...)

Quer... quer e ou... ou, com o verbo no subjuntivo e tom de voz descendente, podem adquirir um sentido suplementar de concesso quando a possibilidade de aes opostas no 
impede a declarao contida na orao principal:

Quer estudes quer no, aprenders facilmente a lio.

Nas subordinadas e principais, a correlao de uma expresso com o conectivo ou outro termo da orao a que se prende, para mostrar relao semntica em que essas oraes 
se acham com a circunstncia ou fato j expresso,  outro meio de enfatizar a interdependncia oracional. Esta expresso memorativa  constituda por advrbio ou equivalente:

Como os sbios no adulam os povos, tambm estes os no promovem [MM].

Quando os homens se desigualam, ento se harmonizam [MM].

Embora no me digam a verdade, ainda assim perguntarei mais vezes.

Acabemos, pois, de despertar deste mortal letargo [ED.1, 119].

Estudemos portanto, e no nos deixemos dominar pela preguia [RV.1, 251].

10  Interjeio

Interjeio

Interjeio   a expresso com que traduzimos os nossos estados emotivos. Tm elas existncia autnoma e, a rigor, constituem por si verdadeiras oraes. Em certas situaes, 
algumas podem estabelecer relaes com outras unidades e com elas constituir unidades complexas. Acompanham-se de um contorno meldico exclamativo. Podem, entretanto, assumir 
papel de unidades interrogativo-exclamativas e de certas unidades prprias do chamamento, chamadas vocativo, e ainda por unidades verbais, como  o caso do imperativo [AL.1, 
240; MC.4, 147].

As interjeies se repartem por quatro tipos:

a) certos sons voclicos que na escrita se representam de maneira convencional: ah!, oh!, hui!, hum; o h no final pode marcar uma aspirao, alheia ao sistema do portugus;

b) palavras j correntes na lngua, como ol!, puxa!, bolas!, bravo!, homem!, valha! (com contorno meldico exclamativo);

c) palavras que procuram reproduzir rudos de animais ou de objetos, ou de outra origem, como: clic (clique), tic-tac (tique-taque), pum!.

d) locues interjetivas: ai de mim!, cruz credo!, valha-me Deus!, aqui del-rei!.

Eis uma relao das interjeies mais comuns da lngua, conforme a situao em que se apresentam:

1) de exclamao: viva!

2) de admirao: ah!, oh!

3) de alvio: ah!, eh!

4) de animao: coragem!, eia!, sus!

5) de apelo ou chamamento: !, ol!, al!, psit!, psiu!

6) de aplauso: bem!, bravo!

7) de desejo ou ansiedade: oh!, oxal!, tomara!

8) de dor fsica: ai!, ui!

9) de dor moral: oh!

10) de dvida, suspeita, admirao: hum!, hem! (tambm hein)

11) de impacincia: arre!, irra!, apre!, puxa! (melhor ser, no registrado oficialmente, pucha)

12) de imposio de silncio: caluda!, psiu! (demorado)

13) de repetio: bis!

14) de satisfao: upa!, oba!, opa!

15) de zombaria: fiau!

Locuo interjetiva

Locuo interjetiva   um grupo de palavras com valor de interjeio: ai de mim, ora bolas, com todos os diabos.

As interjeies so proferidas em tom de voz especial, ascendente ou descendente, conforme as diversas circunstncias dos nossos estados emotivos.

Quando esto combinadas com uma frase maior exclamativa, podem-se separar da frase por meio de uma vrgula, ou por meio do ponto de exclamao, ao qual se deve seguir, entretanto, 
letra minscula:

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa [CAv apud MC.3, I, 65].

B) Estrutura das unidades: anlise mrfica

1  Estrutura das palavras

Palavra e morfema

Palavra e vocbulo: conceito

Palavra e vocbulo: conceito  O termo palavra se nos apresenta com aplicaes diferentes, que devem ser distinguidas e, portanto, classificadas de maneira diversa. Podemos 
ver a palavra habilidade sob trs prismas diferentes: a) o seu aspecto material, fnico, como significante ou expresso; b) a sua significao gramatical como uma classe de 
palavra que se apresenta sob forma de um substantivo feminino singular; c) a sua significao lexical, isto , o que significa a palavra habilidade em relao, por exemplo, 
a caridade ou amabilidade.

Como expresso material, quanto ao seu aspecto fnico, como simples palavra, de formas, no tem nenhum significado e s pode ser classificada pelas suas caractersticas 
fsicas: habilidade pode ser classificada, por exemplo, pelo seu nmero de slabas (polisslabo), ou pela posio da slaba tnica (paroxtono). Consideradas como puras palavras, 
h uma s forma amo (amo, quero bem e amo senhor) e uma s forma casa (a casa de meu amigo e Maria se casa amanh) [ECs.7, 54]. Nesta acepo, em vez de palavra, 
se pode usar o termo vocbulo, do latim vox, que significa a voz.

Aqui temos de relembrar que a fronteira do vocbulo difere se se trata de lngua oral ou de lngua escrita. Na lngua oral, na fala, predomina o ritmo acentual, o que resulta 
em que as slabas tonas se agrupam em torno da slaba tnica, de modo que so as pausas que marcam os limites ou fronteiras dos grupos fnicos, tambm chamadas grupos de 
fora. Assim  que, na lngua oral, h um s grupo fnico e, portanto, um s vocbulo, em aluga-se, em que a slaba tona se se agrupa em torno da slaba tnica (lu). Por 
isso, se d, como reflexo na escrita, a grafia errnea alugasse (ou alugase). O vocbulo, portanto, nem sempre coincide com a palavra; no exemplo, temos um vocbulo e duas 
palavras significativas (aluga e se).

Como j vimos, as slabas tonas que se agrupam em torno da slaba tnica podem, segundo a posio, ser proclticas | syaluga |  se vm antes  ou enclticas | alugase | 
 se vm depois.

Na lngua escrita, as fronteiras so demarcadas pelos espaos em branco: se aluga ou aluga-se.

Quando, alm da parte fnica (significante), se considera a parte significativa (significado), tambm h diferenas que devem ser levadas em conta. A questo se pe quando 
se pergunta quantas palavras existem no conhecido verso de Bilac: Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada.

Responderemos que h quatro ou trs palavras conforme o conceito por que tomemos o termo palavra. Sero quatro se entendermos cheguei, chegaste como palavras de significao 
gramatical diferentes, j que expressam uma o pretrito perfeito do indicativo na 1. pessoa do singular (eu cheguei) e a outra o pretrito perfeito do indicativo na 2. pessoa 
do singular (tu chegaste). Tais significaes se dizem gramaticais porque decorrem de classificaes estabelecidas na gramtica da lngua portuguesa. Assim, cheguei e chegaste 
so contadas como duas palavras gramaticais.

Diremos que s h no referido verso trs palavras se entendermos cheguei, chegaste como palavras de uma s significao lexical, j que ambas tm em comum o significado lexical 
atingir o final de movimento de ida ou vinda, um significado dado pela lngua, mas que se situa fora da gramtica, pois se trata de uma realidade do mundo em que vivemos. 
Assim, cheguei e chegaste so duas formas, duas flexes de uma mesma palavra lxica, o verbo chegar.

 neste sentido de palavra lxica que dizemos que boa  o feminino da palavra bom, que meninos  o substantivo menino no plural[HCv.1, II, 594-595].

Repare-se que nos nossos dicionrios o normal  iniciar o verbete com a palavra lxica bsica: verbo no infinitivo, substantivo no gnero gramatical usual (livro, vela, pente, 
ponte) e adjetivo no masculino singular. Explica-se o procedimento porque o infinitivo, o masculino e o singular representam as formas no marcadas respectivamente do verbo, 
do substantivo e do adjetivo.

Observao: Na literatura lingustica e gramatical, costumam os autores distinguir convencionalmente a maneira de indicar o vocbulo e a palavra. Coseriu, por exemplo, usa 
itlico para a palavra como signo, isto , como expresso (significante) + contedo (significado): chegar = a palavra portuguesa chegar concomitantemente como expresso e 
contedo; itlico e aspas normais (duplas) para a expresso: chegar = o significante de chegar / xegar/; s aspas duplas para o contedo: chegar = o significado de chegar; 
s aspas simples para os traos distintivos de contedo: chegar = trao distintivo que se encontra no contedo de chegar, chegada, chegana, aconchego e demais componentes 
da famlia.

Palavra e morfema

Palavra e morfema  Do que foi exposto acima, conclui-se que em nossa lngua, como se repete nas chamadas lnguas flexionais, a palavra est constituda indissoluvelmente 
(a separao s se faz para efeito de anlise e estudo) de uma base fnica e de duas formas semnticas, a gramatical e a lexical, conhecidas pelo nome tcnico morfema.

Chama-se morfema a unidade mnima significativa ou dotada de significado que integra a palavra.

A depreenso do morfema ou dos morfemas que integram a palavra nem sempre constitui uma operao fcil e sujeita a uma nica soluo. Se tomarmos

falvamos

falava

facilmente depreendemos o elemento comum falava, e mos como distintivo. A unidade -mos indica estar a primeira forma verbal referida  1. pessoa do plural (ns), e assim, 
portadora de um contedo gramatical,  um morfema.

Se agora compararmos

falava

fala,

destacamos o morfema -va- que indica que a ao verbal se d num passado que se prolonga (pret. imperfeito do indicativo). , assim, outro morfema.

Se agora compararmos

falava

falara

se poderia chegar  concluso que o elemento ou unidade distintiva das duas formas verbais fosse o -v- para a primeira ou o -r- para a segunda. A comparao com outras formas 
(falava / fala; falara / falasse, etc.) nos mostraria que as unidades a serem consideradas sero -va- e -ra-, que marcam o pret. imperf. e o mais-que-perf. do indicativo. 
Portanto, a depreenso de um morfema no  uma operao puramente material; h de se levar em considerao o seu contedo ou significado.

Tambm, como so unidades que se acham em concorrncia com outras unidades, esto passveis de mudanas na sua estrutura material, devidas a regras morfofonmicas; no portugus, 
so frequentes a eliso e a crase: porta + eiro  port (a) eiro  porteiro (eliso); porta + aria  portaria (crase). Outras vezes, trata-se de alterao fnica: falava / 
falaveis (por influncia do i de is); outras vezes, de haplologia: idade + oso  idoso (por idadoso).

Tipos de morfema na estrutura das palavras

Tipos de morfema na estrutura das palavras  Na estrutura das palavras, os morfemas derivativos e flexionais se distribuem, quanto ao aspecto formal, pelos seguintes tipos, 
conforme ocorram por acrscimo (aditivos), por subtrao (subtrativos) e por alternncia (modificativos).

H ainda relaes gramaticais que se estabelecem no plano sintagmtico, como a concordncia, a regncia e a consecutio temporum, e tambm pela posio dos termos no sintagma, 
conhecida na gramtica tradicional pelo rtulo ordem das palavras. Destes tipos falaremos mais adiante.

Em nossa lngua, so mais produtivos os morfemas aditivos, ao lado das formaes com compostos; so raros os subtrativos, e os modificativos ocorrem com frequncia nos casos 
de flexo nominal e verbal, conforme veremos no lugar competente.

Morfemas aditivos

Morfemas aditivos  Representados por:

1) prefixos: anteposio  base lexical: pr  repor; quieto  inquieto

2) sufixos, interfixos e desinncias: posposio  base lexical

3) infixos: intercalao no interior da estrutura da base

4) circunfixos: anteposio e posposio simultaneamente  base (parassintticos)

5) discontnuos: fragmentao pela intercalao de outro morfema

6) reduplicativos: repetio da parte inicial da base

Morfemas subtrativos

Morfemas subtrativos  Representados por:

1) subtrativos: subtrao de fonema do radical para exprimir uma indicao gramatical

2) supressivos:

a) supresso de um segmento medial pertencente a qualquer das bases;

b) supresso do segmento final

c) supresso de elemento medial por cruzamento de bases

3) abreviativos: reduo da extenso da palavra, que passa a valer pelo todo

Morfemas modificativos

Morfemas modificativos  Representados por:

1) apofonia: substituio de fonema voclico de um radical de um mesmo paradigma flexional ou derivacional por mudana de timbre para indicao de significado gramatical

2) mettese: por mudana da slaba tnica

Os morfemas podem ser classificados ainda como livres e presos, conforme apaream independente ou dependentemente no discurso. Os morfemas apresentam: a) uma significao 
externa, referente a noes do nosso mundo (aes, estados, qualidades, ofcios, seres em geral, etc.), b) uma significao interna (puramente da esfera das noes gramaticais). 
A depreenso de um morfema depende de dois requisitos: a) a significao e b) a forma fnica.  importante observarmos que uma s forma fnica pode representar mais de um 
morfema: assim -s  marca pluralizadora em as casas e a 2. pessoa do singular em cantas. Por outro lado, um s morfema pode ter realizaes fnicas diferentes em virtude 
do contexto fontico em que se acha; por exemplo, o morfema que corresponde  letra -s para indicar o plural em portugus se realiza como / x / diante de consoante surda (os 
ces), como / j / diante de consoante sonora (os gatos) e como / z / diante de vogal (os homens).79

Os elementos mrficos

Os elementos mrficos  Em portugus, as palavras se podem apresentar sob formas de estrutura diferentes:

a) mar, sol, ar, , hoje, lpis;

b) aluno, alunas, trabalhvamos;

c) casaro, livrinho, cantor, casamento, folhagem, alemo, fertilizar, chuviscar;

d) reter, conter, deter;

e) guarda-chuva, langero, agrcola, planalto, fidalgo.

Em a) as palavras no se podem dividir em formas menores significativas porque s possuem um elemento mrfico chamado radical. Radical  o ncleo onde repousa a significao 
externa da palavra, isto , relacionada com o mundo em que vivemos.

J no grupo b) segue-se ao radical (de significao externa) um ou mais elementos de significao interna ou puramente gramatical. Aluno pode desmembrar-se em alun- e -o. 
O primeiro elemento (radical) encerra a significao da palavra, cabendo ao final -o primeiramente atualiz-la para funcionar como palavra, integrando-a no lxico e secundariamente 
relacion-la  marca de gnero, no caso de -o e -a (este de modo no geral, como acontece com mapa, nauta, masculinos). Em alunas o radical  alun-, e as encerra dois elementos 
de significao interna: 1) -a (indicador do significado gramatical gnero feminino) e 2) -s (indicador do significado gramatical nmero plural). Em trabalhvamos o radical 
 trabalh- e os elementos mrficos de significao interna so: 1) -va (que caracteriza o pret. imperf. do indicativo dos verbos da 1. conjugao) e 2) -mos (que caracteriza 
a 1. pessoa do plural).

Os elementos mrficos de significao interna, indicadores das flexes gramaticais, chamam-se desinncias e se dividem em nominais e verbais.

As desinncias nos nomes e em certos pronomes marcam as flexes de gnero e nmero; nos verbos: nmero, pessoa, tempo e modo.

Muitas vezes o radical no pode funcionar imediatamente como palavra; completa-o uma vogal para constituir o tema da palavra e por isso se chama vogal temtica ou atualizador 
lxico, isto , atualiza-o para funcionar concretamente no discurso [HCv.4, 7-26].

Tema

Tema , portanto, o radical acrescido da vogal temtica e que constitui a parte da palavra pronta para funcionar no discurso e para receber a desinncia ou sufixo. So exemplos 
de temas: livro-, trabalha-. A vogal temtica pode ocorrer num tema simples (livr- o) ou derivado (livr- eir- o).

Nos nomes as vogais temticas esto representadas na escrita pelos grafemas -a, -o e -e e nos verbos por -a, -e e -i.

Nos nomes, a vogal temtica (a, o) cumulativa e secundariamente funciona como a desinncia de gnero. A vogal temtica o ou e se acha representada, s vezes, por uma semivogal 
de um ditongo: po, pes. A vogal temtica pode passar  variante u como ocorre com afeto  afetuoso, o que se d, sem ser automtico, quando se junta ao -o desinncia ou 
sufixo iniciado por vogal [VK.2, 35]. No tm vogal temtica os nomes terminados em vogal tnica, e por isso se dizem atemticos: f. Neste caso, o tema coincide com o radical. 
Os nomes terminados em consoante (mar, paz, mal) apresentam a vogal temtica e, latente no singular, mas patente no plural (mares, pazes, males). Uma caracterstica desses 
atemticos terminados em vogal tnica  que esta no  elidida quando seguida de sufixo: caf  cafezal, cafeeiro.

Observao: Em geral a vogal tnica final (, , , , ) resulta da crase da vogal do radical com a temtica: f < fee < fide(m). Em anlise mrfica fora do plano histrico 
no cabe desfazer esta fuso.

Afixos: prefixos e sufixos. Interfixos

Afixos: prefixos e sufixos. Interfixos  Nas palavras do grupo c) junta-se ao final da base um elemento mrfico chamado sufixo que no tem curso independente na lngua (e 
por isso se chama forma presa) para formar uma palavra nova, emprestando-lhe uma ideia acessria e marcando-lhe a categoria (substantivo, adjetivo, etc.) a que pertence. O 
sufixo assume uma funo morfolgica, pois, em geral, altera a categoria gramatical do radical de que sai o derivado (real adj.  realidade s., embora tambm possa no lhe 
alternar a categoria, como feio adj.  feioso adj.), e relaciona a palavra a que se agrega aos nomes aumentativos ou diminutivos, aos nomes de agente, de ao, de instrumento, 
aos coletivos, aos ptrios, etc.: casaro (aumento), livrinho (diminuio), cantor, lavrador, sapateiro (nomes de agente ou ofcio), punio, casamento, aprendizagem (nomes 
de ao ou seu resultado), folhagem, lodaal, cardume, boiada (nomes coletivos), alemo, sergipano, cearense, portugus, minhoto, brasileiro (nomes ptrios), fertilizar (ao), 
chuviscar (ao de pouca intensidade), alvorecer (incio de ao), mercadejar (repetio de ao), suavemente (modo). Da se distriburem os sufixos em nominais (formadores 
de substantivos e adjetivos), verbais (do verbo) e o nico adverbial, que  -mente, que se prende a adjetivos uniformes ou, quando biformes,  forma feminina: cmoda  comodamente.80

Nas palavras do grupo d) acrescenta-se ao incio da base um elemento mrfico chamado prefixo, que empresta ao radical uma nova significao e que se relaciona semanticamente 
com as preposies. Os prefixos, em geral, se agregam a verbos, como nos exemplos do grupo d), ou a adjetivos: in- feliz, des- leal, sub- terrneo. So menos frequentes os 
derivados em que os prefixos se agregam a substantivos; os que mais ocorrem so, na realidade, deverbais, como em des- empate. Ao contrrio dos sufixos, que assumem valor 
morfolgico, os prefixos tm mais fora significativa, podem aparecer como formas livres (isto , ter existncia independente na lngua) e no servem, como aqueles, para determinar 
uma nova categoria gramatical. Nem sempre existe em portugus a preposio que corresponde ao prefixo empregado: intermdio (cf. preposio entre), combater (cf. preposio 
com), depenar (cf. preposio de), avocar (cf. prep. a = ao lado, para perto de), sobraar (cf. prep. sob), sobrepor (cf. prep. sobre), embainhar (cf. prep. em = movimento 
para dentro), mas abusar (ab = afastamento, privao), progresso (pro = movimento para diante, favorecimento), refazer (re = repetio).

Do ponto de vista formal, h ainda para notar que os sufixos derivativos so em geral mais longos que as desinncias gramaticais, alm de serem estas quase sempre tonas, 
enquanto aqueles so normalmente tnicos; outra distino consiste em que os sufixos vm imediatamente aps o ncleo, e as desinncias aps os sufixos [cf. HCv.2, II, 530 
n.35].

Prefixos e sufixos recebem o nome de afixos; so prefixos os afixos que se antepem ao radical, e sufixos os que se lhe pospem. H ainda os infixos prprios, pois o que se 
costuma apontar como tal (representado por uma nasal)  de responsabilidade do latim (por exemplo, para distinguir o presente de alguns verbos, como rumpo e findo dos perfeitos 
rupi, fidi e do particpio passado ruptus, fissus, e, excepcionalmente, em certas formaes nominais)81 e no interessa  gramtica descritiva portuguesa.  preciso no confundir 
esta noo de infixo com as vogais e consoantes desprovidas de significado que, na formao de nossa palavras e das que importamos de lnguas estrangeiras, principalmente 
quando o radical termina por vogal tnica, se intercalam para facilitar a pronncia ou para evitar hiatos, e que, por isso, se chamam vogais e consoantes de ligao: cha-l-eira, 
pau-l-ada, cafe-t-eira, lan--gero, come-z-aina, pa-z-ada, chapeu-z-inho, pedre-g-ulho, pedre-g-oso.82 A rigor, h em portugus duas vogais de ligao: i e o. A vogal i na 
composio de elementos latinos e o de elementos gregos: dentifrcio, gasmetro83.

Temos ainda de considerar o caso dos interfixos (denominao adotada por Y. Malkiel), que so elementos tonos sem funo gramatical e significativa que servem de ligao 
entre a base lxica e o sufixo, como ocorre em glorificar e fumarada, fogaru, solaru, em que os elementos -ific, -ar se interpem entre as bases glria e o sufixo verbal 
-ar ou fogo, sol e o sufixo nominal -u. A noo de interfixo no  ponto pacfico entre os estudiosos; muitas vezes se pode entend-lo como integrante de um conglomerado 
de sufixos; nos exemplos acima, os conglomerados sufixais seriam -ificar e -aru. Outras vezes, muito prxima desta noo,  ver o interfixo como resultado de um alongamento 
de sufixo, como se pode interpret-lo na formao ridculo  ridicularizar (em vez de ridiculizar).

Nas palavras do grupo e) temos uma reunio de dois radicais, isto , ao lado de um radical mais fundamental acrescenta-se outro (e at outros) para dar um significado especial 
ao conjunto. Dizemos ento que as palavras so compostas. Estes radicais podem ser livres, isto , usados independentemente na lngua (como guarda-chuva) ou presos, isto , 
no so usados isoladamente (como agrcola = agr + i + cola, langero = lan + i + gero).

Nas palavras compostas com radicais livres, do tipo guarda-chuva, persiste, como  fcil de observar, a individualidade de seus componentes. Esta individualidade se traduz: 
a) na escrita, pela mera justaposio de um radical a outro, normalmente separados por hfen; b) na pronncia, pelo fato de ter cada radical seu acento tnico, sendo o ltimo 
o mais forte e o que nos orienta na classificao da posio do acento nas palavras compostas (por isso que couve-flor  oxtono e guarda-chuva  paroxtono). Em tais casos 
dizemos que as palavras so compostas por justaposio.

Chamamos aglutinao o processo de formar palavras compostas pela fuso ou maior integrao dos dois radicais: planalto, fidalgo, langero, agrcola. Esta maior integrao 
traduz-se pela perda da delimitao vocabular decorrente: 1) da existncia de um nico acento tnico; 2) da troca ou perda de fonema; 3) da modificao da ordem mrfica [MC.4, 
30].

A adaptao da primeira palavra pode ser de quatro espcies: 1) mudana da parte final em relao  mesma palavra quando isolada; ex.: lobis  (comparar  lobo, em lobisomem); 
2) reduo da palavra ao seu elemento radical; ex.: planalto, onde plan-  o radical de plano (o composto indica um solo plano e alto numa montanha); 3) elemento radical alterado 
em relao  palavra quando isolada; ex.: vinicultura (vin-, mas vinh- em vinha rvore da uva); 4) elemento radical que no aparece em portugus em palavra isolada; ex.: 
agricultura (a agr corresponde, em palavra isolada, campo) [MC.2, 95].

A segunda palavra pode ocorrer com as seguintes alteraes: 1) com mudana na parte final; ex.: monocrdio (instrumento de uma s corda); 2) com o elemento radical alterado; 
ex.: vinagre (um vinho que  acre); 3) com um elemento radical diverso do que a correspondente palavra isolada; ex.: agrcola (ao elemento de composio cola corresponde a 
ideia de habitar ou cultivar)[MC.2, 95].

Na lngua literria e tcnica prefere-se empregar o radical de forma latina a utilizar o de forma verncula, principalmente quando este j sofreu a evoluo fontica. Emprega-se 
preferencialmente silvicultura (e no selvicultura), viticultura (e no vidicultura). Assim ocorre com ureo, capilar, auricular, ocular, digital, etc. [Cf. MBa.1, 429-430].

Diferena entre flexo e derivao

Diferena entre flexo e derivao  A flexo consiste fundamentalmente no morfema aditivo sufixal acrescido ao radical, enquanto a derivao consiste no acrscimo ao radical 
de um sufixo lexical ou derivacional: casa + s: casas (flexo de plural); casa + inha: casinha (derivao).

A flexo dos nomes e dos verbos apresenta muito frequentemente uma alternncia complementar interna que recai na vogal tnica bsica: av  av, novo  nova; novo  novos; 
fiz  fez (1. pessoa  3. pessoa).

Quando falta o morfema aditivo  flexo, e s h alternncia, a forma diz-se forte: av  av ou, mais restritamente se aplica, na gramtica portuguesa, s 1. e 3. pessoas 
do singular do pret. perfeito do indicativo quando rizotnicas e atemticas: ter  tive, teve (i/e), em oposio a dizer  disse (eu/ele); poder  pude, pde (u/o), em oposio 
a haver  houve (eu/ele).

No plano sintagmtico, a flexo provoca o fenmeno da concordncia: mvel novo  mveis novos em oposio a a casa nova  a casinha nova.

Conceito de raiz ou radical primrio

Conceito de raiz ou radical primrio  Chama-se raiz, em gramtica descritiva, ao radical primrio ou irredutvel a que se chega dentro da lngua portuguesa e comum a todas 
as palavras de uma mesma famlia.

Se tomarmos um vocbulo como desregularizar 84, facilmente podemos surpreender diversos graus de radical: o primeiro, destacando-se-lhe a vogal temtica e a desinncia de 
infinitivo,  desregulariz- (que aparece em desregularizao); este radical pode ser reduzido, por destaques sucessivos, a: regulariz (sem o prefixo) > regular (sem o sufixo) 
> regul (cf. o latim regu(la) > reg (que aparece em reger, rgua). Este ltimo radical que constitui o elemento irredutvel e comum a todas as palavras do grupo chama-se primrio 
e coincide, em relao  lngua atual, com a raiz. Regul-  um radical secundrio (ou do 2. grau), como regular- um radical tercirio (ou do 3. grau), e assim por diante.

Observao: No interessa  gramtica descritiva o conceito de raiz do ponto de vista histrico, que s  vlido para a gramtica histrica. H frequentes divergncias entre 
o estabelecimento de uma raiz dentro dos dois tipos de gramtica; assim  que, enquanto para a histrica h raiz ed- em comer (do latim comedere, de edere = comer), a descritiva 
a esta reconhece em com- (cf. com-ida, com-ilo, com-ilana).

A raiz ou radical primrio pode apresentar variante ou variantes; assim, a raiz reg- se altera em regr- (em regra, regrar, desregrar).

Base lexical real e base lexical terica

Base lexical real e base lexical terica  Na anlise mrfica (constitucional), torna-se importante acentuar, como j deixamos claro anteriormente, que nem sempre a unidade 
lxica que entra na constituio de uma forma derivada ou flexionada  a que se apresenta como bsica. Muitas vezes, temos de nos socorrer de uma forma bsica terica, possvel 
no sistema mas no vigente na norma. Assim  que nos plurais dos nomes terminados em consoante, socorremo-nos de uma forma terica integrada pela vogal temtica -e- para depois 
lhe acrescentar o pluralizador -s: mar  *mare  pl.: mares.

Palavras cognatas

Palavras cognatas  Chamam-se cognatas as palavras que pertencem a uma famlia de raiz e significao comuns: corpo, corporal, incorporar, corporao, corpsculo, corpanzil; 
fugir (em foges, temos a raiz alterada), fugaz, refgio, subterfgio, trnsfuga. Uma s famlia de palavras pode ter dois radicais, um de forma erudita, outro de forma popular: 
digital e dedal, parietal e parede, capilar e cabelo, auricular e orelha, acutssimo e agudssimo, pauprrimo e pobrssimo, sacratssimo e sagradssimo, etc.

Constituintes imediatos

Constituintes imediatos  Em anlise mrfica,  importante ter em conta o princpio dos constituintes imediatos para que no se faam confuses no plano descritivo da classificao 
morfolgica (vale o mesmo para as relaes sintticas) e se estabeleam as possveis gradaes de estrutura. Assim  que diante de uma forma como descobrimento, no iremos 
enquadr-la no grupo das palavras chamadas parassintticas (considerando des + cobri + mento); trata-se de um derivado secundrio cujos constituintes imediatos so o radical 
secundrio descobri- e o sufixo ment (o). Em arduamente desprezaremos a desinncia de feminino -a- (vlida no vocbulo rdua) e analisaremos os constituintes imediatos: ardua 
+ mente, sendo ardua- o radical secundrio. Tambm em desrespeitosamente os constituintes imediatos so desrespeitosa (por destaques sucessivos > respeitosa > respeit > speit, 
este ltimo radical primrio ou raiz). Em cantorezinhos temos os constituintes imediatos cantor (es) e zinho (s), depois cantor e finalmente cant-or. Nessa gradao de elementos 
componentes de uma estrutura morfolgica, nota-se que h certa ordem em sua distribuio; destacam-se primeiro, como nos constituintes imediatos, os elementos externos caractersticos 
da flexo, seguidos de elementos internos caractersticos do processo de transformao das palavras. Em nosso ltimo exemplo, os externos de natureza flexional so representados 
pelas desinncias de plural: cantor(es), e zinho(s), enquanto os elementos internos so indicados pelos sufixos diminutivos de cantor-zinho (derivao sufixal) e pela desinncia 
de nome de agente em cant-or (derivao sufixal).

A parassntese ou circunfixao

A parassntese ou circunfixao  Intimamente ligado  noo dos constituintes imediatos est o conceito de parassntese, conceito no de todo assente entre os estudiosos. 
Para uns, para haver parassntese basta a presena de prefixo e sufixo no derivado;  o caso de descobrimento, maneira de ver que rejeitamos, por no levar em conta a noo 
dos constituintes imediatos. Para outros, o processo consiste na entrada simultnea de prefixo e sufixo, de tal modo que no existir na lngua a forma ou s com prefixo ou 
s com sufixo;  o caso de claro para formar aclarar, em cujo processo entram concomitantemente o prefixo a- e o final -ar, elemento de flexo verbal que funciona, por acumulao, 
como sufixo. Como lembra Mattoso Cmara, pode dar-se ainda na parassntese a adjuno de um sufixo de valor iterativo ou incoativo, o que ocorre em entardecer (en + tard(e) 
+ ec + er) e amanhecer (a + manh() + ec + er). Pode-se ainda entender que, a rigor, no existe parassntese, se partirmos do fato de que, numa cadeia de novas formaes, 
no poucas vezes ocorre o pulo de etapa do processo, de modo que s virtualmente no sistema exista a forma primitiva. Assim, para se chegar a farmacolando, parte-se de um 
virtual *farmacolar ( semelhana de doutorar em relao com doutorando), ou, para prefeitvel, de um virtual *prefeitar (como de amar para amvel, ou de um pagar para pagvel). 
Deste modo, em aclarar, entardecer, amanhecer se poder pensar em partir dos virtuais *clarar, *tardecer, *manhecer ou *aclaro, *entarde e *amanh. Esta ltima explicao 
do fenmeno nos parece ser a melhor soluo, abolindo a parassntese como processo especial de formao de palavras, alm de no contrariar o princpio geral da linearidade 
do signo lingustico.

As formaes parassintticas mais comuns no portugus ocorrem com o concurso dos prefixos es -, a-, en-, e os sufixos -ear, -ejar, -ecer, -izar: esverdear, esclarecer, apodrecer, 
anoitecer, enraivecer, entardecer, encolerizar, aterrorizar.

Haplologia na formao de palavras

Haplologia na formao de palavras  A fim de evitar reduplicaes de slabas que pertencem  palavra primitiva e ao sufixo,  comum ocorrer haplologia ou braquilogia, como 
em: caridad(e) + oso  caridoso (por caridadoso), bondad(e) + oso  bondoso (por bondadoso), idad(e) + oso  idoso. Estas simplificaes tambm ocorrem em produtos por composio: 
trgico + cmico  tragicmico. Podem ocorrer tambm na lngua as formas plenas: caridadoso, bondadoso.

Variantes dos elementos mrficos

Variantes dos elementos mrficos   comum a variante de determinado elemento mrfico. Assim, altera-se a raiz em reger (reg-) e regra (regr-) ou fazer (faz-) e fiz; a desinncia 
modo-temporal do pretrito imperfeito -va- (na 1. conjugao) ou -ia- (na 2. e 3. conjugaes) passe a -ve- ou -ie-, respectivamente, na 2. pessoa do plural, pelo contato 
do i de is da desinncia pessoal (amavas, amveis, vendias, vendeis, partias, parteis); a desinncia de plural dos nomes  sempre -s-, mas diante de um plural como mares, 
temos, como j vimos em, de admitir uma forma terica latente, no singular, no existente na norma, mas prevista no sistema, *mare, que, servir de forma bsica para o plural 
mares. Ter-se- de recorrer a essa forma terica quando o pluralizador -s tiver de anexar-se a nome terminado em consoante: sol  *sole + s > sols > soes  sis; gs  *gase 
 gases, etc. Quando temos formas variantes, aquela que ocorre isoladamente  a que se h de considerar a forma bsica; assim  que temos as formas chapu e chapel (em chapelaria, 
chapeleiro), mas a bsica  chapu, pois a outra s aparece nos derivados [VK.2, 20 n.2].

A forma livre caber (em descaber) apresenta, por exemplo, uma variante mrfica presa -ceber (em receber, perceber, etc.).

Tais variantes se chamam,  semelhana dos alofones, alomorfes. Destes alomorfes precisam ser distinguidos novos elementos mrficos oriundos de uma anlise subjetiva do falante; 
no conhecendo a etimologia, muitas vezes o falante separa elementos que essa mesma etimologia no consigna. Por este processo, nasceram vocbulos como sarampo (do espanhol 
sarampin, e este do latim sirimpionem, por se pensar que sarampo fosse formado com o sufixo -o), e rosmano (tirado de rosmaninho, do latim rosmarinum, tambm imaginado 
um derivado com o sufixo de grau -inho).

Neutralizao e sincretismo

Neutralizao e sincretismo  A neutralizao representa uma restrio no funcionamento das oposies distintivas existentes numa lngua, quer no plano da fonologia, quer 
no plano gramatical (morfologia e sintaxe), quer no plano lxico.

Entende-se por neutralizao a suspenso de uma oposio distintiva. Assim, o portugus estabelece oposio entre e aberto e e fechado, o que permite distinguir, por exemplo, 
sede (de um governo) e sede (sinto sede). Todavia, esta posio distintiva s funciona em posio tnica; se a vogal estiver em slaba tona, s aparecer o e fechado, na 
pronncia normal brasileira, podendo fechar-se ainda mais a um i: pedir/pidir, sem que se altere o significado.

No plano do contedo gramatical, a oposio masculino/feminino fica suspensa com frequncia no plural, apresentando-se apenas o masculino. Assim, a menina e a prima estudiosas 
no feminino, mas a menina e o primo estudiosos, em que o plural masculino se refere aos substantivos de gneros diferentes.

Tambm o singular masculino pode, em certos contextos, assumir valor genrico e, assim, referir-se englobadamente a pessoas do sexo masculino e feminino: O homem  mortal 
(i., o homem e a mulher).

Ocorre o mesmo no lxico: meus tios pode fazer aluso a meus tios Benedito e Henrique, ou a meu tio Benedito e minha tia Nomia. Noite e dia se dizem de partes distintas das 
24 horas, mas dia pode englobar as duas partes quando empregado em contextos do tipo Passei dois dias em Macei. Assim, o plural como termo marcado apresenta um trao diferencial 
positivo (com o valor mais de um), enquanto o singular, como termo no marcado apresenta dois valores: o contrrio do outro (j que o singular  unidade) e o valor genrico 
(pluralidade). Deste modo se explica por que o termo no marcado pode funcionar em lugar do marcado em certos contextos, no podendo haver o fenmeno contrrio, isto , 
o marcado aparecer em lugar do no marcado.

Em todos estes exemplos de neutralizao, o termo que abrange toda a extenso da oposio se chamar neutro, no marcado ou negativo, e englobar o termo positivo ou marcado; 
assim, os masculinos menino e dia so termos neutros, e os femininos menina e noite, termos positivos ou marcados. Tambm, no sistema verbal, o presente se caracteriza pelo 
trao neutro, pois que, por isso, pode ser empregado em lugar do futuro (Vou amanh / Irei amanh) e do pretrito (Pedro I proclama nossa independncia em 7 de setembro 
de 1822 / Pedro I proclamou...). Como ensina Coseriu, o presente, como termo neutro, pode ser empregado em lugar de qualquer outro tempo, e at em sentido atemporal, ou 
em contextos de valor genrico ou em referncia ao presente eterno: A terra gira em torno do sol.

No se h de confundir neutralizao ou sincretismo. A neutralizao, como vimos,  a suspenso, em determinado contexto, de uma oposio funcional que existe na lngua em 
um dos seus dois planos: o da expresso ou o do contedo.

O sincretismo, por seu turno,  a ausncia de manifestao material, numa seo de um paradigma ou em um paradigma, de uma distino de contedo que, em outras sees do mesmo 
paradigma ou em outros paradigmas anlogos, se manifesta tambm materialmente. Assim, no paradigma verbal do portugus, a 1. e a 3. pessoas, que se distinguem em outros 
casos (canto/canta; cantei/cantou, etc.), no se distinguem, por exemplo, no imperfeito (cantava/cantava; saa/saa, etc.). Assim tambm haver sincretismo, e no neutralizao, 
em falaram como forma da 3. pessoa do plural do pret. perf. e do pret. mais-que-perfeito do indicativo, oposio recuperada na forma de 3. pessoa do singular (falou/falara) 
e ainda pelo contexto. Repare-se em que no se distinguem na expresso (na forma material, no significante), mas a diferena de contedo (de significado) persiste.

A diferena  que no sincretismo no h suspenso da oposio, nem h um termo de valor neutro que represente a soma 1. pessoa + 3. pessoa. Pode haver sincretismos sintticos, 
como, por exemplo, em sbio alemo, que admite duas interpretaes exclusivas, conforme se entenda sbio como substantivo e alemo como adjetivo ou vice-versa.

Tambm em amor de me temos um sincretismo sinttico, pois no se faz nenhuma distino material se se trata do amor que a me tem ou nutre (pelos filhos, por exemplo) ou 
do amor que os filhos nutrem pela me;  o caso anlogo ao genitivo subjetivo ou objetivo em latim. Mas os falantes fazem a distino de contedo e no consideram a me 
como sujeito e objeto ao mesmo tempo.

O sincretismo pode ocorrer, principalmente, por homonmia, ou por alomorfia e desaparecimento do elemento mrfico, devidos a regras morfofonmicas. Exemplos de homonmia: 
a) a vogal temtica da 2. conjugao  e; esta vogal entretanto, passa a i no pret. imperf.; na 1. pessoa do singular do pret. perf. do indicativo e no particpio, suspendendo 
a oposio material distintiva com a 3. conjugao: vend + i + ia (com crase dos dois ii)  vendia; vend + i + i  vendi; vend + i + do  vendido; b) por outro lado, a vogal 
temtica da 3. conjugao (i) passa a e quando tona, isto , 2. e 3. pessoa do singular e 3. pessoa do plural do presente do indicativo e a 2. pessoa do singular do 
imperativo, suspendendo a oposio material entre a 2. e 3. conjugaes: vendes, partes; vende, parte; vendem, partem; vende tu, parte tu. Tambm em falaram, a anlise mrfica 
auxiliada pelo contexto dir existir a 3. pessoa do plural do pret. perf. do indicativo (fal-a-ra-m) ou do pret. mais-que-perfeito (fal-a-ra-m).

Exemplos de desaparecimento: a) pela queda da vogal temtica i do verbo vir, suspende-se a oposio, material entre o gerndio e o particpio: vindo (gerndio), vindo (particpio); 
b) pela queda da vogal temtica e no infinitivo de pr, este verbo ficou aparentemente afastado da 2. conjugao, chegando, durante muito tempo, a constituir razo para uma 
falsa 4. conjugao em portugus.

Graus de coeso de morfemas

Graus de coeso de morfemas  A adio de morfemas nas constituies das palavras apresenta uma combinatria que cabe aqui ser referida. A adio aponta para uma combinatria 
rgida de modo que a ordem das unidades mrficas se mostra bem determinada. Assim, na estrutura do verbo em portugus  tomamos o verbo por exemplificao por ser, nas lnguas 
flexivas como a nossa, aquela palavra de elementos estruturais mais rica  temos:

T (radical + vogal temtica)   +    D (DMT + DNP)

                                    am-a   +    re-mos

Em recompor, o prefixo com se acha mais integrado  significao do verbo pr do que o prefixo re-. Tambm numa construo em que dois adjetivos modificam um mesmo substantivo, 
o adjetivo mais distante do substantivo  o menos coeso a ele, o que lhe permite normalmente permutar de posio: cu azul maravilhoso / maravilhoso cu azul, mas no azul 
cu maravilhoso. Entre prefixos isto no se d: recompor (e nunca *comrepor) [VK.2, 41].

Subtrao nos elementos mrficos

Subtrao nos elementos mrficos  J vimos que os elementos mrficos podem ocorrer num processo de subtrao, ao contrrio do que ocorre com o processo por adio. A supresso 
de morfema  menos comum em portugus que o processo por adio.

Em portugus, um exemplo de morfema subtrativo  o que ocorre com os femininos de an, irm, rf, obtidos pela eliminao do -o do masculino: 85

ano / an

irmo / irm

rfo / rf

Temos ainda formao de palavras por procedimentos supressivos:

a) supresso do segmento medial pertencente a qualquer das bases: petrodlares, apart-hotel, cineclube, credifone, tragicmico

b) supresso do segmento final: narctico  narcotizar; prioridade  priorizar; maldade  maldoso.

c) supresso do elemento final por cruzamento de bases: motel (motor + hotel), brasiguaio (brasileiro + uruguaio), malular (malufar + Lula), sofressora (sofrer + professora), 
criona (criana + ona), aborrescente (aborrecer + adolescente), chaf (ch + caf). Este procedimento tem sido usado por bons escritores modernos (Guimares Rosa, Mia Couto).

A subtrao pode ocorrer por um processo de abreviao, em que a parte vale pelo todo: foto (grafia), pneu (mtico), metr (politano).

Morfema zero

Morfema zero  Diferente do morfema subtrativo  o morfema zero (). Consiste o morfema zero na ausncia de uma marca de oposio gramatical em referncia a outro termo marcado. 
S haver morfema zero se a noo por ele expressa for inerente  classe gramatical em que ele ocorra.

Assim, no par alto/alta, a oposio de gnero aparece marcada nos dois termos mediante -o e -a, j no par alto/altos, a noo de nmero plural, inerente  classe dos nomes, 
se acha marcada pelo pluralizador -s, enquanto a noo de singular est marcada pela ausncia de uma marca.  esta ausncia que tem o significado do valor do singular, e assim 
podemos consider-la um verdadeiro morfema, a que chamaremos morfema zero ().

Tambm em amo, amas, ama, as duas primeiras formas verbais apresentam marca de 1. e 2. pessoas do singular; a ltima (ama), pela falta de marca em relao s outras do mesmo 
paradigma apresenta morfema zero para significado da 3. pessoa do singular.

Observao: Tm-se apresentado substantivos do tipo pires, lpis, alferes, adjetivos do tipo simples, triste, feliz, capaz como exemplos de morfema zero, por terem a mesma 
forma para o singular e o plural (nos substantivos) e para o masculino e feminino (nos adjetivos). Concordamos com a lio de Herculano de Carvalho, que no v nestes casos 
morfema zero; trata-se de palavras que se mostram excepcionalmente alheias s classes gramaticais de nmero e gnero [HCv.2, II, 608-609]. Desta forma, pires no  um singular 
que permanece invarivel no plural, pois no  em si nem singular nem plural, como simples no  nem masculino nem feminino.

Acumulao nos elementos mrficos

Acumulao nos elementos mrficos  Entende-se, em geral, por morfema cumulativo aquele que rene em si vrias funes gramaticais. Assim, v-se no -o final das formas verbais 
da 1. pessoa do presente do indicativo (estudo, vendo, parto) exemplo de morfema cumulativo, j que significa, simultaneamente, a pessoa (1.), o nmero (singular), o tempo 
(presente ou no passado) e o modo (indicativo).

Tambm entram na exemplificao de morfema cumulativo as desinncias pessoais do pret. perfeito (-i, -ste, -u, -stes) porque eventualmente acumulam as funes de desinncias 
modo-temporais que, nestas formas,  zero.

Todavia, esta descrio no  unanimemente aceita. Segundo alguns autores, entretanto, a condio para se considerar que estamos diante de um morfema cumulativo  o fato de 
duas ou mais significaes gramaticais nunca serem marcadas por morfemas diferentes:  o que ocorre com as categorias de nmero e caso em algumas lnguas indo-europias mais 
antigas ou conservadoras.86 No  o caso, a rigor, do nosso -o final de estud-o, vend-o, part-o. Como ensina Matthews, tal caso no se ajusta a um modelo regular, pois a desinncia 
costuma permanecer constante nos diferentes tempos e modos verbais.  bem verdade que o tempo e o modo esto sem morfemas aditivos, mas  um caso meramente especial de morfema 
sobreposto (cumulao acidental, para Slvio Elia), como lhe chama o linguista citado, em relao com a totalidade do paradigma.

Em relao s desinncias nmero-pessoais do pret. perf. do indicativo, lembremos que o verbo em portugus separa as desinncias nmero-pessoais das modo-temporais. Assim, 
parece-nos que a melhor anlise  considerar que no pret. perfeito do indicativo a desinncia modo-temporal  zero, tal como se d no presente do indicativo e no presente 
do subjuntivo. No passa a sua funo gramatical para a desinncia nmero-pessoal.87

Muitas vezes um elemento mrfico utilizado para certa noo pode, por acumulao acidental, servir tambm para determinar outra noo desprovida de elemento caracterstico 
(elemento mrfico subtrativo). As desinncias de pessoa especiais para o pret. perfeito (-i, ste, -u, -stes), acumulam as funes de desinncia modo-temporal por no existirem 
elas nestas formas verbais. Assim  que, embora haja elemento mrfico subtrativo, sabemos que cantei, vendi e parti, por exemplo, esto na 1 pessoa do singular (funo essencial 
da desinncia i) do pret. perfeito do indicativo (funo acumulativa da referida desinncia), como ocorre com -o final de estud-o, vend-o, part-o, formas que esto na 1. 
pess. do sing. do pres. do indicativo.

Fuso nos elementos mrficos

Fuso nos elementos mrficos  Os elementos mrficos podem combinar-se por justaposio ou por fuso. Em livros juntou-se ao radical primrio a desinncia pluralizadora -s, 
justaposta. No plural canais (*canale + s) ou funis (*funile + s) a integrao do radical e desinncia  mais ntima, no permitindo a anlise dos dois elementos fundidos. 
No primeiro exemplo (canais), a fuso deu origem a um ditongo enquanto no segundo (funis) favoreceu uma crase (*funile + s = funi(l)es > funiis> funis). Na 1. pessoa do singular 
do pretrito perfeito e na 2. pessoa do plural do pres. do indicativo da 3. conjugao h crase resultante da fuso da vogal temtica com a desinncia pessoal: parti (< 
partii), partis (< partiis) [Cf. VK.2, 20 n.2].

A aglutinao  um caso de fuso e, s vezes, pode ser to ntima que o sentimento de linguagem moderno no perceba os dois elementos justapostos que a anlise histrica patenteia. 
Dessarte, a gramtica descritiva v em relgio uma palavra simples, cujo radical  relog-; a histrica remonta aos dois radicais hora lgio (isto , mquina que diz a hora) 
[MC.2, 95].

O sufixo adverbial -mente foi primitivamente um substantivo de forma livre que se juntava aos femininos de adjetivos: boa mente, clara mente; depois houve maior integrao 
dos dois elementos porque a forma livre passou a ser usada como afixo (forma presa) formador de advrbios. Foi desta aplicao de uma palavra como forma presa (afixo) que 
se originaram, para o portugus, o futuro do presente (trabalharei) e do pretrito (trabalharia), pois se uniram ao infinitivo (trabalhar) o presente e o pretrito imperfeito 
do verbo haver (dar hei, dar hia por havia). So casos de hipotaxe ou subordinao.

Passando as formas do verbo haver a constituir parte da desinncia modo-temporal (trabalharei desdobra-se em trabalh-a-re-i, trabalharia em trabalh-a-ria, a gramtica descritiva 
considera as nossas duas formas de futuro como formas simples.

Suplementao nos elementos mrficos

Suplementao nos elementos mrficos  O ponto alto de uma irregularidade em relao ao paradigma da forma regular de determinado elemento mrfico  o processo chamado suplementao 
(ou alternncia supletiva), que consiste em suprir uma forma com outra oriunda de radical diferente. O nosso verbo ser  anmalo porque, nas suas flexes, pede o concurso 
de dois verbos: esse e sedere, tambm ir est neste caso, pois, alm de suas formas prprias, possui as dos verbos vadere e esse.

A intensidade, a quantidade, o timbre e os elementos mrficos

A intensidade, a quantidade, o timbre e os elementos mrficos  Muitas vezes, em lugar de uma forma lingustica, a intensidade, a quantidade e o timbre servem para ressaltar 
uma noo gramatical. J vimos como o acento intensivo se mostra decisivo para distinguir o adjetivo, o verbo e o substantivo em sbia, sabia e sabi.

A maior demora numa slaba em regra traduz uma nfase no significado da palavra:

Idiota! Trezentos e sessenta contos no se entregam nem  mo de Deus Padre! Idiota! Idioota!... Idioooota... [ML.1, 219].

A desinncia do mais-que-perfeito do indicativo -ra- (variante re-) difere da semelhante que ocorre no futuro do presente, porque aquela  tona e esta  tnica: cantara (cant-a-ra) 
e cantar (cant-a-r), cantaras (cant-a-ra-s) e cantars (cant-a-r-s).

A mudana de timbre (metafonia) concorre com a desinncia da palavra para caracterizar o gnero, o nmero ou a pessoa do verbo: caroo (singular com o tnico fechado)  caroos 
(plural com o tnico aberto); esse/essa, fez/fiz, etc.

H trs grupos de alternncia de timbre da vogal tnica com funes de indicaes gramaticais:

a) |  |  |  |; | |  |  |

Em alguns nomes e pronomes, marca a oposio entre masculino e feminino ou singular e plural: esse/essa; novo/nova; ovo/ovos.

Em verbos da 2. conjugao marca, no presente do indicativo, a oposio entre a 1. pessoa do singular e as outras formas rizotnicas: devo/deves, deve, devem; toro/torces, 
torce, torcem.

b) |  |  | i |; |  |  | u |

Em pronomes, marca a oposio entre a referncia de masculinos adjuntos e absolutos: este, esse/isso; aquele/aquilo; todo/tudo.

Em verbos fortes, marca a oposio entre 1. e 3. pessoas: fez/fiz; ps/pus.

c) | i |  |  |; | u |  |  |; | i |  |  |; | u |  |  |

Em verbos da 3. conjugao, marca, no presente do indicativo, a oposio entre a 1. pessoa e as outras rizotnicas: minto/mentes, sinto/sentes; sumo/somes; firo/feres; durmo/dormes 
[VK.2, 43-44].

Em Portugal, em geral,  o timbre aberto ou fechado da vogal tnica que distingue a 1. pessoa do plural do presente do indicativo e do pret. perfeito dos verbos da 1. e 
2. conjugaes: lavamos () (presente), lavamos () (pretrito), devemos () (presente), devemos () (pretrito). No Brasil no fazemos em regra esta distino, que fica, 
em geral, a cargo do advrbio adequado: Hoje falamos disso. Ontem falamos disso.88

2  Formao de Palavras
 do Ponto de Vista Constitucional

Renovao do lxico: criao de palavras

Renovao do lxico: criao de palavras  As mltiplas atividades dos falantes no comrcio da vida em sociedade favorecem a criao de palavras para atender s necessidades 
culturais, cientficas e da comunicao de um modo geral. As palavras que vm ao encontro dessas necessidades renovadoras chamam-se neologismos, que tm, do lado oposto ao 
movimento criador, os arcasmos, representados por palavras e expresses que, por diversas razes, saem de uso e acabam esquecidas por uma comunidade lingustica, embora permaneam 
em comunidades mais conservadoras, ou lembrados em formaes deles originados. De tudo isto trataremos no lugar prprio.

Os neologismos ou criaes novas penetram na lngua por diversos caminhos. O primeiro deles  mediante utilizao da prata da casa, isto , dos elementos (palavras, prefixos, 
sufixos) j existentes no idioma, quer no significado usual, quer por mudana do significado, o que j  um modo de revitalizar o lxico da lngua.

Entre os procedimentos formais temos, assim, a composio e a derivao (prefixal e sufixal).

Outra fonte de revitalizao lexical so os emprstimos e calcos lingusticos, isto , palavras e elementos gramaticais (prefixos, preposies, ordem de palavras) tomados 
(emprstimos) ou traduzidos (calcos lingusticos) ou de outra comunidade lingustica dentro da mesma lngua histrica (regionalismos, nomenclaturas tcnicas e grias) ou de 
outras lnguas estrangeiras  inclusive grego e latim , que so incorporados ao lxico da lngua comum e exemplar.

Uma fonte muito produtiva do neologismo vem da criao de certos produtos ou novidades que recebem o nome de seus inventores ou fabricantes, como macadame, gilete, etc. Muito 
prxima a esta via so os nomes criados levando em conta os sons naturais (fonossimbolismo) produzidos por seres e objetos: Kodak, pipilar, etc., so as onomatopias e palavras 
expressivas.

De todos esses procedimentos de revitalizao do lxico, merecem ateno especial para a gramtica a composio e a derivao, tendo em vista a regularidade e sistematicidade 
com que operam na criao de novas palavras.

Conceito de composio e de lexia

Conceito de composio e de lexia 89  J est assentada a distino entre composio e lexia; por composio entende-se a juno de dois elementos identificveis pelo falante 
numa unidade nova de significado nico e constante: papel-moeda, boquiaberto, planalto. H os compostos com elementos eruditos, geralmente de origem grega e latina, que s 
ocorrem na lngua nessas novas unidades, isto , que no aparecem independentes no discurso, e h os compostos com elementos vernculos, de existncia independente na lngua 
(papel-moeda) ou com leves alteraes formais (planalto: plan[ o ]alto, boquiaberto: boqu[i]aberto).

Por seu turno, a lexia complexa (termo cunhado pelo linguista francs Bernardo Pottier), tambm dita sinapsia (termo de outro linguista francs Emlio Benveniste  em grego 
juno, conexo, coleo de coisas juntas),  formada de sintagmas complexos que podem ser constitudos de mais de dois elementos: negcio da China (transao comercial 
vantajosa), p de chinelo (diz-se da pessoa de poucos recursos), etc.

Alguns autores incluem a sinapsia no rol dos tipos de compostos, mas Benveniste  e cremos que com razo  prefere distingui-la. So caractersticas da sinapsia, segundo este 
autor:

a) a natureza sinttica (no morfolgica) da ligao dos elementos, o que muitas vezes torna difcil verificar se houve ou no lexicalizao do conjunto;

b) o emprego de transpositores (preposies);

c) a ordem fixa determinado + determinante;

d) sua forma lexical plena, e a livre escolha de qualquer substantivo ou adjetivo;

e) a ausncia de artigo antes do determinante, pois a presena do artigo romperia a unidade do conjunto, como se pode ver em ar de famlia / ar da famlia; casa de penso 
/ casa da penso;

f) a possibilidade de expanso tanto do determinado quanto do determinante, pouco ar de famlia / ar de boa famlia, pois seu significado, apesar da expanso,  nico e constante;

g) o carter nico e constante do significado.

V-se que algumas das caractersticas apontadas so tambm comuns aos compostos, o que explica, muitas vezes, a dificuldade de se traarem limites rgidos entre os dois processos, 
j que, na lngua,  tnue o limite entre o que  livre e o que est fixado.

A sinapsia, cujo resultado  sempre um substantivo ou adjetivo, tem grande vitalidade, especialmente na linguagem cientfica e tcnica e, por isso mesmo, cria problemas na 
dicionarizao dessas unidades lexicalizadas, j que dicionrios e gramticas, no seu levantamento, se guiam com maior ateno pela ortografia.

A relao sinttica nas formaes sinpticas  marcada normalmente mediante a preposio de, aparecendo ainda a preposio em ou a, esta ltima por influncia estrangeira, 
em especial quando a unidade designa um artefato, em que o determinante indica o agente motor; barco  vela, motor  exploso, fogo a gs, ou uma caracterstica distintiva 
televiso a cores / televiso em cores.

H compostos em que a lexicalizao se apresenta mais evidente que na sinapsia,  o caso dos compostos por disjuno e por contraposio.

Nos compostos por disjuno nem sempre os dois elementos se juntam graficamente por mais que seja evidente a lexicalizao:

         opinio pblica                 guerra civil

mas

         bicho-carpinteiro              peixe-espada

Nestes compostos, o primeiro elemento  a denominao, enquanto o segundo  a sua especificao; assim peixe-espada  um peixe que se assemelha a uma espada e opinio pblica 
 uma opinio que  pblica. A relao se diz de disjuno porque, embora o segundo seja uma especificao do primeiro, espada no  uma subclasse de peixe nem pblica o 
 de opinio, como se os dois elementos pertencessem a classes diferentes.

Os compostos por disjuno so muito empregados nas denominaes de plantas e animais, e menos frequentes na linguagem comum.

Os compostos por contraposio quando se constituem por dois substantivos, o segundo exerce uma funo predicativa que designa a finalidade do primeiro, e h entre eles uma 
relao sinttica de coordenao:

         escola-modelo                 navio-escola

         carro-leito                       carro-bomba

Em acordo luso-brasileiro  um acordo que envolve portugueses e brasileiros.

Nesses compostos com adjetivos tnicos, em geral so preferidas as formas reduzidas s plenas no primeiro elemento: luso-brasileiro (e no lusitano-brasileiro), aliana nipo-russa 
(e no japons-russa).

A composio  uma transformao sinttica em expresso nominal

A composio  uma transformao sinttica em expresso nominal  J vimos que compostos como papel-moeda se prendem a uma orao de base do tipo de papel que  moeda o 
que aponta para o fato de tais unidades lxicas serem transformaes de construes sintticas simples ou complexas. Benveniste d-nos sobre isto lio magistral:

Os compostos representam a transformao de certas oraes tpicas, simples ou complexas, em signos nominais. No se pode, portanto, explicar a criao dos compostos pela 
simples juno imediata de dois signos anteriores. Se a composio nominal fosse, como  sempre apresentada, um processo de natureza morfolgica, no se compreenderia por 
que ela parece se realizar em toda a parte, nem como puderam surgir essas classes formais em nmero limitado, to parecidos entre as lnguas mais diversas.  que o impulso 
que produziu os compostos no veio da morfologia, onde nenhuma necessidade os solicitaria; ele provm das construes sintticas com suas variedades de predicao.  o modelo 
sinttico que cria a possibilidade do composto morfolgico e que o produz por transformao. A orao, com seus diferentes tipos, emerge assim na zona nominal. Consequentemente, 
 preciso reconhecer nos compostos uma situao particular. Em geral, eles so arrolados, com os derivados, na formao dos nomes. Seria preciso, de preferncia, faz-los 
entrar em um captulo novo da teoria das formas, consagrado ao fenmeno que poderia se chamar metamorfismo; entendemos por isso o processo de transformao de certas classes 
em outras (...). No momento em que a orao  transformada em composto e que os termos da orao se tornam membros do composto, a predicao  colocada em suspenso, e o enunciado 
atual torna-se virtual.  esta a consequncia do processo de transformao.

Assim se define ento a funo do composto: transferir para o virtual a relao atual de predicao enunciada pela orao de base.  justamente a essa funo que correspondem 
tambm as caractersticas formais dos compostos. Tudo o que pode remeter a uma situao atual  apagado: a predicao verbal est apenas implcita; o primeiro membro, desprovido 
de qualquer ndice de caso, de nmero, de gnero,  reduzido a um semantema; o segundo termo, sobre o qual repousa a relao sintagmtica, toma uma forma e um final novos, 
ndices do estatuto de adjetivo que o composto recebe (...). Ao passar assim para o quadro formal do nome, a orao livre sofre uma inevitvel reduo de suas latitudes de 
expresso. Seria seguramente impossvel conter os dois termos do composto a multiplicidade de relaes sintticas a que  suscetvel a orao livre. Todavia o composto  capaz 
de maior diversidade do que parece, e suas numerosas variedades recenseadas pelas gramticas correspondem justamente a tipos diversos de oraes (...).

Mas esse relativo empobrecimento da expresso sinttica transformada em expresso nominal  compensado pela variedade das combinaes que o composto oferece  lngua. Ele 
d o poder de manejar como adjetivos ou nomes oraes inteiras e de faz-las entrar revestidas nessas novas espcies em outras oraes. Assim se constitui particularmente 
um vasto repertrio, sempre aberto, de compostos descritivos, instrumentos da classificao e da nomenclatura, aptos a se tornarem denominaes cientficas ou eptetos poticos, 
e que, alm do enriquecimento que proporcionam, mantm essa atividade metamrfica, talvez o trabalho mais singular da lngua [EBv, 2, 163-164].

Palavras indivisveis e divisveis

Palavras indivisveis e divisveis  Indivisvel  a palavra que s possui como elemento mrfico o radical: mar, sol, ar, , hoje, lpis, luz.

Divisvel  a palavra que, ao lado do radical, pode desmembrar-se em outros elementos mrficos:

mares (mar-e-s), alunas (alun-a-s), trabalhvamos (trabalh--va-mos).

Palavras divisveis simples e compostas

Palavras divisveis simples e compostas  Diz-se simples a palavra divisvel que s possui um radical. Os outros elementos mrficos que a compem ou so de significao puramente 
gramatical ou acrescentam ao radical a ideia subsidiria que denotam os afixos (prefixos ou sufixos).

Por causa desta nova aplicao de significado que os afixos comunicam ao radical, as palavras simples se dividem em primitivas e derivadas.

Primitiva  a palavra simples que no resulta de outra dentro da lngua portuguesa: livro, belo, barco

Derivada  a palavra simples que resulta de outra fundamental: livraria, embelezar, barquinho.

Composta  a palavra que possui mais de um radical: guarda-chuva, langero, planalto

Tanto as palavras simples (primitivas ou derivadas) como as compostas podem ser acrescidas de desinncias que servem para exprimir uma categoria gramatical (flexo) que, nos 
nomes e pronomes, traduz as noes de gnero e nmero e, nos verbos, nmero, pessoa, tempo e modo:

a) primitivas flexionadas: livros, meninas

b) derivadas flexionadas: livrarias, meninadas

c) compostas flexionadas: couves-flores, guarda-livros, planaltos

Quando a palavra  constituda de vrios elementos mrficos, cabe, antes de mais nada, estabelecer o princpio dos constituintes imediatos. Analisando, por exemplo, fidalgotes, 
estabeleceremos que a palavra  primeiramente constituda de fidalgote + desinncia de pluralizador s, atravs de fidalg(o) + diminutivo -ote.

Processos de formao de palavras

Processos de formao de palavras  Dois so os principais processos de formao de palavras em portugus do ponto de vista da expresso ou da sua constituio material:

a) composio

b) derivao

A composio consiste na criao de uma palavra nova de significado nico e constante, sempre e somente por meio de dois radicais relacionados entre si. Isto no impede que 
um dos elementos do composto seja ele mesmo j um composto, contado como um termo nico, pelo princpio dos constituintes imediatos.

1) Substantivo + substantivo:

a) Coordenao  quando h sequncia de coordenao de elemento: 1 o determinante precede: me-ptria, papel-moeda; 2 o determinante vem depois: peixe-espada, carro-dormitrio, 
couve-flor;

Observao: Os compostos com o determinado antes do determinante so os tipicamente portugueses. Nos compostos coordenativos um dos substantivos funciona como aposto do outro, 
em geral, o segundo: peixe-espada (peixe que se parece com uma espada). Compostos deste tipo em que o determinante vem antes do determinado, como em me-ptria, so mais raros. 
Os realistas e os simbolistas so, porm, os que fazem mais vasto emprego artstico do substantivo por aposio, e cumpre confessar que, pela sua brevidade e viveza, tm 
estas formaes alto poder esttico: A nau-fantasma, cortada a amarra, bamboleia nas ondas, prestes a largar [G. Junqueiro apud MBa.2, 116-117]. Quando os elementos so 
constitudos por substantivos que apresentam formas para os dois gneros, o determinante vai para o gnero do determinado, por ser este o principal: batata-rainha. As excees 
explicam-se por analogia. Se no h distino genrica, no se dar, naturalmente, a concordncia: a cobra-cascavel, a cobra-capelo, o pau-ma, a fruta-po, a clera-morbo. 
Quando fica obliterada ou esmaecida a natureza da composio, mais parecendo tratar-se de palavra simples, pode predominar o gnero do ltimo, como ocorre com o pontap [cf. 
MAg.3, 151-152].

b) Subordinao  quando h subordinao de um elemento, isto , de um determinante a outro determinado: arco-ris, estrada de ferro, po de l.

Observao: Nesse tipo de subordinao, os elementos se unem por uma relao de complemento de substantivo, do adjetivo ou do verbo [cf. VK.3, 42 n. 5].  muito natural no 
portugus a omisso da preposio de, como acontece com arco-ris (por arco da ris, ris  nome mitolgico). Assim, porco-espinho (= porco de espinho), beira-mar (= beira 
do mar), pontap (= ponta do p), etc. Observe-se que quando o gnero ou o nmero do 2. elemento diverge do do 1., d-se muitas vezes a concordncia por influncia deste: 
pedra-raia (por pedra de raio), bolo-rei (por bolo de Reis [Magos]), sete-estrelo (por sete estrelas) [cf. LV.2, 1, 441-442].

2) Substantivo + adjetivo (ou vice-versa):

aguardente, obra-prima, fogo-ftuo, belas-artes, baixa-mar, boquiaberto.

3) Adjetivo + adjetivo:

surdo-mudo, luso-brasileiro, auriverde.

4) Pronome + substantivo:

Nosso Senhor, Sua Excelncia.

5) Numeral (inclusive latino) + substantivo:

onze-letras (alcoviteira), segunda-feira, bisneto, trigmeo, sesquicentenrio (sesqui = um e meio).

6) Advrbio (bem, mal, sempre) + substantivo, adjetivo ou verbo:

benquerena, benquisto, benquerer, malcriao (inutilmente corrigido para m-criao), malcriado, sempre-viva.

7) Verbo + substantivo:

lana-perfume, porta-voz, busca-p, passatempo.

8) Verbo + verbo ou verbo + conjuno + verbo:

vai-vm, leva e traz, corre-corre.

9) Verbo + advrbio:

pisa-mansinho, ganha-pouco.

10) Um grupo de palavras ou uma orao inteira pode passar, pelo processo da hipotaxe ao nvel de palavra:

um Deus nos acuda, mais vale um toma que dois te darei, os disse me disse.

Como j vimos, a associao dos componentes das palavras compostas se pode dar por:

a) justaposio: guarda-roupa, me-ptria, vai-vm.

b) aglutinao: planalto, auriverde, fidalgo.

Observao: Incluem-se no processo da aglutinao os casos, raros nas lnguas romnticas, de incorporao nominal, mediante os quais se incorpora ao verbo o seu complemento, 
nome ou pronome, que exerce a funo semntica de paciente, locativo ou instrumental: pesa-me - psame, esp. rabiatar ( = atar el rabo), etc.

Na anlise mrfica de um composto por justaposio, separam-se primeiramente as duas palavras, e, depois procede-se  separao de cada uma delas, se so divisveis [MC.2, 
94].

Derivao

Derivao  Derivao consiste em formar palavras de outra primitiva por meio de afixos. De modo geral, especialmente na lngua literria e tcnica, os derivados se formam 
dos radicais de tipo latino em vez dos de tipo portugus quando este sofreu a evoluo prpria da histria da lngua: ureo (e no ouro), capilar (e no cabelo), aurcula 
(e no orelha), etc. [MBa.1, 429-430].

Os afixos se dividem, em portugus, em prefixos (se vm antes do radical) ou sufixos (se vm depois). Da a diviso em derivao prefixal e sufixal.

Derivao sufixal: livraria, livrinho, livresco.

Derivao prefixal: reter, deter, conter.

Observao: Como vimos em Afixos: prefixos e sufixos. Interfixos, os prefixos assumem valor semntico que empresta ao radical um novo significado, patenteando, assim, a sua 
natureza de elemento mrfico de significao externa subsidiria.

Baseados nisto, a gramtica antiga e vrios autores modernos fazem da prefixao um processo de composio de palavras.

Sufixos

Sufixos  Os sufixos dificilmente aparecem com uma s aplicao; em regra, revestem-se de mltiplas acepes e empreg-los com exatido, adequando-os s situaes variadas, 
requer e revela completo conhecimento do idioma. Ao lado dos valores sistmicos, associam-se aos sufixos valores ilocutrios intimamente ligados aos valores semnticos das 
bases a que se agregam, dos quais no se dissociam.90 A noo de aumento corre muitas vezes paralela  de coisa grotesca e se aplica s ideias pejorativas: poetastro, mulheraa. 
Os sufixos que formam nomes diminutivos traduzem ainda carinho: mezinha, paizinho, maninho. Outras vezes, alguns sufixos assumem valores especiais (por exemplo floro no 
se aplica em geral a flor grande, mas a uma espcie de ornato de arquitetura), enquanto outros perdem o seu primitivo significado, como carreta, camisola. Por fim, cabe assinalar 
que temos sufixos de vrias procedncias, sendo os latinos e gregos os mais comuns nas formaes eruditas.

Nas formaes eruditas greco-latinas sero considerados nesta gramtica elementos sufixais formas como - fic -, - fer -, - duct - e quejandos, em unidades como sudorfico, 
frutfero, aqueduto, assim como so elementos prefixais formas como anfi-, extra-, inter-, mono-, multi-, poli-, em anfiteatro, extrafino, monovalente, multicolor, polianteia, 
etc.

I  Principais sufixos formadores de substantivos:

1) Para a formao de nomes de agente, e ainda instrumento, lugar: 91

-tor, -dor, -sor, -or: narrador, genitor, ascensor, cantor, metralhadora, corredor (= lugar por onde se anda)

-nte, estudante, requerente, ouvinte

-ista: dentista, jornalista

-eira, -eiro: lavadeira, padeiro, vendeiro, derradeiro

-ria, -rio: bibliotecria, secretrio

2) Para formao de nomes de ao ou resultado de ao, estado, qualidade, semelhana, composio, instrumento, lugar:

a) Derivados de verbo:

-ame: gravame

-o, -so: coroao, perdio, compreenso, ascenso

Observao: H de se atentar para a correta grafia de -o e -so.

-mento: casamento, descobrimento

-ura, -dura, -tura: feitura, mordedura, formatura

-ana (-ancia), -ena (-encia): mudana, esperana, parecena, abundncia, convalescena, (ou convalescncia)

-ata: passeata

-ada: estada (estadia na norma de Portugal)

-ida (verbos da 2. e 3. conjugaes): acolhida, partida

-agem: vadiagem

-rio: lapidrio

b) Derivados de substantivo:

-ada: laada, braada, pousada

-ura: cintura

-astro: poetastro

-estre: silvestre, campestre

-ato: orfanato

-ao, -aa: vidraa

-cnio: patrocnio (no confundir com o radical -cinio, de canere cantar: galicnio o canto do galo)

c) Derivados de adjetivos:

-ismo: charlatanismo, civismo

-tude, -do: amplitude, amplido, solido

-ura: doura, brancura (concorrente vitorioso sobre -or: verdor, amargor)

-eza, -ez: beleza, viuvez

-cia: audcia, falcia

-dade: dignidade

-mnia: acrimnia

3) Para significar lugar, meio, instrumento:

-douro, -doura: bebedouro, manjedoura

-trio: necrotrio

-trio: dormitrio

-aria, -eria: livraria, tesouraria, sorveteria

-edo: arvoredo

-bulo: turbulo

-or: corredor

-il: covil (relacionado a nomes de animal, para indicar onde se recolhem)

-anco: barranco

-cro: simulacro, ambulacro

4) Para significar abundncia, aglomerao, coleo:

-aria, -rio, -eria: cavalaria, infantaria (ou infanteria), casario

-al: laranjal, cipoal

-edo: arvoredo

-eira: doenceira, desgraceira

-io: mulherio

-ama, -ame, -ume, -um: mourama, velame, ervum, mulherum, homum, negrume

-agem: folhagem

-ada: boiada

-ao: chumao

-alha: parentalha

-ardo: moscardo

-ana, -aina (por alongamento): andana, andaina

5) Para significar causa produtora, lugar onde se encontra ou se faz a coisa denotada pela palavra primitiva:

-rio: relicrio, herbanrio

-eiro, -eira: aucareiro, chocolateira

-aria: livraria, mercearia

6) Para formar nomes de naturalidade:

-aco: austraco

-ano,-o: pernambucano, coimbro

-ense, -s: cearense, portugus

-enho: estremenho (da Estremadura, Portugal)

-eno: madrileno, chileno

-eu, -u: caldeu, hebreu, ilhu (fem. ilhoa)

-engo: flamengo

-ico: braslico

Observao: Em algarvio no h sufixo -io.

-ista: paulista

-ol: espanhol

-oto: minhoto ()

-ato: maiato (natural de Maia)

-ino: platino, bragantino

-eiro: brasileiro

-eta: lisboeta

-aico: hebraico, caldaico

7) Para formar nomes que indicam maneira de pensar; doutrina que algum segue; seitas; ocupao relacionada com a coisa expressa pela palavra primitiva:

-ismo: cristianismo, classicismo

-ista: socialista, espiritista

-ano: maometano, anglicano

8) Para formar outros nomes tcnicos usados nas cincias [AN.1, 123-124]:

-ite (emprega-se para as inflamaes): pleurite, rinite, bronquite

-ema ( utilizado nos modernos estudos de linguagem com o sentido de mnima unidade distintiva): fonema (menor unidade de som); morfema (menor unidade significativa de forma), 
lexema, semema, estilema, etc.

-oso e -ico (distinguem xidos, andridos, cidos e sais, reservando-se o ltimo para os compostos que encerrem maior proporo do metaloide empregado): cloreto mercuroso, 
cloreto mercrico

-ato, -eto, -ito (formam nomes de sais: clorato, cloreto, clorito): clorato de potssio, cloreto de sdio. Para os sais de enxofre usa-se o radical sulf: sulfeto, sulfito, 
e no sulfur, que  forma latina: sulfato de quinino, hipossulfito de sdio. Para os de fsforo usa-se o radical fosf, para os de flor flu: fosfato, fluato. Para os de carbnio, 
o uso vulgar aceitou as formas carbonato, bem derivada, e carbureto (em vez de carboneto), que denota influncia francesa: bicarbonato de sdio, carbureto de clcio.

-nio (caracteriza carbonetos de hidrognio): acetilnio, etilnio, metilnio, etc.

-ilio (aparece em certos compostos chamados radicais qumicos): amlio, metlio.

-ina (aparece em alcaloides e lcalis artificiais): atropina, alcaloide da beladona; cafena, do caf; cocana, da coca; codena, do pio; conicina, da cicuta; estricnina, 
da noz-vmica; morfina, da papoula; nicotina, do fumo; quinina, da quina; tena, da rvore do ch, etc.; anilina, alizarina, etc.

-io (aparece em corpos simples): silcio, telrio, selnio, sdio, potssio, etc.

-ol (se encontra em derivados de hidrocarbonetos): fenol, naftol, etc.

Observaes:

1.) A Mineralogia e a Geologia tm tambm sufixos tomados em sentidos particulares:

-ita (para espcies minerais): pirita

-ito (para as rochas): granito

-ite (para fsseis): amonite

2.) Na indstria moderna os produtos novos so marcados com finais -ax, -ex, -ix, -ox, -ux, que passaram a ser entendidos como verdadeiros sufixos: ajax, tenax, paredex, 
pirex, atrix, inox, matox, rodox. Em xerox (ou etimolgico xrox) no temos esse final, pois se prende a um adjetivo grego, que significa enxuto.

II  Principais sufixos de nomes aumentativos e diminutivos, muitas vezes tomados pejorativa ou afetivamente:

1) Aumentativos:

-o, -zo: cadeiro, homenzo

-ano: falhano, copiano

-arro, -arro, -zarro, arraz (arro + az): naviarra, bebarro, santarro, coparro, homenzarro, pratarraz

-eiro: vozeiro

-ao, -aa: ricao, barcaa, copao

-astro: poetastro, politicastro, padrasto, madrasta (nos dois ltimos houve dissimilao)

-alho, -alha, -alho: politicalho, muralha, grandalho

-ama: ourama, poeirama

-anzil: corpanzil

-zio: copzio

-ua: dentua

-eima: guleima, guloseima, boleima

-anca: bicanca

-asco: penhasco

-az: fatacaz, famanaz, famaraz

-ola: beiola

-orra: cabeorra

-eiro: chapeiro, toleiro

-ento: farturento

2) Diminutivos:

-inho, -zinho, -im, zim: livrinho, livrozinho, dormindinho, florzinha, espadim, bodim, valzim 92

Observao: Nem sempre  indiferente a opo por -inho ou -zinho. No toleram -inho (e -ito) mas -zinho (e -zito) os nomes terminados em nasal, ditongo e vogal tnica: cozinho, 
cozito, irmzinha, albunzinho, raiozinho, bonezinho, urubuzinho. Tambm se incluem os terminados em -r, embora a haja alguns em -inho, facultativamente: serzinho, cadaverzinho, 
caraterzinho; colher admite colherinha, ao lado de colherzinha. Os terminados em -s e -z s toleram -inho (-ito): tenisinho, lapisinho, rapazinho.

-ito, -zito: copito, amorzito, passeandito

-ico: namorico, veranico

-isco: chuvisco, petisco

-eta, -ete, -eto: saleta, diabrete, livreto, saberete

-eco: livreco, padreco

-ota, -ote, -oto: ilhota, caixote, perdigoto

-ejo: lugarejo, animalejo

-acho: riacho, fogacho

-el, -ela, -elo (ora com e aberto ora fechado): cabedelo, magricela, donzela, donzel

-iola: arterola

-ola: camisola (tambm tem sentido aumentativo quando designa a camisa longa de dormir); rapazola (cf. -iola)

-ucho: gorducho, pepelucho

-ebre: casebre

-ula, -ulo, -cula, -culo: ntula, glbulo, radcula, corpsculo

-alho, -elho, -ilho, -olho, -ulha: ramalho, rapazelho, pesadilho, ferrolho, bagulho

-aa, -ao, -ia, -io: fumaa, canio, nabia

-el: cordel

III  Principais sufixos para formar adjetivos:

-(d)io, -(d)io: fugidio, movedio (todos tirados do tema do particpio)

-vel, -bil: notvel, crvel, solvel, flbil, ignbil

-ento, -(l)ento: cruento, corpulento

-oso, -uoso: bondoso, primoroso, fastoso (ou fastuoso), untuoso, espirituoso

-onho: medonho, risonho

-az: mordaz, voraz

-udo: barrigudo, cabeudo

-cio, -io: acomodatcio, enfermio

-rio, -eiro: dirio, ordinrio, verdadeiro, costumeiro

-ano: humano

-asco: pardavasco

-esco, -isco: dantesco, principesco, mourisco

-tico: problemtico, aromtico

-eno: terreno

-ceo: rosceo, galinceo

-acho: verdacho

-aco: demonaco

-ado: barbado

-ardo: felizardo

-al: vital, boal

-neo, -anho: sucedneo, estranho

-til: porttil, voltil

-ino, -im: bailarino, paladino, paladim (a apcope de -ino a -im ocorre mais entre substantivos: latino [adj.], latim [s.])

-bundo: furibundo

-undo, -ondo: fecundo, redondo

-eo: rseo

-timo: martimo

-urno: diurno

-iano: canoniano, virgiliano

Observao: Dos nomes prprios formam-se adjetivos em -iano e no -eano: comoniano, machadiano, saussuriano, wagneriano, como j era em latim. [cf. JMa.1,  189, 2).

-ico: pblico

-engo, -lengo: mulherengo, avoengo, verdoengo (verdolengo)

-al, -ar: anual, escolar

-aico: prosaico

-estre: campestre

-este: celeste

-douro: vindouro, imorredouro

-trio: expiatrio, satisfatrio

-ivo: afirmativo, lucrativo

-cea, -ceo (em famlia de plantas): liliceas, papilonceos

-ndo (equivalente ao particpio futuro passivo latino): graduando (que vai ser graduado), vitando (que deve ser evitado), venerando (digno de ser venerado), despiciendo 
(digno de ser desprezado, desprezvel). Tem tido larga aceitao na nomenclatura de profisses universitrias, nem sempre bem visto pelos puristas: doutorando, farmacolando, 
engenheirando, etc.

IV  Principais sufixos para formar verbos:

1) Para indicar ao que deve ser praticada ou dar certa qualidade a uma coisa (verbo causativo):

-ant(ar): quebrantar

-it(ar): periclitar, debilitar

-iz(ar): civilizar, humanizar, realizar

2) Para indicar ao repetida (verbos frequentativos):

-a(ar): espicaar, adelgaar

-ej(ar): mercadejar, voejar

Observaes:

1.) Nem sempre indicam repetio da ao; muitas vezes servem para exprimir a mesma noo, apenas por meio de forma entendida por mais sonora.

2.) Sobre -ear / -ejar [cf.MBa.5, 128].

3) Para indicar ao pouco intensa (verbos diminutivos):

-it(ar): saltitar, dormitar

Observao: Muitos verbos exprimem esta ideia por se formarem de nomes diminutivos: petisco + ar = petiscar; chuvisco + ar = chuviscar; cuspinho + ar = cuspinhar, namorico 
+ ar = namoricar

4) Para indicar incio de ao ou passagem para um novo estado ou qualidade (verbos incoativos):

-ec(er): alvorecer, anoitecer, apodrecer, endurecer, enfurecer

-esc(er): florescer

Observao: A grafia -escer  prpria das palavras importadas que j chegaram  lngua com -sc-, ou devidas  analogia.

V  Sufixo para formar advrbio:

-mente (junta-se a adjetivo na forma feminina, quando houver):

claramente, sinceramente, sossegadamente, simplesmente, horrivelmente, enormemente, primeiramente.

Por extenso, pode ainda muito expressivamente combinar-se com substantivos.

Observao: Os nomes terminados em -s e alguns terminados em -or, porque no portugus antigo s tinham uma forma para os dois gneros, no se apresentam no feminino: portuguesmente, 
superiormente.

Os advrbios em -mente podem ser distribudos em trs classes, conforme o sentido do adjetivo de que se formam [NE.1, 17-18]:

1) exprimem uma ideia de qualidade: claramente, sinceramente, simplesmente, horrivelmente;

2) exprimem uma ideia de quantidade ou medida: copiosamente, imensamente, enormemente;

3) exprimem uma ideia de relao de dois seres independente um do outro; entre as idias de relao citamos as de tempo e lugar: primeiramente, anteriormente, atualmente.

Prefixos

Prefixos  Os principais prefixos que ocorrem em portugus so de procedncia latina ou grega, sendo que muitos dos primeiros correspondem a preposies portuguesas. Ainda 
que os prefixos latinos tenham o mesmo significado de seus correspondentes gregos, formando assim palavras sinnimas, estas em regra no se podem substituir mutuamente, porque 
tm esferas semnticas diferentes.

Assim  que transformao e metamorfose, circunferncia e periferia, composio e sntese so equivalentes, a rigor, mas no se aplicam indistintamente: transformao, por 
exemplo,  de emprego mais amplo que metamorfose.

Algumas vezes h duplicidade da noo expressa pelo prefixo e pela preposio que se segue  palavra derivada prefixalmente: concorrer com, incorrer em, apor-se a, etc.93 
Outras vezes, o reforo se d mediante o prefixo e o significado mesmo da palavra base; repare-se a repetio da ideia de funo, aproximidade do prefixo com- e da base vizinho 
neste trecho de Euclides da Cunha: Esta solidariedade de esforos evidencia-se melhor na vaquejada, trabalho consistindo essencialmente no reunir, e discriminar depois, os 
gados de diferentes fazendas convizinhas... [EC.1, 125].

Prefixos e elementos latinos

Prefixos e elementos latinos

ab, abs (afastamento, separao): abstrair, abuso

ad, a (movimento para aproximao; adicionamento; passagem para outro estado; s vezes no tem significao prpria): adjunto, apor

Observao: No confundir com o a sem significao de certas palavras como alevantar, assentar, atambor.

ante (anteriormente, procedncia  no tempo ou no espao): antessala, antelquio, antegozar, antevspera

ambi (duplicidade): ambiguidade, ambidestro

bene, bem, ben (bem, excelncia de um fato ou ao): bendizer, benfazejo

bis, bi, bin (dois, duplicidade): bisneto, biciclo, binculo

centum, cento: centuplicar, centopeia

circum, circu (em roda de): circunferncia, circulao

cis (posio aqum): cisalpino, cisatlntico, cisandino, cisplatino

Observao: Ocorre como antnimo de trans: transatlntico  cisatlntico.

cum, com, con-, co-, cor (companhia, sociedade, concomitncia): cumplicidade, compadre, companheiro, condutor, colaborar, corroborar

contra (oposio, situao fronteira; o a final pode passar a o diante de certas derivaes do verbo): contramarchar, contrapor, contramuro, controverter. Em contradana no 
ocorre o prefixo contra; o vocbulo nos veio do francs contredanse, do ingls country-dance (dana rstica), por etimologia popular, talvez devida ao fato de os pares se 
defrontarem, uns com os outros (da o francs contre).

decem, deci, decu, dec (dez): decenviro, decilitro, dcuplo

de- (movimento para baixo, separao, intensidade, negao): depenar, decompor. s vezes alterna com des-: decair  descair.

de(s), di(s) (negao, ao contrria, cessao de um ato ou estado, ablao, intensidade): desventura, discordncia, difcil (dis + fcil), desinfeliz, desfear (= fazer muito 
feio), desmudar (= mudar muito)

dis(s) (duplicidade, separao, diversidade de partes): dissecar (cortar em dois), disjungir (separar duas coisas que estavam juntas), dispor

ex-, es-, e- (movimento para fora, mudana de estado, esforo): esvaziar, evadir, expatriar, expectorar, emigrar, esforar

Observao: s vezes alterna-se com des-, dis: escampado  descampado; extenso  distenso; esguedelhar  desguedelhar; esmaiar  desmaiar; estripar e destripar; desapropriar 
e espropriar; desfiar e esfiar; desencarcerar e excarcerar; deserdar e exerdar [MBa.4, 211].

em-, en-, e-, in- (movimento para dentro, passagem para um estado ou forma, guarnecimento, revestimento): embeber, enterrar, enevoar, ingerir

Observao: s vezes alterna-se a forma prefixada com o seu prefixo: couraar e encouraar, cavalgar e encavalgar, trajar e entrajar, viuvar e enviuvar, bainhar e embainhar 
[MBa.4, 206].

extra- (fora de, alm de; superioridade; o a final passa, s vezes, a o): extradio, extralegal, extrafino, extroverter

in-, im-, i- (sentido contrrio, negao, privao): impenitente, incorrigvel, ilegal, ignorncia

Observaes:

1.) s vezes parece atribuir ao derivado o mesmo valor semntico da forma de base: incruento, incrueldade.

2.) Algumas vezes indica no que alguma coisa se transforma, isto , mudana de estado: incinerar (reduzir a cinzas), inflamvel (que se transforma em chama, que se transforma 
em fogo), etc.

3.) Os prefixos negativos mais comuns so in e des ou de. So poucas as palavras verdadeiramente antigas formadas com o prefixo in, que s se tornam frequentes por imitao 
literria do latim, dos quinhentistas para c; a derivao popular  sempre feita com o prefixo des ou de: desfazer, descoser, desandar, desamor, desigual, etc. Alguns tiveram 
a forma in, como injustia, mas ainda em tal caso sempre (antigamente) se preferiu dizer a sem-justia e dizer cousa sem-nome a cousa inominada ou quejandas expresses [JR.5, 
n. 124].

infra- (abaixo): infra-assinado

inter-, entre (posio no meio, reciprocidade): entreter, interpor, intercmbio

intro- (dentro): introduzir

intra- (posio interior, movimento para dentro; o a final passa, s vezes, a o): intramuscular, introverter, introduzir

ob-, o- (posio em frente): obstar, opor

per- (atravs de, coisa ou ao completa, intensidade): percorrer, perfazer, perdurar, persentir (sentir profundamente)

pluri- (muito): pluricelular

pos-, post- (posio posterior, no tempo e no espao): postnico, ps-escrito

praeter (preter): preterir

primu (primeiro): primognito

pre-, prae- (anteriormente, antecedncia, superioridade): prefcio, prever, predomnio

pro- (movimento para frente, em lugar de, em proveito de): progredir, projeo

re- (movimento para trs, repetio, reciprocidade, intensidade): regredir, refazer, ressaudar (saudar mutuamente), ressaltar, rescaldar (escaldar muito)

retro- (para trs): retroceder, retroagir

satis (suficiente): satisfazer

semi- (metade de, quase, que faz as vezes de): semicrculo, semibrbaro, semivogal

so-, sob-, sub-, sus- (em baixo de, imediatamente abaixo num cargo ou funo; inferioridade, ao pouco intensa): soterrar, sobestar, submarino, sustentar, supor

sobre- (nas formaes vernculas), super-, supra- (nas formaes eruditas) (posio superior, salincia, parte final de um ato ou fenmeno; em seguida; excesso): sobrestar, 
superfcie, supracitado, superlotado

soto-, sota- (posio inferior, inferioridade; logo aps): soto-pr, soto-mestre, sota-voga

trans-, tras-, tres-, tra-, tre- (alm de, atravs de, passar de um lugar a outro, intensidade): transportar, traduzir, transladar, tresloucar, tresmalhar, tresnoitar, trespassar, 
tresler, tresgastar94

Observaes:

1.) No se h de confundir trs (numeral) com tres (de trans): tresdobrar (triplicar);

2.) s vezes trans  empregado como antnimo de cis: transalpino e transandino, por exemplo, opem-se a cisalpino e cisandino;

3.) Tambm em certas palavras se podem alternar as variantes deste prefixo: transpassar, traspassar, trespassar; transmontar, tramontar

tris, tri, tres, tre (trs): trisslabo, triciclo

ultra- (alm de, excesso, passar alm de): ultrapassar, ultrafino

un, uni (unidade): uniforme

vice-, vis- (em lugar de, imediatamente abaixo num cargo ou funo): vice-presidente, visconde95

Prefixos e elementos gregos

Prefixos e elementos gregos

a, an, este ltimo antes de vogal (privao, negao, insuficincia, carncia, contradio): afnico, anemia, annimo, anoxia, amoral

an (inverso, mudana, reduplicao): anabatista, anacrnico, analogia, anatomia, anfora

anf (duplicidade, ao redor, dos dois lados): anfbio, anfibologia, anfiteatro

ant (oposio, ao contrria): antdoto, antrtico, antpodas, antiareo

ap (afastamento): apologia, apocalipse

arqui, arce (superioridade hierrquica, primazia, excesso): arquiduque, arquimilionrio, arcediago

cat (movimento para baixo): catacumba, catarata, catlico

di (duplicidade, intensidade): dilema, disslabo, ditongo

di, di (atravs de): dilogo, diagrama

Observao: Pensando-se que dilogo  conversa de dois, tem-se empregado erradamente trilogo para conversa de trs.

dis (dificuldade): dispepsia, disenteria

ec-, ex-, exo-, ecto (exterioridade, movimento para fora, separao): eczema, exegese, xodo, exgeno, ectoderma

en-, em-, e- (interioridade): encmio, encclica, enciclopdia, emblema, elipse

endo (movimento em direo para dentro): endocarpo, endovenosa

ento (interior): entfito (planta que vive dentro de outra)

ep (sobre, em cima de): epiderme, epitfio

eu (excelncia, perfeio, bondade): eufonia, euforia, eufemismo

hemi (metade, diviso de duas partes): hemiciclo, hemisfrio

hipr (excesso): hiprbolo, hiprbato

hip (posio inferior): hipocrisia, hiptese, hipoteca

met (mudana, sucesso): metamorfose, metfora, metonmia

par (proximidade, semelhana, defeito, vcio, intensidade): parbola, paradigma, paralela, paramnsia

per ( em torno de): permetro, perodo, periscpio

pr (anterioridade): prlogo, prognstico, profeta

prs (adjuno, em adio a): proslito, prosdia

proto- (incio, comeo, anterioridade): prottipo, proto-histria, proto-mrtir

pol- (multiplicidade): polisslabo, politesmo

sn-, sm-, s- (conjunto, simultaneidade): sinagoga, sinopse, simpatia, silogeu

tele- (distncia, afastamento, controle feito  distncia): telgrafo, telepatia, teleguiado

Correspondncia entre prefixos e elementos latinos e gregos

Correspondncia entre prefixos e elementos latinos e gregos

Latinos

Gregos

des, in 1: desleal, infeliz

a, an: amoral, anemia

contra: contrapor

ant: antipatia

ambi: ambiguidade

anf: anfibologia

ab: abuso

ap: apogeu

bi(s): bilabial

di: disslabo

trans: transparente, transformao

di, met: difano, metamorfose

in: ingressar

en: encfalo

intra: intramuscular

endo: endovenoso

ex: exportar

ec, ex: xodo

super, supra: superfcie,
       supralingual, superlotar

ep, hipr: epiderme, hipertrofia

bene: benefcio

eu: eufonia

semi: semicrculo

hemi: hemisfrio

sub: subterrneo

hip: hiptese

ad: adjetivo

par: paralelo

circum: circunferncia

per: periferia

de: depenar

cat: catarata

cum: composio

sn: sntese

1. O prefixo in literrio e erudito, ao contrrio de des- popular, ganhou por isso certa cortesia e polidez, e constitui em neologismos, um recurso de eufemismos que cada 
vez mais se generaliza: inverdade (por mentira), inexato, indelicado, indonto, impolido, inverdico, imerecido, inativo.

Observao: H tambm sinnimos ou equivalentes semnticos greco-latinos ou doublets bilngues. Vejam-se os lembrados por [MBa.5, 103, n.18].

Latinos

Gregos

abecedrio

alfabeto

florilgio

antologia

sudorfico

diafortico

unicrnio

monoceronte

rouxinol

filomela

pennsula

quersoneso

novilnio

neomnio

avareza

filargiria

favnio

zfiro

Outros processos de formao de palavras

Outros processos de formao de palavras  Alm dos processos gerais tpicos de formao de palavras, possui o portugus mais os seguintes: formao regressiva, abreviao, 
reduplicao, converso e combinao.

Intimamente relacionada com a derivao temos a formao regressiva ou deverbal, que consiste em criar palavras por analogia, pela subtrao de algum sufixo, dando a falsa 
impresso de serem vocbulos derivantes: de atrasar tiramos atraso, de embarcar, embarque; de pescar, pesca; de gritar, grito. Assim tambm os vocbulos rosmaninho e sarampo 
foram tomados, respectivamente como diminutivo e aumentativo, marcados, portanto, com sufixos de grau, e da se tiraram as formas regressivas rosmano e sarampo, como falsos 
primitivos.

Tais derivados regressivos procedem da primeira ou da terceira pessoa do singular do presente do indicativo, o que explica sua distribuio em substantivos de tema em -o (se 
provindos da 1. pessoa) ou de tema em -a ou -e (se provindos da 3. pessoa), sem que se possa prever a opo da norma para a escolha da vogal temtica. Os de tema em -o tm 
maior vitalidade no portugus moderno, especialmente na variedade informal: o amasso, o agito, o chego, o sufoco, o apago [VK.3, 23-24].

O Prof. Said Ali distribui-os em quatro grupos, levando em conta seu gnero gramatical:

1.) Masculino em -o: atraso, assento, emprego, voo, esforo, choro, degelo, remo, mergulho, suspiro, mando, confronto, rodeio, galanteio, festejo, gargarejo, etc.

2.) Masculino em -e: embarque, desembarque, combate, corte, toque, etc.

3.) Feminino em -a: amarra, pesca, sobra, suplica, leva, engorda, desova, renncia, rega, esfrega, entrega, escolha, etc.

4.) Masculinos e femininos: pago, paga, custo, custa, troco, troca, achego, achega, grito, grita, ameao, ameaa [SA.2, 163]

Neste processo, os substantivos tirados de verbos denotam ao, enquanto os substantivos que do origem a verbos denotam, em geral, objeto ou substncia, como arquivo  arquivar, 
timbre  timbrar, apelido  apelidar, e assim por diante. A vitalidade lhes garante formao de derivados: de apago se formou apago nos blecautes, momentneos ou demorados, 
das grandes cidades.

A abreviao consiste no emprego de uma parte da palavra pelo todo.  comum no s no falar coloquial, mas ainda na linguagem cuidada, por brevidade de expresso: extra por 
extraordinrio ou extrafino.

A forma abreviada passa realmente a constituir uma nova palavra e, nos dicionrios, tem tratamento  parte, quando sofre variao de sentido ou adquire matriz especial em 
relao quela donde procede. Fotografia e foto so sinnimos porque designam a mesma coisa, embora a sinonmia no seja absoluta. Foto, alm de ser de emprego mais corrente, 
ainda serve para ttulos de casas do gnero, o que no se d com o termo fotografia.

Pode-se incluir como caso especial da abreviao o processo de se criarem palavras, com vitalidade no lxico, mediante a leitura (isoladas ou no) das letras que compem siglas, 
como, por exemplo:

ONU (Organizao das Naes Unidas)

PUC (Pontifcia Universidade Catlica)

UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro)

USP (Universidade de So Paulo)

PT (Partido dos Trabalhadores)

Destas abreviaturas se derivam, mediante sufixos: puquiano, uergiano, uspiano, petista, etc.

A reduplicao, tambm chamada duplicao silbica, consiste na repetio de vogal ou consoante, acompanhada quase sempre de alternncia voclica, para formar uma palavra 
imitativa:

tique-taque, reco-reco, pingue-pongue (que provavelmente representa o chins ping-pang, atravs do ingls ping-pong, segundo Sapir [ES.1, 82].

Este  o processo geralmente usado para formar as onomatopeias ( 74).

A converso consiste no emprego de uma palavra fora de sua classe normal:

Terrvel palavra  um no. No consegui descobrir o porqu da questo.

Ele  o benjamim da famlia.

Entre os casos de converso podemos incluir a passagem, por hipertaxe, um grupo de vocbulos (geralmente o final) a palavra isolada: Ele tem certas fobias (fobia  a parte 
de um grupo de palavras que designam averso a uma coisa: fotofobia, xenofobia, hidrofobia, etc). Estamos no sculo dos ismos e das logias.

Observao: Os casos de converso recebiam o nome de derivao imprpria. Como a converso no repercute na estrutura do significante de base, muitos estudiosos, com razo, 
no a incluem como processo especial de formaao de palavras, como demonstra a hipertaxe.

A combinao  um caso especial de composio em que a nova unidade resulta da combinao de parte de cada um dos dois termos que entram, na formao: portugus + espanhol 
 portunhol; Bahia + Vitria  Bavi. So comuns na linguagem jocosa: sofrer + professor  sofressor; aborrecer + adolescente  aborrecente.

A intensificao  um caso especial de intensificao ou expressividade semntica de uma palavra j existente mediante o alargamento de sufixos, quase sempre -izar, ou s 
vezes por modelos franceses ou ingleses: agilizar por agir, veiculizar por veicular, obstaculizar por obstar, protocolizar por protocolar, culpabilizar por culpar, depauperizar 
por depauperar.

Hibridismo

Hibridismo  Chama-se hibridismo  formao de palavras com elementos de idiomas diferentes. So mais comuns os hibridismos constitudos da combinao de elemento grego com 
outro latino ou romnico: sociologia (latino e grego), autossugesto (grego e portugus), televiso (grego e portugus), burocracia (francs bureau e grego), automvel (grego 
e portugus), decmetro (latino e grego).

A nossa lngua forma com facilidade hibridismos com elementos estrangeiros que se acham perfeitamente assimilados ao idioma, que passam como elementos nativos. Assim  que 
fobia, mania, filo, tele, macro, micro, neo, pseudo, auto e sufixos como ismo, ista, ico se juntam a elementos de qualquer procedncia: germanfilo, russfilo, germanofobia, 
russofobia, retratomania, teleguiado, micro-nibus, neovencedor, pseudovencedor, autocrtica, autorretrato, caiporismo, governista.96

Radicais gregos mais usados em portugus

Radicais gregos mais usados em portugus  Grande  o nmero de radicais gregos que encontramos no vocabulrio portugus. Muitos deles nos chegaram atravs do latim e so 
antiqussimos; lembremo-nos de que nos scs. XVI a XVIII o latim era o veculo das obras de cincia e de filosofia em que abundavam os emprstimos de palavras gregas. Na adaptao 
dos termos gregos para o latim, geralmente se procedia da seguinte maneira: k, ai, ei, oi, ou, u, r (aspirado) gregos eram transliterados para latim, respectivamente em c, 
ae, i, oe, u, y e rh, e esta prtica prevalecia para o portugus e demais lnguas modernas. Esta norma nem sempre  hoje obedecida quando se trata de novos termos cientficos. 
Assim  que se prefere calidoscpio a caleidoscpio (ei > i), apesar de, na linguagem tcnica, dizer-se dictico e no dctico. Aberta a porta para a introduo de palavras 
ou elementos de emprstimo numa lngua, esta pode utiliz-los como bem lhe aprouver, criando distines at ento desconhecidas na lngua de origem; assim  que, em portugus, 
distinguimos amoral que no  nem contrrio nem conforme a moral e imoral contrrio a moral.

Nessas criaes com elementos eruditos, como bem diz Benveniste, o criador pensa na sua lngua e escolhe o termo greco-latino, cujo significado originrio nem sempre  o pretendido; 
o citado linguista estuda o termo micrbio criado por Sdillot (1804-1882) e mostra que, alm da palavra no existir no grego, jamais seria criada para significar vida curta, 
pois mikrs no se ligaria a bos, como em portugus no se ape breve a vista, mas vista curta. Por outro lado, em regra no vamos ao grego para formar palavras novas; elas 
nos vm do estrangeiro, mormente de Frana, e agora dos pases de lngua inglesa, atravs da nomenclatura cientfica comum  maioria das naes cultas. E os erros que l fora 
se cometem na formao dos neologismos no so por ns corrigidos. Aceitamos, e no h como corrigi-las, formas errneas, como quilmetro (por quilimetro), hectmetro (por 
hecatmetro).

Outras vezes no se leva em conta o significado rigoroso do termo grego. Assim se aplica lgos  dor fsica em vez da moral e se diz cefalalgia (dor de cabea), odontalgia 
(dor de dente), nevralgia (dor de um nervo); tambm empregando-se geo para indicar terra como elemento, em vez de argila (uma vez que o primeiro s se poderia aplicar ao globo 
terrestre), se diz gefago (= comedor de terra) por argilfago. Ainda nos cabe dizer que muitos dos nomes tcnicos, principalmente gregos, trazem na sua etimologia uma noo 
que o progresso cientfico considera errnea ou imperfeita. Destarte, tomo, que significa indivisvel, o que no se pode mais dividir, no pode ser hoje tomado ao p da letra; 
oxignio quer dizer gerador de cidos, como se todos os cidos contivessem este corpo. Como so termos cuja etimologia no  inquirida, podem continuar a ser empregados sem 
inconvenincia. Por fim, lembramos os casos de esquecimento etimolgico em que o sentimento moderno no d conta do significado de elemento constitutivo da palavra, dizendo, 
por exemplo, ortografia correta (orths = correta), caligrafia bonita (cals = belo). Os bem falantes reagem contra muitos esquecimentos como hemorragia de sangue, decapitar 
a cabea, exultar de alegria, estes dois ltimos latinos.

Os principais radicais gregos usados em portugus so:

ar, ar-os (ar, vapor): aeronauta, aerostato, areo

ngel-os, aggel-os (enviado, mensageiro): anjo, evangelho

g-o, agog-s (conduzir, condutor): demagogo, pedagogo

ag-n, n-os (combate, luta): agonia, antagonista

agr-s (campo): agronomia

aithr (cu): etreo

thlon (certame): atleta

eti-a, ait-a (causa): etiologia

cr-on, kr-on (alto, extremidade): acrpole, acrobata, acrstico

lg-os (sofrimento, dor): nevralgia, nostalgia

llos (outro): alopatia

alpha (a = 1. letra do alfabeto): alfabeto

nem-os (vento, sopro): anemoscpio, anmona

nt-os, nth-os (flor): antologia

antrop-os, nthrop-os (homem): filantropo, misantropo, antropfago

arc-aos, arch-aos (antigo): arcaico, arqueologia

arc, arkh- (governo): anarquia, monarquia

arc, arch-s (chefe que comanda): monarca

aritm-s, arithm-s (nmero): aritmtica, logaritmo

rct-os (urso): rtico, antrtico (o nome rtico refere-se s constelaes Grande Urso e Pequena Ursa, em uma das quais se acha a Estrela Polar, [SA.2, 167].

astr, ast()r-os (estrela): asteride, astronomia

atms (vapor): atmosfera

aut-s (si mesmo): autgrafo, autonomia

bl-o, bll-o (projetar, lanar): balstica, problema, smbolo

bor-is, bor-s, br-os (pesado, grave): bartono, barmetro

bibl-on (livro): biblifilo, biblioteca

b-os (vida): biografia, anfbio

cen, sken (tenda): cenografia

cianos, kanos (azul): cinandrico

cir, quir-s, cher, cheir-s (mo): quirptero, cirurgia, quiromancia

cion, kon (co): cinegtica

col-, khol- (blis): melancolia

cor-os, corea, chor-s (coro): corea, (dana em coro), coreografia

clors, klors (verde): clorofila

cron-os, chrn-os (tempo): crnico, cronologia, iscrono, anacronismo

cpto, kpto (bato, corto): sncope

crom-a, khrm-a (cor): cromolitografia

chliai, chlia (mil): quilmetro, quilograma

cris-s  chrys-s (ouro): crisstomo, crislia, crisntemo

crtos, krtos (fora): democracia

crpto, krpto (escondo): criptnimo, criptografia

quil-s  chyls (suco): quilfero

dctil-os  dktyl-os (dedo): datilografia ou dactilografia

dca, dka (dez): decasslabo, declogo

dm-os (povo) democracia, epidemia

drm-a (pele): epiderme, paquiderme

ds, di (dois): disslabo, ditongo

dis, dys (mal, difcil): digesto

d-ron (dom, presente): dose, antdoto, Pandora

dx-a (opinio): ortodoxo, paradoxo

dr-ma  atos (ao, drama): drama, dramtico, melodrama

drm-os (corrida, curso): hipdromo, prdromo

dnam-is  dnam-is (fora): dinmica, dinammetro

dr-a (base, lado): pentaedro, poliedro

id-os, ed-os (forma), donde procede ide (que se assemelha a): elipsoide

ic-n  eik-n  n-os (imagem): cono, iconoclasta

lectra  lektr-on (mbar, eletricidade): eltrico, eletrmetro

estoma, stma (boca): estmago, estomatite

rg-on (obra, trabalho), da os sufixos  urgo,  urgia: metalurgia, dramaturgo, energia

escafe, scphe (barco): escafandro

nter-a (entranhas, intestino): enterite, disenteria

estsis, stsis (ao de estar): hipstaxe

tn-os  thn-os (raa, nao): tnico, etnografia

timos, tymos (verdadeiro): etimologia

gm-os (casamento), da gamo (o que se casa): polgamo, bgamo, criptgamo

gastr, gast()-ros (ventre, estmago): gastrnomo, gastralgia

g, geo (terra): geografia, geologia

gnes-is (ao de gerar): gnese, hidrognio

gn-os (gnero, espcie): homogneo, heterogneo

gin, gyn (mulher): ginecologia

gimins, gymins (nu): ginstica

glss-a ou gltt-a (lngua): glossrio, glotologia, epiglote

gon-a (ngulo): polgono, diagonal

gon-s (formao, gerao): cosmogonia, teogonia

grf-o, grph-o (escrever), e da graph-a (descrio), grph-o (que escreve), grmm-a (o que est escrito): geografia, telgrafo, telegrama

hgios (sagrado): hagiologia

hem-a  ham-a  atos (sangue): anemia, hemorragia

here-o  hair-o (tomar, escolher): heresia, hertico

hlios (sol): helioscpio, heliotrpio

hemr-a (dia): efmero, efemrides

hem (metade): hemiciclo

hter-os (outro): heterodoxo, heterogneo

hept (sete): heptasslabo

hx (seis): hexgono

hier-s (sagrado): hierarquia, hierglifo

hp-os  hpp-os (cavalo): hipdromo, hipfago

hl-os (entregue de todo, inteiramente): olgrafo, holocausto

hom-s, homeo (semelhante, o mesmo): homogneo, homnimo, homeopatia

hr-a (hora): horscopo

horo (vejo), hrama (viso): panorama

hid-or  hd-or (gua), da hidro, hydro, como elemento de composio: hidrognio, hidrografia

ict-io  icht-o  os (peixe): ictiologia, ictifago

dios (prprio, particular): idioma, idiotismo

sos (igual): iscrono, isotrmico

cac-s  kak-s (mau): cacofonia, cacografia

cal-s  kll-os (belo), kallos (beleza): caligrafia

card-a  kard-a (corao): cardaco, pericrdio

carp-s  karp-s (fruto): pericarpo, endocarpo

cefal-  kephal- (cabea): cefalgia, encfalo

clno, klno (inclino): nclise, prclise

csm-os  ksm-os (mundo): cosmografia, cosmopolita

coins, koins (em comum): cenobita

crt-os  krt-os (poder): democrtico, aristocrtico

cicl-os  kykl-os (crculo): hemicdio, bicicleta

lg-o (dizer, escolher): prolegmeno, ecletismo

leps, lepdeos (escama): lepidptero

lambn-o (tomar, da lps-is (ao de tomar), lmma (coisa tomada): eplepsia, lema, dilema

ltos, lthos (pedra): monlito, litografia

lg-os (discurso, tratado, cincia): dilogo, arqueologia, bacteriologia, eplogo

mqu-e  mch-e (combate): logomaquia

macr-s  makr-s (comprido, longo): macrbio

man-a (mania, loucura, gosto apaixonado por): bibliomania, monomania

manci-a  mante-a (adivinhao, profecia): cartomancia, quiromancia

mrtys  mrtyros (testemunha): mrtir, martirlogo

mazs (mama, seio): mastodonte

mgas, megle (grande): megalomania, megalcito

mlas, mlan (negro): melancolia, melansia

mlos (msica, canto): melodia, melodrama

mros (parte): pentmero

msos (meio): Mesopotmia

mter, metrs (me): metrpole

mtron (medida): barmetro, termmetro

micrs, mikrs (pequeno): micrbio, microscpio

mmos (que imita): mimetismo, mmica

mis, mys, mys (msculo): miocrdio

msos (dio): misantropo

mnme (memria): amnsia, mnemotcnica

mnos (s): monlogo, monlio

morf  morph (forma): morfologia

mitos  mythos (fbula, mito): mitologia

miria  myria plural de myras (dez mil): miripode

nas (nau): navio, nutica

necros  nekrs (morto, cadver): necrpole, necrologia

n-os (novo): neologismo, nefito

ns-os (ilha): micronsia, melansia

neron (nervo): nevralgia, neurastenia

nm-os (lei, administrao, poro): astronomia, autonomia

oct (oito): octosslabo

od- (canto): pardia

ad-os, hods (caminho, via): xodo, mtodo, perodo

odus, odntos (dente): odontologia

nima, nom-a, onyma (nome): pseudnimo, sinnimo

fis, ofid  ophis, ophidos (serpente): ofdio

oftalms  ophthlms (olho, vista): oftalmia, oftalmoscpio

ocos, okos (casa): economia, parquia

ps, ops (vista): psis (ao de ver)

optiks (que se refere a viso): miopia, autpsia

hram-a (vista): cosmorama, panorama

rnis, rnitos, rnithos (pssaro): ornitologia

ros (montanha): orografia

orts  orths (direito, reto): ortodoxo, ortografia, ortopedia

oston (osso): osteologia, peristeo, osteoporose

osms (impulso): osmose

xis  xys (cido, agudo): oxignio, paroxismo

paidea, pedia (educao): pedagogo, enciclopdia

pente (cinco): pentgono

pes, pedos  pas, paids (criana, menino): pedagogia

paleos  palais (antigo): paleontologia, paleografia

pn, pants (todos): panorama, panplia, pantesmo, pantgrafo

patos  pthos (afeco, doena): patologia, simpatia

fag-o, phgo, phagen (comer): antropfago, hipfago

fan-o, fen-o, phano (fazer aparecer, brilhar): difano, fenmeno

femi  phem (eu digo, falo): eufemismo, profeta

fero, foros  phro (levar, trazer):, phor-s (que leva): fsforo, semforo

filon, phyllon (folha): clorofila

flos  phlos (amigo): filarmonia, filantropo

fsis, phsis (natureza): fisionomia

fobeo, fbos  phobe-os (temer, fazer fugir), da phob-os: hidrfobo, anglfobo, russfobo

fs, fots  phos, phots (luz): fsforo, fotografia

frasis, phrsis (ato de dizer): perfrase

plut-os  plot-os (riqueza): plutocracia

fon-  phon- (voz articulada): cacofonia

polo (vendo): monoplio

plis (cidade): acrpole, metrpole, necrpole

ppsis (cozimento): dispepsia

polis  pols (muito): poligamia, polgono, policromia, polinsia, policlnica

ps, pods  pos, pod-s (p): antpoda, miripode

ptalon (ptala): minoptalo

prtos (primrio, primeiro): protagonista, protocolo, protozorio, protoplasma

plsso (bato, firo): apoplexia

psedos (falsidade, mentira): pseudnimo

pleur, pleurn (lado, flanco): pleurite

psiqu  psych (alma): psicologia, metempsicose

pnuma, pnumatos (que respira, sopra): pneumtico, dispneia

ptern (asa): quirptero, coleptero

ptma (cadver): ptomana, ptomofagia

pir, pir-os  pyr, pyr-s (fogo, febre): pirotcnico, antipirina

poio (eu fao): onomatopeia

pnte (cinco): pentasslabo

potams (rio): hipoptamo

pile, pyle (porta): piloro

ptissis, ptsis (escarro): hemoptise

srx (carne): sarcoma, sarcfago

semion, semeon (sinal): semiologia, semntica

spo (apodreo): antisstico, antissptico

sderos (ferro): siderurgia, siderita, siderografia

sprma (semente): esperma, espermatozoide

stllo (envio): epstola

sticos, stkhos (verso): hemistquio, dstico

re-o  rh-o (correr, fluir): catarro, diarreia

sism-os  seism-s, da sism (estremecimento): sismologia, ssmico

scope-o  skopo (examinar, da scpio (que faz ver): telescpio, microscpio, osciloscpio

sofs  sophs (sbio): filsofo

estats  stats (que se mantm): aerstato, hidrosttica

esfera, sphara (esfera): atmosfera

estilo, stylos (coluna): peristilo

estere-o  stere-o (slido): esteretipo, estereomia

estratos, strats (exrcito): estratgia

estref-o  strph-o (virar, voltar): apstrofe, catstrofe

tafos  taphos (tmulo): epitfio, cenotfio

tmno (divido): anatomia

taut por t aut (o mesmo): tautologia

txis (arranjo, ordem): sintaxe

taumatos, thaumats (prodgio, milagre): taumaturgo

tcne  tchne (arte): politcnico

tras, tratos (prodgio, fenmeno, monstro): teratologia

tema, thma (ato de colocar): antema

tle (longe): telgrafo, telefone, telescpio

ttara, tetra (quatro): tetraedro

te-os  the-s (deus): teologia, teocracia, politesmo

terms  therms (calor): termmetro

tsis  thsis (ao de por, ter): anttese, sntese

trefo, trpho (alimento): atrofia

tom (cortadura, seo): tomo, tomo, estereotomia

trpo (envolto, mudo): heliotrpico

tpos (lugar): tpico, topografia, atopia

tris, trados, trees, tria (trs): trinmico, trade

tram-a  atos (ferimentos): traumtico

tip-os  tp-os (tipo carter): tipografia, arqutipo

zi-on (animal, ser vivo): zoologia, zofito

Famlias etimolgicas de radical latino

Famlias etimolgicas de radical latino  Chama-se famlia etimolgica a uma srie de palavras cognatas. Cabem aqui as judiciosas observaes do Prof. Said Ali: parece cousa 
extremamente fcil distinguir palavras derivadas de palavras primitivas quando se trata de exemplo como pedreiro, pedraria, pedregulho ou fechamento, laranjal, bananeira, 
que no requerem especial cultivo da inteligncia para algum saber que se filiam respectivamente a pedra, fechar, laranja, banana. So entretanto numerosos os casos em que 
transparece menos lcida a relao entre o termo derivado e o derivante, sendo necessrio algum estudo para perceber a filiao. Outras vezes tem havido tal excluso de forma 
e sentido, que surge um curioso conflito entre o sentimento geral do vulgo e o fato encarado  luz da pesquisa cientfica[SA.2, II, 3].

Nesta matria cabe distinguir cuidadosamente uma forma livre de uma forma presa (cf. Afixos: prefixos e sufixos. Interfixos). Receber, por exemplo,  considerada como derivada 
prefixal, embora -ceber no tenha curso independente na lngua, porque  uma forma presa de caber, que aparece numa srie de palavras portuguesas 97:

O mesmo ocorre com resistir e iludir cujas formas presas -ludir e -sistir so elemento comum a uma srie:

J o mesmo critrio no se aplica a outras palavras como esquecer e inteligncia, que passaram a funcionar, para o sentimento dos que falam portugus, como palavras primitivas.

Tenha-se presente ainda que, muitas vezes, se usam em portugus dois radicais oriundos de duas formas flexivas de uma mesma palavra: cncer e cancro.

Eis uma pequena lista de cognatos com radical latino:

aequus, a, um (direito, justo): adequar, equao, equidade, igual, inquo.

ager, agri (campo): agrrio, agricultor, agrcola, peregrino

ago, agis, egi, actum, agere (impelir, fazer): gil, ator, coagir, exigir, indagar, prdigo

alter, a, um (outro): alterar, alternncia, altrusmo, outro

ango, angis, anxi, ngere (apertar): angina, ngulo, angstia, nsia, angusto

audio, audis, audivi, auditum, audire (ouvir): auditrio, audincia

bellum, i (pugna, combate): belonave

bos, bovis (boi): bovino

cado, cadis, ccidi, casum, cadere (cair): acidente, cadente, incidir, ocaso

caedo, caedis, cecidi, caesum, caedere (cortar): cesariana, cesura, conciso, inciso, precisar

H numerosos derivados em cida, cidio, cuja significao  matar:

fratricida, homicida, infanticida, matricida, patricida, regicida, uxoricida, suicida, fratricdio, homicdio, suicdio, etc.

candeo, candes, candui, candere (embranquecer): cndido, candura, incandescer

cano, canis, cecini, cantum, canere (cantar): celebrar, predizer (este na lngua religiosa): canoro, cntico, cantilena, acento. H numerosos derivados em -cnio: vaticnio 
(canto do vate, no significado de profeta), galicnio (canto do galo), tirocnio

capio, capis, cepi, captum, capere (tomar): antecipar, cativo, emancipar, incipiente, mancebo

caput, capitis (cabea): cabea, capito, capital, decapitar, precipcio

caveo, caves, cavi, cautum, cavere (ter cuidado): cautela, incauto, precaver-se

cedo, cedis, cessi, cessum, cedere (ceder): cesso, concesso, conceder

cerno, cernis, crevi, cretum, cernere (ncleo): discernir, cerne, concernir

clamo, clamas, clamavi, clamatum, clamare (chamar): proclamar, clamador

clarus, clara, clarum (claro): claridade, clareza

colo, colis, colui, cultum, colere (habitar, cultivar): agrcola, colnia, culto, ncola, inquilino, cultura (agri-, avi-, hort-, pisci-, triti-, vini-, etc.)

cor, cordis (corao): acordo, discrdia, misericrdia, recordar

dico, dicis, dixi, dictum, dicere (dizer): abdicar, bendito, dicionrio, ditador, fatdico, maledicncia

do, das, dedi, datum, dare (dar): data, doao, editar, perdoar, recndito

doceo, doces, docui, doctum, docere (ensinar): docente, documento, doutor, doutrina, indcil

duo, duae, duo (dois): dobro, dual, duelo, duplicata, dvida

duco, ducis, duxi, ductum, decere (levar, dirigir): conduto, duque, educao, dtil, produzir, traduo, viaduto

Deste radical h numerosos derivados em duzir (a-, con-, de-, intro-, pro-, re-, se-, tra-, etc.).

edo, edes, edi, esum, edere (comer): comer, comida, comestvel (cum + edo)

eo, is, ivi, itum, ire (ir): comcio, circuito, itinerrio, transitivo, subir

facio, facis, feci, factum, facere (fazer): afeto, difcil, edificar, facnora, infecto, malefcio, perfeito, suficiente

H numerosos derivados em ficar (clari-, falsi-, grati-, puri-, etc.)...

fero, fers, tuli, latum, ferre (levar, conter): ablativo, aferir, conferncia, frtil, oferecer, prelado, relao98

frango, frangis, fregi, fractum, frangere (quebrar): frao, frgil, infringir, naufrgio, refratrio

fundo, fundis, fudi, fusum, fundere (derreter): ftil, funil, refutar, fundir (con-, di-, in-, re-), confuso, difuso, profuso

gero, geris, gessi, gestum, genere (gerar): beligerncia, exagero, famigerado, gerndio, registro

gigno, gignis, genui, genitum, gignere (produzir): genitor, genital

iaceo, iaces, iacui [part. fut. iaciturus], iacere (jazer): jazigo, jacente, adjacente, subjacente

gradior, graderis, gressus sum, gradi (avanar andando): egresso, ingressar

iacio, iacis, ieci, iactum, iacere (lanar): abjecto, jato, jeito, injeo, sujeito

lac, lactis (leite): lcteo, lactante, lactente, leiteria, laticnio

lateo, lates, latui, latum, latere (estar escondido): latente

lego, legis, legi, lectum, legere (ler): florilgio, legvel, leitura, lente

loquor, loqueris, locutus sum, loqui (falar): colquio, eloquncia, locuo, prolquio

ludo, ludes, lusi, lusum, ludere (jogar): ludopdio, ldico

misceo, misces, miscui, mistum (e mixtum) miscere (misturar): mexer, misturar, miscvel

mitto, mittis, misi, missum, mittere (mandar): demitir, emisso, missionrio, remeter, promessa

moneo, mones, monui, monitum, monere (advertir, fazer lembrar): admoestar, admonitor

mentior, mentiris, mentitus sum, mentiri (mentir): mentir, mentira

moveo, moves, movi, motum, movere (mover): motorista, motriz, comoo, mvel

nascor, nasceris, natus sum, nasci (nascer): natal, nativo, nascituro, renascimento

nosco, noscis, novi, notum, noscere (conhecer): incgnita, noo, notvel

opus, operis (obra): obra, cooperar, operrio, opereta, opsculo

os, oris (boca): oral, oralidade

patior, pateris, passus sum, pati (sofrer): compatvel, paciente, paixo, passional, passivo

pendeo, pendis, pependi, pensum, pendere (pender): suspenso

pes, pedis (p): pedal, p

plico, plicas, plicavi ou plicui, plicatum ou plictum, plicare (fazer pregas): dobrar, aplicar, chegar, cmplice, explicar, implcito, rplica

pono, ponis, posui, positum, ponere (colocar): aposto, dispositivo, disponvel, posio, posto

quaero, quaeris, quaesivi ou quaesii, quaesitum, quaerere (procurar): adquirir, inquirir, quesito, questo, questor

rapio, rapis, rapui, raptum, rapere (roubar): rapto, raptar

rego, regis, rexi, rectum, regere (dirigir): correto, reitor, regncia, regime, reto

rumpo, rumpis, rupi, ruptum, rumpere (romper): corrupo, corruptela, roto, ruptura, erupo

scribo, scribes, scripsi, scriptum, scribere (escrever): escritor, escritura

seco, secas, secui, sectum, secare (cortar): bissetriz, inseto, secante, seo, segador, segmento

sedeo, sedes, sedi, sessum, sedere (estar sentado): sedestre

solvo, solvis, solvi, solutum, solvere (desunir): absolver, dissoluto, resolver, soluo, solvel

specio, specis, spexi, spectum, specere (ver): aspecto, espetculo, perspectiva, prospecto, respeito, suspeito

sto, stas, steti, statum, stare (estar): estado, distncia, estante, obstculo, substncia

sterno, sternis, stravi, stratum, sternere (estender por cima): consternar, estrada, estratificar, prostrar

sumo, sumis, sumpsi, sumptum, sumere (tomar, apoderar-se): assumir, consumir, sumidade, sumrio

tango, tangis, tetige, tactum, tangere (tocar): contagioso, contingncia, tato, contato, atingir

tendo, tendis, tetendi, tensum ou tentum, tendere (estender): atender, distenso, contente, extenso, pretenso

teneo, tenes, tenui, tentum, tenere (ter): contentar, abstinncia, tenaz, sustentar, tenor, detento

trado, tradis, tradidi, traditum, tradere (trazer): tradio, extraditar

tribuo, tribuis, tribui, tributum, tribuere (repartir): atribuir, retribuir

torqueo, torques, torsi, tortum, torquere (torcer): extorso, tortura, extorquir, tortuoso, distoro

verto, vertis, verti, versum, vertere (tornar, voltar): verter, verso

video, vides, vidi, visum, videre (ver): evidncia, prvido, vidente, visionrio, previdncia

venio, venis, veni, ventum, venire (vir): vir, vinda

vivo, vivis, vixi, victurus, vivere (viver): vida, viver

volvo, volvis, volvi, volutum, volvere (envolver): devolver, envolto, revoluo

3  Estudo Estrutural do Lxico:
 A Lexemtica

Entende-se por lexemtica ou semntica estrutural o estudo da estrutura do contedo (significado) lxico.

Para evitar confuses que perturbam tal estudo, convm distinguir as relaes de significao das relaes de designao. As relaes de significao so relaes entre significados 
dos signos lingusticos, enquanto as relaes de designao so relaes entre signos lingusticos inteiros e os objetos, isto , as realidades extralingusticas por eles 
designados e representados no discurso. S as relaes de significao so estruturveis. Um exemplo para clarear a distino: a designao de dois signos pode ser a mesma 
sem que seus significados sejam idnticos. Coseriu exemplifica com os termos gregos brots e nthropos, que designam a mesma classe de objetos (os homens), mas no tm o mesmo 
significado, isto , no significam o mesmo: brots significa homem como no deus e nthropos significa homem como no animal.

Outras disciplinas semnticas

Outras disciplinas semnticas   justamente o estudo da estruturao das relaes de significao que separa a lexemtica de outras disciplinas, todas importantes, que, chamadas 
ou no estruturais, estudam a semntica, no sentido amplo do termo. Todo problema que lide com a significao , em certo sentido, semntico; todavia nem todo problema 
semntico  lexemtico, pois este s diz respeito s relaes estruturais, paradigmticas e sintagmticas, dos significados lxicos num mesmo sistema lingustico, isto , 
numa lngua funcional.

O objeto ideal das disciplinas lexicolgicas 99  a lexemtica inclusive , como de qualquer descrio estrutural, deve ser a lngua funcional, como j vimos.

Destarte, a lexemtica, entendida como estrutura do significado, tem propsito diferente da onomasiologia (partindo do significado, a disciplina estuda as relaes entre este 
significado e os diferentes significantes que o expressam, como, por exemplo, as denominaes do corpo humano interidiomaticamente estudadas, quer nas vrias lnguas funcionais 
de uma mesma lngua histrica (o portugus, por exemplo) ou em lnguas histricas diferentes (o portugus e o francs, por exemplo), da semasiologia (partindo do significante, 
a disciplina estuda as relaes que unem este significante aos diferentes significados que pode expressar) como, por exemplo, os diferentes significados que idiomaticamente 
podem ser expressos pelo significante ponto (ponto para a geometria, para a linguagem escolar, para o teatro, para a costureira, para o funcionrio, etc.) 100, dos campos 
associativos (estudam as associaes de um signo com outros signos estabelecidos por similitude ou por contiguidade, tanto dos significantes quanto dos significados, associaes 
motivadas por ideias, crenas e atitudes relativas s coisas (como boi associado no s a vaca, touro, bezerro, chifre, mas tambm a trabalho, fora, vigor, pacincia, mansido). 
So configuraes associativas, como diz Coseriu, que tm interesse para a psicolingustica, para a lingustica do falar e para a do texto, mas no constituem objeto da descrio 
estrutural das lnguas [ECs.1, 165].

A lexemtica e as palavras lexemticas

A lexemtica e as palavras lexemticas  Se cabe  lexemtica o estudo das relaes de significao, s lhe interessam, em princpio, as palavras lexemticas, que manifestam 
a configurao semntica do lxico.

Por isso esto fora da considerao da lexemtica as palavras que constituem equivalncias de oraes(interjeies, partculas de afirmao e de negao, como sim, no), 
as palavras morfemticas (artigos, preposies, conjunes) e as palavras categoremticas (diticos ou pronomes, como eu, meu, agora, aqui), bem como os nomes prprios e os 
numerais, porque no so estruturveis, embora participem da maioria dos fenmenos lxicos (como a modificao, o desenvolvimento, a composio) [ECs.2, 88].

Estruturas paradigmticas

Estruturas paradigmticas  As estruturas lexemticas que podem ser identificadas no lxico ou so paradigmticas ou sintagmticas.

Chamam-se estruturas paradigmticas no lxico as estruturas constitudas por unidades lxicas que se encontram em oposio no eixo da seleo. Assim, bom-mau, casa  casinha, 
morrer  mortal so oposies que manifestam estruturas paradigmticas.

Diz-se estrutura primria se seus termos se implicam reciprocamente, sem que um deles seja primrio em relao aos outros; jovem implica velho e velho implica jovem, 
mas nenhum deles  primrio em relao ao outro.

Diz-se estrutura secundria se a implicao entre seus termos  de direo nica. Assim casa - casinha, morrer - mortal, trabalhar - trabalhador so estruturas 
secundrias, porque o primeiro termo de cada par est implicado pelo segundo, mas no o inverso, pois a definio do contedo casa  independente do contedo casinha, 
mas a definio do contedo casinha inclui necessariamente o contedo casa.

Os dois tipos de estruturas primrias

Os dois tipos de estruturas primrias  H dois tipos de estruturas paradigmticas primrias: o campo lxico e a classe lxica.

Um campo lxico  uma estrutura paradigmtica constituda por unidades lxicas que se repartem numa zona de significao comum e que se encontram em oposio imediata umas 
com as outras.

Por exemplo, podemos preencher a lacuna em:

Estive trs    ___________   em Fortaleza;

selecionando um dos seguintes lexemas do paradigma: segundo, minuto, hora, dia, semana, ms, ano, etc., ficando excludos termos como: rvore, casa, rio, cadeira, etc.

Em O muro  verde, verde exclui imediatamente azul, branco, cinza, etc., que pertencem ao mesmo campo lxico (o das cores), mas no termos como muito, pouco, bastante, menos, 
etc., que pertencem a outros campos.

Cada unidade de contedo lxico expresso no sistema lingustico  um lexema. Nos exemplos acima, segundo, minuto, hora, etc. so lexemas.

Uma unidade cujo contedo  idntico ao contedo comum de duas ou mais unidades de um campo  um arquilexema. Os traos distintivos que caracterizam os lexemas chamam-se semas, 
como emprega o linguista B. Pottier.

Tomemos, para simples exemplo, o campo lexical de assento, estudado pelo citado Pottier, em que assento  o arquilexema desse campo, que tem como lexemas, em portugus, 
entre outros que deixaremos de lado: cadeira, poltrona, sof, canap, banco e div [BP.1; MV.1, 80-81].

Como traos distintivos dos lexemas, proporemos os seguintes semas:

s1: objeto construdo para a gente se sentar

s2: com encosto

s3: para uma pessoa

s4: com braos

s5: com ps

s6: feito de material rijo

Levando-se em conta que a presena do sema ser indicado por + e, sua ausncia por  , teremos:

s1

s2

s3

s4

s5

s6

banco

+







+

+

cadeira

+

+

+



+

+

poltrona

+

+

+

+

+



sof

+

+



+

+



div

+



+



+



canap

+

+



+

+

+

Pelo exposto, v-se que no basta dizer, por exemplo, que banco  um objeto construdo para a gente se sentar, pois tal definio se aplicaria indistintamente a todos os 
lexemas includos no campo lxico. Com base nos semas, isto , nos traos distintivos que separam os lexemas arrolados no exemplo, diremos que banco  um objeto construdo 
para a gente se sentar, com material rijo (madeira, ferro, cimento), dotado de ps.

Se se tratasse de cadeira, definiramos objeto construdo para a gente se sentar, com encosto, para uma pessoa, dotado de ps e feito de material rijo.

Um lexema pode funcionar em vrios campos;  o caso do adjetivo fresco que funciona no campo dos adjetivos como novo, velho, etc. (cf. queijo fresco, fruta fresca), ou no 
campo dos adjetivos frio, quente, morno, etc. (manh fresca, brisa fresca).

Sobre neutralizaes e sincretismos no lxico.

Classe lxica

Classe lxica  Chama-se classe lxica a uma classe de lexemas determinados por um classema. Classema  um trao distintivo comum que define uma classe, independentemente 
dos campos lxicos. Assim, jovem, inteligente, gago pertencem a campos lxicos distintos, mas podem estar includos na mesma classe pelo classema ser humano, j que podemos 
dizer de uma pessoa que ela  jovem, ou inteligente ou, finalmente, gago [MV.1, 1979, 70 e ECs.2, 176].

Para os substantivos, podem-se estabelecer, por exemplo, classes como: seres vivos, coisas e, dentro da classe seres vivos, por exemplo, seres humanos, seres no 
humanos, etc.

Para os adjetivos, pode haver classes como positivo, negativo que justificam coordenaes aditivas do tipo bom e inteligente, ou coordenaes adversativas do tipo bom 
mas brigo.

Para os verbos podem-se tambm constituir vrias classes, como as j conhecidas transitivo e intransitivo (com possibilidades de subtipos, como transitivos que no admitem 
voz passiva e transitivos que a admitem), ou ainda, com base no classema direo (em relao ao agente da ao), os verbos adlativos, isto , em direo de aproximao 
do agente (do tipo de comprar, ganhar, receber, recolher, etc.) e os ablativos, isto , em direo de afastamento do agente (do tipo de vender, dar, entregar, soltar, devolver, 
etc.).

H lexemas que se apresentam na interseco de duas classes quanto ao seu significante, mostrando-se insensvel  diferena classemtica, cujo significado em uso s se pode 
depreender no contexto.

 o que ocorre com substantivos como hspede (aquele que d ou recebe hospedagem), com verbos como alugar (aquele que d ou recebe de aluguel), em oraes do tipo: Enildo 
 meu hspede; Zlia alugou o apartamento.

Entram neste rol palavras como saudoso (que sente ou causa saudade), temeroso (que sente ou causa temor), arrendar (que d ou toma de renda), esmolar (que d ou pede 
esmola) [MBa.3, 290 e MBa.5, 151].

 o caso tambm de substantivos e adjetivos que podem ser tomados  boa e  m parte, como sucesso, fortuna (= destino), xito, ventura, e que foram depois especializados 
no bom sentido; quando se empregam hoje diferentemente, requerem um adjetivo da classe negativo: mau sucesso, triste fortuna, mau xito, pobre ventura, etc. [MBa.3, 282].

s vezes, a lngua desfaz a duplicidade de contedo com o recurso a novas palavras; assim hspede se especializa ou pode-se especializar em aquele que recebe a hospedagem, 
e se cria a palavra hospedeiro para o que d hospedagem. Outras vezes, com a especializao da classe, como ocorre com hspede (especializado modernamente para aquele que 
recebe hospedagem), o que no ocorre, entretanto, com o verbo hospedar (= dar ou receber hospedagem; neste ltimo significado, aparece como pronominal: Eu me hospedei num 
hotel barato).

Estruturas secundrias

Estruturas secundrias  As estruturas paradigmticas secundrias correspondem ao domnio da formao de palavras e podem manifestar-se por estruturas de modificao, de desenvolvimento 
e de composio, que implicam sempre a transformao irreversvel de um termo primrio existente como lexema de contedo (significado) e de expresso (significante) na lngua. 
Consumada a transformao, o termo  agora secundrio  pode receber determinaes gramaticais explcitas prprias dos termos primrios, como a pluralizao: casa  casas; 
casa  casinha  casinhas.

Dada a extenso que merece o estudo dos trs tipos de estruturas secundrias, trataremos dele na parte mais adiante em que se estudam os procedimentos de formao de palavras 
do ponto de vista das relaes de significao.

Estruturas sintagmticas: as solidariedades

Estruturas sintagmticas: as solidariedades  As estruturas sintagmticas so solidariedades, isto , relao entre dois lexemas pertencentes a campos diferentes dos quais 
um est compreendido, em parte ou totalmente, no outro, como trao distintivo (sema), que limita sua combinao.

Distinguem-se trs tipos de solidariedade: afinidade, seleo e implicao.

Na afinidade, o classema do primeiro lexema funciona como trao distintivo no segundo. Assim, p e pata tm como traos distintivos ao contedo membro de sustentao do corpo 
a classe pessoa (p: membro de sustentao de pessoa) e animal (pata: p de animal). O mesmo com grvida e prenhe; os traos distintivos do contedo fecundao so 
a classe pessoa (grvida: fecundada em relao a pessoas), e animal (prenhe: fecundada em relao a animal) [ECs.2, 141; MV.1, 77].

Na seleo,  o arquilexema do primeiro lexema que funciona como trao distintivo no segundo. Os lexemas pelo e pena, quanto ao contedo sistema piloso incluem como trao 
distintivo o arquilexema mamfero e ave: pelo (sistema piloso dito de mamferos) e pena (sistema piloso dito de aves).

Na implicao  todo o primeiro lexema que funciona como trao distintivo no segundo. Por exemplo, a cor baio tem como trao distintivo o lexema cavalo, pois baio s se 
diz dos cavalos. Outro bom exemplo de implicao so as chamadas vozes dos animais, pois os lexemas relinchar, mugir, zurrar, balir, grunhir, ladrar, miar, cacarejar, regougar 
so o grito relativo, respectivamente, a cavalo, vaca, burro, cabra, porco, co, gato, galinha, raposa.

 preciso distinguir as solidariedades semnticas vistas aqui, propriamente lingusticas, dos clichs lxicos, ou sintagmas estereotipados e das solidariedades frequentes, 
determinadas pelo nosso conhecimento das coisas; assim, branco aplicado s gaivotas no  exemplo de solidariedade semntica, porque a combinao no  um fato de lngua, 
mas apenas assinala a frequncia de gaivotas brancas na realidade extralingustica, sem que se despreze a possibilidade de gaivotas de outra cor. Pelo contrrio, em cavalo 
alazo temos um fato de lngua, porque alazo implica o trao distintivo prprio do cavalo, razo por que no discurso se pode usar s de alazo, sem que seja necessrio 
explicitar o lexema cavalo. Esta operao no se estende a branco em relao a gaivota.

4  Formao de Palavras
 do Ponto de Vista do Contedo

J vimos na lio de Benveniste que o problema de procedimentos de formao de palavras ultrapassa os limites da morfologia, em que, tradicionalmente, parece enquadrada, na 
tradio lingustica.

Por outro lado, como assinala Coseriu 101, um estudo coerente da formao das palavras que se atenha estrita e exclusivamente ao ponto de vista da expresso  como o vimos 
at aqui   possvel; mas para o aspecto funcional e, portanto, para a compreenso e descrio de uma lngua, tal estudo  pouco proveitoso, j que os procedimentos materiais 
(prefixao, sufixao, etc.) e os funcionais no guardam entre si nenhum paralelismo, uma vez que procedimentos materiais diferentes podem corresponder ao mesmo tipo funcional 
e vice-versa. A no considerao do aspecto de significado  a causa de muita discusso e incertezas em incluir no domnio da formao de palavras as combinaes casuais do 
tipo um salve-se quem puder, bom dia, manu tenere > manter, que no constituem propriamente procedimentos da formao de palavras, entre outros casos.

Ainda com apoio na lio de Coseriu, um estudo de formao de palavras do ponto de vista do contedo, isto , fundado no significado, est mais ajustado a seu objeto. Partindo 
deste ponto de vista, a formao de palavras corresponde a uma particular gramaticalizao do lxico primrio. Tomemos a este linguista o seguinte exemplo para mostrar que 
as relaes, digamos assim, gramaticais, que se do nos produtos da formao de palavras so consequncias das equivalncias semnticas entre esses produtos e as construes 
que lhes correspondem do ponto de vista do contedo. Em beldade como equivalente a o fato de ser belo/bela, o termo fato no  a palavra fato da linguagem primria e que 
em seguida seria determinada por ser belo / bela, mas sim um nome para a substantivao efetuada nesta formao; do mesmo modo, ser  nome da predicatividade de ser, 
isto , da predicao atribuda, e belo / bela  nome da unidade de belo(s) + bela(s) na linguagem primria, ou seja, um belo sem gnero e sem nmero. Em outros termos, 
seria o mesmo que dizer, abstratamente, acerca de nossa frmula: belo(s) / bela(s) gramaticalizado por predicao atributiva e com posterior substantivao. Isto significa 
que os produtos de formao de palavras dizem sempre mais do que suas respectivas bases lxicas.

Por tudo isto, conclui Coseriu que a formao de palavras  um domnio autnomo das lnguas, que abarca fatos paragramaticais e fatos puramente lxicos, e seu estudo  um 
ramo autnomo da semntica funcional, que deve comear pelas funes paragramaticais dos procedimentos de formao e chegar at as fixaes na designao.

Dissemos paragramaticais porque, na realidade, a formao de palavras encerra uma gramtica do lxico, mas essa gramtica no deve ser confundida com a gramtica que conhecemos, 
j que, na formao de palavras, estamos diante de funes gramaticais distintas daquelas que ocorrem na morfossintaxe. Por isso, no falamos aqui em funes gramaticais e 
sim em funes paragramaticais. Uns exemplos podem esclarecer o que dizemos: a formao de coletivos (arvoredo, laranjal, casario, etc.) implica, por certo, uma pluralizao, 
mas aqui no se trata de um simples plural, (rvores), sim de uma pluralizao que se d e se considera como unidade.

Assim tambm, chegada implica um verbo predicativo mas no implica nem modo, nem tempo, nem nmero, nem pessoa; beleza implica um nome predicativo, mas no implica nem nmero 
nem gnero.  exatamente por isso, continua Coseriu a sua lio, que tais formaes no remontam a oraes concretas como Joo chega e Maria  bela (ou Joo  belo), mas to 
somente a uma funo predicativa genrica de chegar e belo(s), bela(s).

Assim tambm em papeleira est implicada uma funo preposicional, mas no uma determinada preposio (p.ex. parapapis), e despertador implica um elemento pronominal 
genrico algum ou algo que, de outro modo, no tem realizao em portugus. 102

Os trs tipos fundamentais de formao de palavras

Os trs tipos fundamentais de formao de palavras  Do ponto de vista do contedo podem-se distinguir trs tipos (ou quatro se considerarmos a composio como dois) fundamentais 
de formao de palavras, consoante dois critrios que se entrecruzam e dizem respeito  determinao gramatical do termo primrio:

a) a gramaticalizao implcita afeta um s elemento ou os dois na base da formao;

b) a gramaticalizao corresponde a uma funo inatual (i. , no semelhante a uma funo oracional) ou a uma funo atual (i. , semelhante a uma funo oracional).

Pelo primeiro critrio, teremos, de um lado, a modificao e o desenvolvimento (em que a gramaticalizao afeta um s termo) e do outro a composio.

Pelo segundo critrio, a funo gramatical implicada na modificao  inatual (do tipo do gnero ou do nmero), enquanto no desenvolvimento a funo implicada  atual 
(do tipo das funes sujeito, predicado, complemento verbal). Na composio, a funo pode ser inatual ou atual (por exemplo, em portugus alvinegro e leitor).

Na modificao, a categoria verbal dos produtos  sempre a mesma das respectivas bases, isto , os substantivos produzem substantivos, os adjetivos adjetivos e assim por diante, 
porque a funo gramatical implicada  inatual, isto , funo que afeta os lexemas modificando-os enquanto tais (e no como membros de orao ou de sintagmas). Trata-se 
das formaes diminutivas, dos coletivos, dos verbos formados com prefixos:

cavalo  cavalinho, forte  forto, beijar  beijocar, ver  prever

No desenvolvimento  que sempre parte de lexemas com funes de membros de orao ou de sintagma  a categoria verbal dos produtos formados  distinta da categoria da base 
correspondente, vale dizer, o desenvolvimento implica sempre mudana da categoria verbal do termo primrio desenvolvido, isto , substantivo produz adjetivo, substantivo produz 
verbo, adjetivo produz substantivo, etc., advertindo-se, na oportunidade, que pode ainda tratar-se de base no realizada como tal na norma da lngua. Em:

prefeito  [verbo]  prefeitvel,

no existe na norma do portugus o verbo *prefeitar, implicado no desenvolvimento citado.

Exemplos de desenvolvimentos so tambm terra  terreno, cu  celeste; roda  rodar, voo  voar; til  utilidade; rico  riqueza.

Tais formaes devem ser explicadas desta maneira: belo + funo predicativa  beleza (o fato de ser belo); chegar + funo predicativa  chegada (o fato de chegar); branco 
+ funo de epteto  o branco; em barco + funo predicativa  embarcar; com o martelo + funo predicativa  martelar.

A composio implica sempre a presena de dois elementos bsicos unidos por uma relao gramatical, quase sempre por uma relao de reco. Pode ser de dois tipos:

a) prolexemtica: se um dos dois elementos da base  um prolexema, isto , um elemento de natureza pronominal, no identificvel com um lexema existente na lngua,103 como 
ocorre em elemento substantivo-pronominal [do tipo algum ou algo] + ler  leitor; o mesmo elemento + despertar  despertador. Em lugar desse tipo genrico algum ou 
algo, pode ser um arquilexema de ordem muito geral [por exemplo, agente + ler  leitor] ou tambm um arquilexema (ou um lexema) de um campo particular [por exemplo, rvore, 
comerciante: rvore + limo  limoeiro; comerciante + leite  leiteiro].

b) lexemtica: em que os dois elementos implicados so lexemas e a categoria verbal dos compostos  sempre a dos elementos determinados na composio; so exemplos de compostos 
lexemticos: tira-teima, guarda-chuva.

O primeiro tipo corresponde ao que tradicionalmente se chama derivao (como podemos ver, tal denominao tambm abarca o processo de modificao e desenvolvimento agora 
expostos); o segundo tipo corresponde ao que tradicionalmente se chama composio, com exceo da prefixao verbal, a qual, nesta nova concepo de processos de formao 
de palavras entra como um tipo de modificao.

Combinaes dos procedimentos formativos

Combinaes dos procedimentos formativos  Os procedimentos de formao de palavras podem combinar-se uma ou mais vezes, sendo decisiva a ordem das combinaes para o significado 
do produto final, no se perdendo de vista o fato de que nessa sequncia podem ocorrer combinaes prvias cujos produtos no se realizam como fatos autnomos na norma da 
lngua, como j aconteceu com o implicado prefeitar (< prefeito) no desenvolvimento prefeitvel; guarda-sol  uma combinao de composio prolexemtica e lexemtica: composio 
prolexemtica guardar  guarda [equivalente a guardador, o que guarda, com morfema zero] e uma composio lexemtica, o composto guarda-sol. Deste podemos ter um novo composto 
prolexemtico: elemento substantivo-pronominal do tipo algum [ou, como tambm vimos, o lexema comerciante; fabricante] + guarda-sol  guarda-soleiro comerciante ou 
fabricante de guarda-sol.

O termo desembarcar resulta da combinao do desenvolvimento em + barco ( embarcar) e modificao ( des-embarcar).

Um termo formado por desenvolvimento pode dar origem a nova forma desenvolvida (produto de desenvolvimento), e pode assim estender-se por uma srie, perfeitamente identificveis 
como constituintes imediatos, quando h paralelismo entre a expresso e o contedo:

rico  enriquecer  enriquecimento

nao  nacional  nacionalizar  nacionalizao

Est neste rol de combinao dos tipos fundamentais de formao de palavras o discutidssimo tipo de compostos como tira-teima, guarda-roupa em que entra um tema verbal puro 
seguido em geral de substantivo, mas no necessariamente, pois pode aparecer outra classe, como um advrbio (ganha-pouco, pisa-mansinho), um numeral (mata-sete). Quanto  
funo oracional implcita nesse segundo elemento, temos em geral um objeto direto, mas podemos ter um predicativo (espanta-coi), um circunstancial (pisa-mansinho, ganha-pouco, 
saltinvo).

H tambm particularidades formais na constituio desses compostos: na fase da composio lexemticas o composto prolexemtico se reduz pela supresso de possveis sufixos, 
ou pelas preposies que normalmente seriam empregadas na construo de um composto prolexemtico substantivo com outro substantivo; d-se a supresso regularmente quando 
o segundo elemento corresponde a uma funo oracional com a qual o verbo implicado na composio prolexemtica se constri sem preposio, do tipo de girassol, que se parafraseia 
aproximadamente com algo que gira na direo do sol. Em outros casos, como vimos em saltinvo, mantm-se a preposio.

Entendem-se tais compostos como alguma coisa que tira teima, algum ou alguma coisa que guarda roupa, isto , parfrases de uma composio prolexemtica como tirador (ou 
tiradora), guardador (guardadora), a que se acrescentam o lexema teima ou roupa. Trata-se, portanto, da combinao de uma composio prolexemtica com uma composio lexemtica 
(tirador, tiradora) + teima  tira-teima.

Em face desta anlise semntica, chega-se  concluso de que o chamado elemento verbal deste tipo de composio no  nem um imperativo nem nenhuma outra forma verbal conjugada; 
trata-se de uma derivao regressiva, que, do ponto de vista funcional,  um substantivo ou, ento, semanticamente, um particpio substantivado. Este particpio pode ser 
um particpio ativo transitivo (como em guarda-roupa), um particpio causativo (como em passatempo: qualquer coisa que faz passar o tempo).

Esta anlise  confirmada pelo fato de, quando no h na lngua um composto deste tipo, se utilizarem compostos prolexemticos em construo preposicional com um segundo elemento: 
medidor de gs, espalhador de cera, prendedor de gravata, etc.

Subtipos dos procedimentos de formao de palavra

Subtipos dos procedimentos de formao de palavra  Dentro dos procedimentos vistos at aqui podem ocorrer subtipos, de acordo com os subtipos de funes paragramaticais 
implicadas.

Assim, na modificao podemos ter, entre outros:

a) uma mudana do gnero natural (sexo): rei  rainha; galo  galinha;

b) uma quantificao: 1) para diminutivos (carro  carrinho; doente  doentinho; beber  bebericar); com a variante apreciao aproximativa (velho  velhusco; 2) para aumentativos 
(casa  casaro; grande  grandalho); 3) para coletivos (casa  casario); 4) para intensificao (feio  feinho);

c) repetio: fazer  refazer;

d) negao: leal  desleal; til  intil.

No desenvolvimento podemos ter, segundo a funo oracional implcita de sua base:

a) predicao: chegar  chegada; belo  beleza;

b) atributivo: de inverno (pertencente ao inverno)  invernal.

Generalizao do significado no desenvolvimento

Generalizao do significado no desenvolvimento  O desenvolvimento implica, em cada fase de produo, uma desconcentrao ou generalizao do significado da base. Assim, 
de inverno significa pertencente ao inverno (cf. jogos de inverno); j o termo desenvolvido invernal significa tanto pertencente ao inverno quanto semelhante ao que pertence 
ao inverno (cf. jogos invernais). Trata-se de um valor nico de lngua, que se amplia quando comparado com a base do desenvolvimento.

Homofonias em desenvolvimento

Homofonias em desenvolvimento  Desenvolvimentos formados de bases diferentes podem resultar homofonias totalmente distintas das homofonias casuais dos termos simples ou primrios. 
Assim, em portugus existem duas sries homfonas mortal-mortalidade; a primeira desenvolvida a partir do contedo morrer (o homem  mortal  a mortalidade do homem), 
e a segunda a partir do contedo matar (o golpe, o remdio foi mortal  a mortalidade do golpe, do remdio). Mortandade  variante de mortalidade, e s se aplica ao 
contedo de morrer ( = grande nmero de mortes por pestes, em batalha).

Cabe ainda observar que, j que o desenvolvimento implica sempre um emprego determinado do termo primrio ou de base, pode haver desenvolvimentos diferentes, conforme o significado 
implicado nesse termo e nos elementos formativos:

terra  terrestre, terreal, terral, terreiro, terreno.

esperar  espera (de esperar aguardar) e esperana (de esperar confiar).

5  Alteraes Semnticas

A semntica estrutural diacrnica  o estudo funcional das mudanas semnticas no lxico.  uma disciplina ainda muito recente, e dada a natureza desta gramtica dela no 
nos ocuparemos aqui. Nosso intento  to somente chamar a ateno para alteraes semnticas no lxico. Como disse muito bem Pagliaro Tambm as palavras so uma espcie de 
conchas, s quais temos de encostar o ouvido com humilde ateno, se quisermos apreender a voz que dentro delas ressoa [APg.1, 210].

No decorrer de sua histria nem sempre a palavra guarda seu significado etimolgico, isto , originrio. Por motivos variadssimos, ultrapassa os limites de sua primitiva 
esfera semntica e assume valores novos.

A lngua  disse Moritz Regula , expresso consciente de impresses exteriores e interiores, est sujeita a uma perptua transformao. As palavras mudam de significado 
ou porque as coisas se modificam ou porque a constelao psquica sob cuja influncia nasce o sentido do objeto, se altera graas a causas diversas [MR.1, 26].

A significao das palavras est intimamente relacionada com o mundo das ideias e dos sentimentos; entre as ideias, entre os pensamentos no h separao absoluta por isso 
que as associaes se estabelecem, sem cessar, de uns para outros. Vendo uma substncia ou um objeto muito achatado, muito delgado e pouco resistente, por exemplo de estanho 
ou de ouro finamente laminado, algum foi levado a compar-lo a uma folha de rvore; pde-se assim dizer com propriedade e clareza: uma folha de estanho, de ouro, de papel, 
etc. Outra associao, posterior  precedente, deu  palavra folha o significado bem elstico de jornal: uma folha diria.  que se imprimem as notcias de cada dia em folhas 
de papel. A palavra corao serviu para exprimir tanto a parte interior de um legume ou fruta: corao da melancia, ou a essncia de um assunto: est no corao da questo, 
como ainda os sentimentos cuja sede parece estar no fundo de nosso ser: este homem no tem corao, etc. Todas as associaes deste gnero do origem ao que se chama, em literatura, 
imagem; as imagens da linguagem corrente no diferem muito, pela sua natureza, das que brotam da imaginao dos poetas e dos escritores em geral [AGr.1, 93-94  com leves 
adaptaes para o portugus].

Entre as causas que motivam a mudana de significao das palavras, as principais so:

a) Metfora  translao de significado motivada pelo emprego em solidariedades, em que os termos implicados pertencem a classes diferentes mas pela combinao se percebem 
tambm como assimilados:

cabelos de neve, pesar as razes, negros pressentimentos, doces sonhos, passos religiosos [AR.1, 17  nos queria ressaltar a religiosidade de sua personagem], boca do estmago, 
dentes do garfo, costas da cadeira, braos do sof, ps da mesa, gastar rios de dinheiro, vale de lgrimas, o sol da liberdade, os dias correm, a noite caiu.

Observao: Assim, a metfora no resulta  como tradicionalmente se diz  de uma comparao abreviada; ao contrrio, a comparao  que  uma metfora explicitada. Importa, 
outrossim, distinguir a metfora lingustica (linguisticamente motivada pelo descompasso dos termos implicados nas solidariedades) da metfora motivada extralinguisticamente 
pelo nosso saber sobre as coisas, como ocorre em expresses metafricas do tipo de no ponha a carroa diante dos bois para expressar a inverso incorreta de uma ao ou de 
um juzo. As metforas tm largo emprego na lngua espontnea e na literria, e nesta teve grande difuso entre os poetas simbolistas. Cf. [ECs.1, 291], [ECs.2, 207], [ECs.3, 
293 n. 22] e [HM.1, 109]: A literatura moderna tem uma preferncia para a metfora oposta  comparao explcita.  a fuso imediata do mundo pessoal e do objetivo, do espiritual 
e do concreto, que levam a uma identificao direta, sem elos de ligao que intermedeiem a passagem dum plano para outro.

b) Metonmia  translao de significado pela proximidade de ideias:

1  causa pelo efeito ou vice-versa ou o produtor pelo objeto produzido:

um Rafael (por um quadro de Rafael), as plidas doenas (por doenas que produzem palidez), ganhar a vida (por meios que permitam viver), ler Machado de Assis (i., um livro 
escrito por M. de Assis).

2  o tempo ou o lugar pelos seres que se acham no tempo ou lugar:

a posteridade (i., as pessoas do futuro), a nao (i., os componentes da nao).

3  o continente pelo contedo ou vice-versa:

passe-me a farinha (i., a farinheira), comi dois pratos (i., a poro da comida que dois pratos continham).

4  o todo pela parte ou vice-versa:

diz a Escritura (i., um versculo da Escritura), encontrar um teto amigo (i., uma casa).

5  a matria pelo objeto:

um nquel (i., moeda de nquel), uma prata (i., moeda de prata)

6  o lugar pelo produto ou caractersticas ou vice-versa:

jrsei (= tecido da cidade Jersey), gaza (= tecido da cidade de Gaza), havana (= charutos da cidade de Havana); greve (as reunies feitas na Place de la Grve).

7  o abstrato pelo concreto:

A virtude vence o crime (isto , as pessoas virtuosas vencem os criminosos); praticar a caridade (= atos de caridade).

8  o sinal pela coisa significada ou vice-versa:

o trono (= o rei), o rei (= a realeza)

c) Catacrese  translao do significado por esquecimento do significado original:

panaceia universal (panaceia remdio para todos os males j tem no elemento pan- a ideia de universalidade, generalidade), etimologia verdadeira, abismo sem fundo, anedota 
indita, correta ortografia, bela caligrafia, caldo quente, homicida do vizinho, hecatombe de almas, embarcar no trem, calar as luvas. [MBa.3, 311-317]

Produtos correntes da translao de significado, as catacreses so fatos normais que s devem ser evitados quando a noo primitiva ainda estiver patente para o falante.

d) Braquilogia ou abreviao  as diversas acepes de uma palavra devidas  elipse do determinante ou vice-versa:

dou-lhe a minha palavra (i., palavra de honra), vamos  cidade (i., ao centro da cidade), um possesso (i., pessoa possuda do demnio), aproveitar a ocasio (= a boa ocasio), 
a festa da Ascenso (= da Ascenso de Jesus Cristo).

e) Eufemismo  translao de sentido pela suavizao da ideia:

1  para a morte:

finar-se, falecer, entregar a alma a Deus, dar o ltimo suspiro (literrios), passar desta a melhor, ir para a cidade dos ps juntos, dizer adeus ao mundo, esticar as canelas, 
desocupar o beco, bater as botas, etc. (estes populares).

2  para a bebida:

abrideira, gua que gato (passarinho) no bebe, januria.

O tabu lingustico pode favorecer o aparecimento de expresses eufemsticas. O medo de proferir palavras como diabo, demnio, satans nos leva a usar desfiguraes voluntrias 
como diacho, diogo, demo, sat. [MG.1, 76 e ss.]

f) Alteraes semnticas por influncia de um fato de civilizao:

tonto (= louco) particpio do verbo tondere, por tonso, lembra-nos o tempo em que se rapava a cabea aos loucos.104

pago (= indivduo que no foi batizado) se prende  poca inicial do Cristianismo, pois a Igreja fez uso especial do termo que tinha curso na linguagem militar: paganus, 
o civil, em oposio ao soldado (castrensis) passou a ser o oposto a christianus [cf. EG.1, 134; RH.1, 132].

cor (saber guardar, ter de  = de memria) relembra-nos a poca em que a anatomia antiga fazia do corao a sede dos sentimentos, da inteligncia, da memria.

judiar (= zombar, atormentar) lembra-nos a poca dos tormentos praticados ou sofridos pelos judeus. A palavra judas (= homem mal trajado)  uma aplicao do nome prprio Judas 
a quem o povo atribui qualidades negativas.

calabrear (= misturar; confundir; mudar para pior; alterar vinhos): documenta a m fama em que eram tidos os calabreses, acrescida pela lenda popular de que Judas era natural 
da Calbria, no sul da Itlia. Cf. artigo de L. Spitzer, Boletim de Filologia (Lisboa), V, 3-4, pg. 376.

A maneira aristocrtica de ver as coisas  responsvel pela mudana de significado de algumas palavras:

vilo4 (sado do latim villa = quinta, aldeia), de campons passou a designar homem grosseiro, perverso, infame.

De vez em quando, surgem pessoas que querem ver expurgadas dos dicionrios certas palavras depreciativas de povo ou localidade (como judiar, baianada e outros).  excesso 
de sentimento a que a Histria no se curva, nem o povo leva em conta, porque, no uso do termo, no entra nas mincias histricas do pesquisador, nem procura, usando a palavra, 
fazer juzo especfico a respeito do povo ou da localidade.

g) Etimologia popular ou associativa

 a tendncia que o falante  culto ou inculto  revela em aproximar uma palavra a um determinado significado, com o qual verdadeiramente no se relaciona.105

s vezes a palavra recebe novo matiz semntico sem que altere sua forma. Famigerado, por exemplo, que significa clebre, notvel,106 influenciado pela ideia e semelhana 
morfolgica de faminto, passa, na linguagem popular, a este ltimo significado. Intemerato (= sem mancha, puro), graas a temer,  considerado como sinnimo de intimorato; 
inconteste (= sem testemunho) passa a sinnimo de incontestvel; falaz (= falso, enganador)  aproximado de falador.

Espcies de alterao semntica

Espcies de alterao semntica

A) Extenso do significado;

B) Enobrecimento do significado;

C) Enfraquecimento do significado.

Extenso do significado

A  Extenso do significado

prdio (= propriedade rstica ou urbana inamovvel) passou a designar qualquer edifcio sem referncia ao solo.

espraiar (= jogar algo  praia) alargou o significado como sinnimo de estender-se por larga rea.

embarcar (= entrar na barca) significa hoje entrar em qualquer conduo.

aliviar (= tornar mais leve uma carga) se diz hoje como igual a minorar, diminuir, abrandar, uma culpa, um mal, o tempo (a chuva aliviou).

1  Restrio ou especializao do significado

a) fortuna (destino bom ou mau) especializa seu sentido na direo positiva.

    sucesso (acontecimento bom ou mau) passa a exprimir s o lado bom.

    carta (= epstola) tinha em latim o sentido de qualquer livro, papel, escrito.

    britar (significava quebrar qualquer coisa) restringiu hoje o seu significado para quebrar pedras.

b) abreviao ou condensao: um havana (= charuto de Havana); o champanha (= o vinho de Champagne); um (a) jato (= avio a jato).

2  Plenitude do significado

Um milho de reais j  uma quantia;   Jos mostrou-se um homem.

Enobrecimento do significado

B  Enobrecimento do significado

emrito (aplicado ao funcionrio que se aposentava) significa hoje distinguido, ilustre.

marechal (= criado do cavalo) passou a indicar o posto mais elevado do Exrcito.

pedagogo (era o escravo que conduzia as crianas  escola); significou depois o professor ou profissional em educao.

3  Degradao do significado (Pejorativos)

vilo.

libertino (= escravo liberto) passou a indicar o indivduo devasso, sem pudor.

libidinoso (= que segue seu capricho) significa hoje o dissoluto.

valetudinrio (= de boa ou m sade ou compleio) significa hoje s  m parte

Enfraquecimento do significado

C  Enfraquecimento do significado

O emprego contnuo de uma palavra provoca a diminuio de sua energia semntica, mormente nas expresses afetivas. Bajular era levar algum s costas, o que enfatiza a ideia 
de servido que tinha a palavra no incio do seu emprego em expresses como bajular o chefe.

Pequena nomenclatura de outros aspectos semnticos

Pequena nomenclatura de outros aspectos semnticos

1) Polissemia   o fato de haver uma s forma (significante) com mais de um significado unitrio pertencentes a campos semnticos diferentes. Ou, em outras palavras, a polissemia 
 um conjunto de significados, cada um unitrio, relacionados com uma mesma forma. Portanto, no se pode ver a polissemia como significados imprecisos e indeterminados, 
porque cada um desses significados  preciso e determinado:

pregar (um sermo)  pregar (= preguear uma bainha da roupa)  pregar (um prego)

manga (de camisa ou de candeeiro)  manga (fruto)  manga (= bando, ajuntamento)  manga (parede)

cabo (cabea, extremidade, posto na hierarquia militar)  cabo (= parte de instrumento por onde esse se impunha ou utiliza: cabo da faca)

A polissemia , portanto, um fato de lngua.

 preciso no confundir a polissemia lxica ou homofonia107 com variao semntica ou polivalncia no falar (fato de fala), que consiste na diversidade de acepes (sentidos) 
de um mesmo significado da lngua segundo os valores contextuais, ou pela designao, isto , graas ao conhecimento dos estados de coisas extralingusticos:

Como lembra Coseriu, antes de optar pela homofonia, dever-se- perguntar se no se trata de variao (semntica): em todos os casos em que as homofonias ou polissemias no 
sejam evidentes (por exemplo, por se tratar de formas que pertencem a paradigmas diversos) (...), h de se buscar primeiro aquilo que caracteriza as lnguas, isto , invariantes 
de significado ou significado unitrio. E s quando se mostre absolutamente impossvel reduzir todas as acepes de uma forma a um valor unitrio de lngua, ser lcito 
admitir homofonia (...) [ECs.1, 206; AV.1, 101-102].

Nota de nomenclatura: A tradio gramatical e os linguistas divergem na conceituao de polissemia e homonmia, criada ao tempo da lingustica diacrnica. Por polissemia entende 
a tradio a propriedade da significao lingustica de abarcar toda uma gama de significaes, que se definem e precisam dentro de seu contexto [MC.4]. Exemplifica com 
a preposio a (significao gramatical) e a palavra andar (significao lexical): ir a Lisboa, andar a p, falar a Pedro; andar a largos passos, andar de automvel, andar 
doente.

2) Homonmia  J por homonmia entende a tradio: propriedade de duas ou mais formas, inteiramente distintas pela significao ou funo, terem a mesma estrutura fonolgica, 
os mesmos fonemas, dispostos na mesma ordem e subordinados ao mesmo tipo de acentuao; como exemplo: um homem so; So Jorge; so vrias as circunstncias (...)

Ela  possvel sem prejuzo da comunicao em virtude do papel do contexto na significao de uma forma, como sucede com so nos exemplos dados [MC.4, s.v.].

Dentro da homonmia, alude-se, em relao  lngua escrita, aos homfonos distinguidos por ter cada qual um grafema diferente, de acordo com o sistema ortogrfico: coser costurar; 
cozer cozinhar; expiar sofrer; espiar olhar sorrateiramente; sesso ato de assistir; cesso ato de ceder; cela quarto para enclausuramento; sela pea de arreio[MC.4, 
s.v.].

O mesmo linguista aponta o artificialismo do conceito de homgrafos, formas que se escrevem com as mesmas letras mas correspondendo elas a fonemas distintos, pois j no 
se trata evidentemente de homnimos da lngua, cuja essncia so as formas orais [MC.4, s.v.].

Todos apontam a dificuldade de nem sempre se poder distinguir a polissemia da homonmia. Tm sido propostos alguns critrios para aclarar se se trata de uma mesma palavra 
com dois ou mais significados diferentes (polissemia) ou de duas palavras distintas com idnticos fonemas (homonmia):

a) critrio histrico-etimolgico   o que fazem, em geral, os nossos dicionrios;

b) a conscincia lingustica do falante;

c) critrio das relaes associativas;

d) critrio dos campos lxicos.

Todos estes critrios esto sujeitos a crticas, como resenhou exaustivamente Geckeler [HG.1, 146-158].

Em erudito artigo, Coseriu chega, cremos,  correta interpretao da polissemia, na anlise que faz do ensinamento de Aristteles e resumo crtico desse artigo em AV.1, 92-107.

3) Sinonmia   o fato de haver mais de uma palavra com semelhante significao, podendo uma estar em lugar da outra em determinado contexto, apesar dos diferentes matizes 
de sentido ou de carga estilstica.

casa, lar, morada, residncia, manso

Um exame detido nos mostrar que a identidade dos sinnimos  muito relativa; no uso (quer literrio, quer popular), eles assumem sentidos ocasionais que no contexto um 
no pode ser empregado pelo outro sem que se quebre um pouco o matiz da expresso. Uma srie sinonmica apresenta-se-nos com pequenas gradaes semnticas quanto a diversos 
domnios: o sentido abstrato ou concreto; o valor literrio ou popular (fenecer / morrer); a maior ou menor intensidade de significao (chamar / clamar / bradar / berrar); 
o aspecto cultural (escutar/auscultar) e tantas outras.

4) Antonmia   o fato de haver palavras que entre si estabelecem uma oposio contraditria (vida; morte), contrria (chegar; partir) ou correlativa (irmo; irm) [JK.1 
apud HGe.1, 288 n.23].

J Lyons [JLy.1 apud HGe.1, 291] entende que se podem distinguir trs subconceitos do que se h de compreender por antonmia em sentido amplo:

a) complementaridade (a negao de uma implica a afirmao da outra e vice-versa: Joo no est casado implica que Joo  solteiro; Joo est casado implica que Joo no  
solteiro);

b) antonmia (opostos por excelncia: grande : pequeno);

c) correlao (comprar : vender; marido : mulher).

Quanto  sua manifestao constitucional, Mattoso cita os trs aspectos diferentes:

a) mediante palavras de radicais diferentes: bom : mau;

b) com auxlio de um prefixo negativo em palavras do mesmo radical: feliz : infeliz; legal : ilegal; poltico : apoltico;

c) palavras que tm prefixos de significao contrria: excluir : incluir; progredir : regredir; superpor : soto-pr.

s vezes, a negao serve para atenuar a orao afirmativa: Pedro no est bem : Pedro est mal.

s vezes ocorre a antonmia porque a palavra apresenta valor ativo e passivo:

5) Paronmia   o fato de haver palavras parecidas na forma e diferentes no significado:

Os parnimos do margem a frequentes erros de impropriedade lexicais:

C) Estrutura do enunciado ou perodo. A orao e a frase

1  A Orao e as Funes Oracionais

Enunciado ou perodo

Enunciado ou perodo  Toda a manifestao da linguagem com vistas  comunicao com nossos semelhantes se constri com uma sequncia de unidades delimitadas por um silncio 
que precede o incio dessa atividade e o que se lhe segue, acompanhada de contorno meldico, tambm chamado curva de entoao e normalmente marcada, na escrita, pelos sinais 
de pontuao e pelo emprego da maiscula inicial:

O galo-da-campina ergue a poupa escarlate fora do ninho.

A esta unidade lingustica que faz referncia a uma experincia comunicada e que deve ser aceita e depreendida cabalmente pelo nosso interlocutor se d o nome de enunciado 
ou perodo.

H enunciados relativamente curtos, como o do nosso exemplo, ou ainda mais curtos, como Sim ou Vou, e h os que se dilatam por muito maior extenso:

O galo-da-campina ergue a poupa escarlate fora do ninho e seu lmpido trinado anuncia a aproximao do dia.

Conforme a realidade designada, os enunciados se apresentam com formas variadas:

1.        Os homens desejam a paz.

2.        Ela no trabalha aos sbados.

3.        Muitas crianas viram os pssaros.

4.        Bebel gosta do colgio.

5.        O chefe dar oportunidades aos jovens.

6.        O sol  um astro luminoso.

7.        Chove muito no vero.

8.        Relampeja.

9.        Que achou voc da festa?

10.       Eles ainda no chegaram?!

11.       Vivam os campees!

12.       Que calor!

13.       Depressa!

Apesar de to variadas formas por que se apresentam os enunciados, h traos comuns que devem ser ressaltados [AL.1, 256]:

a) so mensagens completas e de acordo com a situao em que se acham falante e ouvinte;

b) so unidades sequenciais delimitadas por um silncio precedente a ele e uma pausa final;

c) so proferidos com um contorno meldico particular.

Esta curva de entonao  o significante ou expresso material que evoca a modalidade de inteno comunicativa do enunciado (significado ntico) que o falante quer transmitir 
ao seu interlocutor:

a) ou para lhe expor, afirmando ou negando, certos fatos (Pedro estuda. Pedro no estuda.);

b) ou para indagar sobre algo (Pedro estuda? Pedro no estuda? Quem chegou?);

c) ou para apelar-lhe, em geral, atuando sobre ele (D-me o livro. No me d o livro. Volte cedo.);

d) ou para chamar-lhe a ateno ( Pedro.);

e) ou para traduzir-lhe os prprios pontos de vista ou sentimentos (Que prazer! Como est frio!).

Assim, quanto  significao fundamental do enunciado, temos cinco tipos ou classes essenciais deles: declarativo ou enunciativo, interrogativo, imperativo-exortativo, vocativo 
e exclamativo, dos quais o primeiro corresponde  funo representativa  informativa da linguagem, os trs seguintes  funo apelativa e o ltimo  funo expressiva [HC.1, 
s. v. Frase].

Entre o primeiro e o segundo tipos h maior afinidade do que entre o primeiro e os restantes. Talvez porque o primeiro encerre o aspecto ou papel fundamental da inteno comunicativa 
da linguagem,  considerado o enunciado tpico  base do impulso inicial da especulao gramatical pela lgica grega , do qual os outros tipos so considerados derivados 
ou ao qual todos os outros tipos se podem reduzir. Por isso  que a unidade lingustica, dentro desta concepo original, recebe o nome de enunciado; na tradio gramatical 
brasileira, perodo.

Orao e frase

Orao e frase  Entre os tipos de enunciados h um conhecido pelo nome de orao que, pela sua estrutura, representa o objeto mais propcio  anlise gramatical, por melhor 
revelar as relaes que seus componentes mantm entre si, sem apelar fundamentalmente para o entorno (situao e outros elementos extralingusticos) em que se acha inserido. 
 neste tipo de enunciado chamado orao que se alicera, portanto, a gramtica, e ser especificamente dela que trataremos a seguir.

Mas antes devemos adiantar que o enunciado tambm aparece sob forma de frase, cuja estrutura interna difere da orao porque no apresenta relao predicativa. So s vezes 
simples palavras, outras vezes uma reunio delas, que so transpostas  funo do enunciado. Em nosso exemplrio anterior, constituem frases os seguintes enunciados:

Depressa!

Que calor!

Mais adiante trataremos desse tipo de enunciado com mais ateno.

A orao se caracteriza por ter uma palavra fundamental que  o verbo (ou sintagma verbal) que rene, na maioria das vezes, duas unidades significativas entre as quais se 
estabelece a relao predicativa  o sujeito e o predicado:

Sujeito         Predicado

Pedro           estuda.

Pedro           no estuda.

Comparemos agora as seguintes possibilidades:

Eu estudo portugus s segundas-feiras no horrio da manh.

Eu estudo portugus s segundas-feiras.

Eu estudo portugus.

Eu estudo.

Estudo.

Nas possibilidades acima, o nico constituinte indispensvel foi o verbo estudo, o que o faz ncleo da orao, enquanto os outros constituintes so adjacentes ao ncleo. Esta 
adjacncia no guarda a mesma relao entre os diversos constituintes da orao, pois a relao entre o sujeito eu  mais estreita com o verbo estudo que os demais. Mas a 
relao predicativa pode ser referida a um sujeito, como em Eu estudo, ou no referida, como Chove. Por isso, nem mesmo o sujeito  um constituinte imprescindvel da orao 
e, por conseguinte, da relao predicativa, embora a sua presena ao lado do verbo pessoal constitua o tipo mais frequente  diramos at a estrutura favorita  de orao 
em portugus.

Em Chove, o verbo flexionado na 3. pessoa  marca o sujeito gramatical, isto , assinalado apenas gramaticalmente, mas temos uma relao predicativa no referida, pois no 
admite sujeito explcito. Diz-se que o verbo  impessoal e a orao  sem sujeito explcito. A chamada 3. pessoa  a no pessoa,  a no eu nem meu interlocutor, e assim 
 a forma utilizada para indicar a relao predicativa no referida, isto , as oraes sem sujeito explcito.

Sujeito e predicado

Sujeito e predicado  O primeiro grupo natural corretamente identificado exerce uma funo sinttico-semntica chamada SUJEITO, e o segundo grupo exerce outra funo sinttico-semntica 
chamada PREDICADO.

Sujeito                 Predicado

Os homens          desejam a paz.

Eu                        trabalho como professor.

Muitas crianas   viram os pssaros

O bom filho         compreende o esforo dos pais

O sol                     um astro luminoso.

Conhecendo melhor o sujeito: ncleo e determinantes

Conhecendo melhor o sujeito: ncleo e determinantes 108  Chama-se sujeito  unidade ou sintagma nominal que estabelece uma relao predicativa com o ncleo verbal para constituir 
uma orao. , na realidade, uma explicitao lxica do sujeito gramatical que o ncleo verbal da orao normalmente inclui como morfema nmero-pessoal. Em:

Eu estudo no colgio e eu e dois irmos brincamos no clube,

os ncleos verbais das duas oraes estudo e brincamos incluem os morfemas o (estud-o) e mos (brinca-mos), que indicam os sujeitos gramaticais 1. pessoa do singular e 
1. pessoa do plural, respectivamente. Estes sujeitos gramaticais, quando necessrios ao melhor conhecimento da mensagem veiculada no texto, podem ser explicitados por formas 
lxicas que guardam com os sujeitos gramaticais a relao gramatical de concordncia em nmero e pessoa. Assim  que em Eu estudo, eu, pronome de 1. pessoa do singular, se 
acomoda  indicao do morfema o, indicador, nos verbos, da 1. pessoa do singular no presente do indicativo:

J em brincamos, o sujeito gramatical 1. pessoa do plural est indicado pelo morfema mos. Este sujeito inclui necessariamente a pessoa que fala (eu), mas abre um amplo 
leque de pessoas que com ela participam do processo indicado pelo lexema brincar:

Eu e meu vizinho

Eu e minha colega

Eu e os primos, etc.

Por isso, sente o falante a necessidade de explicitar, de indicar claramente a que pessoas ele quer referir-se:

Eu e dois irmos brincamos no clube.

V-se, ento, que no se pode falar, a rigor, de elipse do sujeito, quando aparece apenas o ncleo verbal da orao (Estudo, Brincamos), j que ele aparece sempre presente 
na forma verbal flexionada no morfema que representa o sujeito gramatical (1., 2. e 3. pessoas, do singular ou plural). Trata-se, pelo contrrio, da sua expanso ou no, 
mediante o sujeito explcito, fato que no est mais na exigncia da gramtica (quando h,  claro, relao predicativa referida, mas do texto, para a transmisso efetiva 
e clara da mensagem).

Sujeito  uma noo gramatical, e no semntica, isto , uma referncia  realidade designada, como ocorre com as noes de agente e paciente. Assim, o sujeito no  necessariamente 
o agente do processo designado pelo ncleo verbal, como se patenteia em:

Machado de Assis escreveu extraordinrios romances.

O sujeito pode representar o paciente desse processo:

Extraordinrios romances foram escritos por Machado de Assis.

O sujeito, quando explicitado ou claro na orao, est representado  e s pode s-lo  por uma expresso substantiva exercida por um substantivo (homem, criana, sol) ou 
pronome (eu) ou equivalente. Diz-se, portanto, que o ncleo do sujeito  um substantivo ou equivalente. Uma palavra no  substantivo porque pode exercer a funo de sujeito; 
ao contrrio, s pode ser sujeito porque  um substantivo ou equivalente.

A caracterstica fundamental do sujeito explcito  estar em consonncia com o sujeito gramatical do verbo do predicado, isto , se adapte (isto , concorde) a seu nmero, 
pessoa e gnero (neste caso quando h particpio no predicado):

Eu nasci. Ns nascemos. Elas no eram nascidas.

O reconhecimento seguinte do sujeito se faz pela sua posio normal  esquerda do predicado, bem como por responder s perguntas quem? (aplicado a seres animados), que? o 
qu? (aplicado a coisas), feitas antes do verbo.

Jos escreveu uma bela redao.

Quem escreveu uma bela redao?  Jos

O livro caiu.

Que caiu?  O livro.

Muitas vezes a expresso substantiva ncleo do sujeito  ou de qualquer funo que tem por ncleo uma expresso substantiva  se faz acompanhar de determinantes que tm por 
papel expressivo dizer algo acerca de algo com signos da lngua, isto , com instrumentos verbais da lngua. Assim, para ficarmos s nos limites do grupo natural representado 
pelo sujeito de enunciados, os determinantes dos ncleos substantivos so: os (homens), muitas (crianas), o e bom (filho), o (sol).

Determinantes, pr-determinantes e ps-determinantes

1) Determinantes, pr-determinantes e ps-determinantes

O exemplo da orao:

O bom filho compreende o esforo dos pais

nos pe diante da possibilidade de estar o ncleo substantivo que funciona como sujeito explcito acompanhado de mais de um determinante (o e bom). Nestes casos, a lngua 
portuguesa conhece determinantes que podem figurar antes de outro determinante (os pr-determinantes) e os que podem figurar depois de outro determinante (os ps-determinantes).

Os determinantes esto, em geral, representados pelas seguintes classes de palavras: adjetivo, artigo e pronome demonstrativo ou equivalentes de adjetivos (estes veremos mais 
adiante):

Noites claras prenunciam bom tempo.

O livro est esgotado.

Esta manh prometia chuva.

Na sequncia de determinantes, aparecem como pr-determinantes,  esquerda do determinante, as palavras que podem receber globalmente o nome de Quantificador (algum, certo, 
vrios, todo, todos, qualquer, alguns (de), vrios (de), etc.:

Alguns bons momentos so inesquecveis.

Todos os alunos saram.

Alguns de ns no foram  festa.

Aparecem como ps-determinantes, isto , as palavras que ocorrem  direita do determinante e do pr-determinante, o pronome possessivo e o numeral:

Os seus livros no estavam na estante.

Aqueles dois erros eram graves.

Vrios de meus sobrinhos so engenheiros.

Aqueles dois seus vizinhos trabalham no comrcio.

Antes de passarmos  descrio dos termos sintticos integrantes da orao em portugus, precisamos falar de algumas noes que se fazem necessrias a que tal tarefa se realize 
o mais adequadamente possvel. Estas noes dizem respeito a termos nucleares e marginais e termos argumentais e no argumentais, termos opcionais e no opcionais, e, finalmente, 
termos integrveis e no integrveis.

Termos nucleares e marginais

2) Termos nucleares e marginais

Numa orao como:

Graciliano falou de temas universais em seus romances,

alm de Graciliano e falou, que so ncleos do sujeito e do predicado, temos os termos de temas universais e em seus romances, que se dizem nucleares, do ponto de vista sinttico-semntico, 
porque esto intimamente referidos  relao predicativa, j que de temas universais explicita aquilo de que falam os romances de Graciliano Ramos, enquanto em seus romances 
faz aluso ao tipo de escritos nos quais o autor fala desses temas.

J em:

Certamente, Graciliano viveu experincias amargas, durante sua vida,

muitas experincias amargas e durante sua vida so nucleares, porque tambm esto intimamente ligados, pelas relaes sintticas e semnticas,  funo predicativa da orao, 
que tem por ncleo o verbo viveu. Tal no ocorre, porm, com o termo certamente, que no est referido nem somente ao sujeito nem somente ao predicado, mas a toda a orao. 
Esta independncia sinttica e semntica lhe permite deslocar-se livremente nos limites da orao:

Certamente, Graciliano viveu experincias amargas durante sua vida.

Graciliano, certamente, viveu experincias amargas, durante sua vida.

Graciliano viveu, certamente, experincias amargas durante a sua vida.

Graciliano viveu experincias amargas, certamente, durante a sua vida.

Graciliano viveu experincias amargas durante a sua vida, certamente.

Este termo certamente, verdadeiro comentrio  parte do narrador, se considera um termo marginal da frase, de que nos ocuparemos mais adiante.

Termos argumentais e no argumentais

3) Termos argumentais e no argumentais  Se os termos nucleares se referem sinttica e semanticamente  relao predicativa da orao, eles nem sempre o so no mesmo grau 
de coeso e de dependncia ou subordinao. Assim, na orao:

Graciliano conheceu experincias amargas durante sua vida,

experincias amargas e durante sua vida, j o dissemos, so termos nucleares, mas o primeiro (experincias amargas) est mais estreitamente ligado ao contedo do pensamento 
designado pelo verbo conhecer do que o termo durante sua vida. Dizemos, ento, que o termo nuclear experincias amargas  tambm um termo argumental ou  um argumento, porque 
aparece solicitado ou regido pelo significado lexical referido pelo verbo conheceu. J o termo durante sua vida no est condicionado pelas relaes sintticas e semnticas 
do mesmo verbo; por isso pode no aparecer na referida orao, sem que esta se prejudique na sua estruturao sinttico-semntica:

Graciliano conheceu experincias amargas,

o que no se daria, se eliminssemos o termo argumental experincias amargas:

* Graciliano conheceu durante sua vida.

Assim, durante sua vida  um termo no argumental. Argumental e no argumental distinguem as mesmas caractersticas sintticas e semnticas que a gramtica tradicional utiliza 
para separar os complementos ou termos regidos ou ainda integrantes dos adjuntos ou termos acessrios.

Alm da capacidade de poder ser eliminado da orao, o termo no argumental, pela sua coeso fraca e independncia sinttico-semntica em relao ao predicado, goza de maior 
liberdade de colocao na orao, marcado com pausa adequada, assinalada quase sempre por sinais de pontuao:

Graciliano conheceu experincias amargas durante sua vida.

Durante sua vida, Graciliano conheceu experincias amargas.

Graciliano conheceu, durante sua vida, experincias amargas.

Esta liberdade, j o vimos, conheceu tambm o termo marginal certamente, do exemplo anterior; s que durante sua vida  termo nuclear, e no marginal, porque est referido 
ao predicado das oraes acima. Esta liberdade se deve s caractersticas sintticas e semnticas do verbo conheceu.

 oportuno lembrar tambm que um termo argumental o  por motivao das caractersticas sintticas e semnticas da relao predicativa, e no apenas pelo contedo designado. 
Assim, uma noo de lugar como no Brasil pode funcionar como argumental ou complemento na orao (1), e como no argumental na orao (2):

(1) Ele mora no Brasil.

(2) Ele trabalha no Brasil.

Na orao (1), em condies normais, no se pode prescindir de no Brasil:

* Ele mora.

J na orao (2), o apagamento de no Brasil  perfeitamente normal:

Ele trabalha.

Termos opcionais e no opcionais

4) Termos opcionais e no opcionais   preciso no confundir termo argumental e no-argumental com termo no-opcional e opcional, respectivamente.

Muitas vezes um termo argumental, isto , condicionado pelas caractersticas sintticas e semnticas de reco ou regncia do termo regente, pode ser dispensado, apagado ou 
eliminado da orao pelo falante ou porque j foi referido anteriormente e, por isso,  facilmente subentendido pelo ouvinte, ou porque, graas ao conhecimento que temos das 
coisas e do mundo, a nossa experincia tambm facilmente entende aquilo de que estamos falando.

Assim  que no se precisa repetir o sujeito Antnio junto ao segundo verbo do grupo de oraes:

Antnio saiu cedo, mas no gostou da ideia,

que seria

Antnio saiu cedo, mas Antnio no gostou da ideia.

Tambm em razo do nosso saber sobre as coisas do mundo extralingustico  que podemos fazer o chamado emprego absoluto de vrios verbos, desacompanhados de seus argumentos 
ou complementos, implcitos na ao designada pelo verbo, mas que a nossa experincia recupera. Podemos ser entendidos e a orao fazer sentido com enunciados do tipo:

Hoje no escrevi [sabe-se que se trata de um texto qualquer]

Enchi o copo [sabe-se que se trata de um lquido, gua, suco, etc.]

No se fazem tais apagamentos se se trata de uma declarao que contrarie a nossa experincia:

Enchi o copo de areia.

Termos integrveis e no integrveis

5) Termos integrveis e no integrveis  Cabe, por fim, distinguir termos integrveis e termos no integrveis. Chamam-se integrveis aquelas funes sintticas que podem 
ser substitudas por pronome pessoal adverbal tono, tambm chamado cltico (do grego klsis inclinao) pela possibilidade de integrar-se no mesmo grupo acentual da palavra 
a que se inclina na pronunciao, na curva meldica.

No portugus, so integrveis os complementos direto e indireto, como veremos ao seu tempo. Bastem-nos estes exemplos:

Li o livro  Li-o.

Viu as crianas  Viu-as.

Dei o livro a Pedro  Dei-lhe o livro.

Escreveram carta aos primos  Escreveram-lhes cartas.

Termos argumentais podem no ser integrveis:  o que acontece com o complemento relativo. Neste caso, a expresso que substitui esta funo est representada por um sintagma 
prepositivo que repete a mesma preposio seguida dos pronomes ele, ela, eles, elas ou isso:

No pensava nos amigos / No pensava neles.

Assistimos ao jogo / Assistimos a ele.

Por outro lado, termos no argumentais podem ser integrveis, como ocorre com o chamado dativo de interesse, que estudaremos mais adiante:

No me mexam nesses papis!

Conhecendo melhor o predicado: ncleo e determinantes

Conhecendo melhor o predicado: ncleo e determinantes  J vimos que sujeito e predicado organizam a relao predicativa, relao que constitui orao favorita e normal da 
lngua portuguesa, organizao que se traduz por marcas formais, como a concordncia de nmero e pessoa, que estudaremos mais adiante.

O ncleo do predicado est constitudo por uma classe de palavra chamada verbo; assim  que as oraes ditas favoritas no dispensam o verbo, explcito, ou oculto pelas possibilidades 
da referncia discursiva.

O predicado de uma orao pode ser simples ou complexo, conforme o contedo lxico do verbo que lhe serve de ncleo. H verbos cujo contedo lxico  de grande extenso semntica; 
de modo que, se desejamos expressar determinada realidade, temos de delimitar essa extenso semntica mediante o auxlio de outros signos lxicos adequados  realidade concreta. 
Estes outros signos lxicos que nos socorrem nessa delimitao da extenso semntica do verbo, verdadeiros delimitadores semnticos verbais, se chamam argumentos ou complementos 
verbais.

Os verbos que necessitam dessa delimitao semntica recebem o nome de transitivos:

O porteiro viu o automvel.

Eles precisam de socorro.

Os verbos que apresentam significado lexical referente a realidades bem concretas no necessitam de outros signos lxicos, como fazem os que integram predicados complexos. 
Dizemos, ento, que o predicado  simples. A tradio gramatical chama intransitivos a tais verbos:

Ela no trabalha.

Jos acordou cedo.

As crianas cresceram rapidamente.

Um mesmo verbo pode ser usado transitiva ou intransitivamente, principalmente quando o processo verbal tem aplicao muito vaga:

Eles comeram mas (transitivo).

Eles no comeram (intransitivo).

Esta particularidade s  possvel quando a extenso significativa do verbo aponta para um termo geral (arquilexema) que englobe a natureza de todos os signos lxicos que 
naturalmente apareceriam  direita do verbo:

Eles bebem pouco (algo lquido: gua, refrigerante, suco, etc.).

O aluno no escreveu (um texto: bilhete, carta, orao, etc.).

E  justamente por isso que no se podem usar intransitivamente, a no ser que os entornos venham em socorro da perfeita compreenso da mensagem, predicados do tipo:

Ele ofereceu

Ns reparamos,

j que o signo lexical do complemento no pode ser preenchido por um signo lxico abrangente, um arquilexema, como ocorreu nos exemplos anteriores.

Certos verbos normalmente transitivos, quando empregados intransitivamente, podem adquirir especial matiz semntico:

Ele no v / no enxerga,  cego

J no bebe / abandonou o alcoolismo

Ainda no l /  analfabeto

Por tudo isto, conclui-se que a oposio entre transitivo e intransitivo no  absoluta, e mais pertence ao lxico do que  gramtica.

Os tipos de argumentos determinantes do predicado complexo

1) Os tipos de argumentos determinantes do predicado complexo

a) O complemento direto ou objeto direto  O predicado complexo acompanha-se de tipos diferentes de argumentos, conhecidos por complementos verbais.

O primeiro deles  o complemento direto, tambm chamado objeto direto, representado por um signo lxico de natureza substantiva (substantivo ou pronome) no introduzido por 
preposio necessria:

Os vizinhos no viram o incndio.

No encontramos os responsveis.

O pai comprou nova casa.

Constitudo, como o sujeito, por expresso substantiva no marcado por um ndice funcional (a preposio, neste caso), o complemento direto se distingue do sujeito por vir 
 direita do verbo (o sujeito vem normalmente  esquerda) e no influir na flexo deste. Assim, a troca de posio destes dois termos na orao est circunscrita aos casos 
em que dela no resulte ambiguidade ou rudo de comunicao, principalmente no texto escrito. No texto oral, so as pausas e a entonao elementos decisivos para que a orao 
respeite a inteno comunicativa do falante, sem deixar de haver tambm,  evidente, a contribuio dos entornos:

Jos viu o irmo no  a mesma coisa que O irmo viu Jos. Mas j em Jos viu os irmos e Os irmos viu Jos, a flexo do verbo no singular patenteia que o sujeito, nas duas 
oraes, s pode ser Jos.

A identificao deste tipo de complemento se faz, alm da no presena de preposio necessria, mediante as seguintes estratgias:

a) a comutao do complemento direto pelos pronomes pessoais o, a, os, as, marcados formalmente com o gnero e o nmero do termo comutado:

Os vizinhos no viram o incndio / ... no o viram

No encontramos os responsveis / ... no os encontramos

O pai comprou nova casa / ... a comprou

b) a passagem da orao na chamada voz ativa para a orao de voz passiva, mediante a qual o sujeito da ativa se transforma em agente da passiva introduzido pela preposio 
por (na combinao per), enquanto o complemento direto da ativa passa a sujeito da passiva:

Os vizinhos no viram o incndio / O incndio no foi visto pelos vizinhos.

No encontramos os responsveis / Os responsveis no foram encontrados por ns.

O pai comprou nova casa / Nova casa foi comprada pelo pai.

c) a substituio do complemento direto pelos pronomes interrogativos quem? [ que] (para pessoas) e [o] que [ que]? antes da sequncia sujeito + verbo, ou antes dos verbos 
fazer ou acontecer:

O caador viu o companheiro.

Quem  que o caador viu?  o companheiro (complemento direto)

O caador viu o lobo.

Que  que o caador viu?  o lobo (complemento direto)

d) finalmente, a transposio (topicalizao) do complemento direto para a esquerda do verbo, operao que permite a presena de um pronome pessoal objetivo no local vizinho 
ao verbo onde deveria estar o complemento direto:

Nenhuma dessas estratgias por si s  operao infalvel na identificao do complemento direto; devemos, portanto, utilizar mais de uma estratgia, porque:

a) nem todo predicado complexo de orao de voz ativa admite a passagem  orao de voz passiva; ocorre o fato com certos verbos, como os seguintes [AB.1]:

Eu quis o livro  *O livro foi querido por mim.

Cremos isso  *Isso  crido por ns.

O aluno tem o livro  *O livro  tido pelo aluno.

Os refugiados perderam tudo  *Tudo foi perdido pelos refugiados.

O atleta pesava 60 quilos  *60 quilos eram pesados pelo atleta.

b) por outro lado, certos predicados complexos delimitados por signo lxico no constitudo com complemento direto tambm admitem a transformao de orao de voz ativa em 
orao de voz passiva:

Assistimos  missa  A missa foi assistida por ns.

O proprietrio pagou aos operrios  Os operrios foram pagos pelo proprietrio.

O diretor perdoar aos alunos  Os alunos sero perdoados pelo diretor.

Os cidados obedecem  lei  A lei  obedecida pelos cidados.

Todos responderam ao anncio  O anncio foi respondido por todos.

Apelaram da sentena  A sentena foi apelada.

No aludiram a essas razes  Essas razes no foram aludidas.

c) no so naturais, embora gramaticalmente possveis, as perguntas com quem?, que? nas frases cujos predicados complexos contm verbos que significam medida, peso, preo 
e tempo:

O corredor mede cinco metros.

O atleta pesa sessenta quilos.

O novo carro custou trinta mil reais.

O filme durou trs horas.

d) tambm no so frequentes, embora gramaticalmente possveis, as pronominalizaes com os verbos da natureza semntica referida no item anterior:

O corredor mede-os.

O atleta pesa-os.

O novo carro custou-os.

O filme durou-as.

b) Objeto direto preposicionado  No raro o objeto aparece iniciado por preposio:

Amar a Deus sobre todas as coisas.

A preposio quase sempre aparece para evidenciar o contraste entre o sujeito e o complemento, no se confundindo com o caso do posvrbio, porque este repercute na significao 
do verbo. Ocorre o objeto direto preposicionado nos seguintes casos principais:

a) quando se trata de pronome oblquo tnico (uso hoje obrigatrio):

Nem ele entende a ns, nem ns a ele [LC.1, V, 28].

b) quando, principalmente nos verbos que exprimem sentimentos ou manifestaes de sentimento, se deseja encarecer a pessoa ou ser personificado a quem a ao verbal se dirige 
ou favorece:

Amar a Deus sobre todas as coisas.

Consolou aos amigos.

c) quando se deseja evitar confuso de sentido, principalmente quando ocorre:

1) inverso (o objeto direto vem antes do sujeito):

A Abel matou Caim.

2) comparao:

Isto causou estranheza e cuidados ao amorvel Sarmento, que prezava Calisto como a filho [CBr.1, 80].

Observao: Sem preposio poder-se-ia interpretar filho como sujeito: como filho preza; todavia, o uso da preposio neste caso no  gramaticalmente obrigatrio.

d) na expresso de reciprocidade: um ao outro, uns aos outros:

Conhecem-se uns aos outros.

e) com o pronome relativo quem:

Conheci a pessoa a quem admiras.

f) nas construes paralelas com pronomes oblquos (tonos ou tnicos) do tipo:

Mas engana-se contando com os falsos que nos cercam. Conheo-os, e aos leais [AH.3, 102].

g) nas construes de objeto direto pleonstico, sem que constitua norma obrigatria:

Ao ingrato, ou no o sirvo, porque (para que) me no magoe [RLb.2, 278].

c) A preposio como posvrbio  Muitas vezes aparece depois de certos verbos uma preposio que mais serve para lhes acrescentar um novo matiz de sentido do que reger o complemento 
desses mesmos verbos:

Arrancar a espada.

Arrancar da espada (acentua a ideia de uso do objeto e a retirada total da bainha ou cinta).

Cumprir o dever.

Cumprir com o dever (acentua a ideia de zelo ou boa vontade para executar algo).

Fiz que ele visse.

Fiz com que ele visse (acentua a ideia do esforo ou dedicao empregada).

A preposio que se emprega nestes casos deu-lhe o Prof. Antenor Nascentes o nome de posvrbio [AN.2, 17].

d) O complemento relativo  O predicado complexo tambm pode conter verbo cujo contedo lxico  de grande extenso semntica, que exige outro tipo de signo lxico que delimite 
e especifique a experincia comunicada,  semelhana do que vimos com o complemento direto. A diferena  que neste segundo caso o determinante do predicado complexo vem introduzido 
por preposio; a tal termo preposicionado chamamos complemento relativo [RL.1, 251]:

Todos ns gostamos de cinema.

O marido no concordou com a mulher.

Poucos assistiram ao concerto.

O comerciante no confiou no empregado.

A preposio que introduz o complemento relativo constitui uma extenso do signo lxico verbal como parece indicar o fato de que cada verbo se acompanha de sua prpria preposio, 
por servido gramatical.

A escolha de qual preposio deva introduzir este complemento relativo depende da norma estabelecida pela tradio, tradio que pode permitir, s vezes, o emprego variado 
e indiferente de mais de uma preposio:

Ela se parece ao pai                        Ela se parece com o pai.

H, todavia, certos usos gramaticalmente previsveis, como a frequente identidade do prefixo e da preposio (depender de, concorrer com, agregar a, por exemplo), ou a preferncia 
relativa da preposio de depois de verbos pronominais (arrepender-se de, queixar-se de, lembrar-se de, condoer-se de, por exemplo), o que no deixa de ser aspectos da historicidade 
da norma.

A identidade, como termos funcionais argumentais do predicado complexo, entre o complemento direto e o complemento relativo justifica a quase nula frequncia de coexistirem 
os dois termos no mesmo predicado, e nenhuma na coordenao deles:

O vizinho disse mentiras do primo.

O comerciante encheu o copo de vinho.

A jovem ps os livros na estante.

Por outro lado, essa identidade funcional explica a possibilidade de, para muitos verbos, alternar a construo do complemento direto com o complemento relativo e at a norma 
admite indiferentemente qualquer dos dois complementos:

Ajudar a missa                                        Ajudar  missa

Atender o telefone                                  Atender ao telefone

Assistir os carentes                                 Assistir aos carentes

Chamar romnicas essas lnguas           Chamar romnicas a essas lnguas

Presidir a sesso                                    Presidir  sesso

Satisfazer o pedido                                 Satisfazer ao pedido

No decurso do tempo e nas variedades lingusticas (diatpicas, diastrticas e diafsicas  muito documentada essa mudana entre o complemento direto e o complemento relativo; 
assim, j se usaram como complemento relativo (o que hoje se fixou como complemento direto) os verbos socorrer, contentar e muitos outros.

O signo lxico que representa o complemento relativo  comutvel pelos pronomes pessoais tnicos ele, ela, eles, elas, introduzidos pela respectiva preposio, marcando o 
gnero e o nmero da expresso substantiva comutada:

Todos gostam do ator. Todos gostam dele.

Os turistas assistiram  opera. Os turistas assistiram a ela.

O comerciante no confiou nos empregados. O negociante no confiou neles.

Porque delimitam a extenso semntica do signo lxico do predicado complexo, incluem-se como complemento relativo os argumentos dos verbos ditos locativos, situativos e direcionais, 
o que permite sua comutao com advrbios de equivalncia semntica:

Seus parentes moram no Rio. / Seus parentes moram aqui.

O artista j no vive em So Paulo. / O artista j no vive l.

Iremos a Petrpolis. / Iremos a (ali).

Ela chegou do Cear. / Ela chegou de l.

Observao: No h unanimidade entre os estudiosos em considerar tais argumentos do predicado complexo como complementos relativos. Levando em conta exclusivamente o aspecto 
semntico, muitos preferem considerar tais termos como adjuntos circunstanciais ou adverbiais, que estudaremos mais adiante. Pelas mesmas razes, tambm no  unnime a identificao 
como objeto direto argumentos do predicado complexo que tm por ncleo verbos que significam medida, peso, preo e tempo. A verdade  que significados gramaticais [agente, 
paciente, locativo, direo, etc.] se manifestam mediante esquemas sintticos muito variados. Repare-se que, numa orao como O policial acompanhou o idoso ao banco 
na hora do tumulto, o termo indicativo do lugar (ao banco)  inerente ao predicado, e, portanto, no pode ser dispensado, como ocorre com na hora do tumulto [E. Paiva, 71 
e ss.]

e) O complemento objeto indireto  Integrada a delimitao da amplitude semntica do predicado complexo mediante um signo lxico (complemento direto ou complemento relativo), 
pode aparecer um outro signo lxico, subsidirio desse conjunto da funo predicativa, que denota geralmente relao a um ser animado, introduzido pela preposio a e que 
se refere  pessoa destinada ou beneficiada pela experincia comunicada no primeiro momento da inteno comunicativa do predicado complexo (verbo + argumento):

Este novo argumento do predicado complexo se chama complemento ou objeto indireto [HB.1, 261] e apresenta as seguintes caractersticas formais e semnticas: a)  introduzido 
apenas pela preposio a (raramento para); b) o signo lxico denota um ser animado ou concebido como tal; c) expressa o significado gramatical beneficirio, destinatrio; 
d)  comutvel pelo pronome pessoal objetivo lhe / lhes, que leva a marca de nmero do signo lxico referido, mas no a de gnero, como ocorre no caso dos pronomes pessoais 
que comutam o signo lxico correspondente ao complemento direto (o, a, os, as) ou ao complemento relativo (prep. + ele, ela, eles, elas).

Enviaram o presente  aniversariante. / Enviaram-lhe o presente.

O diretor escreveu cartas aos pais. / O diretor escreveu-lhes cartas.

Acrescente-se ainda a possibilidade de poder esse pronome duplicar o complemento indireto na mesma orao, sem que este termo esteja obrigado a topicalizar-se, isto , a aparecer 
antecipado na orao:

Sempre lhe dei ao aluno muita ateno.

Ao aluno sempre lhe dei muita ateno.

Assim, o complemento indireto  um termo que se distancia mais da delimitao semntica do predicado complexo e parece melhor um elemento adicional da inteno comunicativa 
que fica, no esquema sinttico, a meio caminho entre os verdadeiros complementos verbais e os adjuntos circunstanciais.

Os estudiosos tm encontrado dificuldade em estabelecer um rigoroso critrio de identificao do complemento indireto, preferindo servir-se concomitantemente de critrios 
lxicos, formais e sintticos.

A integrao da relao predicativa se faz imediatamente com o complemento direto e relativo, e s mediatamente com o complemento indireto. Tanto  assim que em condies 
normais (isto , quando no se trate de evidente elipse ou de auxlio de entorno, no se pode eliminar o complemento direto ou complemento relativo, mas  possvel no anunciar 
o complemento indireto:

Vi o acidente

*Vi

Preciso do auxlio

*Preciso

mas:

Escrevi cartas aos pais

Escrevi cartas

Queixou-se da turma ao diretor

Queixou-se da turma

Embora o complemento ou objeto indireto integre o conjunto verbo + complemento direto ou complemento relativo, as circunstncias do discurso (os entornos, a referncia anterior 
ou seguinte no discurso) permitem que se omita o complemento direto ou complemento relativo, permanecendo na orao apenas o indireto, ou se pode omiti-lo, deixando apenas 
um daqueles complementos:

O diretor escreveu aos pais. O diretor escreveu cartas.

Os vizinhos se queixaram  polcia. Os vizinhos se queixaram do barulho.

f) Objeto indireto e adjuntos com para  Cabe insistir que a preposio que introduz o complemento indireto  a; muitas vezes, parece que, nesta funo, se acha a preposio 
para, j que a e para se alternam em muitos esquemas sintticos, mas no quando se trata do complemento indireto, o que s raramente acontece:

Alguns alunos compraram flores para a professora.

Se prestarmos ateno, para a professora do exemplo no introduz o termo que funcionaria como complemento indireto, e a prova disto est na possibilidade, na referida orao, 
de aparecer um complemento indireto:

Alguns alunos compraram flores ao florista para a professora.

Note-se que se ao florista e para a professora exercessem a mesma funo de complemento indireto, deveriam aparecer coordenados mediante a conjuno e, como ocorre com todos 
os termos de igual valor gramatical. No seria possvel construir a seguinte orao:

Alguns alunos compraram flores ao florista e para a professora.

Diante de uma orao como a nossa

Alguns alunos compraram flores ao florista para a professora,

a pronominalizao s pode ser comutada com o objeto indireto ao florista:

Alguns alunos compraram-lhe flores para a professora.

mas no:

*Alguns alunos compraram-lhe ao florista.

g) Construo especial com objeto indireto  Um pequeno nmero de verbos contraria o princpio geral que aqui adotamos, segundo o qual o objeto indireto integra a funo predicativa 
exercida por verbo + argumento (objeto direto ou complemento relativo).

A notcia no agradou ao povo.

A notcia no lhe agradou.

Ocorre esta construo com verbos como agradar, desagradar, pertencer, ocorrer, acontecer, saber (= sentir sabor), cheirar (= sentir o cheiro), interessar, aparecer, sorrir 
(= aparecer favoravelmente).

O imvel pertence aos herdeiros (pertence-lhes).

Esses fatos lhe aconteceram repentinamente.

Isto no lhe sabe bem.

O caf lhe cheira bem.

Apareceram-lhe uns rudos estranhos.

A sorte lhe sorriu nesta semana.

h) Os chamados dativos livres  Os objetos indiretos vistos nesta seo so argumentos sinttico-semnticos extensivos da funo predicativa do contedo comunicado nas respectivas 
oraes.

Todavia, remanescentes de construes, algumas das quais da sintaxe latina, aparecem sob forma de objeto indireto, nominal ou pronominal, alguns termos que no esto direta 
ou indiretamente ligados  esfera do predicado: so os chamados dativos livres, representados pelos seguintes tipos:

a) dativo de interesse (dativus commodi et incommodi)   aquele mediante o qual se indica de maneira secundria a quem aproveita ou prejudica a ao verbal:

Ele s trabalha para os seus.

Ele ligou-me amavelmente a luz [MV.2, 123].

Este dativo fica muito prximo da circunstncia de fim ou proveito (beneficirio).

b) dativo tico   uma variedade do anterior, muito comum da linguagem da conversao, e representa aquele pelo qual o falante tenta captar a benevolncia do seu interlocutor 
na execuo de um desejo:

No me reprovem estas ideias!

No me mexam nos papis!

Ele sempre te saiu um grande mentiroso.

No me enviem cartes a essas pessoas.

Repare-se que, neste ltimo exemplo, o verbo se acompanha de complemento direto (cartes) e indireto (a essas pessoas), enquanto o pronome me, fora da esfera da transitividade 
verbal, denuncia o meu interesse de que a tais pessoas no sejam enviados cartes.

c) dativo de posse  exprimem o possuidor:

O mdico tomou o pulso ao doente (tomou-lhe o pulso).

Doem-me as costas.

O vaso partiu-se-me [MV].

d) dativo de opinio  exprime a opinio de uma pessoa:

Para ele a vida deve ser intensamente vivida.

Para ns ela  a culpada.

A alguns destes dativos o velho e grande fillogo venezuelano Andres Bello chamava dativos suprfluos.

Isto evidencia que os pronomes adverbiais tonos, especialmente o caso do lhe como smbolo formal do objeto indireto, cobrem outras funes alm daquela de complementao 
verbal.

i) O complemento predicativo  Um grupo reduzido de verbos integra o predicado complexo acompanhado de outro tipo de argumento verbal conhecido pelo nome de complemento predicativo 
ou to somente predicativo. Estes verbos se caracterizam por uma referncia to vaga  realidade comunicada, que fazem do predicativo um argumento, pelo aspecto semntico, 
muito mais intrinsecamente relacionado com o verbo do que os demais integrantes do predicado complexo (os complementos direto, relativo e indireto) e portador de referncia 
a traos essenciais do sujeito.

Esta pequena lista de verbos inclui ser, estar, ficar, permanecer, parecer e poucos outros, que aparecem matizados semanticamente pelo signo lxico que funciona como predicativo:

O trabalho  proveitoso.

Janete  minha irm.

As alegrias eram passageiras.

O cu est azulado.

Os argumentos permaneceram incompletos.

A situao parecia resolvida.

Esses livros no so seus.

Se atentarmos para o aspecto formal, tirante o fenmeno da concordncia do predicativo com o sujeito, verificaremos que h pontos de contato entre este predicativo e o complemento 
direto: a) ambos matizam a extenso semntica do verbo, funcionando como seu delimitante; b) aparecem normal e imediatamente (sem preposio)  direita do verbo; c) so comutados 
por pronome tono, ainda que de maneira diferente, quando o verbo  ser, estar, ficar, parecer; d) e, finalmente, porque muitas das construes oracionais com predicativo 
so equivalentes na designao, isto , na referncia  realidade comunicada, so equivalentes a oraes com verbos que exprimem ao e processo, especialmente se o verbo 
est no presente: Pedro  cantor / Pedro canta; O colega est irritado / O colega irrita-se.

Tais aproximaes levaram alguns estudiosos a considerar que, em oraes do tipo, Ele  meu irmo, meu irmo poderia identificar-se com o complemento direto; outros, adotando 
a distino, insistiam em juntar essas duas como variantes funcionais duma s funo.

A primeira particularidade formal que distingue o predicativo dos demais argumentos verbais  a concordncia (quando representada por adjetivo e alguns pronomes) em gnero 
e nmero com o sujeito da orao, conforme demonstram os exemplos acima.

A segunda particularidade  a possibilidade de comutao do predicativo pelo pronome invarivel o, qualquer que seja o gnero e o nmero do ncleo do predicativo que substitui, 
quando o verbo  ser, estar, ficar e parecer:109

O trabalho  proveitoso.  O trabalho o .

As alegrias eram passageiras.  As alegrias o eram.

Janete  minha irm  Janete o .

Mas:

A professora continua doente  * A professora o continua.

A terceira particularidade  a impossibilidade de ser a orao com tais verbos construda na voz passiva, como ocorre com a que tem complemento direto.

A quarta particularidade  a incompatibilidade de aparecer com o seu representante invarivel o na mesma orao:

Filipe  simptico.   Filipe o .   *Filipe o  simptico

Vale a pena distinguir predicado verbal e predicado nominal?

2) Vale a pena distinguir predicado verbal e predicado nominal?  Tal esvaziamento do signo lxico representado por esses verbos, esvaziamento que se supre com o auxlio de 
um nome (substantivo ou adjetivo), e a particularidade de concordar o predicativo em gnero e nmero com o sujeito levaram a uma distino entre predicado verbal (Pedro canta) 
e predicado nominal (Pedro  cantor, Maria  professora), o que implicava retirar de tais verbos o status de verbo,  pois sua misso gramatical se restringiria a ligar 
(da os nomes de copulativos, de ligao ou relacionais que se lhes atribuam) o predicativo ao sujeito. A realidade comunicada residiria no nome predicativo e o verbo seria 
apenas o marcador do tempo, modo e aspecto da orao. Ora, do ponto de vista funcional e formal, tais verbos apresentam todas as condies necessrias  classe dos verbos, 
incluindo-se a os morfemas de gnero, nmero, pessoa, tempo e modo; da acompanharmos neste livro os linguistas e gramticos que defendem a no distino entre o predicado 
verbal e o predicado nominal, incluindo tambm a desnecessidade de distinguir o predicado verbo-nominal [EBv.1, cap. 13 e 16]. Toda relao predicativa que se estabelece na 
orao tem por ncleo um verbo.

Como o signo lingustico que aparece na funo de predicativo costuma ser um nome  substantivo ou adjetivo , a tradio gramatical passou a designar nominal a esse tipo 
de predicado complexo, para diferi-lo dos outros chamados verbais. Alm da sem razo dessa diferena, conforme acabamos de ver, cabe lembrar que funcionam como predicativo 
outras classes de palavras, inclusive advrbios.

Joo  meu irmo.

O sol est quente.

Os argumentos continuam os mesmos.

Ela mais parece uma Maria vai com as outras.

Os vizinhos esto bem.

Os jovens so assim.

O primo  dos nossos.

A mesa parece de madeira.

Ns somos do Norte.

As provas parecem de boas fontes.

Est tarde.

O compromisso est de p.

Ela estava que estava.

Observaes:

1.) Levada pela equivalncia do contedo do pensamento designado com oraes declarativas que tm por ncleo os verbos ser, estar ou outro adequado  inteno comunicativa, 
a tradio tem considerado que h elipse de um de tais verbos em enunciados como os seguintes, comuns em provrbios, refros, clichs do discurso repetido, isto , de frmulas 
fossilizadas da lngua ou a elas assimiladas:

Tal pai, tal filho.

Casa de ferreiro, espeto de pau.

Povo educado povo limpo.

Na realidade, trata-se de exemplos de frases de estrutura bimembre, de que falaremos mais adiante, em que no h necessidade de se apelar para elipse.

2.) Conforme j vimos, um mesmo verbo pode ser usado de maneira diferente, conforme a realidade comunicada; vejamos, por exemplo, o verbo virar:

O tempo virou (usado num predicado simples, intransitivamente).

O vento virou o barco (usado num predicado complexo, com o argumento complemento direto o barco).

O vizinho virou fera (usado num predicado complexo, com o argumento predicativo fera).

A posio do predicativo

3) A posio do predicativo  A construo bsica da orao apresenta o predicativo  direita do verbo: Meu amigo  inteligente. Mas pode apresentar uma construo derivada 
em que o predicativo se antecipa e aparece antes do sujeito. Se o predicativo  representado por adjetivo, no h dificuldade em identific-lo como tal: Inteligente  meu 
amigo, em que inteligente, apesar de colocar-se antes do sujeito meu amigo continua a exercer a funo de predicativo. Todavia, a dificuldade pode surgir, se o sujeito e o 
predicativo esto representados por dois substantivos ou um substantivo e um pronome:

O meu amigo  o padrinho. / O padrinho  o meu amigo.

Eu sou o padrinho. / O padrinho sou eu.

Joo  o padrinho. / O padrinho  Joo.

Pelo expediente da comutao podemos com facilidade assinalar a correta classificao, j que vimos que o predicativo , nesses casos, comutvel com o pronome invarivel o; 
quando no se trata do verdadeiro predicativo, a comutao no se mostra natural:

O meu amigo  o padrinho  O meu amigo o .

O padrinho  o meu amigo  *O padrinho o .

Eu sou o padrinho  Eu o sou.

O padrinho sou eu  *O padrinho o sou.

Joo  o padrinho  Joo o .

O padrinho  Joo  *O padrinho o .

 justamente pela comutao que no exemplo Seu orgulho eram os velhinhos ficamos sabendo que houve apenas inverso do predicativo: Os velhinhos o eram / *Seu orgulho o era.

Tiramos, assim, duas concluses importantes para a sintaxe:

a) Seu orgulho eram os velhinhos  uma construo derivada da construo bsica Os velhinhos eram seu orgulho;

b) em Seu orgulho eram os velhinhos o verbo concorda com seu verdadeiro sujeito (os velhinhos), e no com o predicativo (seu orgulho) [VK.1, 438].

Ainda a comutao vem pr luz a um falso problema de classificao sinttica de dez horas na orao de funo predicativa no referida (a orao no tem sujeito): So dez 
horas.

A classificao corrente  atribuir a dez horas a funo de predicativo. Como o verbo  impessoal e est, por concordncia atrativa, no plural, tem-se-lhe proposto a funo 
de sujeito. Ora, a comutao nos mostra ser a classificao como predicativo a nica possvel:

So dez horas?  So-no.

Jamais o sentimento lingustico do falante aceitaria como normal:

So dez horas?  *Elas so,

como seria, se o sujeito fosse dez horas.

Outro tipo de predicativo: anexo predicativo

4) Outro tipo de predicativo: anexo predicativo  Esse determinante predicativo no se restringe  referncia ao sujeito, em oraes com o concurso de verbos como ser, estar, 
ficar, etc. Pode aparecer em predicados simples e complexos, com o concurso de verbos outros de ao ou processo, referidos ao sujeito, ao complemento direto, ao complemento 
relativo e ao complemento indireto (talvez restrito ao verbo chamar dar nome):

Ele estudou atento. Ela estudou atenta (predicativo do sujeito).

Os trens chegaram atrasados (predicativo do sujeito).

O auditrio ouviu os conferencistas atento (predicativo do sujeito).

A polcia encontrou a porta arrombada (predicativo do complemento direto).

Definiu-se o caso como impossvel (predicativo do sujeito) [ABo.1, 71].

Tratou-se da questo como insolvel. (predicativo do complemento relativo).

Ns lhe chamvamos doutor (predicativo do complemento indireto).

No  raro vir o predicativo precedido de preposio ou palavra equivalente:

Tachou-o de louco.

A maioria tinha o ru por (ou como) inocente.

Jesus, pareces desenterrado! exclamou assustadssima a pobre mulher, vendo-o plido e de olheiras cavadas e negras (AFg, 118).

Com o verbo chamar podemos dizer:

Chamaram-no tolo / de tolo.

Chamaram-lhe tolo / de tolo.

Acompanham-se de predicativo do complemento direto os verbos:

a) que significam chamar e ter na conta de: chamar, considerar, reputar, julgar, supor, declarar, intitular, crer, estimar, ter e haver por, dar e tomar por, etc.;

b) deixar, ver, ouvir, encontrar, em construes do tipo:

Viu-o vivo e forte.

Deixei-o de cama e encontrei-o sarado.

Pode o predicativo que exprime resultado ou consequncia do processo verbal, indicar a situao anterior e a que resulta da mudana:

O secretrio passou Jos de auxiliar a chefe.

 semelhana do predicativo em predicado complexo com ser, estar, etc., esse argumento concorda em gnero e nmero com o ncleo referido, e por isso tem merecido em muitos 
autores a classificao de predicativo; todavia h entre os dois predicativos diferenas:

a)  normalmente representado por um adjetivo, enquanto o outro tipo de predicativo pode vir expresso por adjetivo, substantivo, pronome, advrbio, etc.;

b) este ltimo determinante apresenta-se numa relao semntica intermdia, entre a realidade comunicada pelo verbo e uma qualificao ao signo lexical ncleo do sujeito ou 
do complemento verbal;

c) por essa maior frouxido relacional com o verbo, pode ser suprimido sem provocar uma construo agramatical:

Ele  estudioso / *Ele ; Ele estudou atento / Ele estudou; O auditrio ouviu os conferencistas atento / O auditrio ouviu os conferencistas;

d) ao contrrio dos outros predicativos, esse determinante no pode ser comutado pelo pronome invarivel o, mas por um advrbio como assim:

Ele estudou atento / Ele estudou assim. / Ela estudou assim.

A polcia encontrou a porta arrombada. / A polcia encontrou a porta assim.

e) essa relao com uma palavra de natureza adverbial (assim), permite a substituio do adjetivo por advrbio, resultando da oraes equivalentes na designao:

Ele estudou atento / Ele estudou atentamente; O auditrio ouviu os conferencistas atento / O auditrio ouviu os conferencistas atentamente.

Tais diferenas levaram alguns autores a dar outra classificao a predicativos dessa natureza; Said Ali chamou-lhes anexo predicativo, e cremos que, se houver necessidade 
de dar nomes diferentes a tais predicativos, a expresso pode ser utilizada. As propostas predicativo atributivo ou atributo predicativo tambm correm em bons autores [AK.1, 
83; SL.1, 46-47].

Pode-se variar a construo em que entra esse segundo tipo de predicativo transpondo-o para junto do termo referido, caso em que se profere com breve pausa ou com pausa mais 
longa; neste ltimo caso, usa-se vrgula na lngua escrita:

Os rios corriam sonorosos.

Os rios sonorosos corriam.

Sonorosos corriam os rios.

Os rios, sonorosos, corriam.

Observao: No exemplo Os rios sonorosos corriam podemos ver em sonorosos tanto um adjunto adnominal de rios como um predicativo do sujeito. A inteno comunicativa do falante 
ou escritor, quando possvel, depender do sentido textual que ser resgatado mediante a gramtica do texto ou anlise gramatical. Para o responsvel pelo contedo do pensamento 
designado no h essa ambiguidade, porque, como diz Coseriu, os falantes intuem e conhecem determinadas relaes entre paradigmas diversos de sua lngua [ECs.1, 254].

Dentro desta funo do predicativo podemos incluir o determinante que denota o tempo, hiptese, concesso, causa, comparao, ou debaixo de que respeito  considerada a pessoa 
ou cousa, na poca referida pela relao predicativa [ED.2, 45,b]:

Stamos em pleno mar... Doudo no espao.

Brinca o luar  dourada borboleta [CAv.1, 92].

(isto , como dourada borboleta)

Rainha esquece o que sofreu vassala [BBo].

(isto , como rainha esquece o que sofreu quando vassala)

Tambm esses predicativos podem vir introduzidos por preposio ou advrbio, ou palavras em funo equivalente:

Em rapaz dizia verdades que quando velho silenciou.

Audaz D. Quixote ele entrou na discusso.

Quando Presidente esqueceu-se das promessas como candidato.

Os exemplos acima podem ser reescritos sem os instrumentos verbais introdutrios, quando esses predicativos  moda latina emprestam ao enunciado certa energia e elegncia. 
Neste caso so marcados por pausa, ainda que breve; no exemplo acima de Castro Alves, a pausa  indicada graficamente pelo travesso, enquanto no de Bocage no h sinal de 
pontuao, ainda que a pausa exista para que rainha no seja proferido com a linha meldica igual  que o marcaria como sujeito de esquece. O seguinte exemplo de Ea de Queirs 
 bom testemunho desse tipo de predicativo marcado por pausa, para distingui-lo do adjetivo com funo de adjunto adnominal; observe que a pausa, marcada por vrgula,  decisiva 
para tal distino:

Mas os meses passaram, naquela vida de uma regularidade triste de pndulo, entre a casa e a farmcia e o grosso livro encadernado, onde ele devia copiar os Esmaltes e Jias, 
permanecia ainda quase todo branco. L estavam os trs poemas que o Pensamento acolhera: Oflia, A ti  que era a Aninhas Serrana, amada  e Mulher de Mrmore  que era a 
Aninhas Serrana, odiada! [EQ.1, 53-54]

Observaes:

1.) Levados pela equivalncia designativa, alguns autores preferem considerar como se fossem oraes abreviadas sem verbo explcito os predicativos introduzidos por como, 
quando, porque, por consider-los, nestes casos, conjunes subordinativas:

Quando Presidente  Quando era Presidente...

2.)Exemplos como o j citado

Os rios, sonorosos, corriam,

aproximam formalmente este tipo de anexo predicativo.

O infinitivo e o gerndio como predicativo

5) O infinitivo e o gerndio como predicativo 110  J tivemos oportunidade de ver que o infinitivo, como forma nominal do verbo, funciona tambm como substantivo: Querer 
 poder. Escrever  um ato de cultura.

Em Convm prestar ateno aos conselhos, prestar ateno aos conselhos (em que o infinitivo  ncleo de um predicado complexo, com objeto direto [ateno] e indireto [aos 
conselhos]) funciona unitariamente como sujeito explcito do ncleo convm.

Em Vejo abrir a porta, o infinitivo com seu objeto direto (abrir a porta) funciona unitariamente como objeto direto do ncleo vejo: vejo-o.

Mas em enunciados do tipo Ouo soprar o vento ou Vejo crescer as rvores, apesar de serem aparentemente anlogos aos anteriores, temos outras construes em que entram como 
ncleo verbos que significam atos mentais de percepo, embora os conjuntos soprar o vento ou crescer as rvores possam ser comutados por pronomes adverbais tonos (Ouo-o 
e Vejo-as). Os substantivos vento e rvores no funcionam como objeto direto do infinitivo, mas sim dos ncleos ouo e vejo, razo por que so comutados por pronomes adverbais 
tonos: Ouo-o (= o vento) soprar e vejo-as (= as rvores) crescer, em cujo procedimento no se incluem os infinitivos soprar e crescer.

Agora, se compararmos as construes estudadas antes:

Encontrou a porta arrombada,

em que arrombada funciona como predicativo do objeto direto porta e em que, comutando este objeto direto por pronome adverbal tono, teremos:

Encontrei-a arrombada,

onde o predicativo arrombada no fica includo na funo de a.

Analogamente, nos nossos exemplos

Ouo-o soprar

Vejo-as crescer

os infinitivos funcionam como modificadores dos respectivos pronomes adverbais e funcionam como seus predicativos.

Desta maneira, no cabe falar aqui de sujeito de infinitivo exercido por vento e rvores nas construes:

Ouo soprar o vento        / Ouo o vento soprar

Vejo crescer as rvores    / Vejo as rvores crescer

A analogia se deve ao fato de vento e rvores serem, na anlise do contedo semntico, agente da ao da atividade percebida, como em O vento sopra e As rvores crescem, o 
que no quer dizer que, naqueles exemplos, exeram a funo sinttica de sujeito. Por isso, em Ouo soprar o vento e Vejo crescer as rvores, o normal  que no se precise 
flexionar o infinitivo, j que vento e rvores no funcionam como sujeito de soprar e crescer.

Repare-se que, ao comutar o objeto direto do ncleo ouo ou vejo, se tem de deixar  parte o infinitivo, que, como vimos, funciona como predicativo do objeto direto vento 
ou rvores:

Ouo o vento soprar         Ouo-o soprar.

Vejo as rvores crescer     Vejo-as crescer.

Tal como ocorreu com:

Encontrou a porta arrombada  Encontrou-a arrombada.

Se, como vimos, no se pode falar nestes casos de sujeito de infinitivo, tambm  imprprio afirmar que tais substantivos so objeto direto do ncleo ouo ou vejo e ao 
mesmo tempo sujeito do infinitivo.

A concordncia que pode aparecer em

Ouo soprarem os ventos    /    Ouo os ventos soprarem.

Vejo crescerem as rvores   /    Vejo as rvores crescerem.

se deve  anlise do contedo semntico da equivalncia na designao, isto , na referncia  realidade percebida, com:

Ouo que os ventos sopram.

Vejo que as rvores crescem.

em que ventos e rvores so agentes e agora tambm sujeitos.

A diferena entre o agente da anlise semntica e o sujeito da anlise gramatical (da estrutura sinttica)  comparvel  que ocorre entre o paciente da anlise semntica 
e o sujeito da construo sinttica reflexiva em (s que aqui a lngua padro ainda no agasalhou o resultado do procedimento):

Alugam-se casas   /   Aluga-se casas.

Pelo mesmo efeito da equivalncia na designao  que aparece o primeiro verbo no singular quando se combina com o pronome reflexivo se, procedimento que, na anlise gramatical, 
passa os antigos objetos diretos (ouo os ventos / vejo as rvores) a sujeito do sentido passivo da nova construo:

Ouve-se soprar os ventos  / Ouve-se os ventos soprar.

V-se crescer as rvores    / V-se as rvores crescer.

Trata-se aqui de concordncias to irregulares  luz da anlise gramatical e da tradio da lngua exemplar, quanto as que ocorrem em:

Aluga-se casas.

Vende-se apartamentos.

Em lugar do infinitivo em funo de predicativo, pode aparecer o gerndio, quando  representado por signo lxico que denote atividade:

Ouo o vento soprando.

Vejo as rvores crescendo.

No entanto ouvia [eu] as negras falando da morte dele com pavor [JL.3, 37].

 semelhana da construo com infinitivo, a de gerndio, na referncia  realidade percebida, pode ser substituda pela de relativo:

Ouo o vento que sopra.

Vejo as rvores que crescem.

Subitamente a chuva fustigou as vidraas; o primeiro bofar do vento fez ramalhar as rvores meias calvas; e senti-o que se abismava debaixo das arcarias de pedra [AH.7, 
I, 139].

A mesma particularidade se repete com eis, que rigorosamente se acompanha de objeto direto:

... apenas os primeiros raios de sol faziam reluzir as armas,semelhantes no brilho trmulo ao alvejar da geada, ei-las que pareciam rolar-se pelas encostas... [AH.7, I, 
172].

O complemento agente (agente da passiva)

6) O complemento agente 6(agente da passiva)  Um tipo de termo argumental no obrigatrio  o que a gramtica tradicional chama agente da passiva; caracteriza-se por ser 
um termo preposicionado marcado pela preposio por e, mais raramente por de, com verbos empregados como transitivos diretos na chamada voz ou construo passiva:

Os exerccios foram feitos por Jos.

O ru  condenado pelo jri.

Tal complemento de agente pode ser opcional, pois so construes gramaticalmente corretas:

Os exerccios foram feitos.

O ru  condenado.

A gramtica tradicional tem posto este agente entre os complementos verbais em vista de seu relacionamento com o sujeito e com o complemento direto. Com o sujeito, porque, 
na transformao da estrutura passiva  estrutura ativa, o complemento agente passa a sujeito:

Os exerccios foram feitos por Jos / Jos fez os exerccios.

Com o complemento direto, porque, enquanto este vem exigido pela caracterstica gramatical da construo ativa, o agente o  da construo passiva.

Em geral, o complemento de agente apresenta o trao semntico animado, como revelam, nos exemplos acima, Jos (por Jos) e jri (pelo jri).

Quando no h o trao animado, pode apresentar o trao potente, representado lexicalmente por nome de coisa, mas capaz de praticar ou fazer desenvolver uma ao, como nos 
exemplos seguintes [PD.1, 46]:

O menino foi atropelado pelo nibus escolar.

Os alpinistas foram surpreendidos pelo vendaval.

Dissemos que o complemento de agente pode vir introduzido pela preposio de, construo mais comum em outros tempos da histria do portugus, e ainda usado literariamente; 
no portugus contemporneo, de est praticamente restrito a unidades lxicas que exprimem sentimentos ou manifestaes de sentimentos:

Ela  estimada de todos.

O professor no foi esquecido dos alunos.

Nem todo termo introduzido pela preposio por funciona como complemento de agente, principalmente se apresenta o trao no animado, referente a uma coisa, quando deve ser 
classificado como adjunto circunstancial de causa ou meio. Neste caso, por  comutvel por outra preposio (p. ex., com) ou por locues prepositivas do tipo por causa de, 
por meio de, em virtude de e equivalentes:

O artista foi elogiado pela sua tcnica.

Ficaram aborrecidos pelas falsas promessas.

Os ladres foram encontrados pela denncia annima.

Em tais exemplos, a experincia comunicada em pelas falsas promessas e pela denncia annima pode ser expressa mediante outra construo:

Ficaram aborrecidos com (por causa de) as falsas promessas.

Os ladres foram encontrados em virtude de (graas a) denncia annima.

No , portanto, a relao sinttica, mas o contexto em que se enquadra a experincia comunicada, que ir resolver se se trata de um complemento de agente ou de adjunto circunstancial 
ou adverbial.

A construo dita passiva pronominal ou passiva reflexa (denominaes melhores que passiva sinttica) no se acompanha, no portugus contemporneo, do complemento de 
agente, como acontece na chamada construo passiva com auxiliar + particpio, vista at aqui.

Vendem-se casas.

O complemento de agente pode aparecer junto a substantivo ou adjetivo constitudo por um signo lxico referido a um processo ou ao, como assalto, vitria, derrota, etc.

O assalto pelo primeiro batalho foi decisivo.

O derrotado pelo concorrente achou justa a classificao.

Construo passiva e o predicativo

7) Construo passiva e o predicativo  Partindo do fato de que a realidade comunicada nas oraes A casa est espaosa e A casa est pintada aponta ao sujeito a casa um atributo, 
muitos estudiosos no veem razo de estruturao sinttica para distinguir o adjetivo espaosa como predicativo do sujeito, e o signo lxico pintada como verbo na forma de 
particpio. Ora, j sabemos que um particpio verbal pode funcionar como adjetivo. A dificuldade desta distino fica ainda mais notvel, quando comparamos A equipe  vencedora 
e A equipe  vencida, em que, no havendo nenhuma diferena na estrutura sinttica das duas oraes, (um sujeito a equipe, um ncleo verbal e um termo que,  maneira dos predicativos, 
concorda em nmero com o ncleo da orao (o verbo) e em gnero e nmero com o sujeito explcito), a distino repousa apenas no trao semntico ativo do lexema vencedora 
em oposio ao trao semntico passivo do lexema vencido.

Poder-se-ia objetar contra tal identificao dos dois termos o fato de poder levar o particpio vencido, ao contrrio do predicativo como vencedora, uma expanso preposicionada 
que se refere na realidade ao agente da atividade designada pelo signo lxico do particpio [AL.1, 303], apesar do paralelismo da estrutura sinttica.

Um argumento forte em favor de considerar o particpio como adjetivo e, assim, na funo de predicativo, na construo dita voz passiva,  a possibilidade de comutao do 
particpio pelo pronome invarivel o  como ocorre com o signo lxico na funo de predicativo:

A equipe  vencedora.                           A equipe o .

A equipe  vencida.                               A equipe o .

A equipe  vencida pelo adversrio.      A equipe o  pelo adversrio.

Ocorre o mesmo se se trata de adjunto adverbial de causa ou meio, e no de complemento de agente.

A presso  controlada com remdios.        A presso o  com remdios.

O artista foi elogiado pela sua tcnica.        O artista o foi pela sua tcnica.

Fica, assim, ao analista optar por uma das duas maneiras, apesar dos fortes argumentos em favor da soluo como predicativo. Neste livro, por motivao didtica, seguimos 
a anlise como passiva.

Os determinantes circunstanciais ou adverbiais

Os determinantes circunstanciais ou adverbiais

Se atentarmos para as frases:

A criana caiu da cama durante a noite

Os carregadores puseram o mvel na sala logo pela manh

O marido acompanhou a esposa ao hospital na ambulncia,

facilmente verificaremos que os termos da cama e durante a noite  para s ficarmos por enquanto no primeiro exemplo  denotam uma circunstncia de lugar donde (da cama) e 
de tempo (durante a noite). Levada exclusivamente pelo aspecto semntico, a gramtica tradicional igualou estes termos tambm sintaticamente, considerando-os ambos adjuntos 
adverbiais, isto , como termos no argumentais, vale dizer, fora do mbito da regncia do verbo da orao, isto , no pedidos por ele.

Ora, basta aplicarmos o teste da reduo para verificarmos que o termo da cama  termo obrigatrio, argumental, pois pertence  regncia do verbo cair; assim, torna-se incompleta 
do ponto de vista sinttico (e semntico, naturalmente) a orao sem este complemento relativo:

A criana caiu durante a noite.

J no se d o mesmo com a reduo ou supresso do termo durante a noite:

A criana caiu da cama.

Observao: Para distinguir a identidade designativa de circunstncia, presente em da cama e durante a noite da funo sinttica diferente dos dois termos, talvez fosse conveniente 
encontrar outra denominao para o adjunto circunstancial que evitasse a aluso  natureza de circunstncia.

Se da cama  o complemento relativo de cair, durante a noite, mero acrscimo  informao,  realidade comunicada, receber a classificao de adjunto circunstancial. Os adjuntos 
adverbiais so semntica e sintaticamente opcionais. Respondem s clssicas perguntas como?, quando?, onde?, por qu?, enquanto o complemento relativo responde  pergunta 
que? quem?, precedidos da preposio que acompanha tradicionalmente o verbo:

Pedro fala sempre de negcios (fala de qu?: compl. relativo).

Pedro fala sempre de memria (como fala?: adjunto adverbial).

Se recorrermos ao teste de clivagem ou relevo mediante o usual instrumento  ... que/quem, verificaremos a diferena de resultado entre o complemento relativo e o adjunto 
adverbial:

 de negcios de que sempre fala o Jos.

 de memria como sempre fala o Jos [AL.1, 323].

Semanticamente, o papel desses adjuntos adverbiais  matizar o processo designado na relao predicativa, acrescentando  mensagem informaes que o falante julga indispensveis 
ao conhecimento do seu interlocutor.

Entretanto, se o contedo semntico desses adjuntos adverbiais no oferece maiores problemas, seu comportamento sinttico na orao  heterogneo e requer maior ateno de 
quem procura descrever esse termo. Assim, a coeso dele ora  maior com o verbo ou com o sintagma verbal, ora faz referncia a toda a orao, sem que com isso deixe de formar 
parte dela,  maneira dos termos marginais. So aspectos muitas vezes que fogem ao mbito dos esquemas idiomticos e entram no domnio da gramtica do texto.  o caso, por 
exemplo, do termo em casa nas oraes:

(1) Em minha casa grito eu.

(2) Eu grito em casa.

Enquanto na segunda, em casa afeta exclusivamente o verbo grito, na primeira em minha casa modifica a orao como um todo, a combinao sujeito + predicado, e esta coeso 
tnue com o verbo permite a possibilidade de pausa que normalmente aparece ao ser proferida a orao [PD.1, 18].

Tais variedades de coeso gramatical motivadas por objetivos pragmticos, discursivos e entonacionais, tm levado estudiosos a enveredar por indagaes de graus ou nveis 
de hierarquizao de adjuntos adverbiais, tema que extrapola a natureza deste livro; por isso, consideraremos aqui todos estes casos uniformemente como adjuntos adverbiais.

Falam, assim, dos adjuntos adverbiais na condio de adjuntos de substantivos e adjetivos:

O inverno em Campos do Jordo  rigoroso.

Os conflitos em praa pblica nem sempre so prenncios de direitos feridos.

As brincadeiras nas praias so sempre ruidosas.

Retornando aos outros exemplos do incio, notaremos que os termos na sala e ao hospital, apesar de semanticamente denotarem circunstncias, funcionam como complemento relativo 
dos verbos puseram e acompanhou, respectivamente:

Os carregadores puseram o mvel logo pela manh.

         (sintaticamente incompleta)

Os carregadores puseram o mvel na sala.

O marido acompanhou a esposa na ambulncia. (sintaticamente incompleta)

O marido acompanhou a esposa ao hospital.

Um termo preposicionado designativo da mesma circunstncia (aqui de lugar) pode exercer na orao diferentes funes sintticas dependendo do contedo de pensamento designado, 
isto , das circunstncias concretas do discurso; por exemplo, de Minas  um complemento relativo em:

O escritor saiu jovem de Minas

 um complemento predicativo em:

O escritor  de Minas.

 um adjunto adverbial em:

O escritor telegrafou de Minas

 um adjunto adnominal em:

Os escritores de Minas gozam de muita aceitao

 um complemento nominal (de substantivo ou adjetivo):

Sua permanncia em Minas foi breve.

Necessria na vida toda, a educao comea na infncia.

Que no se trata de termos sintaticamente equivalentes mostra o fato de no poderem coordenar-se. No  possvel uma construo do tipo:

A criana caiu da cama e durante a noite,

como seria possvel em:

As crianas caem do balano e do escorrega durante o recreio.

Outra particularidade a ser observada entre as diferenas que separam o complemento relativo do adjunto adverbial  o carter semntico bastante tnue (e s vezes at vazio) 
da preposio que introduz a primeira dessas funes que faz o papel de marca de funo sinttica, em oposio ao valor semntico da preposio que encabea o adjunto adverbial. 
A preposio que marca o complemento relativo est determinada pela tradio do idioma, razo por que s muito raramente admite a substituio por outra preposio, salvo 
nos casos em que a mesma tradio o permite:

Preciso do livro.

*Preciso ao livro.

*Preciso no livro, etc.

J a preposio que encabea o adjunto adverbial conhece quase sempre a possibilidade dessa substituio:

Fez a horta sob as rvores.

Fez a horta debaixo das rvores.

Com frequncia esses adjuntos adverbiais de contedo posicional ou temporal se combinam com uma ideia secundria de direo ou extenso, o que leva ao emprego concomitante 
de duas preposies:

Fez a horta por debaixo das rvores.

A janela estava aberta desde pela manh.

A neve escorregou de sobre o telhado.

Enquanto no mbito dos termos argumentais s pode existir no domnio da relao predicativa um s complemento direto ou indireto (salvo aqui os chamados dativos livres), predicativo 
ou complemento relativo  excluindo o caso de termos coordenados , os adjuntos adverbiais no conhecem esta restrio, podendo aparecer quantos forem necessrios  experincia 
comunicada:

De noite, o jovem trabalhava em casa em companhia dos irmos.

Tambm ao contrrio dos termos argumentais, se for elidido, o adjunto adverbial no exige preenchimento da casa vazia:

O jovem trabalhava em casa, em companhia dos irmos.

O jovem trabalhava em companhia dos irmos.

O jovem trabalhava.

Os principais tipos de adjuntos adverbiais

1) Os principais tipos de adjuntos adverbiais  O adjunto adverbial constitui uma classe muito heterognea   semelhana do advrbio que normalmente desempenha o papel de 
seu ncleo  no s do ponto de vista formal como ainda do ponto de vista de valor semntico. Tal fato leva a que constantemente esteja a no delimitar com nitidez as fronteiras 
com outras funes sintticas  conforme aqui mesmo j assinalamos  e com contedos de pensamento designado vizinhos. Diante de to vasta amplitude, fixar-nos-emos nos principais 
adjuntos adverbiais, detendo-nos aos aspectos mais interessantes  descrio gramatical e aos esquemas com que se representam tais funes nas circunstncias concretas do 
discurso [PD.1, 30].

a) Adjuntos adverbiais de lugar  A caracterstica de tais adjuntos  responder  pergunta onde?, precedido este advrbio ou no de preposio que marca a designao circunstancial 
(donde?, por onde?, aonde, at onde, etc.), em relao  ideia expressa pelo verbo, pelo sintagma, verbal ou ao contedo de uma orao dita principal.

Pedro trabalhava em Petrpolis. (onde?)

Pedro trabalhava a. (onde?)

O professor tem parentes no Recife. (onde?)

Contemplamos da janela o cair da tarde. (donde?)

Procuraram-no por toda a cidade. (por onde?)

O atleta correu at a chegada. (at onde?)

Onde me espetam fico. [M. de Assis]

Distinguimos, assim, vrios matizes da ideia locativa: lugar onde ou de situao, direo, origem e ponto de partida, lugar por onde, proximidade, distncia, orientao, extenso, 
etc., tanto numa perspectiva horizontal quanto na vertical.

Algumas expresses preposicionadas que funcionam como adjunto adverbial compartilham tanto do valor locativo quanto do temporal modal ou instrumental, como ocorre nas seguintes 
oraes:

Ela me foi apresentada na festa (onde? ou quando?).

O primo no viaja em avio (onde? ou por que transporte?).

O advrbio ncleo do adjunto de lugar pode vir anteposto de um substantivo, e o conjunto precedido ou no de preposio, como ocorre nos exemplos:

O barco navegava rio acima.

O capito anda mundo fora. (ou afora)

O sonmbulo andava casa dentro (ou pela casa dentro).

b) Adjuntos adverbiais temporais  Respondem s perguntas quando?, desde quando?, at quando?, durante quanto tempo? e podem referir-se ao verbo, ao sintagma verbal ou a toda 
a orao:

A natureza resplandece na primavera. (referida ao verbo)

O fazendeiro colhe frutas pela manh. (referido ao sintagma verbal colhe frutas)

De noite todos os gatos so pardos (referido a toda a orao).

Podem vir representados por advrbio, por sintagmas preposicionados ou por orao dita subordinada :

Augusto no trabalha hoje.

Estuda-se melhor pela manh.

Ele saiu quando o professor chegou.

Tambm entre os adjuntos adverbiais de tempo distinguimos vrios matizes temporais: o tempo propriamente dito, a durao, a quantificao temporal, a repetio, etc.:

Pedro no trabalha hoje.

Pedro trabalhou das trs s cinco.

Pedro trabalhou duas horas.

Pedro trabalha todos os dias.

Os diversos tipos de adjuntos adverbiais de tempo podem vir ou no introduzidos por preposio ou locuo prepositiva; estas matizam o valor temporal:

No se trabalha domingo / no domingo.

Pedro no trabalha hoje / por hoje.

O vizinho viu televiso at as trs da madrugada.

O baile terminou depois das quatro.

O aniversrio ser daqui a cinco dias.

Observao: No se h de confundir o emprego da preposio a para indicar tempo vindouro com a expresso em que entra o verbo haver (h) para indicar tempo passado: Sair 
daqui a trs horas // Saiu h trs horas.

Para a anlise da orao em que, nestes casos, entra o verbo haver, veja-se o captulo da orao complexa.

Em circunstncias do tipo de

Pedro trabalha muitas horas,

o adjunto adverbial muitas horas, do ponto de vista semntico, se situa entre a ideia temporal e a quantitativa, zona limtrofe que explica como resultado, por exemplo, o 
uso indistinto do advrbio j, nitidamente temporal, e do advrbio mais, nitidamente quantitativo, em oraes negativas do tipo:

J no chove / No chove mais.

No incio, deve ter havido perfeita distino; a ideia temporal existia em J no quero, J no o tem, J no serve, onde o advrbio j, como lembra Morais (1813), se refere 
a cousas que agora se acham em situao diversa da em que estavam antes e a quantitativa em No quero mais, No tem mais. Sem levar em conta o trnsito semntico, alguns 
puristas consideram injustamente como galicismo o emprego temporal de no mais pelo j no, imitao servil, dizem, do francs plus. Ocorre que, nas oraes citadas no incio, 
poder-se-ia usar o plus francs como equivalente do mais (quantitativo) e do j (temporal): No quero mais (je nen veux plus), J no quero (je ne veux plus) [PS.1, 603].

No Brasil,  mais geral o emprego de no mais em ambos os valores semnticos; em Portugal, como ensina Gladstone Chaves de Melo, j no  mais comumente usado quando o que 
se focaliza  um trnsito de passado para presente, enquanto no mais se usa quando se quer significar o futuro em relao ao tempo indicado pelo verbo [GM.1, 111].

Tambm no tm razo os puristas na condenao da negativa enftica j no...mais em construes do tipo J no se faz mais musical como antigamente. nfase nas oraes negativas 
 fato corriqueiro nas lnguas [OJ.1, 62-80; HS.1, 19-91].

Tambm apresentam pontos de contacto com a circunstncia modal os advrbios de tempo do tipo de rapidamente, de imediato, logo, num instante e locues equivalentes como abrir 
e fechar de olhos, num piscar de olhos, etc., que integram os adjuntos adverbiais de oraes iguais a:

Saiu rapidamente.

Chegou de imediato.

Respondeu num piscar de olhos.

Essa ideia subsidiria de modo aproxima tais adjuntos adverbiais de outra funo sinttica j vista aqui, o anexo predicativo; basta que se use adjetivo (flexionado, para 
formalmente estabelecer a diferena de marca de funo sinttica):

Eles saram rpidos.

Elas saram rpidas.

Se se empregar Ele saiu rpido, rpido pode ser tanto considerado advrbio (=adjunto adverbial, igual a rapidamente), quanto adjetivo (=anexo predicativo). J em Ela saiu 
rpido, rpido s pode ser classificado, graas  sua invariabilidade em gnero, como advrbio [HM.1, 55-56].

Como os locativos, o advrbio de tempo se deixa antepor de substantivo, conjunto que pode ou no vir introduzido por preposio:

Ela trabalhava semana adentro.

O fato ocorreu dias atrs.

c) Adjuntos adverbiais modais  Respondem  pergunta como? de que modo ou maneira? e se reportam ao verbo ou ao sintagma verbal da orao, para qualificar ou descrever como 
o processo verbal se realiza:

O aluno est escrevendo bem.

O fogo propagou-se imperceptivelmente.

Os vizinhos falaram do incndio com tristeza.

Entraram no estdio aos empurres.

Os ladres fugiram sem que fossem percebidos.

Como vimos, podem tais adjuntos adverbiais estar integrados por advrbios, palavras ou sintagmas prepositivos com valor adverbial e oraes inteiras; destas falaremos no captulo 
sobre a orao complexa.

Muitas vezes a experincia que se comunica aproxima o valor modal de adjuntos adverbiais ao sentido modal ou qualitativo que se atribui ao sujeito e ao complemento direto 
por meio de um anexo predicativo.

Ela me cumprimentou muito educadamente / Ela me cumprimentou muito educada.

Esta aproximao semntica tambm ocorre quando a expresso encerra um sintagma preposicionado introduzido por com ou sem em construes alusivas  posse ou carncia do sujeito 
ou de complemento direto; a melhor classificao parece ser como anexo predicativo [PD.1, 39].

O garoto chegou a casa com a cala rasgada.

Ele foi deitar-se sem pijama.

d) Adjuntos adverbiais de fim, de causa, de instrumento e de companhia  Caracterstica comum a essas quatro circunstncias adverbiais  que no podem ser representadas por 
meros advrbios, mas sim por sintagmas preposicionados ou, com exceo da de companhia, por uma orao subordinada, fato que estudaremos no captulo da orao complexa:

Ele estudou para mdico (fim).

Tremiam de frio (causa).

Fechou a porta com a chave (instrumento).

Saiu com Maria (companhia).

A realidade designada por meio desses adjuntos adverbiais pode ser equivalente quela expressa por meio de complementos relativos:

O vizinho casou-se com a prima.

O garom encheu o copo de vinho.

No que toca ao adjunto adverbial de fim, cabe no confundi-lo com o chamado dativo de interesse; este se refere sempre a pessoa e s vezes integrvel pelo pronome lhe, e alude 
ao beneficirio ou prejudicado pelo processo verbal:

Mrio trabalha para a famlia.

Comprou as flores [ao florista] para a noiva.

Como o complemento de agente da passiva  introduzido pelas preposies por e de, pode haver dificuldade em distingui-lo do adjunto adverbial de causa. Todavia, o agente da 
passiva est sempre representado por ser animado ou ento capaz de praticar a ao verbal, alm de, na transformao para a ativa, passar a sujeito; por seu turno, o adjunto 
adverbial de causa pode ter a preposio substituda pelas locues por causa de, devido a, o que no se d com o agente da passiva. Assim, estamos diante de agente da passiva 
em oraes como:

A atriz foi bafejada pela sorte / A sorte bafejou a atriz.

A exposio era admirada por todos / Todos admiraram a exposio.

J nas oraes abaixo a expresso introduzida pela preposio por funciona como adjunto adverbial de causa:

O pintor foi admirado pelos seus quadros.

O jogador  expulso pela falta desleal.

No  natural a transformao em ativa.

* Os quadros admiraram o pintor.

* A falta desleal expulsa o jogador.

Por outro lado, podemos substituir por pela locuo por causa de:

O pintor foi admirado por causa de seus quadros.

O adjunto adverbial de causa, alm das preposies por, com e de, pode vir introduzido por locues prepositivas, como por causa de, em virtude de, em razo de, devido a, 
graas a, etc.:

No saiu cedo por causa da chuva.

Houve faltas devido  greve de nibus.

Observao: No se usa neste emprego devido sem a preposio a: Devido ao mau tempo (e no Devido o mau tempo).

Em vez de um substantivo (ou pronome), pode vir um adjetivo usado neutralmente, para expressar a ideia de causa, aproximando o adjunto adverbial do anexo predicativo:

Os marginais fugiram de medrosos.

Por teimoso no viajou conosco.

Dentro da denominao de instrumento incluem-se circunstncias afins, como o meio, a intermediao, a matria, o domnio, o utenslio, e, por extenso, os contextos matemticos 
do tipo de multiplicar por, dividir por:

Os amigos nunca viajaram de avio.

Mediu o quarto com o metro.

Escrever  mquina.

O jogador fez gol com a proteo do juiz.

Prenderam o ladro com a arma.

O ndice epidmico foi multiplicado por dois.

A partida foi ganha pela estratgia do tcnico.

Este ltimo exemplo evidencia a possibilidade de aproximao designativa da circunstncia de instrumento ao agente da passiva introduzido tambm pela preposio por. Um modo 
de distingu-los, alm da anlise da experincia comunicada,  substituir a preposio por do instrumental por com ou mediante:

A partida foi ganha com (mediante) a estratgia do tcnico.

Os adjuntos adverbiais de companhia repartem-se em dois grupos: os associativos, ou participativos e os que no o so. Os primeiros participam ou ajudam, ao lado do sujeito, 
ou, no caso de complemento verbal, so afetados pelo estado de coisas designado no predicado, como nos exemplos:

O capito com seus soldados desbaratou o inimigo.

O professor com seus colegas dirigiu a exposio.

A diretora expulsou da sala o aluno com os colegas de arruaa.

Como exemplos de no participativos temos:

O colega trouxe consigo o livro pedido.

Minha irm foi ao baile com o vestido novo.

O pai gostava dos filhos com os avs.

Pelos ltimos exemplos, v-se que a noo de companhia abarca o que  levado ou possudo pelo sujeito ou pelo complemento verbal.

O adjunto adverbial pode, por meio da preposio sem, assinalar a ausncia ou a carncia:

A garota j vai  escola sem a me.

Em muitos contextos, alguns desses adjuntos de companhia se aproximam dos de valor modal.

Com a presena do adjunto de companhia participativo pode o verbo da orao ir ao plural, como se se tratasse de um sujeito composto:

O capito com seus soldados desbaratou o inimigo.

O capito com seus soldados desbarataram o inimigo.

Em tais condies, a estrutura sujeito + adjunto adverbial pode alternar com a estrutura de sujeito composto:

O capito e os seus soldados desbarataram o inimigo.

Se a estrutura gramatical permite esta alternncia, do ponto de vista de estado de coisas comunicado, no  indiferente o emprego de um modo por outro; com o adjunto adverbial, 
a nfase do processo verbal recai na pessoa do sujeito, enquanto na construo com sujeito composto desaparece essa nfase especial.

e) Adjuntos adverbiais de quantidade  Tais adjuntos adverbiais respondem a perguntas do tipo quanto?, at quanto?, em que medida? e se repartem em intensivos ou gradativos, 
de medida e de preo, conforme a realidade designada:

Nesta regio chove mais no vero.

Maria trabalha muito aos domingos.

Andaram bastante em busca de emprego.

A assistncia ria s bandeiras despregadas.

O clube ganhou a partida por dois a zero.

O cavalo perdeu a corrida por pescoo.

Ela deixou de comprar o carro por bom preo.

Unidades lxicas designativas de unidades de tempo, peso, medida, preo, durao e quantidade que acompanham verbos (durar, passar, percorrer, correr, medir, pesar, etc.) 
empregados transitivamente, tm merecido classificaes diferentes; h autores que as consideram adjuntos adverbiais:

O filme durou uma hora.

O atleta percorreu dez quilmetros.

A criana j pesa vinte quilos.

O viaduto mede duzentos metros.

Outros autores, levando em conta traos semnticos e sintticos que caracterizam o complemento direto (alm do valor de termo argumental, quase sempre estas unidades lxicas 
atendem aos testes da passiva, da integrao, com a pergunta que?, etc.) preferem v-los como verdadeiros objetos. Tome-se por exemplo, a orao:

O atleta percorreu dez quilmetros,

verifica-se que a expresso constitui um termo argumental, isto , exigido pelas caractersticas semnticas do verbo, j que estaria imperfeita a construo:

*O atleta percorreu.

Por outro lado, a orao admite a transformao em passiva:

Dez quilmetros foram percorridos pelo atleta.

E tambm a passagem a termo integrvel, por meio do pronome tono os, referido a dez quilmetros:

O atleta percorreu-os.

Pode-se ainda incluir neste problema classificatrio o caso de unidades lxicas de significado intensivo do tipo de muito, pouco, demasiado, bastante, que no se referem diretamente 
a substantivos, mas  sua quantidade. Com verbos usados transitivamente assumem papel de termo argumental, isto , necessrio  integrao sinttico-semntica da orao, em 
textos do tipo:

Sabia muito para ser aprovado (muito = muitas coisas).

Vimos pouco por causa do nevoeiro (pouco = pouca coisa).

No disse bastante em sua defesa.

Em favor de classificar estas unidades lxicas como termo argumental, leva-se em conta o fato de poderem vir referidas na orao adjetiva por meio de pronome relativo, como 
em oraes do tipo:

Tenho muito que pedir-lhe.

Sabe pouco que dizer-me.

Tambm fala em favor desta classificao a possibilidade de virem tais unidades lxicas precedidas de artigo definido:

Voc sabe o muito que lhe devo.

Elas no fizeram o bastante para vencer.

Observao: Sobre o falso erro no emprego de o quanto em construes do tipo: No soube o quanto se enganara, veja-se o ensinamento de Epifnio Dias:

s oraes interrogativas indiretas de como, porque e quo pode antepor-se o artigo definido [ED.2,  362]. Vale a pena a leitura da nota 138 de R. J. Cuervo  Gramtica 
de A. Bello.

Tratar-se- sem dvida de adjunto adverbial se o verbo for usado intransitivamente ou se, transitivo, j vier acompanhado de complemento verbal:

Comprou a casa por cem mil reais.

O pedreiro mediu o aposento com linha.

Ela j sabia muito matemtica.

f) Adjuntos adverbial de distribuio

Os jogadores ganham prmio extra por partida vencida.

g) Adjunto adverbial de inclinao e oposio 111  So os adjuntos que expressam a relao de favor, ajuda ou disposio favorvel, muito prximo ao valor benefactivo 
do dativo, bem como as relaes contrrias, de oposio, disposio desfavorvel.

Trabalhou sempre pelos amigos.

Para a primeira relao, introduz-se o adjunto adverbial por meio da preposio por ou de locues prepositivas equivalentes, do tipo de a favor de, em benefcio de, em prol 
de, em auxlio de, etc.

Para a segunda relao, usa-se a preposio contra ou locues do tipo:

Esforava-se por lutar contra os maus pensamentos.

h) Adjunto adverbial de substituio, troca ou equivalncia  Assim se chama o adjunto adverbial que expressa a relao de substituio, troca de algo por outro no processo 
designado no predicado, seja pessoa, coisa, circunstncia ou processo verbal. Tal adjunto vem introduzido pela preposio por ou pelas locues prepositivas em vez de, em 
lugar de.

O guarda-costa se passou pelo presidente.

A colega fez a redao pelo namorado.

Na poca de exames, trocava o dia pela noite.

Iremos amanh em vez de hoje.

Durante o recreio jogava em vez de alimentar-se.

Comeu gato por lebre.

Joo trabalha por dois.

Ana trocou a merenda por uma revista.

Entra no mbito deste adjunto adverbial a circunstncia de delegao, pela qual uma pessoa representa outra na execuo do processo expresso no predicado. Aparece para introduzi-lo 
a preposio de ou, ento, as locues prepositivas da parte de, na representao de:

Retribua-lhe o favor de minha parte.

Esta circunstncia adverbial deixa estes adjuntos muito prximos do valor de preo, em oraes do tipo:

Deu vinte mil reais pela motocicleta (preo).

Deu a motocicleta por vinte mil reais (troca).

i) Adjunto adverbial de campo ou aspecto   o adjunto adverbial que exprime o campo ou o aspecto da realidade referida:

O primo formou-se em medicina.

Deixaram de examinar a questo por esse prisma.

Nos exemplos abaixo, a circunstncia se aproxima  de lugar virtual:

Cometeu-se grave erro nesse tipo de explicao.

A deciso do jri surpreendeu a todos sob o ponto de vista tico.

j) Adjunto adverbial de assunto ou matria tratada  Introduz-se tal adjunto adverbial por meio das preposies de, em ou sobre, ou das locues prepositivas acerca de, a 
respeito de, em torno de e equivalentes:

Jos de Alencar escreveu romances sobre os brasileiros de vrias regies do pas.

 muito frequente aparecer o assunto ou a matria tratada expressos como termo argumental exigido pelo significado lxico do verbo, em predicados em que entram unidades lxicos 
do tipo de tratar, versar, falar e equivalentes, como nas oraes abaixo:

O orador tratou de fatos literrios.

A dissertao versou sobre histria.

Na aula o professor falou de regncia verbal.

Outras vezes aparece como adjunto adnominal de substantivo:

O vizinho escreveu um livro de histrias infantis.

Adjunto adverbial de adio ou incluso, excluso e concesso

k) Adjunto adverbial de adio ou incluso, excluso e concesso  Os adjuntos adverbiais que expressam adio vm introduzidos pela preposio sobre, por palavras de valor 
inclusivo (mesmo, inclusive, etc.), mais frequentemente, pelas locues prepositivas alm de, a mais de, ademais de:

Sobre desemprego, havia doena.

Alm das notas ruins, faltava muito s aulas.

Ademais dos parentes, vinham os convidados.

Todos ficaram, mesmo Ana.

Os visitantes j se foram, Daniel inclusive.

Os que expressam excluso vm introduzidos por menos, salvo, exceto, fora, exclusive, e pelas locues prepositivas ou no (com) a exceo de, a no ser e equivalentes:

Todos saram, menos o culpado.

Eles foram a todos os bairros, salvo Casa Amarela.

Os que expressam concesso vm introduzidos por malgrado, pela locuo prepositiva apesar de:

Malgrado a chuva, fomos ao passeio.

Diva ganhou o concurso, apesar da resistncia da colega.

Ainda uma vez os determinantes nominais

Adjunto adnominal

1) Adjunto adnominal  Depois de conhecidas as funes sintticas at aqui enumeradas, estamos em condies de prosseguir no aprofundamento dos determinantes nominais, tambm 
chamados adjuntos adnominais que comeamos a ver quando falamos da expanso do ncleo do sujeito em Conhecendo melhor o sujeito: ncleo e determinantes.

Toda expresso nominal, qualquer que seja a funo exercida pelo seu ncleo, pode ser expandida por determinantes que tm por misso acrescer ideia acidental complementar 
ao significado desse substantivo nuclear. O resultado dessa expanso  um grupo unitrio sintagmtico nominal. Estas expanses no alteram a relao gramatical do ncleo, 
mas to somente aludem a aspectos diferentes da realidade do contedo significativo do substantivo ou da expresso nominal a ele equivalente. Da o resultado de a expanso 
exercer na orao a mesma funo do ncleo despojado do(s) seu(s) determinante(s):

O grupo sintagmtico nominal pode constituir-se de vrios tipos:

1 Os que podem ocorrer  esquerda ou  direita do subtantivo + adjetivo

Passei belos dias em cidades agradveis.

Os determinantes esto, em geral, representados pelas seguintes classes de palavras: adjetivo, artigo e pronome demonstrativo ou equivalentes de adjetivos (estes veremos adiante):

Noites claras prenunciam bom tempo.

O livro est esgotado.

Esta manh prometia chuva.

Na sequncia de determinantes, aparecem como pr-determinantes,  esquerda do determinante, as palavras que podem receber globalmente o nome de Quantificador (algum, certo, 
vrios, todo, todos, qualquer, alguns (de), vrios (de), etc.):

Alguns bons momentos so inesquecveis.

Todos os alunos saram.

Alguns de ns no foram  festa.

Aparecem como ps-determinantes, isto , as palavras que ocorrem  direita do determinante, e do pr-determinante, o pronome possessivo e o numeral:

Os seus livros no estavam na estante.

Aqueles dois erros eram graves.

Vrios de meus sobrinhos so engenheiros.

Aqueles dois seus vizinhos trabalham no comrcio.

2  Os que normalmente s ocorrem  esquerda do substantivo + determinantes, que incluem as seguintes classes de palavras:

a) artigo e os pronomes demonstrativos

Os bons filmes entraro em cartaz esta semana.

b) substantivo + pr-determinantes (que incluem as seguintes classes de palavras: pronome possessivo e o numeral):

Os seus livros no estavam na estante.

Aqueles dois erros eram graves.

c) substantivo + ps-determinantes (que incluem os quantificadores, representados pelos pronomes indefinidos)

Todos os trs meus bons amigos chegam hoje.

Os do tipo 1 (substantivo + adjetivo) podem ter estruturas diferentes:

a) um adjetivo:

belos dias em cidades agradveis

b) um grupo preposicionado equivalente a adjetivo, que pode ou no ter um correspondente signo lxico na lngua. Neste caso, quando o substantivo entra num grupo adjetivado, 
no concorda em gnero e nmero com o substantivo ncleo, e, se aparece no plural, no o faz pelo fenmeno da concordncia, mas em ateno  realidade comunicada: copo com 
defeito / copos com defeito; mas copo com defeito / copo com defeitos (por se querer referir a mais de um defeito existente no copo).

homem de coragem (corajoso)

po com manteiga (amanteigado)

copo com defeito (defeituoso)

casa de Pedro

cama de solteiro

c) uma orao transposta  funo adjetiva:

O homem que tem coragem (corajoso)

A casa que Pedro possui

Complemento nominal

2) 5Complemento nominal  Uma tradio gramatical mais recente, atentando para o aspecto da realidade comunicada, e de certas relaes gramaticais nela existentes, tem procurado 
distinguir os diversos sentidos em que se interpretam as expanses de substantivo como as seguintes, sem esgotar a exemplificao:

a resoluo do diretor

a priso do criminoso pela polcia

a remessa dos livros

a resposta ao crtico

o assalto pelo batalho

a ida a Petrpolis

Assim  que essa tradio, partindo do contedo de resoluo do diretor equivalente a o diretor resolveu, classifica do diretor como complemento (e no adjunto) nominal subjetivo. 
J em priso do criminoso, equivalente a o criminoso foi preso, teremos um complemento nominal subjetivo passivo. Em a remessa dos livros, equivalente a algum remeteu os 
livros, dos livros se classificar como complemento nominal objetivo. Como complemento nominal objetivo indireto ou terminativo ser ao crtico do grupo sintagmtico nominal 
a resposta ao crtico. Em o assalto pelo batalho, a expresso preposicionada ser classificada como complemento de agente ou de causa eficiente. J em ida a Petrpolis, 
teremos um complemento nominal circunstancial [JO.1, 223-227].

 primeira vista, em relao aos termos primrios da relao predicativa (sujeito-predicado), no h razo para um tratamento sinttico diferente do adjunto adnominal, tendo 
em vista que tambm com o complemento nominal a expanso do grupo sintagmtico no modifica a relao gramatical do ncleo:

Sujeito                                                   Predicado

A casa de Pedro                                     espaosa

A resoluo do diretor                          surpreendeu a todos

A priso do criminoso pela polcia       mereceu elogio da imprensa

Assim tambm qualquer variao tanto no ncleo do adjunto adnominal quanto no do complemento nominal no alterar a relao com o ncleo verbal:

Poderamos apontar outros aspectos gramaticais em que os dois termos apresentam traos comuns, como: a) a posio  direita do ncleo; b) a inexistncia de pausa; c) a introduo 
por preposio, obrigatria no complemento nominal e muito frequente no adjunto.

Todavia, o complemento nominal est semanticamente mais coeso ao ncleo, por representar uma construo derivada mediante a nominalizao, fenmeno que no ocorre no adjunto 
adnominal:

O diretor resolveu ? A resoluo do diretor

A polcia prendeu o criminoso ? A priso do criminoso pela polcia

Esta relao semntico-sinttica provoca a impossibilidade  se no estiver j assinalado ou conhecido no contexto  de apagamento do complemento nominal, sem que isto estabelea 
a razo primordial para distinguir o complemento do adjunto, uma vez que h adjuntos imprescindveis:

*A resoluo surpreendeu a todos

*A priso pela polcia mereceu elogio

Estando a nominalizao presente quer no complemento nominal de funo primria subjetiva (a resoluo do diretor ? o diretor resolveu), quer no de funo primria objetiva 
(a descoberta da imprensa ? Gutenberg descobriu a imprensa), no cabe classificar no exemplo a resoluo do diretor, do diretor como adjunto adnominal, enquanto no exemplo 
a descoberta da imprensa, da imprensa como complemento nominal [VK.4].

Ambos os termos participam das mesmas caractersticas prprias ao complemento nominal; alm da nominalizao, no admitem apagamento:

a resoluo do diretor ? *a resoluo

a descoberta da imprensa ? *a descoberta

Impe-se, desta maneira, incluir o complemento nominal como termo argumental.

Observao: Cabe no confundir casos de impossibilidade de apagamento com outros em que o nosso saber sobre as coisas do mundo impede, por incoerentes, construes do tipo 
Conheci um homem de pernas, Joo tem uma voz, uma vez que a nossa experincia concebe todo homem com pernas, ou com voz. Todavia, anula-se a incoerncia se tais substantivos 
vm acompanhados de adjetivos: Conheci um homem de pernas longussimas, Joo tem uma voz roufenha, j que nem todos os homens tm pernas longussimas nem voz fanhosa. Portanto, 
nestes casos no se trata de um saber idiomtico, mas de um saber elocutivo.

H evidente paralelismo entre a estrutura interna do complemento nominal e das oraes. Este tratamento especial do complemento nominal serve para explicar fatos gramaticais 
que ficam mais evidentes  luz desta distino.

Por exemplo, o termo nominalizado (substantivo, adjetivo ou advrbio de base nominal) pode contrair as mesmas relaes sintticas da construo bsica; se o ncleo verbal 
 complexo e se acompanha de complementos, a construo derivada apresenta estes termos:

A me ama o filho ? O amor de me ao filho

A polcia prendeu o ladro ? A priso do ladro pela polcia

Jesus ama as criancinhas ? o amor de Jesus s criancinhas

O carteiro entregou a carta de Jos ao Mrio ? A entrega da carta de Jos ao Mrio pelo carteiro

A seleo da preposio que introduz o complemento nominal quase sempre est determinada pela preposio que acompanha o complemento verbal:

Foi  cidade ? A ida  cidade

Penetrou na floresta ? A penetrao na floresta

Inclinou-se  msica ? A inclinao  msica

De modo geral, a gramtica tradicional tem apontado complementos nominais restritos a processos de nominalizaes que envolvem substantivos (desejo de vitria ? desejar a 
vitria), a adjetivos (desejoso de vitria ? desejar a vitria), ou a advrbios (referentemente ao assunto ? referente [adjetivo] ao assunto ? referncia [substantivo] ao 
assunto). Mas h outros que devem sua presena a traos semnticos do ncleo nominal, independentes de nominalizaes. Vejamos alguns desses tipos.

Como ncleo do sintagma nominal, teremos, de incio, substantivos formalmente relacionados a verbos que assumem relaes muito semelhantes s que ocorrem nas oraes, conforme 
j vimos nos exemplos:

a sada do trem / o trem saiu

a entrega da carta / (algum) entregou a carta ou a carta foi entregue

O substantivo formado de adjetivo tambm goza da estrutura argumental que lhe  prpria:

a cultura do professor / o professor culto

Todavia, como a estrutura argumental depende do significado lxico de cada palavra, substantivos h que, no se relacionando morfolgica ou materialmente a verbos e adjetivos, 
selecionam termos argumentais, inerentes ao contedo de pensamento designado. Tais termos atendem s duas condies bsicas do estatuto dos argumentos: a) o ncleo os seleciona 
semntica e categorialmente; b) o ncleo lhes impe uma interpretao determinada [EV.1, 32].

Esto neste caso de argumentos inerentes:

a) Os substantivos relacionais, isto , aqueles que no fazem referncia a indivduos, mas expressam relaes entre indivduos.  o caso dos termos de parentesco, do tipo 
de pai, me, filho, irmo:

o pai de Eduardo

a tia do Daniel

o irmo da Bebel

Incluem-se neste rol, naturalmente, substantivos como amigo, colega, companheiro:

o amigo de Cleto

a colega de Georgete

Cabe lembrar que substantivos referidos  mesma entidade podem incluir-se ou no no grupo dos relacionais. Por exemplo, ptria e pas; o primeiro  relacional, se significa 
o lugar de nascimento, porque  ptria sempre relacionado a algum, enquanto pas (nao, regio) no faz necessariamente referncia a um indivduo. O exemplo apresentado 
por Escandell Vidal mascote e co  mais evidente, porque a mascote pressupe s-lo de algum, o que no se d com o substantivo co.

Os nomes de partes do corpo e aqueles que aludem a partes constitutivas de uma entidade, fsica ou abstratamente considerada:

os braos da danarina

o rosto da criana

a face do problema

o galho da rvore

o crebro da equipe

o x da questo

b) Os substantivos icnicos, isto , que designam representao, tais como retrato, quadro, fotografia, filme, pelcula, quando referidos a entidades retratadas, pintadas, 
fotografadas, etc.

Note-se a diferena entre:

(1) O retrato de Machado de Assis

(2) O retrato da galeria

Em (1), o significado de retrato seleciona o termo argumental Machado de Assis, interpretado o sintagma nominal como o retrato em que aparece M. de Assis.

Em (2), j retrato se acha acompanhado de um adjunto adnominal, sendo o retrato da galeria interpretado como o retrato exposto na galeria.

Tambm pode, no caso (1), o termo argumental referir-se no  entidade retratada, mas ao prprio autor do retrato ou quadro:

O quadro de Vitor Meireles

As referncias  entidade retratada e ao seu autor podem concorrer no sintagma nominal mediante os dois termos argumentais:

O quadro da Proclamao da Independncia de Vitor Meireles (i. , o quadro que retrata a Proclamao da Independncia de autoria de Vitor Meireles).

Pode at juntar-se a esses dois termos argumentais o adjunto adnominal:

O quadro do Grito do Ipiranga de Vitor Meireles do Museu de Belas Artes

Incluem-se entre os substantivos que designam representao os que se aplicam a produtos da atividade intelectual, como livro, artigo, etc.:

O livro de Graciliano Ramos intitula-se Vidas Secas

Assim como o adjunto adnominal pode ser representado por uma expanso mais complexa do ncleo nominal, isto , por uma orao subordinada adjetiva:

A casa            comprada      est perto da cidade

A casa          que comprei     est perto da cidade,

assim tambm o complemento nominal pode ser representado por uma orao subordinada (originalmente substantiva) completiva nominal:

O desejo       de tua vitria          constante

O desejo        de que venas         constante

O aposto

3) O aposto  Outro componente do grupo sintagmtico nominal  o chamado aposto, cujo limite de distino com o adjunto adnominal propriamente dito  muitas vezes difcil 
de traar. Aparece em construes do tipo:

O rio Amazonas desgua no Atlntico.

O professor Machado honrou o magistrio.

Sousa cabeleireiro me conhece bem.

Meu primo Jos morou na Itlia.

E com ele [programa] tem vindo pela vida, satisfazendo a portugueses e brasileiros, que o consideramos uns e outros, soldado do seu grupo. [MC.2, 206]

Clarice, a primeira neta da famlia, cursa Direito.

Sousa, nosso cabeleireiro, no trabalha hoje.

Pedro II, imperador do Brasil, protegia jovens talentosos.

Eu Anibal peo a paz [MMa].

Amanh, sbado, no sairei [AK].

Chama-se aposto a um substantivo ou expresso equivalente que modifica um ncleo nominal (ou pronominal ou palavra de natureza substantiva como amanh, hoje, etc.), tambm 
conhecido pela denominao fundamental, sem precisar de outro instrumento gramatical que marque esta funo adnominal.

H diferena de contedo semntico entre uma construo do tipo O rio Amazonas e Pedro II, imperador do Brasil; na primeira, o substantivo que funciona como aposto se aplica 
diretamente ao nome ncleo e restringe seu contedo semntico de valor genrico, tal como faz um adjetivo, enquanto na segunda a sua misso  to somente explicar o conceito 
do termo fundamental, razo pela qual  em geral marcado por pausa, indicada por vrgula ou por sinal equivalente (travesso e parntese). Da a aposio do primeiro tipo 
se chamar especfica ou especificativa e a do segundo, explicativa.

O aposto explicativo pode apresentar valores secundrios que merecem descrio especial, como ocorre com os seguintes:

a) Enumerativo, quando a explicao consiste em desdobrar o fundamental representado por um dos pronomes (ou locuo) tudo, nada, ningum, cada um, um e outro, etc., ou por 
substantivo:

Tudo  alegrias, tristezas, preocupaes  ficava estampado logo no seu rosto.

Duas coisas o encorajavam, a f na religio e a confiana em si.

Duas cousas se no perdoam entre os partidos polticos: a neutralidade e a apostasia [MM].

s vezes esse tipo de aposto precede o fundamental:

A matemtica, a histria, a lngua portuguesa, nada tinha segredos para ele.

Em todos estes exemplos, o fundamental (tudo, duas coisas, nada) funciona como sujeito das oraes e, por isso, se estabelece a concordncia entre ele e o verbo.

Este aposto pode vir precedido das locues explicativas isto , por exemplo, a saber, verbi gratia (abreviatura [v. g.]):

Duas coisas o incomodavam, a saber, o barulho da rua e o frio intenso.

b) Distributivo:

Machado de Assis e Gonalves Dias so os meus escritores preferidos, aquele na prosa e este na poesia.

Um no automobilismo, outro no futebol, Senna e Pel marcaram um perodo de ouro no esporte brasileiro.

c) Circunstancial (comparao, tempo, causa, etc., precedido ou no de palavra que marca esta relao a mais, j que o aposto explicativo acrescenta um dado a mais acerca 
do fundamental):

As estrelas, grandes olhos curiosos, espreitavam atravs da folhagem. [EQ.2, 8 apud AK.1].

Artista  corta o mrmor de Carrara;

Poetisa  tange os hinos de Ferrara [CAv.1, II: 142]

Este tipo de aposto pode ser introduzido por como, na qualidade de:

As estrelas, como grandes olhos curiosos, espreitavam atravs da folhagem.

A ti, como general, compete o comandar.

D. Joo de Castro, vice-rei da ndia, empenhou os cabelos da barba.

Este tipo de aposto pode ser introduzido por quando:

D. Joo de Castro, quando vice-rei da ndia, empenhou os cabelos da barba [Epifnio Dias].

Paulinho, amigo, tirou-o da dificuldade.

Paulinho, porque amigo, tirou-o da dificuldade.

Aposio com de x Adjunto adnominal

4) Aposio com de x Adjunto adnominal  Algumas vezes, o aposto especificativo vem introduzido pela preposio de, especialmente se se trata de denominaes de instituies, 
de logradouros, de acidentes geogrficos:

Colgio de Santa Rita

Praa da Repblica

Ilha de Maraj

Cidade do Recife

Tal construo, materialmente falando, aproxima o aposto do adjunto adnominal preposicionado, que vimos antes; todavia, do ponto de vista semntico, h diferena entre Ilha 
de Maraj e casa de Pedro. Em casa de Pedro, casa e Pedro so duas realidades distintas, enquanto em ilha e Maraj se trata de uma s realidade, j que ambos querem referir-se 
a um s contedo de pensamento designado112 . Quanto ao emprego da preposio de nas construes deste ltimo tipo, como bem ensina Epifnio Dias, da arbitrariedade do uso 
 que depende o empregar-se em uns casos de definitivo, em outros a aposio. Diz-se, por exemplo: o nome de Augusto, mas a palavra Augusto; a cidade de Lisboa, mas o rio 
Tejo.

s vezes podem as construes com de provocar casos de sincretismo sinttico, com consequente efeito de ambiguidade, no diferenando o ttulo da ideia de posse ou pertena. 
Por isso, para os ttulos, no desejo de evitar a ambiguidade, vai-se generalizando o no emprego da preposio de: Rua Santa Teresa, Praa Paris, etc. Esta construo  antiga 
na lngua e paralela ao uso latino (Urbs Roma, Garumna flumen). Mas a presena da justaposio no francs e ingls tem feito que tal prtica seja condenada sem sucesso por 
estrangeirismo. A justaposio vai-se impondo em bomba relgio, mandato tampo, homem bala, traje passeio, em que o procedimento morfolgico de formao de compostos se sobrepe 
ao processo sinttico. A prtica, nestes casos, vacila entre o emprego ou no do hfen.

De qualquer maneira, o aposto e o adjunto adnominal so ambos expanses sintticas do ncleo nominal.

As construes uma joia de pessoa e o pobre do rapaz

5) As construes uma joia de pessoa e o pobre do rapaz  Em vez de uma pessoa joia e o pobre rapaz, em que o ncleo nominal (pessoa, rapaz) se acha acompanhado de um adjunto 
adnominal (joia, pobre), aparecem, numa forma carregada de afetividade, as expresses uma joia de pessoa e o pobre do rapaz, em que o primitivo adjunto passa formalmente a 
ncleo e o antigo ncleo passa a adjunto, mediante a presena da preposio de. Tem-se muito discutido como se formaram estas expresses derivadas, sem que tenhamos uma soluo 
cabal; mas se pode fili-las a frases exclamativas sem verbo do tipo de ai de mim!, pobre de mim!, etc.[FDz.1, III:131].

Ao lado da carga afetiva positiva em construes do tipo o bom do proco pode ocorrer a carga negativa o burro do cliente, a droga do cliente; neste ltimo caso cria-se uma 
ambiguidade entre as equivalncias o cliente  uma droga e o cliente tem uma droga.

Substantivo + adjetivo = Adjetivo + substantivo

Pode ocorrer sincretismo sinttico em grupos nominais do tipo sbio alemo, em que se pode corretamente entender, de um lado, a existncia de um sbio (substantivo) de nacionalidade 
alem (adjetivo), ou, de outro, um alemo (substantivo) que  sbio (adjetivo). H aqui, portanto, uma coincidncia material de combinao de formas lingusticas, mediante 
a qual substantivo + adjetivo = adjetivo + substantivo [ECs.4, 246].

A interpretao mais natural ou, pelo menos, mais imediata,  considerar o segundo termo como adjetivo, isto , como adjunto adnominal.  a lio de M. Barreto, em grupos 
nominais do tipo menino rei / rei menino, filsofo rei / rei filsofo [MBa.7, 326]. Assim entendeu Machado de Assis ao definir que as Memrias Pstumas de Brs Cubas eram 
as de um defunto autor (= que escreve) e no de um autor defunto (= que morreu).

Graus de coeso nos grupos nominais

6) Graus de coeso nos grupos nominais  s vezes, o ncleo nominal j expandido por um adjunto adnominal constitudo por adjetivo vem acrescido de outro adjetivo, como

os competentes atletas mineiros,

em que ao grupo inicial os competentes atletas se junta o adjunto adnominal mineiros, que no se refere to somente ao substantivo atletas, mas ao conjunto competentes atletas. 
Assim, competentes guarda maior grau de coeso em relao a atletas do que o adjetivo mineiros. Temos aqui um exemplo de hipotaxe estudada em, em que o grupo de palavras competentes 
atletas passa a funcionar no estrato de palavra e, assim, pode receber o adjunto adnominal mineiros.

Podem estar juntos os dois adjetivos, sem que se altere o grau de coeso:

a situao poltica atual [VK.1, 161]

O adjetivo menos coeso (atual) em relao ao nome (situao) pode mudar de posio, diferentemente do mais coeso (poltica):

a atual situao poltica

mas no:

*a poltica situao atual

Tambm o menos coeso no pode intercalar-se entre o ncleo e o mais coeso:

* a situao atual poltica

O aposto com expresses do tipo pr nome

7) O aposto com expresses do tipo pr nome  Depois do substantivo das expresses pr nome, ter nome e equivalentes, com o significado de chamar(-se), dar nome, pode 
aparecer um aposto:

Quem o seu co quer matar, raiva lhe pe nome [MBa.4, 64].

Aposto referido a uma orao

8) Aposto referido a uma orao  O aposto no s se refere a qualquer ncleo nominal em qualquer funo da orao; pode referir-se ao contedo de pensamento expresso numa 
orao inteira:

Depois da prova, Filipe estava radiante, sinal de seu sucesso.

Como aposto de uma orao inteira costuma aparecer um substantivo como coisa, razo, motivo, fato e equivalente, sempre acompanhado de um adjunto adnominal, ou de uma orao 
subordinada adjetiva substantivada pelo artigo o:

O desastre provocou muitas vtimas, coisa lastimvel.

Os convidados no foram  festa, o que deixou o aniversariante frustrado.

Observao: A tradio gramatical entre ns tem considerado neste ltimo caso como pronome demonstrativo (= aquele, aquilo, isto) usado neutralmente, o o que precede o que, 
modificado por uma orao adjetiva, em vez de considerar essa mesma orao adjetiva substantivada pelo artigo o, como fizemos aqui. Discutimos o assunto mais adiante.

Vocativo: uma unidade  parte

9) Vocativo: uma unidade  parte  Desligado da estrutura argumental da orao e desta separado por curva de entoao exclamativa, o vocativo cumpre uma funo apelativa de 
2. pessoa, pois, por seu intermdio, chamamos ou pomos em evidncia a pessoa ou coisa a que nos dirigimos:

Jos, vem c!

Tu, meu irmo, precisas estudar!

Felicidade, onde te escondes?

Algumas vezes vem precedido de , que a tradio gramatical inclui entre as interjeies, pela sua correspondncia material, mas que, na realidade, pode ser considerado um 
morfema de vocativo, dada a caracterstica entonacional que a diferencia das interjeies propriamente ditas [HCv.2, 197 n.47].

Deus,  Deus, onde ests que no respondes? [CAv.1, 141]

Estes exemplos nos pem diante de algumas particularidades que envolvem o vocativo. Pelo desligamento da estrutura argumental da orao, constitui, por si s, a rigor, uma 
frase exclamativa  parte ou um fragmento de orao,  semelhana das interjeies. Por outro lado, como no caso de Tu, meu irmo, precisas estudar!, s vezes, se aproxima 
do aposto explicativo, pela razo que vai constituir a particularidade seguinte. Por fim, o vocativo, na funo apelativa, est ligado ao imperativo ou contedo volitivo da 
forma verbal, j que, em se tratando de ordem ou manifestao de desejo endereada  pessoa com quem falamos ou a quem nos dirigimos, presente quase sempre, no h necessidade 
de marcar gramaticalmente o sujeito. Quando surge a necessidade de explicit-lo, por algum motivo, aludimos a esse sujeito em forma de vocativo [RLz.1, 66].

Assim  que em:

Deixa-me! Deixa-me a vagar perdida...

Tu! - parte! volve para os lares teus. [CAv.1, 191],

tu no  o sujeito de parte, e sim vocativo, espcie de aposio  ideia do sujeito, contida no imperativo [HCv.2, 197 n.47]. Ocorre o mesmo com o substantivo poeta em:

Vai, Poeta... (Id., ibid.: 116)

Pelos exemplos aduzidos at aqui, v-se que o vocativo pode ser representado por substantivo ou pronome, podendo admitir a presena de expanses (p. ex., de adjuntos adnominais, 
de oraes adjetivas):

Desce do espao imenso,  guia do oceano!

Senhor Deus, que aps a noite

Mandas a luz do arrebol,

Que vestes a esfarrapada

Com o manto rico do sol. [CAv.1, 88]

Na correspondncia epistolar, o vocativo vem separado do resto do enunciado por vrgula, enquanto em textos de outra natureza costuma aparecer o emprego dos dois pontos (:) 
ou do ponto de exclamao (!).

2  Oraes Complexas e Grupos Oracionais:
 a Subordinao e a Coordenao.
 A Justaposio

Subordinao: orao complexa

Subordinao: orao complexa  Uma orao independente do ponto de vista sinttico, que sozinha, considerada como unidade material, constitui um texto, se este nela se resumir, 
como em

A noite chegou,

pode, pelo fenmeno de estruturao das camadas gramaticais conhecido por hipotaxe ou subordinao, passar a uma camada inferior e a funcionar como pertena, como membro 
sinttico de outra unidade;

O caador percebeu que a noite chegou.

A primitiva orao independente a noite chegou transportou-se do nvel sinttico de independncia para exercer a funo de complemento ou objeto direto da relao predicativa 
da orao a que pertence o ncleo verbal percebeu: o caador percebeu.

Dizemos, ento, que a unidade sinttica que a noite chegou  uma orao subordinada. A gramtica tradicional chama  unidade o caador percebeu orao principal. Gramaticalmente, 
a unidade oracional O caador percebeu que a noite chegou  uma unidade sinttica igual a O caador percebeu a chegada da noite, onde a chegada da noite integra indissoluvelmente 
a relao predicativa que tem por ncleo e verbo percebeu, na funo de complemento ou objeto direto.

Assim, levando em conta os constituintes imediatos, h um primeiro momento em que se analisa por inteiro a unidade sinttica O caador percebeu que a noite chegou, para depois 
se analisar o termo sinttico que se apresenta sob forma oracional:

Sujeito: o caador

Predicado: percebeu que a noite chegou

Objeto direto: que a noite chegou.

Como o objeto direto est constitudo por uma orao subordinada, so passveis de anlise suas unidades sintticas constitutivas:

Sujeito: a noite

Predicado: chegou

Orao complexa e grupos oracionais

Orao complexa e grupos oracionais  A rigor, o conjunto complexo que a noite chegou no passa de um termo sinttico na orao complexa O caador percebeu que a noite chegou, 
que funciona como objeto direto do ncleo verbal percebeu. Estas unidades transpostas exercem funo prpria de meros substantivos, adjetivos e advrbios, razo por que so 
assim classificadas na orao complexa. Todavia, a presena de um ncleo verbal (que a noite chegou) leva a tradio a ver a tambm uma unidade de carter oracional, ao lado 
da unidade oracional (porque tambm tem verbo) a que se prende, embora, isoladamente, nenhuma das duas satisfaa as demais condies que caracterizam uma orao, alm da presena 
do verbo integrando uma relao predicativa:

a) a delimitao entre duas pausas e o contorno meldico;

b) existncia de um ato completo de comunicao em cada situao de fala concreta.

Assim, apesar destas consideraes, esta gramtica respeitar o peso da tradio e ver, num primeiro momento de anlise em constituintes imediatos, uma orao complexa (a 
que tambm alguns gramticos nossos chamavam orao geral, como, por exemplo, Jos Oiticica), para depois analisar como orao subordinada o complexo unitrio correspondente 
a uma funo sinttica exercida por substantivo, adjetivo ou advrbio.

Diferente deste caso ser o grupo oracional integrado por oraes sintaticamente independentes, que, por isso, poderiam aparecer em separado:

O caador chegou  cidade e procurou um hotel.

ou

O caador chegou  cidade. Procurou um hotel.

Temos aqui um grupo de enunciados da mesma camada gramatical, isto , como oraes, o que caracteriza uma das propriedades de estruturao das camadas gramaticais conhecida 
por parataxe ou coordenao.

Da s podermos, a rigor, falar em oraes compostas, grupos oracionais ou perodo composto quando estivermos diante de oraes coordenadas.

No causar estranheza, se atentarmos para o princpio dos constituintes imediatos, que haja coordenao entre qualquer unidade da mesma camada gramatical: homem e mulher, 
(dois substantivos) estudioso e inteligente (dois adjetivos), ontem e hoje (dois advrbios), leio e compreendo (dois verbos), com e sem (duas preposies), um substantivo 
e orao substantiva (desejo a vitria e que tenhas sucesso), um adjetivo e orao adjetiva (inteligente e que tem bom corao), advrbio e orao adverbial (agora e quando 
estiveres pronto), duas oraes da mesma funo sinttica (desejo que venas e que sejas feliz), etc.

Por hipertaxe ou hipotaxe, uma unidade pode passar, respectivamente, a camadas gramaticais superiores ou inferiores, e depois ocorrer a coordenao.

Que: marca de subordinao oracional

Que: marca de subordinao oracional  No exemplo O caador percebeu que a noite chegou, a marca de que a orao independente passou pelo processo da subordinao, a funcionar 
como membro de uma outra orao,  o que, conhecido tradicionalmente como conjuno integrante.

Na realidade esse que no tem por misso precpua juntar duas oraes  como fazem as conjunes coordenativas  , mas to somente marcar o processo por que se transps 
uma unidade de camada superior (uma orao independente) para funcionar, numa camada inferior, como membro de outra orao.

Da no corresponder  nova realidade material da unidade sinttica subordinada a denominao tradicional de oraes compostas ou perodo composto. Temos sim oraes complexas, 
isto , oraes que tm termos determinantes ou argumentais complexos, representados sob forma de outra orao. S haver oraes ou perodos compostos quando houver coordenao. 
Dizemos que esse que  um transpositor.

Oraes complexas de transposio substantiva

Oraes complexas de transposio substantiva  A orao transposta, inserida na orao complexa,  classificada conforme a categoria a que corresponde e pela qual pode ser 
substituda no desempenho da mesma funo. Da ser a orao transposta classificada como substantiva, adjetiva ou adverbial, segundo a tradio gramatical, pois desempenha 
funo sinttica normalmente constituda por substantivo, adjetivo ou advrbio. Assim, em nosso exemplo, O caador percebeu que a noite chegou, a orao transposta inserida 
na orao complexa (que) a noite chegou ser substituda pelo substantivo a chegada da noite (O caador percebeu a chegada da noite), e a orao transposta pelo processo da 
subordinao funcionar tambm como objeto direto da relao predicativa que tem como ncleo verbal percebeu.

A orao subordinada transposta substantiva aparece inserida na orao complexa exercendo funes prprias do substantivo, ressaltando-se que a conjuno que pode vir precedida 
de preposio conforme exera funo que necessite desse ndice funcional:

a) Sujeito: Convm que tu estudes / Convm o teu estudo.

b) Objeto direto: O pai viu que a filha sara / O pai viu a sada da filha.

c) Complemento relativo: Todos gostam de que sejam premiados / Todos gostam de prmio.

d) Predicativo: A verdade  que todos foram aprovados / A verdade  a aprovao de todos.

e) Objeto indireto: Enildo dedica sua ateno a que os filhos se eduquem / Enildo dedica sua ateno  educao dos filhos.

f ) Aposto: Uma coisa lhe posso adiantar, que as crianas so a alegria dos adultos. Uma coisa lhe posso adiantar, a alegria das crianas aos adultos.

Observao: Para as funes de complemento nominal e agente da passiva.

5  Oraes subordinadas resultantes de substantivao: as interrogativas e exclamativas  Sem precisar do transpositor que, as oraes interrogativas e exclamativas, desprovidas 
do particular contorno meldico e iniciadas por uma unidade desses valores semnticos, podem-se substantivar e exercer funo prpria de substantivo na orao complexa:

Ainda no sei que vou fazer hoje (cf. Que vou fazer hoje?)

Os comerciantes desconhecem que a mercadoria ter mais sada no
 prximo vero.

O professor pergunta qual  o motivo da algazarra.

Ainda no descobrimos por que ele saiu cedo.

A vizinha descobriu quem lhe telefonou de madrugada.

O treinador decidiu como o time conter o adversrio.

O calouro ainda no sabe para que especialidade mdica se dirigir.

No adivinhava quanta alegria causou em ns.

Observaes:

1.) Opondo-se ao transpositor que, que no exerce funo sinttica, as unidades interrogativas e exclamativas (pronomes e advrbios) tm funo sinttica na orao subordinada 
a que pertencem.

2.) Na lngua popular e regional  reminiscncia de antigo uso , pode aparecer o transpositor que antes da unidade interrogativa: No sei que por que s chega tarde. Perguntavam-me 
que por onde havia fugido.

Tambm aparece desprovida do que a orao subordinada de valor semntico de incerteza ou dvida, que primitivamente era uma interrogativa geral, passando a conjuno se a 
transpositora: No sei se a prima vir cedo. Perguntavas se o jogo seria hoje.

Oraes complexas de transposio adjetiva

Oraes complexas de transposio adjetiva

1) Oraes adjetivas ou de relativo

Tomemos a seguinte orao

O aluno estudioso vence na vida,

em que o adjunto adnominal representado pelo adjetivo estudioso pode tambm ser representado por uma orao que, pela equivalncia semntica e sinttica com estudioso, se 
chama adjetiva:

O aluno            que estuda           vence na vida.

O aluno            estudioso             vence na vida.

Repare que a orao independente

O aluno estuda,

mediante o transpositor que, representado pelo pronome relativo, transpe a orao independente a funcionar, num nvel inferior, como adjunto adnominal do substantivo aluno, 
tal qual fazia o adjetivo estudioso da orao bsica O aluno estudioso vence na vida. Da dizer-se que a orao transposta que estuda  subordinada adjetiva.

O transpositor relativo que, na orao subordinada reintroduz o antecedente a que se refere, acumula tambm uma funo de acordo com a estrutura sinttica da orao transposta.

No exemplo acima:

O aluno que estuda vence na vida,

a orao que estuda vale por o aluno estuda, j que o pronome relativo  a o representante do antecedente aluno. Analisando o aluno estuda, o sujeito explcito  o aluno, 
o que nos leva a verificar que o pronome em que estuda funciona como sujeito explcito do ncleo verbal estuda.

2) O relativo marcado por ndice preposicional

J em

O livro de que gostas est esgotado,

o relativo que reintroduz tambm o antecedente livro, de modo que a orao subordinada de que gostas vale por gostas do livro, em que do livro  complemento relativo do ncleo 
verbal gostas. Se assim , na orao subordinada de que gostas o pronome relativo funciona como complemento relativo. E como o complemento relativo  um termo argumental marcado 
por um ndice preposicional e como o verbo gostar se acompanha da preposio de,  imprescindvel que este ndice esteja introduzindo o relativo que:

O livro de que gostas est esgotado.

Em

A cidade a que nos dirigimos ainda est longe,

o relativo que reintroduz na orao subordinada adjetiva a que nos dirigimos o substantivo cidade, e vale por nos dirigimos  cidade, em que o ncleo verbal dirigimos requer 
um termo argumental marcado pelo ndice preposicional a, preposio que, portanto, no deve faltar anteposta ao relativo, que funciona como complemento relativo do ncleo 
verbal nos dirigimos:

A cidade a que nos dirigimos ainda est longe.

Oraes adjetivas explicativas e restritivas  J vimos que o adjetivo pode antepor-se ou pospor-se ao substantivo e que, segundo sua posio o adjetivo pode variar de valor. 
Em geral, o adjetivo anteposto (tambm chamado epteto) traduz, por parte da perspectiva do falante, valor explicativo ou descritivo: a triste vida. Aqui o adjetivo no designa 
nenhum tipo de vida que se oponha a outro que no seja triste; apenas se descreve como a vida , e, como diz Alarcos Llorach, quase vale por a vida com sua tristeza [AL.1, 
82]. Agora, se dissssemos, a vida triste, nos estaramos restringindo a uma realidade que se ope a outras, como vida alegre, vida bomia, etc. Neste caso, o adjetivo se 
diz restritivo.

A orao adjetiva tambm conhece esses dois valores; a adjetiva explicativa alude a uma particularidade que no modifica a referncia do antecedente e que, por ser mero apndice, 
pode ser dispensada sem prejuzo total da mensagem. Na lngua falada, aparece marcada por pausa em relao ao antecedente e, na escrita,  assinalada por adequado sinal de 
pontuao, em geral, entre vrgulas:

O homem, que vinha a cavalo, parou defronte da igreja.

Repare-se em que a orao adjetiva que vinha a cavalo denuncia que, na narrao, s havia um homem, de modo que a declarao que vinha a cavalo pode ser dispensada:

O homem parou defronte da igreja

J em

O homem que vinha a cavalo parou defronte da igreja,

a orao adjetiva, proferida sem pausa e no indicada na escrita por sinal de pontuao a separ-la do antecedente, demonstra que na narrao havia mais de um homem, mas s 
o que vinha a cavalo parou defronte da igreja. A esta subordinada adjetiva se chama restritiva.

 semelhana do que se fez com a orao complexa em cuja estrutura h uma orao subordinada substantiva, num primeiro momento da anlise, levando em conta o princpio dos 
constituintes imediatos, analisar-se- por inteiro a unidade sinttica O aluno que estuda vence na vida, para depois se analisar o termo sinttico que se apresenta sob forma 
oracional:

Sujeito:                        O aluno que estuda

Predicado:                    vence na vida

Adjunto adverbial:       na vida

Como o adjunto adnominal est constitudo por uma orao subordinada adjetiva, so passveis de anlise suas unidades sintticas constitutivas:

Sujeito:                   que (= o aluno)

Predicado:             estuda

Adjetivao de orao originariamente substantiva  A unidade complexa homem corajoso pode ser substituda por homem de coragem, em que o substantivo coragem transposto por 
uma preposio ao papel de adjetivo funciona tambm como adjunto do ncleo nominal.

Esta mesma possibilidade de transposio a adjetivo modificador de um grupo nominal mediante o concurso de preposio conhece a orao originariamente substantiva. Este grupo 
nominal pode ter como ncleo um substantivo, um adjetivo.

Ncleo substantivo:

O desejo de que se apurem os fatos  a maior preocupao dos diretores.

A crena em que a crise se espalhe atormenta todos ns.

A desconfiana de se devemos ir avante  logo desfeita.

Ncleo adjetivo:

Estvamos todos desejosos de que o concurso sasse logo.

O negociante estava cnscio de que sua responsabilidade era grande.

Observao: Sendo as expresses preposicionadas de desejo de glria, nsia de liberdade, desejoso da glria, ansioso de liberdade modificadores dos ncleos nominais (e por 
isso mesmo chamados complementos nominais) e funcionalmente partcipes da natureza dos adjetivos, manda a coerncia que as oraes que funcionam como complemento nominal sejam 
includas entre as adjetivas  como fizemos aqui  e no entre as substantivas, como faz a tradio entre ns. Como vimos, elas so primitivamente substantivas, mas que, num 
segundo momento de estruturao, para funcionarem como modificadoras de substantivos e adjetivos, so transpostas a adjetivas mediante o concurso da preposio.

Ocorre o mesmo com as oraes que funcionam como agente da passiva que, primitivamente substantivas, so transpostas a adverbiais mediante a preposio por.

Substantivao de oraes originariamente adjetivas  Em O homem sbio  guia seguro, o adjetivo sbio pode ocupar o papel da unidade complexa mediante sua substantivao: 
O sbio  guia seguro, onde se deu o apagamento do substantivo homem e se marcou o novo carter substantivo de sbio com a anteposio do artigo o.

Tambm conhece esse expediente de substantivao a orao transposta adjetiva mediante o apagamento do antecedente dos relativos quem e que e a presena do artigo, se o antecedente, 
pela situao do discurso,  conhecido dos interlocutores ou se lhe quer dar certo ar de generalizao:

O homem que cala e ouve no dissipa o que sabe, e aprende o que ignora [MM].

Os que mais blasonam de honra e probidade, so como os poltres que se inculcam de valentes [MM].

Os elogios de maior crdito so os que os nossos prprios inimigos nos tributam [MM].

Para quem no tem juzo os maiores bens da vida se convertem em gravssimos males [MM].

Observao: Alguns autores preferem desdobrar o quem em aquele(s) que, aquela(s) que e considerar a unidade o, a, os , as como pronomes demonstrativos representados na orao 
adjetiva pelo pronome relativo que, de modo que, no aceitando a substantivao nesses casos, analisam a subordinada como adjetiva: No conheo quem chegou = No conheo aquele 
que chegou. No conheo os que chegaram = No conheo aqueles que chegaram. So possveis as duas maneiras de analisar tais construes.

Ocorre o mesmo com outros pronomes e advrbios relativos destitudos de antecedente:

quanto

por que

como

No sabemos

quando

comprou

onde

que

qual

Nota: A orao substantiva funciona, nestes exemplos, como objeto direto do verbo saber.

Desconheo que admirveis presentes ganhaste.

Ignorava quais os alunos que haviam perturbado as aulas.

quem tudo quer tudo perde (orao subjetiva).113

Falava a quem lhe pedia conselhos (orao objetiva indireta).

Fizeram quanto lhes pedi (orao objetiva direta).

Reconheo quo enganados nos achvamos a seu respeito (orao objetiva direta).

Peo que anote quais foram os responsveis (orao objetiva direta).

A polcia descobriu quando foi o roubo (orao objetiva direta).

Os jornais explicaram como os ladres conseguiram fugir (orao objetiva direta).

Os garotos no descobriram onde os pais tinham posto os presentes (orao objetiva direta).

Os vizinhos no entenderam por que o fogo foi violento (orao objetiva direta).

Ele  quem os avisa (orao predicativa).

No sabia por quem tinha sido enganado (orao objetiva direta).

Assim, substituem quem por a pessoa que, aquele que; quanto por o tanto que; quando por o momento em que; como por o modo pelo qual; onde por o lugar em que; por que por o 
motivo pelo qual.

Analisam Quem tudo quer tudo perde desta maneira:

A pessoa   |   que tudo quer   |   tudo perde.

1. orao:  principal: a pessoa tudo perde.

2. orao:  subordinada adjetiva: que tudo quer.

A anlise que adotamos tem a vantagem de encarar uma realidade da lngua, e no uma substituio que a ela realmente nem sempre equivale.114

No se transportam a substantivas as oraes adjetivas introduzidas pelos relativos cujo e o qual.

Transposta a substantiva, a orao de relativo sem antecedente expresso pode exercer as funes prprias das substantivas originais. Assim, nos exemplos acima, o que sabe 
e o que ignora fazem o papel de objeto direto dos ncleos verbais dissipa e aprende, do primeiro. No segundo, os que mais blasonam de honra e probidade  o sujeito de so; 
no terceiro, os que os nossos prprios nos tributam  predicativo de so. No quarto exemplo, a quem no tem juzo funciona como objeto indireto da unidade verbal complexa 
dar liberdade.

Para marcar a natureza substantiva da orao transposta costuma-se anteceder de artigo a interrogativa indireta, prtica s vezes injustamente condenada [ED.2,  362]:

No sei o quanto lhe devo nessa ajuda.

Mais uma construo de orao j transposta  A orao relativa sem antecedente transposta a substantiva pode ser de novo transposta a adjetiva com o concurso de preposio 
 geralmente de  e funcionar como modificador de substantivo.

Repare-se nas construes derivadas da construo bsica o homem sbio ? o sbio ? o trabalho do sbio, em que, nesta ltima fase, o adjetivo substantivado sbio recebe o 
concurso da preposio de para desempenhar o papel de modificador ou adjunto do ncleo trabalho. Assim tambm em:

O maior trabalho dos que governam  tolerar os importunos [MM],

a orao relativa substantivada os que governam, mediante a preposio em dos que governam, passa a exercer funo prpria de adjetivo como modificador do substantivo trabalho.

Tambm a orao de relativo transposta a substantiva pode, com o curso de preposio, passar a exercer papel de advrbio e, assim, funcionar como adjunto circunstancial.

Nenhum senhorio  to absoluto como o que conferem os povos aos tiranos de sua escolha [MM] (comparativa).

O tempo voa para quem goza, e se arrasta para quem padece [MM] (inclinao).

O livro foi escrito por quem no se esperava (agente da passiva).

Oraes complexas de transposio adverbial

Oraes complexas de transposio adverbial  Refletindo a classe heterognea dos advrbios, tambm as oraes transpostas que exercem funes da natureza do advrbio se repartem 
por dois grupos:

a) as subordinadas adverbiais propriamente ditas, porque exercem funo prpria de advrbio ou locuo adverbial e podem ser substitudas por um destes (advrbio ou locuo 
adverbial): esto neste caso as que exprimem as noes de tempo, lugar, modo (substituveis por advrbio), causa, concesso, condio e fim (substituveis por locues adverbiais 
formadas por substantivo e grupos nominais equivalentes introduzidos pelas respectivas preposies);

b) as subordinadas comparativas e consecutivas.

As subordinadas adverbiais propriamente ditas  As adverbiais do 1. grupo exercem funo prpria de advrbio, que , como vimos, um adjunto ou determinante circunstancial 
no argumental do ncleo verbal. Do ponto de vista constitucional, esto representados por advrbios (os de tempo, lugar e modo) ou pelas chamadas locues adverbiais, constitudas 
por substantivos ou grupos nominais equivalentes introduzidos pelas respectivas preposies (as circunstncias anteriores e, especialmente, as que denotam causa, concesso, 
condio e fim).

Da tais oraes adverbiais, do ponto de vista constitucional, se assemelharem s substantivas, j que se identificam com estas em funes adverbiais, como ocorre com o substantivo 
transposto ao papel de advrbio mediante o concurso de preposio:

Saiu de noite.

Estudamos com prazer.

Trabalhas na fbrica.

Passeamos pela cidade.

Destarte, quando as oraes mediante o transpositor que se transpem a subordinadas substantivas e passam a funcionar como adverbiais, so marcadas pela respectiva preposio, 
constituindo assim as impropriamente chamadas locues conjuntivas: sem que, para que, desde que, porque (= por + que), que, etc. Impropriamente locues conjuntivas, porque 
no se trata de uma unidade complexa, mas de dois elementos com papis diferentes: a preposio assinala a noo circunstancial de que semanticamente se reveste a orao transposta 
ou subordinada; o que marca o novo papel da orao independente originria que passa a funcionar, num plano inferior, como termo sinttico dentro da orao complexa:

Os alunos estudam muito para que possam preparar-se para as exigncias da vida.

Os convidados saram sem que fossem notados.

O advogado no o defendeu porque o ru s mentiu no depoimento.

Outras particularidades nos transpositores das oraes adverbiais  Alm do que precedido da conveniente preposio como vimos at aqui, devemos assinalar as seguintes outras 
particularidades:

a) Quando usados sem referncia a antecedente, os advrbios relativos onde, quando, como e quanto (este com preposio) transpem a orao a que pertencem, que passa a exercer 
papel de adjunto adverbial:

Onde me espetam fico.

Saste quando a festa melhorava.

O prdio foi construdo como estava planejado.

S trabalhava por quanto dinheiro ganhase para a viagem.

b) Outros advrbios ou unidades de valor adverbial, prximos aos advrbios relativos, tambm transpem oraes para exercer papel adverbial, como ocorre com se (hipottico), 
conforme, apenas, caso, enquanto:

Se o emprego  nessas condies, ele no me interessa.

Seus sonhos se realizaram conforme ela planejara.

c) Tambm os pronomes relativos sem referncia a antecedente ou precedidos de artigo transpem orao subordinada a substantivo, podendo esta orao subordinada substantiva 
passar a exercer funo adverbial se vem acompanhada da conveniente preposio:

Ela s saa com quem lhe merecia confiana

O vizinho errou quando depositou suas economias no que era bastante precrio.

d) A orao transposta de que pode funcionar como determinante de um advrbio, de modo que s vezes o conjunto advrbio + que passa a funcionar como um transpositor unitrio 
(ainda que, ainda quando, j que, sempre que, logo que, assim que, etc), em que o significado originrio do advrbio fica modificado [AL.1, 355]:

Sempre que corramos  janela, assistamos ao espetculo da natureza.

Logo que tudo fique resolvido, o vizinho se mudar.

Observao: Primitivamente o advrbio era um elemento da orao deslocado, que devia modificar um ncleo verbal daquela a que a rigor pertencia, e que passou a integrar outra 
orao.

e) Pelo fenmeno da subordinao ou hipotaxe, palavras ou grupos de palavras (advrbio ou substantivo adverbializado) passam a um estrato inferior e exercem papel prprio 
de morfema, aqui de preposio, pela qual podem ser substitudos:

em virtude de doena = por doena

em cima da mesa = sobre a mesa

graas  ajuda = com a ajuda

debaixo da escada = sob a escada

dentro de pouco = por pouco

Neste caso, introduzindo uma orao transposta mediante que, esta exercer papel adverbial:

Em virtude de que era o mais saudvel, disps-se a trabalhar pelo grupo.

f) Alguns particpios fixos no masculino singular se unem a oraes transpostas mediante que dando origem a transpositores complexos de oraes adverbiais, do tipo de dado 
que, posto que, visto que, suposto que, salvo que, exceto que, no obstante que:

Nada resolveu o problema, visto que no houve entendimento prvio das partes em litgio.

Os turistas desistiram da visita dado que chovia torrencialmente.

Observao: Primitivamente o que introduzia orao que funcionava como sujeito do particpio, o que explica estar este no masculino singular, pois uma orao definida materialmente 
 considerada do gnero masculino e do nmero singular.

As subordinadas adverbiais comparativas e consecutivas  As subordinadas adverbiais do 2. grupo, integradas pelas comparativas e consecutivas, guardam certa analogia com 
as adjetivas porque dependem de um antecedente, de natureza quantificadora ou de unidade quantificada (adjetivo ou advrbio) e s mantm relao direta com o ncleo verbal 
da orao junto com seu antecedente. Assim  que em

Janete estuda mais que trabalha,

a orao subordinada que trabalha est presa ao advrbio mais, e o conjunto mais que trabalha, que manifesta uma comparao com o fato anterior, funciona como adjunto adverbial 
do ncleo verbal estuda.

O mesmo ocorre em

Janete  to aplicada aos estudos que no lhe sobra tempo para o trabalho.

Aqui a orao subordinada que no lhe sobra tempo para o trabalho, que manifesta a consequncia ou encarecimento do fato anterior, tambm est presa ao quantificador to que 
funciona como adjunto adverbial de aplicada, e o conjunto to aplicada aos estudos que no lhe sobra tempo para o trabalho, valendo por um adjetivo a modificar o substantivo 
Janete, funciona como predicativo do verbo .

O carter do adjunto, portanto de termo no argumental, tanto da orao subordinada comparativa quanto da consecutiva, se manifesta pelo fato de se poder eliminar, em cada 
caso, a orao subordinada, e continuar perfeita a orao anterior:

Janete estuda mais.

Janete  to aplicada aos estudos.

Os diversos tipos de comparativas  Como j vimos, a comparao pode manifestar-se estabelecendo uma igualdade (tanto... quanto), uma superioridade (mais...que ou do que), 
uma inferioridade (menos...que ou do que) entre duas realidades ou conceitos.

A alternncia de que e do que nasceu, em poca relativamente recente, da construo primitiva em que a orao transposta que modificava mais ou menos era uma substantivada 
iniciada por o que..., precedida de preposio de: mais (menos) do que = mais (menos) daquilo que [ED.2, 171; TM.1, 205].

Dos quantificadores, tambm j dissemos que s aparece flexionado em gnero e nmero o tanto adnominal, em conformidade com o substantivo ou pronome que modifique. Tanto  
invarivel quando se apresenta como advrbio. Vale ainda lembrar que os quantificadores mais e menos podem ser reforados por advrbio: muito mais, pouco mais, muito menos, 
pouco menos, etc.

Outras unidades comparativas  Alm dos quantificadores referidos, podem em seu lugar aparecer:

a) as formas adjetivas maior, menor, melhor, pior:

As qualidades devem ser maiores que os vcios.

b) unidades multiplicativas, indefinidas (como outro, mesmo, igual) e advrbios de valor seletivo (como antes):

A nota conseguida  o dobro que o candidato merecia.

No pensava em outra coisa que tirar proveito dos amigos.

Tudo nele era o mesmo que se vira antes.

O roubo antes denigre o ladro que lhe aumenta os haveres.

As oraes subordinadas consecutivas  Como vimos, a orao transposta consecutiva tambm se aproxima da adjetiva relativa por estar o transpositor que relacionado com uma 
unidade quantificadora da orao anterior:

Janete  to aplicada aos estudos que no lhe sobra tempo para o trabalho.

Pelo exemplo acima percebe-se que a orao subordinada manifesta uma consequncia; mas o valor semntico primordial  assinalar que o quantificador encarece o contedo de 
pensamento designado.

No exemplo:

Ela sentia tal medo que a deixava paralisada,

se eliminarmos o encarecedor, o quantificador tal, a orao subordinada poder confundir-se com a adjetiva relativa se no for proferida com o contorno meldico que em geral 
marca a consecutiva, o que a faz poder ser assinalada por vrgula:

Ela sentia medo que a deixava paralisada.

Observao: Esta aproximao da adverbial consecutiva desprovida de quantificador com a adjetiva relativa tem levado alguns escritores a repetir a funo sinttica desempenhada 
pelo que relativo mediante o pronome adverbal o (a, os, as), construo que a norma padro desaconselha: o homem que se destina, ou que o destinou seu nascimento, a uma vocao 
pblica, no pode, sem vergonha, ignorar as belas letras e os clssicos [AGa.4, 29].

Tal como ocorreu nas oraes subordinadas comparativas, em Ela sentia tal medo que a deixava paralisada, constitui uma unidade complexa o conjunto tal medo que a deixava paralisada, 
que, na orao complexa, funciona como objeto direto do ncleo verbal sentia.

Outras unidades consecutivas  Os quantificadores a que se prendem as oraes consecutivas podem ser substitudos por outras unidades, naturalmente sem que deixem de ser marcadas 
pelo contorno meldico que manifesta o encarecimento do contedo do pensamento designado:

a) O indefinido cada:

Ele diz cada mentira que j est desacreditado no grupo.

b) O indefinido um (uma, uns, umas):

De repente caiu uma ventania que afugentou do estdio todos os espectadores.

c) As unidades de modo, de maneira, assim:

O mgico falava de modo que impressionava a plateia.

O escritor escrevia de maneira que compunha um livro por ms.

O atleta era assim forte que punha nos concorrentes a certeza da derrota.

Observao: Acerca da substituio de de modo que, de maneira que + verbo flexionado por de modo a, de maneira a + infinitivo (de modo a fazer, etc.) cf. link.

d) Pode faltar a unidade quantificadora, garantida pelo contorno meldico e pelo contexto:

 feio que mete medo.

Grupos oracionais: a coordenao

Grupos oracionais: a coordenao  J vimos que as oraes coordenadas so oraes sintaticamente independentes entre si e que se podem combinar para formar grupos oracionais 
ou perodos compostos:

Mrio l muitos livros e aumenta sua cultura.

Mrio l muitos livros e aprende pouco.

 fcil observar que as duas oraes do primeiro exemplo so sintaticamente independentes, porque, ao analisar a primeira (Mrio l muitos livros), verificamos que possui 
todos os termos sintticos previstos na relao predicativa, ao contrrio da orao complexa, conforme vimos:

Sujeito: Mrio

Predicado: l muitos livros

Objeto direto: muitos livros

Entretanto,  tambm fcil verificarmos que a segunda orao e aumenta sua cultura manifesta o resultado, uma consequncia do fato de Mrio ler muito. Esta interpretao, 
alis correta, no interfere na relao sinttica que as duas oraes mantm entre si no grupo oracional. Esta interpretao adicional no resulta da relao sinttica existente 
nas duas oraes, mas sim da nossa experincia do mundo, porque sabemos que a leitura  uma das nossas fontes de cultura. E muito menos a manifestao nasce do emprego da 
conjuno e que, por ser mero conector das oraes, tem por misso semntica apenas adicionar um contedo de pensamento a outro. Por isso,  denominada conjuno (= conector) 
aditiva.

Prova evidente do que estamos falando  o segundo exemplo:

Mrio l muitos livros e aprende pouco.

Do ponto de vista sinttico, j vimos que aqui tambm estamos diante de oraes independentes e que podem figurar isoladamente:

Mrio l muitos livros. Ele aprende pouco.

 partindo desse nosso saber sobre as coisas do mundo e dos significados dos lexemas utilizados que interpretamos a 2. orao como o contrrio do que estvamos esperando 
pelo fato de Mrio ler muitos livros.

Como no exemplo anterior, essa interpretao adicional no tira da 2. orao o carter de coordenada aditiva nem permite que se classifique o e diferentemente de uma conjuno 
aditiva.  o texto, com suas unidades lxicas, e no a gramtica, que manifesta o sentido adversativo que claramente expressa a 2. orao em face do contedo que se enunciou 
na 1.. So, assim, unidades textuais, o que vale dizer, so unidades que manifestam funes sintagmticas no nvel do texto. Trata-se de exemplos de coordenao no nvel 
da orao e de subordinao no nvel do texto.

Cabe tambm assinalar que as oraes conectadas por e no manifestam nenhum sentido textual subsidirio, alm da adio; a ordem das oraes , em geral, livre, salvo quando 
o significado dos lexemas estabelece uma disposio natural dos contedos de pensamento designados. So, neste ltimo caso, questes relativas ao nosso saber elocutivo, e 
no ao saber idiomtico, exclusivamente:

Trabalhava de dia e estudava de noite.

Estudava de noite e trabalhava de dia.

Mas h ordem fixa em:

Ficou noivo em fevereiro e casou-se em junho.

Cursava a Faculdade de Direito e formou-se em advocacia.

Em sentido inverso, muitas oraes subordinadas  especialmente as reduzidas, em vista da amplitude semntica em que podem ser envolvidas pela influncia das unidades lxicas 
empregadas e do nosso saber e experincias do mundo  podem admitir um sentido aditivo, como nos seguintes casos:

a) as oraes reduzidas de gerndio, quando equivalente a uma orao coordenada iniciada pela conjuno e:

Compreendeu bem a lio, fazendo depois corretamente os exerccios (= e fez depois...)

b) as reduzidas de infinitivo precedida da preposio sobre e da locuo prepositiva alm de:

Alm de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante ou antiptrida, dava aos alvolos solidez, e consistncia aos dentes [CBr.1, 108] (sobre ser = alm de ser purificante... 
a fumarada do charuto dava... ).

Apesar destas interpretaes aditivas, estas reduzidas, quanto  sua estruturao gramatical, pertencem ao quadro das oraes subordinadas.

Os tipos de oraes coordenadas e seus conectores  As oraes coordenadas esto ligadas por conectores chamados conjunes coordenativas, que apenas marcam o tipo de relao 
semntica que o falante manifesta entre os contedos de pensamento designado em cada uma das oraes sintaticamente independentes.

So trs as relaes semnticas marcadas pelas conjunes coordenativas ou conectores:

1) Aditiva: adiciona ou entrelaa duas ou mais oraes, sem nenhuma ideia subsidiria.

As conjunes aditivas so e e nem (esta para os contedos negativos, e pode vir na 2. orao ou em ambas).

Pedro estuda e Maria trabalha.

Pedro no estuda nem trabalha.

Nem Pedro estuda nem Maria trabalha.

2) Adversativa: contrape o contedo de uma orao ao de outra expressa anteriormente:

Joo veio visitar o primo, mas no o encontrou.

As conjunes adversativas so mas, porm, seno (depois de contedo negativo).

No saa seno com os primos.

3) Alternativa: contrape o contedo de uma orao ao de outra e manifesta excluso de um deles, isto , se um se realizar, o outro no se cumprir:

Estudas ou brincas.

Enlaces adverbiais em grupos de oraes  Certas unidades de natureza adverbial e que manifestam valores de concesso, concluso, continuao, explicao, causa, que fazem 
referncia anafrica ao que anteriormente se expressou, podem aparecer como aparentes conectores de oraes em grupos oracionais: logo, pois, portanto, por conseguinte, entretanto, 
contudo, todavia, por isso, por isto, tambm, da, ento, pelo contrrio, etc:

Ser a primeira vez que copiar estes quadros, pois no h oito dias que os comprei [JA.3, 257].

O amor, como eu sonho e espero, h de ser a minha vida inteira; portanto parece-me que tenho o direito e at o dever de conhec-lo antes (...) [JA.3, 379].

O que a protegia na confuso no era tanto o rpido olhar, como um stimo sentido, que s ela possua: uma espcie de previso dos objetos que se aproximavam.

Contudo, eu sofria muito vendo Emlia assim esquecida de mim e engolfada nos prazeres (...) [JA.3, 380].

Partindo desses valores semnticos, a gramtica tradicional estabeleceu, entre os conectores coordenativos, as conjunes conclusivas e causais-explicativas. Realmente, nestes 
casos se trata de unidades que manifestam esses valores de dependncia interna, semelhantes s oraes subordinadas, mas no nvel do sentido do texto. So unidades transfrsticas, 
j que ultrapassam os limites de fronteira das oraes.

Observao: A inexistncia, a rigor, das conjunes conclusivas e causais  explicativas, orientao que tambm  seguida em gramticas de outras lnguas, j tinha sido defendida 
entre ns por Maximino Maciel (1865-1923) na ltima reviso de sua Gramtica Descritiva, em que as considerava advrbios, dada a facilidade com que se deslocavam nas oraes, 
aparecendo em vrias posies, o que lhes tirava o carter de conectores.

Justaposio ou assindetismo  Ao lado da presena de transpositores e conectores vistos at aqui, as oraes podem encadear-se, como ocorre com os termos sintticos dentro 
da orao, sem que venham entrelaadas por unidades especiais; basta-lhes apenas a sequncia, em geral proferidas com contorno meldico descendente e com pausa demarcadora, 
assinalada quase sempre na escrita por vrgulas, ponto e vrgula e ainda por dois pontos:

O moo que dizia Simles costumava zombar de mim com barulho. Qualquer dito nem o excitava: mordia os beios, avermelhava-se como um peru, lacrimejava, enfim no se continha, 
caa num riso convulso, rolava sobre o balco, meio sufocado. [GrR.1, 197].

Este procedimento de enlace chama-se justaposio.

Sob o ponto de vista sinttico e semntico, tais justaposies se aproximam, pela independncia sinttica e estreito relacionamento semntico, da parataxe ou coordenao. 
Seu efeito para o discurso  variado, ora apontando para um estilo cortado com grande dose impressionista, ora para um estilo que focaliza quadros rpidos e movimentos ascendentes, 
especialmente se est constitudo por sequncia de verbos. J a sequncia de substantivos manifesta lentido.

Aproximam-se as oraes justapostas das coordenadas, e com elas s vezes se alternam, por permitirem, no nvel da camada superior do texto, um sentido subsidirio de causa-explicao, 
concesso, consequncia, oposio, tempo, levando-se em conta o contedo de pensamento nelas designado:

Uma vez por dia o grito severo me chamava  lio. Levantava-me, com um baque por dentro, dirigia-me  sala, gelado. E emburrava: a lngua fugia dos dentes, engrolava rudos 
confusos [GrR.1, 102].

No me ajeitava a esse trabalho: a mo segurava mal a caneta, ia e vinha em sacudidelas, a pena caprichosa fugia da linha, evitava as curvas, rasgava o papel, andava  toa 
como uma barata doida, semeando borres [GrR.1, 114].

A chamada  coordenao distributiva  Podem-se incluir nas oraes justapostas aquelas que a gramtica tradicional arrola sob o rtulo de coordenadas distributivas, caracterizadas 
por virem enlaadas pelas unidades que manifestam uma reiterao anafrica do tipo de ora...ora, j...j, quer...quer, um...outro, este...aquele, parte...parte, seja...seja, 
e que assumem valores distributivos alternativos, e subsidiariamente concessivos, temporais, condicionais.

Do ponto de vista constitucional, essas unidades so integradas por vrias classes de palavras: substantivo, pronome, advrbio e verbo, e do ponto de vista funcional no se 
incluem entre os conectores que congregam oraes coordenadas:

Ora eram eles capazes de atos de vandalismo, ora eram capazes de atos de ajuda ao prximo.

J no se mostravam como pessoas educadas, j se revelavam como se fossem inocentes crianas.

Uns estavam sempre satisfeitos, outros s viviam reclamando da vida.

Oraes intercaladas  Tambm se incluem nos grupos oracionais como oraes justapostas as intercaladas, tambm caracterizadas por estarem separadas do conjunto por pausa 
e por contorno meldico particular. Na escrita, aparecem marcadas por vrgula, travesso ou parntese. Do ponto de vista de contedo de pensamento designado, dividem-se em:115

1) citao: onde se acrescenta a pessoa que proferiu a orao anterior:

D-me gua, me pediu o rapaz.116

Quem  ele?  interrompeu a jovem.

2) advertncia: esclarece um ponto que o falante julga necessrio:

Em 1945  isto aconteceu no dia de meu aniversrio , conheci um dos meus melhores amigos.

3) opinio: em que o falante aproveita a ocasio para opinar:

D. Benta (malvada  que era) dizia que a sua doena impedia a brincadeira da garotada.

Comamos,  verdade, mas era um comer virgulado de palavrinhas doces [MA.1, 198].

4) desejo: em que o falante aproveita a ocasio para exprimir um desejo, bom ou mau:

Jos  Deus o conserve assim!  conquistou o primeiro lugar da classe.

 bem feiozinho, benza-o Deus, o tal teu amigo! (Alusio Azevedo)

O teu primo  raios que o partam!  ps-me de cabelos brancos.

5) escusa: em que o falante se desculpa:

Pouco depois retirou-se: eu fui v-la descer as escadas, e no sei por que fenmenos de ventriloquismo cerebral (perdoem-me os filsofos essa frase brbara) murmurei comigo... 
[MA.1, 325].

6) permisso: em que solicita algo:

Meu esprito (permita-me aqui uma comparao de criana), meu esprito era naquela ocasio uma espcie de peteca [MA.1, 282].

7) ressalva: em que faz uma limitao  generalidade de um enunciado:

Daqui a um crime distava apenas um breve espao e ela transps, ao que parece [AH.2, 123].

Ele, que eu saiba, nunca veio aqui.117

Cobia de ctedras e borlas que, diga-se de passagem, Jesus Cristo repreendeu severamente aos fariseus [CBr.2, 300].

Os livros, pode-se bem dizer, so o alimento do esprito.

Aparentes oraes complexas  Entram, assim, neste caso as intercaladas de citao que, em estilo direto, reproduzem o que no estilo indireto funcionaria como objeto direto 
do ncleo verbal, claro ou subentendido: D-me gua, me pediu o rapaz, equivalente no contedo a O rapaz pediu que lhe desse gua; Quem  ele?  interrompeu o jovem, equivalente 
no contedo a O jovem interrompeu [perguntando] quem  ele.

Atendendo s equivalncias do contedo, mas em contradio com a estrutura sinttica e textual, alguns autores analisam tais oraes justapostas como complexas. S poderamos 
proceder dessa maneira e consider-las oraes complexas se viessem introduzidas pelo transpositor, como ocorreu nas equivalncias apontadas.

Como bem ensina A. da Gama Kury, devemos considerar essas oraes interferentes como perodos  parte, intercalados ou justapostos, que se analisaro lado a lado com aquele 
em que se inserem [AK.1, 70].

Discurso direto, indireto e indireto livre

3  Discurso direto, indireto e indireto livre

O portugus, como outras lnguas, apresenta normas textuais para nos referirmos no enunciado s palavras ou aos pensamentos de responsabilidade do nosso interlocutor, mediante 
os chamados discurso direto, discurso indireto e discurso indireto livre.

No discurso direto reproduzimos ou supomos reproduzir fiel e textualmente as nossas palavras e as do nosso interlocutor, em dilogo, conforme vimos nos exemplos das oraes 
ou perodos intercalados de citao, com a ajuda explcita ou no de verbos como disse, respondeu, perguntou, retrucou ou sinnimos (os chamados verbos dicendi). s vezes, 
usam-se outros verbos de inteno mais descritiva, como gaguejar (do nosso exemplo), balbuciar, berrar, etc. So os sentiendi, que exprimem reao psicolgica do personagem.118 
No dilogo, a sucesso da fala dos personagens  indicada por travesso (outras vezes, pelos nomes dos intervenientes):

Uma vez em que me extenuava na desgraada tarefa percebi um murmrio:

 Lavou as orelhas hoje?

 Lavei o rosto, gaguejei atarantado.

 Perguntei se lavou as orelhas.

 Ento? Se lavei o rosto, devo ter lavado as orelhas [GrR, 114].

No discurso indireto os verbos dicendi se inserem na orao principal de uma orao complexa tendo por subordinada as pores do enunciado que reproduzem as palavras prprias 
ou do nosso interlocutor. Introduzem-se pelo transpositor que, pela dubitativa se e pelos pronomes e advrbios de natureza pronominal quem, qual, onde, como, por que, quando, 
etc., j vistos antes:

Perguntei se lavou as orelhas.

O discurso direto em:

Jos Dias recusou, dizendo:  justo levar a sade  casa de sap do pobre

passa a discurso indireto, em que se transpe o presente  do discurso direto para o pretrito imperfeito do indireto:

Jos Dias recusou, dizendo que era justo levar a sade  casa de sap do pobre [MA.4, 14].

O discurso indireto livre consiste em, conservando os enunciados prprios do nosso interlocutor, no fazer-lhe referncia direta. Como ensina Mattoso Cmara, mediante o estilo 
indireto livre reproduz-se a fala dos personagens  inclusive o narrador  sem qualquer elo subordinativo com um verbo introdutor dicendi [MC.4, 28]. Se tomssemos o exemplo 
acima de Dom Casmurro, bastaria suprimir a forma verbal dizendo e construir dois perodos independentes com as duas partes restantes:

Jos Dias recusou. Era justo levar a sade  casa de sap do pobre.

Uma particularidade do estilo indireto livre  a permanncia das interrogaes e exclamaes da forma oracional originria, ao contrrio do carter declarativo do estilo indireto. 
Mattoso Cmara cita um trecho de Dom Casmurro em que D. Glria tenta demover Pdua da ideia de suicdio por lhe ter mudado a vida financeira de repente, mediante um enunciado 
em estilo indireto livre a partir do segundo perodo:

Minha me foi ach-lo  beira do poo, e intimou-lhe que vivesse. Que maluquice era aquela de parecer que ia ficar desgraado, por causa de uma gratificao menos, e perder 
um emprego interino? No, senhor, devia ser homem, pai de famlia, imitar a mulher e a filha... (p. 48)

Em suma, o discurso indireto livre estabelece um elo psquico entre o narrador e o personagem que fala (...) o narrador associa-se ao seu personagem, transpe-se para junto 
dele e fala em unssono com ele [MC.4, 30-31].

Particularidades outras das oraes transpostas substantivas

Particularidades outras das oraes transpostas substantivas  O transpositor da orao substantiva junto  orao principal se diz conjuno integrante: que (nas declaraes 
de certeza) e se (nas declaraes de incerteza):

Sei que vir hoje.

No sei se vir hoje.

Conforme vimos, pode a conjuno integrante vir ou no precedida de preposio necessria. O quadro seguinte resumir as oraes substantivas, levando-se em conta a preposio 
necessria:

Observaes:

1.) Continuamos a insistir no termo necessria (preposio necessria), porque ela pode aparecer, esporadicamente, em lugares que a no exigem, como omitir-se onde seria 
esperada. Assim, pode-se prescindir da preposio que inicia uma orao objetiva indireta ou completiva nominal:

Em Coimbra recebeu o infante esta triste nova por uma carta da rainha sua filha, em que o avisava que em conselho se decidira que o fossem cercar... [AH.2, 94],

isto : em que o avisava que est por em que o avisava de que.

2.) Pode ocorrer a omisso tanto da preposio quanto do transpositor:

Quis defend-la, mas Capitu no me deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz to alta que tive medo fosse ouvida os pais [MA apud MBa.3, 80],

isto : tive medo de que fosse ouvida.

Tambm se pode preceder de preposio uma orao subjetiva ou objetiva direta. Assim, por influncia da construo fazer com algum (= conseguir deste algum) que viesse passamos 
a empregar fazer com que ao lado de fazer que em oraes objetivas diretas do tipo:

...fizeram (os cortesos) com que se retirasse para Sintra... [AH.2, 93],

onde fazer significa diligenciar e conseguir que uma coisa acontea.

Ou subjetiva, como:

Desaire real seria de a deixar sem prmio [AGa].

Registrem-se ainda as construes dizer de sim, dizer de no, em lugar de dizer que sim, dizer que no: Eu me abalano a lhes dizer e redizer de no [RB.5, 225].

Caractersticas da orao subjetiva e predicativa

Caractersticas da orao subjetiva e predicativa  A orao substantiva subjetiva apresenta as seguintes caractersticas:

Estar o verbo da orao principal na 3. pessoa do singular e num destes quatro casos:

a) verbo na voz reflexiva de sentido passivo:

Sabe-se que tudo vai bem.

b) verbo na voz passiva (ser, estar, ficar) seguidos de particpio:

Ficou provado que estava inocente.

c) verbos ser, estar, ficar seguidos de substantivo ou adjetivo:

 verdade que sairemos cedo.

Foi bom que fugissem.

Est claro que consentirei.

Ficou certo que me telefonariam.

d) verbo do tipo parece, consta, ocorre, corre, urge, importa, convm, di, punge, acontece:

Parece que vai chover.

Urge que estudem.

Cumpre que faamos com cuidado todos os exerccios.

Acontece que todos j foram punidos.

Observaes:

1.) No se pautam pela tradio literria as construes em que se personaliza o verbo pesar significando arrependimento ou dor, do tipo de:

Pesam-me os dissabores que lhe causei.

A boa construo  dar-lhe objeto indireto de pessoa e complemento relativo de coisa introduzida pela preposio de, e na forma de 3. pessoa do singular:

Pesa-me dos dissabores que lhe causei.

2.) O Prof. Sousa Lima [SL.1,  530] acha que s se poder considerar predicativa a orao que contiver o verbo parecer concordando com outro sujeito que no seja a proposio: 
Tu pareces ser estrangeiro, outro exemplo, Nunca nos esquecemos de ns, ainda quando parecemos que mais nos ocupamos dos outros [MM].

A orao substantiva predicativa introduzida pela conjuno complementa, na maioria das vezes, o verbo ser:

A verdade  que no ficaremos aqui.

Omisso da conjuno integrante

Omisso da conjuno integrante  Se o enunciado encerra mais de um que, podemos, com elegncia, omitir a conjuno integrante, principalmente nas oraes subjetivas e objetivas 
presas a ncleos verbais que exprimem vontade ou temor:

Devia, pois, ser melanclico, alm do exprimvel o que a se passou nessa grade: triste, e desgraado direi, a julg-lo pelas consequncias que se vo descrever, com um certo 
pesar em que esperamos tomem os leitores o seu quinho de pena... [CBr.4, 223].

Esperamos tomem est por esperamos que tomem.

Ainda que no haja acmulo de qus, constitui leveza a omisso da conjuno integrante, que ocorre principalmente no estilo administrativo:

Frequentes vezes me disse esperava lhe anulassem no supremo tribunal o processo [CBr.10, 51].

Requeiro seja enviado o Processo a outra instncia.

Evitou-se, no primeiro exemplo, o emprego de duas conjunes integrantes: ...me disse que esperava que lhe anulassem o processo.

Posto que, dizia ele, muito desejasse ver levar o negcio a cabo, aconselhava-o no tentasse nada de leve...[AH.6, 262, apud AH.2, 149].

Aconselhava-o no tentasse est por aconselhava-o a que no tentasse.

Tambm se d a omisso da integrante que depois do transpositor na comparao com que ou do que, como se observa no seguinte exemplo:

 melhor que lhe deem uma oportunidade do que estejam a ret-lo na priso,

isto :  melhor que lhe deem...do que que estejam...

Pode-se ainda fugir  repetio pondo-se o verbo no infinitivo:

do que estar a ret-lo na priso.

Pleonasmos da conjuno integrante

Pleonasmos da conjuno integrante

Quando a orao substantiva no segue imediatamente o verbo de que serve de integrao, pode ocorrer, mormente no falar coloquial, o pleonasmo da conjuno integrante, como 
o provam os seguintes exemplos:

e disse que, se lhe no queramos mais nada, que podamos ir  nossa vida [CBr, 45].

O meu amor me disse ontem

Que eu que andava coradinha [AO.1] 119

A verdade  que desde que anunciei ao rapaz a volta de sua me, que observei nele uma bizarra mudana de atitude [LCa.1].

Particularidades sobre as oraes transpostas adjetivas

Particularidades sobre as oraes transpostas adjetivas

Funes sintticas do relativo das oraes adjetivas  As oraes adjetivas iniciam-se por pronome relativo que, alm de marcar a subordinao, exerce uma funo sinttica 
da orao a que pertence. Em:

H enganos que nos deleitam, como desenganos que nos afligem [MM],

os dois qus exercem funes sintticas na orao subordinada que iniciam. O primeiro  sujeito de deleitam (que nos deleita?  enganos, representado na orao subordinada 
pelo que); o segundo  sujeito de afligem (que nos aflige?  desenganos, representado na orao subordinada pelo que).

 importante assinalar que a funo sinttica do pronome relativo nada tem a ver com a funo do seu antecedente; ela  indicada pelo papel que desempenha na orao subordinada 
a que pertence.

Desta maneira, no exemplo dado, enganos e desenganos so objetos diretos (a orao no tem sujeito, porque o verbo haver = existir  impessoal) e os qus so sujeitos.

a) Que  no precedido de preposio necessria  pode exercer as funes de sujeito, objeto direto ou predicativo:

O menino que estuda aprende (sujeito).

O livro que lemos  instrutivo (objeto direto).

Somos o que somos (predicativo).

b) Que  precedido de preposio necessria  pode exercer as funes de objeto indireto, complemento relativo, adjunto adverbial ou agente da passiva:

A pessoa a que entreguei o livro deixou-o no txi (objeto indireto).

Os filmes de que gostamos so muitos (complemento relativo).

A cidade a que te diriges tem bom clima (complemento relativo).

A pena com que escrevo no est boa (adjunto adverbial de meio).

Este  o escritor por que foi escrito o livro (agente da passiva).

Observao: Constitui impropriedade o emprego do pronome relativo precedido de preposio de como adjunto adnominal, em lugar de cujo. Assim se evita dizer o escritor de 
que todos conhecemos o livro, as pessoas de quem reconheceis os privilgios. Em boa linguagem diremos o escritor cujo livro todos conhecemos, as pessoas cujos privilgios 
reconheceis. Todavia no so raros os exemplos em bons escritores: O anarquista maldiz de todos os governos de que no compartilha as vantagens [MM]. Para certa classe de 
gente, a conscincia  uma gaveta fechada de que se perdeu a chave [AR.2, 168], isto , de cujas vantagens no compartilha; gaveta cuja chave se perdeu.

c) Quem  sempre em referncia a pessoas ou coisas personificadas  s se emprega precedido de preposio, e exerce as seguintes funes sintticas:

Ali vai o professor a quem ofereci o livro (objeto indireto).

Apresento-te o amigo a quem hospedei no vero passado (objeto direto).

No conheci o professor a quem te referes (complemento relativo).

As companhias com quem andas so pssimas (adjunto adverbial).

O amigo por quem fomos enganados desapareceu (agente da passiva).

d) Cujo(s), cuja(s)  precedidos ou no de preposio  valem sempre do qual, da qual, dos quais, das quais (caso em que a preposio de tem sentido de posse) e funcionam 
como adjunto adnominal do substantivo seguinte com o qual concordam em gnero e nmero. O sintagma a que cujo pertence exercer a funo que determinar sua relao com o ncleo 
verbal. Assim, cuja casa  objeto direto de comprei e sobre cuja matria  complemento relativo de discutamos:

O homem cuja casa comprei embarcou ontem (= a casa do qual).

Terminei o livro sobre cuja matria tanto discutamos (= sobre a matria do qual).

Observao: Erros no emprego de cujo.

Constitui erro empregar cujo:

a) como sinnimo de o qual, a qual, os quais, as quais:

Aqui est o livro cujo livro compramos (= o qual);

b) precedido ou seguido de artigo:

Este  o autor  cuja obra te referiste (No h acento indicativo da crase).

Compramos os livros de cujos os autores nos esquecemos.

Emprego de relativos  Em lugar de em que, de que, a que, nas referncias a lugar, empregam-se, respectivamente, onde, donde, aonde (que funcionam como adjunto adverbial ou 
complemento relativo):

O colgio onde estudas  excelente.

A cidade donde vens tem fama de ter bom clima.

A praia aonde te diriges parece perigosa.

Modernamente, os gramticos tm tentado evitar o uso indiscriminado de onde e aonde, reservando o primeiro para a ideia de repouso e o segundo para a de movimento:

O lugar onde estudas...

O lugar aonde vais...

Esta lio da gramtica tende a ser cada vez mais respeitada na lngua escrita contempornea, embora no sejam poucos os exemplos em contrrio, entre escritores brasileiros 
e portugueses.

e) O qual  e flexes que concordam em gnero e nmero com o antecedente  substitui que e d  expresso mais nfase. Para maior vigor ou clareza pode-se at repetir o antecedente 
depois de o qual:

O primeiro senhor de Ormuz de que temos notcia foi Male-Caez, o qual, habitando na ilha de Caez, dominava todas as ilhas daquele estreito [AH.2, 54].

Ao livro ningum fez referncia, o qual livro merece a maior considerao, no meu entender.

s vezes o antecedente se acha apenas esboado, como no seguinte exemplo, onde se percebe claramente o termo cidade.

Logo, porm, que este prazo expirou, o rei de Leo fez uma estrada at Talavera, perto da qual cidade destroou as tropas que intentaram opor-se-lhe [AH.6, 94].

 mais comum a substituio de que por o qual depois de preposio, principalmente depois de preposio ou locuo prepositiva de duas ou mais slabas. Dizemos indiferentemente 
de que, ou do qual, com que ou com o qual, a que ou ao qual, sem que ou sem o qual, mas s ocorrem apesar do qual, conforme o qual, segundo o qual, entre o qual, fora dos 
quais, perante os quais, etc. A razo se deve ao movimento rtmico da orao e a uma necessidade expressiva que exigem um vocbulo tnico (como o qual), e no tono (como 
que).

Posio do relativo  Normalmente o que vem junto do seu antecedente; quando isto no se d e o sentido da orao periga, desfaz-se a dvida com o emprego de o qual, de e 
este ou se repete o antecedente, ou se pe vrgula para mostrar que o relativo no se refere ao antecedente mais prximo:

Mas ele tinha necessidade da sano de alguns, que [isto , sano e no alguns] lhe confirmassem o aplauso dos outros [MA.1, 138].

Arrastaram o saco para o paiol e o paiol ficou a deitar fora [CN.1, 12].

Poderia tambm dizer o autor:

Arrastaram o saco para o paiol que ficou a deitar fora.

Arrastaram o saco para o paiol o qual ficou...

Arrastaram o saco para o paiol e este ficou...

Note-se como Camilo evita o equvoco nesta passagem:

Eu de mim, se no estivesse amortalhada no sobretudo do meu marido, que vou escovar (o sobretudo), era dele, como a borboleta  da chama... [CBr.12, 18 apud MBa.5, 303].

No  impossvel, entretanto, mormente nos autores mais antigos e naqueles que, embora contemporneos, primam por escrever como os clssicos, vir o pronome relativo afastado 
do seu antecedente, como neste trecho de Joo Ribeiro, depois do verbo da orao principal [MLk.2, 637; ECs.4, 257-258]:

No fundo de um triste vale dos Abruzos, terra angustiada e sfara, um pobre eremita vivia que deixara as abominaes do sculo pela soledade do deserto [JR.2, 219].

Era comum nos clssicos:

...quele haveis de dar vosso voto para governar, que entre todos tiver mais saber [HP, 178-9].

Por fim, cumpre assinalar que ocorre ainda a inverso de um termo da orao adjetiva para antes do relativo, como no exemplo de Vieira:

O padre Francisco Gonalves, provincial que acabou de ser [em lugar de: que acabou de ser provincial] da provncia do Brasil... [AV apud FB, 289].

Pronome relativo sem funo na orao em que se encontra

Em expresses do tipo:

Ali est o homem que eu pensei que tivesse desaparecido.

No faas a outrem o que no queres que te faam,

o pronome relativo que inicia as oraes que eu pensei, que no queres, dando-lhes o carter de adjetivas, mas no exerce nelas funo sinttica; pertence, isto sim, s oraes 
substantivas que tivesse desaparecido ou que te faam, das quais  o sujeito (na 1.) e objeto direto (na 2.). Cuidado especial h de ter-se no que toca  concordncia, pois 
o escritor inexperiente logo opta por flexionar o verbo: ...distino adiada sine die por motivos que no vem (e no vm no plural) a pelo declarar [CL.1, 66].

Esta construo  correta e coerente, e resiste a um enquadramento nos processos normais de anlise sinttica.120

Pode-se evitar a repetio dos qus substituindo-se o verbo da orao substantiva por um infinitivo:

Ali est o homem que eu pensei ter desaparecido.

No portugus moderno, esta construo s tem lugar, em geral, quando a orao subordinada  substantiva; fora deste caso s se emprega, de ordinrio, com o pronome o qual, 
e ento coloca-se este pronome depois da expresso por ele determinada:  problema, para resolver o qual so necessrias duas condies: O jugo da obedincia, para lhes impor 
o qual muitas vezes faltava a fora [AH.6, 244]. Todavia, evita-se esta construo quanto possvel, e diz por exemplo:  problema para cuja resoluo so necessrias duas 
condies [ED.2,  367].

o que, a que, os que, as que

No exemplo:

De ordinrio os que reclamam mais liberdade so os que menos a merecem [MM],

as oraes adjetivas substantivadas das que reclamam mais liberdade e os que menos a merecem no tm seus antecedentes explcitos.

Analisando a orao complexa constitutiva do enunciado, teremos uma clusula do comentrio de ordinrio e uma comentada, assim analisada:

Sujeito: os que reclamam mais liberdade

Predicado: so os que menos a merecem

Predicativo: os que menos a merecem

Anlise do sujeito oracional:

Sujeito: os que

Predicado: reclamam mais liberdade

Obj. direto: mais liberdade

Anlise do predicativo oracional:

Sujeito: os que

Predicado: menos a merecem

Obj. direto: a

Em

Jos partiu, o que deixou a casa triste.

a orao adjetiva transposta a substantivo o que...triste  aposto da orao Jos partiu.

Observaes:

1.) Foge do plano de interpretao sinttica o entender-se o que = e isto, como querem alguns gramticos. Veja-se [CP.1,  510].

2.) Em lugar de o que tambm pode ocorrer apenas que, construo que vai caindo em desuso: ... depois a 17 de agosto de 1710 acabou de expirar que ( = o que) foi, como bem 
podemos presumir, voar do crcere carregado com as palmas de confessor e mrtir para a ptria onde os frutos se colhem do que na terra se cultivou[AC.8, 278 apud MBa.4, 139. 
Cf. ainda MBa.5, 234].

Com o que, a que, os que, as que, pode ocorrer uma preposio regendo toda a orao substantivada, o relativo ou ambos:

a) Gostei do que disseste.

b) O professor dissertou sobre o de que ontem conversvamos.

Com frequncia, a preposio que deveria acompanhar o relativo emigra para o artigo que introduz a orao substantivada:

No sei no que pensas (por o em que).

Agora j sabe a fidalga no que ele estraga dinheiro [CBr.1, 148].

Estas migraes de preposio para a unidade anterior ao relativo tornam a construo mais harmoniosa e espontnea. Os seguintes exemplos de Rui Barbosa, embora gramaticalmente 
corretos, trazem o selo do artificialismo:

Assim me perdoem, tambm, os a quem tenho agravado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante... [RB.2, 23].

e da, com estupenda mudana, comea a deixar ver o a que era destinada... [RB.2, 36].

Os meus sero os a que me julgo obrigado... [RB.2, 61].

O de que mais gosto  de

 frequente ver-se a preposio que acompanha o relativo repetida junto ao termo ou orao que faz o papel de predicativo:

do que [= de que] duvido  de que comecemos, se por el-rei houvermos de esperar [AH.4, 222].

No que [= o em que] em grande parte discordo de Schlegel  no severo conceito que forma do estilo de Addison [AGa.4, 35; cf. MBa.4, 239-40].

Emprego de  em  que, s que

As linguagens a que, as que, sendo o a artigo, podem vir regidas da preposio a, caso em que se usam as unidades complexas acentuadas  que, s que:

No se referiu  que estava ao nosso lado ( que equivalente a quela que).

Os prmios foram entregues s que discursaram (s que equivalente a quelas que).

 claro que se o a antes de que for apenas preposio no levar acento grave indicativo de crase, e no mais se tratar de adjetiva substantivada, mas to somente adjetiva:

A pessoa a que te referes no veio hoje.

Relativo universal

Frequentes vezes a linguagem coloquial e a popular despem o relativo de qualquer funo sinttica, tomando-o por simples elemento transpositor oracional. A funo que deveria 
ser exercida pelo relativo vem mais adiante expressa por substantivo ou pronome. A este relativo chamamos universal:

O homem QUE eu falei COM ELE

em vez de :

O homem COM QUEM (ou COM QUE) eu falei.

A amizade  coisa QUE nem sempre sabemos SEU SIGNIFICADO

em vez de:

A amizade  coisa CUJO SIGNIFICADO nem sempre sabemos.

Embora a lngua padro recomende o correto emprego dos relativos, o relativo universal se torna, no falar despreocupado, um elemento lingustico extremamente prtico [KN.1, 
330].

Observaes finais:

1.)  frequente aparecer, na linguagem de outrora e ainda ocorre no colquio moderno, que ou quem seguido de pronome pessoal oblquo (que ou quem... lhe) onde o rigor gramatical 
exigiria aqueles pronomes precedidos de preposio:

Agora sim, disse ento aquela cotovia astuta, agora sim, irms, levantemos o voo e mudemos a casa, que vem quem lhe di a fazenda [MBe.1, I, 70].

Quem lhe di a fazenda = a quem di a fazenda.

A Natureza, negando-lhe a ordinria rao de outros gostos, sente-o, e amua-se como menino, que lhe tiram a merenda [Vrios Tratados, II, 354 apud MBa.1, 254].

Tais construes no se enquadram nos processos rigorosos da anlise.

2.) s vezes o relativo no se refere  forma do seu antecedente, mas  ideia que ele traduz:

Bem vs as lusitnicas fadigas

Que eu j de muito longe favoreo [LC, IX, 38].

O relativo que se refere a lusitanos, ideia que, ensina-nos bem Epifnio Dias, est contida no adjetivo lusitnicas [LC, II, 171].121

Outras vezes o relativo se refere ao pronome pessoal que se depreende do pronome possessivo usado:

Isto que parece absurdo ou desgracioso  perfeitamente racional e belo  belo  nossa maneira, que no andamos a ouvir na rua os rapsodos recitando os seus versos, nem os 
oradores os seus discursos, nem os filsofos as suas filosofias [MA apud SS.5, I, 28],

que diz: Quando leio este trecho, sinto como antecedente do que sublinhado a ideia de ns, encerrada no adjetivo nossa. Esse que no se me afigura conjuno causal. Julgo 
perfeitamente cabvel a interpretao do mestre e constitui prtica de linguagem corrente no latim: Vestra, qui cum summa integritate vixistis, hoc maxime interest [Ccero 
pro Sall, 28 apud JMa.1,  317, a].

Outras particularidades das oraes adverbiais

Outras particularidades das oraes adverbiais

Tipos de orao subordinada adverbial  A orao subordinada adverbial funciona como adjunto adverbial da sua orao principal:

Toca sempre a sineta, quando terminam as aulas

(subordinada adverbial temporal).

As oraes subordinadas adverbiais iniciam-se pelo transpositor que, acompanhado de preposio ou advrbios ou de outras unidades adverbiais:

1  causais: quando a subordinada exprime a causa, o motivo, a razo do pensamento expresso na orao principal  que (= porque), porque, como (= porque), visto que, visto 
como, j que, uma vez que (com o verbo no indicativo), desde que (com o verbo no indicativo), etc.:

Saiu cedo porque precisou ir  cidade.

Como est chovendo, transferiremos o passeio.

Desde que assim quiseram, vo arrepender-se.

Observaes:

1.) Evite-se na lngua padro o emprego de de vez que e eis que por no serem locues legtimas.

2.) A lngua moderna s usa como causal quando vier antes da principal.

2  comparativas: quando a subordinada exprime o ser com que se compara outro ser da orao principal. A comparao  assimilativa, quando consiste em assimilar uma coisa, 
pessoa, qualidade ou fato a outra mais impressionante, ou mais conhecida [MC.3, II, 48].

 introduzida a orao subordinada comparativa desta espcie por como ou qual, podendo ainda estarem em correlao com assim ou tal postos na orao principal:

Os importunos so como as moscas que, enxotadas, revertem logo [MM].

A comparao pode ainda ser quantitativa, quando consiste em comparar, na sua quantidade ou intensidade, coisas, pessoas, qualidades ou fatos [MC.3, II, 48].

H trs tipos de comparao quantitativa:

a) igualdade, introduzida por como ou quanto em correlao com tanto ou to da orao principal, ou o mesmo que:

Nada conserva e resguarda tanto a vida como a virtude [MM].

Isto  o mesmo que nadar em ouro.

b) superioridade, introduzida por que ou do que em correlao com mais da orao principal:

Um homem pode saber mais do que muitos, porm nunca tanto como todos [MM].

c) inferioridade, introduzida por que ou do que em correlao com menos da orao principal:

O governo dos loucos dura pouco, o dos tolos ainda menos que o dos velhacos (id.).

As oraes subordinadas comparativas, geralmente, no repetem certos termos que, j existentes na sua principal, so facilmente subentendidos:

Os importunos so como as moscas so...

Nada conserva e resguarda tanto a vida como a virtude conserva e resguarda...

Um homem pode saber mais do que muitos sabem...

O governo dos loucos dura pouco, o dos tolos ainda dura menos que dura o dos velhacos... (note-se que o primeiro dura omitido no est em orao comparativa).

Ocorre a presena do verbo em:

No tens inimigo mais poderoso, mais astuto, mais emperrado e mais domstico do que  teu amor-prprio [MBe.2, 213].

O ar como que era cortado de relmpagos sensuais, sentiam-se passar lufadas de tpida volpia [JRi.1,70].

Em lugar de mais bom, mais grande, mais mau, mais pequeno, mais bem e mais mal dizemos normalmente melhor, maior, pior, menor (melhor e pior se aplicam tanto para os adjetivos 
como para os advrbios).

Os velhacos tm de ordinrio mais talento, porm menor juzo do que os homens probos [MM].

No h escravido pior do que a dos vcios e paixes [MM].

No h maior nem pior tirania que a dos maus hbitos inveterados [MM].

Do-se os conselhos com melhor vontade do que geralmente se aceitam [MM].

Ningum conhece melhor (advrbio) os seus interesses do que o homem virtuoso; promovendo a felicidade dos outros assegura tambm a prpria [MM].

Entretanto, se compararmos duas qualidades, usaremos os comparativos analticos (mais bom, mais grande, etc.), em vez dos sintticos (melhor, maior, etc.):

Ele  mais grande do que pequeno e no Ele  maior do que menor.

Para evitar confuses no sentido, usam-se as comparativas como, que, do que junto ao sujeito e, seguidas de preposio, como a, que a, do que a junto de objeto direto (o a 
 preposio).

Estimo-o como um pai (= como pai estima).

Estimo-o como a um pai (= como se estima a um pai).

Se o contexto no admitir esta dupla interpretao, pode-se dispensar o auxlio da preposio:

Meu pai encarregou-a do governo domstico e ns habituamo-nos a t-la em conta de segunda me; tambm ela nos amava como filhos [AH apud MBa.7, 172].

Para realar-se a semelhana, a aparncia, em vez de simples como pode-se usar como que quando se lhe segue o verbo:

A luz do dia, ao desaparecer, como que se dobrava para afagar e beijar o desgraado, que talvez no a tornaria a ver [AH.3, 225]. Entenda-se: a luz do dia parecia dobrar 
para afagar...

Entretanto, ainda no esprito me passa como que a viso proftica do futuro conclio... [AH.8, I, 19].

NOTA  Como que, neste ltimo caso, no inicia orao subordinada comparativa.

Quando depois do termo de comparao vem um substantivo, denota-se ainda a aparncia, a semelhana, por meio da expresso um como, caso em que um concorda em gnero e nmero 
com o substantivo seguinte:

Refrescou-o um como orvalho do cu.

Aproximou-se dele uma como viso fantstica.

NOTA  Tambm aqui no se tem orao comparativa.

Atravs de como se indicamos que o termo de comparao  hipottico:

O velho fidalgo estremeceu como se acordasse sobressaltado [RS.1, 174]. Entenda-se: ele no acordou sobressaltado, mas, se acordasse, estremeceria daquele jeito.

Observaes:

1.) A maioria dos gramticos de lngua portuguesa prefere desdobrar o como se em duas oraes, sendo a primeira comparativa e a segunda condicional:

O velho fidalgo estremeceu como estremeceria se acordasse sobressaltado.

2.) Pode-se obter a mesma expresso por meio de como a + infinitivo:

(...) outro ia no cu como a decifrar o enigma da sensao nunca experimentada [CBr.6, 50].

3.) Atente-se para a concordncia dos termos correlatos tal qual, que devem concordar com o substantivo ou pronome a que se referem:

Ele era tal quais os colegas.

Elas eram tais qual o irmo.

Ns somos tais quais os pais.

4.) Deve-se preferir mais... (do) que a mais... a + infinitivo em construes comparativas do tipo: Talvez seja mais interessante ao pas gastar na educao do que investir 
na construo de presdios (e no: a investir).

Em vez de como, do mesmo modo que, tanto como, empregamos com frequncia que nem:

 forte que nem um touro.

O verbo preferir sugere uma ideia implcita de comparao,  semelhana de querer mais, querer antes, mas exige complemento regido da preposio a:

Prefiro a praia ao campo.

Preferia estudar a no fazer nada.

A aproximao de preferir a querer mais e querer antes (embora no sejam perfeitamente sinnimos) tem gerado duas construes tidas como errneas pelos nossos gramticos:

a) a adjuno dos advrbios mais ou antes ao verbo preferir:

Antes prefiro... ou Prefiro mais...

b) iniciar o complemento do verbo preferir pelos transpositores comparativos que ou do que:

Prefiro a praia do que o campo.

Preferia estudar do que no fazer nada.

Preferiam mais mentir do que dizer a verdade.

Alusio Azevedo poderia ter dado outro torneio  construo para evitar o desvio no seguinte trecho de O Coruja:

E que, no caso de erro,  prefervel sempre nos enganarmos, contra, do que a favor de quem quer que seja... (cap. VI).

Note-se que a simples substituio de do que por a no seria ideal pela aproximao dos dois aa.

Observao: Distinga-se a construo errada de preferir da sequncia antes preferir do seguinte exemplo do Marqus de Maric, em que leve pausa aparece depois de antes [MM.1]:

Ningum quer passar por tolo, antes prefere parecer velhaco [MM].

3  concessivas: quando a subordinada exprime que um obstculo  real ou suposto  no impedir ou modificar de modo algum a declarao da orao principal  ainda que, embora, 
posto que, se bem que, conquanto, etc.:

Embora chova, sairei.

Isto , a chuva no ser obstculo tal, que me impedir de sair.

Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral no lhes perdoa, e castiga a nossa indulgncia [MM].

Ao lado destas concessivas comuns, empregam-se ainda as concessivas intensivas quando  nosso intuito assinalar qualidade ou modalidade qualquer, consideradas em grau intensivo 
e sem limites [SA]:

Por inteligente que seja, encontrar dificuldades em entender o problema.

Por mais que estude, ainda tem muito que aprender.

As concessivas intensivas caracterizam-se pelas expresses por mais... que, por menos... que, por muito... que, onde se pode dar ainda a eliminao do advrbio mais, menos, 
muito.

Em vez de ainda que, ainda quando, pode-se empregar simplesmente que e quando em construes que, proferidas com tom de voz descendente e com verbo no subjuntivo, exprimem 
a ideia concessiva:

Os obstculos, que fossem muitos, no tiravam aos rapazes a certeza da vitria.

E, quando as palavras no o digam, a esto os fatos, para comprovar que s enunciei verdades.

Nestes casos, empregando que, d-se preferncia  inverso de termos, passando a iniciar a orao concessiva a expresso que funciona como predicativo, ou complemento do verbo:

Os rapazes, pobres que sejam, merecem a nossa considerao.

Aqueles livros, difceis que fossem, sempre nos serviram para elucidao de muitas dvidas.

Mil desculpas que me desse, eu continuaria achando que procedeu mal comigo.

No raro a orao principal contm uma expresso adverbial (contudo, todavia, ainda assim, no obstante, ou equivalente) que, no nvel do texto, serve como resumo do pensamento 
anterior, avivando ao ouvinte a ideia concessiva da subordinada:

Ainda que todos saiam, todavia ficarei.

Embora no me queiram acompanhar, ainda assim no deixarei de ir  festa.

Contedos de valor concessivo podem vir, justapostos, iniciados por unidades alternativas (neste caso o verbo est no subjuntivo), quando denotam que a possibilidade de aes 
opostas ou diferentes no impede a declarao principal:

Quer estudes, quer no, aprenders facilmente a lio.

Ou estudemos medicina, ou sejamos advogados, conquistaremos na sociedade um lugar de relevo.

4  condicionais: quando a orao subordinada exprime uma condio necessria para que se realize ou deixe de se realizar o que se declara na principal: se, caso, sem que, 
uma vez que (com o verbo no subjuntivo), desde que (verbo no subjuntivo), dado que, contanto que, com a condio que, etc.

A orao condicional exprime um fato que no se realizou ou, com toda a certeza, no se realizar:

a) falando-se do presente:

Se eu fosse aplicado, obteria o prmio.

b) falando-se do passado:

Se eu fosse aplicado, obteria o prmio.

ou

Se eu tivesse sido aplicado, teria obtido o prmio.

No primeiro caso, usam-se na orao condicional o pretrito imperfeito do subjuntivo (fosse), e, na principal, o futuro do pretrito (teria).

No segundo caso, ou se repete o verbo nas formas apontadas para o caso anterior, ou usam-se na condicional o pretrito mais-que-perfeito (tivesse sido) e, na principal, o 
futuro do pretrito composto (teria obtido).

Pode ainda a orao condicional exprimir um fato cuja realizao esperamos como provvel:

Se eu estudar, obterei o prmio.

Nestas circunstncias, empregam-se o futuro do subjuntivo na condicional, e, na principal, o futuro do presente (obterei).

Observao: Cumpre notar que no caso a), estudado acima, em lugar de Se eu fosse aplicado, obteria o prmio, a linguagem coloquial reala a ideia do presente usando no presente 
indicativo os verbos das duas oraes: Se eu sou aplicado, obtenho o prmio.

As oraes condicionais no s exprimem condio, mas ainda podem encerrar as ideias de hiptese, eventualidade, concesso, tempo, sem que muitas vezes se possam traar demarcaes 
entre esses vrios campos do pensamento. Esta  a razo por que sem que admite mais de uma interpretao textual. O que no (= sem que) flutua entre a condio e o tempo frequentativo 
(repetido) em No l que no cometa vrios enganos; o quer... quer (ou... ou, etc.)  um misto de concesso e condio (cf. por exemplo de [JO.1, 64-66]), e tantos outros 
casos que fogem  alada de uma descrio gramatical por pertencerem ao plano textual.

5  conformativas: quando a subordinada exprime um fato apresentado em conformidade com a declarao da principal: como, conforme, segundo, consoante:

Conseguiu fazer o trabalho como lhe ensinaram.

Todos procederam conforme a ocasio ensejava.

6  consecutivas: quando a subordinada exprime o efeito ou consequncia do fato expresso na principal.

A orao consecutiva  introduzida pelo transpositor que a que se prende, na principal, uma expresso de natureza intensiva como tal, tanto, to, tamanho, termos que tambm 
se podem facilmente subentender:

Alongou-se tanto no passeio, que chegou tarde.

Executou a obra com tal perfeio, que foi premiada.

 feio que mete medo (=  to feio...).

A orao consecutiva no s exprime a consequncia devida  ao ou ao estado indicado na principal, mas pode denotar que se deve a consequncia ao modo pelo qual  praticada 
a ao da principal. Para este ltimo caso, servimo-nos, na orao principal, das unidades complexas de tal maneira, de tal sorte, de tal forma, de tal modo:

Convenceu-se de tal maneira que surpreendeu a todos.122

Estando completo o contedo da primeira orao, empregam-se as expresses (destitudas de tal) de maneira que, de sorte que, de forma que, de modo que, como locues conjuntivas, 
sem pausa entre o substantivo e o que, para introduzir uma consecutiva atenuada em oraes justapostas:

Voc estudou bem, de modo que pde tirar boa colocao.

O livro estava rasgado, de modo que muitas pginas tiveram sua leitura prejudicada.

A independncia sinttica das duas oraes, neste caso, pode vir indicada por uma pausa maior, isto , por ponto e vrgula ou por ponto, valendo assim a unidade por um advrbio 
de orao para avivar ao ouvinte o pensamento anterior, com o sentido aproximado de por conseguinte, consequentemente, da:

As alegrias da vida quase sempre so rpidas e fugidias, ainda que disto no tomemos conhecimento. De modo que elas devem ser aproveitadas inteligentemente.

Por tudo isto se v que nem sempre podemos delimitar, no nvel do texto, os campos dos valores consecutivo e conclusivo, acrescentando-se ainda que h vizinhanas destes valores 
com outros, como, por exemplo, a ideia de finalidade, o que estudaremos mais adiante.

Cumpre evitar um erro frequente com a expresso do pensamento consecutivo (e conclusivo): pr no plural o substantivo nas locues de maneira que, de modo que, etc., dizendo-se 
incorretamente:

Saiu rapidamente de maneiras que no pude v-lo.

Estudou de formas que conseguiu aprender.

As unidades de maneira que, de modo que, etc., seguidas de verbo na forma finita, s modernamente aparecem substitudas por de maneira a, de modo a, etc., seguidas de infinitivo:

Estudou de forma a conseguir aprender (em lugar de: de forma que conseguiu aprender).

(...) arredar o biombo da sua estreiteza natural, de modo a deixar entrar ar fresco [AR.3, 170].

Aquilo que se apresenta na orao consecutiva como efeito ou resultado pode representar uma consequncia intencional, de modo que se associa ao contedo consecutivo uma noo 
subsidiria de finalidade. Neste caso o verbo se acha normalmente no subjuntivo:

Chegou cedo ao servio de maneira que pudesse ser elogiado pelo patro.

Correu de sorte que os inimigos no o pudessem alcanar.

Da resultam certos cruzamentos consecutivo-finais na construo do enunciado, cruzamentos que nem sempre so vistos com bons olhos pelos gramticos (porque tais fatos no 
esto de acordo com a tradio do idioma e se repetem no francs), embora uns datem de longo tempo. Entre os tipos condenados est a construo acima referida de modo a, de 
maneira a + infinitivo. Com tais frmulas, realmente se procura traduzir uma consecutiva intencional. Ao lado de: Estudou de modo a poder passar, usa-se: Estudou de modo (a) 
que passasse.

Presa ao mesmo caso parece estar a construo que emprega depois de demais, demasiado, muito (= assaz, bastante, demasiado) uma orao final de para que ou para a + infinitivo, 
para indicar a noo de proporo ou desproporo:

 demasiado esperto para que caia em tal, equivalente a: no  to pouco esperto que caia em tal [ED.2,  395].

(...) os tempos no so mais de bastante f ou desprendimento para que os ricos catlicos faam doaes (...) [MB.1, II, 144].

Entretanto a igrejinha tem tanto carter (...), que ela s e mais uma meia dzia de palmeiras bastam a guardar a fisionomia (...) [MB.1, II, 149].

Observao: O ilustre sintaticista portugus Epifnio Dias aponta o fato como imitao do francs; cremos, entretanto, que o problema exige reviso.

7  finais: quando a orao subordinada indica a inteno, o objetivo, a finalidade do pensamento expresso na principal: para que, a fim de, porque (= para que),123 que (= 
para que):

Saram para que pudessem ver o incndio.

Reclamou a fim de que o nomeassem.

Trabalhou porque fosse promovido.

Falta pouco que isto suceda.

Abreviadamente usa-se de no + subjuntivo com o valor de para que no, de modo que no, quando se quer expressar a cautela, cuidado, restrio:

Senhor, que ests nos cus, e vs as almas,

Que cuidam, que propem, que determinam,

Alumia minha alma, no se cegue

No perigo, em que est [AF.2, vv. 770-773 apud SS.1,  485-a].

Observao: Os antigos, e hoje mais raramente, se serviam de por se em que por  o vestgio de uma ideia final: Deixai-o amaldioar (lhes disse), por se acaso se compadece 
Deus, por essa causa, da minha aflio... [MBe.2, III, 51 apud MBa.4, 227].

Por se acaso compadece = para ver se acaso compadece.

8  locativas: (iniciadas por onde, quem, quanto sem referncia a antecedentes):

Os meninos sobejam onde esto e faltam onde no se acham [MM].

No pode haver reflexo onde tudo  distrao [MM].

Onde o luxo vence a probidade afraca e desfalece [MM].

9  modais:

De um relance leu na fisionomia do mancebo, sem que suas pupilas estticas se movessem nas rbitas [JA.1, 157].

Se a orao principal estiver na negativa, usar-se- de que no + subjuntivo:

No emite um parecer que no se aconselhe com o diretor.

10  proporcionais: quando a subordinada exprime um fato que aumenta ou diminui na mesma proporo do fato que se declara na principal   medida que,  proporo que, ao 
passo que, tanto mais... quanto mais, tanto mais... quanto menos, tanto menos... quanto mais, etc.:

 medida que a idade chega, a nossa experincia aumenta.

Aprendia  proporo que lia o livro.

Aumentava o seu vocabulrio ao passo que consultava os mestres da lngua.

Observao: A unidade ao passo que pode ser empregada sem ideia proporcional, para indicar que um fato no se deu ou no tem as caractersticas de outro j enunciado: A surdez 
habitual, dada a multiplicao das obras e dos cuidados do indivduo, tenderia a embotar os sentidos e a retardar os sexos, ao passo que o vesturio, negaceando a natureza, 
agua e atrai as vontades, ativa-as, reprodu-las e conseguintemente faz andar a civilizao [MA.1, 260].

Ele foi ao cinema, ao passo que eu resolvi ir  praia.

11  temporais: quando a orao subordinada denota o tempo da realizao do fato expresso na principal.

As principais chamadas conjunes e locues conjuntivas e temporais so :

a) para o tempo anterior: antes que, primeiro que (raro):

Saiu antes que eu lhe desse o recado.

Ningum, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinria, primeiro que meta o p na estrada, se esquecer de entrar em conta com as suas foras... [RB].

b) para o tempo posterior (de modo vago): depois que, quando:

Saiu depois que ele chegou.

c) para o tempo posterior imediato: logo que, tanto que (raro), assim que, desde que, apenas, mal, eis que, (eis) seno quando, eis seno que:

Saiu logo que ele chegou.

Eis seno quando entra o patro... [AAr.1, 183].

d) para o tempo frequentativo (repetido): quando (estando o verbo no presente), todas as vezes que, (de) cada vez que, sempre que:

Todas as vezes que saio de casa, encontro-o  esquina.

Quando o vejo, lembro-me do que me pediu.

Observao: Evite-se o erro de se preceder da preposio em o que, dizendo-se: todas as vezes em que.

e) para o tempo concomitante: enquanto, (no) entretanto que (hoje raro):

Dormia enquanto o professor dissertava.

... e se aposentou (S. Caetano) junto  Igreja de S. Jorge, e perto do Hospital maior, para no entretanto que regulava as dependncias da renncia se entreter no exerccio 
da caridade (Contador de Argote, Vida de S. Caetano, 1722, 90).

Observaes:

1.) Entretanto ou no entretanto so advrbios de tempo, com o sentido de neste nterim, neste intervalo de tempo, neste meio tempo. Mais modernamente, entretanto passou a 
valer por uma unidade de valor adversativa e, por influncia do advrbio, tem sido empregado precedido da combinao no (no entretanto). Muitos puristas no aprovam esta ltima 
construo.

2.) A rigor, as conjunes proporcionais tambm indicam tempo concomitante; por isso, uns autores no distinguem as temporais das concomitantes, fazendo destas classes 
 parte das temporais. A Nomenclatura Gramatical Brasileira no fala em concomitante.

3.) Evite-se o emprego mais (menos)... mais (menos) em lugar de quanto mais (menos)... tanto mais (menos) em construes do tipo: Quanto mais estudamos, tanto mais aumentam 
nossas possibilidades de vitria (e no: Mais estudamos e mais vencemos).

Pode-se omitir o tanto no segundo termo: Quanto mais estudamos, mais...

f) para o tempo limite terminal: at que:

Brincou at que fosse repreendido.

Assume valor temporal o que relativo repetidor de advrbio e expresses que designam desde que poca um fato acontece: agora que, hoje que, ento que, a primeira vez que, 
a ltima vez que, etc.:

Agora que consegui aprender a lio, passarei adiante.

Esta foi a ltima vez que o vi.

No se fazendo pausa entre o advrbio e o transpositor (agora que, ento que, etc.), estabelece-se uma unidade de valor semelhante ao que existe em depois que, etc., e se 
pode passar a considerar o todo como locuo conjuntiva:

Agora que tudo est certo vou embora.

Sob o modelo de tais linguagens, desenvolveu-se o costume de se acrescentar o transpositor que depois de expresses que denotam desde que tempo uma coisa acontece, reduzida 
a simples palavra de realce temporal:

Desde aquele dia que o procuro.

Analisando, dispensa-se o que.

Depois dos verbos haver e fazer com sentido temporal (h dias que, faz dias que) o transpositor que (parece ter sido, neste caso, primitivamente integrante)124 adquiriu, por 
contato, a ideia de tempo, com valor aproximado de desde que:

H quatro dias que no o vejo.

Fazia quatro meses que estivera doente.

Em tais oraes, a anlise se torna difcil pelo fato de a construo ter-se fixado apesar de alterado o sentimento lingustico. H um visvel descompasso entre a sua estrutura 
de superfcie e a profunda. Considerar o que com valor temporal e, portanto, temporal a respectiva orao,  classificar como principal justamente a orao que expressa a 
circunstncia de tempo:

1. orao  principal: H quatro dias

2. orao  subordinada adverbial temporal: que no o vejo.125

Poder-se- analisar como substantiva subjetiva a orao de que, depois de fazer, como fazem os autores patrcios lembrados na nota anterior.

Cremos, tambm, ser possvel considerar que o que no serve de introduzir uma orao subordinada adverbial temporal, mas, reduzido a simples palavra memorativa, relembra, 
na orao principal, a partir de que fato se faz aluso ao tempo na subordinada anterior. Esta subordinada, no se ligando  principal por transpositor, ser considerada justaposta:

1. orao  subordinada adverbial temporal: H quatro dias

2. orao  principal: (que) no o vejo.126

Entretanto, no misturando o plano gramatical com o contedo designado, a orientao mais seguida  classificar a orao de que como adverbial temporal.

Tais oraes temporais admitem mais de uma construo:

H muito tempo que no o vejo.

H muito tempo no o vejo.

No o vejo h muito.

De h muito no o vejo.

Desde h muito no o vejo.

At h pouco eu o vi por aqui.

Observaes:

1.) Advrbios e unidades adverbializadas (ontem, hoje, h muito, h pouco, h tantos anos, etc.), precedidos da preposio de, so transpostos a adjetivos (adjuntos adnominais):

As notcias de hoje.

As lembranas de ontem.

Um testamento de h cem anos.

Modas de h trinta anos.

Meninos de h pouco. [ED.2, 423; MBa.3, 158]

2.) A preposio junto ao verbo haver em De h muito no o vejo, desde h muito, at h pouco, assinala melhor a ideia temporal. Adolfo Coelho considera sem razo, viciosa 
e linguagem de h muito que explica desta maneira: Influncia semelhante (fala da influncia por analogia) se nota na expresso frequente, mas viciosa, de h muito por h 
muito. H muito fixa-se como a indicao dum tempo passado; h no  apercebido como verbo, mas antes como preposio (a); da o anterpor-se-lhe a preposio de por analogia 
de expresses como de ento (para c, at hoje), de ontem, de muito [ACo.2, I, 82].

3.) Em lugar de quando foi a vez dele diz-se tambm quando foi da vez dele ou, abreviadamente, quando da vez dele. Estas duas ltimas construes so modernas e Epifnio 
Dias as considera incorretas, devidas  m traduo do francs lors de [ED.2,  182]. Jlio Moreira [JM.1, II, 68] e com ele Mrio Barreto [MBa.3, 230] explicam o fenmeno 
por cruzamento sinttico das duas expresses; quando foi a vez dele e da vez dele, de que resultou uma terceira mista: quando foi da vez dele. Ocorre ainda a quando de (a 
quando da vez dele), onde Epifnio Dias v ainda influncia do a do francs alors, com requinte de barbarismo (ibid.). Preferimos a explicao de Julio Moreira por no vermos 
na correspondente francesa a vitalidade suficiente para tal repercusso no portugus.

4.) Em muitos dizeres de sentido temporal, h tendncia, bem notria hoje em dia, para confundir que conjuno com que pronome relativo, e para afirmar este carter pronominal 
em certos casos, hoje se prefere em que ao simples que da linguagem antiga [SA.2, 197]. D-se com frequncia esta alternncia de que e em que quando o substantivo que se 
considera antecedente do pronome relativo vem precedido da preposio em. Prefere-se dizer ao mesmo tempo que, a tempo que, ao tempo que, mas no tempo que (ou em que), no 
dia que (ou em que), etc. Tem-se estendido sem razo nem tradio no idioma o emprego de em que em construes onde s deve figurar o que, como todas as vezes em que. Prefira-se 
todas as vezes que ou em todas as vezes em que (ou simplesmente que).

5.) O verbo haver (H) e a preposio A em sentido temporal. Atente-se no emprego correto destas duas formas. H, verbo, refere-se a tempo decorrido e a, preposio, a tempo 
futuro:

H trs dias no o vejo.

J devia ter-lhe escrito h mais tempo.

Daqui a a trs dias o verei.

Este produto  famoso h mais de meio sculo.

Usa-se ainda a preposio a nas indicaes da distncia de lugar:

Estamos a cinco quilmetros do stio.

Cuidado especial ho de merecer tambm as expresses a cerca de e h cerca de, onde a locuo cerca de (= aproximadamente, perto de, mais ou menos) vem precedida da preposio 
a ou da forma verbal h:

Ele falou a cerca de mil ouvintes (= para cerca de mil ouvintes).

H cerca de trinta dias foi feita esta proposta.

Temos ainda a locuo acerca de que significa sobre, a respeito de, em relao a:

O professor dissertou acerca dos progressos cientficos.

Por outro lado, podem-se suprimir as palavras atrs ou passado(s) que aparecem com o verbo haver, uma vez que este j indica tempo decorrido:

H trs dias atrs                   ou            H trs dias.

H trs dias passados            ou            H trs dias.

6.) Nas oraes adverbiais precedidas de principal que encerra advrbio de valor temporal (apenas, mal), devemos empregar quando e no que:

Apenas tinha terminado a questo, quando o professor recolheu a prova.

Mal saa da escola, quando se lembrou da pasta.

Pode-se tambm suprimir o quando:

Apenas Pelgio transps o escuro portal da gruta, Eurico levantou-se [AH apud MBa.5, 20].

Anlise de SEM QUE

De modo geral, tem-se enquadrado a locuo sem que no grupo das chamadas conjunes condicionais. A verdade  que a locuo assume variados sentidos contextuais, entre os 
quais lembraremos:

1) condio (subordinada condicional):

Sem que estude, no passar.

2) nega uma consequncia (subordinada consecutiva):

Estudou sem que conseguisse aprovao.

3) exprime uma consequncia esperada (depois de negativa):

No brinca sem que acabe chorando (todas as vezes que brinca acaba chorando).

4) exprime uma concesso (subordinada concessiva):

Ele  responsvel, sem que o saiba, por todas essas coisas erradas.

5) nega uma causa, chegando quase a exprimir concesso (subordinada causal ou concessiva):

Estudou sem que seus pais lho pedissem (nega-se a causa ou uma das causas do estudo: o pedido dos pais, e vale quase por: estudou ainda que seus pais no lho pedissem).

6) denota simplesmente que tal ou qual circunstncia no se deu, aproximando-se da ideia de modo (subordinada modal):

Entrou em casa sem que tomasse nenhum alimento.
Retirou-se sem que chamasse seus colegas.

A Nomenclatura Gramatical Brasileira, entretanto, desprezou as oraes modais.

Em lugar de sem que pode-se usar tambm de sem + infinitivo:

Saiu sem ser percebido.

Estes foram os melhores teatrlogos, sem falar em Machado de Assis e Franklin Tvora, mais ilustres no romance e no conto.

Em lugar de sem que, depois de uma principal de valor negativo, usa-se tambm que no, para indicar que a consequncia se d a todo o transe, se repete sempre que ocorrer 
o fato expresso na principal (o verbo da subordinada est no subjuntivo):

No brinca sem que acabe chorando.

No brinca que no acabe chorando.

Eu no posso abrir um livro de histria que no me ria [AGa.5, 255].

Observao: Alguns autores do  construo no... que no valor condicional. Cf. [AGo, 420] e [MBa.7, 48-9].

QUE depois de advrbio

Muitas vezes emprega-se que depois de advrbio onde a rigor poderia ser dispensado. So comuns as linguagens talvez que, apenas que, felizmente que, oxal que, quase que, 
enquanto que, embora que:

Assim, sem mais prembulos,

e apenas que te vejo,

veno o nativo pejo,

meu belo sedutor [AC, 96 apud MBa.1, 176].

Mas eu creio que Capitu olhava para dentro de si enquanto que eu fitava deveras o cho... [MA.4, 130 apud MBa.1, 177].

Puristas tm condenado tais modos de dizer.

Oraes justapostas de valor contextual adverbial

Oraes justapostas de valor contextual adverbial

A justaposio pode, no nvel do texto, apresentar as seguintes interpretaes:

a) concessivas: tendo o verbo no subjuntivo anteposto ao sujeito ou caracterizadas por expresses do tipo digam o que quiserem, custe o que custar, d onde der, seja o que 
for, acontea o que acontecer, venha donde vier, seja como for, etc.:

Tivesse ele dito a verdade, ainda assim no lhe perdoaramos.

Sairemos, acontea o que acontecer.

No  o subjuntivo que de per si denota a concesso, mas sim o contexto e a entoao descendente.

b) condicionais: tendo o verbo no tempo passado (mais-que-perfeito do indicativo ou imperfeito do subjuntivo) anteposto ao sujeito:

Tivesse eu dinheiro, conheceria o mundo.

No fora a escurido, veria o perigo.

Eu quisesse,  fora, hoje mesmo a Ritinha vinha comigo [GR, 97].

Em tais casos, a segunda orao pode comear pela conjuno e:

Vencesse eu, e no me dariam o prmio.

Vissem-na, e ningum a reconheceria.

c) temporais:

H dias no o encontro.

Chegaram quela cidade havia pouco.

No lhe escrevia fazia meses.

d) finais:

Cala-te j, minha filha, ningum te oia mais falar [AGa.1, II, 83].

Mudemos, porm, de tecla, no v algum julgar-me candidato a revisor de gralhas [CF apud MB.2, 321].

Composio do enunciado

O enunciado ou perodo pode encerrar, ao mesmo tempo, oraes independentes (coordenadas e justapostas) e dependentes (subordinadas). Daremos exemplos de anlise depois de 
serem apontadas as oraes complexas e os enunciados justapostos:

a) coordenada e subordinada:

Todos se tinham posto em p quando el-rei erguera e esperavam ansiosos o que diria o velho (Alexandre Herculano).

1. orao  principal de 1. categoria:

Todos se tinham posto em p + subordinada temporal

2. orao  subordinada adverbial temporal:

quando el-rei se erguera,

3. orao  coordenada  principal e principal de 2. categoria:

e esperavam ansiosos + subordinada substantiva

4. orao  subordinada substantivada (de primitiva adjetiva) objetiva direta:

o que diria o velho.

Observao: No  novidade o achar-se mais de uma orao principal num perodo. Se conceituarmos com rigor tal tipo de orao, seremos levados a esta necessidade. Com efeito, 
no exemplo dado, temos duas oraes que apresentam um dos seus termos sob forma oracional; a subordinada quando el-rei se erguera denota o tempo da primeira principal, e a 
subordinada o que diria o velho funciona como objeto direto da segunda principal que, por sua vez, se acha coordenada  primeira principal. As expresses principal de 1. 
categoria, de 2. categoria, etc., j se acham nas excelentes noes elementares de anlise sinttica que abrem, desde 1887, a hoje tradicional Antologia Nacional, devidas 
a Fausto Barreto (o ttulo primitivo era Seleo Literria, de parceria com Vicente de Sousa). Outra maneira de ver a principal, diferente desta (como, por exemplo, na excelente 
Gramtica de Celso Cunha  Lindley Cintra), atenta mais para estruturao textual do que a gramatical, objeto da anlise sinttica.

b) justaposio e subordinao:

Lembrai-vos, cavaleiro  disse ele  de que falais com D. Joo I (Alexandre Herculano).

1. orao do 1. perodo  principal:

lembrai-vos, cavaleiro + orao subordinada

2. orao do 1. perodo  subordinada substantiva completiva relativa:

de que falais com D. Joo I.

1. orao do 2. perodo  justaposta de citao:

disse ele

c) coordenao e justaposio:

El-rei manda nos vivos e eu vou morrer!  atalhou o ancio em voz spera, mas sumida (Rebelo da Silva).

1. orao do 1. perodo  coordenada (ou coordenante):

El-rei manda nos vivos

2. orao do 1. perodo  coordenada aditiva:

e eu vou morrer!

1. orao do 2. perodo  justaposta de citao:

atalhou o ancio em voz spera, mas sumida.

d) coordenao, justaposio e subordinao:

Agora sim, disse ento aquela cotovia astuta, agora sim, irms, levantemos o voo e mudemos a casa, que vem quem lhe di a fazenda (Pe. Manuel Bernardes).

1. orao do 1. perodo  coordenada (ou coordenante):

Agora sim, agora sim, irms, levantemos o voo

2. orao do 1. perodo  coordenada aditiva e principal da 3.:

e mudemos a casa

3. orao do 1. perodo  subordinada causal e principal da 4.:

que vem

4. orao do 1. perodo  subordinada substantiva subjetiva justaposta:

quem lhe di a fazenda.

1. orao do 2. perodo  justaposta de citao:

disse ento aquela cotovia astuta

Observao: Quando o perodo encerra mais de um tipo de orao, d-se-lhe comumente o nome de misto, denominao que a Nomenclatura Gramatical Brasileira no agasalha. Todos 
os exemplos acima analisados so de perodos ou enunciados mistos.

Decorrncia de subordinadas

A orao principal  aquela que tem um dos seus termos sob forma de outra orao. Ora, no perodo, mais de uma orao  qualquer que seja o seu valor sinttico  pode acompanhar-se 
de orao subordinada:

No sei se Jos disse que viria hoje.

A 1. principal pede a orao subordinada objetiva direta se Jos disse, que, por sua vez, pede a terceira que viria hoje. Assim sendo, a 2. orao se nos apresenta sob duplo 
aspecto sinttico: subordinada em relao  1. e principal em relao  3..

No sei

      se Jos disse

            que viria hoje.

Havendo mais de uma orao principal, design-las-emos, respectivamente, por principal de 1. categoria, de 2. categoria, de 3. categoria, etc.:

1. orao  principal de 1. categoria:

No sei + subordinada

2. orao  subordinada substantiva objetiva direta (em relao  anterior) e principal de 2. categoria (em relao  seguinte):

se Jos disse + subordinada

3. orao  subordinada substantiva objetiva direta:

que viria hoje.

Neste ponto, precisamos assentar algumas noes importantes:

a) no perodo pode haver mais de uma orao principal;

b) a orao ou oraes principais podem ter o seu verbo no indicativo ou subjuntivo:

Espero que v embora (indicativo).

Espero que me diga se vai embora (indicativo e subjuntivo).

c) a orao ou oraes principais podem vir iniciadas por conectivos coordenativos ou transpositores:

Rubio passa muitas horas fora de casa, mas no o trata mal, e consente que v acima... [MA].

A orao coordenada aditiva e consente  tambm principal da subordinada que v acima, pois esta lhe serve de objeto direto.

Concorrncia de subordinadas: equipolncia interoracional

Assim como uma orao pode depender de outra subordinada, assim tambm duas ou mais oraes subordinadas podem servir  mesma principal:

Espero que estudes e que sejas feliz.

Isto :

Como a concorrncia de subordinadas s  possvel se as oraes exercem a mesma funo, elas estaro coordenadas entre si, porque a coordenao se d com expresses do mesmo 
valor e na mesma camada de estruturao gramatical.

No exemplo dado, a 3. orao se nos apresenta sob duplo aspecto sinttico:  coordenada em relao  2. (porque so do mesmo valor) e subordinada em relao  principal 
(espero), comum s duas subordinadas. Em vez desta classificao um tanto longa (coordenada  anterior e subordinada  principal), dizemos apenas que a 3. orao  equipolente 
 2. orao. Infelizmente, esta denominao cmoda no encontrou agasalho na Nomenclatura Gramatical Brasileira.

A equipolente pode ser:

a) substantiva:

Espero que estudes e que sejas feliz.

b) adjetiva:

O livro que li e que lhe devolvi  timo.

c) adverbial:

Quando chegou e quando me disse o ocorrido, no acreditei.

Costuma-se, com elegncia, omitir o transpositor subordinativo da orao equipolente (quando se tratar de pronome relativo, este exerce a mesma funo sinttica do pronome 
relativo anterior):

Espero que estudes e sejas feliz.

O livro que li e lhe devolvi  timo.

Quando chegou e me disse o ocorrido, no acreditei.

Venho porque se trata de instruo e tenho embocadura para o magistrio [GrR.2, 59].

Se os pronomes relativos exercem funes diferentes, o normal  repetir cada pronome, sendo raros os exemplos como o seguinte:

Pois vo tambm essas que a deixei, e mais a figura de Tristo, a que cuidei dar meia dzia de linhas e levou a maior parte delas [MA.12, 37 apud MBa.2, 102. Cf. ainda 
ED.2,  375 c].

Em construo do tipo magistrado a cujo cargo estavam as obras pblicas e cuidava do reparo dos templos da cidade de Roma h vcio de sintaxe, pois que antes de cuidava 
h de se subentender que, e no o anterior a cujo. [Cf. MBa.1, 387].

No portugus moderno cumpre evitar a prtica de se lembrar na orao ou oraes equipolentes uma unidade adverbial simples (geralmente quando e como) por meio de um simples 
que:127

Quando chegou e que me disse o ocorrido, no acreditei.

Ou se repete a unidade anterior, ou se omite: quando chegou e (quando) me disse:

Se se trata, porm, de locuo conjuntiva,  possvel, na boa linguagem, repetir-se simplesmente o que:

Logo que chegou e me disse o ocorrido...

ou

Logo que chegou e que me disse o ocorrido...

Pode-se tambm omitir a conjuno coordenativa numa srie de equipolentes:

Rubio passa muitas horas fora de casa, mas no o trata mal, e consente que v acima, que assista ao almoo ou ao jantar, que o acompanhe  sala ou ao gabinete [MA].

1. orao  coordenada (ou coordenante):

Rubio passa muitas horas fora de casa,

2. orao  coordenada adversativa:

mas no o trata mal,

3. orao  coordenada aditiva e principal:

e consente + subordinada

4. orao  subordinada substantiva objetiva direta:

que v acima,

5. orao  equipolente  4.:

que assista ao almoo ou ao jantar,

6. orao  equipolente  5.:

que o acompanhe  sala ou ao gabinete.

Concorrncia de termo + orao subordinada

s vezes a concorrncia no se d entre duas oraes da mesma funo sinttica, mas entre um termo da orao e outra orao:

conheci a violncia das suas paixes e que a do cime devia ser terrvel naquele corao [AH.3, 119].

O verbo conhecer tem dois objetos diretos: o substantivo violncia e a orao substantiva que a do cime devia ser terrvel naquele corao, que se acham coordenados entre 
si.

No seguinte exemplo de Machado de Assis [MA.1, 242]:

Virglia tragou raivosa esse malogro, e disse-mo com certa cautela, no pela cousa em si, seno porque entendia com o filho

temos dois adjuntos adverbiais de causa: a expresso pela cousa em si e a orao subordinada adverbial porque entendia com o filho, que se acham conectadas pela srie no... 
seno.

3  As chamadas Oraes Reduzidas

Que  orao reduzida

Em

Estuda agora, porque, quando o vero chegar, entraremos de frias.

as trs oraes se dizem desenvolvidas, porque seus verbos esto no imperativo (estuda), no subjuntivo (chegar)128 e no indicativo (entraremos).

Podemos, entretanto, alterar a maneira de expressar a subordinada quando o vero chegar sem nos utilizarmos dos trs modos verbais acima apontados:

quando o vero chegar = ao chegar o vero

quando o vero chegar = chegando o vero

quando o vero chegar = chegado o vero

Dizemos ento que as subordinadas ao chegar o vero, chegando o vero e chegado o vero so oraes reduzidas, porque apresentam o seu verbo (principal ou auxiliar, este ltimo 
nas locues verbais), respectivamente, no infinitivo, gerndio e particpio (reduzidas infinitivas, gerundiais e participiais).

Nota sobre o conceito de orao reduzida  Dentro e fora da gramtica portuguesa tem sido muito diversificado o conceito de orao reduzida. A opinio mais generalizada, partindo 
da ideia de que o que caracteriza a relao predicativa  a presena de verbo na forma finita,  que a construo com verbo nas formas nominais (infinitivo, gerndio e particpio) 
no constitui orao, e, neste caso,  uma subunidade da orao, um termo dela, quase sempre como um adjunto adnominal ou adverbial. Esta maneira de ver se estende at quelas 
construes em que vem acompanhada a forma nominal de unidades que, se estivessem numa orao com verbo finito, funcionariam como termo argumental ou no argumental (no caso 
de papel de adjunto adverbial).

Outros autores, nestas ltimas construes, do estatuto de oraes  parte (nem sempre usando a nomenclatura reduzida) apenas quelas que encerram infinitivo e gerndio 
independentes, considerando as de particpio meros termos oracionais.

Em portugus, que possui o infinitivo flexionado, fica ainda mais difcil no aproximar  necessrio que estudes a lio a  necessrio estudares a lio, ainda que se trate 
de um idiotismo da lngua.

Neste livro, optamos por dar estatuto  parte s reduzidas de qualquer forma nominal do verbo desde que apresentem autonomia sinttica dentro do enunciado e possam estar estruturadas 
analogamente s oraes com verbo de forma finita, as desenvolvidas.

Observaes:

1.) Havendo locuo verbal  o auxiliar que indica o tipo de reduzida. Assim so exemplos de reduzidas de gerndio: estando amanhecendo, tendo de partir, tendo partido; 
so exemplos de reduzidas de infinitivo: ter de partir, depois de ter partido;  exemplo de reduzida de particpio: acabado de fazer. Se, por outro lado, o auxiliar 
da locuo estiver na forma finita, no haver orao reduzida: Quanta gente havia de chorar.

2.) Nem toda orao desprovida de transpositor  reduzida, uma vez que este transpositor pode estar oculto: Espero que sejas feliz ou Espero sejas feliz. Em ambos os exemplos 
a subordinada que sejas feliz ou sejas feliz  desenvolvida. O que caracteriza a reduzida  a forma infinita ou nominal do verbo (principal ou auxiliar): infinitivo, gerndio 
e particpio.

3.) A Nomenclatura Gramatical Brasileira desprezou a denominao infinito para designar as formas nominais do verbo, desfazendo uma incmoda sinonmia antiga entre infinito 
= infinitivo, que, em muitos casos, levava os leitores de gramtica a confuses. Infinita  uma forma verbal normalmente sem flexo, enquanto infinitivo  uma das chamadas 
formas nominais do verbo; assim, se fala em emprego do infinitivo, e no em emprego do infinito.

O desdobramento das oraes reduzidas

As oraes reduzidas so subordinadas e quase sempre se podem desdobrar em oraes desenvolvidas.129 O emprego de reduzidas por desenvolvidas e vice-versa, quando feito com 
arte e bom gosto, permite ao escritor variados modos de tornar o estilo conciso, no acumulado de qus e outros transpositores, enfim, elegante.130

Vejamos os seguintes exemplos:

a) Declarei estar ocupado = declarei que estava ocupado.

b) Para estudarmos precisamos de sossego = para que estudemos, precisamos de sossego.

c) Chovendo no sairei = se chover, no sairei.

d) Acabada a festa, retirou-se = quando acabou a festa, retirou-se.

Estes desdobramentos so meros artifcios de equivalncias textuais, que nos ajudam a classificar as oraes reduzidas, uma vez que poderemos proceder da seguinte maneira:

a) Declarei estar ocupado = declarei que estava ocupado.

que estava ocupado: subordinada substantiva objetiva direta.

Logo:

estar ocupado: subordinada substantiva objetiva direta reduzida de infinitivo (ou reduzida infinitiva).

b) Chovendo no sairei = se chover, no sairei.

se chover: subordinada adverbial condicional.

Logo:

chovendo: subordinada adverbial condicional reduzida de gerndio (ou reduzida gerundial).

c) Acabada a festa, retirou-se = quando acabou a festa, retirou-se.

quando acabou a festa: subordinada adverbial temporal.

Logo:

acabada a festa: subordinada adverbial temporal reduzida de particpio (ou reduzida participal).

Oraes substantivas reduzidas

Normalmente as oraes substantivas reduzidas tm o verbo, principal ou auxiliar, no infinitivo:

a) subjetiva:

Agora mesmo, custava-me responder alguma coisa, mas enfim contei-lhe o motivo da minha ausncia [MA.1, 208].

b) objetiva direta:

... como se estivesse ainda no vigor da mocidade e contasse como certo vir a gastar frutos desta planta [LCo apud FB.1, 38].

c) objetiva indireta:

Tudo, pois, aconselhava o rei de Portugal a tentar uma expedio para aquele lado [AH.2, 148].

d) completiva relativa:

Um povo que se embevecesse na Histria, que cultivasse a tradio, que amasse o passado, folgaria de relembrar esses feitos... [CL.1, I, 123].

e) predicativa (do sujeito ou do objeto):

O primeiro mpeto de Lusa foi atirar-se-lhe aos braos, mas no se atreveu [MLe apud FB.1, 31].

... o averbara de no possuir atributos de administrador.

O resultado foi eu arrumar uns cocotes na Germana e esfaquear Joo Fagundes [GrR.2, 13].

f) apositiva:

Dois meios havia em seguir esta empresa: ou atacar com a armada por mar, ou marchar o exrcito por terra e sitiar aquela cidade [AH.2, 69].

Observaes:

1.) No  raro vir precedido de preposio o infinitivo das oraes reduzidas subjetivas e objetivas:

Desaire real seria de a deixar sem prmio [AGa.3, 122, da 5. ed.].

mas no era assaz difcil de reconhecer um cadver coberto de feridas... [AH.2, 72].

Custou-lhe muito a aceitar a casa [MA.1, 194].

Mostrou-se pesarosa de no o encontrar, e prometeu de voltar hoje s trs horas [CBr.1, 118].

Senhor Lus de Melo, eu tenho por princpio de me no intrometer... [AGa.6, 173 apud MBa.3, 212, da 2 ed.].

2.) No raro tambm a orao substantiva reduzida de infinitivo vem precedida de artigo (mormente se a orao funciona como sujeito ou objeto direto):

o haver de marchar em um pas inimigo, ocupado por gente belicosa, era considerado muito grave... [AH.2, 69].

Da nasce o trabalharem os mais notveis escritores da Europa por vivificarem o esprito religioso [AH.2, 145].

Aumentando (o rei) as fortificaes da ilha, tornou impossvel aos portugueses o reconquist-la [AH.2, 62].

Oraes adjetivas reduzidas

As oraes adjetivas reduzidas tm o verbo, principal ou auxiliar, no:

a) infinitivo:

O orador lhavo no era homem de se dar assim por derrotado [AGa.5, 14 apud ED.2,  308].

Est marcada a festa a realizar-se na prxima semana.

mas nem um momento duvidamos de que a sua convico ntima seja a necessidade de restituir o antigo lustre e preo  filosofia do Evangelho [AH.2, 145].

Observaes:

1.) Ligar qualificativamente a substantivos o infinitivo precedido de a (v. g.: livros a consultar) em vez de uma orao relativa (v. g.: livros que se ho de consultar), 
ou de um infinitivo precedido de para (v. g.: roupa para consertar),  imitao moderna da sintaxe francesa, imitao que s por descuido se encontra nos que melhor falam 
a lngua ptria.

Qual  a relao a deduzir destas consideraes e destes fatos? [AH.8, IV, 177]. [ED.2,  304]. [Cf. MBa.1, 490, 515].

2.) Condenam tambm algumas autoridades o emprego do infinitivo precedido da preposio a depois de adjetivos como nico, ltimo, derradeiro, alm dos ordinais (primeiro, 
etc.). Para tais mestres o melhor  o emprego da preposio em, nesses casos, ou de uma orao iniciada por pronome relativo: o primeiro em fazer ou o primeiro que fez, e 
no o primeiro a fazer. Epifnio Dias, excelente conhecedor do portugus e francs, aceita a expresso condenada [Cf. ED.2,  299], no que concordamos com ele.

b) gerndio, indicando de um substantivo ou pronome:

1) uma atividade passageira:

cujos brados selvagens de guerra comeavam a soar ao longe como um trovo ribombando no vale [AH.3, 218, ed. de 1878].

Realmente, no sei como lhes diga que no me senti mal, ao p da moa, trajando garridamente um vestido fino... [MA.1, 260].

Em todos estes exemplos o gerndio figura com a ideia de tempo transitrio muito acentuada, servindo de atribuir um modo de ser, uma qualidade, uma atividade a um nome ou 
pronome, mas apenas dentro de certo perodo e em determinada situao. Assim, gua fervendo  gua que naquele momento fervia ou fervia dentro de certo espao de tempo. Vale 
o gerndio, nestas circunstncias, por uma expresso formada de preposio a + infinitivo: gua a ferver:

Tambm algumas vezes foram dar com ela a abraar a cadelinha [MLe apud JR.5, 32].

2) uma atividade permanente, qualidade essencial, inerente aos seres, prpria das coisas:

O livro V, compreendendo as leis penais, aquele que, aps os progressos efetuados na legislao e na humanidade, mais carecia de pronta reformao [LCo.1, I, 288].

Decreto de 14 de fevereiro de 1786, proibindo a entrada das meias de seda que no fossem pretas, e decreto de 2 de agosto de 1786, suscitando a observncia e ampliando o 
cap. II... [LCo.1, I, 298].

Algumas comdias havia com este nome contendo argumentos mais slidos [FF apud SA.2, 249].

Estes e muitssimos outros exemplos atestam que tal emprego do gerndio131 ocorre vitorioso na lngua culta portuguesa, desde longos anos, dando-nos a impresso de se tratar 
de uma evoluo normal, comum a mais de uma lngua romnica, e no de uma simples influncia francesa. Entretanto, notveis mestres condenam este uso como galicismo: Epifnio 
Dias, Jlio Moreira, Leite de Vasconcelos, Mrio Barreto, entre outros. Defendem-no Otoniel Mota, Said Ali, Eduardo Carlos Pereira, Cludio Brando, entre outros.

Para os que tm a expresso como francesa, deve-se substituir o gerndio por uma orao adjetiva iniciada por pronome relativo, ou por uma preposio conveniente:

     Livro contendo gravuras

            passaria a

     Livro que contm gravuras

            ou

     Livro com (ou de) gravuras.

Aceitar o gerndio como construo verncula no implica adot-lo a todo momento, acumulando-o numa srie de mau gosto. Em muitos casos, como bem pondera Rodrigues Lapa [RLp.1, 
227], no h dvida que o uso do gerndio  prefervel  orao relativa, sobretudo quando no temos o recurso acertado, expressivo das preposies. No abusemos dele, mas 
no hesitemos em empreg-lo, sempre que o reconheamos superior a outros modos de escrever.

c) particpio:

Os anais ensanguentados da humanidade esto cheios de facnoras, empuxados (= que foram empuxados) ao crime pela ingratido injuriosa de mulheres muito amadas, e perversssimas 
[CBr.1, 120].

Oraes adverbiais reduzidas

Tm o verbo, principal ou auxiliar, no:

A) infinitivo: caso em que, normalmente, se emprega o verbo regido de preposio adequada. Para o desdobramento da reduzida em desenvolvida basta substituir a preposio ou 
locuo prepositiva por uma conjuno ou locuo conjuntiva do mesmo valor e pr o verbo na forma finita.  de toda convenincia conhecermos as principais preposies que 
correspondem a conjunes subordinativas adverbiais, porque isso melhor nos adestra na plstica da sintaxe portuguesa:

1) para as causais temos:

a) com:

Porm, deixando o corao cativo,/ com fazer-te a meus rogos sempre humano,/ fugiste-me traidor... [RD.1, c. VI].

Com fazer-te = porque te fizeste sempre humano.

b) em:

Em verdade, bem louco deve ser este homem em estar a plantar agora esta nogueira, como se estivesse ainda no vigor da mocidade [LCo apud JR.5, 38].

em estar a plantar = porque est a plantar;

c) por:

...  to desairoso falar um homem a sua lngua mal, sob o pretexto de que ela  difcil, como tirar as botas num salo por lhe doerem os calos [SR.1].

d) visto:

Visto sair de manh bem cedo, no  muito conhecido pelos vizinhos.132

e) locues prepositivas:  fora de, em virtude de, em vista de, por causa de, por motivo de, devido a, etc.:

 fora de se tornar trivial, esta verdade eterna, que resume todo o esprito do cristianismo, deixou de ser para muitos [AH.2, 159].

2) para as concessivas:

a) com:

Com fazer todas as obrigaes corretamente, no conseguiu livrar-se da falncia.

com fazer = embora fizesse;

b) sem, negando a causa e a consequncia, pode exprimir a concesso:

Este era funestamente o sistema colonial adotado pelas naes que copiavam sem o entender nem fecundar, como os romanos, o governo discricionrio das provncias avassaladoras 
[LCo apud FB.1, 215].

c) malgrado:

Estudou malgrado ter perdido o caderno.

d) no obstante:

Saram no obstante terem ouvido os conselhos do pai.

e) locues prepositivas: apesar de, sem embargo de:

Apesar, porm, da casa ser tida como imagem dos perigos e privaes da guerra, e do duque haver adquirido com ela grande disposio e robustez, observou-se depois que as 
armas o atraam pouco [RS.2, IV, 96].

3) para as condicionais (e hipotticas):

a) a:

... houve quem visse, ou fingisse ver, um notvel reflexo que a ser verdadeiro devia nascer das muitas luzes que provavelmente estariam acesas [AH.2, 83].133

No seguinte trecho vale por uma comparativa hipottica do tipo de como se ou modal:

... depois veio a mim, que estava sentado, deu-me pancadinhas na testa, com um s dedo, a repetir:  Isto, isto  e eu no tive remdio seno rir tambm, e tudo acabou em 
galhofa [MA.1, 209].134

Observao: como a + infinitivo

b) sem:

No sair sem apresentar os exerccios.

4) para a consecutiva: de:

 feio de meter medo.

5) para as finais:

a) a:

Muitos personagens eminentes do Imprio e diversas famlias, ligadas por aproximao de afeto  famlia imperial, apresentaram-se a falar ao imperador... [RP apud FB.1, 
145].

Observaes:

1.) O infinitivo das oraes finais pode aparecer sem preposio: Diz-se que ele era um dos doze que foram a Inglaterra pelejar (= para pelejar) em desagravo das damas inglesas, 
fato assaz duvidoso... [AH.2, 92].

Construes deste tipo, aproximando-se o infinitivo do verbo principal anterior (foram pelejar), permitiriam um incio de locuo verbal, onde o 1. verbo passaria a ser sentido 
como auxiliar modal denotador de movimento para realizar um intento futuro. Este histrico importa para a explicao do emprego antigo da preposio a, suplantado depois, 
entre brasileiros principalmente, pela preposio em, no termo adverbial de lugar. Em O rio Amazonas vai desaguar ao Atlntico, temos ainda vestgio da fase em que o sentimento 
lingustico levava em considerao o verbo de movimento, vai desaguar (= para desaguar). Perdida esta noo de movimento, vai ao Atlntico desaguar passou a ser interpretado 
como um todo, prevalecendo a regncia que competia ao verbo desaguar: vai desaguar no Atlntico.

Ambas as construes so corretas, tendo sido esta ltima, sem razo, recriminada por certos gramticos:

Veio embarcar-se (D. Joo) a Aldeia Galega, aonde o guardavam muitos fidalgos e eclesisticos [RS.2, IV, 171];

Do outro lado da povoao corre o pequeno rio... que vem desaguar no Lucus [AH.2, 70];

... enquanto a frota se ia colocar na boca do rio a que deu nome aquela povoao [AH.2. 70].

2.) Sobre a construo questo a resolver.

b) de:

Dava aos pobres algo de comer pela manh.

Observao: Estas expresses alternam com as de preposio a: Dava aos pobres algo a comer pela manh. Entretanto, parece entrever aqui uma imitao do francs: A preposio 
 entre donner e infinitivo equivale a de: donner  boire et  manger, dar de comer e beber; donner  diner  quelquum, dar de jantar; elle lui donna  souper, deu-lhe de 
cear. Nessas construes dar de comer, dar de almoar, dar de mamar, pedir de beber, pedir de almoar, ganhar de comer, o complemento formado por de e um infinitivo , na 
sua origem, de carter adjetivo. D-me algo, alguma coisa, qualquer coisa de comer,  como se dissramos algo comvel ou comestvel. Omitido o substantivo, significa por si 
s as coisas sobre que se exerce a ao do infinitivo: d-me de comer = d-me coisa que comer [MBa.3, 129]. Apesar do voto do ilustre mestre, julgamos ser irreprovvel a 
linguagem dar a comer. Epifnio Dias [ED.2,  293, a, 1] no v galicismo na construo: dar a algum algo a beber.135

c) para:

Tudo isto diz o quadro a quem tiver olhos para ver, corao para sentir, entendimento para perceber [AH.2, 165].

d) por, hoje mais rara, fixada em por assim dizer e semelhantes:

Recomendava el-rei D. Manuel, por suas cartas, a Afonso de Albuquerque que trabalhasse por haver s mos a cidade de Adm [AH.2, 105].

e) em:

e por isso posto que a Inglaterra no precisasse dela, para este fim, trabalhou em possu-la para que os holandeses no se aproveitassem das vantagens que a sua situao 
oferecia [AH.2, 102-3].

Dois meios havia em seguir esta empresa [AH.2, 69].

f) locues prepositivas: a fim de, com o fim de, etc.:

Da sua parte, os alunos no devem dar de mo  gramtica elementar a fim de se exercitarem nos verbos e adquirirem outras noes bsicas e, como tais, indispensveis... 
[SR.1].

6) para iniciar oraes locativas reduzidas (correspondem a oraes justapostas): em:

Filha, no muito possuir no  ainda posta a felicidade, mas sim no esperar e amar muito [AC apud JR.5, I, 37].136

7) para as ideias de meio e instrumento:

a) com:

... at o (D. Afonso) induzirem a mand-lo (D. Pedro) sair da corte, ao que D. Pedro atalhou com retirar-se antes que lho ordenassem [AH.2, 91].

b) de:

Eu no sou, minha Nise, pegureiro,

Que viva de guardar alheio gado [TG.1, 15].

8) para as temporais:

a) tempo anterior: antes de:

E, se ambos, morrermos antes de estarem em idade que se possam por si manter, tero por pai aquele que mora nos cus [AC apud JR.5, 35].

b) tempo concomitante: a (neste caso o infinitivo pode vir ou no precedido de artigo):

Tais eram as minhas reflexes ao afastar-me do pobre... [AH.2, 190].

E o moo, a falar de sua me, chorava... [CBr.6, 59].

c) tempo posterior: depois de, aps:

A borboleta, depois de esvoaar muito em torno de mim, pousou-me na testa [MA.1, 99].137

d) tempo futuro prximo: perto de, prestes a:

... e s abandona (o comandante) o posto quando voa em socorro da Parnaba ou do Belmonte, prestes a soobar [Ouro Preto apud FB.l, 84].

e) durao de prazo: at:

... o Slia... arrancava os penedos, alua as razes das rvores seculares, carreava as terras e rebramia com som medonho, at chegar s plancies... [AH.1, 236].

Observao final:  importante no confundirmos (e s vezes se no podem traar limites rigorosos neste assunto (por serem razes extradas dos elementos fornecidos pelo texto 
e no pela gramtica) em certas expresses, o conjunto preposicional com um substantivo seguido de seu complemento nominal reduzido de infinitivo. Como bem ensina Jos Oiticica, 
em certas locues como por causa de, por motivo de, em virtude de, em vista de, etc., a orao de infinitivo no deve ser tida por complementar. Exemplo: Em vista de lhe 
haverem furtado a chave, no pde abrir o depsito. Esta orao de infinitivo seria complementar se o substantivo vista conservasse seu valor semntico; porm, na locuo, 
desapareceu tal valor, e vigora num todo meramente prepositivo.138 E mais adiante continua: Com locues: no intuito de, no propsito de, com inteno de, etc., as oraes 
so complementares, porque os substantivos mantm seu valor (semntico) normal. Destarte,  de valor adjetiva completiva nominal reduzida grifada do seguinte perodo:

Mandou ento el-rei por seus arautos apregoar  roda do arraial de D. Pedro que, sob pena de serem havidos em conta de traidores, todos os que seguiam o Duque de Coimbra 
o abandonassem [AH.2, 96}.

B) gerndio e a equivalente a:

1) uma orao causal:

Vendo este os seus maltratados, mandou disparar algumas bombardas contra os espingardeiros [AH.2, 97].

vendo = porque visse;

2) uma orao consecutiva:

Isto acendeu por tal modo os nimos dos soldados, que sem mandado, nem ordem de peleja, deram no arraial do infante, rompendo-o por muitas partes [AH.2, 97].

rompendo-o = e como consequncia o romperam;

3) uma orao concessiva:

Tendo mais do que imaginavam no socorreu os irmos.

tendo = embora tivesse;

4) uma orao condicional:

Tendo livres as mos, poderia fugir do cativeiro.

tendo livre as mos = tivesse livres as mos.

5) uma orao que denota modo, meio, instrumento:

Um homem agigantado e de fera catadura saiu da choupana murmurando sons mal-articulados [AH.1 apud ED.2,  316, b, 1].

E no os (destinos) podia realizar seno ceifando cidades em lugar de farragiais, e enfeixando com mo robusta povos [AC.1 apud ED.2, 2].

6) uma orao temporal:

El-rei, quando o mancebo o cumprimentou pela ltima vez, sorriu-se e disse voltando-se: Por que vir o conde quase de luto  festa? [RS apud FB.5, 205].

voltando-se = enquanto se voltava;

No seguinte exemplo se acha reforado por um advrbio de tempo:

Desviando depois a mo que o suspendia baixou mais dois degraus [RS apud FB.5, 209].

desviando = depois que desviou, no momento em que desviou.

Observao: O gerndio pode aparecer precedido de preposio em quando indica tempo, condio ou hiptese. Neste caso, o portugus moderno exige que o verbo da orao principal 
denote acontecimento futuro ou ao que costuma acontecer:

Ningum, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguir evadir  sada [RB apud FB.1, 126].

Aqui o gerndio indica tempo, e o verbo da principal exprime ao futura (conseguir).

Em Vieira morava o gnio: em Bernardes o amor, que, em sendo verdadeiro,  tambm gnio [AC apud FB.1, 186].

Nesta passagem, o gerndio exprime condio ou hiptese, e o verbo da orao que  tambm gnio (subordinante da condicional) denota um acontecimento que costuma ocorrer.

C) particpio e a equivale a:

1) uma orao causal:

Irado o infante com as injrias que lhe tinham dito, mandou enforcar uns e degolar outros... [AH.2, 96].

2) uma orao condicional:

Entramos em uma batalha, onde, vencidos os inimigos, honraremos nosso pas.

vencidos = se forem vencidos.

3) uma orao temporal:

E neste sentido, mudados os nomes, fez uma comunicao  sociedade cientista dos avicultores da imperial cidade da Mogncia [JR.2, 42].

Observaes:

1.) Nestes empregos do particpio, observam-se as regras de concordncia, estudadas no captulo da Concordncia, entre o verbo e o seu sujeito.

2.) Alguns particpios passaram a ter emprego equivalente a preposies e advrbios: exceto, salvo, mediante, no obstante, tirante, etc., e, como tais, normalmente devem 
aparecer invariveis. Entretanto, no se perdeu totalmente a conscincia de seu antigo valor, e muitos escritores de nota procedem  concordncia necessria:

Os tribunais, salvas excees honrosas, reproduziam, povoados de criaturas do valido, todos os defeitos do sistema [RS.2, IV, 67].

A razo desta diferena  que a mulher (salva a hiptese do captulo CI e outras) entrega-se por amor... [MA.1, 327}.

Utilizar estas maneiras de dizer, devidas ao amor excessivo da exatido , como bem pondera Epifnio, expressar-se na verdade com correo gramatical, mas de modo desusado 
[ED.2,  220, a].

3.) Elegantemente podemos empregar, para a ideia de tempo, o particpio seguido de que e duma forma adequada do verbo ser:

Acabado que foi o prazo destinado  reviso, os candidatos continuaram insatisfeitos.

H discordncia entre os autores quanto  natureza deste que posposto ao particpio. Para Maximino Maciel (Gramtica Descritiva, 368),  conjuno, segundo este trecho: Tambm 
elegantemente se conjuncionalizam as reduzidas de particpio passado, interpondo entre o particpio e o substantivo sujeito a conjuno que a uma forma do verbo ser, adaptvel 
ao tempo, exemplo: A ideia republicana e democrtica se acabaria em toda a Europa, eclipsado que fosse o esplndido luzeiro que at ento lhe serviu de fanal (Latino Coelho, 
Repblica e Monarquia).

Para Epifnio, o que  pronome relativo, e julgamos que com ele est a razo (cf. Sintaxe Histrica Portuguesa,  91,c): Na qualidade de nome predicativo ou aposto, pode 
(o pronome relativo) referir-se a adjetivos (ou particpios), servindo de realar a qualidade ou estado: acabada que esteja a obra (Cf. ainda a Gramtica Francesa,  282, 
2, Obs. 1.).139

Oraes reduzidas fixas

A nossa lngua possui certo nmero de oraes reduzidas que normalmente no aparecem sob forma desenvolvida. Neste grupo se acham:

a) as oraes subjetivas que se seguem a certos verbos, como caber, valer, impedir, em construes do tipo de:

Coube-nos ornamentar o salo (e no: que ornamentssemos).

Valeu-nos estarem perto alguns amigos (e no: que estivessem perto).

Impediu-nos a viagem ter vindo ordem de voltarmos (e no: que veio).140

b) as oraes objetivas diretas que se seguem a verbos como agradecer, perdoar e o impessoal haver na expresso no h valer-lhe (e equivalentes) em construes do tipo:

Perdoou-lhes o haverem-nos ofendido [ED.1,  226, b].

E l se vo: no h mais cont-los ou alcan-los [EC, 128].

c) as de sentido aditivo enftico do tipo (verbo no infinitivo):

Alm de que a fumarada do charuto, sobre ser purificante e antiptrida, dava aos alvolos solidez, e consistncia aos dentes [CBr.1, 108].

d) as que denotam pensamentos para cuja expresso no existem conjunes subordinativas, como as que indicam:

1) excluso (verbo no infinitivo):

Em vez (diziam) dos nossos navios carregarem as mercadorias daqueles portos para o de Lisboa... so embarcaes estranhas as que hoje demandam as ilhas... [RS.2, IV, 533].

Longe de desanimar com os obstculos, reanima-se para venc-los.

2) exceo (verbo no infinitivo):

A filha estava com quatorze anos; mas era muito fraquinha, e no fazia nada, a no ser namorar os capadcios... [MA.1, 201].

3) meio ou instrumento (verbo no infinitivo ou gerndio) e modo (verbo no gerndio, embora aqui haja conjuno correspondente):

Salvou-o o senado, segurando-lhe a pessoa at poder sair a bordo de uma nau holandesa a 21 de maio [RS.2, IV, 244].

Desmoralizou-o com desmenti-lo em pblico.

Procurou este logo estorvar-lhe (a misso) por todos os ombros, prendendo-o ou matando-o. [RS.2, 244].

Enfrenta a vida sorrindo dos perigos.141

Quando o infinitivo no constitui orao reduzida

A presena do infinitivo no caracteriza orao reduzida nos seguintes principais casos, podendo, contudo, constituir, em alguns exemplos, orao (no reduzida):

a) quando, sem referncia a nenhum sujeito, denota a ao de modo vago,  maneira de um substantivo:

Recordar  viver.

b) quando faz parte de uma orao verbal:

Tinham de chegar cedo ao trabalho.

c) quando, precedido de preposio e em referncia a substantivo, o infinitivo tem sentido qualificativo, o que ocorre:

1) quando exprime a destinao:

sala de jantar, ferro de engomar, tbua de passar, criado de servir.

2) quando equivale a um adjetivo terminado em -vel:

 de esperar que todos se saiam bem (espervel).

Pareciam menos de louvar (louvvel).

Foi caso muito de recear (recevel).

d) quando, precedido de preposio e depois de certos adjetivos (difcil, fcil, duro, bom, etc.), o infinitivo tem sentido limitativo (com certa interpretao passiva ou 
ativa):

Osso duro de roer (de ser rodo ou de algum roer).

Poesia fcil de decorar (de ser decorada ou de algum decorar).

e) quando, equivalente a imperativo, exprime o infinitivo ordem, recomendao:

Todos se chegavam para a ferir, sem que a D. lvaro se ouvissem outras palavras seno estas: Fartar, rapazes! [AH.2, 98].

f) quando, nas exclamaes, o infinitivo exprime estranheza pela realizao de um acontecimento:

Pr-me a mim l fora?!  bradou Teodora [CBr.1, 175].

Tu, Hermengarda, recordas-te?! [AH.1, 47].

g) quando entra em oraes interrogativas (diretas ou indiretas):

Que fazer?142

No sei que fazer.

Nada tinha que dizer.

h) quando se trata de um infinitivo de narrao, isto , aquele que, numa narrao animada, considera a ao como j passada, e no no seu desenvolvimento.143

E os mdicos a insistirem que sasse de Lisboa [Jlio Dinis]

Ela a voltar as costas, e o reitor a pr o chapu na cabea [id.]

E ele a rir-se, ele a regalar-se [EQ]

O senhor a dizer-lhe uma palavra, e eu a provar-lhe que... [ED.2, 309,3].

NOTA: No esto acordes os autores quanto  origem do infinitivo de narrao: a hiptese mais cmoda, mas nem por isso mais convincente,  a da elipse. Assim pensavam Quintiliano, 
para o latim, e Burguy, Littr, Kastner, Plattner, Lubker, entre outros para o francs.  a opinio que expende M. Barreto para o portugus: Na frase:  Eu falo, e eles a 
rir (isto , pem-se a rir, esto a rir-se, comeam a rir)  temos o que se chama infinitivo histrico, que assim se diz o que na proposio tem valor de voz verbal de modo 
finito. A proposio que tem por predicado perifrstico, um elemento do qual est subentendido (ltimos Estudos, 241). Contra esta maneira de explicar esto Diez, Schulze, 
Darmesteter, Strohmeyer e Brndal. A segunda hiptese  a que o deriva do infinitivo de ordem ou infinitivo imperativo (opinio de Wackernagel, para o latim e Marcou, Spitzer 
e Lerch, para o francs). Para Lombard (Op. cit. 212) o infinitivo de narrao  originariamente uma orao nominal. O problema se acha exaustivamente tratado nas pginas 
186-243 do citado livro do romancista sueco.

Observao: Foge a uma anlise rigorosa a srie de expresses do tipo temer, no teme, com que, na linguagem afetiva, enunciamos rplicas e objees. Epifnio (Sintaxe Histria 
Portuguesa,  309, 3, Obs.) e Bello-Cuervo (Gramtica Castelhana,  926 e Notas, p. 63) supem que se trata de uma construo elptica, subentendendo-se, antes do infinitivo, 
a expresso quanto a, Meyer-Lbke cr que se trata de um infinitivo de intensidade e explica assim o nascimento do torneio de frase: Nous devons prendre comme point de dpart 
la question et la rponse prononcs sous lempire de lmotion. Ainsi, pour nous en tenir au premier exemple, on raconte quelque chose qui, de lavis du conteur, pourrait 
provoquer de la crainte chez un des auditeurs ou chez tous. Un dentre eux repousse cette pense en demandant avec indignation: Craindre?! Je ne crains pas. En consquence, 
 lorigine il devait y avoir une pause entre linfinitif et le verbe personnel. Plus tard, naturellement, la formule finit par devenir, comme expression de lintensit dune 
action, plus fixe et par consquent plus gnrale (Grammaire, III,  135). Levando-se em conta que se devem algumas alteraes de linguagem a esta ateno que o falante d 
a um pblico, real ou imaginrio, a hiptese do romanista  assaz sugestiva, apesar de Epifnio achar improvvel que o infinitivo, sendo rigorosamente interrogativo, viesse 
a deixar de o ser (ibid.). Cremos que o problema estaria melhor resolvido se levssemos em conta os nveis da orao e do texto, conforme nos ensina Coseriu, j esboado, 
alis, na explicao de Meyer-Lbke. Em temer, no teme estamos diante de um enunciado que, no nvel do texto (e no da orao), pressupe uma declarao repetida em relao 
ao que proferiu nosso interlocutor e a que nos referimos agora mediante o temer, e que s no nvel do texto deve encontrar cabal explicao.

O gerndio e o particpio no constituem orao reduzida

a) quando fazem parte de uma locuo verbal:

Esto saindo todos os alunos.

As lies foram aprendidas sem esforo.

b) quando aparecem como simples funo qualificadora,  maneira dos adjetivos:

Livro encadernado.

Construes particulares com o infinitivo

So dignas de ateno certas construes em que o infinitivo precedido de verbos que exprimem percepo fsica (ver, ouvir, olhar, sentir) ou atuao e ordenao (deixar, 
mandar, fazer). J tivemos oportunidade de nos referir ao caso, quando examinamos a funo sinttica do infinitivo e gerndio que entram nestas construes.

Praticamente, estas construes de infinitivo se repartem em dois grupos:

a) um, em que o infinitivo tem o mesmo agente e sujeito do primeiro verbo (regente):

Preferimos estudar pela manh.

b) outro, mais complexo, em que o infinitivo, depois dos verbos regentes acima aludidos, tem diferente agente:

Vejo abrir a porta.

Ouo soprar o vento.

Eu a vi sair de casa.

Ouvimos a sineta chamar os alunos.

No primeiro grupo, o infinitivo integra uma orao reduzida que exerce o papel de objeto direto do verbo regente preferimos, e por isso, pode ser comutado pelo pronome adverbal 
tono o:

Preferimos estudar pela manh ? Ns o preferimos ? Preferimo-lo.

O segundo grupo se subdivide em dois tipos: o infinitivo sozinho ou acompanhado de complementos:

1) o infinitivo integra uma orao subordinada objetiva direta:

Vejo abrir a porta.

Ouo soprar o vento.

em que abrir a porta e soprar o vento podem ser comutados pelo pronome adverbal tono o:

Vejo-o. Ouo-o.

Vs abrir a porta? Vejo-o.

Ouves sobrar o vento? Ouo-o.

2) o verbo regente exprime percepo fsica e o infinitivo exerce o papel de predicativo do objeto direto:

Eu a vi sair de casa.

Ouvimos a sineta chamar os alunos.

Aqui os verbos regentes que exprimem percepo fsica (vi e ouvimos) se acompanham do objeto direto (a e a sineta) que se acham modificados pelos infinitivos que exercem a 
funo de seus predicativos (sair e chamar).

Por mais que equivalham no plano do contedo de pensamento designado, Eu a vi sair de casa a Eu vi que ela saa de casa, do ponto de vista gramatical as construes so diferentes. 
O pronome a (Eu a vi sair) e ela (Eu vi que ela saa de casa) so ambos agentes do processo sair de casa, mas a  objeto direto e ela  sujeito. Pela anlise do contedo, 
a gramtica tradicional tem atribudo a esse pronome a dupla funo sinttica: objeto direto do verbo regente (vi) e sujeito do infinitivo (sair).

Tambm os verbos que exprimem atuao ou ordenao (deixar, mandar, fazer) apresentam a mesma construo dos verbos de percepo fsica:

O policial fez calar o assaltante / O policial f-lo calar.

O professor mandou o aluno saltar / O professor mandou-o saltar.

At aqui o infinitivo no se acompanha de objeto direto prprio, mas ele pode aparecer, como ocorre em:

O professor mandou o aluno fazer o exerccio,

quando os complementos do verbo regente mandou (o aluno) e do infinitivo fazer (os exerccios) podem ser teoricamente comutados pelos pronomes adverbais tonos o:

O professor mandou-o faz-lo.

ou ainda:

O professor mandou-o o fazer,

o que daria uma contiguidade incmoda e artificial de dois o... o, onde a clareza do texto poderia ser prejudicada. Veja-se este exemplo de A. Herculano:

(...) a tia Domingas ouviu-o cham-la de novo mansamente [AH.2, 76].

A tradio literria contornou o problema adotando duas normas seguintes:

a) Expressar o complemento do verbo regente sob forma de objeto direto se constitudo por substantivo:

O professor mandou o aluno faz-lo.

b) Expressar o complemento do verbo regente sob forma de objeto indireto se constitudo por pronome adverbal tono:

O professor mandou-lhe fazer os exerccios.

O professor mandou-lhe faz-lo.

O professor lhe ouviu dizer que melhoraria seu comportamento.

A colega lhe deixou ver suas bonecas.144

Observaes:

1.) Pela possibilidade de poder o complemento do infinitivo se aproximar do verbo regente, pode ocorrer a juno do pronome adverbal tono lhe (ou outro indireto) com o pronome 
o, como no seguinte exemplo:

... posto que Afonso I se houvesse apoderado de vrios lugares... a desgraa de Badajoz lhos fizera perder... [AH.2, 76],

isto : a desgraa lhe fizera perd-los.

2.)  raro o emprego de lhe por o quando o verbo no infinitivo no se acompanha de objeto direto: A vista s da vaca... nem lhes deixa pensar em soutos e pastios [AC.9, 
181].

A prtica se estenderia a se empregar sob forma de objeto indireto o complemento do verbo regente, mesmo se constitudo por substantivo:

O professor mandou ao menino fazer o exerccio.

O professor ouviu ao aluno dizer que melhoraria o comportamento.

O namoro fez ao jovem perder a cabea.

Por fim, cumpre assinalar que normalmente se usa o, e no lhe, quando o infinitivo  pronominal.

o Slia... rebramia com som medonho, at chegar s plancies, onde o solo no comprimia e o deixou espraiar-se pelos pauis e juncais... [AH.2, 76-77].

Observao: O infinitivo que se segue a deixar, mandar e fazer pode ser tomado em sentido passivo, e neste caso o agente da ao do infinitivo  regido pelas preposies por 
ou de:

D. Joo de Castro, sem deixar-se vencer do amor do filho, nem dos medos do tempo, resolveu enviar o socorro [FF apud ED.2, 289, a), Obs. 2.].

A omisso do pronome tono em eu os vi afastar daqui em vez de afastar-se daqui

No  rara a omisso do pronome tono que devia acompanhar um infinitivo pronominal, quando este mesmo infinitivo tem por agente um pronome tono:

Deixei-o embrenhar e transpus o rio aps ele [AH.2, 77].

O faqui deixou-o afastar [AH.2, 77].

Os seguintes exemplos mostram-nos que a presena do pronome tambm  correta:

Sentiu-o para aqui um pouco e depois encaminhar-se ao longo do corredor [AH.2, 76].

E o eremita viu-a, ave pernalta e branca, bambolear-se em voo, ir chegando, passar-se para cima do leito, aconchegar-se ao pobre homem... [JR.2, 227].145

A construo pedir para

Em

Eu retive-a, pedi-lhe que ficasse, que esquecesse [MA.1, 271]

o verbo pedir exige dois objetos: o indireto lhe e o direto oracional composto que ficasse, que esquecesse.

Normalmente, em tais casos, no se usa o objeto direto oracional sob forma reduzida. Evita-se dizer: Pedi-lhe ficar, pedi-lhe esquecer.

Em:

Dito isto, peo licena para ir um dia destes expor-lhe um trabalho... [MA.1, 245]

o verbo pedir vem acompanhado apenas do objeto direto licena; a orao reduzida de infinitivo para ir um dia destes expor-lhe um trabalho  adverbial de fim.

Pode-se omitir o objeto direto e construir o verbo pedir, assim: peo-lhe para ir um dia destes expor-lhe um trabalho.

Como esto prximas as ideias de pedir que algo acontea e trabalhar para que algo acontea, passou-se a usar a preposio para no incio da orao que seria objeto direto 
do verbo pedir, tendo-se em mira indicar a finalidade da coisa pedida:

Pediu para que Pedro sasse

ou

Pediu para Pedro sair.

Os gramticos no aceitaram a operao mental e ainda hoje esta maneira condensada de dizer  repudiada, apesar da insistncia com que penetra na linguagem das pessoas cultas. 
Para as autoridades de nossa lngua, s est certo o emprego do verbo pedir quando se tem para objeto direto o substantivo licena (claro ou subentendido) e a orao de para 
que ou para + infinitivo  sentida como adverbial de fim, com sujeito igual ao da orao principal.146 Assim, em:

O aluno pedia-lhe para sair,

o aluno pedia licena para ele mesmo sair.

A confuso dos dois empregos do verbo pedir traz ao enunciado incontestavelmente duplicidade de sentido, pois que em:

Ele pedia-lhe para sair

ficamos em dvida sobre a pessoa que sair. Para o gramtico s pode ser a que fez o pedido, e, na realidade, todos, ou quase todos, os exemplos abonados dos bons escritores 
tm o mesmo sujeito para a orao de pedir e para a orao iniciada pela preposio para.

A construo dizer para

Semelhantemente ao que ocorre com o verbo pedir, a linguagem coloquial despreocupada constri o verbo dizer (falar e sinnimos) seguido da preposio para junto ao que normalmente 
seria o seu objeto direto:

Disse para que ele fosse embora

ou

Disse para ele ir embora.

So expresses condenadas que os gramticos recomendam se evitem no falar correto.

A construo para eu fazer

Em

O exerccio  para eu fazer

a preposio para rege o verbo fazer, cujo sujeito  o pronome pessoal eu. Evite-se a construo errnea o exerccio  para mim fazer, devida ao fato de se supor que a preposio 
se prende ao pronome, como: este presente  para mim.

Diz-se corretamente o presente  para mim, porque a preposio sempre rege pronome oblquo tnico.

Distinga-se claramente este uso errneo do correto, em que h antecipao do objeto indireto livre de opinio; o ritmo oracional marca a diferena:

Para mim (pausa) fazer isso  sempre agradvel.

A posio do sujeito nas oraes reduzidas

No portugus contemporneo, o sujeito das oraes reduzidas de gerndio e particpio vem normalmente depois do verbo (nas locues verbais pode aparecer depois do auxiliar):

A guerra diplomtica andava acesa em Roma, lidando o enviado portugus por contrariar com energia os meneios e dilaes do Cardeal Torregiani [LCo.1, I, 44].

No me havendo chegado notcia das viagens de Gulliver, penso que a minha gente liliputiana teve origem nas baratas e nas aranhas [GrR.1, 94].

Findo o susto, considerava-me isolado, continuava nas infraes sem nenhuma vergonha [GrR.1, 180].

Acabada a festa, foram ao cinema.

Estariam erradas as construes se colocssemos o sujeito antes do verbo: o enviado portugus lidando, o susto findo, a festa acabada.

Nas reduzidas de gerndio  preciso distinguir cuidadosamente essas linguagens imperfeitas daquelas que, por falta de pontuao adequada, nos fazem supor que se trata de anteposies 
do sujeito. Nos seguintes exemplos s houve falta da vrgula para separar a principal da subordinada:

O cristianismo elevando o culto da mulher inspirou a cavalaria e a poesia cavaleiresca, nobilitando pelo amor e pelo sacrifcio o sexo que era tambm o de Maria Santssima 
[JR.2, 51].

Ento Gonalo Mendes fazendo recuar o capuz que cobria a cabea do suposto mensageiro olhou para ele alguns instantes [AH.3, 116].147

Entre as reduzidas de gerndio, fazem exceo ao princpio exposto aquelas que, precedidas da preposio em, denotam circunstncias de tempo, hiptese ou condio, quando 
o sujeito pode vir antes ou depois desta forma verbal:

Ningum, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguir evadir  sada [RB apud FB.1, 126].

A semelhana entre as filhas de Felipe da Gama reduzia-se a isto: mas era to grande, que em as duas conversando a fala confundia-se, e o ouvinte mais no era capaz de distinguir 
[RS.3, 2, 122 apud ED.2, 316,b,2,obs].

No tocante s reduzidas de particpio, podem ter o sujeito anteposto ou posposto ao verbo, quando constitudo pelos pronomes isto, isso, aquilo e o que:

Isto posto, resolvemos voltar

ou

Posto isto, resolvemos voltar.

A construo  da gente rir

A antecipao do sujeito ao verbo, nas oraes reduzidas de infinitivo preposicionado, possibilita a combinao da preposio com o sujeito ou um adjunto do sujeito:

J era tempo de sarem os alunos de frias.

pode passar facilmente a J era tempo de os alunos sarem de frias e da  combinao J era tempo dos alunos sarem de frias.

A preposio pode-se combinar com o ncleo do sujeito. Assim, diremos:

 tempo DE ELE sair

ou

 tempo DELE sair.

Alguns gramticos no aceitam a combinao apontada sob o pretexto de que o sujeito no pode vir regido de preposio; no se trata aqui, entretanto, de regncia preposicional 
de sujeito, mas do contato de duas palavras que, por hbito e por eufonia, costumam ser incorporadas na pronncia. Se tais combinaes parecem contrariar a lgica da gramtica, 
cumpre observar que no repugnam a tradio do idioma com o testemunho de seus melhores escritores, antigos e modernos. O que a lio dos fatos nos permite ensinar  que ambas 
as construes so corretas, segundo nos atestam as seguintes passagens que no se podem dar como errneas ou descuidos de reviso.148 Trata-se de um problema de estilstica 
fnica, pelo qual a no combinao encarece o papel do sujeito do infinitivo. Do ponto de vista meramente gramatical so vlidas ambas construes:

s voltou depois do infante estar proclamado regedor [AH.2, 44].

Os que no servio militar perdiam o cavalo tiravam o valor deste dos despojos antes destes (destes, no original) se repartirem [AH.2].

Apesar da sua ao ser... superior  autoridade dos bispos... [AH.2].

... a unidade que resulta da sntese do ideal, antes deste ser revelado pela expresso material [AH.2, 162].

sabia-o, senhor, antes do caso suceder [AH.4, I, 267].149

... mesmo depois dos descobrimentos dos portugueses haverem transformado as condies do comrcio geral do mundo [RS.2, IV, 16].

Apesar, porm, da caa ser tida como imagem dos perigos e privaes da guerra... [RS.2, 96].

Notou, igualmente, a vantagem dos confederados repartirem de antemo os postos entre si... [RS.2, 139].

... e a despeito do dia estar chuvoso [RS.2, 171-2].

Nos dias pequenos o sino de recolher soava muito antes dos mercadores terem acabado a ceia nas hospedarias... [RS.2, 527]

Depois do Garrett escrever erradamente no seu Cames... [AC, Anotaes  6. edio do Dicionrio de Morais, in Arquivos Literrios de Delfim Guimares, V apud P. A. Pinto, 
revista Colaborao, n 5, p. 20].

... se, por exemplo me concederem um monoplio do plantar couves, apesar das couves serem uma das muitas espcies de legumes [RB apud P. A. Pinto, ibid.].

Pelo fato do verbo restituir, numa de suas acepes, e entregar, em certos casos, terem, como diz o Dr. Rui, o mesmo sentido... [CR.2 apud P. A. Pinto].

... no caso do infinitivo trazer compl. direto [ED.2, 226).150

Terminamos esta pequena lista com um fato que no deixa dvidas de que os exemplos aduzidos no se explicam por descuidos. Na pgina 87 do vol. IV da sua excelentemente escrita 
Histria de Portugal, contrariando a sintaxe que lhe vem natural e frequente, Rebelo da Silva no faz a combinao:

Nem o rei, nem o ministro apreciaram o perigo, seno depois de ele declarado e irremedivel.

Mas, para surpresa de muitos gramticos, no final do volume, na pgina destinada a erratas, declara textualmente:

Onde se l: depois de ele leia-se depois dele (delle no original). 151

Tem-se estendido o exagero da condenao aos casos em que a preposio precede um advrbio, quando, na realidade, o que decide a existncia ou no existncia da combinao 
 a menor ou a maior pausa no proferir as duas palavras, ou ainda a eufonia e, como vimos, o realce. No seguinte exemplo de Alexandre Herculano, a pausa maior entre a preposio 
e o advrbio evita a combinao:

A afirmativa de ali se ajuntarem e agasalharem 20.000 pessoas  naturalmente impossvel [AH.2, 44].

 foroso reconhecer que a facilidade da combinao da preposio de no se estendeu, com a mesma frequncia, a outras preposies, nas circunstncias aqui estudadas. D prova 
disto o seguinte trecho de Rebelo da Silva, to afeito s construes combinadas:

No caso do reino se constituir em repblica, que partido seguiria D. Joo, o do pas, ou o dos castelhanos? Em qualquer acontecimento, redarguiu o duque, hei de acostar-me 
ao que seguir o comum do reino. Ento, continuou o secretrio, est dada a resposta. Mais vale arriscar tudo para reinar, do que arriscar tudo ainda e ficar vassalo. A ocasio 
 chegada, e parece que Deus a trouxe. A maior dificuldade consistia em os outros proporem a empresa... [RS.2, IV, 134].

Por fim, cabe-nos assinalar que, neste assunto de combinaes de preposio, o portugus moderno desprezou certos giros que  embora tambm contrrios  lgica da gramtica 
 foram estimados dos antigos e ainda hoje puristas aplaudem. Interessa-nos agora aquela em que se combinava a preposio por (antigo per) com os pronomes o, a, os, as, em 
funo de objeto direto:

Esforcei-me pelo convencer.

hoje desbancado por:

Esforcei-me por convenc-lo (ou para convenc-lo) ou por o convencer (mais raro entre os brasileiros).

Apesar de exemplos de autores modernos (Rui Barbosa entre eles) e do voto de Mrio Barreto [MBa.1, cap. VII, 111-25], concordo com o parecer de Said Ali [SA.6, 4, 160]:

A construo de por e antigo per com as formas pronominais o, a, os, as, pertence ao nmero das formas arcaicas, de que se encontram ainda restos, na linguagem popular de 
Portugal.  imprpria da linguagem culta de hoje, e se ocorre  o que  muitssimo raro  em algum escritor moderno, deixa-nos logo a impresso de um estilo afetado. No provam 
exemplos dessa espcie o uso geral, nem podem servir de norma para o falar correto.152

 elucidativo este passo de Rebelo da Silva, onde ocorrem os dois casos aqui estudados:

... em que o tribunal proferiu a sentena, mandando entregar as fazendas a Ado Bans e scios sob fiana de as restiturem no caso dos portugueses dentro de seis meses pagarem 
a quantia... [RS.2, 515].

Reduzidas decorrentes e concorrentes

Como as desenvolvidas, as oraes reduzidas podem ser:

a) decorrentes:

O Conde de Avranches saiu a eles com quase toda a gente do arraial e fazendo-os fugir tomou alguns prisioneiros [AH.2, 96].

A orao de fazendo  reduzida gerundial de tempo e se acompanha da orao tambm reduzida fugir (reduzida de infinitivo), modificadora do objeto direto os.

b) concorrentes:

Irado o infante com as injrias que lhe tinham dito, mandou enforcar uns e degolar outros, e o conde perseguiu o resto at Portugal [AH.2, 96].

As oraes reduzidas de infinitivo enforcar uns e degolar outros so subordinadas equipolentes; por isso se acham coordenadas entre si.

No raro aparece, entre as oraes equipolentes, uma reduzida coordenada  outra desenvolvida ou vice-versa [MBa.1, 168, nota].

Para provar-lhe que no falto  menor condio estipulada, e para que a minha conscincia fique pura de escrpulos, vou dar-lhe a gratificao prometida [CBr.14, drama, 
ato II, cena IX].

Na provncia de Alentejo o recrutamento fazia-se para exclusiva defesa dela, cabendo um tero de cada comarca, se era grande, ou a duas unidas, sendo pequenas [RS.2, 227].

4  As Frases: Enunciados sem Ncleo Verbal

Orao e frase

Orao e frase  J tnhamos antecipado que a unidade sinttica chamada orao constitui o centro da ateno da gramtica por se tratar de uma unidade em que se relacionam 
sintaticamente seus termos constituintes e se manifestam as relaes de ordem e reco que partem do ncleo verbal e das quais se ocupa a descrio gramatical.

Isto no impede a presena de enunciados destitudos desse ncleo verbal conhecidos pelo nome de frases:

Bom dia!

Sade!

Depressa!

Que calor!

Casa de ferreiro, espeto de pau.

Estas frases diferem da orao porque so proferidas, quase sempre, em situaes especiais, fora as quais o enunciado no se manifesta em toda sua plenitude.

Em geral seus elementos constituintes so de natureza nominal (substantivos, adjetivos ou advrbios), e a ausncia do ncleo verbal, donde dimanam as relaes sinttico-semnticas, 
impede que se identifiquem entre seus constituintes as funes que se manifestam na orao. Por outro lado, a frase aponta para assero de uma verdade geral, j que exclui 
a forma verbal responsvel por uma particularizao da expresso [EBv.2, 181]. Entretanto, como so enunciados reais, apela-se para a interpretao mais ou menos prxima dos 
possveis equivalentes expressos sob forma de orao. Assim, entende-se que um enunciado como Bom dia! equivale a Desejo bom dia ou Espero que tenha bom dia!, ou Casa de 
ferreiro, espeto de pau valeria aproximadamente a Casa de ferreiro usa espeto de pau ou Quando a casa  de ferreiro, o espeto  de pau ou, ainda, Em casa de ferreiro no se 
usa espeto de ferro, mas de pau.

A simples verificao das vrias possibilidades de parfrases mostra bem como so tnues as relaes gramaticais que os termos existentes mantm entre si dentro da frase. 
Por isso a descrio da frase no se far pelos mesmos critrios empregados na orao, mas segundo sua constituio interna. Inicialmente, podemos dividir as frases em unimembres 
e bimembres.

Frases unimembres: interjeio

Frases unimembres: interjeio  O tipo mais simples de frase  o constitudo por interjeio. J  antiga em gramtica a ideia de a interjeio no ser, a rigor, uma palavra, 
mas que equivale a um enunciado independente ou a uma orao inteira:

Oh! Psiu!

Pode ainda aparecer combinada com outras unidades para constituir frases mais complexas:

Ai de mim!

Oh ptria minha!

J vimos que outras classes de palavras e grupos nominais se podem transpor ao papel de interjeio, empregados em funo apelativa, endereada ao interlocutor, ou como manifestao 
da atitude do falante [AL.1, 385]:

Socorro!

Depressa!

Meu pai!

Que horror!

Viva!

Podem aparecer unidades mais longas resultantes de respostas ou comentrios a dilogos reais ou imaginrios com o interlocutor. So frases elpticas, quase sempre de valor 
nominal, resduos de oraes sintaticamente incompletas ou truncadas, que devem ser tratadas no rol dos enunciados independentes sem ncleo verbal, ao largo de qualquer restituio 
corretiva do ponto de vista sinttico:

 Est bem, deixe-me ficar algum tempo mais, estou na pista de

    um mistrio

 Que mistrio? [MA.1, 28].

 Raposo, vou sair; h alguma cousa?

 Nada, Capito Viveiros [LB.3, 91].

Fez-me sentar ao p de si, na varanda, entre muitas exclamaes

de contentamento:

 Ora, o Brasinho! Um homem! Quem diria, h anos... Um homenzarro!     E bonito! Qual! Voc no se lembra de mim... [MA.1, 94-95]

 Qual  a sua profisso?

 Estudante. [LB.3, 91]

Entre essas verdadeiras pro-oraes esto as palavras sim, no, talvez, tampouco e assemelhadas (sozinhas ou combinadas) que de primitivos advrbios passam por transposio 
hipertxica ao papel de frases:

 J deste a notcia?

 Ainda no [LB.3, 165].

Algumas vezes nestes casos um dos interlocutores ou o autor num monlogo faz uso de uma frase exclamativa complexa que vale, unitariamente, por transposio hipotxica, por 
uma interjeio:

Eugnia sentou-se a concertar uma das tranas. Que dissimulao graciosa! Que arte infinita e delicada! Que tartufice profunda! [MA.1, 107]

Etiquetas e rtulos

Etiquetas e rtulos  Diferente contexto lingustico ocorre com frases que entram na indicao de etiquetas, letreiros e rtulos situados em circunstncias tais que, com ajuda 
de tais entornos, so suficientes para constituir informaes precisas. Deste rol fazem parte a sinalizao verbal das indicaes de trnsito (Entrada, Sada, Retorno, etc.), 
de estabelecimentos bancrios e comerciais (Clientes de Conta Ouro, Fila nica, Padaria, Carnes, Laticnios, Limpeza, Estacionamento, Entrada proibida, Entrada s permitida 
a funcionrios, etc.)

Frases assertivas bimembres

Frases assertivas bimembres  Embora frases assertivas bimembres possam ser facilmente parafraseadas a oraes de estrutura regular e com estas, muitas vezes, se alternar 
no discurso, no devem ser reconstitudas e emendadas com auxlio de elipses e outros recursos, para depois serem descritas como oraes. A expressividade decorre da leveza 
e espontaneidade com que se caracterizam.

Incluem-se, portanto, no rol de frases assertivas bimembres (dotadas tambm de entoao ou contorno meldico assertivos) os seguintes exemplos:

Casa de ferreiro, espeto de pau

Tal pai, tal filho

A vivacidade e leveza que tais frases emprestam ao discurso explicam o seu largo emprego nas mximas e provrbios.

5  Concordncia

Consideraes gerais

Consideraes gerais  Em portugus a concordncia consiste em se adaptar a palavra determinante ao gnero, nmero e pessoa da palavra determinada.

A concordncia pode ser nominal ou verbal  Diz-se concordncia nominal a que se verifica em gnero e nmero entre o adjetivo e o pronome (adjetivo), o artigo, o numeral ou 
o particpio (palavras determinantes) e o substantivo ou pronome (palavras determinadas) a que se referem:

O capito rosnou alguma cousa, deu dous passos, meteu a mo no bolso, sacou um pedao de papel, muito amarrotado; depois  luz de uma lanterna, leu uma ode horaciana sobre 
a liberdade da vida martima [MA.1, 65].

Diz-se concordncia verbal a que se verifica em nmero e pessoa entre o sujeito (e s vezes o predicativo) e o verbo da orao:

Os outros no sabendo o que era, falavam, olhavam, gesticulavam, ao tempo que ela olhava s, ora fixa, ora mvel, levando a astcia ao ponto de olhar s vezes para dentro 
de si, porque deixava cair as plpebras [MA.1, 183]

Chegando  rua, arrependi-me de ter sado [MA.1]

Eram 2 de novembro de 1952 [AH.2, 124].

A concordncia pode ser estabelecida de palavra para palavra ou de palavra para sentido. A concordncia de palavra para palavra ser total ou parcial (tambm chamada atrativa), 
conforme se leve em conta a totalidade ou o mais prximo das palavras determinadas numa srie de coordenao:

Repeli-a, porque se me ofereciam vida e honra a troco de perptua infmia [AH.1, 147].

O verbo ofereciam concorda com a totalidade do sujeito composto: vida e honra.

porque entre ele e Suintila... est o cu e o inferno [AH.1, 143].

O verbo est concorda, atrativamente, com o sujeito mais prximo (o cu) da srie coordenada o cu e o inferno.

... via-se em todas as faces pintado o espantoso e o terror [AH.2, 124].

O verbo via e o adjetivo pintado concordam, por atrao, com o sujeito mais prximo da srie o espantoso e o terror.

Quando a educao, os livros, e o sentir daqueles que nos odeiam apagou em nossa alma o selo da cruz [AH.2, 143].

O verbo apagou concorda, por atrao, com o sujeito mais prximo (o sentir daqueles) do sujeito composto, ainda que este venha anteposto ao verbo.

A concordncia de palavra para sentido se diz ainda concordncia ad sensum ou silepse:

A plebe vociferava as mais afrontosas injrias contra D. Leonor: e se chegassem a entrar no pao, ela sem dvida seria feita pedaos pelo tropel furioso [AH.2, 41].

O verbo vociferava concorda com o sujeito plebe que, sendo um coletivo, pde, pelo seu contedo semntico de pluralidade, levar ao plural o verbo chegassem, mais afastado 
dele.

Era gente colectcia, muitos, acaso, sem ptria da guerra, e por isso pouco habituados a resignar-se com as vrias e tediosas fases de um assdio [AH.2, 51].

O termo gente, de valor coletivo,  o responsvel pela flexo masculina de muitos e habituados, por se levar em conta a ideia de soldados contida na palavra gente.

 preciso estar atento a que a liberdade de concordncia que a lngua portuguesa muitas vezes oferece deve ser cuidadosamente aproveitada para no prejudicar a clareza da 
mensagem e a harmonia do estilo.

Na lngua oral, em que o fluxo do pensamento corre mais rpido que a formulao e estruturao da orao,  muito comum enunciar primeiro o verbo  elemento fulcral da atividade 
comunicativa  para depois se seguirem os outros termos oracionais. Nestas circunstncias, o falante costuma enunciar o verbo no singular, porque ainda no pensou no sujeito 
a quem atribuir a funo predicativa contida no verbo; se o sujeito, neste momento, for pensado como pluralidade, os casos de discordncia sero a frequentes. O mesmo ocorre 
com a concordncia nominal, do particpio.

A lngua escrita, formalmente mais elaborada, tem meios de evitar estas discordncias.

Concordncia nominal

Concordncia nominal

A  Concordncia de palavra para palavra

1) H uma s palavra determinada.

A palavra determinante ir para o gnero e nmero da palavra determinada:

Aflige-nos a glria alheia contestada com a nossa insignificncia [MM].

Os bons exemplos dos pais so as melhores lies e a melhor herana para os filhos [MM].

Eu amo a noite solitria e muda [GD.3, I, 314].

Eu estou quite. Ns estamos quites.

OBSERVAO: Os nomes femininos como sentinela, guarda, guia e assemelhados, quando aplicados a pessoas do sexo masculino, mantm o gnero feminino, e levam para este gnero 
os determinantes a eles referidos: a sentinela avanada; Depois desta digresso que acabais de fazer pelo mundo, com to m guia como eu, voltemos a ouvir de novo as vossas 
pedras [Agostinho de Campos apud MBa.2, 212].

2) H mais de uma palavra determinada.

Observar-se-o os seguintes casos:

1.) Se as palavras determinadas forem do mesmo gnero, a palavra determinante ir para o plural e para o gnero comum, ou poder concordar, principalmente se vier anteposta, 
em gnero e nmero com a mais prxima:

A lngua e (a) literatura portuguesas ou A lngua e (a) literatura portuguesa.

Amava no estribeiro-mor as virtudes e a lealdade nunca desmentidas

[RS.1, 124].

O tom e gesto caricioso, com que ela dizia isto, no moveu medianamente o esposo [CBr.1, 158].

e os nossos Baslio e Duro, bem assim o Sr. Magalhes... [OM, 72].153

Observaes:

1.a) Se as palavras determinadas se referirem a uma s pessoa ou coisa, impe-se o singular do determinante:

seu fiel amigo e servidor

2.a)  injusta a crtica do gramtico E. Carlos Pereira [CP.1,  427, 3, nota] aos seguintes exemplos: ... a mo esquerda, entre cujos ndice e polegar pendia o pergaminho... 
[AH.5, II, 24] e ... pelas exigncias cada vez maiores destas devoradoras e insaciveis fome e sede de leitura [AC.1, 315].

3.a) Precedendo um substantivo (ttulo ou prenome), ocorre o plural: Os irmos Pedro e Paulo. Os apstolos Barnab e Paulo.

4.a) Um determinante (adjetivo) no plural pode estar aposto a um sujeito do singular que venha colocado depois, quando este sujeito  algum dos pronomes cada um, cada qual, 
ningum, nenhum, referidos a pessoas ou coisas j mencionadas:

sobressaltados com esta vista, procurava cada um pr-se a salvo [ED].

2.) Se as palavras determinadas forem de gneros diferentes, a palavra determinante ir para o plural masculino ou concordar em gnero e nmero com a mais prxima:

Vinha todo coberto de negro: negros o elmo, a couraa e o saio

[AH.1, 107].

como se um grande incndio devorasse as brenhas e os carvalhais antigos [AH.1, 86].

Calada a natureza, a terra e os homens [GD.3, I, 315].

com boa coragem e zelo, com coragem e zelo bom (ou bons), com bons coragem e zelo

toda sua luta e sacrifcios.

todos seus sacrifcios e luta.

Observaes:

1.a) Por uma questo de agrado auditivo (eufonia), prefere-se que numa srie de palavras determinadas de gneros diferentes seguida de palavra determinante no masculino plural, 
venha a determinada masculina em ltimo lugar.

2.a) Se, neste caso, se tratar de pronome possessivo posposto, a concordncia deste se far com o ltimo substantivo:

Este velho desterrado por gosto e eleio sua... [RS.1, 16].

3.a) Quando h ideia de reciprocidade, torna-se obrigatrio o emprego do plural: Ele entrou prazenteiro... e encontrou padrinho e afilhada empenhados em uma discusso sobre 
autoridade [LBa apud SS.1,  257 obs.].

3) H uma s palavra determinada e mais de uma determinante.

A palavra determinada ir para o plural ou ficar no singular, sendo, neste ltimo caso, facultativa a repetio do artigo. Em geral, isto ocorre com adjetivos de nacionalidade: 
As literaturas brasileira e portuguesa ou A literatura brasileira e portuguesa (maneira de dizer menos frequente e, com exagero de lgica gramatical, considerada errnea por 
muitos autores) ou A literatura brasileira e a portuguesa.

e os cronistas tudense e toledano fazem a luta dos dous reis depois daquele consrcio [AH.6, III, 86].

Li um anncio, convidando mestra de lnguas inglesa e francesa para o colgio [CBr.1, 128].

O pequeno reino sucessivamente perlustrou as costas ocidental e oriental da frica... (C. de Laet, I, 211).

as sries quarta e quinta

a quarta e quinta srie (ou sries)

B  Concordncia de palavra para sentido

A palavra determinante pode deixar de concordar em gnero e nmero com a forma da palavra determinada para levar em considerao, apenas, o sentido em que esta se aplica: 
o (vinho) champanha, o (rio) Amazonas.

Entre os diversos casos desta concordncia pelo sentido aparecem os seguintes:

1)   As expresses de tratamento do tipo de V. Ex.a, V. S.a, etc.:

Observao: Quando se junta um adjetivo a tais formas de tratamento, tal adjetivo fica no gnero da forma de tratamento:

Sua Majestade fidelssima foi contrariado pelos representantes diplomticos.

2)   A expresso a gente aplicada a uma ou mais pessoas com incluso da que fala:

Pergunta a gente a si prprio (refere-se a pessoa do sexo masculino) quanto levaria o solicitador ao seu cliente por ter sonhado com o seu negcio [PC apud MBa.2, 413]154.

3)   O termo determinado  um coletivo seguido de determinante em gnero ou nmero (ou ambos) diferentes:

Acocorada em torno, nus, a negralhada mida, de dois a oito anos [HC.2, 84].

Note-se que acocorada e mida concordam com a forma gramatical de negralhada, enquanto nus o faz levando em conta o seu sentido (= grupo de negrinhos de dois a oito anos).

4)   A palavra determinada aparece no singular e mais adiante o determinante no plural em virtude de se subentender aquela no plural:

No compres livro somente pelo ttulo: ainda que paream bons, so muitas vezes pssimos [JR.1, 321].

Mas no nos constou em que ano comeou nem quantos esteve com ele [LS apud JR.1]155.

C  Outros casos de concordncia nominal

1)   Um e outro, nem um nem outro

1)   Um e outro, nem um nem outro  Com um e outro, pe-se no singular o determinado (substantivo), e no singular ou no plural o verbo da orao, quando estas expresses aparecem 
como sujeito:

Alceu Amoroso Lima (...) teve a boa ideia de caracterizar e diferenar o ensaio e a crnica, dizendo que um e outro gnero se afirmam pelo estilo.

Parou um momento e, olhando para um e outro lado, endireitou a carreira... [AH.1, 107].

Mas uma e outra cousa duraram apenas rpido instante [AH.1, 218].

Com nem um nem outro  de rigor o singular para o substantivo e verbo:

Nem um nem outro livro merece ser lido.

Com um ou outro o substantivo tambm fica no singular e invariavelmente no singular aparece o verbo de que a expresso serve de sujeito:

Um ou outro soldado, indisciplinadamente, revidava, disparando  toa, a arma para os ares [EC, 2.a ed., 428].

Se as expresses um e outro, nem um nem outro se aplicarem a nomes de gneros diferentes,  mais comum o emprego das formas masculinas:

Tornou a v-la, foi visto por ela, e acabaram namorados um do outro [MA.12, 1.a ed., 39].

Ali teve el-rei escondido algum tempo, e l comearam os seus amores com a rainha, que to fatais foram para um e outro [AH.2, 35].

Repousavam bem perto um do outro a matria e o esprito [AH.1, 44].

No raro pode aparecer a concordncia com o termo referido:

... vivia o casal venturoso de um certo Izraim persa letrado e da sua esposa Proftsia que um e outra cultivavam para deleite do esprito a filosofia grega [JR.2, 15].

2)   Mesmo, prprio, s

2)   Mesmo, prprio, s  Concordam com a palavra determinada em gnero e nmero:

Ele mesmo disse a verdade. Ela mesma disse a verdade.

Elas prprias foram ao local.

Ns no estamos ss.

Eles ss se encaminham para essa parte... [AH.1, 153].

Em lngua literria ocorre o adjetivo s varivel onde no colquio se prefere usar do advrbio s, portanto invarivel:

Com ss 27 anos de idade... j a palidez da morte se via lutar no seu rosto com as rosas da mocidade [AC.10].

Mesmo, alm de se empregar na ideia de identidade (= em pessoa), aparece ainda como sinnimo de prprio, at:

ao mesmo demnio se deve fazer justia, quando ele a tiver [AV apud ED.2,  86, a].

Este ltimo sentido e mais o emprego adverbial junto de aqui, j, agora (aqui mesmo, j mesmo, agora mesmo) facilitaram o aparecimento moderno da palavra como advrbio, modo 
de dizer que os puristas condenam, mas que vem ganhando a simpatia geral:

... vaidosos de seus apelidos, mas inofensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos [CBr.6, 219].156

3)   Menos e somenos

3)   Menos e somenos   preciso ateno para no fazer a concordncia de menos com o substantivo seguinte:

Mais amores e menos confiana (e no menas!).

Vale a mesma observao para somenos (= de menor valor):

H neles coisas boas e coisas ms ou somenos [MB.2, 239].

4)   Leso

4)   Leso   adjetivo, e no forma do verbo lesar, em construes de tipo: crime de lesa-ptria, crime de leso-patriotismo. Por isso h de concordar com o seu determinado 
em gnero e nmero:

Como se a substncia no fosse j um crime de leso-gosto e lesa-seriedade, ainda por cima as pernas saam sobre as botas [CBr.1, 83].

5)   Anexo, apenso e incluso

5)   Anexo, apenso e incluso  Anexo, apenso e incluso, como adjetivo, concordam com a palavra determinada em gnero e nmero:

Correm anexos (inclusos, apensos) aos processos vrios documentos.

Vai anexa (inclusa, apensa) a declarao solicitada.

Observao: Usa-se invarivel em anexo, em apenso: Vai em anexo (em apenso) a declarao. Vo em anexo (em apenso) as declaraes.

6)   Dado e visto

6)   Dado e visto  Usados adjetivamente, concordam em gnero e nmero com o substantivo determinado:

Dado (Visto) o problema que se nos apresentou, resolvemos desistir do contrato.

Dadas (Vistas) as circunstncias, foram-se embora.

7)   Meio

7)   Meio  Com o valor de metade, usado adjetivamente, concorda em gnero e nmero com o termo determinado, claro ou oculto:

Para aquilatar a importncia do tropeiro, basta lembrar que o Brasil tem cerca de oito e meio milhes de quilmetros quadrados de superfcie... [AAr.2, 102].

Era meio-dia e meia (i.: e meia hora).

8)   Pseudo e todo

8)   Pseudo e todo  Usados em termos compostos ficam invariveis.

A pseudo-sabedoria dos tolos  bem grande.

A f todo-poderosa que nos guia  nossa salvao.

9)   Tal e qual

9)   Tal e qual  Tal, como todo determinante, concorda em gnero e nmero com o determinado:

Tal opinio  absurda.

Tais razes no me movem.

Em correlao, tal qual tambm procedem  mesma concordncia:

Ele no era tal quais seus primos.

Os filhos so tais qual o pai.

Os boatos so tais quais as notcias.

Observaes:

1.a) Em lugar de tal qual, podem aparecer: tal e qual, tal ou qual.

2.a) No confundir tal qual flexionveis com tal qual, tal qual como invariveis que valem como:

Descerra uns sorrisos discretos, sem mostrar os dentes, tal qual como as inglesas de primeiro sangue [CBr apud CJ.1, 32].

10)   Possvel

10)   Possvel  Com o mais possvel, o menos possvel, o melhor possvel, o pior possvel, quanto possvel, o adjetivo possvel fica invarivel, ainda que se afaste da palavra 
mais:

Paisagens o mais possvel belas

Paisagens o mais belas possvel

Paisagens quanto possvel belas

Com o plural os mais, os menos, os piores, os melhores, o adjetivo possvel vai ao plural:

Paisagens as mais belas possveis.

Esto erradas concordncias como:

Paisagens as mais belas possvel.

Fora destes giros, a concordncia de possvel se processa normalmente:

As alturas e o abismo so as fronteiras dele: no meio esto todos os universos possveis [AH.2, 160].

Sob todos os pontos de vista possveis.

11) A olhos vistos

11) A olhos vistos   tradicional o emprego da expresso a olhos vistos no sentido de claramente, visivelmente, em referncia a nomes femininos ou masculinos:

... padecia calada e definhava a olhos vistos [MA.5, 13 apud Tradies Clssicas, 370].

Mais rara, porm correta,  a concordncia de visto com a pessoa ou coisa que se v:

As minhas foras medravam a olhos vistas de dia para dia

[AC apud CR.1, 554].

O baro desmedrara a olhos visto [CBr apud PDo.2, 32].

12)  necessrio pacincia

12)  necessrio pacincia  Com as expresses do tipo  necessrio,  bom,  preciso, significando  necessrio, o adjetivo pode ficar invarivel, qualquer que seja o gnero 
e o nmero do termo determinado, quando se deseja fazer uma referncia de modo vago ou geral. Poder-se- tambm fazer normalmente a concordncia:

 necessrio pacincia.

 necessria muita pacincia.

O fato de ter sido precisa a explicao (...) [AP.1, 424 n. 25].

Eram precisos outros trs homens [AM.1 apud RBa.1, 33].

 possvel ainda, em tais casos, aparecer no singular o prprio verbo da orao:

 doce ao velho

Sons dargentina voz [GD apud SS.1, 254]

Como acentua Barbadinho, a flexo de necessria(s)  mais frequente que a de precisa.

13) Adjetivo composto

13) Adjetivo composto  Nos adjetivos compostos de dois ou mais elementos referidos a nacionalidades, a concordncia em gnero e nmero com o determinado s ocorrer no ltimo 
adjetivo do composto:

Acordo luso-brasileiro

Amizade luso-brasileira

Lideranas luso-brasileiras

14) Alguma coisa boa ou alguma coisa de bom

14) Alguma coisa boa ou alguma coisa de bom  Em alguma coisa boa o adjetivo concorda com o termo determinado:

Quem tivesse reparado em Fr. Vasco perceberia facilmente que na sua alma se passava tambm alguma cousa extraordinria [AH apud MBa.7, 144].

Em alguma coisa de bom, o adjetivo no concorda com coisa, sendo empregado neutralmente (como algo de novo, nada de extraordinrio, nada de trgico, etc.).

Por atrao pode-se fazer a concordncia do adjetivo com o termo determinado que funciona como sujeito da orao:

Que tinha pois, Ricardina, de sedutora! [CBr apud MBa.7, 146].

Amor prprio do vilo; que a infmia nada tinha de engenhosa [Id., ibid.].

Se os homens no tivessem alguma coisa de loucos seriam incapazes de herosmo [MM].

A vida nada tem de trgica.

15) Um pouco de luz e uma pouca de luz

15) Um pouco de luz e uma pouca de luz  Ao lado da construo normal um pouco de luz pode ocorrer a concordncia atrativa uma pouca de luz, por se haverem fundido numa s 
expresso as duas seguintes maneiras de dizer: pouco de luz + pouca luz 157:

e aos ps deles os fiis que obtinham para ltima jazida uma pouca de terra... [AH.1, 154].

16) Concordncia do pronome

16) Concordncia do pronome  O pronome, como palavra determinante, concorda em gnero e nmero com a palavra determinada.

Emprega-se o pronome oblquo os em referncia a nomes de diferentes gneros:

A generosidade, o esforo e o amor ensinaste-os tu em toda a sua sublimidade [AH.1, 35].

17) Ns por eu, vs por tu

17) Ns por eu, vs por tu  Empregando-se vs em referncia a uma s pessoa, pe-se no singular o adjetivo:

Sois injusto comigo [AH apud ED.2, 14, b].

Ao se empregar, em idnticas condies, o pronome ns, o adjetivo pode ficar no singular ou ir ao plural:

Antes sejamos breve que prolixo.

Entre o desejo de alimentar a curiosidade do leitor e o receio de faltar  exao histrica, hesitvamos perplexos [AH apud ED.2, 14, b].

18) Alternncia entre adjetivo e advrbio

18) Alternncia entre adjetivo e advrbio  H casos em que a lngua permite usar ora o advrbio (invarivel) ora o adjetivo (varivel):

Vamos a falar srios [CBr apud MBa.1, 265].

Vamos a falar srio.

Os momentos custam caros [RS apud MBa.1, 265].

Os momentos custam caro.

A vida custa to cara aos velhos quanto  barata para os moos [MM].

Era esta a herana dos miserveis, que ele sabia no escassearem na quase solitria e meia arruinada Carteia [AH.1, 12].

A voz sumiu-se-lhe, toda trmula [EQ.3, 647].

A distino entre adjetivos e advrbios s se d claramente quando a palavra determinada est no feminino ou no plural, caso em que a flexo nos leva a melhor interpretar 
o termo como adjetivo. Na lngua padro atual, a tendncia  para nestes casos proceder dentro da estrita regra da gramtica e usar tais termos sem flexo, adverbialmente.

Entram nesta possibilidade de flexo as construes de tanto mais, quanto menos, pouco mais, muito mais, em que o primeiro elemento pode concordar ou no com o substantivo:

Com quanto mais razo, muito mais honra.

Com quanta mais razo, muita mais honra.

Poucas mais palavras trocamos [CBr apud MBa.4, 21].

Notemos, por fim, que alerta  rigorosamente um advrbio e, assim, no aparece flexionado:

Estamos todos alerta.

H uma tendncia para se usar desta palavra como adjetivo, mas a lngua padro recomenda se evite tal prtica. Junto de substantivo alerta adquire significado e funo de 
adjetivo:

A moa aguardava com inteligncia curta, os sentidos alertas [CLi apud RBa.2, 14].

Em sentido contrrio, aparece o engano de no se flexionar o adjetivo quite. Deve-se dizer:

Estou quite.

Estamos quites.

19) Particpios que passaram a preposio e advrbios

19) Particpios que passaram a preposio e advrbios  Alguns particpios passaram a ter emprego equivalente a preposio e advrbio (por exemplo: exceto, salvo, mediante, 
no obstante, tirante, etc.) e, como tais, normalmente devem aparecer invariveis. Entretanto, no se perdeu de todo a conscincia de seu antigo valor, e muitos escritores 
procedem  concordncia necessria:

Os tribunais, salvas excees honrosas, reproduziam... todos os defeitos do sistema [RS.2, IV, 67].

A razo desta diferena  que a mulher (salva a hiptese do cap. CI e outras) entrega-se por amor... [MA.1, 327].

Como bem pondera Epifnio Dias, flexionar tais termos  expressar-se na verdade com correo gramatical, mas de modo desusado [ED.2, 220, a].

Deste modo, a lngua moderna d preferncia a dizer salvo excees, salvo a hiptese.

20) A concordncia com numerais

20) A concordncia com numerais  Quando se empregam os cardinais pelos ordinais, no ocorre a flexo:

Pgina um.   Figura vinte e um.

Observaes:

1.) Na linguagem jurdica diz-se: A folhas vinte e uma. A folhas quarenta e duas.

2.) Embora se tenha usado o substantivo no singular precedido de numeral combinado com um, uma, a preferncia atual  p-lo no plural: vinte e um dias, as mil e uma noites, 
etc.

3.) Milhar  masculino e portanto no admite seus adjuntos postos no feminino a concordar com o ncleo substantivo feminino:

Os milhares de pessoas (e no as milhares de pessoas).

21) A concordncia com os adjetivos designativos de nomes de cores

21) A concordncia com os adjetivos designativos de nomes de cores  Surgem as incertezas quando o nome de cor  constitudo de dois adjetivos. Neste caso, a prtica mais 
comum  deixar o primeiro invarivel na forma do masculino e fazer a concordncia do segundo com o substantivo determinado, embora no deixem de aparecer exemplos em bons 
autores em que estejam flexionados os dois adjetivos:

olhos verde-claros, ondas verde-azuladas.

Concordncia verbal

Concordncia verbal

A  Concordncia de palavra para palavra

1) H um s sujeito:

a) Se o sujeito for simples e singular, o verbo ir para o singular, ainda que seja um coletivo:

A vida tem uma s entrada: a sada  por cem portas [MM].

Povo sem lealdade no alcana estabilidade [MM].

b) Se o sujeito for simples e plural, o verbo ir para o plural:

Os bons conselhos desprezados so com dor comemorados [MM].

A virtude aromatiza e purifica o ar, os vcios o corrompem [MM].

2) H mais de um sujeito:

Se o sujeito for composto, o verbo ir, normalmente, para o plural, qualquer que seja a sua posio em relao ao verbo:

... os dios civis, as ambies, a ousadia dos bandos e a corrupo dos costumes haviam feito incrveis progressos [AH.1, 21].

Repeti-as, porque se me ofereciam vida e honras a troco de perptua infmia [AH.1, 144].

Observaes:

1.) Pode dar-se a concordncia com o ncleo mais prximo, principalmente se o sujeito vem depois do verbo:

O romeiro  livre como a ave do cu: respeitam-no o besteiro e o homem darmas; d-lhe abrigo o vilo sobre o seu colmo, o abade no seu mosteiro, o nobre no seu castelo 
[AH.3, 145].

2.) Quando o ncleo  singular e seguido de dois ou mais adjuntos, pode ocorrer o verbo no plural, como se tratasse na realidade de sujeito composto:

ainda quando a autoridade paterna e materna fossem delegadas... [AGa.2, 25].

A concordncia do verbo no singular  a mais corrente na lngua padro.

3.) Nas obras com mais de um autor adota-se modernamente o hbito alemo de se indicar a autoria com os nomes separados por hfen, caso em que o verbo da orao vai ao plural 
ou ao singular (levando-se, neste caso, apenas em conta a obra em si): Meillet-Ernout dizem (ou diz) no seu Dictionnaire tymologique  que a origem  duvidosa.

4.) Pode ocorrer o verbo no singular ainda nos casos seguintes:

a) se a sucesso dos substantivos indicar gradao de um mesmo fato:

A censura, a autoridade, o poder pblico, inexorvel, frio, grave, calculado, l estava [AH.7, VII, 113].

b) se se tratar de substantivos sinnimos ou assim considerados:

O dio e a guerra que declaramos aos outros nos gasta e consome a ns mesmos [MM].

c) se o segundo substantivo exprimir o resultado ou a consequncia do primeiro:

A doena e a morte de Filipe II (...) foi como a imagem (...) [RS.2, IV, 6].

d) se os substantivos formam juntos uma noo nica:

O fluxo e refluxo das ondas nos encanta.

5.) Quando o verbo se pe entre os ncleos do sujeito, como acontece s vezes em poesia e no estilo solene, a concordncia pode ser feita com o ncleo mais prximo ou gramaticalmente 
com a totalidade do sujeito [RC.1, 251].

B  Concordncia de palavra para sentido

Quando o sujeito simples  constitudo de nome ou pronome que se aplica a uma coleo ou grupo, pode o verbo ir ao plural. A lngua moderna impe apenas a condio esttica, 
uma vez que soa geralmente desagradvel ao ouvido construo do tipo:

O povo trabalham   ou   A gente vamos.

Se houver, entretanto, distncia suficiente entre o sujeito e o verbo e se quiser acentuar a ideia de plural do coletivo, no repugnam  sensibilidade do escritor exemplos 
como os seguintes:

Comeou ento o povo a alborotar-se, e pegando do desgraado ctico o arrastaram at o meio do rossio e ali o assassinaram, e queimaram, com incrvel presteza [AH.2, 83].

Faa como eu: lamente as misrias dos homens, e viva com eles, sem participar-lhe dos defeitos; porque, meu nobre amigo, se a gente vai a rejeitar as relaes das famlias, 
justa ou injustamente abocanhadas pela maledicncia, a poucos passos no temos quem nos receba [CBr.1, 64].

C  Outros casos de concordncia verbal

1) Sujeito constitudo por pronomes pessoais

1) Sujeito constitudo por pronomes pessoais

Se o sujeito composto  constitudo por diferentes pronomes pessoais em que entra eu ou ns, o verbo ir para a 1.a pessoa do plural:

Vnhamos da missa ela, o pai e eu [MA.1, 309].

Se na srie entra tu ou vs e nenhum pronome de 1.a pessoa, o verbo ir normalmente para a 2.a pessoa do plural:

E, assim, te repito, Carlota, que Francisco Salter voltar, ser teu marido, e tereis (i., tu e ele) larga remunerao dos sofrimentos que oferecerdes a Deus... [CBr.4, 
79].

Observao: Ou porque avulta como ideia principal o ltimo sujeito ou porque, na lngua contempornea, vai desaparecendo o tratamento vs, nestes casos, a norma consagrou 
o verbo na 3.a pessoa do plural:

quando tu e os outros velhacos da tua laia lhe estorroaram na cara lixo e terra... [AH.5, I, 152 apud SA.5, II, 69].

Para a concordncia com 7expresses de tratamento.

2) Sujeito ligado por srie aditiva enftica

2) Sujeito ligado por srie aditiva enftica

Se o sujeito composto tem os seus ncleos ligados por srie aditiva enftica (no s... mas, tanto... quanto, no s... como, etc.), o verbo concorda com o mais prximo ou 
vai ao plural (o que  mais comum quando o verbo vem depois do sujeito):

Tanto o lidador como o abade haviam seguido para o stio que ele parecia buscar com toda a precauo [AH.3, 184].

3) Sujeito ligado por com

3) Sujeito ligado por com

Se o sujeito no singular  seguido imediatamente de outro no singular ou no plural mediante a preposio com, ou locuo equivalente, pode o verbo ficar no singular, ou ir 
ao plural para realar a participao simultnea na ao:

El-rei, com toda a corte e toda a nobreza, estava fora da cidade, por causa da peste em que ento Lisboa ardia [AH.2, 84].

Estas explicaes no evitaram que o desembargador, com os seus velhos amigos, prognosticassem o derrancamento do morgado da Agra...       [CBr.1, 108].

Nesta conjuntura, um deputado dileto da rainha, por nome Antnio Jos da Silva Peixoto, coadjuvado pelo foliculrio Jos Acrsio das Neves, levantaram-se e prorromperam em 
vivas... [CBr apud MBa.1, 206].

4) Sujeito ligado por nem... nem

4) Sujeito ligado por nem... nem

O sujeito composto ligado pela srie aditiva negativa nem... nem leva o verbo normalmente ao plural e, s vezes, ao singular:

 a nobre dama recm-chegada,  qual nem o cansao de trabalhosa jornada, nem o hbito dos cmodos do mundo puderam impedir... [AH.1, 136].

... nem Deus, nem o mundo lhes dar a mnima recompensa [AH.2, 16].

Constitudo o sujeito pela srie nem um... nem outro, fica o verbo no singular:

Nem um nem outro compareceu ao exame.

5) Sujeito ligado por ou

5) Sujeito ligado por ou

O verbo concordar com o sujeito mais prximo se a conjuno indicar:

a) excluso:

a quem a doena ou a idade impossibilitou de ganharem o sustento... [AH.2, 16].

Se Joo Fernandes (ou Platzhoff) os d como entes sem afeies (...) [CL.1, II, 304]

b) retificao de nmero gramatical:

Cantares  o nome que o autor ou autores do Cancioneiro chamado do Colgio dos Nobres do a cada um dos poemetos... [AH.3, 131].

Sei que algures existe a alma ou as almas, s quais eu me dirijo [ACt.1, 23].

c) identidade ou equivalncia:

O professor ou o nosso segundo pai merece o respeito da ptria.

Se a ideia expressa pelo predicado puder referir-se a toda a srie do sujeito composto, o verbo ir para o plural mais frequentemente, porm pode ocorrer o singular:

A nulidade ou a validade do contrato... eram assunto de direito civil

[AH.2, 20].

A ignorncia ou errada compreenso da lei no eximem de pena (...) [Cdigo Civil].

Mas a, como se o destino ou o acaso, ou o que quer que fosse se lembrasse de dar algum pastos aos meus arrombos possessrios [MA.1, 146].

6) Sujeito representado por expresso como a maioria dos homens

6) Sujeito representado por expresso como a maioria dos homens

Se o sujeito  representado por expresses do tipo de a maioria de, a maior parte de, grande parte de, parte de e um nome no plural, o verbo ir para o singular ou plural:

a maior parte deles recusou segui-lo com temor do poder da regente     [AH.2, 38].

e a maior parte dos esquadres seguiram-nos [AH.1, 111].

7) Sujeito representado por cada um de + plural

7) Sujeito representado por cada um de + plural

Neste caso, o verbo fica no singular:

Cada um dos concorrentes deve preencher corretamente as fichas de inscrio (e no devem preencher!).

8) Concordncia do verbo ser

8) Concordncia do verbo ser

Como se d com a relao sinttica de qualquer verbo e o sujeito da orao, o normal  que sujeito e verbo ser concordem em nmero:

Jos era um aluno aplicado.

Os dias de inverno so menores que os de vero.

Todavia, em alguns casos, o verbo ser se acomoda  flexo do predicativo, especialmente quando se acha no plural. So os seguintes os casos em que se d esta concordncia:

a) quando um dos pronomes isto, isso, aquilo, tudo, ningum, nenhum ou expresso de valor coletivo do tipo de o resto, o mais  sujeito do verbo ser:

Tudo eram alegrias e cnticos [RS.1, 5].

A concordncia normal com o sujeito ocorre, apesar de mais rara:

Tudo  alegrias.

b) quando o sujeito  constitudo pelos pronomes interrogativos quem, que, o que:

O que so comdias? [CBr.1, 40].

Quem eram os convidados?

No sei quem so os vencedores.

c) quando o verbo ser est empregado na acepo de ser constitudo por:

A proviso eram alguns quilos de arroz.

d) quando o verbo ser  empregado impessoalmente, isto , sem sujeito, nas designaes de horas, datas, distncias:

So dez horas? Ainda no o so.

Hoje so 15 de agosto.

Da estao  fazenda so trs lguas a cavalo [M. Said Ali].

Observao: Precedido o predicativo plural da expresso perto de  ainda possvel vir o verbo ser no singular:

Era perto de duas horas quando saiu da janela [MA.3 apud SS].

Eram perto de oito horas [MA.3, apud SS].

e) quando o verbo ser aparece nas expresses  muito,  pouco,  mais de,  tanto e o sujeito  representado por termo no plural que denota preo, medida ou quantidade:

Sessenta mil homens muita gente  para casa to pequena [RS.1, 1873, 172].

Dez reais  pouco.

Nas oraes ditas equativas em que com ser se exprime a definio ou a identidade, o verbo, posto entre dois substantivos de nmeros diferentes, concorda em geral com aquele 
que estiver no plural. s vezes, um dos termos  um pronome:

A ptria no  ningum: so todos [RB.3, 11].

Mas:

Justia  tudo, justia  as virtudes todas [AGa.2, 45].

s vezes em vez de ser aparece o verbo parecer:

Essa imensa papelada

- - - - - - - - - - - - - - -

Parecem indiscries [GD.3, II, 445].158

Se o sujeito est representado por pronome pessoal, o verbo ser concorda com o sujeito, qualquer que seja o nmero do termo que funciona como predicativo:

Ela era as preocupaes do pai.

Na expresso, que introduz narraes, do tipo de era uma princesa, o verbo ser  intransitivo, com o significado de existir, funcionando como sujeito o substantivo seguinte, 
com o qual concorda:

Era uma princesa muito formosa que vivia num castelo de cristal.

Eram quatro irms tatibitates e a me delas tinha muito desgosto com esse defeito [CC.1, 292].

Com a expresso era uma vez uma princesa, continua o verbo ser como intransitivo e o substantivo seguinte como sujeito; todavia, como diz A.G. Kury, a atrao fortssima 
que exerce o numeral uma da locuo uma vez, leva a que o verbo fique no singular ainda quando o sujeito seja um plural:

Disse que era uma vez dois (...) compadres, um rico e outro pobre [CC.1, 31].

Era uma vez trs moas muito bonitas e trabalhadeiras [CC.1, 120].

A verdade  que muitos idiomas, em textos de nveis distensos, apresentam essas irregularidades que se afastam do uso normal e padro, principalmente quando o verbo  anunciado 
antes do sujeito, com alguma distncia, como se o falante ao comear a orao pelo verbo ainda no tivesse decidido como iria apresentar formalmente a expresso do sujeito.

A moderna expresso  que, de valor reforativo de qualquer termo oracional, aparece em geral com o verbo ser invarivel em nmero:

Ns  que somos brasileiros   /   Ns somos brasileiros.

Esses livros  que no compraremos agora.

Afastado do que e junto do termo no plural, aparece s vezes o verbo ser no plural:

So de homens assim que depende o futuro da ptria   /   De homens assim  que depende o futuro da ptria.

Foram nesses livros que estavam as respostas   /   Nesses livros foi que estavam as respostas.

Nas expresses que denotam operao aritmtica do tipo um e um, um mais um, um com um, que funcionam como sujeito do verbo ser (fazer, somar, etc.), o verbo vai ao plural 
concordando normalmente com o sujeito:

 Sempre ouvi dizer que duas semanas so quinze dias.

 Eu tambm tenho ouvido, confessou o Dr. Magalhes. Mas  um engano. Uma semana tem sete dias. Sete e sete no so catorze? E ento? [GR.2, 3.a ed., 75].

9) A concordncia com mais de um

9) A concordncia com mais de um

Depois de mais de um o verbo  em geral empregado no singular, sendo raro o aparecimento de verbo no plural:

... mais de um poeta tem derramado... [AH.2, 155].

Mais de um corao de guerreiro batia apressado... [AH.2, 169].

Sei que h mais de um que no se envergonham dela [AH.2, 169].

10) A concordncia com que de

10) A concordncia com que de

Com que de (= que quantidade de, quanta) seguido de substantivo sujeito no plural o verbo vai ao plural:

Que de foras existem no corao feminino!

11) A concordncia com quais de vs.

11) A concordncia com quais de vs.

Se o sujeito for constitudo de um pronome plural de sentido partitivo (quais, quantos, algumas, nenhuns, muitos, poucos, etc.), o verbo concorda com a expresso partitiva 
introduzida por de ou dentre:

Quais dentre vs... sois neste mundo ss e no tendes quem na morte regue com lgrima a terra que vos cobrir? Quais de vs sois, como eu, desterrados no meio do gnero humano? 
[AH.1, 188-9].

Pode ainda ocorrer o verbo na 3.a pessoa de plural:

quantos dentre vs estudam conscienciosamente o passado? [JA apud SS.1,  456].

12) A concordncia com os pronomes relativos

12) A concordncia com os pronomes relativos

a) Se o sujeito da orao  o pronome relativo que, o verbo concorda com o antecedente, desde que este no funcione como predicativo de outra orao:

No gastava ele as horas que lhe sobejavam do exerccio do seu laborioso ministrio numa obra do senhor? [AH.1, 18].

 tu, que tens de humano o gesto e o peito [LC.1, III, 127].

b) Se o antecedente do sujeito que for um pronome demonstrativo, o verbo da orao adjetiva vai para a 3.a pessoa:

Aquele que trabalha acredita num futuro melhor.

Aqueles que trabalham acreditam num futuro melhor.

Observao:

Entra neste princpio a orao adjetiva que se substantiva mediante o, a, os, as:

Os que prometem fazer felizes os povos so ordinariamente os que pretendem s-lo  custa deles. [MM].

Quando, por silepse, se quer incluir a pessoa que fala ou a que se dirige, pode-se pr o verbo da orao adjetiva na 1.a ou 2.a pessoa do plural:

Por que a verdade  que somos ns os que fabricamos os prprios aspectos da natureza (...) [JR.2, 191].

Porque voltastes sem vo-lo eu ordenar, vs os que tnheis jurado obedecer-me em tudo? [AH.1, 223].

(...) vs a que no tendes nenhum prstamo de minhas mos! [AH.3, 174, ed. 1878].

c) Se o antecedente do pronome relativo funciona como predicativo, o verbo da orao adjetiva pode concordar com o sujeito de sua principal ou ir para a 3.a pessoa (se no 
se quer insistir na ntima relao entre o predicativo e o sujeito):

Sou eu o primeiro que no sei classificar este livro [AH.1, 311].

Fui o primeiro que conseguiu sair.

ramos dois scios, que entravam no comrcio da vida com diferente capital[MA apud SS.1,  461].

d)  de rigor a concordncia do verbo com o sujeito de ser nas expresses de tipo sou eu que, s tu que, foste tu que, etc. (neste caso, era prtica da lngua at fins do 
sc. XVIII usar o artigo como antecedente do relativo: sou eu o que, etc.):

No fui eu que o assassinei [AH apud SA.5, II, 75].

Foste tu que me buscaste [AH apud SA.5, II, 75].

e) Se ocorrer o pronome quem, o verbo da orao subordinada vai para a 3.a pessoa do singular, qualquer que seja o antecedente do relativo, ou concorda com este antecedente:159

Eram as paixes, os vcios, os afetos personalizados quem fazia o servio dos seus poemas [AH apud SA.5, 77].

s tu quem me ds rumor  quieta noite,

s tu quem me ds frescor  mansa brisa,

Quem ds fulgor ao raio, asas ao vento,

Quem na voz do trovo longe rouquejas [GD apud SA.5, 77].

f) Em linguagem do tipo um dos... que, o verbo da orao adjetiva pode ficar no singular (concordando com o seletivo um)160 ou no plural (concordando com o termo sujeito no 
plural), prtica, alis, mais frequente, se o dito verbo se aplicar no s ao relativo mas ainda ao seletivo um:

Este era um dos que mais se doam do procedimento de D. Leonor

[AH.2, 37].

Um dos nossos escritores modernos que mais abusou do talento, e que mais portentos auferiu do sistema... [AH.2, 46].

Demais, um dos que hoje deviam estar tristes, eras tu [CL.1, I, 190].

O singular  de regra quando o verbo da orao s se aplica ao seletivo um. Assim nos dizeres foi um dos teus filhos que jantou ontem comigo,  uma das tragdias de Racine 
que se representar hoje no teatro, ser incorreto o emprego do nmero plural; o singular impe-se imperiosamente pelo sentido do discurso [Cr.2, 763].

13) A concordncia com os verbos impessoais

13) A concordncia com os verbos impessoais

Nas oraes sem sujeito o verbo assume a forma de 3.a pessoa do singular:

H vrios nomes aqui.

Deve haver cinco premiados.

No o vejo h trs meses.

No o vejo faz trs meses.

Observao: Os exemplos literrios que se encontram de tais verbos no plural no ganharam foros de cidade: Houveram alguns que aluminados da graa do Esprito Santo abraaram 
o culto e a f de Cristo [FE.1, I, 20].

Houveram coisas terrveis [CBr apud JC, I, 98].

14) A concordncia com dar (e sinnimos) aplicado a horas

14) A concordncia com dar (e sinnimos) aplicado a horas

Se aparece o sujeito relgio, com ele concorda o verbo da orao:

O relgio deu duas horas.

No havendo o sujeito relgio, o verbo concorda com o sujeito expresso pela expresso numrica:

No relgio deram duas horas.

15) A concordncia com o verbo na passiva pronominal

15) A concordncia com o verbo na passiva pronominal

A lngua padro pede que o verbo concorde com o termo que a gramtica aponta como sujeito:

Alugam-se casas.

Vendem-se apartamentos.

Fazem-se chaves.

No se perdem cinco contos, como se perde um leno de tabaco. Cinco contos levam-se com trinta mil sentidos, apalpam-se a mido, no se lhes tiram os olhos de cima, nem as 
mos, nem o pensamento, e para se perderem assim totalmente, numa praia,  necessrio que... [MA.1, 151].

Observao: Se o verbo estiver no infinitivo com sujeito explcito, o normal  usar o infinitivo flexionado como no exemplo acima de M. de Assis:

e para se perderem assim...

Todavia, aqui e ali, bons escritores deixam escapar exemplos com o infinitivo sem flexo:

Basta ver o que este bom povo  para se avaliar as excelncias de quem assim o educou [CBr.6, 53].

16) A concordncia na locuo verbal

16) A concordncia na locuo verbal

Havendo locuo verbal cabe ao verbo auxiliar concordar com o sujeito:

Bem sei que me podem vir com duas objees que geralmente se costumam fazer [AC.11 apud MBa.1, 215].

Se se considera costumar fazer como dois verbos principais sem que haja locuo verbal, o costumar ter como sujeito a 2.a orao que, considerada materialmente, vale como 
substantivo do nmero singular:

No se costuma punir os erros dos sditos sobre a efgie venervel dos monarcas [RS apud MBa.1, 215]

Assim se poder dizer:

Em as estrelas parecem brilharem temos a contaminao sinttica das duas construes, prtica que deve ser evitada como norma.

Com poder e dever seguidos de infinitivo, a prtica mais generalizada  considerar a presena de uma locuo verbal, isto , fazendo-se que o poder e dever concordem com o 
sujeito plural:

Podem-se dizer essas coisas.

Devem-se fazer esses servios.

Todavia aparece o singular, corretamente:

No  como a embriaguez que se deve celebrar os sucessos felizes (...) (M. Maric, 3326).

So ambas construes corretas e correntes que se distinguem por apresentar diferentemente a nfase sobre o sujeito da orao.

Quando, porm, o sentido determinar exatamente o sujeito verdadeiro, a concordncia no pode ser arbitrria. Ex.: Quer-se inverter as leis, e nunca querem-se inverter as 
leis. Neste caso,  evidente que o nico sujeito possvel  inverter [JR.1, 322].

17) A concordncia com a expresso no (nunca)... seno

17) A concordncia com a expresso no (nunca)... seno

O verbo concorda com o sujeito que se interpe na expresso exceptiva no... seno (ou mais que):

Ao aparecer o dia, por quanto os olhos podiam alcanar, no se viam seno cadveres [AH.2, 117].

O mesmo ocorre com no (nunca)... mais que (do que):

No se viam mais do que cadveres.

Quando a exceo recai na 1.a ou 2.a pessoa, tem-se de dar outro torneio  orao, como, por exemplo:

Ningum votou contra o projeto seno ns trs [SA.2, 215].

No haveria outro culpado seno tu.

Observao: Em vez de no... mais que pode-se usar mais no... que: O som que vos fere os ouvidos mais no  que um rude eco da voz ntima [apud MBa.4, 181]. Deve-se evitar 
o emprego de que em lugar de seno, por ser imitao do francs: Isto no  que uma insolncia por Isto no  seno uma insolncia [FF apud MBa.4].

Construo verncula  o emprego de que por seno precedido de outro: outro, outra coisa, etc.: Quando deu por ele, quis expeli-lo, para que entre ele e Fortunato no houvesse 
outro lao que o da amizade; mas no pde [MA.2 apud MBa.4]. (...) sem obter outra coisa que a ateno corts o acaso numa palavra sem valor [MA.8 apud MBa.4].

18) A concordncia com ttulos no plural

18) A concordncia com ttulos no plural

Geralmente se usa o verbo no plural:

Por isso, as Cartas Persas anunciam o Esprito das Leis [MBa.6, XII].

Com o verbo ser e predicativo no singular pode ocorrer o singular:

as Cartas Persas  um livro genial... [MBa.6, XII].

Dos seus livros didticos  o mais importante as Lies de Histria do Brasil professadas no antigo Colgio de Pedro II [JR.4, 76 da 15.a ed.].

19) A concordncia no aposto

19) A concordncia no aposto

Quando a um sujeito composto se seguem, como apostos, expresses de valor distributivo como cada um, cada qual, o verbo, posposto a tais expresses, concorda com elas:

Pai e filho cada um seguia por seu caminho [ED.2, 28].

Se o verbo vem anteposto a essas expresses, d-se normalmente a concordncia no plural com o sujeito composto ou no plural: (...) no era possvel que os aventureiros tivessem 
cada um o seu cubculo [JA apud SS.1, 465, obs.].

Eles saram cada um com sua bicicleta.

20) A concordncia com Haja vista

20) A concordncia com Haja vista

A construo mais natural e frequente da expresso haja vista, com o valor de veja,  ter invarivel o verbo, qualquer que seja o nmero do substantivo seguinte:

Haja vista os exemplos disso em Castilho [RB.1, 572].

Pode-se construir com o verbo no singular e substantivo seguinte  expresso precedido das preposies a ou de:

Haja vista s tangas [CBr.16, 61].

Haja vista dos elos que eles representam (...) [CBr apud CR.1, 624].

21) A concordncia do verbo com sujeito oracional

21) A concordncia do verbo com sujeito oracional

Fica no singular o verbo que tem por sujeito uma orao, que, tomada materialmente, vale por um substantivo do nmero singular e do gnero masculino:

Parece que tudo vai bem.

C no se usa as noivas andarem a namoriscar  surdina [CBr apud MBa.1, 2.a ed., 207].

 bom que compreendas estas razes.

Permanece no singular o verbo que tem como sujeito duas ou mais oraes coordenadas entre si:

Que Scrates nada escreveu e que Plato exps as doutrinas de Scrates  sabido [JR.1, 318].

22) Concordncia nas expresses de porcentagem

22) Concordncia nas expresses de porcentagem

Nas linguagens modernas em que entram expresses numricas de porcentagem, a tendncia  fazer concordar o verbo com o termo preposicionado que especifica a referncia numrica:

Trinta por cento do Brasil assistiu  transmisso dos jogos da Copa.

Trinta por cento dos brasileiros assistiram aos jogos da Copa.

Dois por cento da assistncia detestou o filme.

Dois por cento dos espectadores detestaram o filme.

6  Regncia

Ao que dissemos no captulo sobre complementos verbais e nominais e emprego de preposio, cumpre acrescentar os seguintes principais casos:

A preposio que serve a dois termos coordenados pode vir repetida ou calada junto ao segundo (e aos mais termos), conforme haja ou no desejo de enfatizar o valor semntico 
da preposio:

As alegrias de infncia e de juventude / As alegrias de infncia e juventude.

Precisava da ajuda dos pais e dos parentes / Precisava da ajuda dos pais e parentes.

(...) mas as argolas do caixo foram seguras pelos cinco familiares e o Benjamim [MA apud MBa.4, 250].

A omisso da preposio parece ser mais natural quando no se combina com artigo, talvez porque em portugus (ao contrrio, por exemplo, do francs e do espanhol) a presena 
de ambos leva-os a combinarem-se, como supe Mrio Barreto.

1) Isto  para eu fazer

1) Isto  para eu fazer  Se a preposio seguida de pronome no serve de introduzir este pronome (que funciona como sujeito), mas um infinitivo, usam-se as formas retas eu 
e tu, e no mim e ti:

Isto  para mim (a preposio rege o pronome).

Isto  para eu fazer (a preposio rege o infinitivo: isto , para que eu faa).

2) Pedir para

2) Pedir para  O verbo pedir pede objeto direto de coisa e indireto de pessoa a quem se pede:

Pedi-lhe (obj. indireto) um favor (obj. direto).

Se o objeto direto  licena (ou equivalente), pode-se acrescentar uma orao adverbial de fim que indique o objetivo do pedido:

Pediu-lhe licena para sair (ou para que sasse).

Este objeto direto licena pode calar-se, mas o sujeito de pedir ter de ser entendido como o mesmo do verbo da subordinada, para ter sano tranquila na norma exemplar:

O Antnio pediu-lhe para sair (i. : o Antnio  quem sair).

Pediu para ajudar a vestir sua filha, mas no o obteve [CBr apud MBa.3, 2.a ed. pg. 287 n.].

A linguagem coloquial aproximou as ideias de pedir que algo acontea (orao objetiva direta) e trabalhar para que algo acontea (orao adverbial final), passando a usar 
a preposio para a introduzir a orao que seria objeto direto do verbo pedir.

Pediu para que Antnio sasse

em lugar de

Pediu que Antnio sasse.

Os gramticos ainda no aceitaram a operao mental, apesar da insistncia com que penetra na linguagem das pessoas cultas. O novo modo de expresso traz tambm uma ambiguidade, 
porque se fica sem saber qual , na realidade, o sujeito da orao subordinada. Em:

Antnio pediu a Jos para sair,

custa-nos a dizer de pronto se quem sai  o mesmo Antnio ou Jos. O gramtico s considera a expresso correta se o sujeito for Antnio, mas a linguagem coloquial constri 
o perodo como se o sujeito fosse Jos, pois interpreta a orao subordinada como objetiva direta: Antnio pediu que Jos sasse.

Sob a alegao de que o objeto direto oracional no pode vir introduzido por preposio (argumento, alis, fraco)  que gramticos repudiam tal linguagem. Pode-se ver na construo 
o para como posvrbio iniciando a orao objetiva direta para denotar o interesse ou a insistncia do pedido, como cumprir o dever ao lado de cumprir com o dever.

3) Est na hora da ona beber gua

3) Est na hora da ona beber gua  A possibilidade de se pr o sujeito de infinitivo antes ou depois desta forma verbal nos permite dizer:

Est na hora de beber a ona gua (posio rara)

Est na hora de a ona beber gua (posio mais frequente).

Este ltimo meio de expresso aproxima dois vocbulos (a preposio de e o artigo a) que a tradio do idioma contrai em da, surgindo assim um terceiro modo de dizer:

Est na hora da ona beber gua,

construo normal que no tem repugnado os ouvidos dos que melhor conhecem e escrevem a lngua portuguesa. Alguns gramticos viram a, entretanto, um solecismo, pelo fato 
de se reger de preposio um sujeito. Na realidade, no se trata de regncia preposicional do sujeito, mas do contato de dois vocbulos que, por hbito e por eufonia, costumam 
vir incorporados na pronncia. A lio dos bons autores nos manda aceitar ambas as construes, de a ona beber gua e da ona beber gua. Que a contrao  possvel mostram-nos 
os seguintes exemplos:

... s voltou depois do infante estar proclamado regedor [AH.2, 44]; Sabia-o, senhor, antes do caso suceder [AH.4, 267]; se, por exemplo, me concederem um monoplio do 
plantar couves, apesar das couves serem uma das espcies de legumes [RB apud PP]; Pelo fato do verbo restituir, numa das suas acepes, e entregar, em certos casos, terem... 
[CR.2, 579]; no caso do infinitivo trazer compl. direto [ED.2,  289, b].

O problema que, do ponto de vista puramente gramatical, a rigor, termina nessa dupla possibilidade de emprego; j no se mostra indiferente do ponto de vista da necessidade 
de proferir o sujeito enunciando-o com maior ou menor realce. Deixa-se o domnio da gramtica para se entrar no domnio da estilstica, da expressividade. A no combinao 
da preposio com o sujeito garante o valor expressivo da preposio e a nfase posta no sujeito:  tempo de o povo querer melhores escolas, diferente, sob o aspecto de expressividade, 
de  tempo do povo querer melhores escolas. A simples  e contrria  dupla possibilidade que a tradio literria registra  soluo gramatical de rejeitar uma forma com 
privilgio de outra empobrece os recursos estilsticos da lngua.

Pode-se evitar a combinao pondo o infinitivo entre a preposio e o sujeito, como fez Manuel Bandeira nesta passagem: E o Prefeito recordou que uma semana antes de ser o 
grande romancista hospitalizado (...) [MB.1, II, 601].

4) Migraes de preposio

4) Migraes de preposio  Com muita frequncia v-se migrar a preposio que deveria aparecer com o relativo para junto do antecedente deste pronome:

No sei no que pensar      por

No sei o em que pensas

Ou:

Lisboa e Porto, das quais cidades venho agora      por

Lisboa e Porto, cidades das quais venho agora

[LV.1, 312].

Destas migraes resultam giros mais agradveis ao ouvido e que nos afastam de certas durezas de estilo artificial a que nos poderia levar a construo rigorosamente gramatical, 
como se depreende dos seguintes trechos de Rui Barbosa:

Assim me perdoem, tambm, os a quem tenho agravado, os com quem houver sido injusto, violento, intolerante... [RB.2, 23];

e da, com estupenda mudana, comea a deixar ver o a que era destinada... [RB.2, 36].

Estas migraes correm na lngua literria apadrinhadas pelos seus melhores representantes. Alexandre Herculano e Carlos de Laet nos do testemunho do fato:

A barra  perigosa, como dissemos; porm a enseada fechada  ancoradouro seguro, pelo que (= o por que) tem sido sempre couto dos corsrios de Berbria [AH.2, 69];

... at o induzirem a mand-lo sair da corte, ao que (= o a que) D. Pedro atalhou com retirar-se antes que lhe ordenassem [AH.2, 91].

Eis para o que (= o para que) esperas utilizar o domnio dos ares [CL in SS.3, 180].

 interessante a posio da preposio de a introduzir o predicativo quando se esperava antes do relativo:

O que precisamos  de braos valorosos e de peitos resolutos

[RS.2, IV, 184].

Note-se de passagem que, em construes como a do ltimo exemplo,  possvel haver o pleonasmo da preposio, a qual aparece antes do termo a que rigorosamente se prende e 
antes de de braos:

O de que me no penitencio,  do esmero, bem ou malsucedido, que pus em dar os cuidados que dei  forma, com que nos veio da cmara o projeto [RB.1, apud MBa.4, 3.a ed., 
235 e ss.].

5) Repetio de prefixo e preposio

5) Repetio de prefixo e preposio  Sem atentar para a tradio do idioma e de suas razes latinas, alguns autores (p. ex., Cndido Figueiredo) condenam a concorrncia 
de prefixo com preposio em usos como concorrer com, deduzir de, depender de, incluir em, aderir a, concordar com, coincidir com, etc. Da repudiarem, por exemplo, a construo 
consentneo com, recomendando se diga duas coisas consentneas em vez de uma coisa consentnea com outra. Tambm substituem uma coisa coincide com outra por uma coisa incide 
na outra. So lies que, pela concorrncia de prefixo e preposio, devem ser rejeitadas [VB.1].

6) Complementos de termos de regncias diferentes

6) Complementos de termos de regncias diferentes  O rigor gramatical exige que no se d complemento comum a termos de regncia de natureza diferente. Assim no podemos 
dizer, consoante este preceito:

Entrei e sa de casa

em lugar de

Entrei em casa e dela sa (ou equivalente),

porque entrar pede a preposio em e sair a preposio de.

Ao gnio de nossa lngua, porm, no repugnam tais frmulas abreviadas de dizer, principalmente quando vm dar  expresso uma agradvel conciso que o giro gramaticalmente 
correto nem sempre conhece:

Tenho-o visto entrar e sair do Colgio de S. Paulo [AH.5, I, 154];

... que se deduz da a favor ou contra o direito de propriedade literria? [AH.7, II, 60].

Estendem certos autores a proibio aos dizeres em que duas ou mais preposies de sentido diferente, e at contrrio, se referem a um s termo:

Com ou sem vantagens sairei

Antes e depois da luta

Para tais autores devemos dizer: com vantagens ou sem elas, antes da luta e depois dela, ou repetindo-se o substantivo como fez M. de Assis em:

Os gritos da vtima, antes da luta e durante a luta, continuavam a repercutir dentro de mim [apud MBa.3, 103].

Salvo as situaes de nfase e de encarecimento semntico de cada preposio, como a que se depreende do trecho acima, a lngua d preferncia s construes abreviadas que 
a gramtica insiste em condenar, sem, contudo, obter grandes vitrias.

7) Termos preposicionados e pronomes tonos

7) Termos preposicionados e pronomes tonos  Tanto se pode dizer no fujas de mim como no me fujas:

O corajoso major tem afrontado teu irmo (...) mas Simo teme-o e foge-lhe com o pretexto de desafiar primeiro quem primeiro o ofendeu [CBr apud MBa.4, 273, de onde se colhem 
os exemplos abaixo].

Assim em vez de ps-se diante dele se pode dizer ps-se-lhe diante; em vez de aparecer diante dele, aparecer-lhe diante.

Nunca me tornaria a pr a vista em cima.

Pretendem cair-nos em cima.

Tudo lhe girou em volta.

Sentaram-se-lhe em frente dois guardas.

Assim tambm em equivalncia com a preposio em:

Deu um beijo em Nelina / Deu-lhe um beijo

Deu um abrao em Dolores / Deu-lhe um abrao

A mesma possibilidade se d com verbos que se constroem com de ou a (avizinhar-se, aproximar-se, acercar-se de, entre outras) e com (ralhar, por exemplo):

Avizinhou-se dela / Avizinhou-se-lhe

Aproximar-se dela (ou a ela) / Aproximou-se-lhe

Ralhar com o filho / Ralhar-lhe

Vale lembrar aqui de passagem  pois no se trata de regncia , pois estamos falando de simplificaes formais, que o mesmo processo se repete com alguns prefixos:

(...) o apalp-la nas costelas sobre e subjacentes ao corao [CBr apud MBa.3, 113 n.].

(...) algumas fascas de amor profano tinham entrado ob e sub-repticiamente (Id., ibid.)

Esperemos, e oxal no esperemos em vo, que chegue o dia longnquo em que todos os escritores cis e transatlnticos aprendam a sua lngua (...) [MBa.3, 127n.].

Tambm nas expresses comparativas podem-se encontrar simplificaes ou braquilogias, como nos seguintes exemplos muito comuns tanto (to) mais que, tanto (to) ou menos que 
(por tanto ou quanto e mais que, etc.):

A gota, o reumatismo, a citica impacientavam-no tanto ou menos que o desmancho das coisas polticas [CBr.6, 55].

8) Emprego de relativos precedidos de preposio

8) Emprego de relativos precedidos de preposio  O pronome relativo exerce funo sinttica na orao a que pertence:

a) Sujeito: O livro que est em cima da mesa  meu.

b) Objeto direto: O livro que eu li encerra uma bonita histria.

c) Predicativo: Dividimos o po como bons amigos que ramos.

d) Complemento relativo: O livro de que precisamos esgotou-se.

e) Objeto indireto: Este  o aluno a que dei o livro.

f) Adjunto adverbial: O livro por que aprendeste a ler  antigo. A casa em que moro  espaosa.

g) Agente da passiva: Este  o autor por que a novela foi escrita.

As trs primeiras funes sintticas dispensam preposio enquanto as quatro ltimas a exigem. Deve-se evitar, em lngua literria, o emprego do relativo universal.

9) Relao de regncias de alguns verbos e nomes

9) Relao de regncias de alguns verbos e nomes161:

A

Abalanar-se a

aborrecer-se com

abrigado de

absolver de

abster-se de

abundar em

abusar de

acabar com

acautelar-se com

aceder a

acessvel a

aceito a

acercar-se de

acomodar-se a

acontecer a, com

aconselhar a

acordar com

acreditar em

acudir a

acusar de

adaptar a

adequado a

aderir a

admirar-se de, com, por

afastar de

afvel com, para com

afixar a

agradar a

agradvel a

agradecer a

agregar-se a

ajudar a

ajuntar a, -se com

alertar de, sobre, contra

alhear-se de

alheio a

alimentar com, de

almejar por

aludir a

amante de

ameaar com, de

amercear-se de

amigo de

amofinar-se com

amoroso com, para com

anlogo a

anelar por

ansiar por, (trans. direto)

ansioso de, por

antecipar-se a

antepor a

anterior a

apaixonar-se por, de

aparentado com

apartar de

apear-se de

apegar-se a

apelar para, de

aperceber-se de

apetrechar-se com

apiedar-se de

aplicar-se a

apoderar-se de

apoiar-se em

aportar a

aprender

apressar-se a, em, por, para

aproveitar-se de

apto para, a

arguir de

arrancar de

aproximar-se a, de

arrepender-se de

arribar a

arrimar-se a

arriscar-se a

arrostar-se com

aspirar a (= desejar);

      trans. direto (= inspirar)

assemelhar-se a, com

assenhorear-se de

assentir a

assinalar com

assistir a (= presenciar)

assistir (= ajudar)

assustar-se com

atapetar-se de, em

atemorizar-se com

atender a

atestar contra, por

atento a, em

ater-se a

atinar com

atingir (sem a!)

atrair a

atrever-se a, em

atribuir a

aumentar

ausentar-se de

autorizar a

avaliar em

avaro de

averiguar de

avesso a

avezar (-se) a

aviar-se de

vido de

avir-se com

avisar de

avizinhar-se de, a

avocar a

B

bacharel em

bandear-se para

baixar a

bastante a, para

bastar a

batalhar com

benfico a

bater a, em

bem (fazer) em, de

blasfemar contra

blasonar de

bom para, para com

brigar com

brindar com

C

cair em, sobre

calcar a

capaz de, para

capitular com

carecer de

caritativo com, para com

caro a

casar-se com

ceder a

cego a

chamar 162

chegar (-se) a (no em junto

       expresso de lugar)

cheio de

cheirar a

cheiro a, de

chorar por

cingir de, (-se) a

circunscrever-se a

circunvizinho de

clamar por

cobioso de

cobrar de

cobrir de

coetneo de

coevo de, a

coexistir com

coincidir com

coligar-se com

combater contra, por

combinar com

comear a, por

comedir-se com, em

cometer a

compadecer-se de

comparar a, com

comparecer a

compatvel com

compelir a

competir com, a

compor-se de

comprazer a, (-se) em, com

compreensvel a

comprometer-se a

comprovar com

comum a, de

comungar com

comunicar a

comutar em

concentrar em

concordar com, em

conforme a, com

concorrer a, com

condenar a

condescender com

condoer-se de

confabular com

confederar-se com

conferenciar com

confessar a

confiar em, a

confinar com

conformar-se com, a

conforme com, a

confrontar com

confundir-se com

congraar-se com

congratular-se com

consagrar a

consentir em, tr. direto

considerar como

consistir em (e no de!)

consolar-se com

conspirar a, contra, para

constante em

constar de

constituir-se em

contagiar-se com

contaminar-se de, com

contemporizar com

contemporneo de

contender com, de, sobre

contentar-se com, de, em

conter-se em

contguo a

continuar em, com

contrapor a

contrrio a

contribuir para, com

convalescer de

conversar com 163

convencer-se de

converter em, a

convidar a, para

convir a, com, em

convocar a, para

cooperar com, para

coroar de, com

corresponder a, (-se) com

corrigir-se de

cotejar com

crer em, a

cristalizar em

cruel com, para com

cuidadoso com

cuidar de, em (tr. direto)

culpar de

cmplice em

cumprir com, a 164

curar-se de

curioso de

curtir-se em

D

dar a, em, com, por

dar-se (pressa) a, em

decair de

decidir sobre

declarar-se contra

declinar de

dedicar a

dedignar-se de

deduzir de

deitar-se a, em, sobre

deleitar-se com, em, de

denotar a, em

deparar com

depender de

dependurar  de

depressivo de

derivar de

desafiar para

desagradar a

desagradvel a

desalojar de

desapegar-se de

desapossar de

desapropriar de

desatar de, em

desatento a

desavir-se com

descansar de

descansar com

descartar-se de

descender de

descer de, a

desconfiar de

descontar de

descontente com

descuidar-se de

desculpar-se de, com

descurar-se de (no por)

desdizer-se de

desejoso de

desembaraar-se de

desempenhar-se de

desenganar-se de

desertar de

desesperar de

desfavorvel a

desfazer-se de

desgostar-se de, com

designar-se de

desistir de

desleal a

desobedecer a

despedir-se de

despenhar de

despojar de

desprender de

desquitar-se de

declinar a, para

destituir de

deter-se em, com

determinar-se a

dever de 165

devoto de

diferenciar de

diferente de

difcil de

dignar-se de, a

digno de

diligente em, para

discordar de

discrepar em

disfarar em

dispensar de, a

dispor de, -se a, para

disposto a

disputar com

dissemelhante de

dissentir de

dissuadir de

distar de

distinguir de

distrair-se com

distribuir a, por com, entre

ditoso com

diverso de

divertir-se com

divorciar-se de

dizer de

doce a

dcil a, para com

doente de

doer-se de

dotado de

dotar com, em

doutor em

duro de

duvidar de

E

eleger por, em, como

embaraar-se com

embeber de, em

embelezar-se com

embevecer-se em, com

emboscar-se em

embriagar-se de, com

embutir em

emendar-se de

empapar de, em, com

empenhar-se por, em, com

emular com

empregar-se com

mulo de

encarar com

encarregar de

encarniar-se com, contra

encharcar-se em

encher de

encomendar a

encostar a

encontrar-se com

enfadar-se com

enfastiar-se de, com

enfatuar-se com

enfeitar-se com

enfermar de

enfurecer-se com, contra

engalanar-se com

enganar-se com, em

engenhar-se a

engolfar-se em

enlaar-se em

enlear-se em

enraivecer-se contra

enredar-se em

ensaiar-se em, para

ensinar a

entender de

entendido em

entregar-se a

entreter-se com, em

entristecer-se com, de

envaidar-se com, por

envelhecer (sem de!)

equiparar a, com

equivalente a

equivaler a

eriado de

erigir (-se) em

erudito em

escapar a, de

escapulir de

escarmentado de, com

escarnecer de

escasso de

escolher entre

escrupulizar em

escusar-se de

esforar-se em, por, para

esmaltar de

esmerar-se em

espantar-se com, de

especular com, em

esperar de, em

espraiar-se em

esquecer-se de

esquivar de

esquivar-se a

essencial para

estabelecer-se com

estender-se em, a, por

estril de

estimular a, com

estranho a

estreito de, para

estribar-se em

estropiado de

exato em

exceder, a, em, de

excetuar de

excitar a

excluir de

exercitar-se em

exortar a

expor a

extrair de

exigir de, a

eximir de

exonerar de

extorquir a, de

F

fcil de

falar de, em, com, a, sobre

faltar com, a

falto de

fartar com, de

farto em

fatigar-se de, com

favorvel a

favorecer com, de

fechar (-se) a

fecundo em

feder a

felicitar por, de

frtil de, em

fiar-se em, de

fiel a

fincar-se em

firme em

florescer em

folgar de, em

formar-se em

forrar de, com

forte de, em

fraco de, em

franco para com, de, em

franquear de, a

frouxo de

fugir de, a

fundar-se em

furioso com, de

furtar a, de

G

gabar-se de

galardoar com

ganhar de, a

generoso com

glorificar-se de

gordo de

gostar de

gostoso a

gozar de

graduar-se em

grande de

grato a

gravar com

gravoso a

grosso de

guardar-se de

guarnecer com

guerra a

guindar-se a

H

hbil em

habilitar com, para

habituar-se a

habituado a

haver-se com

herdar de

hesitar em, sobre

horror a

hostil a

humilhar-se a

I

ida a

idntico a

idneo para, a

imbuir-se de, em

imediato a

impaciente com

impedir de, a

impelir a

impenetrvel a

impetrar de, a

implicar com 166

impor a

importar a (impessoal),

      de (pas), em (quantia) 167

inconsequente com

impossibilitar para, a

impossibilidade de

impossvel de

impotente contra, para

imprprio para

imputar a

inbil para

inabilitar para

inacessvel a

incansvel em

incapaz de, para

incerto de, em

incessante em

incidir em

incitar a

inclinar a, para

incluir em

incompatvel com

incompreensvel a

inconsequente com

inconstante em

incorporar a, em

incorrer em

incrvel a, para

inculcar em

incumbir de

indbito a

indeciso em

indenizar de

independente de, em

indiferente a

indignar-se com

indigno de

indispor contra, (-se) com

indcil a

indulgente para, para com

indultar de

induzir a, em

inerente a

inexorvel a

infatigvel em

infeccionar em

inferior a

inferior de

infestar de

infiel a

inflamar-se de

inflexvel a

influir em, para, sobre

informar sobre, de,

      (-se) de

ingerir em

ingrato com, para com

inibir de

iniciar em, a

inimigo de

inimizar-se com

injuriar com

inocente de

inquietar-se de, com

insacivel de

insensvel a

inseparvel de

inserir em

insinuar em

inspido a

insistir sobre, em

instar por, a

instruir de, em, sobre

inteirar-se de

intercalar entre

interceder por

interessar-se por

interesse em, por

intermdio a

internar-se em

interpolar entre, com

interpor entre

interrogar a

intervir em

intolerante com, para com

inundar de, em

intrometer-se em

intil para, a

investir contra, com

irmanar com

isentar de

J

jactar-se de

jubilar em

juncar de

juntar a, com

justificar de, a; (-se)

L

lamentar-se de

lanar em (-se) sobre

lastimar-se de

leal a, com, para com

lembrar-se de

lento em

levar em, a, por

liberal com

libertar de

lidar com

ligar a, com

ligeiro de

limitar-se a, com

limitado de

limpar em, a (-se), de, em

limpo de

lisonjear-se de

litigiar com, contra

livrar de

livre de

lograr (-se) de

longe de

longnquo de

louco de, com

lutar com, contra

M

maior de, entre

maldizer de

maliciar de

malquistar-se com

manco de

mancomunar-se com

manso de

manter-se com

maquinar contra

maravilhar-se com, de

matizar de

mau com, para,

      para com

mediano de, em

mediar entre

medir (-se) com, por

meditar em, sobre

medrar em

melhorar de

menor de

merecer de

mergulhar em

mesclar em

meter-se a, em juiz

mimosear com

ministrar a

misericordioso com, para com

moderar-se em

mofar de, com

molestar com

molesto a

morador em168

moroso de, em

morrer de, por

mortificar-se com

motejar de

mudar de; mudar-se para

murmurar de

N

namorar 169

namorar-se de, namorar

      (tr. direto), com

natural de

necessrio a

necessitar de

negligente em

negar-se a

negociar em, com

nivelar-se a, com

nobre de, em, por

nocivo a

nutrir-se de, com

O

obedecer a

obediente a

oblquo a

obrigar a

obrigao de

obsequioso com

obstar a

obstinar-se em

obviar a

ocupar-se com, em, de

dio a, de, contra,

      para com

odioso a, para

ofender com, por

ombrear-se a, com

oneroso a

opinar sobre, de

opor (-se) a

oposto a

oprimir com

optar por, entre

orar por

orgulhoso com, para

      com, de

P

pactuar com

padecer de

pagar a, de, em 170

plido de

parco em, de

parecer com, a, de

parecido a, com

paralelo a

participar de, em, a

pasmar de

passar de, com, em

passvel de

peculiar a

pegar de, em

pender de, a

pendurar de, a

penetrado de

pensar em

perdoar a

perfumar com

perguntar a, por

perito em

permutar com, por

pernicioso a

perpendicular a

persistir em

perseverar em

persuadir de

pertencer a, pertencer

      para (= ser prprio de)

pertinaz em

pesado a

pesar de (impessoal), a

piedade de

pleitear com, contra

pobre de

poderoso para, em

porfiar em, por

pospor a

possvel de

possudo de

posterior a

povoar de

prtico em

precaver-se contra, de

preceder em

precisar de

proeminncia sobre, de

preferir a 171

prejudicial a

preocupar-se com

preparar-se para

preponderar sobre

prescindir de

presentear com

preservar de

presidir a, em

prestes a, para

presto a, para

presumir de

prevalecer sobre

prevenir de, para, contra

prezar-se de

primeiro de, dentre, a, em 172

privar de, com

proceder a, com

processar por

prdigo de, em

professar em

proibir a

promover a

pronto para, em

propender para

propcio a

propnquo de

prprio para, de

proporcionado a, com

prorromper em

prosseguir em

prestar por

protestar contra

provar de, a

proveitoso a

prever a, de

provocar a, contra

prximo a, de

pugnar por, contra

purgar-se de

purificar-se de

puxar de, por

Q

quadrar com

qualificar de

queixar-se a, de

querelar contra

querer a173

quebrado

querido de, por

quebrantar-se com

R

radicar-se em

ralhar com

rebaixar de, -se a

rebelde a

rebentar de

recair em, sobre

reclamar contra

reclinar-se sobre

recolher-se a

recomendar a

recompensar com

reconciliar-se com

reconvir sobre

recorrer a

recostar-se sobre, em

recrear-se com

recusar a

redundar em

reduzir a (no em)

referir-se a

refletir em, sobre

refugiar-se em

regalar-se com

regar de

regozijar-se de, com

regular-se por

reincidir em

reintegrar em

rejubilar com

relaxar-se em

remontar a

remover de

renascer a

render-se a

renegar de

rente com, a, de

renunciar a

repartir entre, com, por

representar contra

reptar para

requerer a

resguardar-se de, contra

residir em

resignar-se a, com

resistir a

resolver-se a

respeito a, de, por

responsvel por

ressentir-se de

restabelecer-se de

resultar de

retirar-se de, a

retrair-se a

retratar-se de

retroceder a, para

revestir de, com

rico de, em

rgido de

rijo de

rir-se de

rivalizar com

roar-se com

rodear-se de, com

rogar por

romper com

S

saber a (ter gosto), de

sbio em

sacar de

saciar de, a

sacrificar a, (-se) por

sacudir de

safar-se de

sair de, (-se) com

salpicar de

salvar de

sanar de

so de

sarar de

satisfazer a, (-se) com

seco de

sedento de, por

seguro de, em

segregar de, a

semelhante a

semelhar a

sensvel a

sentir-se de

separar de

servio em

servir a, (-se), de, para

severo com, para com, em

sindicar de

singularizar-se por

sito em174

soberbo com, de

sobrar a

sobreviver a

sobrevir a

sobrepujar em

sobressair em, por

sobressaltar-se com

sbrio de, em

socorrer (-se) de, com, a

sofrido em

solicitar de

solcito com

solto de

sonhar com

sortir de

submeter a

subordinar a

sub-rogar em

subsistir com

substabelecer em

substituir por, a

subtrair de, (-se) a

suceder a

sujar-se com

sujeitar-se a

sujo de

sumir-se em

superior a

suplicar a

surdo a, de

surpreender-se com

suspeitar de

suspeito a, de

suspender de

sustentar-se de, com

suster com

suster-se de

T

tachar de

tapar com

tapizar de

tardar em

tardo a, em

tauxiado de

teimar em

temer de, por

temeroso de

temvel a

terar com

terminar em, por

terno de

timbrar em, de

tingir de

tirar de

tiritar de

topar com

tornar a

trabalhar de, por, para, em

traduzir em, para, de

traficar com, em

traidor a, de

transbordar de

transferir a

transfigurar-se em

transformar em

transido de

transitar por

transplantar de, para

transportar-se de

trasladar a, em, de

tratar de

travar-se de

tremer de

tresandar a

trespassado de

tributar a

triste de, com

triunfar de

trocar por, de

U

ufanar-se de, com

ltimo em, de, a

ultrajar com

ungir com

nico em

uniformizar com

unir a, com

untar de, com

usar de

til a, para

utilizar-se de

V

vacilar em

valer-se de, valer, a

vangloriar-se de, por

variar de, em

vazar em

vazio de

vedar a

velar por, em,

versado em

verter de, para, em

vestir-se com, de

viciar-se com ,em

vincular a

vingar-se de, em

visar (= pretender) a,

visar (= dar o visto)

visvel a

vizinho a, de

voltar de, a

Z

zangar-se com

zombar de

zelar por

7  Colocao

Sintaxe de colocao ou de ordem

Sintaxe de colocao ou de ordem   aquela que trata da maneira de dispor os termos dentro da orao e as oraes dentro do perodo.

A colocao, dentro de um idioma, obedece a tendncias variadas, quer de ordem estritamente gramatical, quer de ordem rtmica, psicolgica e estilstica, que se coordenam 
e completam. O maior responsvel pela ordem favorita numa lngua ou grupo de lnguas parece ser a entonao oracional. Entre os casos de colocao usual ou normal em portugus 
sobressaem os seguintes:

a) a colocao do adjunto preposicionado depois do seu substantivo:

a casa de Vera

b) a colocao do adjunto adjetivo depois do seu substantivo:

homem rico

c) a colocao do adjunto no representado por adjetivo (artigo, pronome adjunto, quantificadores) antes do substantivo:

o homem bom

meu tio rico

sete pecados capitais

muitos livros raros

d) a colocao do verbo depois do sujeito, no havendo passiva com o pronome se ou quando no se trata de interrogao parcial com pronome no sujeito ou advrbio interrogativo:

Dudu mudou de colgio.

Mas: Aluga-se esta casa. Por que cometeu ele essa falta?

e) a colocao do complemento verbal depois do verbo:

Compramos mas.

Assistiram ao filme.

Bebel  estudiosa.

f) a colocao do objeto direto antes do indireto, quando constitudos por substantivos:

Escreveram cartas ao scio prejudicado.

g) a colocao do objeto indireto antes do direto, quando constitudos por pronomes (ou o direto por substantivos):

Escreveram-lhe cartas.

Escreveram-lhas. (lhe + as)

O portugus pertence ao nmero daquelas que se caracterizam pelo ritmo ascendente, em que se anuncia o termo menos importante e depois, com acentuao mais forte, a informao 
nova e de relevncia para o ouvinte [SA.2, 270].

Isto nos leva a uma ordem considerada direta, usual ou habitual, que consiste em enunciar, no rosto da orao, o sujeito, depois o verbo e, em seguida, os seus complementos, 
como vimos antes.

A ordem que saia do esquema svc (sujeito  verbo  complemento) se diz inversa ou ocasional.

Chama-se anstrofe a ordem inversa que colide com a norma geral da colocao:

De teus olhos a cor vejo eu agora

Quando a colocao chega a prejudicar a clareza da mensagem, pela disposio violenta dos termos, diz-se que h um hiprbato:

a grita se levanta ao cu da gente       por

a grita da gente se levanta ao cu [MC.4, s.v. Ambiguidade].

Diziam os retritos que o hiprbato era a forma de expresses da paixo. Quando a deslocao cria a ambiguidade ou mais de uma interpretao do texto, alguns autores do  
forma o nome snquise.

Quase sempre essa deslocao violenta dos termos oracionais, fonte de ambiguidades, exige, para o perfeito entendimento da mensagem, nosso conhecimento sobre as coisas e de 
ordem cultural:

Abel matou Caim

Pela lio bblica no se h de entender que Abel praticou a ao e Caim a sofreu, mas sim ao contrrio.

Sendo a ordem direta um padro sinttico, a ordem inversa, como afastamento da norma, pode adquirir valor estilstico. E realmente se lana mo da ordem inversa para enfatizar 
esse ou aquele termo oracional.

Posto no rosto da orao um termo sobre o qual queremos chamar a ateno do nosso ouvinte, quebra-se a norma sinttica e consegue-se o efeito estilstico desejado. Por um 
jogo natural de oposio, a ordem direta tambm pode assumir valor estilstico para traduzir situaes do campo da novidade. O estilo descritivo ama a ordem direta; Jos de 
Alencar tirou dela notveis efeitos no seguinte trecho:

A tarde ia morrendo. O sol declinava no horizonte e deitava-se sobre as grandes florestas, que iluminava com os seus ltimos raios. A luz frouxa e suave do acaso, deslizando 
pela verde alcatifa, enrolava-se como ondas de ouro e de prpura sobre a folhagem das rvores. Os espinheiros silvestres desatavam as flores alvas e delicadas; e o ouricuri 
abria as suas palmas mais novas, para receber no seu clice o orvalho da noite. Os animais retardados procuravam a pousada; enquanto a juriti, chamando a companheira, soltava 
os arrulhos doces e saudosos com que se despede o dia. Um concerto de notas graves saudava o pr do sol, e confundia o rumo da cascata, que parecia quebrar a aspereza de sua 
queda, e ceder  doce influncia da tarde. Era Ave-Maria [JA.2, 37].

O ritmo ascendente predominante no portugus, dispondo os termos de acentuao mais fraca e menos significativos antes dos termos mais fortes, estabelece as seguintes normas 
vlidas para as situaes em que no predomine a linguagem emocional, algumas delas j enunciadas anteriormente e agora completadas:

a) os artigos, os pronomes (adjuntos), os quantificadores (com exceo dos cardinais com valor de ordinais) se antepem:

O livro, um livro, este livro, meu livro, cada livro, trs livros;

b) a preposio vem antes de um termo nominal ou pronominal:

de noite, a ele;

c) o advrbio no precede o verbo:

no quero;

d) o verbo auxiliar precede seu verbo principal:

hei de ver, quero dizer, costuma falar

e) o adjetivo monossilbico modificador precede o nome de maior extenso fontica:

bom dia, m hora, etc.

f) o adjetivo que exprime forma ou cor vem depois do substantivo, especificando seu conceito e o opondo a outros da espcie:

rua larga, blusa verde;

g) vem antes o adjetivo empregado no para designar o seu sentido prprio, mas para atribuir uma significao figurada:

grande homem / homem grande

... eu no sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor [MA.1, 1].

h) Numa sequncia de dois adjetivos e um substantivo, aqueles aparecem em geral juntos: Bons e estimados livros ou Livros bons e estimados. A quebra desta disposio, pondo 
o substantivo no meio,  recurso comum na poesia, mas tambm no ausente na prosa artstica: Bons livros e estimados. No seguinte passo Joo Ribeiro afastou ainda mais os 
dois adjetivos:

E quando foi noite, a donzela transida de terror e lagrimosa buscou o eremita [JR.2, 97].

i) Na sequncia dos pronomes sujeitos eu e tu, eu e ele ou entre eu + pronome de tratamento ou substantivo, em geral a srie comea com eu:

Eu e ele samos juntos.

Todavia a inverso  possvel (apesar de j ter sido apontada como francesismo), especialmente quando, por delicadeza e educao, se quer dar precedncia ao interlocutor:

Estamos no Minho, o leitor e eu [CBr.12, 1].

E assim galgamos ele e eu o rochedo [JR.2, 194].

Colocao dos termos na orao e das oraes no perodo

Colocao dos termos na orao e das oraes no perodo  A norma sinttica do portugus registra os seguintes casos:

1.) Pe-se de ordinrio o sujeito representado por substantivo depois do verbo na passiva pronominal:

Alugam-se casas.

Outra posio pode mudar a anlise da orao, desde que entre um termo a que nossa tendncia anmica atribua a realizao da orao. Note-se a diferena contextual entre Abriu-se 
a porta (voz passiva) e A porta abriu-se (voz ativa).

A norma j no  imperiosa se o sujeito est representado por um pronome:

Aquilo nunca se vira por ali [JL.1, 74].

2.) Nas oraes reduzidas de gerndio e particpio, o sujeito vem depois do verbo:

Terminando o discurso, dirigiu-se ao hotel.

Terminado o discurso, dirigiu-se ao hotel.

3.) O verbo vem no incio das oraes que indicam existncia (ser, existir, haver, fazer), tempo, peso, medida:

Era uma vez um prncipe

Existiam vrias razes

Houve discusso

Faz trs anos que no o vejo

So vrias horas de distncia

Faltam dois dias para a festa

4.) O verbo no incio das subordinadas condicionais e concessivas sem transpositor:

Tivesse-me ele dito a verdade, tudo acabaria bem.

Acabasse falando comigo, mesmo assim no lhe perdoaria.

5.) Nas oraes intercaladas de citao, o sujeito vem de ordinrio depois do verbo:

Suma-se  ordenou o policial.

6) Nas interrogaes introduzidas por pronomes e advrbios (quem, que, o que, quanto, qual, como, quando, onde, por que), o verbo vem em geral antes do sujeito, desde que 
este no seja o pronome interrogativo:

Quem veio aqui? (quem sujeito)

De quem falava voc quando chegamos?

Como foi ele passar nessa encrenca?

Usa-se ainda, neste caso, sujeito antes do verbo ou a palavra interrogativa no fim da orao:

De quem voc falava?

Ele comprou o qu?

Observao: Na pergunta retrica costuma-se pr o sujeito antes do verbo em construo do tipo: O mdico aconselhou esta dieta, e voc seguiu?

7.) Nas oraes exclamativas, de sentido optativo ou no,  frequente o sujeito vir depois do verbo:

Como era verde o meu vale!

Viva o rei! (construo fixa)

8.) A orao subordinada subjetiva vem normalmente depois do verbo regente:

Consta que o trem atrasou.

Ficou patente que o progresso comeara.

 aconselhvel que no se retirem agora.

9.) A orao subordinada adverbial causal iniciada por como vem em geral no incio do enunciador de sua principal:

Como o tempo melhorou, sairemos agora.

10.) Numa sequncia de pronomes tonos, vem em primeiro lugar o que funciona como objeto indireto seguido do objeto direto:

Eu vo-lo darei

Nunca lho dissemos

Observao: Nas ocorrncias com o pronome se + me, te, lhe, nos, vos, o se vem sempre em primeiro lugar:

No se me afiguram boas as solues.

Pouco se nos d esse tipo de soluo.

11.) Diante de negao, o pronome tono pode vir antes ou depois do advrbio no:

Ele no me disse. Ele me no disse (rara entre brasileiros)

12.) No raro se intercala uma ou mais palavras entre o pronome tono em prclise e o verbo:

Eram grandes raids, entradas, como se ento dizia [AAr.2, 128].

13.) Nas oraes em que entra verbo intransitivo parece haver preferncia da posposio do sujeito, como indica esta passagem de Garrett:

Assim passaram meses, assim correu o inverno quase todo, e j as amendoeiras se toucavam de suas alvssimas flores de esperana, j uma depois de outras iam renascendo as 
plantas, iam abrolhando as rvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente era chegando o ms de abril, estvamos em plena e bela primavera 
[AGa apud GM.1, 365].

14.) Por elegncia e nfase de expresso, pode-se deslocar para antes do pronome relativo o predicativo da orao adjetiva:

Daniel, professor que foi daquela escola, nunca se disps a mudar de cidade.

Colocao e clareza

Colocao e clareza  Levadas em conta as construes fundamentais de que a linguagem natural e espontnea no costuma afastar-se,  certo que para a estrutura oracional temos 
em portugus bastante liberdade. Esta, porm,  maior no verso, em que ocorrem certas transformaes complementares estranhas no s ao falar comum, mas ainda ao discurso 
limado. Alguns escritores abusaram da liberdade potica, a ponto de tornarem a linguagem obscura e quase ininteligvel:

Ama a vivenda dos contrrios ao fogo undosos rios (Castilho)

A do rei potente mimosa filha

Dos sem conto que h passado malficos portentos [AC apud SA.2, 276].

Colocao dos pronomes pessoais tonos e do demonstrativo o  questo de fontica sinttica

Colocao dos pronomes pessoais tonos e do demonstrativo o  questo de fontica sinttica  Durante muito tempo viu-se o problema apenas pelo aspecto sinttico, criando-se 
a falsa teoria da atrao vocabular do no, do qu, de certas conjunes e tantos outros vocbulos. Graas a notveis pesquisadores, e principalmente a Said Ali, passou-se 
a considerar o assunto pelo aspecto fontico-sinttico. Abriram-se com isso os horizontes, estudou-se a questo dos vocbulos tonos e tnicos, e chegou-se  concluso de 
que muitas das regras estabelecidas pelos puristas ou estavam erradas, ou se aplicavam em especial ateno ao falar lusitano. A Gramtica, alicerada na tradio literria, 
ainda no se disps a fazer concesses a algumas tendncias do falar de brasileiros cultos, e no leva em conta as possibilidades estilsticas que os escritores conseguem 
extrair da colocao de pronomes tonos. Daremos aqui apenas aquelas normas que, sem exagero, so observadas na linguagem escrita e falada das pessoas cultas. No se infringindo 
os critrios expostos, o problema  questo pessoal de escolha, atendendo-se s exigncias da eufonia.  urgente afastar a ideia de que a colocao brasileira  inferior  
que os portugueses observam, porque:

a pronncia brasileira diversifica da lusitana; da resulta que a colocao pronominal em nosso falar espontneo no coincide perfeitamente com a do falar dos portugueses 
[SA.2, 279].

O pronome tono pode assumir trs posies em relao ao vocbulo tnico, donde a nclise, prclise e mesclise.

nclise  a posposio do pronome tono (vocbulo tono) ao vocbulo tnico a que se liga:

Deu-me a notcia.

Prclise  a anteposio ao vocbulo tnico:

No me deu a notcia.

Mesclise  a interposio ao vocbulo tnico:

Dar-me-s a notcia.

Critrios para a colocao dos pronomes pessoais tonos e do demonstrativo o.

Critrios para a colocao dos pronomes pessoais tonos e do demonstrativo o.

A  Em relao a um s verbo

1.) No se inicia perodo por pronome tono:

Sentei-me, enquanto Virglia, calada, fazia estalar as unhas [MA.1, 125].

No! vos digo eu! [AH apud FB.1, 197].

Querendo parecer originais, nos tornamos ridculos ou extravagantes [MM].

Observaes:

1.a) Ainda que no vitoriosa na lngua exemplar, mormente na sua modalidade escrita, este princpio , em nosso falar espontneo, desrespeitado, e, como diz Sousa da Silveira, 
em alguns exemplos literrios, a prclise comunica  expresso encantadora suavidade e beleza [SS.1,  523, a, obs.]. Alguns modernistas, com Mrio de Andrade  frente, 
tentaram estender essa prclise inicial de enunciado a todos os pronomes tonos, exagerando, porque isto no ocorre com o, a, os, as: O vi. Depois, s Mrio persistiu no uso, 
apesar das ponderaes de Manuel Bandeira.

2.a) Preso a critrio de orao (e no perodo, como aqui fizemos), Rui Barbosa [RB.1] tem por errnea a colocao em: Se a simulao for absoluta, sem que tenha havido inteno 
de prejudicar a terceiros, ou de violar disposies de lei, e for assim provado a requerimento de algum dos contratantes,  se julgar o ato inexistente. Os que adotarem 
o critrio de orao, s aceitam a posio inicial do pronome tono na intercalada de citao, como ocorre no exemplo de Herculano acima transcrito.

3.a) Em expresses cristalizadas de cunho popular aparece o pronome no incio do perodo: Tesconjuro!... sai, diabo!... [MA.1, 97].

2.) No se pospe, em geral, pronome tono a verbo flexionado em orao subordinada:

Confesso que tudo aquilo me pareceu obscuro  [MA.1, 79].

Se a visse, iria logo pedi-la ao pai [MA.1, 87].

Tu que me ls, Virglia amada, no reparas na diferena entre a linguagem de hoje...? [MA.1, 91].

Observao: Quando se trata de oraes subordinadas coordenadas entre si, s vezes ocorre a nclise do pronome tono na segunda orao subordinada. Tambm quando na subordinada 
se intercalam palavras ou orao, exigindo uma pausa antes do verbo, o pronome tono pode vir encltico: Mas a primeira parte se trocou por interveno do tio Cosme, que, 
ao ver a criana, disse-lhe entre outros carinhos... [MA apud MBa.2, 197]. Em todos estes e outros casos que se poderiam lembrar, a ao dos gramticos se tem dirigido para 
a obedincia ao critrio exposto, considerando espordicos e no dignos de imitao os exemplos que dele se afastam.

3.) No se pospe pronome tono a verbo modificado diretamente por advrbio (isto , sem pausa entre os dois, indicada ou no por vrgula) ou precedido de palavra de sentido 
negativo:

No me parece; acho os versos perfeitos [MA.1, 69].

Sempre me recebiam bem.

Ningum lhe disse a verdade.

Se houver pausa, o pronome pode vir antes ou depois do verbo:

Ele esteve alguns instantes de p, a olhar para mim; depois estendeu-me a mo com um gesto comovido [MA.1, 86].

Observao: Como j foi indicado antes, o pronome tono, no inicial, pode vir antes da palavra negativa:

(...) descia eu para Npoles a busca de sol que o no havia nas terras do norte [JR.2, 187].

4.) No se pospe pronome tono a verbo no futuro do presente e futuro do pretrito (condicional). Se no forem contrariados os princpios anteriores, ou se coloca o pronome 
tono procltico ou mesocltico ao verbo:

Teodomiro recordar-se- ainda de qual foi o desfecho do amor de Eurico... [AH.1, 60].

Os infiis... contentar-se-o, talvez, com as riquezas... [AH.1, 146].

5.) No se pospe ou intercala pronome tono a verbo flexionado em orao iniciada por palavra interrogativa ou exclamativa:

Quantos lhe d? [MA.1, 97].

Quem me explicar a razo dessa diferena? [MA.1, 158].

Como te perseguem!

B  Em relao a uma locuo verbal

Temos de considerar dois casos:

Se os princpios j expostos no forem contrariados, o pronome tono poder aparecer:

1) Procltico ao auxiliar:

Eu lhe quero falar.

Eu lhe estou falando.

2) Encltico ao auxiliar (ligado por hfen).

Eu quero-lhe falar.

Eu estou-lhe falando

(...) e a conversao de Adrio foi-a lentamente acostumado  sua presena [EQ.4, 56].

3) Encltico ao verbo principal (ligado por hfen):

Eu quero falar-lhe

Eu estou falando-lhe ( mais raro)

Observaes:

1.a) Com mais frequncia ocorre entre brasileiros, na linguagem falada ou escrita, o pronome tono procltico ao verbo principal, sem hfen:

Eu quero lhe falar

Eu estou lhe falando

A Gramtica clssica, com certo exagero, ainda no aceitou tal maneira de colocar o pronome tono, salvo se o infinitivo est precedido de preposio: Comeou a lhe falar 
ou a falar-lhe.

2.a) Com o infinitivo podem-se contrariar os princpios 2. e 3. anteriormente formulados:

Eu no quero falar-lhe

Espero que no queira falar-lhe

3.a) Nas construes com o verbo haver do tipo h-se de + infinitivo ou h de se + infinitivo, esta ltima  mais corrente e a primeira, mais comum em Portugal, aparece apenas 
como reminiscncia literria:

(...) e ho-me ainda a face

De encobrir ervanais, para no ver-te [AO apud SS.1,  524, 3, obs.].

b) Auxiliar + particpio: tenho falado...

No contrariando os princpios iniciais, o pronome tono pode vir:

1) Procltico ao auxiliar:

Eu lhe tenho falado.

2) Encltico ao auxiliar (ligado por hfen):

Eu tenho-lhe falado

Jamais se pospe pronome tono a particpio. Entre brasileiros tambm ocorre a prclise ao particpio:

Eu tenho lhe falado.

Posies fixas  A tradio fixou a prclise ainda nos seguintes casos:

1) com o gerndio precedido da preposio em:

Ningum, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguir evadir  sada [RB.2, 30].

2) nas oraes exclamativas e optativas, com o verbo no subjuntivo e sujeito anteposto ao verbo:

Bons ventos o levem!

Deus te ajude!

Explicao da colocao dos pronomes tonos no Brasil

Explicao da colocao dos pronomes tonos no Brasil  Nos princpios anteriormente comentados, vimos certas tendncias brasileiras que nem sempre a Gramtica agasalha como 
dignas de imitao, presa que est a um critrio de autoridade que a lingustica moderna pede seja revisto.

Sobre o assunto, em lcido resumo, comenta o Prof. Martinz de Aguiar:

A colocao de pronomes complementos em portugus no se rege pela fontica, nem  o ritmo, o mesmo binrio-ternrio, em ambas as modalidades, brasileira e lusitana, que 
impe uma colocao aqui, outra ali, no. Ela obedece a um complexo de fatores, fontico (rtmico), lgico, psicolgico (estilstico), esttico, histrico, que s vezes se 
entreajudam e s vezes se contrapem. Numa frase como ele vem-me ver, geral em Portugal, literria no Brasil, o fator lgico deslocou o pronome me do verbo vem, para adjudic-lo 
ao verbo ver, por ser ele determinante, objeto direto, do segundo, e no do primeiro. Isto : deixou a lngua falada no Brasil de dizer vem-me ver (fator histrico, por ser 
mera continuao do esquema geral portugus), para dizer vem me-ver (escrito sem hfen), que tambm vigia na lngua, ligando-se o pronome ao verbo que o rege (fator lgico). 
Esta colocao de tal maneira se estabilizou, que pouco se diz vem ver-me e trouxe consequncias imprevistas:

1.a) Pde-se juntar o pronome ao particpio, procliticamente:

Aqueles haviam se-corrompido (escrito sem hfen aqui e nos iguais exemplos).

2.a) Pde-se pr o pronome depois dos futuros (do presente e do pretrito):

Poder se-reduzir, poderia se-reduzir. Deixando de ligar-se aos futuros, para unir-se ao infinitivo, deixou igualmente de interpor-se-lhe aos elementos constitutivos.

3.a) Em frases como vamos nos-encontrar, deixando o pronome de pospor-se  forma verbal pura, para antepor-se  nominal, deixou igualmente de determinar a dissimilao das 
slabas parafnicas, podendo-se ento dizer vamo-nos encontrar [MAg.1, 408-409].

Pelas mesmas razes variadssimas  que no Brasil, na linguagem coloquial, o pronome tono pode assumir posio inicial de perodo.

apndice

1  Figuras de Sintaxe

Fenmenos de sintaxe mais importantes

1) Elipse

1) Elipse  Chama-se elipse a omisso de um termo facilmente subentendido por faltar onde normalmente aparece, ou por ter sido anteriormente enunciado ou sugerido, ou ainda 
por ser depreendido pela situao, ou contexto.  o que ocorre quando, diante de um quadro, uma pessoa d sua opinio:

 belo! [MC.4, s.v.].

So barulhentos, mas eu admiro meus alunos.

Assim, no se h de considerar elipse a omisso do sujeito lxico j que ele est indicado na desinncia verbal, o sujeito gramatical. A necessidade de explicitao do sujeito 
gramatical mediante um sujeito explcito  ditada pelo texto; a rigor, portanto, no se trata da elipse do sujeito, mas do acrscimo de expresso que identifique ou explicite 
a que se refere o sujeito gramatical indicado na desinncia do verbo finito ou flexionado. Em portugus, salvo nos casos de nfase ou contraste, no se explicita o sujeito 
gramatical mediante os pronomes sujeitos de 1.a e 2.a pessoas do singular e do plural:

Sairei depois do almoo (desnecessrio: Eu sairei...)

Foste contemplado na crtica (desnecessrio: Tu foste...)

Mas:

Eu sairei, e tu ficars.

Entre as elipses que ocorrem com mais frequncia esto:

a) a da preposio em algumas circunstncias adverbiais depreendidas pelo contexto:

As visitas, ps sujos, entraram no salo.

O tecido custava dez reais o metro.

Domingo irs  festa.

Conhecem-no uma lgua em redondo.

Observao: Tambm ocorre a elipse de preposio em sries coordenadas:

eu disse a seu pai que a sustentao de sua filha e marido... [CBr.6, 104].

Deus no d para cios ou desperdcios [CBr.6].

Geralmente  mais rara a elipse quando a preposio vem com artigo:

Estou farto das afrontas dos nobres e dos plebeus [CBr.6, 110].

Ou quando h nfase:

(...) (duas almas) recolhidas em si e em Deus [CBr.6].

Tambm  mais comum repetir-se a preposio antes dos pronomes pessoais monossilbicos e do pronome reflexivo:

No se lembrou de mim e de ti.

Nas locues prepositivas tambm  comum esta praxe; entretanto, s se costuma repetir o ltimo componente da locuo:

Atravs da histria e da lenda, o fato chegou at ns.

Antes de mim e de ti h a justia.

b) a da preposio antes do conectivo que introduz as oraes de complemento relativo e completivas nominais:

Preciso (de) que venhas aqui.

Estou necessitado (de) que venhas aqui.

Observao: Pode ocorrer a elipse no s da preposio, mas tambm da conjuno integrantes:

Quis defend-la, mas Capitu no me deixou, continuou a chamar-lhe beata e carola, em voz to alta que tive medo fosse ouvida dos pais [MA apud MBa.3, 80].

c) a da conjugao integrante, mormente como transpositor das subordinadas subjetivas e objetivas diretas:

 necessrio (que) se faa tudo rapidamente.

Espero (que) sejam felizes.

Observao: s vezes dois verbos seguidos vm desacompanhados das respectivas conjunes integrantes:

Frequentes vezes me disse esperava lhe arrumarem o processo [CBr.10, I, 51].

d) a do verbo dizer (e semelhante) nos dilogos:

E ela:  Voc est zangado comigo?

e) a do objeto direto representado por pronome tono para aludir ao substantivo anteriormente expresso:

Voc recebeu o convite? Recebi sim (por Recebi-o sim)

Cuidas que no tem cura lanar sangue? Tem, meu filho, tem [CBr. apud MBa.5, 172].

Alguns autores condenaram sem razo este tipo de elipse, tipo de antfrase.

f) a da preposio de em construes do tipo vestido cor de rosa por vestido de cor de rosa; pode-se tambm omitir toda a expresso de cor de: vestido rosa.

g) note-se a construo para + particpio para exprimir a ideia de que h de ser, digno de ser,  semelhana do particpio futuro passivo latino:

No  para dito o que ali aconteceu [MBa.5, 218].

h) a elipse de rigor da conjuno integrante que depois de que ou do que comparativo:

A um animal atacado de raiva  melhor que o matem do que esteja a penar (por do que que esteja a penar).

i) a elipse do primeiro elemento (preposio ou advrbio) que integra a chamada locuo conjuntiva (posto que, dado que, etc.) na orao subordinada coordenada  anterior:

Nada houve contra ela, se bem que uma voz rouca se levantou no tribunal e que (por: se bem que) dois ou trs presentes a acompanharam com certo entusiasmo.

Observao: Evite-se a simples lembrana da conjuno subordinada da 1.a orao por um que na 2.a subordinada, coordenada  anterior:

Quando ele me viu e que disse isso, acreditei na sua verso do fato.

Ou se repete o quando (Quando... e quando) ou s se usa a conjuno coordenativa (Quando... e disse).

2) Pleonasmo

2) Pleonasmo   a repetio de um termo j expresso ou de uma ideia j sugerida, para fins de clareza ou nfase:

Vi-o a ele (pleonasmo do objeto direto).

Ao pobre no lhe devo (pleonasmo do objeto indireto).

(...) o conde atirava  msera cantora alguns soldos que ainda lhe reforavam a ela as cordas vocais [JR.2, 188] (pleonasmo do dativo de posse).

Subir para cima.

O grande juiz entre os pleonasmos de valor expressivo e os de valor negativo (por isso considerado erro de gramtica)  o uso, e no a lgica. Se no dizemos, em geral, fora 
de situao especial de nfase: Subir para cima ou Descer para baixo, no nos repugnam construes com O leite est saindo por fora ou Palavra de rei no volta atrs.

Eis alguns casos comuns de pleonasmo:

a) a srie possessiva seu... dele, sua... dela para fugir  ambiguidade:

Mas no esmoreceu o Sr. Conde de Laet. Ningum melhor do que ele fez ento a psicologia da maior parte dos nossos movimentos revolucionrios. No s mostrou que quase sempre 
a sua causa deles,  um segredo (...) [JF apud CL.1, II, 333].

b) o emprego de dois termos de significado negativo para afirmar (no indouto = douto; no sem razo = com razo; nada anormal = muito normal; sem desconhecer = conhecendo; 
indesculpvel = culpvel) [MBa.3, 54 e MBa.4, 64].

c) a repetio da conjuno integrante em construes do tipo:

e disse que, se lhe no queramos mais nada, que podamos ir  nossa vida [CBr.1, 45].

 frequente na variedade coloquial falada acompanhando transpositores de orao subordinada:

Quero saber como que voc fez isso.

Ainda no marcamos quando que iremos nos casar.

Finalmente, h de se ter presente para no us-lo sempre que possvel o pleonasmo lxico que resulta do esquecimento do verdadeiro significado de certas expresses portuguesas 
ou estrangeiras: decapitar (por decepar, j que decapitar s pode referir-se  cabea) a cabea, exultar de alegria, panaceia universal, esquecimento involuntrio, desde ab 
aeterno (ab aeterno  expresso latina que j indica desde a eternidade), desde ab initio, tornar a repetir, prever de antemo, antdoto contra e tantos outros. Alguns, usados 
pelos melhores escritores, j correm com alguma despreocupao diante da crtica mais severa, como  o caso de suicidar-se. J est incorporada a repetio do prefixo e preposio 
de mesmo significado, como: incorporar em, coabitar com, coincidir com, conformar-se com, etc.

3) Anacoluto

3) Anacoluto   a quebra da estruturao lgica da orao:

Eu que era branca e linda, eis-me medonha e escura

[MB apud SS.1,  536].

Resulta esta anomalia em geral do fato de no poder a linguagem acompanhar o pensamento em que as ideias se sucedem rpidas e tumulturias.  a precipitao de comear a 
dizer alguma cousa sem calcular que pelo rumo escolhido no se chega diretamente a concluir o pensamento. Em meio do caminho d-se pelo descuido, faz-se pausa, e, no convindo 
tornar atrs, procura-se sada em outra direo [SA.4, 38].

O anacoluto, fora de certas situaes especiais,  evitado pelas pessoas que timbram em falar e escrever corretamente a lngua.

Coloca-se entre as construes anacolticas o comear o enunciado por um termo no preposicionado e depois recuper-lo na sua funo prpria, como que desprezando o inicial:

A pessoa que no sabe viver em sociedade, contra ela se pe a lei.

A construo gramatical seria: Contra a pessoa que... se pe a lei.

Um anacoluto muito comum : Eu parece-me que tudo vai bem.

4) Antecipao

4) Antecipao   a colocao de uma expresso fora do lugar que logicamente lhe compete:

O tempo parece que vai piorar

por

Parece que o tempo vai piorar.

As antecipaes so ditadas por nfase e muitas vezes geram anacolutos, mas destes diferem porque no quebram a estrutura gramatical do enunciado. Assim h apenas antecipao 
do termo irapuru (que deve ficar na orao de quando), e no anacoluto, nos conhecidos versos de Humberto Campos:

Dizem que o irapuru quando desata

A voz  Orfeu do seringal tranquilo 

O passaredo, rpido a segui-lo

Em derredor agrupa-se na mata,

isto : dizem que, quando o irapuru desata a voz (...) o passaredo (...) agrupa-se na mata.

5) Braquilogia

5) Braquilogia   o emprego de uma expresso mais curta equivalente a outra mais ampla ou de estruturao mais complexa:

Estudou como estudaria se fosse passar

por

Estudou como se fosse passar

Incluem-se nos casos de braquilogia deste tipo construes como Entrei e sa de casa, derivada de Entrei em casa e da sa (ou donde sa).

 o que tambm ocorre naquelas em que entram graus de comparao, como: Eles so melhores ou to bons como ns por Eles so melhores do que ns ou to bons como ns.

Ainda h braquilogia quando se coordenam dois verbos de complementos diferentes e se simplifica a expresso dando-se a ambos o regime do verbo mais prximo: Eu vi e gostei 
do filme (por Eu vi o filme e gostei dele).

6) Haplologia sinttica

6) Haplologia sinttica   a omisso de uma palavra por estar em contato com outra (ou final de outra palavra) foneticamente igual ou parecida:

Iracema antes quer que o sangue de Caubi tinja sua mo que a tua [JA.4, 223]. Isto : antes quer que... que quer que a tua.

7) Contaminao sinttica

7) Contaminao sinttica   a fuso irregular de duas construes que, em separado, so regulares [ED.2,  482].

Fiz com que Pedro viesse

(fuso de Fiz com Pedro que viesse e Fiz que Pedro viesse)

Caminhar por entre mares

(fuso de caminhar por mares e caminhar entre mares)

As estrelas pareciam brilharem

(fuso de as estrelas pareciam brilhar com parecia que as estrelas brilhavam).

Fazer de conta

(fuso de fazer conta = imaginar, supor, com expresses em que fazer  seguido de de: fez de tolo, de sonso, etc).

Estas contaminaes so frequentes e ocorrem nos bons escritores quando o verbo admite uma construo com complemento direto de pessoa e preposicionado de coisa e outra com 
preposicionado de pessoa e direto de coisa.  o caso, entre muitos outros, de persuadir (persuadir algum a fazer ou persuadir a algum que faa), fazer (fazer que algum 
e fazer com algum que), que admitem fuses do tipo:

O fato lhe persuadiu a deixar o trabalho.

Fizemos com que Pedro chegasse logo.

Tambm resultam de contaminaes sintticas acumulaes de preposies como:

Andar por entre espinhos (andar por espinhos + andar entre espinhos).

8) Expresso expletiva ou de realce

8) Expresso expletiva ou de realce   a que no exerce funo gramatical:

Ns  que sabemos viver

Aqui  onde a iluso se acaba.

Oh! Que saudades que tenho!

Quanto que  a conta?

 frequente o aparecimento de um que expletivo depois de conjunes, advrbios e expresses adverbiais:

Eu no sei quando que ele vem.

Enquanto que isso acontecia, no vinha nenhum socorro.

Desde cedo que esperavam por elas.

Havia muito que no o via.

Verdadeiramente que ficamos amedrontados.

Quase que o incidente se transforma num caso de polcia.

Observao: Quando h circunstncias de lugar, tempo, o que  substitudo, respectivamente por onde e quando.

No Recife  onde fez o primrio.

Durante a chuva  quando ocorrem mais acidentes de trnsito.

 preciso distinguir o  que expletivo do  que que indica:

a)  + que (conj. integrante):

A verdade  que saram.

b)  (verbo vicrio) + que (conj. integrante):

Que quer dizer este nome?  que as almas... [MBe apud JO.1]. ( que = quer dizer que)

c)  (vicrio) + que (conj. causal):

Por que veio?  que teve medo ( que = veio porque)

d)  que =  o que

Este livro  que lemos ontem (=  o que lemos ontem)

e) h um  que que difere dos demais pela forte pausa que separa os dois termos, dando a impresso de se tratar de um resqucio de orao seguido de conj. integrante que introduz 
seu antigo sujeito (=  verdade,  certo que):

Ou  que o digesto no vale para os que o estudaram? [AH.5, II, 35].

Modernamente se usa muito desta linguagem em ser que:

Ou ser que eu estou errado!

2  Vcios e Anomalias de Linguagem

Entre os vcios de linguagem cabe meno aos seguintes:

1) Solecismo

1) Solecismo   o erro de sintaxe (que abrange a concordncia, a regncia, a colocao e a m estruturao dos termos da orao) que a torna incompreensvel ou imprecisa, 
ou a inadequao de se levar para uma variedade de lngua a norma de outra variedade; em geral, da norma coloquial ou popular para a norma exemplar:

Eu lhe abracei (por o)

A gente vamos (por vai)

Tu fostes (por foste)

Aluga-se casas (por alugam-se)

Vendas  prazo (por a)

Queremos fazermos tudo certo (por queremos fazer)

Como acertadamente frisa Mattoso Cmara, no constituem solecismos os desvios das normas sintticas feitas com inteno estilstica, em que a afetividade predomina sobre 
a anlise intelectiva, como na silepse, na atrao, no anacoluto [MC.4, 227].

2) Barbarismo

2) Barbarismo   o erro no emprego de uma palavra, em oposio ao solecismo, que o  em referncia  construo ou combinao de palavra. Inclui o erro de pronncia (ortoepia), 
de prosdia, de ortografia, de flexes, de significado, de palavras inexistentes na lngua, de formao irregular de palavras:

contricto

por      contrito

gratuto

por      gratuito

rbrica

por      rubrica

proesa

por      proeza

cidades

por      cidados

fosteis

por      fostes

a telefonema

por      o telefonema

areonutica

por      aeronutica

intemerato (= sem temor)

por      intimorato

Tambm j se empregou o termo barbarismo para referir-se aos erros cometidos pelos estrangeiros ao adaptar ao seu idioma palavras e expresses de outra lngua.

3) Estrangeirismo

3) Estrangeirismo   o emprego de palavras, expresses e construes alheias ao idioma que a ele chegam por emprstimos tomados de outra lngua. Os estrangeirismos lxicos 
que entram no idioma, por um processo natural de assimilao de cultura ou de contiguidade geogrfica, assumem aspecto de sentimento poltico-patritico que, aos olhos dos 
puristas extremados, trazem o selo da subservincia e da degradao do pas. Esquecem-se de que a lngua, como produto social, registra, em tais estrangeirismos, os contatos 
de povos. Este tipo de patriotismo lingustico (Leo Spitzer lhe dava pejorativamente o nome de patriotite)  antigo e revela reflexos de antigas dissenses histricas. Bral 
lembra que os fillogos gregos que baniam os vocbulos turcos do lxico continuavam,  sua moda, a guerra da independncia [MBr.1, 226]. Entre ns, o repdio ao francesismo 
ou galicismo nasceu da repulsa, alis, justa, dos portugueses aos excessos dos soldados de Junot quando Napoleo ordenou a invaso de Portugal. O que se deve combater  o 
excesso de importao de lnguas estrangeiras, mormente aquela desnecessria por se encontrarem no vernculo palavras e giros equivalentes. A introduo de uma palavra estrangeira 
para substituir uma verncula em geral se explica pela debilidade funcional da palavra ameaada de substituio.

Modernamente no mundo globalizado em que vivemos, onde os contactos de naes e de cultura so propiciados por mil modos, os estrangeirismos interpenetram-se com muita facilidade 
e rapidez. Para ns, brasileiros, os estrangeirismos de maior frequncia so os francesismos ou galicismos (de lngua francesa), anglicismos (de lngua inglesa), espanholismos 
ou castelhanismos (de lngua espanhola), italianismos (de lngua italiana).

De modo geral, os estrangeirismos lxicos se repartem em dois grupos: os que se assimilam de tal maneira  lngua que os recebe, que s so identificados como emprstimos 
pelas pessoas que lhes conhecem a histria (guerra, detalhe, etc.  a esses os alemes chamam Lehnwrter, emprstimos); mas h os que facilmente mostram no ser prata da 
casa, e se apresentam na vestimenta estrangeira (maillot, ballet, feedback, footing, etc.) ou se mascaram de vernculos, como mai, abajur, tquete, etc. (so os, em alemo, 
Fremdwrter, estrangeirismos). O termo emprstimo abarca estas duas noes e se aplica tanto aos estrangeirismos lxicos quanto aos sintticos e semnticos.

Os emprstimos lexicais durante muito tempo sofreram as crticas dos puristas, mas hoje vo sendo aceitos com mais facilidade, exceto aqueles comprovadamente desnecessrios 
e sem muita repercusso em outros idiomas de cultura do mundo.

Entretanto, os de sintaxe e os de semntica continuam merecendo o reparo dos guardies da vernaculidade, alis de meritria atividade quando no se mostram extremados. Por 
isto, relacionaremos aqui um pequeno rol desses dois tipos de emprstimos. Comearemos pelos galicismos: 175

1) Certos empregos da preposio a em vez de de:

incumbido a dizer

moinho a vento

combinao a dois

equao a duas incgnitas

2) Certos empregos da preposio contra:

pagar contra recibo

por

pagar com, mediante recibo

encostar a mesa contra a parede

por

encostar a mesa  parede

remete-se contra reembolso

por

remete-se a reembolso

(ou a cobrana)

3) Certos empregos da preposio de:

envelhecer de dez anos

por

envelhecer dez anos

aumentar de vinte reais

por

aumentar vinte reais

aposento largo de trs metros

por

aposento de (ou com) trs metros de largura

4) Certo empregos da preposio em:

barco em madeira

por

barco de madeira

relgio em ouro

por

relgio de ouro

cho em mrmore

por

cho de mrmore

capa em azul

por

capa azul

tingir em azul

por

tingir de azul

5) Expresses como:

estar ao fato de

por

estar ciente de

declarar a guerra

por

declarar guerra

pr o acento nesse problema

por

enfatizar esse problema

pessoa de alguns vinte anos

por

pessoa dos seus vinte anos

6) Emprego do que nas oraes negativas de excluso:

a me nada viu que seu filho

por

a me s viu o filho

o egosta no procura que o seu bem

por

o egosta no procura seno o seu bem

7) Emprego, na coordenao de oraes subordinadas adverbiais, do que para evitar a repetio da conjuno da subordinada anterior, quando no constituda pelas chamadas locues 
conjuntivas:

Quando me viu e que me falou   por   Quando me viu e me falou

Mas j  verncula a substituio pelo simples que em:

Logo que me viu e que me falou...

8) Anteposio do sujeito de oraes com verbo no gerndio e particpio:

O dia amanhecendo

por

Amanhecendo o dia

A aula terminada

por

Terminada a aula

9) No flexo dos nomes e sobrenomes pluralizados pelo artigo:

Os Almeida

por

Os Almeidas

Os irmos Paiva

por

Os irmos Paivas

Os Pereira de Abreu

por

Os Pereiras de Abreu

Quanto aos anglicismos, vale chamar a ateno para o fato de que o ingls vai constantemente ao grego e ao latim buscar-lhes os tesouros, mas os usa com tal liberdade, que 
muitas vezes deturpa o emprego ou o significado original. Da, no basta acalmar os nimos com a alegao de que se trata no imediata, mas mediatamente, da boa cepa clssica. 
Alguns nos chegaram pela porta da Frana.

So exemplos de anglicismos:

1) Lxicos:

admitir (= julgar possvel, dar como provvel, acreditar, crer). Quando o significado vernculo  receber, deixar entrar, concordar.

assumir por supor, acreditar

bsico (ingls, francs, etc.)

contactar por entrar em contacto com

diferente por melhor (um produto diferente)

domstico (voo) por nacional

leasing

marketing

politicamente correto

praticamente por virtualmente, faltando pouco (o tanque est praticamente cheio)

relax

2) Sintticos [MC.4, s.v.]:

a) a anteposio do adjetivo ao seu substantivo, com valor meramente descritivo, como nos nomes de hotis e estabelecimentos comerciais: Majestoso Hotel.

b) o emprego de um substantivo com funo de adjetivo por vir anteposto: Rio Hotel.

c) o emprego da preposio com isolada do nome que deveria reger ou da preposio contra no fim da orao: capa com e sem forro; eu sou pelo povo e tu s contra.

So exemplos de castelhanismos (lxicos):

aficionado

bolero: jaqueta

charla

contestar (= responder, replicar).  vernculo no significado de refutar, negar direitos.

ensimesmar-se

entretenimento

frente a (= ante)

muchacho (= garoto, rapazinho)

piso (= andar, pavimento)

quefazer (es) (= ocupaes)

recuerdo (= lembrana)

redatar (= redigir)

resultar (tornar-se, ficar).  vernculo provir, proceder

suelto (= artiguinho, nota crtica de jornal)

So exemplos de italianismos lxicos (muito frequentes em termos de arte, msica)

adgio (= andamento musical vagaroso)

allegro (= movimento alegre)

andante (= andamento moderado)

aquarela

bambino

belvedere

bel-canto

cicerone

condottiere

confete (confetti, plural)

corso (= cortejo, desfile)

diletante

dueto

furbesco (= velhaco)

imbroglio (= confuso, enredo, atrapalhada)

influenza (= doena catarral, gripe, fr.)

intermezzo (entreato)

libreto

Madonna (= Nossa Senhora)

maestro (= regente de orquestra)

nitrido (= relincho)

nitrir (= relinchar)

piano (= com suavidade)

primadona (= cantora principal de pera)

raconto (= conto, histria)

sonata

soprano

espaguete

estdio (= galeria de arte, sala de trabalho)

tarantela

terracota

trombone

vendeta (= vingana)

virtuose (= msico de talento)

Anomalias de Linguagem

Anomalias de Linguagem

Idiotismo ou expresso idiomtica  toda a maneira de dizer que, no podendo ser analisada ou estando em choque com os princpios gerais da Gramtica,  aceita no falar culto.

So idiotismos de nossa lngua a expresso  que, o infinitivo flexionado, a preposio em o bom do proco, etc.

Sobre o conceito de idiotismo nunca  demais relembrar a lio de Said Ali: No devemos definir o idiotismo, segundo alguns gramticos, como construo particular de uma 
lngua, estranha, portanto, s outras lnguas, porque ningum conhece todos os outros idiomas em todos os seus segredos e modos especiais de falar [SA.2, 310].

Assim, o infinitivo flexionado  um idiotismo no porque s exista em portugus (na realidade outras lnguas o conhecem, como alguns dialetos do sul da Itlia, e outras o 
conhecem com aplicao diferente da que tem em portugus, como em hngaro), mas porque a sua flexo contraria o conceito de forma infinita (i., no flexionada).

16 E. Coseriu [ECs.7, 136 - 138; ECs.15, 20 - 21].

17 E. Coseriu [ECs.12, 104; ECs.1, 265].

18 E. Coseriu [ECs.15, 21-22].

19 E. Coseriu [ECs.7, 59].

20 E. Coseriu [ECs.15, 20].

21 E. Coseriu [ECs.7, 60 n. 13].

22 Mattoso [MC.4, s.v.].

23 Quanto a este ponto, a afirmao generalizada de que o substantivo tem flexo de gnero, aparentemente justificada pela existncia de pares masculinos/femininos, tais 
como irmo/irm, noivo/noiva, gato/gata, que significam, respectivamente, o macho e a fmea de uma dada espcie de ser animado (sexuado). Com efeito,  propriedade essencial 
da flexo o fato de que por esse processo mrfico variem as significaes gramaticais de 2. grau (isto , de gnero, nmero, tempo-aspecto, modo, pessoa, etc.) somadas, alternadamente, 
ao tema por meio dos morfemas prprios, sem que se altere a significao inerente da palavra semntica, que permanece a mesma em cada um dos membros do paradigma flexional. 
 isso que se d com a variao de nmero casa/casas e, no adjetivo (pronome, etc.) com a de gnero: na variao alto/alta no se altera a significao inerente do adjetivo, 
presente no seu tema alt-. Ora, o que se passa com lobo/loba  precisamente o contrrio, porque o termo masculino e o termo feminino manifestam significaes inerentes diversas, 
a saber, respectivamente, a de espcie macho e a de espcie fmea do gnero (lgico) lupus (significado este tambm pelo masculino, na sua qualidade de termo no marcado da 
oposio). Quer dizer que se trata aqui, no de flexo, mas antes de derivao, como a que se observa em barco/barca, saco/saca, etc. [HCv.2, 745-746].

24 Por morfofonmica, a sibilante da desinncia  surda diante de pausa ou de consoante surda (ex.: livros pretos / livrus petrus) e sonora diante de vogal ou consoante sonora, 
sendo que diante de vogal passa a funcionar como pr-voclica dessa vogal (ex.: livros brancos / livruz brankus / livros alvos / livruz lvus/) [MC.4, 179].

25 Mel e fel fazem meles ou mis, feles ou fis, respectivamente, sendo as segundas formas mais frequentes por conformes no processo regular.

26 Mattoso assinala que, tendo em vista a pronncia distensa da pronncia brasileira do -l como | w |, passam a ser outras as regras morfofonmicas: no caso de carnaval, por 
exemplo, temos a alternncia | w | - | y |: | carnavau | - | carnavays |, e em funil temos a supresso do | w |: | funiu | - | funis |

27 Obs.: Continuamos a relacionar o singular como a forma bsica em relao ao plural, nestes casos. A gramtica histrica, entretanto, nos d outra verso do fato lingustico.

28 Uma Lei federal (2.749 de 2 de abril de 1956) pretendeu disciplinar os gneros dos nomes designativos das funes pblicas no mbito federal, que dispe: O gnero gramatical 
desse nome, em seu natural acolhimento ao sexo do funcionrio a quem se refira, tem que obedecer aos tradicionais preceitos pertinentes ao assunto e consagrados na lexicologia 
do idioma. Devem, portanto, acompanh-lo neste particular, se forem genericamente variveis, assumindo, conforme o caso, feio masculina ou feminina, quaisquer adjetivos 
ou expresses pronominais sintaticamente relacionadas com o dito nome.

29 Mattoso prefere ver aqui um exemplo de morfema subtrativo, dizendo que ocorre a supresso da vogal temtica sem adjuno de desinncia: irmo  irm(o)  irm. Dada a raridade 
de ocorrncia de morfema subtrativo em portugus, e, pelo contrrio, a frequncia da regra morfofonmica de crase, optamos pela lio acima.

30 Embora esta seja a norma exemplar, o idioma no est fechado a feminizaes expressivas, especialmente em nvel coloquial e popular, com reflexos em estilizaes literrias: 
a carrasca, a verduga, a pssara, etc. cf. [MBa5, 328-329].

31 Evite-se cuidadosamente o erro diminuitivo (com i).

32 Rio-Torto, Sistmica, 203  227, onde tece importantes comentrios contra a antiga concepo afixocntrica da produo lexical.

33 [MBa.3, 282], preso ao critrio diacrnico, v no emprego dessas formas um neutro.

34  O epteto benfico, assim como os antecedentes so proprssimos do sujeito Estrela [DG.1, 362].

A falsa notcia do falecimento de Gonalves Dias teve a boa consequncia de mover o Governo a aliviar-lhe a situao material, que era precarssima [MB.1, 778].

35  vlido o comentrio de Coseriu: (...) o artigo de per si no individua. Nos casos em que isto parece ocorrer (p. ex. Leram o livro? Estou vendo o mapa), a individuao 
est dada, na realidade, pelos contornos verbais e extraverbais [ECs.1, 300 n.36].

36 Tem-se desprezado, nestes casos, a influncia do ingls em nosso idioma.

37 A definio da segunda pessoa como sendo a pessoa  qual a primeira se dirige convm sem dvida ao seu emprego mais ordinrio. Ordinrio, porm, no quer dizer nico e 
constante. Pode utilizar-se a segunda pessoa fora da alocuo e faz-la entrar numa variedade de impessoal. Por exemplo, vous funciona em francs como anafrico de on 
(ex: on ne peut se promener sans que quelquun vous aborde, port. no se pode passear sem que algum aborde voc) [EBv.1, 254]. Este fato, como a traduo revela, ocorre 
tambm em portugus, tanto na lngua escrita como na falada.  um voc ou tu que se referem ao prprio falante, mesmo que o ouvinte esteja presente:

Daniel, a situao comigo est difcil. Chega um momento que voc (= eu, a gente, impessoalizador) no sabe o que fazer. Voc j vinha conhecendo que o tempo passava 
danadamente rpido por causa de uns indcios sutis. Por exemplo: quando um desconhecido fala a seu respeito no diz mais aquela moa, e sim aquela senhora (...) Sem falar 
nos que morreram, porque morrem muitos  medida que a gente fica mais velha [RQ.1, 108].

No levando em conta o jogo psicolgico envolvido na situao, o giro tem sido injustamente condenado por alguns gramticos que no atentam para o respaldo da lngua escrita 
nem o testemunho de outras lnguas. No portugus, nesta aplicao se usa de voc ou tu (ou expresses substantivas como a pessoa, o indivduo, o cristo, etc.).

38 Desde K. Brugmann (1904) foram estabelecidos quatro tipos de dixis em relao  posio do falante: este-dixis, eu-dixis, tu-dixis e aquele-dixis. K. Buhler 
acrescenta uma dixis especial: dixis em fantasma, que se produz quando um narrador transporta o ouvinte ao reino do ausente recordvel ou ao reino da fantasia construtiva 
e lhe pe  disposio ali de todos os mesmos indicadores para que veja e oua o que h ali para ver e ouvir (e tocar, se o desejar), e, quem sabe, cheirar e degustar [apud 
LCr.1, s.v.]. Para o linguista so vlidas as consideraes de Herculano de Carvalho:  evidente que esta espcie de mostrao [em fantasma] assume real interesse para o 
psiclogo (que era Buhler) e para o estudioso da criao potica, mas no para o linguista, para quem ela se identifica com a mostrao ad oculos, embora (...) ela possa 
estar implicada na anafrica [HCv.3, 662].

39 [ECs.1, 301 n. 37]. J o nosso Joo Ribeiro [JR.1, 88] lembrara a lio de A. Darmesteter, que considerava os pronomes, pelo seu ofcio de indicar a posio da pessoa ou 
coisa no discurso, gestos falados.

40 O simples fato de que palavras diferentes sejam muito geralmente empregadas para eu e ns (e tambm para tu e vs)  suficiente para excetuar os pronomes dos processos 
ordinrios de pluralizao (...). Na grande maioria das lnguas, o plural pronominal no coincide com o plural nominal, pelo menos tal como se representa ordinariamente. Est 
claro, de fato, que a unidade e a subjetividade inerente a eu contradizem a possibilidade de uma pluralizao. Se no pode haver vrios eus concebidos pelo prprio eu 
que fala,  porque ns no  uma multiplicao de objetos idnticos, mas uma juno entre o eu e o no eu, seja qual for o contedo desse no eu. Essa juno forma 
uma totalidade nova e de um tipo totalmente particular, no qual os componentes no se equivalem: em ns  sempre eu que predomina, uma vez que s h ns a partir de 
eu e esse eu sujeita o elemento no eu pela sua qualidade transcendente. A presena do eu  constitutiva de ns [EBv.I, 256].

O plural de eu como mera palavra ou como substantivo para significar a personalidade de quem fala tem normalmente o plural eus:

No poderiam mostrar, num dado instante e numa atmosfera nica, todos os eus sucessivos que guardam dentro de si (...) [RCo.1, 164].

41 Para a discusso de considerar o senhor, a senhora, etc. formas substantivas de tratamento ou pronome de tratamento, vejam-se os estudos de HM, Anrede; LCi, Formas; 
EW, Pronomes. No fundo, trata-se de um falso problema, pela natureza categoremtica do pronome.

42 Tradicionalmente a srie isto, isso, aquilo e o (invarivel)  dada como remanescente do neutro latino. J o nosso primeiro gramtico Ferno de Oliveira (1536) tinha desvinculado 
tais pronomes do neutro latino. Epifnio Dias considera-os como masculinos (isto, isso, aquilo), e o erudito artigo de Herculano de Carvalho sobre o gnero nos pronomes [HCv.4, 
30-48] mostra que s lhes cabe o gnero masculino.  assim que os trataremos aqui, inclusive ao o invarivel em gnero e nmero.

43 Que  l?, aplicado a indagar sobre pessoas, talvez seja o resultado de desnasalao do quem por fontica sinttica: E comeava a despir-se, quando ouviu passos no negro 
corredor, passos muito lentos, muito pesados, que se adiantavam (...) Assustado, gritou Que  l? [EQ.3, 663].

44 Coseriu [ECs.4, 211-212].

45 No excelente livro de Barbadinho, h boa messe de exemplos. O fato sinttico est a exigir investigao, pois parece ter razes mais longnquas na famlia romnica. A bibliografia 
a j  extensa: [FDz.1, III, 56]; [MLk.1, III,  67]; [WZ.1,  709]; [FH.1,  512], e o livro de G. Brandt sobre a concorrncia de soi e lui, eux, elle(s) em francs.

46 Deve-se evitar o emprego do pronome pessoal pelo possessivo quando na orao j estiver um objeto indireto ou complemento relativo. Assim, Carneiro Ribeiro no aceitou, 
com razo, a emenda proposta por Rui Barbosa  redao de um artigo do Cdigo Civil. Este rezava: A fortuna do pai passa a seu filho, emendada para: A fortuna do pai passa-lhe 
ao filho. Para Carneiro Ribeiro a emenda torna o pensamento menos preciso e a frase forada e desenxabida [CR.2, 586].

47 Diz-se que o possessivo tem sentido objetivo quando designa o ser que  alvo de uma ao ou sentimento qualquer. Fora deste caso, tem sentido subjetivo.  muitas vezes 
difcil distinguirmos os dois casos.

48 Sabemos que o termo dictico, se viesse no caudal das palavras hereditrias, no representaria a boa forma portuguesa de adaptao do vocabulrio grego, conforme mostrou 
o Prof. Cndido Juc (filho) [CJ.1, 35 e ss.]. Adotamo-lo por ser emprstimo cientfico disseminado, introduzido na lngua tcnica da gramtica portuguesa por M. Said Ali.

49 A respeito do ipse latino faz Blatt um comentrio que se pode aplicar ao nosso mesmo: Pour des raisons historiques, on a lhabitude de ranger ipse... parmi les pronoms 
dmonstratifs, bien que, si lon tient au sens, on puisse plus lgitimement le qualifier dintensif [FBl.1,  186].

50 Algo  obsolescente, usado praticamente s no estilo refletido, e mesmo a no com muita frequncia. O que  realmente de lamentar, visto o seu substituto alguma coisa, 
apesar do elevado grau de abstrao a alcanado pelo substantivo coisa, no ser facilmente separvel da significao de algo concreto e at material [HCv.3, 656 n. 93].

51 [SA.1, 105; SA.2, 266  cf. Pg. 333, a]

52  por causa de construes semelhantes que Epifnio Dias [ED.2,  104, b] diz que a posposio de todo pode dar ocasio a ambiguidades, como neste exemplo em que a inteno 
do escritor foi usar todo como advrbio, e no como pronome. Poder-se-ia,  claro, no fazer a flexo, evitando a ambiguidade.

53 A tradio tem evitado o emprego de sem quem, substituindo-o por sem o qual, sem a qual, sem os quais, sem as quais, para evitar o eco.

54 As formas duzentos, trezentos, quinhentos e seiscentos representam diretamente numerais latinos.

55 O quadro dos numerais ordinais  muito complexo e apresenta compostos e locues rebarbativas, para cuja utilizao o saber e a habilidade do homem do povo depressa se 
esgotam; da se usarem como ordinais os prprios cardinais (...) Tal emprego dos cardinais se justifica logicamente, de um ponto de vista novo, segundo o qual o nmero passa 
a ser como que uma qualidade intrnseca daquela hora, daquela pgina, etc., desprendidas em nosso esprito, das horas, das pginas anteriores e assim por diante [MC.4, 178].

56 Assim sendo, no se pode falar em voz passiva diante de linguagens do tipo osso duro de roer. Houve aqui, se interpretarmos roer = de ser rodo, apenas passividade, com 
verbo na voz ativa. Sobre o sentido ativo ou passivo de infinitivo, veja o link.

57 Moderna e normalmente o verbo parir est includo neste grupo: Pres. parimos e paris. Mas tambm, apesar de, por tabu lingustico, ser desusado na linguagem de sociedade, 
pode ser conjugado integralmente, com irregularidade apenas na 1. pess. do ind. e em todo o pres. do subj.: pairo, pares, pare, parimos, paris, parem. Pres. subj.: paira, 
pairas, paira, pairamos, pairais, pairam.

58 Pomos entre parnteses a variante do morfema ou alomorfe (cf. Variantes dos elementos mrficos).

59 Aceitamos as ponderaes de Mattoso: SMT  -ia, opondo-se a -a, do subjuntivo presente: temia, partia: tema, parta. Seria uma anlise falsa considerar -i a vogal do tema 
e SMT a vogal -a, porque os dois tempos passariam a se distinguir no pelo seu SMT, mas pela presena ou ausncia da vogal do tema [MC.8, 148 n.27]. A soluo com -a no 
seria de todo falsa, porque a vogal temtica poderia acumular a funo modo-temporal, mas a anlise apresentada  mais coerente com a descrio e o papel normal da vogal temtica.

60 No Brasil s por imitao literria aparece este verbo. Dele nos diz Manuel Bandeira: Esse lusitanismo est sendo introduzido por certos revisores  revelia dos autores; 
j me enxertaram a antiptica palavra numa traduo minha, mas eu juro que no a escrevi, nem jamais a escreverei: escreverei sempre mobiliada [MB.1, 441].

61 Sobre o emprego dos auxiliares ter e haver na conjugao composta veja-se Conjugao de verbos auxiliares mais comuns, 2.

62 Acompanhado de outro pronome que no esteja nos dois casos at aqui apontados, nenhuma alterao ocorre no verbo e no pronome posposto: conhecemos-te, chamamos-lhe, requeremos-lhe, 
etc. Evitem-se, portanto, enviamo-lhe, informamo-lhe!

63 Para seguir este modelo, melhor seria escrever engulir (com u). A forma engolir (com o) nos leva, naturalmente,  seguinte conjugao que o Vocabulrio Oficial no registra: 
engulo, engoles, engole, engolimos (com o), engolis (com o), engolem.

64 O verbo entupir pode tambm ser conjugado sem sofrer a metafonia que ocorre no grupo: entupo, entupes, entupe, entupimos, entupis, entupem.

65 Leve-se em considerao a mudana de g para j antes de o e a: fujo, foges foge, etc.

66 Conjugam-se, porm, regularmente assumir, presumir, reassumir, resumir.

67 Significa originar, produzir efeito. Como surtir so tambm regulares curtir (pouco usado na 1. pessoa do singular e em todo o presente do subjuntivo) e urdir.

68 Algumas vezes os escritores, numa orao subordinada a um presente histrico, usam o pretrito imperfeito em vez do presente, como se na orao subordinante estivesse um 
pretrito perfeito: O mestre da nau em que navegava Jonas... examinou todo o navio, at o lastro, onde ia dormindo o Profeta. Desperta-o a gritos e repreende-lhe o sono em 
ocasio que o baixel estava em perigo de se ir a pique [AV apud MBa.2, 117].

69 Coseriu [ECs.5, 143] que cita Togeby: Le plus souvent les parfaits et les imparfaits alternent, en formant dans le texte, pour ainsi dire, deux plans. Les parfaits constituent 
le premier plan, les vnements, les actions qui sont accomplies et qui font avancer le rcit, tandis que les imparfaits composent le second plan, tantt le dcor, tantt 
les raisons ou les consquences, tantt le contenu de dclarations ou de penses.

70 [ALb.1, 8-10 e 98], donde extramos os exemplos.

71 A flexo se apresenta geralmente quando o infinitivo vem acompanhado de um pronome pessoal oblquo tono.

72 [EBm.1], onde se encontra o levantamento de alguns destes casos.

73 Aparece ainda em exclamaes diretas e indiretas:

   Como chove! Veja como chove.

74 [HM.1, 55], em que as fronteiras entre o advrbio e o adjetivo so estudadas com muita erudio e acuidade estilstica.

75 [AL.1,  289], cuja proposta retocada adotamos; [MMa.1, 149]; [MPz.1], onde se faz exaustivo estudo do sistema preposicional do espanhol [VBr.1].

76 Pode-se tambm considerar contrao apenas o caso de crase; nos outros, diremos que houve combinao. A NGB no tomou posio neste ponto. Na realidade, o termo combinao 
 muito amplo para ficar assim restringido. A nomenclatura tradicional, por exemplo, s emprega combinao de pronomes.

77 Que o portugus procedeu como as demais lnguas romnicas prova o trabalho de V. Vnmen, Il est venu comme ambassadeur, il agit en soldat, Helsinquia, 1951.

78 (...) sem todavia influrem na ordenao das oraes [ED.1,  195, obs.].

79 O estudo das diversas realizaes fnicas de um dado morfema, como  o caso do nosso ndice de plural, recebe, em lingustica descritiva, o nome de morfofonmica ou morfonmica.

80 Parecem,  primeira vista, constituir exceo, formas como portuguesmente, superiormente, mas o fato se explica porque tais adjetivos em -s e -or eram uniformes no portugus 
antigo,  poca dessas derivaes adverbiais.

81 Mesmo a, integrando o indo-europeu, a aceitao desse infixo nasal  discutvel. Vejam-se os comentrios em Meillet- Vendrys, GC,  237-238.

82 M. Barreto [MBa.1, 408-410; MBa.3, 347; MBa.5, 138] condena formaes do tipo de labiodental, labionasal, linguodental, etc., em vez de labidental, labinasal, linguidental, 
etc., por aparecer a vogal o em vez de i, por serem latinas e no gregas. Aceita, embora as considere brbaras, as formaes novo-latino, dento-labial, anglo-russo, hispano-americano, 
etc., onde tambm aparece o o grego em lugar do i latino, como em plenilnio (p.207), alvinitente, altssono, langero, flamfero. A questo  muito complexa (j o era no 
prprio grego e no latim), porque se trata de formaes nascidas em pocas diversas e em domnios culturais diferentes, alm de procedimentos que se repartem pela composio 
e pela justaposio, com ou sem braquilogias e redues. O portugus, como as lnguas romnicas (algumas das quais nos serviram de modelo), sofreu o impacto dessas diferentes 
portas de entrada de tais neologismos eruditos, e at de reflexo popular, como gaticdio, burricida, etc.  um domnio que est, no portugus, a exigir estudos mais aprofundados. 
Cf. A.G. Hatcher Modern English Word-Formation and Neo-Latin (Baltimore, 1951), B. Migliorini Saggi sulla lingua del novecento (Firenze, 1963, p. 9-60) e FM, 1973, 1, 68-72.

83 A rigor, em geografia e biblifilo no temos a vogal de ligao o (ge-o), porque no existe formao em que aparea o radical ge, ou bibli, como em ch, pau, caf e l. 
O radical grego  ge, mas em portugus  geo, como o  biblio, j que a, como em outros casos, no se pode isolar a vogal o, tal qual fazemos em gs + o + metro. [VK.2, 37-38].

84 Cf. J. Mattoso Cmara Jr. Dicionrio de Filologia e Gramtica, 293. Para estudos mais adiantados veja-se Saussure, Cours de Linguistique Gnrale, 253 e E. Nida, Morphology 
(cap. de introduo).

85 Kehdi, Morfologia, 42, Rio-Torto, FLP, 2, 45-46; Sandmann, Formao, 145-152.

86 Matthews, Morphology, 1982, 146-147, Inflectional Morphology, 1972, 72.

87 Slvio Elia, Confluncia (2), 1991, 87.

88 Para Sten (Particularits, 24-25), citado por Nascentes (Linguajar, 96), a no diferenciao do portugus dialetal e do Brasil na pronncia de amamos e ammos se deve  
analogia, num processo de uniformizao, com a 2. e 3. conjugaes, e no  fonologia. Todavia, cumpre lembrar que a precedncia de nasal  um fator de fechamento do timbre.

89 [EBv.2, 147] e [AE.1, 22 e ss.].

90 Rio-Torto, Sistmica, 203 e ss.

91  constantemente contrariada pela realidade da lngua a hiptese de se estabelecer uma distribuio complementar entre tais construes agentivas calcada nos critrios 
grau prestgio social, formalidade e grau de especialidade. No se podem deixar de lado os valores semnticos dos elementos que integram os constituintes e seus reflexos 
no s nos produtos derivacionais mas tambm as motivaes do contexto. A concepo afixocntrica na produo lexical est sendo revista, para pr em evidncia o papel que 
desempenham as bases e os mecanismos derivacionais na criao lexical.

92 Se a palavra  masculino e termina em -a, este a reaparece quando se lhe acrescenta o sufixo -inho. O mesmo acontece se  feminino em -o ou singular em -s: Jarbas  Jarbinhas; 
Carmo (Joo do)  Carminha; o Maia  o Mainha. (Nota que me foi fornecida por Martinz de Aguiar). Note-se ainda que os diminutivos -inho, -zinho podem assumir valor patronmico, 
quando pais e filhos tm o mesmo nome: Pacheco (o pai), Pachequinho (o filho), Diva (a me), Divinha (a filha).

93 Cf. [VB.1].

94 Tresler  ler alm do que est escrito, podendo, portanto, significar ler mal, ler sem entender: Assim, em um artigo de seis pginas, Joo Fernandes diz, rediz, a 
si prprio se contradiz, anda para trs e para diante, e de tudo s deixa apurar que leu, releu, mas s treslia ao tomar da pena [CL.1, II, 305].

95 Do emprego de vice houve at abuso: vice-deus grande santo, por distinguir de semi-deuses, que eram do paganismo. Vieira chamou a ausncia de vice-morte. Filinto Elsio 
criou o verbo vice-reinar [JR.5].

96 O ar vernculo  tal, que a rigor no se poderia falar de hibridismo em muitas dessas inovaes lexicais. S aos olhos de quem conhece a histria desses elementos  que 
fica patente sua origem estrangeira.

97 esta uma forma livre: re(meter), re(fazer), etc. Este critrio de negar a receber uma derivao prefixal colide com a aceitao de formas presas em compostos do tipo agrimensor, 
aqueduto, etc., nos quais o falante tem a mesma dificuldade em depreender o significado de um ou dos dois elementos da unidade criada. Preferimos ficar com a lio de Mattoso 
Cmara, que era tambm a de Nida: A depreenso dos prefixos  uma tcnica de anlise descritiva. Para isso h a considerar trs casos: 1) quando o radical a que se acrescenta 
constitui uma forma livre na lngua (ex.: predizer = pre + dizer, desconsolo + des + consolo); 2) quando esse radical  forma livre numa estrutura variante (ex.: permitir, 
cf. meter); 3) quando esse radical s  forma presa, mas constitui a base de duas palavras, pelo menos, com prefixos distintos (ex.: coliso, eliso) [MC.4, s.v. Prefixo]. 
Nossa questo se quadra neste ltimo caso.

98 Fero  defectivo, apresentando forma do radical de tollo (tulli, latum); assim, no so cognatos aferir e ablativo. Ao primeiro se associam conferncia, frtil, oferecer; 
ao segundo, prelado e relaxado. Esta observao se estende a qualquer forma latina que apresentar semelhante defectividade.

99 Para L. Weisgerber: Lexicologia da expresso (al. Wortformenlehre), lexicologia do contedo (al. Wortinhaltslehre), semasiologia (al. Semasiologie) e onomasiologia (al. 
Onomasiologie). A lexemtica corresponde ao nvel estrutural sistemtico da lexicologia do contedo, a qual abarca tambm a lexicologia semntica associativa, e, em outros 
nveis estruturais, a lexicologia semntica da norma e a lexicologia semntica do discurso (compreendendo o estudo das preferncias e constncias semnticas dos escritores). 
Cf. [ECs.2, 46-50].

100 Um especial enfoque semasiolgico est representado pela semntica estrutural dos linguistas americanos J. J. Katz e J. A. Fodor que, na realidade, trata da estrutura 
da interpretao, e no da estrutura do significado, pois que parte de um significante lxico para chegar  identificao do seu significado, resolvendo o problema de desambiguizao 
dos signos. Cf. [ECs.2, 165-168].

101 Este fato j foi de h muito assinalado. Coseriu lembra a antecipao possivelmente no gramtico romano Varro, em nosso primeiro gramtico Ferno de Oliveira (1536), 
em Chr. Wolff (1730) e, mais recentemente, em Gabelentz (1901).

102 Esta aplicao do termo paragramatical vai ser importante para entendermos o fato e a explicao em compostos do tipo corta-papel.

103 Estes dois elementos combinados pertencem normalmente a campos diferentes, um dos quais (o que est representado no significante) determina (reco) o outro (que est 
representado no significante por um sufixo derivacional ou por zero (este ltimo caso  o de compostos como tira-teima, de que falaremos mais adiante).

104 Recente etimologia proposta pelo sueco Gunnar Tilander. Cf. nossa nota em Revista Brasileira de Filologia, vol. 6, tomo I, junho de 1961, 142-144. A etimologia no goza 
de aceitao unnime.

105 A etimologia popular (...) no difere, na essncia, de sua irm erudita, a etimologia dos fillogos. Mais vivaz, mais operativa que esta ltima, realiza instintivamente, 
intuitivamente e de pronto o que a outra faz intencionalmente, graas a um sem-nmero de alfarrbios e fichas [J. Orr apud SU.1, 104].

106 A palavra famigerado pode aplicar-se  pessoa notvel pelos seus dotes positivos ou negativos; todavia, no uso mais geral, a palavra se aplica s qualidades negativas.

107 Pode haver homofonia em um mesmo paradigma (sincretismo), como em cantava, 1. e 3. pess. do imperfeito, ou -s morfema pluralizador nos nomes e de 2. pess. sing. nos 
verbos.

108 Usamos aqui determinantes numa aplicao muito abrangente, que inclui as noes de adjunto e complemento, funes de que falaremos mais adiante.

109 Este emprego invarivel do o parece dever-se  confluncia de alguns fatos, entre os quais se destaca o de s haver obrigatoriedade de concordncia do predicativo com 
o sujeito quando  representado por adjetivo ou alguns pronomes e pela referncia de dixis e de valor neutral do pronome o.

110 [BC.1, 1100; AL.1, 311, AL.2, 182].

111 [PD.1, 51].

112 Esta diferena de contedo de pensamento designado em Ilha de Maraj se reflete bem no exemplo da maiscula.

113 Estas oraes de quem apresentam certa liberdade de colocao em relao  sua principal, e aparecem frequentemente no incio do perodo.

114 Ensina-nos SAID ALI: Em proposies como quem porfia mata a caa, quem espera sempre alcana, servimo-nos de um pronome visivelmente destitudo de antecedente. Mas como 
o vocbulo quem a sugere a noo de homem (ou mulher) que, algum que, sentimo-nos propensos a ladear a questo lingustica, analisando no j o pronome tal qual em tais 
frases se apresenta, mas sim o seu equivalente semntico. Esse mtodo condenvel, de conciliao forada, no satisfaz todavia ao esprito quando aplicado a quem quer que, 
expresso ampliativa do mesmo pronome quem nestas proposies: quem quer que o disse: no faas mal a quem quer que te ofenda. SWEET prope para o pronome nas condies dos 
dois primeiros como dos dois ltimos exemplos a denominao de relativo condensado por desempenhar o prprio relativo tambm funes de antecedente. Qualificativo cmodo, 
sem dvida, mas no ditado pelo critrio histrico-comparativo. Estudos mais rigorosos (DELBRCK e BRUGMANN) permitem presumir que o pronome em questo deve a sua origem a 
uma causa dupla: ao interrogativo quem nas interrogativas indiretas e ao indefinido quem [SA.5, 114-5].

115 A que chamamos intercalada de desejo Jos Oiticica denominava de exclamao.

116 Professores h que preferem, havendo na intercalada um verbo transitivo direto, considerar este tipo de orao com principal. Assim, analisam:

Orao principal: me pediu o rapaz.

Orao subordinada, substantiva objetiva direta, justaposta: d-me gua.

Se a intercalada no encerra verbo transitivo direto, acham-no por elipse.

117 Com seus alunos deve apenas o professor insistir na conceituao de orao intercalada, desprezando mincias de classificao. Nem sempre se traam linhas rigorosas de 
demarcao entre o sentido de muitas dessas intercaladas.

118 Cf. [OG.1, 123], onde se encontra excelente e larga exposio sobre o emprego dos verbos dicendi e sentiendi, bem como as alteraes que podem ter os tempos e modos verbais 
e os pronomes demonstrativos e possessivos na passagem do discurso direto a indireto, a pontuao e a colocao desses verbos. O assunto extrapola, na sua anlise mais profunda, 
o mbito da gramtica para inserir-se na lingustica do texto.

119 Para estes e outros exemplos ver [MBa.1, 181-3].

120 O fato ocorre tambm em francs, alemo e lnguas escandinavas, conforme observa NYROP, Grammaire Historique, VI, 377 e REMARQUE: Les confidences que je ne doutais pas 
quelle et reues de ma soeur. This man who I thought was my friend. Ferner will ich deinem Vater sagen, was ich glaube, dass du wnschest(LESSING).

121 O fato se repete no latim: Vejens bellum ortum est, quibus Sabini arma conjunxerant [Tito Lvio, 2, 53 apud JMa.1,  317, d) Obs. 1.)]. Cf. ainda [MBa.4, 25].

122 Pode ainda aqui faltar o tal:

      Falaste de modo que desistiram do pedido.

      H acentuada pausa entre o substantivo e o que.

123 Hoje raro.

124 Cf. Lfstedt, Philologischer Kommentar zur Peregrinatio Aetheriae, 56 e ss.; Norberg, Syntaktische Forschungen auf dem Gebiete des Sptlaeins und des frhen Mittellateins, 
239; Svennung, Untersuchngen zu Palladius und zur lateinischen Fach  und Volkssprache, 505, n 4. Maximino Maciel, Lies Elementares de Lngua Portuguesa, 120: Mrio Barreto, 
Estudos da Lngua Portuguesa, 93 e ss. Martinz de Aguiar (em carta particular), Cndido Juc (filho), O Fator Psicolgico na Evoluo Sinttica, 91 consideram a orao de 
fazer como subjetiva.

125 Assim fazem os mestres Said Ali e Epifnio Dias.

126 Outros autores supem que as oraes do tipo de h quatro dias, faz quatro dias, sofreram um processo de gramaticalizao, passando a ser consideradas como simples 
adjuntos adverbiais de tempo. Distinguindo  a meu ver sem razo  a sintaxe de fazer e haver nestas expresses, diz Maximino Maciel a respeito deste ltimo verbo: Procurar 
conferir ao verbo haver nestes casos a funo proposicional  complicar a anlise sem proveito na prtica; e, alm disso, nestas frases equivale praticamente  preposio 
desde (Lies Elementares, 122, n 1). Cf. Gramtica Descritiva do autor, p. 343 e 395.

127 Este emprego do que  comum no francs e, por isso, se tem a construo como galicismo.

128 Deve-se distinguir cuidadosamente o infinitivo do futuro do subjuntivo: este aparece na orao no integrante. Assim as formas verbais do seguinte exemplo esto no futuro 
do subjuntivo, e no no infinitivo (a orao  adverbial condicional introduzida por se): Se do cu, onde estais, abaterdes os olhos e os puserdes em Amarante... [AV.1, 
7, VII, 294 apud FB.1]. O texto foi eliminado das edies modernas.

129 Com razo insiste Adolfo Coelho [ACo.1, 121, nota]: No deve nunca confundir-se o que  simplesmente equivalente com que  idntico na forma, conquanto haja vantagem 
em fazer ver aos alunos que o mesmo pensamento se exprime de diversos modos.

130 Leia-se a respeito [MBa.1, cap. XI].

131 Cf. [CBd.1, 62; SA.5, II, 151 e ss; LSp.2]

132 Falando-se com rigor, funcionava originariamente como sujeito de um particpio absoluto o infinitivo que se junta a no obstante, visto, posto, etc. [Cf. ED.2,  288 a)] 
e [EB.1, 35].

133 Melhor fora pontuar: que, a ser verdadeiro, devia...

134 Presos a um critrio semntico, e no sinttico, alguns professores ensinam que este a  conjuno condicional, lio que deve ser cuidadosamente evitada. Cf. a crtica 
de E. Carneiro Ribeiro [CR.1, 454], embora no seja convincente a soluo que apresenta, socorrendo-se ao cmodo, mas enganador, recurso da elipse.

135 Temos dvidas em apontar como galicismos vrios empregos da preposio a em sentido final, pois  modo que as lnguas romnicas herdaram do latim. Para as condenaes 
ver Mrio Barreto [MBa.1, 515] e Epifnio Dias [ED.2,  325, a) obs]. Para fontes de estudos remetemos o leitor a Meyer-Lbke [MLk.1, III,  331 e 505] e Dag Norberg [DN.1, 
211].

136 Pode-se enquadrar este tipo no caso dos infinitivos substantivados, sem formar orao  parte.

137 Carlos de Laet j condenou a Camilo o emprego pronominal do verbo esvoaar-se, e o notvel escritor lusitano defendeu-se com exemplo de Castilho (Cf. Ecos Humorsticos 
do Minho, n. 2, p. 11). Rui Barbosa comenta [RB.1, 159]: Teve-se por erro a Camilo haver pronominado o verbo esvoaar. No havia razo: vrias vezes lhe dera Castilho Antnio 
essa categoria... e Vieira usara de voar-se. Cf. ainda [JC.1, 16, n. 3]. Em [CBr.1, 56] colhemos volitar-se: ... a pomba que se volita da arca....

138 Curso dado no INEP, 1949. Smula 14., p. 2. Vale a pena lembrar que aqui estamos diante de um exemplo do fenmeno de hipotaxe ou subordinao: so palavras (lexemas) 
ou grupos de palavras que experimentam o procedimento da subordinao no nvel dos elementos mnimos da camada de estruturao gramatical e passaram a funcionar, na condio 
de unidades deste nvel, como preposies.

139 F. Brunot d o que tambm como pronome relativo em expresses francesas do tipo: Arriv que fut ledict conte [cf. FBr.1, 767]. Tambm Meyer-Lbke [MLk.1, III,  633] e 
A. Llorach [AL.1,  208].

140 Exemplos de Jos Oiticica, Curso do INEP.

141 s vezes procura-se desdobrar este tipo de oraes em explcitas [= desenvolvidas] temporais iniciadas por quando ou enquanto.  mero expediente, pois a noo de tempo 
no  equivalente  de modo ou meio de fazer alguma coisa [SA.2, 183].

142 Baseados nesta construo, muitos romanistas explicam a construo no sei que fazer pelo emprego do infinitivo numa interrogao indireta por influncia do infinitivo 
da interrogao direta que fazer? Estudos mais recentes nos ensinam que o infinitivo, nestes casos, se explica por contaminao sinttica de uma orao de infinitivo (no latim 
nihil habeo dicere) com uma orao de relativo (no latim nihil habeo quod dicam). A discusso do problema se acha no artigo de Dag Norberg, Zum Infinitiv in lat. Frage  und 
Relativstzen (na revista alem Glotta, 1939, XXVII, 3-4, p. 261-70) e no livro do mesmo autor Syntaktische Forschungen, 259 e ss., onde se encontra extensa bibliografia.

Esta singular inexatido de expresso (para usar as palavras de Meyer-Lbke, Grammaire, III,  676), porque contraria o conceito de oraes desenvolvidas e reduzidas, se explica, 
para Epifnio Dias (Gramtica Portuguesa Elementar,  244 e Sintaxe Histrica,  274, a, Obs. 2 e 307), por uma elipse de poder, dever ou haver, no presente ou pret. imperfeito: 
No h um momento que (possamos) perder. No sabia que (havia de) fazer.

No nos foi possvel fixar a opinio definitiva de Mrio Barreto, pois que, atravs de sua extensa obra, encontramos as duas explicaes. Nos ltimos Estudos, pp. 277-279, 
em artigo de 1929, pensa como Epifnio Dias e lhe cita a Gramtica Portuguesa Elementar. Na 2 edio dos Novssimos Estudos, p. 132, nota, anterior, portanto ao artigo antes 
citado, contraria a Epifnio Dias, visivelmente influenciado que estava pelo  133, b) dos excelentes lements de Linguistique Romane, de E. Bourciez, embora no lhe faa 
referncia, e nos d uma lio digna de repetida:

Quando se trata de interrogao indireta, feita por meio de um pronome ou de um advrbio interrogativo, o emprego do infinitivo na frase subordinada (com condio que o sujeito 
dela seja o mesmo que o da principal)  efeito de um cruzamento sinttico. Uma frase como nescio quid dicam, aproximada no nosso esprito de nescio dicere, d lugar a nescio 
quid dicere no latim falado. Contaminam-se duas construes: No sabe que diga + no sabe dizer nada = no sabe que dizer. Idntica combinao ou fuso de duas frases sinnimas 
de estrutura normal acharemos em: No sei como diga isso + no sei dizer isso = no sei como dizer.  Buscou aquele lugar onde fizesse penitncia + buscou aquele lugar para 
fazer penitncia = buscou aquele lugar onde fazer penitncia.  Eis aqui trs exemplos da construo com infinitivo, construo que, neste caso, o latim clssico no admitia, 
mas sim a do verbo finito em subjuntivo, a qual tambm admite o idioma portugus: Dinheiro no acitavam de esmola, porque no achavam que comprar com ele (Sousa, Anais de 
El-rei D. Joo Terceiro, publicados por A. Herculano, Lisboa, 1844, p. 44); No sei que fazer ao teu corao (Camilo, Memrias de Guilherme do Amaral, 3 ed., p. 171): No 
sabia escrever, no tinha ningum a quem pedir a esmola de uma carta (Id., Maria Moiss, 1 parte, p. 40, ed. de 1876). Mas isto faz-se quando o agente da orao subordinante 
 o mesmo que o da proposio subordinada. Quando cada uma tem o seu nominativo, no tem cabimento usar o infinitivo.  Indaga-me tu que poder ela ter.  Pergunta-lhe que 
tem.  No sei que notou. No  aceitvel a explicao que do infinitivo do alguns autores (e entre eles o ilustre fillogo Sr. Epifnio Dias na sua excelente Gramtica Portuguesa 
Elementar,  244), supondo a elipse dos verbos poder, dever no presente ou pretrito imperfeito do conjuntivo. Figure-se este exemplo: No lhe ocorreu que poder replicar-me. 
No  possvel subentender-se o mesmo verbo num modo pessoal. O mesmo se dir destoutro exemplo, s com diferena que em vez da frase interrogativa se trata da relativa: No 
tinha o governador baixelas, nem diamantes, de que poder valer-se; assim recorreu a outros penhores, a que a fidelidade deu valia, a Natureza no (Jacinto Freire, Vida de 
D. Joo de Castro, liv. III, nmero 29). Antes de pr fim a esta nota, lembra-nos a seguinte passagem do livro divino de Frei Lus de Sousa, na qual se emprega em oraes 
relativas o infinitivo como equivalente do subjuntivo latino: Estava o arcebispo s, no tinha homem de quem se valer; lanou os olhos pela casa, no viu coisa que dar, e 
viu-se obrigado a acudir(Vida de D. Fr. Bartolomeu dos Mrtires, liv. I, cap. 21).

143 Cf. [ALb.1, 9-10 e 98 e ss.], donde extramos os exemplos.

144 Cf. [SA.5, 194-196]. Para o latim [DN.1, 48].

145 Julgamos injusta a condenao de Mrio Barreto [MBa.4, 51 da 3 ed.]:

 um dos instintos mais naturais do nosso falar: mas, em muitos textos escritos, uma preocupao pedantesca das mais descabidas pe de novo o pronome:  um indcio singular 
de deformao artificial. Nos ltimos Estudos se mostra menos rigoroso: Os verbos reflexivos no infinitivo depois dos verbos fazer, deixar, ouvir, ver, perdem em geral o 
seu pronome complemento [MBa.2, 206].

146 Tem-se dito que Epifnio Dias (Sintaxe Histrica,  347, 6, Obs. 1) admite a construo censurada pelos gramticos (veja-se entre outros, A. C. Pires de Lima na sua resenha 
in Revista Lusitana, XXX, p. 205, n 4): mas a redao do ilustre sintaticista no nos autoriza a pensar assim. Tratando dos verbos que pedem orao objetiva direta, diz em 
observao: Alguns dos verbos de que trata este  tambm tm outra sintaxe. v. g.: 1) pedir tambm se constri intransitivamente seguido de para que, ou para (com infinitivo). 
E acrescenta: Tambm em latim a orao de ut que se junta ao verbo peto  originariamente uma orao final. Pondo de lado a argumentao do latim, creio no encontrarmos 
fundamento de que a construo censurada tenha o beneplcito de Epifnio. Aquele intransitivamente nos leva a interpretar assim a lio (note-se que, na nomenclatura gramatical 
do sintaticista portugus, Intransitivo  o verbo que no pede complemento ou que pede complemento indireto): Epifnio defendia o emprego do verbo pedir sem o objeto direto 
licena, modo de dizer que Cndido de Figueiredo e outros tinham por errneo, conforme se v da defesa de Rui Barbosa, Rplica, 136 da 1. ed. nota 3 do n. 95.

Somos de opinio que no caso do verbo pedir houve contgio da noo de objeto direto com a de adverbial de fim, que a expresso lingustica traduz por formas condensadas, 
dando ocasio, muitas vezes, ao aparecimento da preposio como posvrbio (cf. o captulo dos complementos verbais). Tais formas condensadas so frequentes: atirar o livro 
e atirar com o livro (condensao da noo de objeto direto com a de adverbial de instrumento), olhar os campos e olhar para os campos (do objeto direto e adjunto adverbial 
de direo, de lugar), puxar a espada e puxar da espada (do objeto direto e adjunto adverbial de lugar donde, origem), pegar a pena e pegar na pena (do objeto direto e do 
adjunto adverbial de lugar), etc., onde o pensamento no considera apenas o objeto, mas encarece uma circunstncia concomitante na realizao do processo indicado pelo verbo.

Entretanto, Carlos Gis, pensando que o para rege a orao objetiva direta, explica o fato por cruzamento sinttico: Do cruzamento da primeira forma (com o objeto direto 
expresso: um soldado pediu-lhe licena para sair) com a segunda (com o objeto direto indeterminado: um soldado pediu-lhe para sair) resultou uma terceira  a do verbo pedir 
seguida da preposio para regendo esta, no mais o adjunto adverbial de fim (note-se bem), mas o prprio objeto direto! (Sintaxe de Regncia, 124).

147 Por isso  injusta a crtica feita por A. Feliciano de Castilho  e a crtica foi acolhida pelo nosso ilustre gramtico. E. Carlos Pereira (Gramtica Expositiva,  496 
in Galicismos Fraseolgicos) ao seguinte trecho do Padre Bernardes (e note-se que est com a respectiva vrgula!): Nos casos chamados nas escolas absolutos ou ablativos absolutos 
dos romanos, antepe (Bernardes) alguma vez o substantivo ao adjetivo, o que mais soa a francs que a portugus genuno, e se deve evitar com grande escrpulo: Frei Domingos, 
vindo de Tortosa para Valena, com outros companheiros, que tinham ido tomar ordens, se lhe ajuntou ao caminho um moo mui confiado, etc. Havia de dizer: Vindo Frei Domingos, 
etc.(Livraria Clssica, Padre Manuel Bernardes, II, 304-5). Pondo de lado a lio de gramtica de um amador, ainda que ilustre, adiantamos que o pretenso erro no  de Bernardes, 
mas do crtico, uma vez que se l o seguinte na Nova Floresta: Vindo o servo de Deus de tortosa para Valena... (III, 492).

148 Sem razo, Leite de Vasconcelos (Lies de Filologia, 382) condena como galicismo, a palavra passagem, no sentido aqui empregado, mandando substitu-la por passo. Os melhores 
escritores da lngua usam passagem nesta acepo, e o clssico Dicionrio de Morais (1813) a registra sem nenhuma crtica.

149 Assim escreveu Alexandre Herculano e no como aparece na edio moderna da Antologia Nacional de Fausto Barreto e Carlos de Laet (p. 196): antes de o caso suceder. Com 
a responsabilidade dos antigos editores da A. Nacional corria a combinao tida por correta. Alis, Laet praticava a combinao: Entre as duas opinies antinmicas e inconciliveis 
do Joo Fernandes, esta do cara ser extico (...) e aquela de ser indgena (...) (Obras Seletas, II, 261).

150 Para maiores exemplos, veja-se o prestimoso livro do Padre Pedro Adrio, Tradies Clssicas da Lngua Portuguesa,  691, p. 259).

151 Tal preceito gramatical se torna ainda mais difcil de se conciliar com a prtica, quando se est diante de construes como: O fato  devido AO (por a o) avio se ter 
atrasado (ou, noutra ordem:  devido a se ter o avio atrasado); PRO menino (por para o menino) ver. Sentimos discordar da lio de Rebelo Gonalves no seu Tratado de Ortografia 
(p. 286, Obs. 2.) cujos exemplos no vo em sua defesa. Cf. Diez, Grammaire, III, 425 e Meyer-Lbke, Grammaire, III,  744).

152 Cf. ainda do mesmo autor Dificuldades da Lngua Portuguesa, 30-1, e Solidnio Leite, Clssicos Esquecidos, 211 e ss. Tambm consideram arcaica a combinao Epifnio Dias 
1933: 457, Obs. 3 e Cludio Brando 1963: 354.

153 Comenta com razo Sousa da Silveira (Trechos Seletos, 251 da 4.a ed.): O possesivo no plural, determinando dois substantivos do singular, e evitando assim o impreciso 
de o nosso Baslio e Duro e o pesado de o nosso Baslio e nosso Duro. Cf.: Os mesmos Pitt e Napoleo, apesar de precoces, no foram tudo aos vinte e um anos (M. de 
Assis, Papis Avulsos, 88).

154 Est correto neste caso tambm o emprego da concordncia com a forma gramatical da palavra determinada: Com estes leitores assim previstos, o mais acertado e modesto 
 a gente ser sincera [CBr. apud MBa.2, 411].

155 Pode ocorrer a aparente discordncia entre um nome e um pronome: Lus escreveu uma ode admirvel como sabia escrev-las (Joo Ribeiro).

156 O mesmo Camilo reprovou a um amigo tal prtica de linguagem: Se fizeres terceira edio deves purific-la das palavras mesmo como advrbio, posto que tenhas um exemplo 
em Cames e outros em D. Francisco Manuel de Melo [CBr.3, II, 167].

157 D-se ao fenmeno o nome de contaminao ou cruzamento sinttico. Cf. Contaminao sinttica.

158 Elemento decisivo aqui  o ritmo com que se profere a orao, que determina a concordncia com o sujeito ou com o predicativo. So oportunas as consideraes de Rodrigues 
Lapa neste sentido, na sua Estilstica.

159 Sobre esta ltima possibilidade comenta Said Ali: A fora de combater-se uma concordncia que no  mais do que o corolrio de um fenmeno de sintaxe histrica portuguesa 
fundada em sintaxe latina, tem desaparecido da linguagem literria o emprego de quem com verbo em 1.a e 2.a pessoa, vigorando todavia a antiga concordncia desde que se empregue 
que em lugar de quem (op. laud.).

160 Pode dar-se a omisso de um: Foi dos ltimos que usaram presilhas, rodaque e gravata de moda (M. de Assis, D. Casmurro).

161 A presente lista no dispensa a consulta ao dicionrio, o de regncia, uma vez que o emprego do verbo como transitivo (com ou sem preposio) ou intransitivo depende de 
sua significao.

Quando ao verbo se segue um travesso (), isto significa que ele pode ser tambm usado transitivamente. Por exemplo: atender a: atender o cliente, o cliente foi atendido, 
atend-lo, atender ao cliente. Umas vezes a variedade no implica mudana de significado; outras vezes sim. Da a necessidade de consulta aos dicionrios para se ter uma lio 
mais completa e adequada. O principal objetivo da relao  oferecer ao leitor a preposio que acompanha o verbo, quer no complemento quer no adjunto adverbial.

162 No sentido de mandar vir  transitivo direto; no de dar nome  transitivo indireto. J  muito corrente no Brasil a construo chamar de com obj. dir., contaminada de 
outras, como acusar, arguir de [AN.1, 38].

163 Usa-se tambm transitivo em Portugal, com o sentido de namorar, tratar intimamente.

164 Ou cumprir simplesmente.

165 Sem a preposio exprime obrigao; com de, probabilidade. Ex: Voc deve ter capricho. Ela deve de ter quinze anos.

166 No significado de resultar  transitivo direto: Isto implica erro.

167 No significado de produzir, acarretar  transitivo direto.

168 Morador na rua tal, no largo tal (e no  rua tal).

169  coloquial o uso da preposio com, influenciado talvez pela regncia de casar.

170 No pode aceitar obj. direto de pessoa: Paguei o mdico, mas sim de coisa paga: Paguei a conta ao garo.

171  errneo o emprego do advrbio antes ou mais com este verbo porque a noo de preferncia ou excelncia j est contida no prefixo.  tambm errneo o uso da conjuno 
comparativa que (ou do que). Deve dizer-se prefiro isto quilo, prefiro o teatro ao cinema.

172 O uso de a  considerado errado com exagero, por francesismo.

173 No sentido de estimar, querer bem.

174 Sito na rua tal, no largo tal e no  rua.

175 Seleo de fatos apresentados por F. J. Martins Sequeira em Rol de Estrangeirismos.

III  Pontuao

III  Pontuao

Os diversos tipos de sinais de pontuao

Os diversos tipos de sinais de pontuao  Com Nina Catach, entendemos por pontuao um sistema de reforo da escrita, constitudo de sinais sintticos, destinados a organizar 
as relaes e a proporo das partes do discurso e das pausas orais e escritas. Estes sinais tambm participam de todas as funes da sintaxe, gramaticais, entonacionais e 
semnticas [NC.1, 7].

Os sinais de pontuao datam de poca relativamente recente na histria da escrita, embora se possa afirmar uma continuidade de alguns sinais desde os gregos, latinos e alta 
Idade Mdia; constituem hoje pea fundamental da comunicao e se impem como objeto de estudo e aprendizado. Ao lado dos grafemas que vestem os fonemas, os morfemas e as 
unidades superiores, esses sinais extra-alfabticos, como assinala Catach, so essencialmente unidades sintticas, sinais de oraes e sinais de palavras, podendo comutar 
com tais unidades alfabticas, substitu-las e tomar de emprstimo seu valor. Assim, um apstrofo indica a supresso de um grafema, uma vrgula uma unidade de coordenao 
ou de subordinao. Na essncia, os sinais de pontuao constituem um tipo especial de grafemas.

Pode-se entender a pontuao de duas maneiras: numa acepo larga e noutra restrita. A primeira abarca no s os sinais de pontuao propriamente ditos, mas de realce e valorizao 
do texto: ttulos, rubricas, margens, escolha de espaos e de caracteres e, indo mais alm, a disposio dos captulos e o modo de confeco do livro.

Segundo a concepo restrita, a pontuao  constituda por uns tantos sinais grficos assim distribudos: os essencialmente separadores (vrgula [ , ], ponto e vrgula [ 
; ], ponto final [ . ], ponto de exclamao [ ! ], reticncias [ ... ]), e os sinais de comunicao ou mensagem (dois pontos [ : ], aspas simples [ ], aspas duplas [  
 ], o travesso simples [  ], o travesso duplo [  ], os parnteses [ ( ) ], os colchetes ou parnteses retos [ [ ] ], a chave aberta [ { ], a chave fechada [ } ]. Alguns 
destes dois tipos de sinais admitem ainda uma subdiviso em sinais de pausa conclusa (fundamentalmente o ponto, e depois ponto e vrgula, o ponto de interrogao, o ponto 
de exclamao, as reticncias, quando em funo conclusa) e de pausa inconclusa (fundamentalmente pela vrgula, mas tambm por dois pontos, parnteses, travesso, colchetes, 
quando em funo inconclusa, i. , quando as oraes esto articuladas entre si).

A primeira palavra depois de um sinal de pausa conclusa  escrita com letra inicial maiscula; se a orao seguinte constitui novo conjunto de ideias, ou mudana de interlocutor 
de dilogo, ser escrito na outra linha e ter o seu final marcado pelo ponto pargrafo.

Estes sinais no se aplicam igualmente a todas as atividades lingusticas, razo por que podem ser distribudos em trs domnios de funo da pontuao:

a) a pontuao de palavras (espaos em branco; maisculas iniciais; ponto abreviativo; trao de unio, hfen ou trao de separao; apstrofo; sublinhado; itlico).

b) a pontuao sinttica e comunicativa (a pontuao propriamente dita e objeto deste captulo).

c) a pontuao do texto.

Os dois primeiros, assinala ainda Catach, tm uma srie de caractersticas que os distinguem do terceiro tipo: so interiores ao texto, aparecem de maneira linear, so comuns 
ao manuscrito e ao texto impresso e, em princpio, fazem parte da mensagem lingustica. Apesar de poderem sofrer interferncia de outra pessoa,  bem provvel que pertenam 
 iniciativa e deciso do autor no seu desejo de levar ao texto algo mais de expressividade, de contorno meldico, rtmico e entonacional, alm das palavras e construes 
utilizadas. Todavia, h de se levar em conta que os editores e preparadores de textos antigos (quando nem sempre se pode pensar em critrios inexistentes ou caticos) a modernos 
tm muito interferido na pontuao original do autor de tal maneira, que  muito precria a certeza de que os sinais  e principalmente a falta deles  revelem as funes 
sintticas, comunicativas expressivas que o escritor pretendera passar s palavras e oraes empregadas no texto.

Ao contrrio, no que toca ao terceiro tipo de pontuao, dela participam todos os que exercem atividade nesse mbito, com funes especficas: calgrafos, secretrios, tipgrafos, 
digitadores, revisores, editores.

Levando em conta tais distines, podemos definir o conjunto dos dois primeiros tipos de pontuao que constituem essencialmente o objeto deste captulo, como o fez Catach:

Conjunto de sinais visuais de organizao e apresentao que acompanham o texto, interiores ao texto e comuns tanto ao manuscrito quanto ao impresso; abrange a pontuao 
vrias classes de sinais grficos discretos e constitutivos de um sistema, complementando ou suplementando a informao escrita.

J o terceiro tipo  assim definido pela mesma autora:

Conjunto de tcnicas visuais de organizao e de apresentao do objeto livro, que vo do espao entre palavras aos espaos de pginas, passando por todos os procedimentos 
interiores e exteriores ao texto, com vista ao seu arranjo e sua valorao.

A pontuao e o entendimento do texto

A pontuao e o entendimento do texto  O enunciado no se constri com um amontoado de palavras e oraes. Elas se organizam segundo princpios gerais de dependncia e independncia 
sinttica e semntica, recobertos por unidades meldicas e rtmicas que sedimentam estes princpios. Proferidas as palavras e oraes sem tais aspectos meldicos e rtmicos, 
o enunciado estaria prejudicado na sua funo comunicativa. Os sinais de pontuao, que j vm sendo empregados desde muito tempo, procuram garantir no texto escrito esta 
solidariedade sinttica e semntica. Por isso, uma pontuao errnea produz efeitos to desastrosos  comunicao quanto o desconhecimento dessa solidariedade a que nos referimos.

Vrias situaes incmodas j foram criadas pelo mau emprego dos sinais de pontuao. Notem-se as diferenas entre as seguintes ordens de comando:

No podem atirar!

No, podem atirar!

H numerosos jogos, bem mais divertidos e inocentes do que as situaes de ordem anterior, cuja integridade comunicativa depende do bem emprego desses sinais.

Vejamos um exemplo:

Levar uma pedra para Europa uma andorinha no faz vero.

Ou

Um fazendeiro tinha um bezerro e a me do fazendeiro era tambm o pai do bezerro.

Para integridade da mensagem, basta colocar vrgula ou ponto e vrgula depois de me, no ltimo exemplo. No primeiro, basta uma vrgula depois de faz, sendo vero a forma 
de futuro do verbo ver.

Ponto  O ponto simples final, que  dos sinais o que denota maior pausa, serve para encerrar perodos que terminem por qualquer tipo de orao que no seja a interrogativa 
direta, a exclamativa e as reticncias.

 empregado ainda, sem ter relao com a pausa oracional, para acompanhar muitas palavras abreviadas: p., 2.a, etc.

Quando o perodo, orao ou frase termina por abreviatura, no se coloca o ponto final adiante do ponto abreviativo, pois este, quando coincide com aquele, tem dupla serventia. 
Ex.: O ponto abreviativo pe-se depois das palavras indicadas abreviadamente por suas iniciais ou por algumas das letras com que se representam, v.g.; V. S. ; Il.mo ; Ex. 
; etc. (Dr. Ernesto Carneiro Ribeiro)

Com frequncia, aproxima-se das funes do ponto e vrgula e do travesso, que s vezes aparecem em seu lugar.

Ponto pargrafo  Um grupo de perodos cujas oraes se prendem pelo mesmo centro de interesse  separado por ponto. Quando se passa de um para outro centro de interesse, 
impe-se-nos o emprego do ponto pargrafo iniciando-se a escrever, na outra linha, com a mesma distncia da margem com que comeamos o escrito.

Na linguagem oficial dos artigos de lei, o pargrafo  indicado por um sinal especial (  ).

Ponto de interrogao  Pe-se no fim da orao enunciada com entonao interrogativa ou de incerteza, real ou fingida, tambm chamada retrica.

Enquanto a interrogao conclusa de final de enunciado requer maiscula inicial da palavra seguinte, a interrogao interna, quase sempre fictcia, no exige essa inicial 
maiscula da palavra seguinte:

Pensas que eu e meus avs ganhamos o dinheiro em casas de jogos ou a vadiar pelas ruas? Pelintra! [MA.1, 72].

 Nhonh, diga a estes senhores como  que se chama seu padrinho?

 Meu padrinho?  o Excelentssimo Senhor coronel Paulo Vaz Lobo Cesar de Andrade e Sousa Rodrigues de Matos [MA.1, 32].

O ponto de interrogao,  semelhana dos outros sinais, no pede que a orao termine por ponto final, exceto, naturalmente, se for interna.

 Esqueceu alguma cousa? perguntou Marcela de p, no patamar [MA.1, 50].

A interrogao indireta, no sendo enunciada em entonao especial, dispensa ponto de interrogao. O nosso sistema grfico no distingue o ponto de interrogao da pergunta 
de sim ou no da pergunta total.

No dilogo pode aparecer sozinho ou acompanhado do de exclamao para indicar o estado de dvida do personagem diante do fato:

 Esteve c o homem da casa e disse que do prximo ms em diante so mais cinquenta...

 ? !... [ML.1, 226].176

Ponto de exclamao  Pe-se no fim da orao enunciada com entonao exclamativa:

Que gentil que estava a espanhola! [MA.1, 50].

Mas, na morte, que diferena! Que liberdade! [MA.1, 81].

Pe-se o ponto de exclamao depois de uma interjeio:

Ol! exclamei. [MA.1, 74].

Ah! brejeiro! [MA.1, 93].

Aplicam-se ao ponto de exclamao as mesmas observaes feitas ao ponto de interrogao, no que se refere ao emprego do ponto final e ao uso da maiscula ou minscula inicial 
da palavra seguinte.

H escritores que denotam a gradao da surpresa atravs da narrao com aumento progressivo do ponto de exclamao ou de interrogao:

E ser assim at que um senhor Darwin surja e prove a verdadeira origem do Homo sapiens...

 ? !

 Sim. Eles nomear-se-o Homo sapiens apesar do teu sorriso, Gabriel, e ter-se-o como feitos por mim de um barro especial e  minha imagem e semelhana.

 ? ! ! [ML.1, 204].

Reticncias  Denotam interrupo ou incompletude do pensamento (ou porque se quer deixar em suspenso, ou porque os fatos se do com breve espao de tempo intervalar, ou porque 
o nosso interlocutor nos toma a palavra), ou hesitao em enunci-lo:

Ao proferir estas palavras havia um tremor de alegria na voz de Marcela: e no rosto como que se lhe espraiou uma onda de ventura... [MA.1, 121].

No imagina o que ela  l em casa: fala na senhora a todos os instantes, e aqui aparece uma pamonha. Ainda ontem... Digo, Maricota? [MA.1, 120].

 Moro na rua...

 No quero saber onde mora, atalhou Quincas Borba [MA.1, 169].

Postas no fim do enunciado, as reticncias dispensam o ponto final, como se pode ver nos exemplos acima.

Se as reticncias servem para indicar uma enumerao inconclusa, podem ser substitudas por etc.

Na transcrio de um dilogo, as reticncias indicam a no resposta do interlocutor.

Numa citao, as reticncias podem ser colocadas no incio, no meio o no fim, para indicar supresso no texto transcrito, em cada uma dessas partes. Quando h supresso de 
um trecho de certa extenso, costuma-se usar uma linha pontilhada. Depois de um ponto de interrogao ou exclamao podem aparecer as reticncias.

Vrgula  Emprega-se a vrgula:

a) para separar termos coordenados, ainda quando ligados por conjuno (no caso de haver pausa).

Sim, eu era esse garo bonito, airoso, abastado [MA.1, 48].

 Ah! brejeiro! Contanto que no te deixes ficar a intil, obscuro, e triste [MA.1, 93].

Observao: Na srie de sujeitos seguidos imediatamente de verbo, o ltimo sujeito da srie no  separado do verbo por vrgula:

Carlos Gomes, Vtor Meireles, Pedro Amrico, Jos de Alencar tinham-nas comeado [CL.1, I, 102].

b) para separar oraes coordenadas aditivas ainda que sejam iniciadas pela conjuno e, proferidas com pausa.

Gostava muito das nossas antigas dobras de ouro, e eu levava-lhe quanta podia obter [CL.1, I, 53].

No fim da meia hora, ningum diria que ele no era o mais afortunado dos homens; conversava, chasqueava, e ria, e riam todos [CL.1, I, 163].

c) para separar oraes coordenadas alternativas (ou, quer, etc), quando proferidas com pausa:

Ele sair daqui logo, ou eu me desligarei do grupo.

Observao: Vigora esta norma quando ou exprimir retificao:

Teve duas fases a nossa paixo, ou ligao, ou qualquer outro nome, que eu de nome no curo [MA.1, 52].

Se denota equivalncia, no se separa por vrgula o ou posto entre dois termos: Solteiro ou solitrio se prende ao mesmo termo latino.

d) nas aposies, exceto no especificativo:

ora enfim de uma casa que ele meditava construir, para residncia prpria, casa de feitio moderno... [MA.1, 238].

e) para separar, em geral, os pleonasmos, e as repeties (quando no tm efeito superlativamente).

Nunca, nunca, meu amor! [MA.1, 55].

A casa  linda, linda.

f) para separar ou intercalar vocativos; nas cartas a pontuao  vria (em geral, vrgula), e na redao oficial usam-se dois pontos.

g) para separar as oraes adjetivas de valor explicativo:

perguntava a mim mesmo por que no seria melhor deputado e melhor marqus do que o lobo Neves,  eu, que valia mais, muito mais do que ele,  ... [MA.1, 137].

h) para separar, quase sempre, as oraes adjetivas restritivas de certa extenso, principalmente quando os verbos de duas oraes diferentes se juntam:

No meio da confuso que produzira por toda a parte este acontecimento inesperado e cujo motivo e circunstncias inteiramente se ignoravam, ningum reparou nos dois cavaleiros... 
[AH.1, 210].

Observao: Esta pontuao pode ocorrer ainda que separe por vrgula o sujeito expandido pela orao adjetiva:

Os que falam em matrias que no entendem, parecem fazer gala da sua prpria ignorncia [MM].

i) para separar as oraes intercaladas:

No lhe posso dizer com certeza, respondi eu [MA.1, 183].

j) para separar, em geral, adjuntos adverbiais que precedem o verbo e as oraes adverbiais que vm antes ou no meio da sua principal:

Eu mesmo, at ento, tinha-vos em m conta... [MA.1, 185].

mas, como as pestanas eram rtulas, o olhar continuava o seu ofcio... [MA.1, 183].

k) para separar, nas datas, o nome do lugar:

Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1961.

l) para separar as partculas e expresses de explicao, correo, continuao, concluso, concesso:

e, no obstante, havia certa lgica, certa deduo [MA.1, 89].

Sair amanh, alis, depois de amanh.

m) para separar as conjunes e advrbios adversativos (porm, todavia, contudo, entretanto), principalmente quando pospostos:

A proposta, porm, desdizia tanto das minhas sensaes ltimas...

[MA.1, 87].

n) para indicar, s vezes, a elipse do verbo:

Ele sai agora: eu, logo mais.

o) para assinalar a interrupo de um seguimento natural das ideias e se intercala um juzo de valor ou uma reflexo subsidiria.

p) para desfazer possvel m interpretao resultante da distribuio irregular dos termos da orao, separa-se por vrgula a expresso deslocada:

De todas as revolues, para o homem, a morte  a maior e a derradeira [MM].

Dois pontos  Usam-se dois pontos na:

1) enumerao, explicao, notcia subsidiria:177

Comprou dois presentes: um livro e uma caneta.

que (Viegas) padecia de um reumatismo teimoso, de uma asma no menos teimosa e de uma leso de corao: era um hospital concentrado

[MA.1, 184].

Queremos governos perfeitos com homens imperfeitos: disparate

[M. de Maric].

2) nas expresses que se seguem aos verbos dizer, retrucar, responder (e semelhantes) e que encerram a declarao textual, ou que assim julgamos, de outra pessoa:

No me quis dizer o que era: mas, como eu instasse muito:

 Creio que o Damio desconfia alguma coisa [MA.1, 174].

s vezes, para caracterizar textualmente o discurso do interlocutor, vem acompanhada de aspas a transcrio, e raras vezes de travesso:

Ao cabo de alguns anos de peregrinao, atendi s suplicas de meu pai:

 Vem, dizia ele na ltima carta; se no vieres depressa achars tua me morta! [MA.1, 75].

3) nas expresses que, enunciadas com entonao especial, sugerem, pelo contexto, causa, explicao ou consequncia:

Explico-me: o diploma era uma carta de alforria [MA.1, 71].

4) nas expresses que apresentam uma quebra da sequncia das ideias:

Sacudiu o vestido, ainda molhado, e caminhou.

No! bradei eu; no hs de entrar... no quero... Ia a lanar-lhe as mos: era tarde; ela entrara e fechara-se [MA.1, 59].

Ponto e vrgula  Representa uma pausa mais forte que a vrgula e menos que o ponto, e  empregado:

a) num trecho longo, onde j existam vrgulas, para enunciar pausa mais forte:

Enfim, cheguei-me a Virglia, que estava sentada, e travei-lhe da mo; D. Plcida foi  janela [MA.1, 211].

b) separa as adversativas em que se quer ressaltar o contraste:

No se disse mais nada; mas de noite Lobo Neves insistiu no projeto [MA.1, 210].

c) na redao oficial separa os diversos itens de um considerando, lei ou outro documento.

Travesso  No confundir o travesso com o trao de unio ou hfen e com o trao de diviso empregado na partio de slabas (ab-so-lu-ta-men-te) e de palavras no fim de 
linha. O travesso pode substituir vrgulas, parnteses, colchetes, para assinalar uma expresso intercalada:

... e eu falava-lhe de mil cousas diferentes  do ltimo baile, da discusso das cmaras, berlindas e cavalos, de tudo, menos dos seus versos ou prosas [MA.1, 138-9].

Usa-se simples se a intercalao termina o texto; em caso contrrio, usa-se o travesso duplo:

Duas, trs vezes por semana, havia de lhe deixar na algibeira das calas  uma largas calas de enfiar , ou na gaveta da mesa, ou ao p do tinteiro, uma barata morta [MA.1, 
46].

Observao: Como se v pelo exemplo, pode haver vrgula depois de travesso.

Pode denotar uma pausa mais forte:

... e se estabelece uma cousa que poderemos chamar  solidariedade do aborrecimento humano [MA.1, 126].

Pode indicar ainda a mudana de interlocutor, na transcrio de um dilogo, com ou sem aspas:

 Ah! respirou Lobo Neves, sentando-se preguiosamente no sof.

 Cansado? perguntei eu.

 Muito; aturei duas maadas de primeira ordem (...) [MA.1, 177].

Neste caso, pode, ou no, combinar-se com as aspas.

Parnteses e colchetes  Os parnteses assinalam um isolamento sinttico e semntico mais completo dentro do enunciado, alm de estabelecer maior intimidade entre o autor 
e o seu leitor. Em geral, a insero do parntese  assinalada por uma entonao especial.

Quando uma pausa coincide com o incio da construo parenttica, o respectivo sinal de pontuao deve ficar depois dos parnteses, mas, estando a proposio ou a frase inteira 
encerrada pelos parnteses, dentro deles se pe a competente notao:

No, filhos meus (deixai-me experimentar, uma vez que seja, convosco, este suavssimo nome); no: o corao no  to frvolo, to exterior, to carnal, quanto se cuida 
[RB]

A imprensa (quem o contesta?)  o mais poderoso meio que se tem inventado para a divulgao do pensamento. (Carta inserta nos Anais da Biblioteca Nacional, vol. I) [Carlos 
de Laet]

Intimamente ligados aos parnteses pela sua funo discursiva, os colchetes so utilizados quando j se acham empregados os parnteses, para introduzirem uma nova insero.

Tambm se usam para preencher lacunas de textos ou ainda para introduzir, principalmente em citaes, adendos ou explicaes que facilitam o entendimento do texto. Nos dicionrios 
e gramticas, explicitam informaes como a ortopia, a prosdia etc., no que tambm podem ser usados os parnteses.

Aspas  De modo geral, usamos como aspas o sinal [   ]; mas pode haver, para empregos diferentes as aspas simples [   ], ou invertidas (simples ou duplas) [ ], [ ]. 
Nos trabalhos cientficos sobre lnguas, as aspas simples referem-se a significados ou sentidos: amare, lat.amar port. s vezes, usa-se nesta aplicao o sublinhado (cada 
vez menos frequente no texto impresso) ou o itlico. As aspas tambm so empregadas para dar a certa expresso sentido particular (na linguagem falada  em geral proferida 
com entoao especial) para ressaltar uma expresso dentro do contexto ou para apontar uma palavra como estrangeirismo ou gria:

Observao: Escrevendo, ressaltamos a expresso tambm com o sublinhado, o que, nos textos impressos, corresponde ao emprego de tipo diferente:

 Sim, mas percebo-o agora, porque s agora nos surgiu a ocasio de enriquecer. Foi uma sorte grande que Deus nos mandou.

 Deus...

 Deus, sim, e voc o ofendeu afastando-a com o p [ML.1, 223].

Voc j reparou Miloca, na ganja da Sinhazinha? Disse uma sirigaita de beleza na testa [ML.1, 102].

Quando uma pausa coincide com o final da expresso ou sentena que se acha entre aspas, coloca-se o competente sinal de pontuao depois delas, se encerram apenas uma parte 
da proposio; quando, porm, as aspas abrangem todo o perodo, sentena, frase ou expresso, a respectiva notao fica abrangida por elas:

A temos a lei, dizia o Florentino. Mas quem as h de segurar? Ningum. [RB]

Msera, tivesse eu aquela enorme, aquela
 Claridade imortal, que toda a luz resume!

Por que no nasce eu um simples vaga-lume? [MA]

Alnea  Tem a mesma funo do pargrafo, pois denota diversos centros de assuntos e, como este, exige mudana de linha. Geralmente vem indicada por nmero ou letra seguida 
de um trao curvo, semelhante ao que fecha parntese para assinalar subdiviso da matria tratada:

Os substantivos podem ser:

a) prprios

b) comuns

Chave  A chave [ { } ] tem aplicao maior em obras de carter cientfico, como pode exemplificar sua utilizao neste livro.

Apndice

Asterisco 178  O asterisco (*)  colocado depois e em cima de uma palavra do trecho para se fazer uma citao ou comentrio qualquer sobre o termo ou o que  tratado no trecho 
(neste caso o asterisco se pe no fim do perodo).

Nas obras sobre linguagem, o asterisco colocado antes e em cima da palavra o apresenta como forma reconstituda ou hipottica, isto , de provvel existncia mas at ento 
no documentada. Deve-se ao linguista alemo Augusto Schleicher (1821-1868) esta aplicao do sinal.

Emprega-se ainda um ou mais asteriscos depois de uma inicial para indicar uma pessoa cujo nome no se quer ou no se pode declinar: o Dr.*, B.**, L.***

176 Em portugus, em geral se despreza o cmodo expediente do espanhol de indicar a interrogao no incio da orao, com o sinal invertido: O Jos chegou? Alguns escritores 
nossos fizeram uso deste expediente.

177 A imprensa moderna usa e abusa dos dois pontos para resumir, s vezes numa sntese de pensamento difcil de ser acompanhada, certas notcias. Vero: cidade desprotegida 
das chuvas.

178 Costuma-se ouvir este vocbulo deturpado para asterstico. Asterisco quer dizer estrelinha, nome devido  sua forma.

IV  Noes elementares de Estilstica

IV  Noes elementares de Estilstica

Estilstica

Estilstica  A Estilstica  a parte dos estudos da linguagem que se preocupa com o estilo.

Que  estilo nesta conceituao

Que  estilo nesta conceituao  Entende-se por estilo o conjunto de processos que fazem da lngua representativa um meio de exteriorizao psquica e apelo.

O estilo, que  a soluo para se fazer a lngua da representao intelectiva servir s funes no intelectivas da manifestao psquica e do apelo,  naturalmente levado 
a deformar os fatos gramaticais quando por eles aquelas funes no poderiam figurar.179

Estilstica e Gramtica

Estilstica e Gramtica  A compreenso deste conceito de estilo se fundamenta na lio de Charles Bally, segundo a qual o que caracteriza o estilo no  a oposio entre 
o individual e o coletivo, mas o contraste entre o emocional e o intelectivo.  neste sentido que diferem Estilstica (que estuda a lngua afetiva) e Gramtica (que trabalha 
no campo da lngua intelectiva). Baralh-las, de modo que a Estilstica se dissolva na Gramtica,  pr em perigo duas importantes disciplinas por confundir os seus objetos 
de estudo.

Uma no  a negao da outra, nem uma tem por misso destruir o que a outra, com orientao cientfica, tem podido construir. Ambas se completam no estudo dos processos do 
material de que o gnero humano se utiliza na exteriorizao das ideias e sentimentos ou do contedo do pensamento designado.

Estilstica e a Retrica

Estilstica e a Retrica  Tem-se apresentado a Estilstica tambm como  a negao da antiga Retrica que predomina ainda na crtica tradicional do estilo com suas mltiplas 
indagaes literrias, histricas, sociais, filosficas e tantos outros domnios que na obra se espalham atravs do temperamento e atitude do escritor. Cabe aqui recordar 
as justas consideraes de Amado Alonso:180  ... a estilstica no pretende petulantemente declarar caduca a crtica tradicional; reconhece seu alto valor e aprende nela; 
sabe que na anlise de obras de arte nem tudo termina com o prazer esttico e que h valores culturais, sociais, ideolgicos, morais, enfim, valores histricos que no pode 
nem quer desprezar. E com a mesma se v o que pretende e o seu valor: completar os estudos da crtica tradicional fazendo agora entrar um aspecto que estava menosprezado. 
E no apenas mais um aspecto, seno o aspecto bsico e especfico da obra de arte, o que d valor a todos os outros. Por isso a estilstica, sobre estudar temas novos, continua 
estudando com igual amor todos os velhos, apenas o faz do seu ponto de vista. Por exemplo, sempre se estudaram as fontes de um autor ou de uma obra, ou  o que vale o mesmo 
 a origem das ideias dominantes em um perodo literrio. Porm realizou-se isso por interesse histrico, para fixar procedncias. Este  o ponto de chegada da crtica tradicional. 
Para a estilstica  o ponto de partida, e a si pergunta: que fez meu autor ou minha poca com estas fontes? Para usar a velha comparao: estudando o mel, a crtica tradicional 
estabelece em que flores e de que campos extraiu a abelha; a estilstica se pergunta: como resultou este produto heterogneo com todas as suas procedncias, qual  a alquimia, 
que originais e triunfantes intenes lhe insuflaram vida nova? Ou voltando  comparao da esttua: a crtica tradicional estuda as canteiras donde procede o mrmore; a estilstica, 
que  que o artista fez com ele.

Anlise literria e anlise estilstica

Anlise literria e anlise estilstica  Da lio de Amado Alonso se patenteia que no se h de confundir anlise literria com anlise estilstica, pois que, trabalhando 
num mesmo trecho, tem preocupaes diferentes e utilizam ferramentas tambm diversas. Em que pese  autoridade de nossos programas oficiais para ensino de Lngua Portuguesa, 
o que deve ser, primordialmente, objeto da tarefa do professor de lngua  a anlise estilstica (ainda que elementar, como reza a letra deste mesmo programa), e no a anlise 
literria, que  da alada do professor de Literatura. Ensinando-se a lngua portuguesa, nada mais natural do que, num texto literrio ou no, ressaltar o sistema expressivo 
e sua eficcia esttica no idioma ou nas particularidades idiomticas de um autor literrio ou de um simples falante. Para a estilstica, interessa tanto a depreenso dos 
traos estilsticos da lngua oral como da escrita, do falante comum e do literato. Com razo disse Vossler que na linguagem de um mendigo vagabundo h gotinhas estilsticas 
da mesma natureza que todo o mundo expressional de um Shakespeare.

Traos estilsticos

Traos estilsticos  O conjunto de particularidades do sistema expressivo para eficcia esttica recebe o nome de traos estilsticos. So numerosos os traos estilsticos 
 e h um avultado nmero deles cujo valor ainda est para ser analisado  em todos os compartimentos de um idioma.

Cabe-nos agora indagar quando uma particularidade lingustica se nos apresenta como trao estilstico. J sabemos  ensina-nos J. Mattoso Cmara Jr.181  que o trao estilstico 
no se trata de uma maneira de dizer necessariamente pessoal; nem pelo fato de ser pessoal se tem necessariamente um trao estilstico. Esta dupla considerao  to importante 
que ho de me relevar insistir um pouco mais. Para isso, peo desculpas de me citar a mim mesmo e me reportar a um pequeno artigo que publiquei h tempos na Revista do Livro 
sobre A Coroa do Rubio: diz-nos Machado de Assis, no Quincas Borba, que Rubio, demente, julgando-se imperador dos franceses no momento da agonia, cingiu a coroa, que 
no era sequer uma bacia, onde se pudesse palpar a iluso, ele pegou nada, ergueu nada e cingiu nada. O emprego de nada depois do verbo sem se completar com um no antes 
do verbo,  uma maneira anmala de expressar a negao verbal em portugus. E  um trao estilstico: no porque seja exclusivamente pessoal de Machado de Assis (quem nos 
garante que outrem j no tinha feito isto?  nem o escritor faz isto sistematicamente), mas porque nesse dado contexto o emprego de nada nessas condies tem um valor esttico, 
fazendo-nos ver dolorosamente o gesto do pobre louco, merc do tratamento de nada, no como mera partcula negativa, mas como um substantivo negativo  o oposto de alguma 
coisa: a emoo do escritor e o seu apelo  nossa simpatia se comunicam atravs desse emprego de nada, que , pois, um emprego estilstico. Ao contrrio, quando Jos de Alencar 
acentuava a preposio simples a, exibia um uso pessoal da lngua literria (que era um erro do ponto de vista de norma social vigente), mas no um trao estilstico, pois 
se circunscrevia ao domnio intelectivo (o escritor achava que assim devia escrever por um raciocnio gramatical em falso); seria, ao contrrio, um trao estilstico se uma 
ou outra vez, apenas, aparecesse em seus textos como recurso para insistir na preposio, dando-lhe uma tonicidade excepcional.

Da o erro dos que, pensando escrever bem, enxameiam suas pginas das chamadas figuras de linguagem (pleonasmos, hiprboles, anacolutos, metforas, etc.). Essas figuras no 
se impem  outrance s circunstncias; estas  que favorecem o aparecimento daquelas para fins estticos. Ter falhado na pesquisa estilstica quem se contentar em dizer 
que h anacoluto no derradeiro terceto desta conhecida joia de Machado de Assis, que  o soneto  Carolina:

que eu, se tenho nos olhos malferidos
 pensamentos de vida formulados,
 so pensamentos idos e vividos.

O anacoluto ultrapassa os limites de uma simples figura, para ser um eficaz recurso esttico que pe diante de nossos olhos a profunda dor do esposo que, pensando na companheira 
que se foi, no tem a paz interior necessria para estruturar racionalmente, intelectivamente, todo o tumulto de ideias que lhe vai nalma.

Em suma, a Estilstica  o passo mais decisivo, no estudo de uma lngua, para a educao do sentimento esttico e manifestao da competncia expressiva.

Trao estilstico e erro gramatical

Trao estilstico e erro gramatical  No se h de entender que o estilo seja sempre uma deformao da norma lingustica. Isto nos leva  distino entre trao estilstico 
e erro gramatical.

O trao estilstico pode ser um desvio ocasional de norma gramatical vigente, mas se impe pela sua inteno esttico-expressiva.

O erro gramatical  o desvio sem inteno esttica.

Campo da Estilstica

Campo da Estilstica  O estudo da Estilstica abarca, semelhante  Gramtica, todos os domnios do idioma. Lembremos a lio de Bally: Todos os fenmenos lingusticos, desde 
os sons at as combinaes sintticas mais complexas, podem revelar algum carter fundamental da lngua estudada. Todos os fatos lingusticos, sejam quais forem, podem manifestar 
alguma parcela da ida do esprito e algum movimento da sensibilidade. A estilstica no  o estudo de uma parte da linguagem, mas o  da linguagem inteira, observada de um 
ngulo particular. Nunca pretendi (isto  para responder a umas crticas que me fizeram) que a linguagem afetiva existe independentemente da linguagem intelectual, nem que 
a estilstica deva estudar a primeira excluindo a segunda; o que faz  estud-las ambas em suas relaes recprocas, e examinar em que proporo se aliam para compor este 
ou aquele tipo de expresso.182

Teremos assim os seguintes campos da Estilstica:

A Estilstica Fnica procura indagar o emprego do valor expressivo dos sons: a harmonia imitativa, no amplo sentido do termo.  a fontica expressiva de que falamos na parte 
inicial deste livro.

A Estilstica Morfolgica sonda o uso expressivo das formas gramaticais. Entre os usos expressivos deste campo lembraremos:

1) o plural de convite: pe-se o verbo no plural como que se quisesse incentivar uma pessoa a praticar uma ao trabalhosa ou desagradvel.  o caso da me que diz  filhinha 
que insiste em no tomar o remdio:

Olha, filhinha, vamos tomar o remedinho.

2) o plural de modstia: o autor, falando de si mesmo, poder dizer:

Ns, ao escrevermos este livro, tivemos em mira dar novos horizontes ao ensino do idioma.

3) o emprego expressivo dos sufixos (mormente os de gradao):

paizinho, mezinha, poetastro, padreco, politicalha

4) o emprego de tempos e modos verbais, como, por exemplo:

a) o presente pelo futuro para indicar desejo firme, fato categrico:

Amanh eu vou ao cinema.

b) o imperfeito para traduzir pedido:

Eu queria um quilo de queijo (em vez do categrico e, s vezes, ameaador quero).

c) o presente pelo pretrito para emprestar  narrao o ar de novidade e poder comover o ouvinte:

A Csar invade a Glia.

5) a mudana de tratamento, de um perodo para outro, para indicar mudana da situao psicolgica entre falante e ouvinte, ou entre escritor e leitor. No soneto ltima Folha, 
Casimiro de Abreu chama a Deus por Meu Pai e ora o trata por tu, ora por vs.  que em Meu Pai o poeta v Deus como seu ntimo, ligado a ele to intimamente que lhe cabe o 
tratamento tu. Mas ao poeta Deus se apresentava tambm como o criador de todas as coisas, o poder supremo a quem s podia caber a frmula respeitosa e cerimoniosa assumida 
por vs.

A Estilstica Sinttica procura explicar o valor expressivo das construes:

1) na regncia, como, por exemplo, o emprego do posvrbio;

2) na concordncia, como, por exemplo, na atrao, na silepse, no infinitivo flexionado para realce da pessoa sobre a ao mesma;

3) na colocao dos termos na orao, na colocao de pronomes, etc.

4) no emprego expressivo das chamadas figuras de sintaxe.

A Estilstica Semntica pesquisa:

1) a significao ocasional e expressiva de certas palavras:

Voc  um abacaxi.

Aquele aluno  um monstro.

Ele tem uns bons sessenta anos.

2) no emprego expressivo das chamadas figuras de palavras ou tropos (metfora, metonmia, etc.) e figuras de pensamento e sentimento (anttese, eufemismo, hiprbole, etc.).

Apndice

Apndice

Dois exemplos de anlise estilstica

dois exemplos de anlise estilstica

A ttulo de meras sugestes aos leitores ainda no familiarizados com as tcnicas da anlise estilstica, temos a satisfao de transcrever aqui dois excertos assinados, um 
por excelente mestre brasileiro, J. Mattoso Cmara Jr., e outro pelo no menos distinto estudioso portugus, Jacinto do Prado Coelho. Outras interessantes amostras pode o 
leitor curioso ver nos estudos de Augusto Meyer, Othon Moacyr Garcia e uma pliade de patrcios onde est indicada farta bibliografia especializada.

1) Um soneto de Antnio Nobre

1) Um soneto de Antnio Nobre

O comentrio de poemas ser ainda, em grande parte, criao, inventiva, uma srie de desdobramentos psicolgicos, evocaes, associaes de imagens, que mostram a personalidade 
do leitor a colaborar com simpatia na obra do comentrio. A viso de conjunto originria iluminar todo o comentrio. A linguagem ser encarada, segundo quer Spitzer, como 
florao da substncia espiritual do poema. A diviso metodolgica em comentrio ideolgico e comentrio de forma no me parece justa. O poema deve ser olhado como um todo. 
A considerao das formas lingusticas conduzir ao psicolgico, e acompanhar o comentrio da substncia do princpio ao fim. O que se pretende, em primeiro lugar,  que 
o eu do leitor comungue no eu do poeta (e Berdiaeff mostrou muito bem a impossibilidade desta comunicao por meios que no sejam de natureza afetiva; pensar  objetivar, 
 separar).  claro que sem objetivao no h crtica. Mas no comentrio de poemas a crtica aos pormenores deve incluir-se num estado de adeso que permanea durante o comentrio.

Tudo isto, eu sei,  muito difcil; nunca consegui realiz-lo satisfatoriamente. Dou, todavia, com exemplo, o comentrio dum soneto que tentei fazer segundo a orientao exposta. 
Comeo pela introduo  leitura:

Antnio Nobre, no s pela concepo que teve da poesia, como pela estranha riqueza da sua personalidade,  verdadeiramente um poeta moderno. Se ainda vivesse, teria setenta 
e cinco anos. Talvez a sua presena nos impedisse o convvio estreito com esse rapaz triste que escreveu o S, o livro mais triste que h em Portugal. A sua presena fsica 
torn-lo-ia, porventura, mais distante. Assim, porque morreu aos trinta e dois anos, ficou sempre rapaz na nossa lembrana, de olhos doces, plido, feies finas, embrulhado 
numa capa de estudante, absorto como  sina dos poetas.

Quando ouvimos o tom lastimoso da sua voz, quando o sentimos to perto, os nossos braos procuram estender-se atravs da bruma que separa as almas, para lhe darem finalmente, 
com piedade fraterna, o carinho que pediu sem receber. Continua vivo a nosso lado, continua conversando, obriga-nos, pelo tom das suas palavras, a ver o mundo como ele via, 
sentir como ele sentia.

Mas no era assim, pela vida subjetiva, que Nobre queria viver. Nobre foi um homem de desejo. Emigrou para um pas diferente, recolheu-se no sonho da infncia, chegou a bem-dizer 
a velha, a senhora Morte, apenas pela fora do seu destino.

Antnio Nobre queria viver a nossa vida, queria ser como os outros saudvel e contente. Ambicionava uma purinha de cabelo negro e boca vermelha. Confessou-nos o seu ideal 
de parisiense: casa defronte do mar, sardinha ao lume, economias no mealheiro, sendo possvel, e mulher e filhos. Nobre fora feito para este mundo, e s a doena o afastou 
dele. O seu desespero dissolveu-se numa resignao de menino suave e obediente, que se entretm com brinquedos de luxo. O seu brinquedo foi a arte. Mas no somente um brinquedo: 
um meio de confisso, de transmisso da sua humanidade confrangida. Por isso (pensando que ele queria viver, e que morreu to novo, to triste, to s) ouviremos sempre com 
piedade a voz do seu lamento, e choro de quem j no espera nada, nem mesmo o pio do regresso, pela memria, aos tempos de criana:

Tombou da haste a flor da minha infncia alada,

Murchou na jarra de oiro o pudico jasmim:

Voou aos altos cus a pomba enamorada

Que dantes estendia as asas sobre mim.

Julguei que fosse eterna a luz dessa alvorada,

E que era sempre dia, e nunca tinha fim

Essa viso de luar que vivia encantada

Num castelo ideal com torres de marfim!

Mas hoje as pombas de oiro, aves da minha infncia,

Que me enchiam de lua o corao, outrora,

Partiram e no cu evoam-se a distncia!

Debalde clamo e choro, erguendo aos cus meus ais:

Voltam na asa do vento os ais que a alma chora,

Elas, porm, Senhor! elas no voltam mais...

De leitura deste soneto fica-nos o travo da desiluso, a amargura de perder o que nunca mais se recupera. As metforas, cuja finura e cuja riqueza nos impressionam, vm transmitir 
uma viso encantada dos anos da meninice. Segundo o poeta, a infncia  alada, tem asas, talvez porque o pensamento infantil voa a cada instante para o reino da fantasia, 
talvez porque a criana  um anjo, pela sua pureza, ainda visvel da sua divisa.

Nobre escolheu uma flor, um pudico jasmim, para simbolizar essa candura perdida. O jasmim  branco, de perfume penetrante, mas suave. Tambm as crianas tm a graa, o perfume, 
a brancura da alma. O adjetivo pudico estabeleceu, no esprito do poeta, a ligao entre a flor e a criana: ambos possuem a pudiccia, a castidade, a inocncia.

Vejam em tudo isto a delicadeza da arte de Antnio Nobre. Ele ps de lado os processos declamatrios, a eloquncia romntica, os meios diretos e demasiado conhecidos. Para 
nos dizer que terminou o sonho da sua meninice, a alegria da viso imaculada, Nobre fala-nos da flor que tambm tombou da haste, do jasmim que murchou num vaso de oiro, da 
pomba enamorada que se sumiu no azul e nunca mais voltou (lembramos aqui as lindas asas brancas de Garrett, que ele batia para voar ao cu).

Todo o soneto  construdo sobre estas metforas brilhantes, desde as pombas de oiro s torres de marfim. Somos levados a aludir ao simbolismo de Antnio Nobre,  preferncia 
pela magia das insinuaes indiretas. Na verdade o simbolismo no passou, a princpio, duma reao contra o processo parnasiano de mostrar as coisas, francamente, inteiramente, 
dando-as pelo nome prprio, sem rodeio nem vu. Isso tirava ao leitor o prazer de participar na criao.

Nomear um objeto  escrevia Mallarm em 1891   suprimir trs quartos do gozo do poema, que consiste na delcia de adivinhar pouco a pouco; o sonho  sugerir o objeto. O 
uso perfeito deste mistrio constitui o smbolo: evocar lentamente um objeto para mostrar um estado de alma, ou, inversamente, escolher um objeto e tirar dele um estado de 
alma por uma srie de decifraes. Estas palavras de Mallarm (que foi o maior dos poetas simbolistas franceses) quadra  poesia de Antnio Nobre; notamos, porm, que, no 
soneto que hoje comentamos, no h imagens to ousadas ou alucinantes que revoltem o senso comum; pelo contrrio,  bem compreensvel que se represente a candura da infncia 
por uma flor branca, o mundo fantstico e hermtico das crianas por um castelo de marfim.

O que parece estranho  no ser uma dor humana, dilacerante como a de Antnio Nobre, transmitida sem rodeios, no seu mpeto de expanso, desalinhada e convulsiva. No h dvida 
de que Nobre foi sempre sincero. Desde pequeno, comeou a meditar na morte, porque a esperava. Os prenncios da tuberculose vieram pouco depois dos vinte anos. E ele, que 
j em criana pedia que, depois de morto, o embrulhassem num cobertor, porque tinha medo do frio do jazigo, depois comeou a ver em todas as coisas o riso macabro da morte:

Em tudo via a Velha, em tudo via a Morte;

Um bero que dormia era um caixo pra cova:

Via a Foice no Cu quando era Lua Nova...

Antnio Nobre foi, portanto, um poeta espontneo. Escreveu com o sangue das suas veias. Mas no foi apenas um homem que sofreu, porque fez dos pedaos da sua dor filigranas 
de beleza e harmonia. Ele prprio disse uma vez: A dor que dura sempre produz o prazer que no dura mais que um momento. Esse momento de que fala Nobre , sem dvida, o 
momento da criao potica, o momento da graa. O poeta deps no altar da Arte a sua humanidade passageira, que sangrava. Contempla-se na prpria imagem, acrianado e um pouco 
dndi, saboreando as palavras, procurando ritmos.

 notar como a palavra lua tem na sua poesia um halo especial de associaes de imagens. As palavras recebem das outras mais prximas uma incidncia de estmulos psicolgicos 
que muitas vezes transfiguram.

Por isso lua, nos versos de Nobre (...aves na minha infncia que me enchiam de lua o corao outrora) sugere-nos o mundo saudoso e feminino do poeta, com as graas plidas 
e os seus fantasmas adormecidos.

No ltimo terceto, Nobre lana uma queixa dolorida e todavia humilde e resignada:

Debalde clamo e choro, erguendo aos cus meu ais:

Voltam na asa do vento os ais que a alma chora.

Elas, porm, Senhor! elas no voltam mais...

Nobre no renega o Senhor, embora tenha clamado antes de chorar. A rapidez saltitante do segundo verso, composto por palavras todas muito curtas, parece trazer o eco dos ais 
do poeta, vindos nas asas do vento. Voltam os ais que redobram a sua dor, mas no voltam as pombas de oiro da sua infncia alada. O ltimo verso, mais de que a chave racional 
do soneto,  maneira clssica,  uma frase sentimental: a primeira parte, ascendente,  um grito de alma (elas, porm, Senhor!); a segunda parte, descendente,  um suspiro 
de aceitao (elas no voltam mais).

Antnio Nobre conformou-se, acabou por amar a sua cruz. Conseguiu tornar-se criana meiga e obediente, de olhos muito abertos, de sorriso to triste. O sorriso de quem fala 
de ir viajar, sequinho, para o sol-posto; o sorriso de quem pede que componham com jeito o travesseiro, de modo que lhe faa bom encosto no caixo:

De modo que me faa bom encosto,

O travesseiro compor com jeito,

E eu, to feliz! Por no estar afeito,

Talvez este sorriso derive duma atitude premeditada, um ltimo coquetismo de moribundo que compe o lenol, manda abrir a janela e diz qualquer coisa infantil para distrair 
os outros da sua desgraa. Talvez seja a ltima defesa de quem teve de entregar-se todo, esfarrapado e sangrando, aos olhos da multido compadecida.

Jacinto do Prado Coelho (A Educao
 do Sentimento Potico, pg. 65-71).

2) Um soneto de Machado de Assis:

2) Um soneto de Machado de Assis:

A Carolina

..O estilo tem um cunho nitidamente quinhentista.

Sugere-o a formulao global, lingustica e rtmica, e sublinham-no certos dados concretos, como, por exemplo, o qualificativo malferidos, aconselhado por Mrio Barreto 
justamente por se casar ao seu ideal de restaurao da linguagem clssica183, a j citada locuo de pensamentos idos e vividos, e a pobreza das rimas dos tercetos em -ados 
e -idos, onde se alinham fcil e espontneamente particpios da 1.a conjugao e da 2.a e 3.a:

Trago-te flores,  restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados

Que eu, se tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

So pensamentos idos e vividos.

O que, entretanto, mais a nos deve interessar  a forma interna, isto , o plano formal imanente no desdobramento das frases.

Para o soneto, a forma interna, assim concebida, se processa pela concatenao de ideias, ascendentes em amplitude e intensidade, at o coroamento de uma larga e culminante 
expresso final.  o que naturalmente estava prefigurando no microcosmo da copla esparsa, de que vimos provavelmente ter evoludo o soneto.

Em Bocage, esta estruturao chega muitas vezes ao uso de um nico perodo, que s na parte final apresenta as suas oraes capitais. Um bom exemplo  o soneto sobre a existncia 
de Deus184 onde vo-se anunciando os fatos da natureza comprobatrios, at se chegar  afirmao dessa existncia na base desses fatos 

tudo que h a confessar me obriga

 acrescentando-se o conceito de que tal existncia se impe  Razo, e no apenas  F, pela evidncia fsica e pela necessidade no plano moral, o que tinha de ser o capital 
argumento para o iluminismo oitocentista:

E para crer num brao autor de tudo,

Que recompensa os bons, que os maus castiga,

No s da F mas da Razo me ajudo.

Esse plano formal interno pode,  verdade, oferecer a variante do chamado soneto elisabetano (que praticou Shakespeare)185 onde a trs estrofes de quatro versos, independentes 
entre si quanto  rima, se adjunge um dstico final, que resume o pensamento anteriormente desenvolvido. Neste particular, Antnio Nobre nos ilustra uma forma interna de soneto 
elisabetano moldado na forma externa italiana, quando disjunge pela ideia os dois versos finais do ltimo terceto, neles resumindo todo o teor da poesia, cujo pensamento se 
conclura no dcimo segundo verso:

 virgem que passais ao sol poente,

Pelas estradas ermas a cantar,

Eu quero ouvir uma cano ardente

Que me transporte ao meu perdido lar.

Cantai-me nessa voz onipotente

O sol que venha aureolando o mar,

A fartura da seara reluzente,

O vinho, a graa, a formosura, o luar.

Cantai, cantai, as lmpidas cantigas

Do fundo do meu lar desaterrai

Todas aquelas iluses antigas,

Que eu vi morrer num sonho como um ai!...

 suaves e frescas raparigas,

Adormecei-me nessa voz... Cantai! 186

Voltando, entretanto, a A Carolina de Machado de Assis, examinemos-lhe a forma interna na base das consideraes acima feitas.

No temos a, em verdade, um desdobramento de ideias cada vez mais amplas e intensas at um clmax de versos finais.

O poeta combina pensamentos cognatos e paralelos: um nos quartetos, outro no primeiro terceto, enquanto um terceiro pensamento, que  a essncia do pequeno poema, se consubstancia 
finalmente no ltimo terceto.

Recitemos a produo, comparando-a com o esquema assim depreendido:

A) Visita  sepultura com as ideias que acompanham esse gesto de saudade e carinho: a evocao da felicidade e a afirmao de uma lembrana e um afeto que no mais se apaga 
ou sequer desfalece:

Querida, ao p do leito derradeiro

Em que descansas dessa longa vida,

Aqui venho e virei, pobre querida,

Trazer-te o corao de companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro

Que, a despeito de toda a humana lida,

Fez a nossa existncia apetecida

E num recanto ps o mundo inteiro.

B) Oferta de flores, como smbolo dessa saudade, que assim se concretiza num gesto ritual:

Trago-te flores, restos arrancados

Da terra que nos viu passar unidos

E ora mortos nos deixa e separados.

C) Finalmente, o conceito de que o poeta est morto para o mundo, e a sua vida fsica se prolonga automaticamente pelo impulso adquirido de uma fora vital que desapareceu:

Que, se eu tenho nos olhos malferidos

Pensamentos de vida formulados,

So pensamentos idos e vividos.

Mas no  tudo. No se resume nesta anlise o plano complexo do soneto.

O poeta articulou sutilmente a parte C com a parte B, tirando-a da expresso, aparentemente secundria, de que ele est to morto quanto a sua Carolina.

Digo aparentemente secundria, porque o termo est colocado em meio de frase e como primeiro elemento de um conjugado copulativo, em que predomina formalmente, portanto, 
o segundo qualificativo separados.

H a inteno de provocar a perplexidade a posteriori do leitor, cuja ateno desliza at separados e, depois de aceitar essa ideia self-evident, h de retornar, sem querer, 
para o paradoxal adjetivo mortos, que o antecede. Mortos, por qu? Assim concentrado num novo conceito, que obviamente tem de intrig-lo, est ele preparado para receber 
o impacto de pensamento final, introduzido ao ltimo terceto por um que de valor causal.

Temos, assim,  no um desdobramento que regularmente vai ascendendo para uma ideia pice , mas um primeiro pensamento concluso (a evocao da felicidade perdida e a lembrana 
perene da mulher amada), um segundo que o ilustra numa concretizao simblica, e, saindo de um elemento a lanado quase ao acaso, um pensamento final, que transfigura o 
poema e lhe d a substncia definitiva.

 nesta forma interna e no seu contraste com o plano natural de um soneto, que me parece estar, estilisticamente, a significao da pequena joia potica que acabamos de rapidamente 
apreciar.

Joaquim Mattoso Cmara Jr. (Revista
 do Livro, no. 5, p. 71-73)

179 J. Mattoso Cmara Jr., Noes de Estilstica in Littera, n. 2, 91.

180 Matria y Forma en Poesia, 103-104.

181 No artigo citado.

182 Le Langage et la Vie, 100.

183 Mrio Barreto, Novos Estudos da Lngua Portuguesa. Rio, 1921; p. 364.

184 Obras Poticas de Bocage, ed. Tavares Cardoso e Irmo. Lisboa 1902, vol. I, 234.

185 Sobre o soneto na literatura inglesa, consultar Enid Hammer, The Meters of English Poetry, London, 1954; p. 186 ss.

186 Antnio Nobre, S, 3.a. ed. (Aillaud e Bertrand)., 1913, p. 120.

V  Noes Elementares de Versificao

V  Noes Elementares de Versificao

La mtrique est une science, mais cest aussi un art.
 Le mtricien doit connatre la technique du vers, mais
 il doit aussi tre un homme de bon sens, avoir de la finesse
 et du got (G. Millardet, Romania, 43, 1914, p. 260).

Poesia e prosa

Poesia e prosa  Em sentido formal, chama-se poesia  forma de expresso ordenada segundo certas regras e dividida em unidades rtmicas.

Prosa, Verso, Ritmo, Metro

Prosa  a forma de expresso continuada. Embora a prosa tambm possa ter ritmo, aqui ele  menos rigoroso que na poesia.

Verso  o conjunto de palavras que formam, dentro de qualquer nmero de slabas, uma unidade fnica sujeita a um determinado ritmo.

Ritmo  a diviso do tempo em perodo uniformes mediante os apoios sucessivos da intensidade.

Metro  o verso que, alm de atender ao ritmo, se apresenta dentro de uma norma regular de medida silbica.

O ritmo, comum ao verso e ao metro, no se manifesta de maneira uniforme; por isso produz efeitos diferentes conforme a disposio das clusulas silbicas que constituem o 
perodo rtmico do verso.

Por sua vez, um mesmo metro pode apresentar-se sob vrias modalidades rtmicas.

Pode-se mudar de ritmo sem alterar o metro ou o verso, como se pode mudar de metro ou verso sem alterar o ritmo.

Como ensina Navarro Toms, o ritmo nasce da disposio acentual, o verso depende da ao do ritmo, e o metro obedece justamente ao ritmo e  medida silbica.

Alm do ritmo acentual, outros recursos suplementares contribuem para dar ao verso as qualidades de sua fisionomia e de colorido; so recursos fnicos, morfolgicos e semnticos. 
Alm da rima e da estrofe, figuram, entre outros, a harmonia voclica, a aliterao de consoantes, o paralelismo, a anfora, a ordem das palavras ou a valorizao semntica 
de uma palavra ou expresso.

Por melhor que seja o verso, perder muito de seu valor se proferido por um leitor  e at mesmo pelo seu autor - que no saiba pr em evidncia as caractersticas de sua 
estrutura rtmica, mtrica e de seus apoios fnicos.

Pausa final. Cavalgamento

Pausa final. Cavalgamento  Na leitura de um poema, marca-se o final de cada verso ou final de cada unidade de verso composto (hemistquio) com uma pausa, a chamada pausa 
mtrica. Esta pausa mtrica no passa de uma pequena interrupo, que no chega a confundir com a pausa mais demorada, resultante da entoao da orao, marcada em geral por 
vrgula ou outro sinal de pontuao.

No levar na devida conta a pausa mtrica, alm de atentar contra o ritmo, pode converter o verso em falsa prosa.

A pausa mtrica  transferida para a primeira slaba tnica do verso seguinte, quando a unidade sinttica excede o limite de um verso e, para completar-se, cavalga ou monta 
no verso a seguir, patenteando, assim, um desacordo entre a unidade sinttica e a unidade mtrica. Este fenmeno  conhecido pela denominao francesa enjambement, que se 
pode traduzir, como fez Said Ali, por cavalgamento. Tambm se usa o termo encavalgamento:

Sonho profundo,  Sonho doloroso,

Doloroso e profundo Sentimento!

Vai, vai nas harpas trmulas do vento

Chorar o teu mistrio tenebroso [CS.1, II, 63].

Versificao

Versificao   a tcnica de fazer versos ou de estudar-lhes os expedientes rtmicos de que se constituem.

No se h de confundir versificao com poesia. A poesia  um dom: nasce-se poeta. A versificao  uma arte: torna-se um versejador. Grandes poetas, como Vigny, foram medocres 
versejadores. Hbeis versejadores, como Teodoro de Banville, no podem jamais ser chamados poetas [BH.1, 431].

O ritmo potico

O ritmo potico, que na essncia no difere das outras modalidades de ritmo, se caracteriza pela repetio. O ritmo consiste na diviso perceptvel do tempo e do espao em 
intervalos iguais. Quando a poesia se constitui de unidades rtmicas iguais, diz-se que a versificao  regular; quando isto no ocorre, a versificao  irregular ou livre.

O ritmo potico utiliza recursos que nem sempre so coincidentes de idioma para idioma.

Entre ns, por exemplo, no figura a quantidade que  o alicerce da versificao latina ou grega. A rima, por outro lado, que hoje nos  to familiar e querida, no constitua 
pea essencial da poesia at a Idade Mdia latina.

Em portugus o ritmo potico  assegurado pela utilizao dos seguintes expedientes que se podem combinar de maneira variadssima:

1) nmero fixo de slabas;

2) distribuio das slabas fortes (ou tnicas) e fracas (ou tonas);

3) cesura;

4) rima;

5) aliterao;

6) encadeamento;

7) paralelismo.

O nmero fixo de slabas coordenado com a distribuio das slabas fortes e fracas constitui um metro potico e o seu estudo recebe o nome de mtrica.

1  Nmero Fixo de Slabas

1  Nmero Fixo de Slabas

Como se contam as slabas de um verso

Como se contam as slabas de um verso  Na recitao a contagem das slabas se processa diferentemente da anlise gramatical; nesta se atenta para a sua representao na escrita 
enquanto naquela se busca a realidade auditiva. No verso:

 toda um hino:  esperana! [CA.1, 97]

H sete slabas para o poeta (este s conta at a ltima tnica) e dez slabas para o gramtico; aquele no profere o a final de toda, liga a consoante d a um, omite o o final 
de hino e junta o n  slaba inicial de esperana:

 / to / d(a)um / hi / n(o):  es / pe / ran / a

1    2       3        4         5          6       7

S se conta at a ltima slaba tnica: verso agudos, graves e esdrxulos  Uma das orientaes que distinguem a contagem das slabas entre o poeta e o gramtico,  que o 
primeiro, de acordo com orientao revivida (foi iniciada por Couto Guerreiro, no sculo XVIII) 187 por Antnio Feliciano de Castilho, no sculo XIX, s leva em conta at 
a ltima slaba tnica, desprezando a tona ou as tonas finais. Da a diviso dos versos em agudos, graves ou esdrxulos, conforme terminarem, respectivamente, por vocbulos 
oxtonos, paroxtonos, ou proparoxtonos, como nos seguintes versos, todos de dez slabas:

O padre no falou  mostrou-lhe o cu! [CA.1, 137]           Agudo

Eu vi-a lacrimosa sobre as pedras. [CA.1, 106]                   Grave

Esttua da aflio aos ps dum tmulo! [CA.1, 106]            Esdrxulo

Neste livro indicaremos a slaba mtrica pelo smbolo ; quando for tnica poremos nele um acento tnico: .188

Fenmenos fonticos correntes na leitura dos versos

Fenmenos fonticos correntes na leitura dos versos  Na leitura dos versos, proferimos as palavras com as junes e as pausas que o falar de todos os momentos conhece; por 
exagero, entretanto, tais fenmenos fonticos costumam ser explicados como exigncia da tcnica versificatria.

Estes fenmenos so: 1) sinrese; 2) direse; 3) eliso; 4) crase; 5) ectlipse; e podem ocorrer uns dentro do mesmo vocbulo (intraverbais ou internos) e outros pela juno 
de dois vocbulos (interverbais ou externos).

Sinrese

Sinrese ou ditongao  a juno de vogais contnuas numa s slaba em virtude de uma das vogais passar a semivogal, no interior da palavra.

Na lngua portuguesa moderna, especialmente no Brasil,  normal a sinrese interna: a) nos grupos voclicos tonos no finais, de segunda vogal, alta, correspondente em vocbulo 
derivado ou composto  vogal tnica do primitivo (ex.: traidor, de trair) ou  vogal inicial de uma das formas mnimas componentes (ex.: vaidade, rad. va-, suf. -idade), sendo 
que, fora dessas duas condies, se tem a um ditongo sistemtico (ex.: lei-tu-ra, cau-te-la, etc.); b) nos grupos voclicos tonos no finais, de primeira vogal alta (ex.: 
piedade, suavidade); c) nos grupos voclicos tonos finais, de primeira vogal tona (ex.: glria, scua, srie, tnue), sendo que no h primeira vogal mdia nesses grupos 
(cf. nveo/nviu/mgoa/mgua). A inteno estilstica ou a mtrica, no verso, criam frequentemente direse nos dois primeiros casos [MC.4, 221].

Direse

Direse  a dissoluo de um ditongo em hiato no interior da palavra.

A direse, que  sempre interna,  fenmeno hoje raro em poesia, geralmente usado apenas para certos fins expressivos ou como expediente para dar ao verso o nmero de slabas 
exigidas:

Pe / sa / -me es / ta / bri / lhan / te au / r / o / la / de / nu / me... [MA].

  1    2          3      4     5       6        7      8   9   10   11   12

O movimento lento, proferindo aurola (au-r-o-la) como vocbulo de quatro slabas, parece emprestar  situao o colosso do tamanho que tem o sol, em relao  simplicidade 
do vaga-lume.

s vezes costuma-se indicar a direse pondo-se trema no i ou u: vadade (va-i-da-de), saudade (sa-u-da-de).189

Sinalefa

Sinalefa,  a perda de autonomia de uma vogal para tornar-se semivogal e, assim, constituir um ditongo com a vogal seguinte:

Eliso

Eliso  o desaparecimento de uma vogal quando pronunciada junto de outra vogal diferente:

A pronncia rpida dos portugueses leva mais frequentemente  realizao de elises do que a pronncia mais lenta dos brasileiros. Nem sempre, como no exemplo acima, a eliso 
 indicada graficamente:

Mas se foroso t deixar a ptria [CA.1, 125].

Note-se tambm que a eliso pode abarcar mais de duas vogais.

Crase

Crase  a fuso de dois ou mais sons iguais num s:

Ectlipse

Ectlipse  a supresso da ressonncia nasal de uma vogal final de vocbulo para facilitar a sinrese ou a crase com a vogal contgua.190

Ocorre com mais frequncia a ectlipse no final -em e na preposio com. Neste ltimo caso,  comum ser indicada por apstrofo, porque, a rigor, a ectlipse no passa de uma 
eliso considerada a palavra no seu sentido mais geral (o Vocabulrio Oficial recomenda no usar apstrofo: coa, coas, co, cos):

Coas tranas presas na fita,
 Coas flores no sambur [CA.1, 116].

 preciso insistir, mais uma vez, que os fenmenos fonticos aqui estudados s na mo do versejador so frios recursos de aumento ou diminuio de slabas para atender s 
exigncias da tcnica versificatria; na mo do verdadeiro poeta constituem intencionais e vigorosos elementos do quadro que o artista deseja pr diante de nossos olhos. O 
ritmo que devemos imprimir ao verso, acelerado aqui, com pausas acol,  uma como harmonia imitativa das ideias que o poeta nos quer transmitir.

O ritmo e a pontuao do verso

O ritmo e a pontuao do verso  J acentuamos que nem sempre a unidade de sentido do poema coincide com os limites de sua linha, o que nos mostra o erro daqueles que leem 
verso fazendo longa pausa no fim de cada um deles.191 Esta longa pausa s  lcita quando a unidade sinttica o exigir ou permitir:

Meus Amigos, Adeus  Verei fulgindo

A lua em campo azul, e o sol no ocaso

Tingir de fogo a implacidez das guas;

Verei hrridas trevas lento e lento

Descerem, como um crepe funerrio

Em negro esquife, onde repoisa a morte [GD.3, I, 213].

s vezes se podem ligar fonemas de palavras separadas por algum sinal de pontuao ou, ao contrrio, pode haver uma pausa sem que seja indicada por sinal grfico adequado, 
como nestes versos de dez slabas:

E eu, fitando-a, abenoava a vida [CA.1, 279], lido:

E / eu / fi / tan / do-a a / ben / o / a / va a / vi / da

1    2    3     4        5          6     7    8      9     10

Ama-se a vida  a mocidade  crena [CA.1, 144].

Expedientes mais raros na contagem das slabas

Expedientes mais raros na contagem das slabas  Ao lado dos casos at aqui apontados, h outros de menos incidncia, mas que merecem nossa ateno. Lembraremos os trs seguintes:

a) o movimento rtmico de um verso pode estar sob a influncia do verso anterior ou do seguinte, fazendo com que a vogal ou slaba inicial de um verso fique incorporada no 
verso precedente; isto vem explicar a exatido mtrica de alguns versos aparentemente errados por se apresentarem mais curtos do que deviam:

Chorar a virgem formosa
 Morta na flor dos anos [CA.1, 83], que ser lido:

Cho / rar / a / vir / gem / for / mo /

  1      2      3     4       5       6      7

sa / mor / ta na / flor / dos / a / nos

  1     2        3         4         5     6     7

b) o silncio ou pausa mais forte valendo como slaba:

s vezes, oh, sim, / derramam to fraco [GD.3, I, 68].

O cu era azul, / to meigo e to brando [GD.3, I, 45].

so versos de onze slabas aos quais a pausa intencional do poeta (indicada aqui por /) vale por uma slaba mtrica.

c) a dissoluo de um encontro consonntico pela intercalao de uma vogal (/ i / ou / e /), no indicada na escrita, fazendo da primeira consoante uma slaba  parte, o que 
revela uma tendncia da pronncia brasileira corrente:

Ningum mais observa o tratado [GD.2]  observa deve ser lido com quatro slabas.

Contudo os olhos dignbil pranto [GD.1]  ignbil deve ser lido tambm com quatro slabas.

2  Nmero Fixo de Slabas e Pausas

2  Nmero Fixo de Slabas e Pausas

O nmero fixo de slabas e pausas  o principal dos apoios rtmicos do verso. O poeta tem a liberdade de no ficar, em todo o poema, preso ao mesmo metro. No poema de Gonalves 
Dias, intitulado Minha Vida e Meus Amores, ocorre uma mudana de metro muito interessante. O poeta vinha versejando em decasslabos acentuados na sexta slaba ou na quarta 
e oitava:

Outra vez que l fui, que a vi, que a medo

Terna voz lhe escutei:  sonhei contigo! 

Inefvel prazer banhou meu peito,

Senti delcias; mas a ss comigo

Pensei  talvez!  e j no pude cr-lo.

De sbito, nos versos 67 e 68 faz cair as pausas na quarta e stima slaba, aproximando o ritmo decasslabo do ritmo de onze slabas, que vai aparecer nos versos 70 e 71:

Ela to meiga e to cheia de encantos,

Ela to nova, to pura e to bela...

      Amar-me!  Eu que sou?

Meus olhos enxergam, enquanto duvida

Minhalma sem crena, de fora exaurida,

J farta da vida,

Que amor no doirou. [MB.1, II, 127].

Na poesia A Tempestade, Gonalves Dias varia a medida de estrofe; a estrofe comeando por duas slabas at chegar a onze, quando retorna num movimento decrescente at voltar 
ao de duas slabas. Com isto o poeta quis-nos indicar mais vivamente a aproximao gradativa da tempestade, cuja maior fria estoura na dcima estrofe, para depois afastar-se 
pouco a pouco [Manuel Bandeira, editor das Obras de Gonalves Dias, II, 235].

Os versos em portugus variam, em geral, de uma a doze slabas, sendo raros os que ultrapassam este nmero. Para sua designao empregam-se os nomes gregos denotativos de 
nmero prefixados ao elemento -slabo: mono- (um s), dis- (dois), tri- (trs), tetra- (quatro), penta- (cinco), hexa- (seis), hepta- (sete), octo- (oito), enea- (nove), deca- 
(dez), hendeca- (onze), dodeca- (doze): monosslabo, disslabo, trisslabo, tetrasslabo (tambm chamado quadrisslabo), pentasslabo (tambm dito redondilha menor), hexasslabo, 
heptasslabo (tambm dito redondilha maior ou s redondilha), octosslabo, eneasslabo, decasslabo (tambm chamado herico), hendecasslabo (tambm chamado de arte maior) 
e dodecasslabo (ou tambm alexandrino), nome tirado das numerosas composies medievais que cantavam os feitos do guerreiro Alexandre, mormente o Poema de Alexandre, composto 
no sculo XII, por Alexandre de Bernay e Lambert Licor.

Cesura

Cesura  Os versos longos, de ordinrio a partir dos de dez slabas, apresentam uma pausa interna, chamada cesura, para ressaltar o movimento rtmico, dividindo o verso em 
duas partes, nem sempre iguais, conhecidas pelo nome de hemistquios. A cesura pode ser uma pausa menor (no indicada por sinal de pontuao), ou mais acentuada (indicada 
na escrita por sinal de pontuao).

Como assinala Navarro Toms, em qualquer ponto do verso pode ocorrer uma interrupo requerida pela sintaxe ou pela necessidade de destacar o significado de uma palavra. 
Estas paradas ocasionais no tm a funo mtrica da cesura ou da pausa [NT.1, 28].

Versos de uma a doze slabas

Versos de uma a doze slabas  Os versos de uma, duas e trs slabas s tm uma slaba forte:

a) Monosslabos (rarssimos):

quebra

 queima

    reina

        dana

sangue

gosma... [MAn apud MB.3, 3242].

b) Disslabos:

Um raio

 Fulgura

 No espao

 Esparso

 De luz [GD.4, 229].

c) Trisslabos:

Vem a aurora

 Pressurosa,

 Cor-de-rosa,

 Que se cora

 De carmim [GD.4, 229].

d) Tetrasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

e) Pentasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

f) Hexasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

g) Heptasslabos  so os versos mais usados e populares em portugus e apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

h) Octosslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

i) Eneasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

j) Decasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

k) Hendecasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

l) Dodecasslabos  apresentam os seguintes movimentos rtmicos principais:

A lei orgnica do alexandrino pode ser expressa em dois artigos: 1.) quando a ltima palavra do primeiro verso de seis slabas  grave (1. hemistquio), a primeira palavra 
do segundo deve comear por uma vogal ou por um h; 2.) a ltima palavra do primeiro verso nunca pode ser esdrxula. Claro est que, quando a ltima palavra do primeiro verso 
 aguda, a primeira do segundo pode indiferentemente comear por qualquer letra, vogal ou consoante.

Alguns poetas modernos, desprezando essa regra essencial, tm abolido a tirania da censura. Mas o alexandrino clssico, o verdadeiro, o legtimo,  o que obedece a esses preceitos.192

3  Rima: Perfeita e Imperfeita 193

Rima: Perfeita e Imperfeita

Chama-se rima a igualdade ou semelhana de sons pertencentes ao fim das palavras, a partir da sua ltima vogal tnica.

As palavras em rima podem estar no fim (rima final, a mais usual) ou no interior do verso (rima interna), podendo, neste ltimo caso, uma das palavras ocupar a posio final.

Interna  a rima que se faz com a ltima palavra de um verso e uma palavra no interior do verso seguinte. Em Aventura Meridiana (Os Amores de P. Ovdio Naso, 63 e ss.), A. 
F. de Castilho, compondo quartetos de versos alternados, de 12 e 6 slabas, rima o 1. verso com a 2.a slaba do 2.; o 2. com o 4.; o 3. com a 2.a slaba do 4.; finalmente 
variando o verso ora grave, ora agudo:

Era na estiva quadra! Intenso meio-dia

      Pedia um respirar;

No meio do meu peito

Me deito a descansar.

Janela entreaberta, esquiva ao sol fogoso,   

      Repouso ali mantm;

Luz como a de espessura

Escura ao quarto vem.

A rima pode ser perfeita (ou com homofonia) ou imperfeita (ou com semi-homofonia). Diz-se perfeita quando  completa a identidade dos fonemas finais, a partir da ltima vogal 
tnica:

s engraada e formosa

      Como a rosa,

Como a rosa em ms dabril;

s como a nuvem doirada

      Deslizada,

Deslizada em cus danil (G. Dias, Obras, 59).

Na rima perfeita, pode haver ainda identidade da(s) consoante(s) anterior(es)  vogal tnica. Para os versos ingls e alemo o fato constitui falta grave.

Diz-se imperfeita aquela em que a identidade de fonemas finais no  completa, insistindo-se apenas naqueles fonemas que se diferenciam fundamentalmente dos demais [CCh.2, 
200]. Ocorre a rima imperfeita quando:

a) se rima uma vogal de timbre semiaberto com outra de timbre semifechado:

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:

 Quem me dera que fosse aquela loura estrela,

Que arde no eterno azul, como eterna vela!

Mas a estrela, fitando a lua, com cime. (M. de Assis).

b) um dos finais tem um som que o outro no tem:

Nessa vertigem

Amara a virgem (C. de Abreu, Obras, 194).

Muitas vezes, a perfeio ou imperfeio da rima  relativa, conforme a pronncia padro. No Brasil, por exemplo, constituem rimas perfeitas as que se fazem entre certas vogais 
e ditongos (desejos com beijos; luz com azuis; atroz com heris; vs com mes; espirais com Satans; bondoso com repouso). Em Portugal  perfeita a rima entre me e tambm 
(ou tem, etc.), prtica que, por imitao literria, ocorre entre alguns de nossos poetas romnticos.

c) se rima uma vogal oral com uma vogal nasal:

De que ele, o sol, inunda

O mar, quando se pe,

Imagem moribunda

De um corao que foi [JD apud CCh.1, 694].

d) se rimam vocbulos com s identidade das vogais tnicas (rima toante ou assonante).

Rimas consoantes e toantes  A rima se diz consoante quando  perfeita, isto , tem os mesmos fonemas a partir da ltima vogal tnica do verso: vaga-lume / cime.

Toante (tambm assonante, de assonncia)  a rima imperfeita, em que h apenas identidade nas vogais tnicas:

calma / cada;    terra / pedra.

Disposio das rimas  Quanto  maneira por que se dispem nos versos, as rimas podem ser emparelhadas, alternadas (ou cruzadas), opostas (ou entrelaadas ou enlaadas), interpoladas 
e misturadas.

Cada rima de uma estrofe  designada por uma letra maiscula ou minscula do alfabeto, de modo que a sucesso de letras indica a sucesso das rimas. Assim no exemplo:

Moos, quero, entre vs, falar  nossa terra...

Somos sua esperana e o seu ltimo amparo;

Em nosso corpo e em nosso esprito se encerra

O que ela agora tem de mais certo e mais caro [JO.2, 159].

A distribuio das rimas  representada pelo esquema abab (ou abab) onde a indica a rima -erra (terra / encerra) e b a rima -aro (amparo / caro).

Emparelhadas so as que se sucedem duas a duas (o esquema  aabbcc, etc.):

Numa vida anterior, fui um xeque macilento

E pobre... Eu galopava, o albornoz solto ao vento,

Na soalheira candente; e, heri de vida obscura,

Possua tudo: o espao, um cavalo, e a bravura [OB.1].

Alternadas (ou cruzadas) so as que, num grupo de quatro versos, se alteram, fazendo que o 1. verso rime com o 3. (e os demais mpares) e o 2. com o 4. (e os demais pares). 
Correspondem ao esquema abab:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo

Perdeste o senso! E eu vos direi, no entanto,

Que, para ouvi-las, muita vez desperto

E abro as janelas, plido de espanto... [OB.1].

Opostas (ou entrelaas ou enlaadas) so as que se verificam em dois versos entre os quais medeiam dois outros tambm rimados.

Correspondem ao esquema abba:

Vai-se a primeira pomba despertada.

Vai-se outra mais... Mais outra... E enfim dezenas

De pombas vo-se dos pombais apenas

Raia, sangunea e fresca, a madrugada [R. Correia].

Interpoladas so aquelas em que, num grupo de seis versos, o terceiro rima com o sexto, enquanto o primeiro rima com o segundo, e o quarto com o quinto. Correspondem ao esquema 
aabccb:

Eu nasci alm dos mares

      Os meus lares,

Meus amores ficam l!

    Onde canta nos retiros

      Seus suspiros,

Seus suspiros o sabi! (C. de Abreu).

Misturadas so aquelas em que a distribuio  livre. As rimas misturadas, para lograrem xito, requerem constncia, vivacidade e sonoridade:

 meia-noite... e rugindo

Passa triste a ventania,

Como um verbo da desgraa,

Como um grito de agonia.

E eu digo ao vento que passa

Por meus cabelos fugaz:

Vento frio do deserto,

Onde ela est? Longe ou perto?

Mas, como um hlito incerto,

Responde-me o eco ao longe.

Oh! Minhamante, onde ests?... [C. Alves].

4  Aliterao

Aliterao

Aliterao   o apoio rtmico que consiste em repetir fonemas em palavras simetricamente dispostas. A aliterao nasce, em geral, de desejo de harmonia imitativa.

A juruti suspira sobre as folhas secas [C. de Abreu].

 a perda dura dum futuro inteiro [Id.].

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volpias dos violes, vozes veladas,

Vagam nos velhos vrtices velozes

Dos ventos, vivas, vs, vulcanizadas [Cruz e Sousa].

5  Encadeamento

Encadeamento

Encadeamento  Consiste na repetio simetricamente disposta de fonemas, palavras, expresses ou um verso inteiro.

Foi recurso rtmico muitssimo usado na poesia medieval e  frequente na poesia moderna em versos livres. Exemplos colhidos em Augusto Frederico Schmidt:

No entanto este motivo escolhido existe.

No vejo, esta tristeza, da saudade da que  sempre a Ausente

Nem da sua graa desaparecida... (repetio de fonema)

Pensei em mortos que morreram entre indiferentes.

Pensei nas velhas mulheres... (repetio de palavra)

No princpio foi um balano contnuo e vagaroso,

Depois foi descendo uma sombra indistinta,

Um grande leito surgiu e lenis brancos como espuma

...........................................................................................

No princpio foi um balano contnuo e vagaroso (repetio de verso).

6  Paralelismo

Paralelismo

Paralelismo   a repetio de ideias mediante expresses aproximadas:

O monstrengo que est no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

 roda da nau voou trs vezes,

Voou trs vezes a chiar,

E disse: Quem  que ousou entrar

Nas minhas cavernas que no desvendo,

Meus tetos negros do fim do mundo?

E o homem do leme disse, tremendo:

El-Rei Dom Joo Segundo!

De quem so as velas onde me roo?

De quem as quilhas que vejo e ouo?

Disse o monstrengo, e rodou trs vezes,

Trs vezes rodou imundo e grosso:

Quem vem poder o que eu s posso,

Que moro onde nunca ningum me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?

E o homem do leme tremeu, e disse:

El-Rei Dom Joo Segundo! (F. Pessoa).

7  Estrofao

Estrofao

O poema pode conter dois ou mais versos os quais se agrupam para formar uma estrofe.

O costume tradicional  iniciar cada verso com letra maiscula, qualquer que seja a sua relao sinttica. Pode-se, entretanto, pr, no incio, letra minscula, conforme a 
sua relao sinttica com o verso precedente.

As estrofes podem ser simples, compostas e livres.

Simples so as estrofes formadas de versos com a mesma medida.

Compostas so as que encerram versos de diferentes medidas.

Livres so as que admitem versos de qualquer medida.

As estrofes de dois, trs, quatro, cinco, seis, oito e dez versos recebem, respectivamente, os seguintes nomes especiais: dsticos, tercetos, quadras (ou quartetos), quintilhas, 
sextilhas, oitavas e dcimas. As estrofes de sete e nove versos no tm nome especial.

8  Verso de ritmo livre

Verso de ritmo livre

O que chamamos impropriamente versos livres  uma srie irregular de versos que tomados em separado so regulares [BH.1, 427].

O verso de ritmo livre no tem nmero regular de slabas, versos e estrofes, nem so uniformes e coincidentes o nmero e a distribuio das slabas tonas e tnicas responsveis 
pelo movimento rtmico.

O verso de ritmo livre exige do poeta uma realizao to completa quanto o verso regular.  primeira vista, parece mais fcil de fazer do que o verso metrificado. Mas  engano. 
Basta dizer que no verso livre o poeta tem de criar o seu ritmo sem auxlio de fora.  como o sujeito que solto no recesso da floresta deva achar o seu caminho e sem bssola, 
sem vozes que de longe o orientem, sem os grozinhos de feijo da histria de Joo e Maria. Sem dvida no custa nada escrever um trecho de prosa e depois distribu-lo em 
linhas irregulares, obedecendo to somente s pausas do pensamento. Mas isso nunca foi verso livre... O modernismo teve isso de catastrfico: trazendo para a nossa lngua 
o verso livre, deu a todo o mundo a iluso de que uma srie de linhas desiguais  poema [MB.1, II, 1282].

9  Recitao

Recitao

A recitao do verso, alm dos requisitos exigidos para a da prosa, exige uma gesticulao adequada, sem exageros, um jogo fisionmico apropriado e que o recitalista no 
faa sentir demais a rima nem a cesura. No caso dos versos livres modernos  preciso descobrir o ritmo e a inteno que o poeta lhes quis dar [AN.1, V, 108].

187  interessante observar que Guerreiro optou pela contagem do verso at a ltima slaba tnica por amor  brevidade, como declara, para evitar a frequente repetio de 
agudo, grave e esdrxulo, j que a ltima slaba tnica basta para o verso ser constante (Tratado de Versificao Portuguesa, Lisboa, 1784, p. 6).  semelhana dos italianos 
e espanhis, a contagem antiga dos versos portugueses levava sempre em conta a existncia de slaba tona depois da ltima tnica (a base era o verso grave).

188 O emprego antigo e ainda corrente do mcron (  ) para as tnicas e da braquia ( ? ) para as tonas pode confundir os conceitos de quantidade e intensidade.

189 O novo sistema ortogrfico proposto no agasalha este emprego do trema.

190 Sem isso, a sinrese, ou a crase,  anmala, porque a ressonncia nasal corresponde a um travamento da slaba e s as slabas terminadas por vogal so propriamente livres 
e se prestam  crase ou sinrese [MC.4, 103].

191 (...) na leitura da poesia em que (pondo de parte o encavalgamento) o final de verso correspondente a uma clusula (e, significativamente, a um sintagma), no  muitas 
vezes marcado por um silncio, mas por algo como a combinao de uma descida de tom com um ntido prolongamento da ltima slaba tnica [HCv.2, II, 464 n. 33].

192 O. Bilac - G. Passos, Tratado de Versificao, 68-69.

193 Os versos que no rimam chamam-se soltos ou brancos.

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Este livro foi impresso no Rio de Janeiro, em novembro de 2009,

pela Ediouro Grfica, para a Editora Nova Fronteira.

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